Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 1

Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

1

Durante longos anos cultivei em meu coração um desejo: antes de morrer quero rever meu irmão mais velho, que não vejo há quarenta anos, desde quando nos separamos em Jaunjelgava. Inúmeras vezes roguei a Deus com este objetivo, que me proporcionasse o caminho, que a Sua vontade me fosse favorável.

Alguns meses atrás este meu desejo se realizou, quando encontrei amáveis companheiros de jornada, que também me ajudaram quanto à língua portuguesa. Embora o caminho por terra não seja longo, por mar viajamos quatro dias, do porto de Santos até Imbituba, que é um pequeno porto no estado de Santa Catarina. Era sábado de manhã quando tomamos assento no trem de bitola estreita e partimos rumo Orleans. Oito quilômetros à frente nos aguarda a Colônia Rio Novo, composta de imigrantes letos.

A viagem [de trem mostrou-se] deveras interessante: temos que atravessar um braço de mar [NOTA: Lagoa do Imaruí, ponte de Cabeçudas], e a ponte ultrapassa um quilomêtro de extensão. Em Orleans chegamos às 4 horas da tarde. Saindo da composição ferroviária, meus companheiros de viagem, conhecendo a cidadezinha, dirigiram-se à residência da família Stekert, para lá deixar as malas e em seguida, aliviados do peso, seguir a pé para Rio Novo.

A irmã Stekert não permitiu que saíssemos sem demonstrar sua hospitalidade. A mesa estava posta com um gostoso café e pão com manteiga. Agradecemos a Deus, servimo-nos e apressamos rumo ao Rio Novo.

O sol se pôs e continuamos com o luar. Caminhamos conversando e fazendo conjecturas, tendo em vista que estaremos surpreendendo os parentes, aos quais de propósito não demos qualquer notícia. Veremos: será que me reconhecerão?

Os companheiros mostram e contam: aqueles montes pertencem ao irmão tal, aquelas planícies pertencem ao irmão fulano; aquela é a residência do irmão Slengman, aquela outra do irmão Frischembruder. Está vendo aquele monte com uma mata? Sim, vejo. Veja, aquela terra é do seu irmão.

Andando mais um trecho vemos na beira do caminho uma construção feita com esmero. Meus companheiros perguntam se posso adivinhar que construção é esta. Como poderia saber? Eles dizem: é o templo da Igreja Batista Leta de Rio Novo, onde amanhã estaremos orando a Deus e ouvindo o evangelho.

Caminhando mais um trecho vemos mais uma casa. Os companheiros informam:

— Olhe, esta é a residência do seu irmão.

Meu coração começou a disparar. Como será o reencontro? As janelas todas escuras, todos dormindo. Meus companheiros me conduziram até a casa, me deram uma lamparina para eu bater palmas sozinho e acordá-los. Os companheiros permaneceram ocultos na escuridão aguardando os acontecimentos.

Vejo, abre-se uma janela. Uma voz pergunta:

— Quem é o senhor?

— Sou um viajante e procuro pousada.

— Mas o senhor é desconhecido… Diga quem é?

— Diga ao proprietário que venha me reconhecer — respondo. — Ele já me viu muitas vezes, pode ser que possa me reconhecer.

Chega o irmão à janela, olha e diz:

— Eu também não conheço o senhor.

— Então, por favor, venha para fora e me veja de perto.

Dirijo a luz da lamparina para meu rosto para que ele veja melhor e digo:

— O senhor certamente me viu centenas de vezes; não consegue lembrar?

Meu irmão meneia a cabeça e afirma que não me conhece mesmo. Minha cunhada, sendo lépida e ágil, diz:

— O senhor será o Purens?

— Sim, sou eu mesmo! — respondo, e começamos as alegrias do reencontro, os cumprimentos, a surpresa e os convites: entre, entre! Entre!

Meus companheiros de viagem são Guilherme Klavin e sua irmã Marta, que estão aqui porque foram convidados para o casamento de seu irmão mais velho, Roberto, que será na semana seguinte em Mãe Luzia, onde a noiva reside. Até a residência dos pais deles são mais sete quilômetros; com o auxilio da lamparina, despediram-se e seguiram adiante.

Começamos então a conversar com meu irmão, e logo nos aprofundamos em interrogações e troca de informações e experiências.

Enquanto conversávamos a ágil dona da casa estava na cozinha. Não tínhamos terminado a primeira etapa da conversa quando a mesa já estava posta e uma amável voz chamava:

— Por favor, viajante, venha ao jantar!

Agradecemos a Deus e comi com satisfação, pois tínhamos caminhado por longo trecho. Fomos conduzidos à sala de visitas, [e pudemos] louvar a Deus e agradecer-lhe pela Sua Misericórdia e proteção aos Seus filhos, por como Ele ouve nossas preces e mostra Sua Benignidade em todas as ocasiões. Acima de tudo, meu coração se alegrava e louvava a Deus porque encontrei meu irmão e seus familiares amando a Deus, lendo a Bíblia, orando todos os dias. O espírito cristão introduziu raízes profundas na vida desta família. Que o eterno Deus dos profetas e apóstolos os mantenha em permanente crescimento até o fim, quando Cristo voltar em sua plenitude.

Começo a perguntar:

— Onde está o Artur [Otto], seu filho?

Respondem que viajou para Mãe Luzia, foi buscar a noiva, trazê-la para cá e realizar o casamento [NOTA: Artur Purim era o meu pai, e o casamento dele com minha mãe, Verginia Fernandes, realizou-se no dia 25 de setembro de 1931]. Que surpreendente e feliz oportunidade! Assim, sem saber, cheguei exatamente na ocasião das bodas!

Conversamos mais alguns assuntos e o cansaço nos venceu, sendo que o relógio marcava mais de meia–noite. Mamãe soneira nos convida ao seu regaço e diz: durmam, para que o bondoso Deus vos conceda novas energias.

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