As pessoas de lá são como nós | Lucia Purim a Reynaldo Purim

[Sem data, mas deve ser 29 de abril de 1920]

Querido irmão!

Primeiramente envio muitas lembranças. Agora estamos passando bem. Esta noite está chovendo uma chuva miúda e está um pouco frio.

Estou com um problema no ouvido; não escuto bem, por isso não vou escrever uma carta muito longa. Tenho que estudar, se não na escola não vou passar bem. Estou começando a fazer divisões e a traduzir do alemão. Agora nos feriados nacionais, que serão no dia 1° e 3 de maio, não haverá aula [comemorava-se o descobrimento do Brasil].

No dia da Ascensão do Senhor haverá piquenique e já foram distribuídas as partes para decorar.

Você quer saber se o pessoal está preocupado e preparando-se para a Convenção [Batista do Paraná e Santa Catarina]. Na casa dos outros não sei, mas nós estamos engordando um peru, um galo e três galinhas; também foi feito um forno novo para os assados, limpamos o jardim, cuidamos das flores e as salas deverão ficar brilhando. Estamos nos aprontando como se fosse para uma guerra.

Foi designado que se vier alguém de Rio Branco esses virão para a nossa casa, pois as pessoas de lá são como nós. Ninguém quer hospedar as figuras importantes das cidades, e os mais espertos já escolheram os seus hóspedes. A maioria prefere ficar com os macacos de 5$000 aqui de Orleans e adjacências do que pegar uns de 50$000; a gente tem medo que tantas pessoas inteligentes juntas fiquem querendo arrancar uma o olho do outra.

Os Klavin e os Leiman também estão prontos para receber hóspedes, mas lá é muito longe e ninguém vai querer ir. A senhora Leiman disse que se a senhora Regis vier ficará lá na casa dela. O Deter e a esposa ficarão na casa do Sr. Frischembruder, e quantos na realidade virão eu não sei.

Bem desta vez chega. Amanhã vai haver matança de porcos, por isso temos que levantar cedo.

Com muita saudade,

Lusija

Mas assim mesmo é grande escritor | F. J. Janowoski a Reynaldo Purim

Rio Branco, 23 de março de 1920
[NOTA: Rio Branco era uma colônia leta entre Massaranduba e Bananal — atual Guaramirim]

Querido amigo Reinold!

Que a paz do Senhor esteja com você! Desejo em mais este ano de estudos todo sucesso, diligência e energia.

A tua carta recebi no dia 6 de março. Obrigado por tudo que me compartilhastes. É pena que as tuas esperanças para um breve reencontro não se concretizaram. Quanto à escola, ficaram dúvidas sobre a minha possibilidade de voltar, mas como um mistério indecifrável, os meus pensamentos e a vontade de voltar se desvaneceram com uma escura nuvem persistente que se abateu sobre a nossa família, que em outros tempos era um céu maravilhoso. Estou com coração e alma abatidos, e não sei como sair.

O pastor Karlis Leimanis declinou o convite para vir trabalhar aqui na igreja, e entendo porquê. O convite definitivo, como também a promessa do dinheiro para a viagem (300$000), que dependiam de diversas fontes, demorou muito para ser conseguido. Não bastou para que o Karlos pudesse deixar os seus compromissos já assumidos no ano passado junto a outras pessoas e tivesse certeza do cargo aqui na igreja. Agora que a igreja tem quase certeza que o Karlos Leimann não vem mais, está estudando a possibilidade de convidar o E. Akschembirse, mas continuam as dúvidas sobre a sua capacidade no trabalho nas missões.

Para a Convenção Batista de Paraná/Sta. Catarina, a ser realizada em Rio Novo, a igreja aqui elegeu como mensageiros a mim e o E. Looks, que deveremos às nossas custas ir até lá. Portanto temos que nos aprontar, para que lá pelo dia 15 de maio estejamos por lá em Rio Novo.

Agora mesmo, no dia 21 de março, a nossa associação “Sociedade Patriótica Leta” comemorou uma belíssima festa cívica a fim angariar fundos para ajuda dos refugiados letos da Grande Guerra. O resultado do evento foi de 400$000 ( quatrocentos mil réis).

Agora quem está hospedado aqui em casa é o seu avô [Jekabs/Jacó] Rose, que ao vir do lugar em que mora em Timbó, se perdeu e ficou vagando duas semanas até que conseguiu chegar até aqui. Aqui ele procurou trabalho para conseguir dinheiro para visitar o filho em São Paulo [Ludvig Rose]. Ele visitou todas as pessoas da comunidade leta, mas infelizmente nada conseguiu e agora está se aprontando para voltar para Timbó. É uma pena que uma pessoa com essa idade tenha tantas dificuldades.

Junto com esta estou enviando em teu nome a quantia de 22$000 para que seja aplicada na construção do templo da igreja batista de Pilares, que foi arrecadada pela nossa igreja. Junto eu mando do meu bolso 2$000 para as tuas despesas de viagem. Também envio uma fotografia onde quem aparece sentado junto comigo é o jovem R. Loks, rapaz de caráter firme, confiável, determinado em suas tarefas e obrigações e que nunca esteve um dia só em qualquer escola, mas assim mesmo é grande escritor e sonha com uma oportunidade para se aperfeiçoar em seus conhecimentos.

Como está o Seminário? Têm aparecido novos estudantes?

Com amável saudação e desejando tudo de bom,

Seu amigo

F. J. Janowoski