Desta vez controlaram os velhos | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 9 de novembro de 1919

Querido Reinold!!

Primeiramente mui amáveis lembranças!

Bem, desta vez terei muito o que escrever.

Fazia muito tempo que aguardávamos cartas suas. A última foi a que recebemos no 24 de setembro; depois disso passou o mês de outubro inteiro. No dia 24 de outubro a Luzija mandou um cartão postal e no dia 31 de outubro outro cartão, porque não tinha chegado nenhuma carta. Então, na quinta-feira passada a Luzija foi novamente para a cidade e… quando chegamos da roça no meio-dia havia a mesa cheia com cartas com muitas cartas: 5 cartas e ainda jornais. Uma de 12 de outubro, outra do dia 19 de outubro. E mais aquelas três: uma do dia 11 de março de 1918, onde dentro veio também aquela carta de nosso parente da Rússia. Outra de 8 de abril de 1918 e a terceira do dia 19 de maio de 1918. Estas três tinham sido abertas pela censura e, pelos carimbos, ficaram no Rio até 28 de outubro de 1919. Em duas aparece também o carimbo de quando foram colocadas no correio em 1918 e uma em 1919, e por aí você pode imaginar o tempo que demoraram.

Nós não tínhamos mais esperança, achando que as extraviadas estariam perdidas de vez. Agora esperamos que cheguem aquelas outras que vinham com aqueles desenhos que você diz ter mandado no ano passado, e pode ser que estejam paradas em algum lugar.

Também os Leimann receberam cartões de Páscoa e outras cartas escritas no começo do ano. Agora das recentes está faltando a que foi escrita em 28 de agosto, as outras todas chegaram.

Esta última remessa de dinheiro foi muito rápida e sem custo qualquer.

Tu pedes que escreva as novidades do Rio Novo. Neste momento não há nada importante. O último evento importante foi a Festa da Mocidade [Dia 16 de outubro, aniversário da União de Mocidade da Igreja Batista Leta de Rio Novo]. Esta foi realmente grandiosa. Começou as 10h30 da manhã e foi até ao escurecer. O tempo que antecedeu a festa estava muito chuvoso; quando ia chegando o dia parou de chover porém continuava nublado. Mas o dia da festa amanheceu com um tempo magnífico, sem a menor nuvenzinha mas não calor demais, e tudo enxuto como fazia tempo que não tinha sido assim.

Foi um domingo muito bonito. Já na segunda começou a chover novamente. Esta Festa da Mocidade foi feita em conjunto com a Festa da Banda de Música. Havia gente demais, uma verdadeira multidão. Não sobrou lugar pra ninguém. Tinha muita gente de Orleans, inclusive o pessoal das vendas.

O programa foi dirigido pelo Butler. Desta vez controlaram os velhos, pois eles falam demais, tomando muito tempo. O programa consistiu de hinos, poesias e música. O número de rapazes da União é 32 e moças 36. O número de músicos é 15. Fizeram um relatório de atividades, mas não me lembro de tudo. Às 12 horas teve um intervalo quando foi servido um lanche com café, pão, etc, e não foi cobrado nada de ninguém.

Houve uma coleta com a finalidade de ajudar aos refugiados da guerra no Báltico, que rendeu 132$000. O coro dos jovens cantou quatro hinos, inclusive dois em brasileiro. O coro da igreja cantou cinco hinos, e também cantaram dois quartetos.

Notável mesmo foi a mensagem proferida pelo Butler. Esta valeu a pena mesmo. Se todos seguissem os conselhos e ditames, tudo seria melhor. Mas será que todos entenderam?

Depois do programa ainda teve um Bazar da Banda de Música, onde tudo que foi oferecido e vendido será destinado para compra de novos instrumentos. Houve muita animação e foi até ao escurecer. O melhor músico de sopro é o Ilris do Augusto. Mas o Grünfeldt não gosta de música e acha uma bobagem gastar dinheiro e tempo com isso. Mas nós achamos que é muito melhor que os jovens fiquem ensaiando e aprendendo música aos domingos à tarde do que por falta do que fazer terminem procurando alguma bodega. Agora não existe aquela liberdade, e qualquer que começar a balançar é seguido e advertido.

A família Balod faz tempo que foi embora para Porto Alegre. O Hermans lá ficou um pouco melhor. Mas agora está louco outra vez e não sei se não está em algum hospício. Acho que ele tem culpa desta situação, pois quando os filhos deles eram menores ele permitia que fizessem o que quisessem, e agora não consegue mais controlá-los. Eles fazem artes e safadezas, uma em cima da outra, e agora ele fica reclamando dessa situação triste.

Então foi o Arthurs [Leiman] que te escreveu sobre aquelas brigas e disputas. As moças daqui brigavam por causa dele e ele tratou de dar o fora daqui. Parece que ninguém escreve pra ele, e ele não fica sabendo nem metade do que você sabe.

Você pode vir para casa e aí na volta vai ter companheiros de viagem. Tem gente que está se aprontando [para partir]: são o Janka Klawa e o Emilio Andermanis de Mãe Luzia — por aí você pode avaliar que tipo de heróis. O Janka é negociante de cavalos e vive com os brasileiros das serras, comprando e vendendo. O Emílio é um dos irmãos “espirituais”; não entendo que como esses pentescostais, que não querem nem saber de estudo ou de escola. vão mandar um deles para lá. Dinheiro para pagar a escola eles não têm, dinheiro só têm para as passagens. Como eles vão trabalhar, vocês podem “economizar” algum serviço para os jovens que vão chegar. Se continuar tudo de graça não sei quantos espertos não vão querer ir para lá.

Tenho mais coisas para escrever. Nós estamos bem, graças a Deus. Com saúde estaríamos se a Mamma não tivesse aqueles problemas nas pernas: iguais àqueles [que tinha antes], só que muito mais [intensos]. O Pappa também teve ficar de cama também devido a problemas das pernas, e reclama que doem muito. Calcule, com tanto trabalho nas roças e eles quase inválidos.

O tempo está bastante chuvoso, mas nas últimas duas semanas choveu menos. A nova coivara nós queimamos no dia 1 de novembro, Não estava muito seco, mas como estava ameaçando a chover resolvemos tocar fogo. O Augusto e o Hari nos vieram ajudar. O fogo pulou o aceiro e passou para o mato só em um lugar, mas nós prontamente apagamos com vassouras [feitas de galhos de plantas], em poucos instantes. À noite começou a chover. Na coivara plantamos quatro quartas de semente de milho. Ao todo já plantamos sete quartas. Também plantamos 10.000 de mandioca, 2.000 de aipins, mais batata inglesa, arroz, batata doce, amendoim, carás e melancias. Começamos a roçar a “voadeira” na coivara do ano passado e está indo rápido. Se o tempo melhorar, poderemos queimar.

Este ano tem muitos ratos e ratazanas atacando o milho guardado.

Então agora chega, esta é a última carta que escrevo, pois nas férias não sei onde você estará. Você pode vir para casa e trazer os seguintes remédios: Aconitum, Belladonna, Sulfur e, se conseguir achar, o tal Pain Expeller que dificilmente se consegue e quando aparece é muito caro.

Você tem se correspondido com o Ludis [Ludvig Rose] e sabe o que ele anda fazendo? Você poderia passar as férias com ele [em São Paulo]. Quem sabe ele poderia arranjar um trabalho temporário [pra você], porque na cidade sem trabalho sai muito caro. E [você poderia] aproveitar para ver se o seu priminho está crescido.

Lembranças de todos,

Olga

As galinhas do Augustin ou as vacas dos Gritch | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripa em Letto
[anotação em português no original]

Rio Novo, 12-05-1918

Querido Reynold,

Recebi a tua carta escrita em 25 de abril no dia 9 de maio. Muito obrigada. As minhas cartas foram rápido, as suas nem tanto. Na sexta feira passada fez uma semana que mandei uma carta em resposta àquela que veio junto com o Boletim. Mas a que mandaste em resposta à carta em que enviamos o dinheiro ainda não chegou, e é bem provável que não chegue mais, pois parece que os rionovenses ficam fisgando as nossas cartas. Por causa disso, mande as próximas no nome da senhora Leimann — mas por favor não cole o envelope, porque a senhora Leiman nunca leria uma carta que não fosse dela e porque os envelopes colados são uma atração para a censura: pensam logo que por aí tem segredos.

As últimas duas cartas não tinham sido abertas. Os jornais que vieram em nome do Artur também chegaram, mas aquela que você mandou em nome do Roberto ainda não chegou. Aquela carta que recebeste da Rússia, já mandastes? Se extraviou será realmente grande prejuízo.

Você quer que eu escreva boas notícias, que elas por aí não existem. Nós vamos bem. Estamos todos com saúde. Nem tempo para ficar doentes nós temos, tal a quantidade de serviço. Estaremos colhendo feijão e logo teremos que bater, mas o tempo está muito instável: um dia está bonito e seco, no outro já está chovendo e também bastante frio — se bem que geadas [como aquelas] no ano passado (11 de maio já foi a primeira) este ano não teve ainda nenhuma.

Nosso feijão está muito mais bonito que no ano passado, mas o dos outros tem madurado muito rápido e os grãos ficam muito pequenos, principalmente daqueles como os Leiman e os Klavim, que plantaram bem cedo. Nós também tivemos uma roça nesta situação, lá perto da grande Peroba: numa semana estavam verdes e noutra já estavam bem secas.

A nossa roça grande perto do mato está madurando normalmente, mas a colheita está muito mais difícil do que no ano passado, quando se podia colher uma quarta de planta por dia, pois o feijão embaraçou muito nos pés de milho e a gente demora a desenroscar. Nem todas partes estão maduras e são as verdes que estão mais enrodilhadas nos pés de milho. O feijão está com bom preço, 18$000 a saca, e aqueles que colhem já correm vender. A venda do Pinho ainda não está comprando, porque diz que tem gente colhendo feijão ainda verde.

[Leia sobre o cultivo do feijão]

Sobre os rionovenses, eles vão muito bem. No Dia de Ascensão do Senhor houve um piquenique no pasto da Igreja de Rio Novo, mas cada um teve que levar a sua rosca e as suas bolachas. A Escola Dominical entrou só com o chá. Tudo teve que ser trazido pelas pessoas, pois tudo está tão caro e a Escola Dominical não tem verba. Mas piquenique era preciso.

Agora também o Butlers determinou que uma vez por mês os dirigentes da Escola Dominical leiam a lição em português, pois assim eles aprendem o idioma. Agora as sessões regulares de negócios são aos domingos depois da Escola Dominical e do culto, por isso as vezes ficam até as 3 horas da tarde.

O Augus está sendo convidado para sair [da zeladoria], e o Peteris para ficar no lugar dele. Mas o Augustin vai continuar plantando no terreno da Igreja, uma vez que o Peteris vai plantar muito pouco. O próprio Peteris foi à casa dos Klavim contando como foi a reunião em que foi tomada a resolução da substituição do Augustin por ele, e diz -se que não foi uma reunião fácil [NOTA: Pelo contexto parece que eles eram professores primários, mas ainda não se pode comprovar].

Os outros professores também não querem cobrar tanto dinheiro das crianças, mas se faltar dinheiro para pagar o professor a igreja é que deve pagar. Agora eles tem que pagar 45$000 por mês e 3$000 por cada criança.

De que tenho informações, a escola não está lá grande coisa, Não mandam decorar nada, e para os mais novos não tem aritmética. E tem ainda por cima três recreios, que só servem para a turma ficar correndo e brincando.

Você pergunta o que o Butlers está fazendo. Nunca no Rio Novo a Igreja teve um pastor tão distinto e honrado. Ir embora, ele parece que não está pensando. Se você o visse não sei se o reconheceria, pois ele está bem mais gordo e com o cabelo bem grisalho; quem olha por traz, está todo branco. No ano passado ele arou o pasto e fez dele um quintal onde plantou toda sorte de verduras e raízes. Mas agora ele tem que ficar cuidando, senão chegam as galinhas do Augustin ou as vacas dos Gritch para fazer estragos, e já começam as reclamações, que nem sempre valeriam a pena.

Aos domingos ele teria vendido algumas vacas e sempre está na casa do Limor [Löwenstein], do qual é um grande amigo. Enquanto os outros estavam no piquenique ele estava fazendo o telhado do paiol e o barulho das marteladas só parou de ecoar ao anoitecer quando começou a chover.

Durante a sessão da igreja teriam alguns sabichões dito que não viam necessidade nem de pastor nem de professor, pois eles eram “inteligentes” o bastante.

Quanto ao Grünfeld quase não sei nada, mas sei que seu nariz afilado está mais comprido ainda. Dizem que o Butler aos domingos, à noite, também lê notícias da guerra, em velhos jornais brasileiros, que o Grünfeld empresta dos negociantes de Orleans. Quando isso acontece a assistência às reuniões é muito maior e mais pessoas vem para a igreja.

Junto com esta carta estou mandando um pacotinho. Ele contém: dois pares de meias, duas camisas, dois chapéus e uma gravata. Quando receberes não esqueças de conferir tudo. E, se procurar direito, vai encontrar as cartas da Lucija e do Arthur. Você diz que suas camisas ainda estão boas, mas acho que estão bem puídas.

Naftalina você consegue comprar? Para nós o Arnold trouxe de São Paulo. Onde você coloca a lenha que diz que corta? Você corta lenha ali mesmo ou aí algum lugar por perto? Que é que te ajuda ou você tem que fazer tudo sozinho? Quantas horas por dia você tem que trabalhar? Neste ano tem algum outro leto estudando com você? O Treimann continua na Escola?

Bem, por hoje chega. Não tenho mais nada de novo para escrever. Vou esperar longa carta sua. Muitas calorosas saudades de todos nós aqui.

Olga

O serviço nunca acaba | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 24 de janeiro de 1918

Querido Reini,

Primeiramente mando muitas lembranças. No domingo passado recebi a sua carta escrita em brasileiro do dia 7 de janeiro, e também um Cartão Postal. Obrigado. Você me pede que eu escreva cartas em brasileiro, mas isso para mim não é nada fácil. Ler e entender até que posso, e em leto é outra coisa. Você pode escrever em leto ou em brasileiro, tanto faz, porque ler é uma coisa e escrever é muito mais difícil.

Você pergunta se todas as suas cartas nós recebemos. Sim, recebemos tanto as escritas em leto quanto as escritas em brasileiro, e também os Cartões Postais. As escritas em leto foram abertas; como sei que vão abrir até não me importo, contanto que cheguem ao seu destino.

Semanas atrás mandei longas cartas enroladas no jornal “Baptist Standart”; gostaria saber se você recebeu. Se não será uma pena, pois nestas cartas foram longos relatos das últimas notícias e descrição das festas [de fim de ano], etc.

Nós estamos passando bem. Já há alguns dias está fazendo tempo bom. No último dia do ano e no dia do Ano Novo foram dias muito quentes, mas logo depois houve uma temporada de chuvas. Agora mesmo tem sempre mais chuvas que tempo limpo. No domingo passado, logo depois do almoço, deu um temporal de chuva quase igual àquele da enchente do janeiro passado, mas assim mesmo os riachos se encheram d’água.

Ainda bem que as lavouras estão se desenvolvendo bem. Agora estamos capinando as roças de milho. Logo teremos todas as roças de milho já no limpo. Logo teremos que começar a plantar o feijão (das águas) e, como sabes, o serviço nunca acaba. Estamos com as uvas maduras, que estamos comendo todos os dias. Também os pepinos crescem rápido e temos demais. Gostaria de saber se aí também tem uvas, pepinos e melancias. O que vocês comem no dia a dia? Aqui para o Karlis faltou algum mantimento devido aos preços exorbitantes, que aí talvez sejam ainda mais altos.

Desta vez não tenho muitas novidades. No dia 12 de janeiro o Wilis Paegle casou com a Erna Auras. O Arthur Paegle já tinha casado no dia 17 de novembro último. Entre os rionovenses casar está na moda. O casamento do Oskar Karp dizem que vai ser em breve. Os Salits estão morando na casa nova, então haverá espaço na casa da Lídia Karp. Dizem que ela não está nada satisfeita com a nova “patroa” que logo vai entrar na casa dela.

Bem, por hoje chega. Vou aguardar longas cartas tuas. Como é a Escola Dominical que tu frequentas? Tu conheces a Alice Reno? Como ela se parece? Os outros professores são brasileiros? Ou são estrangeiros?

Esta semana esteve nos visitando a senhora Leimann e mandou muitas lembranças. Ela não sabe escrever em brasileiro e em leto, talvez a carta nunca chegue, então ela só manda lembranças a todos daí. Se puder ela vai pedir para a Wallija para que escreva em brasileiro.

Quando receberes esta é possível que o Arthurs Leimann já não esteja mais aqui, pois está com as malas prontas para ir para a Argentina.

Muitas lembranças de todos, principalmente do Papai, da Mamãe, do Artur e da Lusija [Lúcia].

Olga

Adeus cartas longas | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 27-12-17

Querido Reini,

Recebemos a tua carta, escrita em 5 de dezembro, no dia 23 de dezembro. Obrigado. Foi uma longa espera e nem sabíamos onde você estava. Tu escreves que mandou uma carta ainda do Rio, mas esta ainda não chegou. Os desenhos recebemos junto com dois rolos de jornais. Os pacotes de desenhos tinham sido abertos pela censura, mas os rolos de jornais não, portanto você pode escrever nos espaços vagos dos jornais que eles não abrem. Dia 22 de dezembro te mandei um cartão escrito em leto, vamos ver se chega. A mulher do correio falou que as cartas escritas em leto não serão mais abertas, mas esta tinha sinais que tinha sido aberta. A censura pelos correios não é uma coisa boa, mas muito mais difícil se as cartas tiverem que ser escritas em brasileiro — se for assim, adeus cartas longas, porque nesta língua a gente não tem facilidade.

Agora tenho tanta coisa para escrever que não sei se vou conseguir fazer pela ordem… Nós estamos passando bem, estamos todos com saúde, e nenhuma calamidade aconteceu depois daquela tempestade de fogo que varreu toda região. Pela minha carta anterior você deve ter percebido que condições precárias nós passamos.

Oh. Foi a situação mais crítica de toda nossa história. Neste ano o 15 de novembro, maior Feriado Nacional, deverá ser gravado com letras de ouro. Quantas famílias perderam tudo! Só abaixo da serra mais de vinte casas de brasileiros ficaram um monte de cinzas. Propriedades inteiras ficaram irreconhecíveis: cercas, árvores, pastagens e plantações viraram uma mancha negra. Até para os Klavin, faltou muito pouco para perderem a casa e as demais dependências. Foi quase sorte: juntaram muita gente e durante o dia inteiro usaram escadas para molhar os telhados, paredes e cercas, isso no meio de uma nuvem de fogo e fumaça.

Este ano foi um ano cheio de tragédias. No começo de ano as enchentes, depois as grandes geadas, a neve, os gafanhotos, um mês e meio de seca imensa e depois, para completar, o fogo.

Você pode imaginar como tudo ficou ressequido depois de tanto tempo que não chovia: os pastos estavam tão secos que o gado nada tinha para comer. Começamos a trazer folhas do mato [grandiuva] até dezembro, mas já estava faltando e tínhamos de ir longe nos matos e capoeiras em busca do pouco verde que restava para os animais. Também dávamos espigas de milho (as pequenas), mas já estavam acabando. Ainda bem que dia 1° de dezembro começou a chover, e choveu sem parar por dois dias e meio: agora está tudo verde.

Este ano as plantas não cresceram o que seria esperado. O milho plantado no cedo, se não continuar a chover, não vai dar nada. Em muitos lugares o milho não tem um metro de altura e já está soltando o pendão. O milho terminamos de plantar no dia 15 de dezembro, e no total plantamos 16 ½ quartas. Nunca tínhamos plantado tanto quanto este ano. A batata inglesa [kartupeles] cresceu um pouco, mas depois secou tudo. Só aqueles plantados no tarde estão verdes.

Perto de Orleans apareceram novamente gafanhotos, também em Rio Laranjeiras, Rio Belo e Braço do Norte. Perto de Orleans tive oportunidade de ver uma nuvem deles, as beiras das estradas tão cheias que chegavam a chiar; ainda bem que não estão em toda a parte. Onde eles estão eles comem tudo e começam pôr ovos. O governo determinou que as pessoas não atingidas fossem trabalhar dois dias, pelos menos, matando os filhotes [NOTA: Abriam-se valetas e espantavam-se os filhotes para dentro, cobrindo-os em seguida com terra]; nas roças tudo fácil, mas nos matos e nas capoeiras nada havia o que fazer. Se os que sobrarem subirem o Rio Novo, vão comer tudo. Esperamos que sigam para o leste, para onde foram os adultos. Para baixo de Orleans falam que tem muito mais, que na estrada de ferro não se consegue enxergar os trilhos. Os filhotes são pouco maiores que moscas, com um risco cinza nas costas; ainda não tem asas
mas são muito espertos para pular.

Semana passada comecei escrever esta carta, mas como durante as festas ninguém foi a Orleans, perdi a pressa de terminar esta. Hoje, dia 30 de dezembro, o Roberto [Klavin] trouxe a sua carta escrita em 10 de dezembro. Muito obrigado. Estou muito feliz porque você está passando bem. Você pergunta se aquelas cartas enviadas do Rio chegaram: não, a última escrita do Rio foi aquela datada 16-11-17.

Como foi o seu exame? Você não recebeu o último boletim da tua escola? Se você mandou, deve ter-se extraviado. Quanto aos desenhos, são os últimos? Eles são lindos e servirão de moldes para as minhas costuras. Você levou a sua caixa de coisas junto? Desta vez vou fazer muitas perguntas e aguardar longas cartas. Você está em férias e tem tempo bastante para escrever.

Bem, preciso escrever sobre as festas de Natal. Este é o primeiro Natal que passamos sem você…… Bem, mas tudo correu muito bem, passamos alegres e fazia muitos dias que o tempo não estava tão lindo. Não está quente demais e havia um luar muito lindo. Naquele domingo antes das festas estava chovendo e estávamos temerosos, pois poderia atrapalhar as programações, mas a chuva logo parou.

No Rio Laranjeiras estava programada a festa com pinheirinho e tudo para o dia 24, mas este dia amanheceu brusco e parecia que logo iria chover; felizmente, lá pela hora do almoço começou soprar um vento seco que dispersou todas nuvens, então alegres pudemos nos aprontar para a viagem.

Saímos às 4 da tarde e chegamos lá antes de escurecer. A estrada estava inteiramente seca mesmo dentro da mata virgem, lá onde na vez passada, na Páscoa, havia aquele lamaçal horrível. Por coincidência, éramos novamente treze pessoas: Arthurs, Arnolds, Juris, Augusts, Ernest Slengman, Ema, Lonija, Isolina, Milda, Schenia, Lusija e eu. O Roberto estava lá desde domingo. O pinheirinho era igual do ano passado e no mesmo lugar. Não tinha tanta gente como no ano passado e o programa não foi tão longo.

A festa foi dirigida pelo Roberto, que é da Escola Dominical daquela Congregação. A escola tem 24 alunos matriculados e as entradas do ano, com o saldo do ano passado, perfazem mais ou menos 30$000; as despesas, 18$000, ficando um saldo de 20$000 para o próximo ano.

Este ano não foram feitos bolos [kukas] porque está tudo muito caro. Foram comprados em Orleans, nas padarias, onde saiu mais barato, bem como os bombons [bombongas] para as crianças. Os presentes foram muitos.

Agora vou contar quais os hinos foram cantados e daí você pode cantar e fazer de conta que participou da festa. Pela E.D. de Rio Laranjeiras, foram cantados dois hinos, os de número 210 e 438 do Cantor Cristão. Todos juntos cantamos 4 hinos: os de números 18, 217, 225 e 242. Dois hinos foram cantados pelos vicitantes que vieram para cima, os de números 248 e 446. Então ainda cantou um trio masculino — Roberts, Arnolds e Arthurs, — o hino 444: “Sejais Corajosos Povo de Deus”. As poesias eu não teria como transcrever. Todo o povo participou com grande reverência.

Depois do término tomamos café e saímos de volta para casa. O cansaço apareceu na subida daquele grande morro, mas de modo geral saiu tudo bem, pois não estava nem quente nem frio. Chegamos em casa a uma e meia da madrugada. Só música não houve; não porque não tivessem sido levados os instrumentos, mas porque não foram levadas cordas de reserva e deu azar de terem arrebentado algumas — e deu no que deu…

Nos Leiman [sede da Igreja de Rodeio do Assucar] o pinheirinho foi aceso dia 26 Dez. Lá houve um programa mais longo do que no ano passado.

A festa foi dirigida pelo Arthurs [Leimans]. Poesias houve vinte e uma: dez em leto e onze em brasileiro. As em brasileiro foram declamadas por Arnolds 1, Juris 1, Augusts 1, Vilis Slengmann 1, Isolina 1, Emma 2, Milda 1, Luzija 1 e eu 1. Não posso te transcrever pois não sei onde foram encontradas. Os professores entregaram, mandaram decorar e pronto. As poesias em leto foram apresentadas pelos mesmos.

Hinos foram cantados doze: sete em leto e cinco em brasileiro. A Escola Dominical cantou os hinos do Hinário Bernu Kokle números 125, 127, 137, 109, e 134. E ainda cantaram em trio Emma, Lonija e Milda o de número 78, enquanto o Arthurs acompanhava com a guitarra. O Ernesto, Emma e Lonija Slengman cantaram o hino 7 do Musu Dsiesma Gramata, seção Ceribas Auseklis. Pela Escola Dominical os alunos cantaram em brasileiro os números 76, 161 e 247. O Arthurs fez solo do hino 220 do Cantor Cristão acompanhando da guitarra e também do violino do Roberts. Ainda a Milda e Isolina cantaram o número 73 do Cantor Cristão. Agora você sabe quais hinos foram cantados. Foram apresentadas duas músicas instrumentais do hinário inglês. O programa ficou um tanto longo.

Nunca tinha havido tanta gente: brasileiros, italianos mas muito mais rionovenses [NOTA: Membros da igreja batista rival, de Rio Novo], a juventude quase toda. Até os velhos Karklim também estavam. Para abrir mais espaço, o Matiss ajeitou lugares atrás das janelas. Assim pudemos bem recepcionar os “inesquecíveis” visitantes rionovenses. Barulho ou qualquer movimento não foi permitido pelo encarregado da ordem, o Juris Klavin, que ficou no lado de fora. Ficaram tão comportadinhos que lembraramvque não estavam em sua Igreja do Rio Novo.

Neste dia tive a oportunidade de ver as beldades do Rio Novo, antigamente não apareciam como agora vão… Pelas estradas sempre estão aos pares, e junto de cada rapaz vai uma mocinha. Ninguém sabe como vai terminar essa grande loucura…

No dia 25 de Dez. os rionovenses comemoraram o seu Natal. No pinheirinho havia somente treze velinhas, e estas eram curtas e acabaram logo. A Escola Dominical é tão grande que quase não se pode enxergar… Mas para o próximo ano o professor Butler vai tomar as rédeas e fazer todos os pequenos e grandes participar da E.D. — se não os novos ficam mal acostumados e ficam por aí.

Nas cartas passadas escrevi que o Oscar ia se casar, mas até hoje não saiu nada. As promessas eram muitas mas até agora nada, e porque também não sei. No domingo passado na casa de “T” houve o noivado de Laura e João. Agora “T” e ”S” são tão parentes que é de se admirar. Antes “T” e “S” não podiam nem se ver, agora se beijam.

Logo parece que vamos ter o casamento do Vilis Paegle com a Erna Auras. Agora saiu uma lei na Justiça que no ano que vem só poderão casar os que tiverem se inscrito este ano, e o motivo é a convocação para servir o Exercito. Por isso os meninos estão correndo para casar. E ainda há um papo de que se por acaso for casado e convocado, passará a receber um soldo muito maior que o solteiro. Não sei se estas novas da justiça tem alguma lógica ou se são só para se ganhar dinheiro com mais casamentos.

Sobre os feitos heróicos dos rionovenses eu teria muito o que escrever, mas deixa prá lá. Não vale a pena escrever.

Agora, o ano no fim, vou descrever o nosso balanço com as entradas e saídas. Neste ano vendemos 70 arrobas de toucinho que renderam 709$590. Banha, 69 quilos por 69$00. Das abelhas mel e cera, 98$000. Manteiga, 21 quilos e 37$500. Ovos, 189 dúzias e 66$300. Feijão, 11 sacos, deram 110$000. Total de entradas, 1:101$890; saídas, 374$320. Saldo: 726$970.

Este ano as entradas foram maiores e as saídas menores do que no ano passado. Agora está tudo mais caro, o feijão já está a 17$000 a saca, o toucinho 13-14$000 a arroba, e o que a gente compra é três vezes mais caro do que antes.

Dias atrás em Orleans saiu uma conversa de que teria chegado um telegrama informando que a guerra tinha terminado e que a Alemanha derrotada havia pedido a paz, pelo que houvera grandes festas em Orleans.

Bem, chega. Vou esperar uma longa carta sua. Tu podes escrever em leto e colocar no rolo com jornais, e assim vão chegar sem ninguém abrir. Aquelas fotografias dos seminaristas você chegou a nos mandar?

Com sinceras lembranças para vocês todos,

Olga

Velhos tempos | Olga Purim a Reynaldo Purim

[Cartão Postal endereçado ao Collegio Americano Baptista – Cachoeiro Itapemirim]

Rio Novo, 21-12-1917

Querido Reini,

Na semana passada recebemos 2 jornais e também os desenhos, e as anotações de que você está viajando para o Espirito Santo. Por que não veio para São Paulo?

Cartas, faz tempo que não temos recebido. Esperamos todos os dias. A última foi aquela que você escreveu no dia 16 de novembro. Não sabemos se são retidas pelos correios aqui ou se se perdem em algum outro lugar. Outros recebem cartas em leto com claras evidências de terem sido abertas pela Censura, mas chegam. Escreva em brasileiro, e daí talvez cheguem.

O que estás fazendo? Como estás passando? Nós estamos passando
bem e todos com saúde. No demais está tudo como nos velhos tempos. Foi só no dia 1 de dezembro, depois de um mês e meio sem chuva, que voltou a chover regularmente.

Agora chega. Quando receber carta sua escrevo mais. Tens recebido o dinheiro?

Desejamos um Feliz Natal — Olga

Fortalezas de puro aço | Reynaldo Purim a Lisete e Jahnis

Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1917

Queridos pais em Rio Novo,

Neste momento recebi as suas cartas e junto o dinheiro. De coração agradeço. Eu pensava que fosse difícil e quem sabe se este dinheiro chegaria antes do fim do mês, mas chegou.

Alegro-me que vocês estejam passando relativamente bem; como ainda não sei se aquela praga de gafanhotos destruiu todas lavouras, espero que Deus os proteja desses perigos e males.

Agora vou escrever algo sobre mim. Nos exames passei suficientemente bem; a nota mais baixa foi 85 e a mais alta 100. Este mês não terei o Boletim Mensal, mas amanhã irei receber o Diploma da Conclusão do Primeiro Ano. No Diploma estarão todas matérias e a média total de todo ano. Muitos não conseguiram passar.

Agora o assunto sobre as minhas férias. Sobre isso já escrevi alguma coisa.

Vocês sabem que do Ludi [Ludvig Rose] antes a gente nada recebia; não recebíamos nenhuma notícia. Isso certamente acontecia porque ele escrevia em leto; como todas cartas são censuradas pelo governo, eles não conseguindo ler não permitiam que seguissem. Mas tempos depois recebi dele um cartão postal escrito em brasileiro onde ele escrevia que posso ir a São Paulo [nas férias]. Respondi também em brasileiro, e também com cartão postal, e é assim que nós nos comunicamos nestes dias.

Então, vou mesmo para São Paulo. Vocês podem pensar que possa me dar mal, mas isso certamente não vai acontecer, pois está tudo muito quieto. Por favor não se preocupem comigo: confiem em Deus e assim estaremos protegidos. Espero sair de viagem na segunda-feira de manhã.

Fui à Polícia Central pedir um passe para viajar e mostrei o atestado da justiça que trouxe de lá; ali me informaram que eu não preciso de passe nenhum, porque não sou alemão e sou nascido no Brasil. Os alemães sim, se quiserem viajar para qualquer lugar precisam ir à “justiça” tirar um “salvo conduto”. Esse pode ser conseguido com a pessoa apresentando uma série de provas de quem é, onde mora, de onde veio e para onde quer ir. Eles tendo este documento ninguém perturba mais.

Antes de ser convidado pelo Ludi passei um tempo procurando trabalho para o período de férias, mas nessa época é muito difícil. Se não tivesse outro lugar para ir, iria trabalhar como colportor. Salomão [NOTA: Salomão Ginsburg era um judeu convertido, pastor e grande líder, naquela época diretor da “Casa Publicadora Batista”, hoje JUERP.] me ofereceu esse trabalho. Não seria um trabalho fácil e agradável, principalmente nestes tempos de guerra, sendo ainda que não havia um salário definido e compensador. Tudo dependeria das vendas.

Mas este plano eu pus de lado, pois as pessoas poderiam pensar que eu fosse um espião alemão, etc. Sobre este assunto não vou escrever mais pois acho que ficou bem claro.

Aquela minha caixa não vou levar junto, pois isso poderia me custar muito caro. Vou levar comigo algumas roupas, alguns livros e o violino — o resto vou ajuntar tudo, fechar dentro da caixa e deixar aqui mesmo. Todo mundo faz assim e viaja só com uma maleta.

Agora o tempo apresenta-se muito quente, principalmente na cidade nos “poços de pedra” e “valetas de pedra” onde circulam pessoas, automóveis etc.

Sobre a situação geral não sei o que escrever. Só sei que na Europa a situação está dia a dia pior. O exército russo não mais guerreia contra os alemães, mas entre si pelo controle do governo. A situação final na Rússia ainda não está delineada. A Polônia russa agora é um país livre. A Finlândia (Somija) está sacudindo e empurrando embora o governo russo. O que mais vai acontecer só Deus sabe.

Os franceses e ingleses inventaram umas fortalezas de puro aço que avançam (rodam) contra o inimigo equipadas com canhões e metralhadoras que as balas de outros canhões nenhum dano conseguem fazer, e assim causam imensa destruição na frente inimiga.

Bem, por hoje chega. Sobre as coisas menores não vou escrever agora, nas férias penso escrever longas cartas para vocês. Quando chegar a S.P. vou escrever outra vez dando o meu endereço de lá.

O Inkis com sua esposa foram para nova Odessa. Não posso imaginar porque todos me esperam no Rio Novo.

Como vocês estão passando, agora? – E os gafanhotos ainda estão por lá? – Como vão todos de um modo geral? – E a igreja? – E as pessoas da igreja de Orleans vivem em paz?

Na outra vez vou contar sobre as igrejas daqui. Aqui eles não são tão rixentos quanto os letos.

Envio muitas e sinceras saudações. Vivam felizes e que Deus vos proteja.

Reinholds