Desta vez controlaram os velhos | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 9 de novembro de 1919

Querido Reinold!!

Primeiramente mui amáveis lembranças!

Bem, desta vez terei muito o que escrever.

Fazia muito tempo que aguardávamos cartas suas. A última foi a que recebemos no 24 de setembro; depois disso passou o mês de outubro inteiro. No dia 24 de outubro a Luzija mandou um cartão postal e no dia 31 de outubro outro cartão, porque não tinha chegado nenhuma carta. Então, na quinta-feira passada a Luzija foi novamente para a cidade e… quando chegamos da roça no meio-dia havia a mesa cheia com cartas com muitas cartas: 5 cartas e ainda jornais. Uma de 12 de outubro, outra do dia 19 de outubro. E mais aquelas três: uma do dia 11 de março de 1918, onde dentro veio também aquela carta de nosso parente da Rússia. Outra de 8 de abril de 1918 e a terceira do dia 19 de maio de 1918. Estas três tinham sido abertas pela censura e, pelos carimbos, ficaram no Rio até 28 de outubro de 1919. Em duas aparece também o carimbo de quando foram colocadas no correio em 1918 e uma em 1919, e por aí você pode imaginar o tempo que demoraram.

Nós não tínhamos mais esperança, achando que as extraviadas estariam perdidas de vez. Agora esperamos que cheguem aquelas outras que vinham com aqueles desenhos que você diz ter mandado no ano passado, e pode ser que estejam paradas em algum lugar.

Também os Leimann receberam cartões de Páscoa e outras cartas escritas no começo do ano. Agora das recentes está faltando a que foi escrita em 28 de agosto, as outras todas chegaram.

Esta última remessa de dinheiro foi muito rápida e sem custo qualquer.

Tu pedes que escreva as novidades do Rio Novo. Neste momento não há nada importante. O último evento importante foi a Festa da Mocidade [Dia 16 de outubro, aniversário da União de Mocidade da Igreja Batista Leta de Rio Novo]. Esta foi realmente grandiosa. Começou as 10h30 da manhã e foi até ao escurecer. O tempo que antecedeu a festa estava muito chuvoso; quando ia chegando o dia parou de chover porém continuava nublado. Mas o dia da festa amanheceu com um tempo magnífico, sem a menor nuvenzinha mas não calor demais, e tudo enxuto como fazia tempo que não tinha sido assim.

Foi um domingo muito bonito. Já na segunda começou a chover novamente. Esta Festa da Mocidade foi feita em conjunto com a Festa da Banda de Música. Havia gente demais, uma verdadeira multidão. Não sobrou lugar pra ninguém. Tinha muita gente de Orleans, inclusive o pessoal das vendas.

O programa foi dirigido pelo Butler. Desta vez controlaram os velhos, pois eles falam demais, tomando muito tempo. O programa consistiu de hinos, poesias e música. O número de rapazes da União é 32 e moças 36. O número de músicos é 15. Fizeram um relatório de atividades, mas não me lembro de tudo. Às 12 horas teve um intervalo quando foi servido um lanche com café, pão, etc, e não foi cobrado nada de ninguém.

Houve uma coleta com a finalidade de ajudar aos refugiados da guerra no Báltico, que rendeu 132$000. O coro dos jovens cantou quatro hinos, inclusive dois em brasileiro. O coro da igreja cantou cinco hinos, e também cantaram dois quartetos.

Notável mesmo foi a mensagem proferida pelo Butler. Esta valeu a pena mesmo. Se todos seguissem os conselhos e ditames, tudo seria melhor. Mas será que todos entenderam?

Depois do programa ainda teve um Bazar da Banda de Música, onde tudo que foi oferecido e vendido será destinado para compra de novos instrumentos. Houve muita animação e foi até ao escurecer. O melhor músico de sopro é o Ilris do Augusto. Mas o Grünfeldt não gosta de música e acha uma bobagem gastar dinheiro e tempo com isso. Mas nós achamos que é muito melhor que os jovens fiquem ensaiando e aprendendo música aos domingos à tarde do que por falta do que fazer terminem procurando alguma bodega. Agora não existe aquela liberdade, e qualquer que começar a balançar é seguido e advertido.

A família Balod faz tempo que foi embora para Porto Alegre. O Hermans lá ficou um pouco melhor. Mas agora está louco outra vez e não sei se não está em algum hospício. Acho que ele tem culpa desta situação, pois quando os filhos deles eram menores ele permitia que fizessem o que quisessem, e agora não consegue mais controlá-los. Eles fazem artes e safadezas, uma em cima da outra, e agora ele fica reclamando dessa situação triste.

Então foi o Arthurs [Leiman] que te escreveu sobre aquelas brigas e disputas. As moças daqui brigavam por causa dele e ele tratou de dar o fora daqui. Parece que ninguém escreve pra ele, e ele não fica sabendo nem metade do que você sabe.

Você pode vir para casa e aí na volta vai ter companheiros de viagem. Tem gente que está se aprontando [para partir]: são o Janka Klawa e o Emilio Andermanis de Mãe Luzia — por aí você pode avaliar que tipo de heróis. O Janka é negociante de cavalos e vive com os brasileiros das serras, comprando e vendendo. O Emílio é um dos irmãos “espirituais”; não entendo que como esses pentescostais, que não querem nem saber de estudo ou de escola. vão mandar um deles para lá. Dinheiro para pagar a escola eles não têm, dinheiro só têm para as passagens. Como eles vão trabalhar, vocês podem “economizar” algum serviço para os jovens que vão chegar. Se continuar tudo de graça não sei quantos espertos não vão querer ir para lá.

Tenho mais coisas para escrever. Nós estamos bem, graças a Deus. Com saúde estaríamos se a Mamma não tivesse aqueles problemas nas pernas: iguais àqueles [que tinha antes], só que muito mais [intensos]. O Pappa também teve ficar de cama também devido a problemas das pernas, e reclama que doem muito. Calcule, com tanto trabalho nas roças e eles quase inválidos.

O tempo está bastante chuvoso, mas nas últimas duas semanas choveu menos. A nova coivara nós queimamos no dia 1 de novembro, Não estava muito seco, mas como estava ameaçando a chover resolvemos tocar fogo. O Augusto e o Hari nos vieram ajudar. O fogo pulou o aceiro e passou para o mato só em um lugar, mas nós prontamente apagamos com vassouras [feitas de galhos de plantas], em poucos instantes. À noite começou a chover. Na coivara plantamos quatro quartas de semente de milho. Ao todo já plantamos sete quartas. Também plantamos 10.000 de mandioca, 2.000 de aipins, mais batata inglesa, arroz, batata doce, amendoim, carás e melancias. Começamos a roçar a “voadeira” na coivara do ano passado e está indo rápido. Se o tempo melhorar, poderemos queimar.

Este ano tem muitos ratos e ratazanas atacando o milho guardado.

Então agora chega, esta é a última carta que escrevo, pois nas férias não sei onde você estará. Você pode vir para casa e trazer os seguintes remédios: Aconitum, Belladonna, Sulfur e, se conseguir achar, o tal Pain Expeller que dificilmente se consegue e quando aparece é muito caro.

Você tem se correspondido com o Ludis [Ludvig Rose] e sabe o que ele anda fazendo? Você poderia passar as férias com ele [em São Paulo]. Quem sabe ele poderia arranjar um trabalho temporário [pra você], porque na cidade sem trabalho sai muito caro. E [você poderia] aproveitar para ver se o seu priminho está crescido.

Lembranças de todos,

Olga

Melodias conhecidas de velhos hinos | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em Letto, linguagem fallada na Lithaunia (Rússia)
[Observação em português no original]

Rio Novo 24 de março (de ?)

Querido Reini,

Primeiramente muitas lembranças de nós todos. Na semana passada recebi uma carta em brasileiro que você escreveu para o Arthur. Naquele envelope só isso e nada mais. Na carta dele tinha uma observação com uma letra bonita numa das partes explicando alguma coisa, mas por motivo da tinta que você usou, ela pode ter sido molhada e a tinta borrou tudo, de modo que quase nada é possível ler. A única coisa que se pode ler é “uma carta em leto ficou… ” [frase em português no original] mas adiante nada mais. Eu achava que pelo tamanho do envelope devia ter mais alguma carta. Tem mais cartas, inclusive uma que eu mandei para Cachoeiro do Itapemirim e outras que não sei.

Nós temos uma nova agente do Correios e ela explicou que as cartas podem ser escritas em leto, só não podem ser escritas em língua alemã.

Nós agora estamos bem e todos com saúde. Semana passada estávamos resfriados, mas agora estamos todos bem. Hoje o tempo está nublado e está chuviscando um pouco. Semana passada inteira o tempo estava muito bom. Nestes últimos meses chovia mais do que fazia sol. Mas agora está chegando o outono e os dias estão ficando mais lindos e mais curtos. Também o sol não está queimando tanto.

O Paps e o Arthur estão roçando o pasto. Semana passada terminamos de dobrar o milho e agora estamos colhendo o amendoim. Estamos arrancando e colocando em cima das toras e madeiras para que sequem, depois vamos debulhar e ver quanto vai render.

O milho este ano está com espigas bem grandes; é pena que boa parte os temporais tenham derrubado. Este verão foi muito tempestuoso: dia 26 de janeiro teve um temporal que derrubou muito milho. No dia 26 de fevereiro teve outra tempestade que derrubou aquelas partes que tinham ficado em pé.

Essa última foi assim: um dia extremamente quente, e lá pelas três horas da tarde começou a soprar um forte vento sul, trazendo grande quantidade de nuvens, e depois de uma hora parou. Mas neste momento ficou muito escuro; quando chegou as cinco horas estava tão escuro que parecia noite. Do lado da serra um ronco contínuo de trovões sucessivos e relâmpagos. O gado, as galinhas e porcos todos vieram correndo assustados para os abrigos, para casa. Aí começou uma chuva que se prolongou noite a dentro. Neste verão os temporais foram muito comuns.

Da igreja do Rio Novo não tenho nenhuma novidade maior. O Oscar Karp casou-se no dia 21 de março, como já descrevi em outra carta. No dia 20 de março houve a festa de aniversário, mas não foi tão grandiosa quanto o Jubileu de 25 anos de fundação que aconteceu no ano passado.

Durante as festas o tempo estava bom, mas não havia tanta gente e nem o programa foi muito longo. A banda de instrumentos de sopro era a local tocada pelos rapazes daqui mesmo. Foram tocadas melodias conhecidas de velhos hinos, mas os comentários da oposição acham que os músicos tinham pouco fôlego.

Acho que você já sabe que o Arthur Leimann mudou-se para a Argentina. No dia 21 de fevereiro ele embarcou para Imbituba, mas o navio em que ele esperava embarcar tinha levantado ferros no dia anterior. Assim ele ficou nove dias à espera de um outro navio para embarcar até a cidade de Rio Grande. A viagem até lá demorou dois dias e uma noite e no dia 7 de março ele mandou um cartão postal da cidade de Rio Grande. De lá para frente ele seguiu de trem e escreveu que fez muito boa viagem.

Bem, por hoje chega. Vou aguardar uma longa carta. Você por acaso encontrou o nosso Diretor, que foi levar o filho para estudar no seu colégio? Alguns falam que ele foi para o Seminário. Por que não escreves quando não tens dinheiro? O Karlis escreveu para a mãe dele que você estava sem dinheiro. A gente fica sabendo por outras pessoas, o que é muito desagradável. Vamos mandar uma parte junto com esta carta.

Muitas lembranças de todos nós.

Olga

Como passaram rápido | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto
[Nota em português no original]

Rio Novo, 25-2-1919

Querido Reinhold!

Primeiramente desejo transmitir sinceras saudações de todos de casa. Depois de longa espera, no dia 14 de fevereiro recebi duas cartas: uma escrita no dia 21 e outra do dia 31 de janeiro, e os jornais de 26 de janeiro. Muito obrigado mesmo!

É tão desagradável que tantas cartas tenham sido extraviadas e para mim o prejuízo daqueles desenhos, mas o que está perdido, está perdido — é inútil ficar esperando. Você não deve mandar nada sem ser registrado; pode ser que somente assim chegue mais rápido.

Cansada de esperar, mandei no dia 6-2-19 outra carta, que é provável que já tenha recebido. Nós não ficamos sabendo o que você fez durante as festas, pois nenhuma descrição das festas chegou até aqui.

O que o Ludis e o Victor te escrevem? Ou ainda estão vivos? Será que em São Paulo eles não receberam a visita daquela [gripe] espanhola? Eu nas minhas cartas muitas vezes tenho perguntado por eles, mas nas cartas que recebi você não menciona nada. Gostaria que você voltasse a escrever [sobre eles], pois é possível que estes assuntos tenham sumido nas cartas extraviadas. Eu mandei ao Ludi um cartão de Natal, mas não sei se ele recebeu. Qual é o endereço certo dele? É o mesmo ou já mudou?

Nós estamos todos bem e com saúde. Agora todos os grandes serviços daqui estão terminados. As roças de milho estão todas capinadas e ontem terminamos de plantar o feijão [das águas]. Plantamos um saco de sementes e poderíamos ter plantado mais, mas tinha muitas partes do milharal derrubado pelas tempestades e também muita chuva, e na semana passada não teve um dia sequer sem chuvas com trovoadas.

Na parte da manhã faz um calor que mais parece uma sauna, e de tarde chove. Com esse tempo o serviço não rende, e pouca coisa se pode fazer. Hoje arrancamos batata inglesa lá na Bukovina, que plantamos numa das baixadas; neste ano cresceram muito bem e deram muito grandes, do tamanho de um punho fechado, e num pedacinho pequeno os sacos são cheios rapidamente. Onde você mora eles plantam batatas inglesas?

Papus [papai, Jahnis Purim] e o Enoz [Ernesto Grüntall] começaram no mato do alto do morro, perto da cerejeira vermelha, a serrar tábuas. O Enoz estava nos devendo uma porção de dias de trabalho e o Paps sempre falava em fazer isto e mais aquilo, mas faltava madeira serrada [tábuas] e agora parece que vai dar certo.

[NOTA de V. A. Purim: As tábuas eram serradas por duas pessoas com o tronco colocado num estaleiro ou armação, sendo que a pessoa que ficasse na parte de cima fazia mais força, mas a que estivesse em baixo ficava com a serragem caindo por cima.]

Os pastos ainda não limpamos, mas não tem tanto mato como nos outros anos. Isso porque o “mata-pasto” [guanxuma] foi inteiramente morto pelas geadas.

No dia de 6 fevereiro levamos o grande porco, o “Kaschaku”, para a cidade. Como você não veio para casa, nós mesmos tivemos que puxar o monstro do chiqueiro para fora. Para a cidade a carga foi na Marsa e no Traginim, e eu fui montada na Zebra. O Puise puxava o Traginin e é a segunda vez que o Traginim foi para a cidade. O Toucinho do “kaschaku” rendeu 111 kg e em dinheiro rendeu 88$800, mas a carne e a banha ficaram em casa para o nosso consumo. Se tivesse sido levado inteiro teria dado mais de dez arrobas, mas em casa já estávamos precisando de carne, e levando toucinho sem carne eles pagam 1$000 a mais. Banha rendeu mais de uma arroba e essa vale 18$000.

Ainda não terminamos as contas de quanto vendemos no ano passado. As entradas do ano foram 952$920 e as saídas 327$500; o saldo ficou em 625$420. De toucinho foram vendidas 57 arrobas e 11 quilos, que renderam 633$620. Ovos, 242 dúzias por 107$800: em nenhum ano entrou tanto dinheiro em ovos. Em manteiga, 47$600. O feijão no ano passado não vendemos; quando tinha preço nós não tratamos com os compradores, e quando queríamos vender ninguém mais queria. Tudo está em casa e os gorgulhos estão começando roê-los.

Bem, desta vez já chega. Noutro dia eu escrevo mais. No Rio Novo ninguém morreu nem se casou. Vou aguardar longa carta sua. Durante as férias esperava receber muitas cartas suas, mas elas não vieram. Você decerto ganhou muito dinheiro nas férias, ou não? Pelo menos o dinheiro para o dia a dia deves ter ganho.

Ah! Semana passada fazem dois anos que tu foste embora. Como passaram rápido!

Com muitas saudações,

Olga

Pelas ruas catando cadáveres | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 18 de dezembro de 1918

Querido Reinold!!

Recebi no dia 14 de dezembro a tua carta escrita no dia 28 de novembro; muito obrigado por ela. Fazia já bastante tempo que não tínhamos notícias suas, e por isso não sabíamos onde tinhas ficado nas férias. A carta de 18 de novembro foi extraviada, bem como a de 7 de outubro. Naquelas pode ser que tinhas informado onde estavas durante as férias, mas elas não chegaram. Ainda bem que agora já sabemos.

Eu não escrevi nenhuma carta, só mandei um cartão postal no dia 13 de novembro. O cartão postal que você mandou no dia 5 de novembro também recebemos. As cartas provavelmente se perdem, pois diversos navios não foram autorizados a entrar no porto de Laguna por causa de muitos passageiros com a “doença” [gripe espanhola]. Então, não admira que tantas cartas ficaram extraviadas.

Nós estamos todos com saúde. Ninguém de nós pegou essa doença. Aqui no Rio Novo alguns pegaram a gripe e em Orleans alguns já morreram, mas entre os nossos ninguém. Alguns tem tanto medo não saem da sua propriedade para não pegar a doença, mas eu vou freqüentemente a Orleans e não peguei nada.

Semanas atrás os Grikis estavam doentes, mas nada sério. O velho Sommers está muito doente, mas não com a gripe. Então a Luzija mandou papai fazer o caixão. Papai ficou lá nos Grikis o dia inteiro e a gente ficou preocupada pela possibilidade de ele ter pego a doença, mas nada. Bem que haveria de novo.

O Jurgis Karklim voltou para casa na semana passada, mas a grande máquina não foi vista correndo pelo Rio Novo; também luz elétrica não foi vista por aqui.

Ele contou que em Porto Alegre morre gente como moscas e que viaturas andam pelas ruas catando cadáveres — mais de mil por dia, o que impossibilita enterrar todos. Em São Paulo e no Rio também é igual; ele se salvou porque carregava um vidro de creolina junto ao nariz por todo tempo. Mas ele é muito papudo, muito prosa.

Bem, desta vez não tem nada de novo. Agora você poderá escrever bastante porque está de férias. Quanto a nós, não sei quando vamos chegar aos nossos “dias livres”.

Bem, onde você, mora e o que fazes? Quem te faz comida? O Inkis está lá? Este ano ele não foi para Nova Odessa? Em Nova Odessa este ano vai haver uma grandiosa festa de Natal com a inauguração do novo templo da igreja e a nossa igreja também foi convidada para as festas.

E o Jurka, não te escreve? Dizem que ele arrendou uma parte do terreno do Leeknim para plantar algodão. Dizem que o pessoal de Nova Odessa está muito feliz com a guerra porque o algodão está caro, mas eles que não se alegrem demais, pois com o fim vai baixar de novo. Então será como disse o Ernesto Sleengmann: quando baixar e não houver mercado, onde eles vão enfiar todo este algodão? Só se for para tecerem cordas para se enforcarem…

Negociantes de Orleans estão avisando que com os acordos definitivos do fim da guerra, tudo vai ficar mais barato. E os alemães realmente perderam a esta guerra. O que vai fazer o Grünfeldt. que dizem emprestou 100$000 Réis para a Alemanha ganhar a gerra? Pode esperar…

Você pergunta se estamos lendo os jornais. Eu e a Mamãe estamos lendo sim. Você deve renovar a assinatura para o ano que vem e pode mandar direto para o Rio Novo; se continuar assim, você redespachando, então poderia escrever recados pelas beiradas.

Você continua se correspondendo com o Ludi? Você sabe o que o grande “alemão” está fazendo agora?

Bem, agora chega. Vou aguardar uma longa carta. A censura devia parar de abrir as cartas pois a guerra já acabou.

Desejamos uma alegre Festa do Nascimento de Cristo e um Feliz Ano Novo.

Com sinceras saudações,

Olga [Purim]

Muito serviço | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 20 de setembro de 1917

Querido irmão,

Estou escrevendo novamente uma carta, sem de você ter recebido nenhuma e tão somente os jornais. Os jornais tem chegado regularmente, então podes aproveitar e colocar uma carta mais longa dentro dos jornais, que possivelmente chegará mais segura.

Aguardo cartas suas todos os dias; aquela primeira faz quatro semanas que mandei. A outra faz três semanas e foi registrada e com 100$000 dentro; na semana passada mandei um pacotinho com um par de meias e dois lenços de bolso, mais uma carta da Mamma e 10$000 em dinheiro. Tens recebido todas estas cartas? Se não me escreva que vou reclamar nos Correios para que eles procurem.

Nós estamos todos bem e todos com saúde. O tempo está nublado e chove um pouco. No domingo passado sim, choveu muito, começou sábado a noite e foi até segunda de manhã. Ninguém pôde sair para ir à igreja no domingo. Agora tudo está começando a ficar verde. A primavera está chegando.

Estamos agora com muito serviço: temos que plantar, capinar, etc. Milho nós plantamos quatro quartas (um alqueire); [também plantamos] 1.500 canas de açúcar, 400 canas para o gado, 400 mandiocas grandes e ainda batatas-doces e carás. Quanto às plantações estão indo muito bem, lembro que ano passado nesta época não tínhamos plantado nada.

Daqui de casa não tenho nada mais para escrever. Você pede que eu escreva longas cartas, com novas notícias, mas você sabe que notícias novas são poucas; não recebo telegramas de outros lugares e o que os outros falam por aí não sei se é verdade.

O casamento da Mile teve muita chuva no dia anterior e estradas estavam muito lamacentas. O casamento começou lá pelas 13 horas; o sol estava a um bom pedacinho no céu e o pessoal já ia embora. Tinha pouca gente. Até o Arnolds, Jurka e o Arthurs foram convidados para a segunda festa na casa do Frischembruder, para a qual só foram convidados parentes e amigos muito íntimos.

O Frischembruder não pôde fazer uma grande festa de casamento, porque as coisas estão muito caras e está com dívidas até as orelhas. O João Frischembruder tomou, por conta de uma dívida de 100$000, um instrumento de sopro dos músicos de Orleans. O João diz que tem um casaco para inverno que custou 120$000, com a gola de seda e os botões de diamantes…

O Kirils Karkle está de volta em casa. No Rio Novo um velhaco a mais… O Karlis Salit te escreve? Os rionovenses estão dizendo que ele está preso na cadeia. Dizem que ambos, ele e o Peteris, foram convocados para a guerra; o Pedro [Peteris] teria ido, mas o Karlis, rapaz pilantra e sem-vergonha, teria enfrentado e desacatado os superiores e por causa disso sido posto na prisão. Os rionovenses estão felizes porque ele estaria na pior.

Bem, por hoje chega. Pode ser que eu receba logo sua carta e daí te escrevo de novo. Aqui em Orleans e em Tubarão o povo sofre com uma epidemia de varicela, mas como já tivemos acho que aqui não vai atrapalhar.

Com muitas saudades, lembranças de todos nós,

Olga [Purens]

São poucas as que chegam | Olga Purim a Reynaldo Purim



Querido irmão,

Hoje recebi a tua carta escrita no 1° de abril. Muito obrigada. Escreves que mandaste uma carta para o Papai, e esta não recebemos. Recebemos apenas uma carta escrita do Rio para a Mamãe e aquelas que escreveste de São Paulo. Mandei uma carta no dia 30 de março, junto com um pacote contendo dois chapéus. Você já recebeu? Aqui estamos todos bem e estamos com saúde. Agora, quando chegar em casa [em Rio Novo] vou escrever uma carta de verdade para você. Não se preocupe demais com as cartas suas que não chegam aqui: são poucas as que chegam. Muitas lembranças de nós todos.

Olga

Orleans, 13 de abril de 1917