Este ano você parece mais magro | Olga Purim a Reynaldo Purim

5-2-19

Escripto em letto
[Nota em português no original]

Querido Reinold!

Primeiramente queira receber sinceras lembranças de todos de casa. Estou escrevendo apesar de não ter recebido cartas suas há algum tempo. A última foi em 14-12-18 e este ano não recebi nenhuma. Eu mandei uma longa carta em 14 de dezembro, um cartão postal em 18 de dezembro, uma longa carta em 9 de janeiro e em 19 de janeiro novamente outra carta. Recebeste todas?

No dia 22 de janeiro recebi o prospecto [do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil — Rio de Janeiro] e ele estava só e sem endereço. A senhora do Correio encontrou no fundo da mala postal; na hora em que estava separando as correspondências encontrou a etiqueta e aí pôde saber a quem pertencia.

Também no dia 22 de janeiro recebi a fotografia dos seminaristas. O envelope estava aberto; se tinha mais coisas dentro, devem ter se perdido. Gostaria que você mandasse a lista dos nomes dos teus colegas e indicasse quem são os teus mais amigos para eu saber quem é quem. Aquele teu amigo sueco aparece na fotografia?

Este ano você parece mais magro do que no ano passado, e também parece que está zangado. O prospecto este ano está muito maior e mais bonito que o dos anos anteriores. Pode-se ver claramente as fotos com a do Inkis e sua famosa Delfina. Você está naquela fotografia grande que foi tirada na frente do prédio da escola? Eu achei uma pessoa parecida no lado direito, quase perto do grande pilar.

O que você está fazendo agora? Você não está precisando de meias? Você ainda tem roupas para usar ou já estão gastas? Agora você vai ter que viver como um grão-fino, ou não?

Nós agora graças a Deus estamos bem, todos com saúde e podemos todos trabalhar novamente. Como já escrevi em outra carta aquele “espanhol” [NOTA: Gripe espanhola] se instalou lá em casa, mas agora já foi embora e nem todos fomos muito afetados. Quem ficou mais tempo de cama foi o Paps que ficou uma semana inteira.

Trabalho, como sempre, temos demais. Agora estamos plantando feijão e já plantamos na roça perto da ponte três quartas. Temos ainda milho para capinar e com esse tempo chuvoso o mato você capina e ele volta a crescer.

Logo após o Ano Novo o tempo estava seco e o milho que estava pendoando ficava amarelo e quase torrado. Mas ainda bem que essa seca não durou muito: logo começou a chover e voltou tudo a ficar verde.

No domingo dia 19 de janeiro fomos fazer uma visita aos Klavim. O tempo estava bom e nem estava quente demais, mas perto do anoitecer começou a roncar trovoada e em seguida deu uma chuva forte, mas não durou muito. Aproveitamos e saímos rápido em direção de casa, e ainda para o lado da serras continuava relampejando e trovejando muito. Logo que subimos o morro dos Slengmann começou um temporal e assim tomamos um banho que há tempo não tínhamos tomado. A chuva continuou até depois de chegarmos em casa.

Tempestades no mês passado tivemos três. No dia 20 de janeiro tivemos uma grande tempestade com vento, chuva e granizo. Aqui não foi tão forte, mas lá na parte de baixo do Rio Novo, em Orleans e no Rio Bello, destruiu muitas plantações. No dia 25 de janeiro logo no começo da tarde veio um temporal com vento do lado norte, do morro do Augge com um vento tão forte que o telhado do paiol não aguentou a quantidade da chuva e deixou tudo encharcado, não deixando nada seco.

[NOTA DE V. A. Purim: “Augge” era o Augusto Felberg. Faz-se necessário esclarecer que os terrenos originalmente vendidos pela Cia. Colonizadora faziam frente para o curso d’água, que no caso era o Rio Novo. O terreno vizinho do lado NO/ND era onde morava o Augge, mas antes disso tinha sido do Simons, casado com uma irmã do famoso Julio Malvess. Este senhor Simon vendeu uma área de terra para os Purim na banda leste do Rio Novo, onde foi feita a casa em que eu nasci. Mais tarde este Simons veio a falecer sem deixar filhos e foi sepultado no próprio terreno dele. Existe uma lenda de que a viuva Olga Malvess Simons, que tinha muita iniciativa, utilizando argumentos bíblicos exigiu um marido. A proposta teria sido feita diretamente ou através dos pais para um jovem Klavim, que aceitou, tornando-se assim pai de uma muito profícua e abençoada família — que além de serem vizinhos dos Leiman eram, como eles, os grandes amigos da família Purim. Fonte: Verginia Fernandes Purim]

Neste dia o temporal derrubou muito milho de nossas roças, justamente nessas em que temos que plantar o feijão. E mesmo na nova coivara, onde o milho ainda não floresceu, grande parte está no chão. O milho vinha crescendo bem, mas onde a ventania com chuva derrubou não vai dar nada. E ainda, por cima do milho caído estão subindo os baraços das abóboras, que este ano estão crescendo como nunca. O milho novo que ainda não floresceu ainda está em pé, e se não vier alguma outra tempestade, tudo bem…

A terceira aconteceu mais para o lado dos Klavin, onde as primeiras não tinham atingido. Sempre que dá trovoadas fortes elas vêm acompanhadas com ventanias. Nós agora temos uvas maduras, e se você estivesse aqui poderia fazer como nós, que comemos até não poder mais. Poderia ter ainda mais, mas muitas caíram quando eram pequenas. As melancias começaram a madurar e já comemos algumas, mas ainda a maioria estão verdes. Pepinos este ano temos uma quantidade tão grande que não sabemos o que fazer com eles. Você também consegue uvas, melancias e pepinos para comer?

[falta o final da carta]

Essa doença universal chegou até a nossa casa | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 8 de janeiro de 1919

Querido Reinhold!!

Esta noite te escrevo esta carta e faz tempo que não recebemos notícias suas. – A última carta recebi no dia 14 de dezembro, e tinha sido escrita em 28 de novembro. Neste mesmo dia eu mandei um Cartão Postal. E no dia 19 de dezembro mandei longas cartas do Arthur, da Luzija e minha, todas juntas num só envelope. Você as recebeu? Antes não mandamos nada, pois não sabíamos onde irias passar as férias. Amanhã vou a cavalo até a cidade ver se chegou alguma coisa.

Desta vez não tenho nada de bom para te escrever. Nós estaríamos passando bem se não fosse essa epidemia [de gripe espanhola], essa doença universal, que chegou até a nossa casa. Pode ser que você já tenha esquecido dessa doença, mas foi só agora que ela chegou até aqui.

Faz tempo que esta epidemia estava em Orleans e aqui no Rio Novo também, mas aqui em casa começou com uma dor de cabeça e um cansaço, moleza do corpo. Como o dia estava muito quente, pensei que fosse por causa disso. No outro dia não tinha mais nada, somente um pouco de tosse, e assim a minha doença cedeu com um bom sono. A Luzija teve que ficar deitada no dia do Ano Velho. O Arthur e a Mamma depois do Ano Novo. Nós quase não ficamos acamados, mas somente com muita tosse. Mas com o Papus [“papai”, Jahnis Purens] que sempre aguentou firme enquanto os outros estavam doentes, começou no domingo e ele foi para cama mesmo — e está mais tempo do que nós todo mundo juntos. Hoje parece que está um pouco melhor.

Aqui parece que não teve nenhuma casa onde não houvesse alguém doente. Agora os Klavim e os Leiman estão doentes. Aqui nas colônias não é tão forte, mas lá em Orleans diversos brasileiros já vieram a falecer devido a essa doença; também muitos, depois de passar um bocado difícil, vieram a se recuperar.

Em Orleans foram improvisados dois “hospitais”: um no cinema e outro na casa do Jurk Jakboson. Alguns letos que foram visitar estes lugares disseram que num lugar destes é muito provável que os doentes só possam piorar e dificilmente possam sarar, por não haver a mínima ventilação: as janelas são mantidas todas completamente fechadas e devido a esse fato lá dentro faz mais calor que uma sauna.

Agora aqui o tempo está quente e seco e tudo está secando. Faz mais de uma semana que não chove nada, e antes desta [última] chuva já houvera um período de duas semanas sem chuvas. Aquela chuva molhou até que bem, mais veio um vento forte e levou a chuva embora, bem como toda umidade, e agora está um céu limpo sem sequer a mínima nuvenzinha em qualquer dos lados do horizonte. O vento quente continua castigando e o milho que está começando a pendoar (florescer) está bem amarelado.

Bem, mas preciso descrever as festas. Essas foram muito boas. O tempo estava seco e as estradas boas.

Na Primeira Festa pela manhã teve culto nos Paegles e eu e a Luzija estávamos desde a manhã, pois tínhamos descido até lá a cavalo. Logo depois do almoço chegaram o Roberts, o Augusts e o Wilis Klavim, mais a Isolina, e continuamos a cavalo até o Rio Larangeiras para festejar o Natal com pinheirinho. O pinheirinho foi cortado na propriedade dos Paegles; o Roberto saiu na frente levando a árvore e nós logo atrás, só faltando os alunos da Escola Dominical para parecer uma procissão de Natal.

Quando lá chegamos o sol ainda estava alto, então decoramos o pinheirinho com enfeites e velas. Não era grande. Era menor do que os outros anos, mas depois de enfeitado ficou mais bonito do que os dos outros anos.

O programa foi bastante longo. Todos os hinos, poesias e apresentações eu não teria condições de descrever. Só o Roberts cantou três solos acompanhados de violão: o primeiro com a letra do hino 32 do Cantor Cristão mas a música do hino 24 do “Musu Dsiesma Gramata [Hinário leto] – Seção Ceribas Auseklis”; o segundo foi com a letra do hino 51 mas com a música do “Bernu Kokle” [Hinário leto infantil] e o terceiro foi o de número 303 com uma melodia para mim desconhecida…

[NOTA: Observa-se um esforço para se cantar em linguagem compreensível, mas sem deixar de lado as conhecidas melodias dos hinários letos]

A Isolina e a Margrida fizeram um dueto cantando o hino 193 e se saíram muito bem. Outros hinos que a congregação cantou em conjunto foram os hinos: 210, 60, 448, 438, 323 e depois ainda o clássico “Noite de Paz”com a letra que veio no Jornal Batista no ano passado — se tiver tempo você pode conferir.

Em matéria de música eles lá vão muito melhor [do que antes], pois agora cantam com acompanhamento de instrumentos ou sem eles também. Já estão equilibrados e se sustentam com suas próprias pernas. No Caixa desta Escola Dominical tinha 40$000; quanto foi gasto não foi informado direito. Visitantes não havia tantos quanto os outros anos; uma explicação é que devido à epidemia da gripe diversas pessoas tem evitado ajuntamentos, a outra é que o sacerdote católico está assustando as pessoas que frequentam os cultos e outros trabalhos batistas com a excomunhão.

A volta para casa foi boa; chegamos lá pela uma hora da madrugada.

Agora chega. Outra vez eu escrevo mais. Ainda muitas lembranças no Magrida da Silva e Domingas de Medeiros [frase em português no original] e mui amáveis lembranças do pessoal de casa.

Olga

[Escrito na lateral:]
9-1-19 – Hoje recebi os jornais de 14-12-18. Carta, nenhuma. Vou ter que esperar mais. Sinceras lembranças da Olga.

Pelas ruas catando cadáveres | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 18 de dezembro de 1918

Querido Reinold!!

Recebi no dia 14 de dezembro a tua carta escrita no dia 28 de novembro; muito obrigado por ela. Fazia já bastante tempo que não tínhamos notícias suas, e por isso não sabíamos onde tinhas ficado nas férias. A carta de 18 de novembro foi extraviada, bem como a de 7 de outubro. Naquelas pode ser que tinhas informado onde estavas durante as férias, mas elas não chegaram. Ainda bem que agora já sabemos.

Eu não escrevi nenhuma carta, só mandei um cartão postal no dia 13 de novembro. O cartão postal que você mandou no dia 5 de novembro também recebemos. As cartas provavelmente se perdem, pois diversos navios não foram autorizados a entrar no porto de Laguna por causa de muitos passageiros com a “doença” [gripe espanhola]. Então, não admira que tantas cartas ficaram extraviadas.

Nós estamos todos com saúde. Ninguém de nós pegou essa doença. Aqui no Rio Novo alguns pegaram a gripe e em Orleans alguns já morreram, mas entre os nossos ninguém. Alguns tem tanto medo não saem da sua propriedade para não pegar a doença, mas eu vou freqüentemente a Orleans e não peguei nada.

Semanas atrás os Grikis estavam doentes, mas nada sério. O velho Sommers está muito doente, mas não com a gripe. Então a Luzija mandou papai fazer o caixão. Papai ficou lá nos Grikis o dia inteiro e a gente ficou preocupada pela possibilidade de ele ter pego a doença, mas nada. Bem que haveria de novo.

O Jurgis Karklim voltou para casa na semana passada, mas a grande máquina não foi vista correndo pelo Rio Novo; também luz elétrica não foi vista por aqui.

Ele contou que em Porto Alegre morre gente como moscas e que viaturas andam pelas ruas catando cadáveres — mais de mil por dia, o que impossibilita enterrar todos. Em São Paulo e no Rio também é igual; ele se salvou porque carregava um vidro de creolina junto ao nariz por todo tempo. Mas ele é muito papudo, muito prosa.

Bem, desta vez não tem nada de novo. Agora você poderá escrever bastante porque está de férias. Quanto a nós, não sei quando vamos chegar aos nossos “dias livres”.

Bem, onde você, mora e o que fazes? Quem te faz comida? O Inkis está lá? Este ano ele não foi para Nova Odessa? Em Nova Odessa este ano vai haver uma grandiosa festa de Natal com a inauguração do novo templo da igreja e a nossa igreja também foi convidada para as festas.

E o Jurka, não te escreve? Dizem que ele arrendou uma parte do terreno do Leeknim para plantar algodão. Dizem que o pessoal de Nova Odessa está muito feliz com a guerra porque o algodão está caro, mas eles que não se alegrem demais, pois com o fim vai baixar de novo. Então será como disse o Ernesto Sleengmann: quando baixar e não houver mercado, onde eles vão enfiar todo este algodão? Só se for para tecerem cordas para se enforcarem…

Negociantes de Orleans estão avisando que com os acordos definitivos do fim da guerra, tudo vai ficar mais barato. E os alemães realmente perderam a esta guerra. O que vai fazer o Grünfeldt. que dizem emprestou 100$000 Réis para a Alemanha ganhar a gerra? Pode esperar…

Você pergunta se estamos lendo os jornais. Eu e a Mamãe estamos lendo sim. Você deve renovar a assinatura para o ano que vem e pode mandar direto para o Rio Novo; se continuar assim, você redespachando, então poderia escrever recados pelas beiradas.

Você continua se correspondendo com o Ludi? Você sabe o que o grande “alemão” está fazendo agora?

Bem, agora chega. Vou aguardar uma longa carta. A censura devia parar de abrir as cartas pois a guerra já acabou.

Desejamos uma alegre Festa do Nascimento de Cristo e um Feliz Ano Novo.

Com sinceras saudações,

Olga [Purim]

Não serão acesas as velinhas da árvore de Natal | Arnold Klavin a Reynaldo Purim

Invernada, 10-11-1918

Querido amigo!

Não sei como estás passando. Eu estava planejando, quando viajar para São Paulo, dar um pulo para te visitar no Rio, mas a passagem até lá é muito mais cara do que daqui até Santos. A minha mala com toda herança já estava pronta para a viagem, mas como ouvi dizer dos problemas de viagens e a influenza que grassa por toda parte, achei melhor ficar mais um tempo por aí.

Aqui na Igreja do Rodeio do Assucar a Escola Dominical resolveu que não serão acesas as velinhas da árvore de Natal, por não haver uma paz nem uma harmonia compatíveis com a festa de Natal.

Agora, a Escola Dominical de Rio Laranjeiras está se aprontando a todo vapor para as festas. Eu, se tudo correr bem e não viajar para outro lugar, devo dar um pulo lá nas serras.

Este setembro se apresenta muito chuvoso; muita gente que tem coivaras para queimar não consegue, e elas estão ficando verdes outra vez. O Gludinhs também foi para Nova Odessa. O Juris (Jurka) contratou a limpeza e a colheita do algodoal do sr. W. Leeknim.

Você sabe, se dentre os seminaristas tem alguém doente com a influenza? Estão falando que ela já está em Tubarão, e quanto eu sei não chegou a Orleans. Onde você passou as férias? O Guedes morreu no dia 6 de outubro.

Com muitas lembranças,
Arnold [Klavin]

Os boatos vindos do Rio | Carlos Leimann a Reynaldo Purim

[Cartão postal em português, apresentado na grafia original]

Cachoeiro do Itapemirim, 27/10/18

Prezado Reynaldo! Saudações!

Os boatos por aqui, vindos do Rio, são de atemorizar o mundo. O que há de realidade ahi? A “Hespanhola” já chegou até o Collegio? Está funcionando ainda? Nós fechamos o Collegio ainda que sem motivos de força maior, pois aqui a “tal” não inspira medo, porem o povo está alarmado e é o peior. Qual é o teu destino pelas ferias? Já resolveu? Estou propondo um negocio ao Sr. Reno [NOTA: Loreen Reno, missionário norte-americano naquela região] – Se ele aceitar…? Não sei – porem quero saber alguma cousa de ti — direta e francamente. Escreva de modo expansivo. Seu como sempre,

Carlos Leimann

***

Leia também:
A gripe de 1918

Para os soldados | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 21 de outubro de 1917

Querido Reini,

Envio muitas lembranças. Faz muito tempo que não recebemos cartas suas, a última foi aquela registrada que vai fazer quase um mês. Os jornais temos recebido regularmente e neles as anotações que mencionam as cartas enviadas, mas essas não recebemos. Fico pensando se os curiosos rionovenses não acharam um meio de se apoderar das tuas cartas; quem sabe eles saibam mais de você que nós mesmos.

Você poderia mandar as cartas em nome da senhora Leiman; assim os rionovenses talvez achem que nada de importante venha para uma senhora idosa. Também a caligrafia do endereço tens que mudar. O nome do remetente põe o nome dalgum colega teu. Não sei se no mundo inteiro tem gente tão curiosa quanto aqui…

Hoje tenho muita coisa para escrever, isto é, novidades às dúzias. Nós estamos todos com saúde, apesar de estar grassando uma epidemia de sarampo; só não pegaram aqueles que já tinham tido numa outra vez.

Já faz uns oito dias que o tempo está bom, mas tem chovido com certa freqüência. No dia 12 de outubro queimamos a coivara perto da ponte. Naquele dia estava muito seco. Apesar da derrubada estar muito rebrotada e verde, a queimada foi perfeita, os matos que tinham aparecido desapareceram em cinzas. O fogo não pulou para o mato em nenhum lugar, pois o aceiro foi muito bem feito e no começo não tinha vento; depois surgiu um terrível redemoinho de fogo, mas graças a Deus ficou só no susto.

Na semana passada já plantamos 2 ½ quartas de milho. No total já plantamos oito quartas e alguns litros de semente de milho. Na Bukovina não plantamos nenhum grão, pois a grande coivara não foi queimada. Podíamos ter queimado naquela ocasião, mas não queríamos queimar; no domingo ninguém queria ficar cuidando, pois ali é um lugar muito perigoso para queimadas e o vento sempre é forte na direção das samambaias do terreno da Manin. Naquele dia o Enoz [Nota de V. A. Purim: Ernesto Grüntal, “Enoz”, nosso vizinho, era solteirão, ateu e grande admirador de Hitler; durante a Segunda Guerrra Mundial assinava vários “Zeitung” e sempre nos trazia um suplemento infantil ilustrado que se chamava “Kunterbunt”.] queimou a sua coivara, que faz divisa com a nossa propriedade, e fomos convidados para ajudar. Lá também tinha muita samambaia seca e o fogo chegou a pular, mas graças à rapidez e a determinação do pessoal foi isolada a área e apagado o fogo sem maiores problemas. Se não fosse apagado rápido, o fogo teria ido até não sei onde.

O Augis também queimou a coivara de capoeirão perto do nosso Kasbuck, bem no alto do morro. Mas ele não nos chamou para ajudar, e assim nós não fomos. O fogo passou para a capoeira dele e também no nosso mato queimou um chão de ½ quarta de planta. Eles conseguiram apagar sozinhos. Naquele dia houve tantas queimadas e a fumaça foi tanta que lá pelas quatro da tarde já estava tão escuro devido a poluição que o templo da igreja do Rio Novo não se podia ver daqui de casa. Mas logo começou roncar uma forte trovoada e de noite estava chovendo. Este ano você não teve oportunidade de ajudar nas queimadas nem de engolir fumaça.

Agora estamos levando feijão para vender: tratei 10$000 o saco. Até bem há pouco tempo eles pagavam só 6$000 a 7$000 a saca, agora o povo saiu correndo para vender. Só naquele dia em que fui vender, da manhã até as 10 horas o Pinho tinha comprado 500 sacas de feijão. Agora os italianos fazem caravanas de carros de bois trazendo feijão para a cidade. Agora é proibido entrar na cidade de carro de boi com os eixos chiando; se alguém insistir a multa é de 5$000, e se for reincidente a multa é de 25$000. Então os carros vão chiando de deixar qualquer pessoa doida, mas antes de entrar na cidade os carreteiros entram embaixo dos carros e passam sabão no eixo e entram bonito na cidade.

[Na Igreja do] Rio Novo tem novidade. Se você recebeu o cartão postal que enviei semanas atrás, já estará sabendo que o noivado do “moleirão” do Karp foi anunciado do púlpito no domingo primeiro de outubro. Pois é isso aí. A “L” naquele dia sentiu tonturas na igreja; possivelmente a Senhora Karp a ignorou totalmente, fazendo de conta que nunca a tinha visto.

Naquele mesmo dia teve festa de noivado na casa de “F”, mas “O” não apareceu por lá. Então a festa de casamento também poderá passar sem vinho. E por isso a velhinha e “L” ficaram doentes de preocupação. O casamento, quanto eu soube, vai ser breve.

O Arvido [Karp] faz tempo foi embora, não sei para onde.

No dia 16 de outubro houve a festa de aniversário da União de Mocidade [da Igreja de Rio Novo]: o Jubileu de 20 anos da fundação. Festa tão bonita nunca houvera tal. No dia anterior o tempo estava razoavelmente bom, mas na manhã do dia da festa começou a chover forte e assim continuou o dia inteiro, sem parar nem um pouco.

Eles tinham organizado para ser uma festa grandiosa; só para os bolos e roscas compraram 1 ½ arroba de farinha de trigo. Durante o dia seria a Festa do Jubileu e a noite seria a parte social, mas diante do tempo ruim não deu nada certo. Daqui de cima desceram umas vinte pessoas e em cada canto do templo tinha cinco ou seis visitantes. A festa começou as 10 horas da manhã e lá pelas 5 da tarde as pessoas vinham voltando. Tinham comido todas as iguarias e bebido todo o café e assim — jubileu terminado…

Parece que o Kirils Karkle acertou casamento com a Pauline Andermann em Mãe Luzia1.

E parece que mesmo assim nem todos os jovens do Rio Novo conseguirão se casar. A grande maioria pensa em apressar o casamento tentando não ter que servir o Exército. Agora na porta do Fórum (Casa da Justiça) estão afixados os nomes dos convocados para o sorteio; os que não tiverem sorte terão de enfrentar o rigoroso treinamento. Quando fui a Orleans fiquei olhando demoradamente está lista, que é bastante grande, tem mais de 500 nomes. De nomes conhecidos eu vi os seguintes: Hari e Fredis Stekert, Arthur e Willis Paegle, Oswaldo Auras, Karlis e Jahnis Karkle, Rudis e Jahnis Maisin, Jepis e Antons Netemberg, Oskar Karp e também o Roberto Klavin. Mas o teu nome não está.

Para os soldados a vida é mais ou menos — ou melhor, mais para menos. Pelo que sei, não vale a pena perder esse tempo todo. O velho Leiman esteve em Orleans para falar com o General e ele disse que não se preocupasse, pois tem gente que se inscreve como voluntários e quase não sobra comida para tanta gente. O Leiman diz que pediu para ele não por o nome do Arthur [Leiman] pois é o único que está em casa — e, quando examinei a lista, realmente o nome dele não estava lá. O velho Karklin também pediu para dispensar os filhos dele e também não estão na lista.

O Arthur [Leiman] escreveu ao irmão dele, Wilis, perguntado como era a convocação na província [do Rio Grande do Sul], onde ele está, e ele respondeu que era mais ou menos igual. Eles aos sorteados fornecem pão e passagem até o quartel designado. Disse ainda que se [em Orleans] estiverem insistindo ou procurando para levá-lo para o Exército, que venham até a província onde ele está, que assim ninguém vai mais amolar. Outros já querem ir, pois lá ganhariam de soldo R70$00 por mês — mas nisso eu não acredito.

Agora chega. Não sei se você vai ter paciência para ler uma carta tão extensa. E eu ia esquecendo de contar que na propriedade dos Klavim está infestada de gafanhotos: uma quantidade imensa, chegando, devido ao peso, a quebrar os galhos das árvores. Aqui passaram revoadas esparsas. Se não fosse assim e viessem mais seria muito triste.

Sinceras lembranças de nos todos aqui.

Olga.

* * *

1. Mãe Luzia era uma localidade próxima a Criciúma (e um rio com o mesmo nome) onde também havia uma colônia leta. O autor de Chorografia de Santa Catarina (Tipografia Livraria Moderna. Paschoal Simone. Florianópolis, 1905, pg 129), Tte. Vieira da Rosa, explica que “segundo dizem” o nome do lugar originou-se de um casal de negros africanos escravos, que, fugido de Laguna, foi morar no morro que levaria esse nome, situado na margem esquerda desse rio. O casal era das poucas pessoas que moravam na região e a mulher se chamava Luzia.

Foi a quarta Colônia leta no Brasil e surgiu em 1893. Fica a uns 80 quilômetros da primeira, que foi a do Rio Novo, e foi formada por colonos desta anterior e por outros que vieram de outras colônias letas do interior da Rússia. O motivo era o mesmo, terras e clima melhores. Na maioria eram batistas, mas também algumas famílias de luteranos. No começo eram 12 famílias; depois de 1895 chegaram muitas outras famílias da Letônia.

Muito serviço | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 20 de setembro de 1917

Querido irmão,

Estou escrevendo novamente uma carta, sem de você ter recebido nenhuma e tão somente os jornais. Os jornais tem chegado regularmente, então podes aproveitar e colocar uma carta mais longa dentro dos jornais, que possivelmente chegará mais segura.

Aguardo cartas suas todos os dias; aquela primeira faz quatro semanas que mandei. A outra faz três semanas e foi registrada e com 100$000 dentro; na semana passada mandei um pacotinho com um par de meias e dois lenços de bolso, mais uma carta da Mamma e 10$000 em dinheiro. Tens recebido todas estas cartas? Se não me escreva que vou reclamar nos Correios para que eles procurem.

Nós estamos todos bem e todos com saúde. O tempo está nublado e chove um pouco. No domingo passado sim, choveu muito, começou sábado a noite e foi até segunda de manhã. Ninguém pôde sair para ir à igreja no domingo. Agora tudo está começando a ficar verde. A primavera está chegando.

Estamos agora com muito serviço: temos que plantar, capinar, etc. Milho nós plantamos quatro quartas (um alqueire); [também plantamos] 1.500 canas de açúcar, 400 canas para o gado, 400 mandiocas grandes e ainda batatas-doces e carás. Quanto às plantações estão indo muito bem, lembro que ano passado nesta época não tínhamos plantado nada.

Daqui de casa não tenho nada mais para escrever. Você pede que eu escreva longas cartas, com novas notícias, mas você sabe que notícias novas são poucas; não recebo telegramas de outros lugares e o que os outros falam por aí não sei se é verdade.

O casamento da Mile teve muita chuva no dia anterior e estradas estavam muito lamacentas. O casamento começou lá pelas 13 horas; o sol estava a um bom pedacinho no céu e o pessoal já ia embora. Tinha pouca gente. Até o Arnolds, Jurka e o Arthurs foram convidados para a segunda festa na casa do Frischembruder, para a qual só foram convidados parentes e amigos muito íntimos.

O Frischembruder não pôde fazer uma grande festa de casamento, porque as coisas estão muito caras e está com dívidas até as orelhas. O João Frischembruder tomou, por conta de uma dívida de 100$000, um instrumento de sopro dos músicos de Orleans. O João diz que tem um casaco para inverno que custou 120$000, com a gola de seda e os botões de diamantes…

O Kirils Karkle está de volta em casa. No Rio Novo um velhaco a mais… O Karlis Salit te escreve? Os rionovenses estão dizendo que ele está preso na cadeia. Dizem que ambos, ele e o Peteris, foram convocados para a guerra; o Pedro [Peteris] teria ido, mas o Karlis, rapaz pilantra e sem-vergonha, teria enfrentado e desacatado os superiores e por causa disso sido posto na prisão. Os rionovenses estão felizes porque ele estaria na pior.

Bem, por hoje chega. Pode ser que eu receba logo sua carta e daí te escrevo de novo. Aqui em Orleans e em Tubarão o povo sofre com uma epidemia de varicela, mas como já tivemos acho que aqui não vai atrapalhar.

Com muitas saudades, lembranças de todos nós,

Olga [Purens]