Agora nos estamos passando suficientemente bem. | De Lucija Purim para Reinaldo Purim – 1927 –

Rodeio do Assucar 27 de julho

(Não esta grafado o ano, mas pelo contexto infere-se ser de 1927).

Querido irmãozinho!

A tua carta escrita em 19 de maio recebi. Muito obrigado. Agora o envio e recebimento de cartas não são como antigamente como quando você morava no Rio de Janeiro, pois naquele tempo as cartas iam e voltavam rápido, mas agora demoram até 3 meses ou mais e quando elas se desencontram ai a gente cansa de esperar por elas e às vezes passa o mês sem que a gente receba carta alguma.

Nós agora estamos passando suficientemente bem. Todos mais ou menos sãos, agora eu peguei uma tosse muito forte, mas não fui para a cama. Na semana passada sim o Paps foi para a cama, mas agora já está bom. No final do mês passado o Arturs ficou doente com a febre [Deve ser malária, pois esta doença era comum ainda quando eu era pequeno e morava lá.]. Ficou de cama algumas semanas e tanto que eu tive que ir a Orleans em busca de remédios para ele, então depois ele sarou, mas a febre está atacando a muitos por ai.

Agora o tempo está bom e está frio, já faz quase um mês que o tempo se mantém bom e muito frio e toda manhã amanhecia tudo branco. Agora tudo está morto queimado pelas geadas. O gado não tem nada verde para comer. Agora na semana passada ficou um pouco mais quente e no sábado a tarde veio uma chuva, mas no outro dia que o tempo amanheceu limpo e está geando outra vez. Estou um tanto cansada de tanto frio e gostaria que fosse um pouco mais quente, mas nem tudo que uma pessoa quer nem sempre acontece. Um inverno frio como este fazia muito tempo que não acontecia como está sendo este ano. Deverá haver a partir de agora um bom verão. Não deverá haver tantas lagartas e besouros que comem as plantações e assim podem se desenvolver melhor. Aqui os italianos dizem que se não há um inverno rigoroso, então no verão nada se desenvolve bem. Agora eu não concordo inteiramente porque no ano passado não tivemos um inverno frio e as plantações para nós foram ótimas.
O milho já está todo colhido e guardado nos paióis, portanto poderemos tranquilamente comemorar a Festa da Colheita. Este ano o milho desenvolveu-se muito bem e muito melhor que no ano passado, pois colhemos 35 carradas [Em um carro de boi cabiam x jacás ou balaios de milho tanto se fosse usada a seve que era uma cobertura lateral e também frontal fixa aos fueiros feita de taquara e cipó de um metro de altura fazendo com que o aproveitamento da mesa do carro de boi fosse totalmente otimizada para o transporte do mesmo ou se fosse usada a armação gradeada de madeira que tinha a mesma finalidade, mas em vez de ser uma peça flexível era composta de duas laterais com encaixes apropriados para duas tampas uma dianteira e outra traseira, mas também fixada nos mesmos fueiros.] e em todas as roças as espigas eram grandes quase não sobrando restolhos [Restolho era uma segunda espiga do colmo ou uma não bem desenvolvida usada naquele tempo para alimentação das vacas e isso era feito enquanto eram ordenhadas. Não eram dadas espigas grandes porque elas podiam engasgar e se afogar. Naquele tempo lá não existiam os desintegradores e quando não havia espigas pequenas as normais eram cortadas com facão ou machadinha. Como o milho era armazenado do modo que chegava da roça era feita catação na hora da necessidade e muitas vezes quando a noite no escuro devido a falta de luz a avaliação era feita baseada no tato] para alimentar as vacas.

No mês passado no dia 26 morreu o velho Auras, ele ficou doente vários meses. A doença dele começou com um resfriado e apesar dos familiares acharem que ele iria sobreviver e ficar bom, pois ele não era tão velho, pois tinha somente 56 anos de idade, mas agradou ao Senhor leva-lo para a sua nova habitação e a sua glória. Resta o desconsolo dos familiares e amigos.

O pastor Stroberg na semana passada esteve em Mãe Luzia acompanhado de músicos e cantores que foram dar apoio ao seu trabalho. Depois foram também à Laguna também fazer trabalho de evangelização. Voltaram para casa muito felizes porque o trabalho foi um sucesso. Em Laguna eles foram agraciados com a cessão do Teatro inteiramente grátis então houve um grande auditório de gente atenciosa e ainda solicitando para que fossem outras vezes. Também tiveram um grande apoio de uma distinta família presbiteriana que ajudou a providenciar o auditório e divulgar as atividades. Para o pastor Stroberg as portas estão abertas em toda parte e só ir trabalhar, mas como pode uma pessoa sozinha fazer tudo e ainda mais complicado devido as grandes distâncias e assim dificulta o acesso.

Na semana que vem é esperado o Missionário Deter aqui. Vamos ver se vem mesmo, pois algumas vezes têm prometido e não tem conseguido vir.
No dia 22 de junho viajou para o Rio de Janeiro o Alexandre Klavin acompanhado o Wiktor Staviarsky. O Alexandre vai para o Colégio aprender ser Professor.
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Então depois de passado um bom tempo que eu comecei escrever esta carta, já há mais de um mês então tenho que continuar. Na semana passada recebi a tua carta escrita no dia 24 de julho e por ela muito obrigado e fiquei feliz por que você respondeu rápido. Eu nunca tinha sido tão preguiçosa como agora, mas também não vou ficar me desculpando como faz a Lilija [Lilija Purens a prima de Nova Odessa] Tenho ouvido falar ai por outras pessoas que a Lilija ficou noiva de um Fulano de tal, mas para nós ninguém escreveu nada. Vou ter que escrever e perguntar se é assim mesmo.

A festa de aniversário da Igreja [O aniversário da Igreja era dia 20 de Março]foi muito boa, o programa bastante extenso. Chovia torrencialmente, mas o templo ficou repleto e quando tem café grátis com acompanhamentos então ainda mais fácil vir muita gente. Tinha 3 visitantes de Mãe Luzia e um de Kuritiba que é o pastor de lá o Djalma Cunha, Ele trabalhou muito no Norte do Brasil e estudou no Seminário Teológico de Recife e agora está em Kuritiba. Ele é bastante jovem e ativo tem 33 anos e a cor morena queimada pelo forte sol do Nordeste. Ele veio uma semana antes da Festa, sem ninguém estar esperando e foi embora uma semana depois. As lições que o Pastor Djalma Cunha ofereceu no Instituto Bíblico foram ótimas e valeu a pena mesmo, lamentável foi que coincidiu com a época das grandes enchentes, pois chovia sem parar e assim muitas pessoas não puderam vir. Também havia planos para fazer cultos de evangelização em Orleans e pelo mesmo motivo deu em nada. O Pastor Djalma prometeu voltar no mês de outubro por ocasião da Festa de Aniversário da União da Mocidade e também quer apresentar um Curso baseado no livro “Manual da Mocidade”.

Depois do Instituto no dia 22 de março houve o Casamento do Willis Slengmann com a Elvira Salmin Stroberg que era viúva. Então você pode imaginar todo povo marchando num imenso lamaçal para a casa dos Slengmann. Agora eles não moram lá dentro onde eles moravam antes e sim desceram para lá um pouco acima do passo do Rio Novo [Neste lugar onde os animais, carros de boi, arranhas e galeotas passavam por dentro d’água. Somente os pedestres e os cachorros passavam por uma pinguela. O meu pai que trazia mercadorias da Estação da Estrada de Ferro para a venda do Tio Eduardo Karp neste lugar muitas vezes teve que passar toda mercadoria nas costas devido o rio estar cheio demais].
Já no meu tempo quem morava ali era o Eugenio Elbert casado com a Alida Slengmann e continuavam com a atafona moendo milho, sal, etc. e também tinham uma trilhadeira onde nós levávamos trigo cortado para ser debulhado. [Ao redor da casa havia muitas árvores europeias como bétulas, plátanos etc.]. Ele mora agora onde o outro Slengmann tinha uma atafona junto ao Rio Novo onde que a gente sempre tem que atravessar.

Durante a Páscoa o tempo esteve bom e muito quente como fosse pleno verão, raramente houve calor assim, mas depois começou a chover outra vez. As Festas da Páscoa transcorreram calmas por que o Pastor tinha ido a Mãe Luzia e nós aqui ficamos sem o Pastor. Ele ainda foi a Laguna. Em Laguna o trabalho vai em frente apesar de com tanta rapidez não é possível fazer obras grandiosas. Se lá tivesse um obreiro fixo então teria muito mais oportunidades de que o trabalho fosse para frente rápido e não como hoje quando as viagens são quase esporádicas. O Pastor Stroberg tem muito trabalho então ele convide e convoca outras pessoas para o auxiliarem, mas as dificuldades são que muitos lugares são distantes e de difícil acesso. Na semana que vem o Pastor planeja ir, a Urubici, no outro lado das Serras. Ele quer visitar os Grikis e os velhos Bruvers. O mano Artur está planejando ir junto e vamos ver se vai mesmo.

Não me lembro se já escrevi sobre o casamento do Werner Grikis com a Elza Sanerip no dia 30 de setembro do ano passado.

A senhora Klavin da “mata [Mejza Klavene – Distingue a Senhora Klavin que morava no Rio Novo (Katy) da outra que morava lá no interior da Invernada –nas matas. Esta senhora era da família Malvess e antes fora casada com o Simpson que depois de viúva casou com o Klavin.] está muito doente e não sei se vai sobreviver, ela sempre foi um pouco doente, mas não tão gravemente com agora, pois agora sempre está de cama.

Junto com esta estou mandando uma fotografia de um piquenique no pasto do Augusto Felberg e a outra é do coro da Igreja do Rio Novo. Agora não está mais tão grande. Você ainda pode reconhecer alguém? Quem está sentada ao lado do Osvaldo Auras é a Lídia Stoberg irmã do pastor.
A terceira fotografia a pessoa [Deve ser do Eduardo Karp, naquela época, namorado dela.] que aparece se você não a conhece não tem importância ele também quer conhecer você melhor e manda muitas lembranças e votos de bem estar.

Se na América onde você está tem pêssegos e melancias deliciosas então mande as sementes para nós plantarmos aqui. Tudo o que for bom e barato pode mandar. Também cartões e outras publicações onde aparecem os lugares onde você está também pode mandar. Quando você vem para casa? Pelo que eu deduzi das suas últimas cartas você está pensando vir para este lado.
Bem desta vez chega de “imprimir”, pois já está uma longa carta e eu também não tenho mais papel. Aquela carta escrita para o Arthur foi recebida há muito tempo. Ainda lembranças de todos aqui. Agora fico aguardando longa carta sua. Lucia.

(Escrito na lateral)
O endereço do tio André é o seguinte:
Ratujza Iela N.17 – Jaunjelgava – Latvija.
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Você é um ignorante | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 2 de setembro de 1919

Querido Reinold,

A tua carta escrita em 17 de agosto recebi no dia 21 de agosto. Obrigada! Precisava ter respondido mais rápido, mas como ninguém ia para a cidade para levar ao correio, foi ficando e demorei a escrever. Ainda estou esperando resposta de duas cartas: uma mandei no dia 1° de agosto e outra no dia 15 de agosto, as quais espero que tenhas recebido.

Fiquei muito alegre em saber que você está sempre passando bem e que estás com saúde. Nós também, agora estamos bem graças ao bom Deus, e todos com saúde. Mas semanas atrás estivemos todos com influenza; doía muito a cabeça e [tínhamos] moleza em todo corpo. O Pappa ficou vários dias de cama. Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água.Nós, os demais, com tanto serviço não tínhamos tempo de ficar de cama.

O tempo está muito variado, ora quente ora frio. Houve dias tão quentes que parecia verão, e soprava um vento quente do lado da Serra [noroeste]. Depois, na semana passada, deu três dias de chuva e vento frio; hoje está meio nublado e é possível que volte a chover.

Agora as laranjeiras estão em plena floração e as árvores estão literalmente brancas. O milho terminamos de colher no dia 20 de agosto; uma plantação de 17 quartas de semente rendeu 135 cargas, que foram despejadas no paiol. Ano passado foi plantada uma área menor e rendeu 195 cargas. Era porque naquele ano as espigas eram grandes, e este ano são menores, tanto que podem quase diretamente ficar para as vacas.

[NOTA: Espigas de milho pequenas eram chamadas de “restolho” e as vacas podiam comer direto sem perigo de se engasgarem e se afogarem, o que acontece com frequência com o gado.]

Este ano não foi um ano bom para o milho; em Orleans o preço da saca já está 6$500. Comprar milho para o gasto está fora de qualquer cogitação. Se faltar milho, os porcos vão passar somente com inhame, pois este ano eles não pegaram geada e na Bukovina em toda baixada está correndo água (mesmo em lugares em que nunca havia nascentes), então vai dar para passar.

Agora estamos derrubando uma capoeira lá perto do monjolo, mas você é um ignorante, não sabe mais nada daqui, então vou dizer que é lá onde antigamente tínhamos uma horta — assim é possível que você se lembre. Agora, como um morador de cidade grande, caso vier para cá você seguramente vai se perder logo no primeiro dia.

Quanto ao Rio Novo, vai indo de modo variado [em leto, “eet raibi”]. Os mensageiros da Convenção enfim voltaram, chegaram dia 14 de agosto. Como tinham saído no dia 31 de junho, você pode calcular quanto tempo eles ficaram fora.

A viagem foi boa, a falta de sorte foi com os meios de condução (navios) em todas ocasiões. O Robert ainda não esteve aqui em casa para contar as peripécias da viagem. Pode ser que ele tenha escrito minuciosamente para você. O Butler aqui na Igreja contou uma coisa e outra, que de modo geral a viagem foi boa.

Saíram na segunda-feira com informações de que haveria um navio em Laguna, mas lá chegando o navio já tinha levantado ferros e partido. Seguindo informações e palpites de que em Imbituba estaria um navio grande sendo carregado, no outro dia pegaram o trem e foram até lá, mas este também já tinha ido embora e para o outro lado, para o sul, Porto Alegre. Então voltaram: o Butler ficou em Tubarão, na casa do Ziguismundo Anderman, e o Robert e o Klava vieram até Pedras Grandes para visitar o Onofre.

Então na sexta-feira pegaram o “Max” da Karl Hoepke e foram até Desterro [Florianópolis], porque ele não segue mais longe. Mas ali souberam que havia um navio atracado na parte norte da ilha, e daí pegaram uma lancha a motor e conseguiram embarcar; mais dezenove horas e estavam em Paranaguá.

Resumindo, de Rio Novo até Paranaguá foi exatamente uma semana de viagem.

Sobre a Conferência não tenho muito que escrever, pois o Deter ainda não mandou as estatísticas e as atas [em leto, “protokulus”]. O Butler foi o presidente [dirigente] da Convenção e todos os dias havia três reuniões; os letos tiveram que cantar muito.

Os letos eram ao total quatro, porque veio também o Broks de Blumenau.

Depois das conferências ainda estiveram em Antonina e daí viajaram para Kuritiba pela mais bela estrada de ferro do Brasil. Ficaram então uma semana em Paranaguá e uma em Kuritiba. O Klava ainda viajou para São Paulo.

Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água. Se de manhã você lava o rosto, à tarde não pode mais lavar porque não tem água.

Ainda estiveram em Blumenau: o Robert se acomodou na casa do Janausks e o Butler ficou com os Suti. Ambos moram perto da igreja. Mas eles não ficaram muito tempo por lá, porque foram também visitar a Linha Telegráfica, onde moram os Straus e outros pentecostais. Ali os cultos são “extraordinários”, pois de longe se pode escutar como gemem, correm de um lado para outro, andam de quatro, etc. Os nossos chegaram atrasados e assim não foi permitida a entrada; eles ficaram “apreciando” pelas janelas. O Butler disse que o comportamento deles nada tem com o movimento espiritual que ele conheceu nos Estados Unidos. Este mais parece certo povo que adora ídolos na Índia.

Neste mês vai haver a festa de aniversário da União de Mocidade. Estamos aprendendo a cantar todas as quartas-feiras à noite. O Oswaldo Auras é o dirigente que ensina. E nas noites dos últimos domingos de cada mês os jovens apresentam um programa livre, de partes práticas. Cada um pode apresentar o que quiser: poesias, partes musicais, opiniões, comentários, etc.

Durante as férias você bem que poderia viajar para casa. Falta pouco tempo para fazer três anos que estás longe de casa.

Você escreve que o Deter quer que você venha para o Paraná. Quanto isto vai custar? Sem 200$000 nem pensar, e de trem fica mais caro ainda. E porque ir para um lugar de pessoas estranhas? Nós pensamos que você poderia vir para casa ou então ficar na Escola como no ano passado. Mas ir para outros lugares nunca dissemos.

Agora os navios que vêm para Laguna tem a terceira classe, e esta não custa tanto quanto a dos grandes navios que aportam em Imbituba.

Nós o dinheiro vamos mandar, mas no correio de Orleans não tem aquele “vale postal” porque são muito poucas pessoas que mandam dinheiro daqui. Se existissem, seria muito prático e barato mandar por este sistema.

Você sabe se o Fritz Janausks vai viajar ou vai ficar aí mesmo? Hoje, 3 de outubro, enviei através do Pinho 100$000 e eles garantiram que desta vez vai chegar mais rápido do que na outra vez. Se demorar, podes perguntar lá se ainda e porque não chegou. Amanhã é dia da mala postal, pode ser que chegue alguma carta sua.

Se você não pode ficar aí, venha para casa. A Mamma não quer que você viaje para outro lugar.

Com lembranças,

Olga