Na entrada da barra o vento forte e as ondas lavaram o convés … | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim- 1925 –

[Carlos Leimam era um pastor leto de Rio Novo a serviço da Convenção Batista do Parana/Sta Catarina]

Paranaguá, 6 de julho de 1925.

Prezado irmão Reynaldo

Saudações

Somente hoje depois de variados e diversos acontecimentos consegui chegar em casa!
Em Nova Odessa fui um participante da grande Festival de Hinos Sacros onde houve bastantes coisas agradáveis. Conheci o pastor Kraul. Encontrei-me com o Drrr. Ed. Alhsbirze: depois de não sei quantos anos; não mudou nada: a soberba e mania de grandiosidade continuam apesar de ter conseguido ir em frente—- Falou pela manhã em leto- uns 10 minutos e destes 7 gastou com o nome mais importante para ele a palavra “EU” e a noite ele falou em português [para isso ele tinha sido convidado], mas, talvez algum grego o tenha entendido! Eu fiquei com vergonha de ouvi-lo. Tive dó do idioma português. Triste.
Aqui ouvi bastante sobre os Pente…[Devem ser os pentecostais do Acampamento de Palma] Os maiores milagres que acontecem lá são a ladroeira e a escravidão humana. O novo Inkis de uma só tirada roubou 26:000 – 26 contos de réis e se instalou em um dos mais elegantes hotéis em São Paulo- Vive que nem? E outros seguem o seu exemplo. Então Senhoras adolescentes viúvas são levadas para as fazendas de café onde sem abrigo ou qualquer outra preocupação, com a enxada na mão da alta manhã até à tarde da noite para ganhar 1850 por dia. A caixa deles é em conjunto. Daqueles 1500 vão para a o Acampamento de Palma. Como contribuição espontânea de boa vontade. E é esta contribuição liberal J. Inkis Jr. viaja para cima e para baixo. Parece lendário? Não é?
Eu dirigi vários cultos em português e o povo está sedento pela verdade, mas quem vai anunciar. De quem eles vão ouvir? O pessoal de Nova Odessa está em rota de colisão com o Pastor Kraul. Encontrei-me com o Pastor K. Andermanis e ele está completamente bobo.
Quinta feira subi ao convés do navio em Santos. Devido as terríveis tormentas somente, domingo pela manhã o navio aproximou-se do Porto de Florianópolis e logo que chegou a parte rasa, um barquinho, nos levou-nos para a praia. Em Fpolis encontrei-me com Beno Slegmann. Então na noite de Domingo nós nos transferimos para outro navio, outra vez contra o vento. Hoje pela manhã aproximamos a Barra de Paranaguá 2 navios esperavam pela alta da maré. O nosso capitão não esperou. Na entrada da barra o vento forte e as ondas lavaram o convés do nosso navio com tivesse ficado debaixo d’água. Felizmente entramos no porto.

Em casa tudo bem. Desejo o melhor para você. Saudações.

Carlos Leiman

[Desculpe os rabiscos.].

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Os nomes deles (dos navios) são: Itaipava, Itaituba e Itaperuna. | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim – 1923

Paranaguá 13 de novembro de 1923
Caro Purim
Saudações!
Sei que você está muito ocupado com trabalho e estudos e ainda se aprontando para os exames finais e estou pensando que logo você vai se mandar de viagem para este lado.
Como ainda estarei em Paranaguá. Quando passares por aqui gostaria que me avisasse em que navio tu virás.
Os melhores que vão para Imbituba são os da “Companhia Nacional de Navegação Costeira” e estes navios levantam ferros no Rio nos dias 8, 18 e 28 todo mês. Os nomes deles são: Itaipava, Itaituba e Itaperuna.
Gostaria de encontrar com você e conversar sobre diversos assuntos que estou planejando, já no mês que vem, ir embora, mas não tenho certeza se vai dar certo. São tantos os obstáculos e tanto trabalho.
Na semana que vem espero viajar até Joinville e possivelmente organizar uma nova igreja.
Espero a informação para poder me encontrar com o navio que sai do Rio dia 28 ou dia 8.
Com muitas lembranças
Carlos Leiman

…fora do ninho para ver que vento sopra lá fora. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 10 de 1921
Querido Reynhold!
Primeiramente enviamos muitas e amáveis lembranças.
Ante ontem depois de um violento temporal de chuvas ventos e trovoadas a tarde, a Senhora Klavin vindo da cidade passou em casa trazendo para mim uma carta sua que tinha sido escrita no dia 20-2. Obrigada. Ficamos muito alegres em saber que você esta passando bem. Nós também estamos passando bem.
O tempo está sempre chuvoso, os lamaçais imensos, diferente das chuvas de inverno, pois agora a violência das águas abre imensas valetas. Os rios estão transbordando de tão cheios e resumindo água até demais. Continuamos a virar o milho entre o feijão e cortar as samambaias que teimam em crescer aqui e ali.
As melancias este ano deram bem bonitas e deliciosas. A maior pesou 7 kilos. Outros que plantaram mais levavam de carros de boi para vender na cidade. Nós não fizemos estas bobagens.
Os “escrivinhadores” já mandaram as suas cartas em 19 fevereiro quando também mandamos 1 kg de mercadorias. Continha 2 pares de meias, 2 camisas, 2 calças, 2 colarinhos, 2 gravatas e “trabantes” [ NOTA- Falta traduzir]. Naquele mesmo dia mandei um cartão postal. Já recebestes tudo isto?
O prospecto ainda não recebemos, mas pode ser que esteja em Orleans, porque temos uma encarregada do Correio nova e se faz necessário perguntar muitas vezes senão a correspondência fica lá mais de semanas.
Quanto ao seu amigo Roberto posso dizer que sei muito pouco dele, pois o mesmo não aparece e este mês, eu não cheguei a vê-lo. Parece que ele vive mergulhado em seus problemas e trabalhos. Parece que ele está construindo atafonas[ NOTA – Moinhos para fubá] e aos domingos ele vai a Larangeiras, mas como ele desce pelo terreno dos Karkle, não passa mais aqui por nossa casa. Quando ele começar a perguntar, alguma coisa de nós, pode dizer. Antes ele se vinha orgulhando da quantidade de correspondência que ele mandava e recebia de você, mas agora parece que não é assim.
Aqui no Rio Novo vai tudo velho, a novidade é que daqui a 10 dias será comemorada a Festa de Aniversário da Igreja. Faz tempo que nós estamos ensaiando novos hinos. Todas as quartas feiras à noite depois do culto o Osvaldo Auras nós ensina a cantar em brasileiro. Algum tem que quebrar a língua aos pedaços para poder pronunciar. Outros nem língua não têm, pois não ficam para o ensaio.
A Milda Macht trabalhou duas semanas em Laguna e agora voltou para casa.
Alguma coisa que poderia dizer que é novidade mesmo é que o Tio Ludis me escreveu uma longa carta e uma da Tia [ NOTA- Magdalena, 2ª esposa do Ludis] também e esta em alemão. Quando o Augusto Klavin foi para São Paulo, levou uma lata de mel para a Emília. Então nós aproveitamos e mandamos uma lata também para o Ludis. Nós não sabíamos onde ele morava e nem qual o endereço, mas, o Augusto disse que iria procurá-lo na Redação [do Deustcher Zeitung ?\] que todo mundo deveria saber onde é. Também aproveitei para mandar uma carta. Parece que o Augusto achou fácil, pois eles ficam esfregando tinta em chapas, até tarde da noite para sair o jornal em alemão.
O Ludis escreveu que no outro dia, numa carroça puxada por um burro cinza, foi levada a lata de mel até em casa como se tivesse vindo da terra de Canaã. Mel amarelo e espesso, não tinha mais visto desde o tempo de Porto Alegre. O primeiro quem enfiou o dedo foi no mel foi o filhinho Geharts de 3 anos de idade que dai em diante ficou com “o chapéu cheio de alegrias”[ conhecido depois como Victor Rose de São Paulo].
Noutro dia o Ludis foi à casa da Emília e Augusto e ficaram conversando mais de 2 horas da manhã sobre o Rio Novo. A tia [Magdalena] muito solícita escreve que quer que eu vá até lá. O Tio Ludis escreve que para gente jovem, não faz mal nenhum por o nariz fora do ninho para sentir que vento sopra lá fora. A Tia diz que não quer como diarista, porque o serviço de casa ela mesma faz tudo, mas sim, como uma parenta que ficaria algum tempo, que é bem outra coisa.
O Tio ano passado esteve em Timbó [Nota- Timbó cidade próximo a Blumenau S.C.] e trouxe o filho da Minna [Mina Kushmane era a 3ª esposa do meu bisavô Jehkabs Rose que era também pai do meu tio avô Ludvig ou Ludis] que ficou com eles em S.P. de abril até dezembro. Como ele não acostumou ai, ele o despachou de volta.- Quando ele se aborrecesse de mim, ele me poria numa caixa e despacharia de volta para a colônia, A viagem seria rápida, pois toda semana vem um navio até Imbituba.
Bem desta vez chega, pois você não terá tempo para ler.
Agora as tuas férias acabaram?
A escola tem muitos alunos? Tem alguns letos? Escreva bastante.
Lembranças de todos. Desejo muita alegria e saúde. Olga.
[Escrito na lateral] Hoje chegou o prospecto.

Enfrentou a noite enluarada | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 30 de junho de 1920

Querido Reini!

Primeiramente receba muitas lembranças de todos de casa. Recebi a tua carta escrita no dia 3 de junho no dia 23 de junho. Obrigada! Já há tempo esperávamos cartas suas, fazia mais de um mês que não tínhamos recebido noticias.

Você ainda não recebeu a carta que mandei no dia 30 de abril? No mesmo envelope seguiram as cartas dos estudantes [Lúcia e Artur], e isso realmente é um grande prejuízo. Mandei no dia 25 de maio a resposta à tua escrita em 6 de maio, e ainda em 18 de junho uma longa carta com muitas notícias dos últimos acontecimentos daqui.

Agora as cartas tem ido e vindo muito devagar, talvez seja porque está chovendo pouco e deve ter pouca água no mar, talvez esteja vazio. Hoje está chovendo um pouco; se vai aumentar o nível eu não sei, porque chuva de verdade faz tempo que não tem havido. Às vezes chuvisca um pouquinho só para fazer lama, mas aumentar o nível dos rios, isso não acontece faz tempo. Quem também reclama da falta de água é o tafoneiro, que não tem água para moer o milho por falta de água.

Geadas tem havido algumas fortes, lá para baixo perto de Orleans, que atingiram bananeiras, canas de açúcar e mesmo as capoeiras. Mas aqui em casa a geada não matou nada: só duas manhãs amanheceram com alguma geada nas baixadas. A semana passada e esta também está bastante quente, como se fosse verão. Vamos ver quanto tempo isto vai continuar.

Agora estamos colhendo milho e despejando no paiol.

Hoje é o último dia de aula para os estudantes. No mês que vem parece que não vai haver aula, pois ainda não se sabe quem vai ser o novo professor. O Butler no mês que vem vai para Curityba e agora está tomando todas as providências para a sua saída e a viagem. Está mandando arrumar todas as cercas porque quando chegar a Kate, que vai morar na casa dele, naturalmente não vai cuidar disso.

Este cuidado é para que o gado dele não fuja e vá estragar as plantações dos vizinhos. Os animais ele não pretende vender ainda, porque depois de um ano ele pretende voltar.

Agora a igreja de Rio Novo vai ficar novamente sem pastor. Quem virá para o lugar dele? Domingo atrasado o Onofre esteve em Rio Novo e apresentou uma proposta ao comitê de sucessão pastoral: que escrevessem para o missionário Deter dizendo que, uma vez que o Butler está indo para Curitiba, ele mandasse o pastor Manoel Verginio para morar em Laguna e dar atendimento a todas igrejas da região. O Comitê inicialmente aprovou de pronto essa ideia, mas para infelicidade de alguns. Aqueles da corrente contrária já começaram reclamar, pois a igreja naturalmente terá que colaborar com o seu sustento e outras despesas. Essa corrente começou a fazer barulho, mesmo sem ter chovido nada.

Durante a convenção alguns já tinham ouvido reclamações pelos cantos e beiras de estrada, mas agora esses começaram a gritar e reclamar, dizendo que quem concordou com os acordos e as novas normas que os cumpram. Dizem que o Butler quando traduzia [as conferências e deliberações] para a língua leta teria omitido partes, mas a realidade é que aqui tem gente que só entende o que interessa e aquilo com que concordam.

Quem maior barulho faz e mais reclama é o velho Karklin, que disse que se tudo não for traduzido para o leto ele e outras pessoas de idade não entenderam nada. Esse sabichão, que lê todos jornais do país e conhece de cor e salteado todas as leis, para nós foi longe demais.

Na sessão regular do domingo passado houve uma tentativa de homologação das resoluções havidas durante a convenção. Tinha chegado “O Baptista” de Curitiba com as atas e novos estatutos decididos nesta última convenção, e o comitê queria aproveitar ainda a estada do Butler para normatizar todos estes assuntos.

O primeiro assunto foi a “Grande Campanha”, cujo alvo é 22$500 por ano, que acharam demais. O Karklin concordou com o dízimo, pois quem ganha mais, mais terá que dar. Ele disse que os outros dão o dízimo, mas a igreja manda para qualquer Sociedade Missionária que ninguém conhece e nem dá satisfação. Ele estava bastante descontrolado. Disse que ele alguns anos dá mais que o dízimo, que é 10%; ele teria dado 14% e até 15%, e insistiu que sabia calcular muito bem.

O Butler reconduziu a ordem e explicou que o dinheiro não vai faltar desde que não se gaste com supérfluos e assemelhados. Se os rionovenses fizerem tudo o que é preciso, não haverá problema nem de falta de dinheiro. O [jornal] Baptista deverá vir de graça, mas é solicitada uma coleta para ajudar na sua divulgação, e se a coleta for muito pequena será enviada uma oferta do caixa da igreja.

Será também feita uma coleta para a Sociedade Missionária da Letônia e depois enviada para o Deter, que providenciará seu envio para o seu destino. Isto irritou ainda mais o Karklin, pois assim ele não foi reconhecido como grande defensor da pátria de nascimento. Ele não tem razão, porque daquelas coletas anteriores ninguém viu comprovante de que o dinheiro tenha chegado lá. Também aquela campanha para os refugiados de guerra, ninguém sabe onde o dinheiro ficou. O Karklin, em vez de mandar direto para a Letônia, mandou para França e eles de lá mandariam para a Letônia. Mas o caso é que, se realmente mandaram, foi para o governo da Letônia, assim os refugiados não viram a cor do dinheiro.

O Lamberts do “Drauga Balsis” [“A voz do amigo”, jornal da denominação batista na Letônia] recomendava que todas doações para os necessitados fossem mandadas para as igrejas de lá, ou endereços pessoais de gente conhecida, senão o governo de lá fica com tudo.

Mas não foi desta vez que chegaram a acertar tudo, e parte ficou para outra vez.

Algumas damas que cantam no coro faz quase um mês que não puderam se apresentar no “palco”, pois estão com os tímpanos partidos; o Watsons tinha falado tão alto que parecia que estivesse falando para uma platéia de surdos, e também na orquestra os rapazes tinham tocado muito alto. Parece que elas não sabem dos inúmeros elogios que os componentes da orquestra receberam dos pastores por terem apresentado músicas maravilhosas de hinos usados na América do Norte e na Inglaterra.

Bem, quem ainda não estava com os tímpanos partidos deve ter ficado na noite do domingo passado quando, por ocasião daquele trabalho especial dos jovens, a orquestra tocou o hino 400 do Cantor: “Igreja, alerta”. Eles ouviram este hino pela primeira vez apresentado pelos mensageiros da Convenção e em seguida o Butler ensinou a cantar, e agora os rapazes da orquestra já tocaram com a maior vibração. Se o Deter estivesse aqui e tivesse ouvido, teria ficado muito satisfeito que o pessoal gostou da música que eles cantaram.

Há uma pequena parte da igreja que nada contra a corrente e diz que não vai quebrar a língua aos pedaços para cantar em brasileiro. Algumas dessas pessoas em outros tempos já tinham cantado em brasileiro, mas agora a roda girou para trás.

O Roberto [Klavin] conseguiu por sorte terminar o trabalho e voltar para casa para as conferências, e colaborou intensamente para o sucesso dos trabalhos. Agora ele está construindo uma fábrica de farinha de mandioca no Rio Larangeiras e o Arnoldo Karklim estava trabalhando para ele como ajudante, mas logo no início trabalhou com tanto entusiasmo que fez um corte no pé e com isso parece que bastou.

Por que o [Fritz] Jankowiski não voltou para o seminário este ano? Aqui, apesar de inquirido, ele não deu uma resposta clara. Já na primeira noite o Leimans quis saber por que e qual a razão pela qual ele não voltou a estudar este ano. Ele respondeu que este ano as circunstâncias não tinham sido favoráveis, mas que no próximo se as coisas mudarem ele irá de novo.

O que ele tem escrito para você sobre o Rio Novo, dizendo que encontrou tudo bem diferente do que imaginava, e que as pessoas que ele conhecia por nome e informações também não eram bem assim. O Karlis Ignausku, que tinha estado em Rio Novo, tinha contado que os Karklis eram pessoas muito enérgicas, mas ele não pôde observar essa
energia, embora o velho seja realmente um tipo enérgico.

Você poderia transcrever as impressões de viagem dele sobre o Rio Novo e o que ele viu de bom ou diferente. Esta semana o Arthur recebeu uma longa carta dele escrita no dia 5 de junho. Ele tinha conseguido chegar em casa no dia 4 de junho. Tinha saído daqui de Orleans no dia 26 e no dia 30 pegaram o “Max” de Laguna até Desterro [Florianópolis] e na segunda-feira a noite pegaram o “Anna” até Itajay. De lá o Looks foi a pé, beirando o mar até em casa.

Mas ele [Fritz Jankowiski] ainda queria conhecer Blumenau e então pegou um naviozinho até lá. De lá ele iria pegar uma carroça para ir até em casa, mas não deu certo encontrar as ditas carroças, então enfrentou a noite enluarada com a mala e bagagem nas costas, como se fosse um mascate, e depois de doze horas de marcha chegou a Rio Branco.

Parou primeiro na casa dos pais e da irmã, que encontrou quieta e vazia. Já na casa dele encontrou cheia de gente. Tinha chegado o Waltauris de seu Castelo da Felicidade que é Porto União. Aqui ele já tinha falado da possibilidade de quando ele voltasse este estivesse lá pela casa dele. O pai dele não estava em casa porque ficou doente no dia 31 de maio e viajou de trem para Rio Negro para se tratar com médico.

Os outros que saíram da Convenção ficaram retidos cinco dias em Imbituba esperando navio.

Bem, hoje chega. Vou esperar uma longa carta sua. Como se passaram os seus dias livres? Foi algum outro leto para a “Chautauqua”? Os, jornais, vais continuar nos mandar? Nós só recebemos um pacote e faz muito tempo. Este ano eles voltarão de mandar de cortesia o “Drauga Balss”?

Muitas lembranças de todos nós aqui.

Olga

Você é um ignorante | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 2 de setembro de 1919

Querido Reinold,

A tua carta escrita em 17 de agosto recebi no dia 21 de agosto. Obrigada! Precisava ter respondido mais rápido, mas como ninguém ia para a cidade para levar ao correio, foi ficando e demorei a escrever. Ainda estou esperando resposta de duas cartas: uma mandei no dia 1° de agosto e outra no dia 15 de agosto, as quais espero que tenhas recebido.

Fiquei muito alegre em saber que você está sempre passando bem e que estás com saúde. Nós também, agora estamos bem graças ao bom Deus, e todos com saúde. Mas semanas atrás estivemos todos com influenza; doía muito a cabeça e [tínhamos] moleza em todo corpo. O Pappa ficou vários dias de cama. Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água.Nós, os demais, com tanto serviço não tínhamos tempo de ficar de cama.

O tempo está muito variado, ora quente ora frio. Houve dias tão quentes que parecia verão, e soprava um vento quente do lado da Serra [noroeste]. Depois, na semana passada, deu três dias de chuva e vento frio; hoje está meio nublado e é possível que volte a chover.

Agora as laranjeiras estão em plena floração e as árvores estão literalmente brancas. O milho terminamos de colher no dia 20 de agosto; uma plantação de 17 quartas de semente rendeu 135 cargas, que foram despejadas no paiol. Ano passado foi plantada uma área menor e rendeu 195 cargas. Era porque naquele ano as espigas eram grandes, e este ano são menores, tanto que podem quase diretamente ficar para as vacas.

[NOTA: Espigas de milho pequenas eram chamadas de “restolho” e as vacas podiam comer direto sem perigo de se engasgarem e se afogarem, o que acontece com frequência com o gado.]

Este ano não foi um ano bom para o milho; em Orleans o preço da saca já está 6$500. Comprar milho para o gasto está fora de qualquer cogitação. Se faltar milho, os porcos vão passar somente com inhame, pois este ano eles não pegaram geada e na Bukovina em toda baixada está correndo água (mesmo em lugares em que nunca havia nascentes), então vai dar para passar.

Agora estamos derrubando uma capoeira lá perto do monjolo, mas você é um ignorante, não sabe mais nada daqui, então vou dizer que é lá onde antigamente tínhamos uma horta — assim é possível que você se lembre. Agora, como um morador de cidade grande, caso vier para cá você seguramente vai se perder logo no primeiro dia.

Quanto ao Rio Novo, vai indo de modo variado [em leto, “eet raibi”]. Os mensageiros da Convenção enfim voltaram, chegaram dia 14 de agosto. Como tinham saído no dia 31 de junho, você pode calcular quanto tempo eles ficaram fora.

A viagem foi boa, a falta de sorte foi com os meios de condução (navios) em todas ocasiões. O Robert ainda não esteve aqui em casa para contar as peripécias da viagem. Pode ser que ele tenha escrito minuciosamente para você. O Butler aqui na Igreja contou uma coisa e outra, que de modo geral a viagem foi boa.

Saíram na segunda-feira com informações de que haveria um navio em Laguna, mas lá chegando o navio já tinha levantado ferros e partido. Seguindo informações e palpites de que em Imbituba estaria um navio grande sendo carregado, no outro dia pegaram o trem e foram até lá, mas este também já tinha ido embora e para o outro lado, para o sul, Porto Alegre. Então voltaram: o Butler ficou em Tubarão, na casa do Ziguismundo Anderman, e o Robert e o Klava vieram até Pedras Grandes para visitar o Onofre.

Então na sexta-feira pegaram o “Max” da Karl Hoepke e foram até Desterro [Florianópolis], porque ele não segue mais longe. Mas ali souberam que havia um navio atracado na parte norte da ilha, e daí pegaram uma lancha a motor e conseguiram embarcar; mais dezenove horas e estavam em Paranaguá.

Resumindo, de Rio Novo até Paranaguá foi exatamente uma semana de viagem.

Sobre a Conferência não tenho muito que escrever, pois o Deter ainda não mandou as estatísticas e as atas [em leto, “protokulus”]. O Butler foi o presidente [dirigente] da Convenção e todos os dias havia três reuniões; os letos tiveram que cantar muito.

Os letos eram ao total quatro, porque veio também o Broks de Blumenau.

Depois das conferências ainda estiveram em Antonina e daí viajaram para Kuritiba pela mais bela estrada de ferro do Brasil. Ficaram então uma semana em Paranaguá e uma em Kuritiba. O Klava ainda viajou para São Paulo.

Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água. Se de manhã você lava o rosto, à tarde não pode mais lavar porque não tem água.

Ainda estiveram em Blumenau: o Robert se acomodou na casa do Janausks e o Butler ficou com os Suti. Ambos moram perto da igreja. Mas eles não ficaram muito tempo por lá, porque foram também visitar a Linha Telegráfica, onde moram os Straus e outros pentecostais. Ali os cultos são “extraordinários”, pois de longe se pode escutar como gemem, correm de um lado para outro, andam de quatro, etc. Os nossos chegaram atrasados e assim não foi permitida a entrada; eles ficaram “apreciando” pelas janelas. O Butler disse que o comportamento deles nada tem com o movimento espiritual que ele conheceu nos Estados Unidos. Este mais parece certo povo que adora ídolos na Índia.

Neste mês vai haver a festa de aniversário da União de Mocidade. Estamos aprendendo a cantar todas as quartas-feiras à noite. O Oswaldo Auras é o dirigente que ensina. E nas noites dos últimos domingos de cada mês os jovens apresentam um programa livre, de partes práticas. Cada um pode apresentar o que quiser: poesias, partes musicais, opiniões, comentários, etc.

Durante as férias você bem que poderia viajar para casa. Falta pouco tempo para fazer três anos que estás longe de casa.

Você escreve que o Deter quer que você venha para o Paraná. Quanto isto vai custar? Sem 200$000 nem pensar, e de trem fica mais caro ainda. E porque ir para um lugar de pessoas estranhas? Nós pensamos que você poderia vir para casa ou então ficar na Escola como no ano passado. Mas ir para outros lugares nunca dissemos.

Agora os navios que vêm para Laguna tem a terceira classe, e esta não custa tanto quanto a dos grandes navios que aportam em Imbituba.

Nós o dinheiro vamos mandar, mas no correio de Orleans não tem aquele “vale postal” porque são muito poucas pessoas que mandam dinheiro daqui. Se existissem, seria muito prático e barato mandar por este sistema.

Você sabe se o Fritz Janausks vai viajar ou vai ficar aí mesmo? Hoje, 3 de outubro, enviei através do Pinho 100$000 e eles garantiram que desta vez vai chegar mais rápido do que na outra vez. Se demorar, podes perguntar lá se ainda e porque não chegou. Amanhã é dia da mala postal, pode ser que chegue alguma carta sua.

Se você não pode ficar aí, venha para casa. A Mamma não quer que você viaje para outro lugar.

Com lembranças,

Olga