Eu naquela vez não consegui escrever e assim ficou para outra semana …| de Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1927 –

Rio Novo 01 de setembro de 1927

Eu naquela vez não consegui escrever e assim ficou para outra semana e então ficou “até agora”.

Nós tínhamos que fazer a mudança aqui para o Rio Novo, então serviço tinha demais até trazer tudo para cá então agora ficou somente o milho lá no paiol e a mandioca nas roças que depois nós teremos que ir buscar, mas agora todos estão morando aqui e assim mesmo temos serviço demais. Já roçamos um pedaço do pasto que depois de queimar, vamos arar e depois plantar milho e grama. Então não fique tão admirado por que eu estou atrasada com a escrita de cartas por que durante o dia a gente tem que trabalhar na lavoura e a noite vem um sono tão forte então quando a gente cai na cama e pela manhã acorda ainda com sono e se tivesse alguém que comprasse o excesso de sono teria para vender.

Na noite de ontem eu fui a Igreja para o ensaio dos hinos para a Festa da Mocidade [O aniversário da União da Mocidade era no dia 16 de Outubro] então recebi uma carta a mim endereçada com a caligrafia totalmente desconhecida. Quando abri vi que era do Rio de uma moça ou dona quem escreveu. Eu não a conheço, mas ela diz que me conhece por fotografias. Ela quer saber quando é o teu aniversário e ela quer que escreva rápido o mês e o dia e é isso tudo que ela queria de mim. O nome dela é Aruclia de Oliveira – Rua Antonio Vargas 23 Estação de Cascadura – Rio- O que ela quer com o seu aniversário eu não sei. Se ela é de Pilares você deve conhecê-la. Eu não vou escrever a data do seu aniversário, mas vou dar o teu endereço para que ela peça direto para você. Ela também queria saber se eu sou mais nova que ela.

Você pergunta sobre a minha ida para escola. Estou sentindo que não vai dar. Eu tenho pensado e avaliado sob todos os aspectos. O pessoal de casa não quer que eu vá para a cidade grande. Se eu for quem, vai pagar os custos? Você promete pagar a metade. Será que eu poderia arranjar o dinheiro para pagar ou quem sabe nem dinheiro para poder voltar. Agora a Escola está muito cara 120$ por mês quem poderá pagar? Quando você foi embora nós ficamos trabalhando para mandar dinheiro para você pagar os seus estudos, mas agora não pode ser mais assim. O Paps e a Mamma estão ficando mais velhos e não conseguem o mesmo o que eles faziam naquele tempo. O Artur sozinho apesar de muito trabalhador não vai conseguir. A época que eu deveria ter ido está longe para traz. Quando aqui tinha aulas na escola eu não era autorizada a ir assistir as aulas por que tinha que ir para a roça plantar, colher, vender para mandar dinheiro para você e estes anos estão longe atrás.

Se alguma vez você trouxe com você o “gaspazu” [Un gadiuma ja tu atvedi sev gaspazu lidz….] então eu não ganhei nada. Aqui faz tempo que o povo fala que no Rio de Janeiro você não conseguiu nenhum e então por isso você teve que embarcar para a América. Você nada escreve nada sobre você mesmo e não é como nós que escrevemos e contamos tudo. [ Devido a dificuldade da tradução desta palavra “ gazpazu “ esta frase ficou completamente prejudicada. Palavra não foi encontrada nos meus dicionários]
O Arturs não diz nada, ele sempre está de acordo comigo e com o que eu faço, mas a Mamma não quer que eu vá para a Escola porque alguma tem morrido e que adianta ir para escola e depois morrer, mas eu não ligo para isso, mas o Paps disse que as moças é suficiente saber cozinhar sopa [Putru] eu sei que não é bem assim, é bom que saiba de tudo, mas quando não é possível então resta se contentar com que a gente sabe e tentar aprender o possível em casa. Ainda aquele caso com Eduardo [Namoro] não está terminado e quem sabe nem termine, pois o nosso pessoal aqui não tem nada contra e eu tenho começado a conhecê-lo melhor, ele é uma boa pessoa e todo pessoal dele é favorável e espera em paz que eu aceite e vá para lá. Ele prometeu te escrever, quando ele escrever então me escreva contando a tua opinião sobre ele, pois você sempre foi sabido e que conheces as pessoas até pela letra.
Por hoje chega outra vez eu escrevo mais.
Ainda mais lembranças de todos. Lúcia.
(Escrito na lateral)
O Romão Fernandes não mora mais aqui, ele faz tempo que mudou para Araranguá para morar lá. O Arturs mandou aquela carta, mas se ele recebeu eu não sei. Ainda muitas lembranças e saudações do Onofre Regis e esposa.

[Nesta carta quando traduzi me deparei com um termo em leto “gazpazu” e assim a frase não dava sentido algum.
Mas a minha sorte é ter amigos que entendem o idioma muito mais que eu que nunca tive uma aula desta língua e tudo que aprendi foi com a minha avó Lizete Rose Purim e este meu amigo João Gretzitz mandou a Pedra de Roseta e tudo ficou claro.
Este termo “gazpazu ” acentuado de modo diferente quer dizer esposa. A irmã da carta não viu a esposa, Se ele levou a esposa para a América.-Para deixar mais claro o assunto vou colar a mensagem do meu super amigo Gretzitz: “Novo comentário ao seu artigo “Eu naquela vez não consegui escrever e assim ficou para outra semana …| de Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1927 -”
Autor: João Gretzitz (IP: 189.46.167.207 , 189-46-167-207.dsl.telesp.net.br)
Email : gretzitz@gmail.com
URL : http://www.facebook.com/j.gretzitz
Whois : http://whois.arin.net/rest/ip/189.46.167.207
Comentário:
Prezado amigo, com relação ao texto onde aparece à frase: “…un gadiuma ja tu atvedi sev gaspazu lidz….” , peço desculpas para sugerir que, onde se lê “gaspazu” possa ser na verdade a palavra “gaspažu”, o mesmo que “kundze”, em português: “senhora”. Gosto muito de ler aquelas histórias relatadas na cartas publicadas e que tanto nos mostram da história de lutas e sacrifícios daquelas famílias, algo comum a todos os demais imigrantes letos que chegaram no Brasil, naquela época… Espero ter podido contribuir e deixo aqui meu muito obrigado e um grande abraço.

Pode visualizar todos os comentários a este artigo aqui:
https://rionovo.wordpress.com/2013/04/18/eu-naquela-vez-nao-consegui-escrever-e-assim-ficou-para-outra-semana-de-lucija-purim-para-reynaldo-purim-1927/#comments

Por tudo muito obrigado
V.A.Purim
}

Advertisements

One comment on “Eu naquela vez não consegui escrever e assim ficou para outra semana …| de Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1927 –

  1. Prezado amigo, com relação ao texto onde aparece à frase: “…un gadiuma ja tu atvedi sev gaspazu lidz….” , peço desculpas para sugerir que, onde se lê “gaspazu” possa ser na verdade a palavra “gaspažu”, o mesmo que “kundze”, em português: “senhora”. Gosto muito de ler aquelas histórias relatadas na cartas publicadas e que tanto nos mostram da história de lutas e sacrifícios daquelas famílias, algo comum a todos os demais imigrantes letos que chegaram no Brasil, naquela época… Espero ter podido contribuir e deixo aqui meu muito obrigado e um grande abraço.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s