O Pastor Karlos Anderman .Depoimento de Júlio Anderman um de seus filhos.

O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 5ª PARTE (última)

O PASTOR KARLOS ANDERMAN
5ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
]

Passei a trabalhar para a Família Kreplin, constituída dos pais e vários filhos. Eu dormia no mesmo aposento de um deles, o Ernesto.
Tive o privilégio de conviver dois anos no seio daquela família, um modelo de comportamento da Denominação Batista daquele lugar. Eram firmes nas suas convicções, honestos, tinham aptidão para gerir os seus negócios materiais com muito êxito e o seu lema era “ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto”, incluindo o meu.
Todo o dia de trabalho se iniciava às 4 horas da madrugada. Os pais acordavam primeiro para fazer o café da manhã. Isto feito os dois abriam o Cantor Cristão num hino e entoavam a melodia em duas vozes. Então vinha o Ernesto; em seguida o Roberto e as duas moças, engrossando este coro polifônico neste “toque de alvorada” que me acordava também, o mais jovem e lá vinha eu esfregando os olhos dos últimos vestígios do sono. A última estrofe nunca era cantada sem a minha presença; então era uma obrigação moral saltar logo da cama para não deixarem os outros repetirem.
Todos reunidos o Patriarca lia uma passagem da Bíblia para a meditação e designava alguém do grupo para fazer uma oração a Deus pedindo a benção para os afazeres daquele dia que ora se iniciava.
Tomava-se o café. Chamava os muares de tração para a sua refeição matinal e depois, junto com a filha Vitória íamos para o estábulo tirar o leite das vacas, bem uma dezena delas formando duas filas. Enquanto elas saboreavam a ração, nós espremíamos as tetas antes lavadas com água, com a mão, esguichando jatos de leite dos úberes intumescidos, para o balde.
Com detalhe me lembro de duas vacas temperamentais; uma delas somente consentia soltar o leite se estivesse comendo a batata doce; a outra, somente deixava ser ordenada por mulher, ela olhava primeiro e se fosse homem soltava um coice atirava longe o intruso.
Às vezes a Vitória de brincadeira colocava esta vaca na fila da minha ordenha. A luz bruxuleante pendurada no meio do estábulo não permitia distinguir qual era delas, pois todas eram castanhas e quando ela virava a cara já era tarde. Ela soltava o coice, enquanto a Vitória ria gostosamente.
Na ordem do dia então constava o segundo café que era reforçado por frutas e proteínas. Em seguida atrelava os muares que atendiam pelos nomes de Dourado e Galego que eram animais de tração de muita força e rebocavam os implementos agrícolas. Eram tão integrados no trabalho que faziam animados e repetiam as diversas fases como se tivessem uma inteligência imaginativa.
Doze horas, meio dia, era a hora do almoço. Desatrelava os animais e os conduzia para a manjedoura para comerem a sua ração, depois deles também eu ia almoçar junto com a família toda reunida por que os Letões tinham o costume de acolher os seus empregados na mesma mesa e assim como de manhã também agora a refeição era precedida por uma prece. Depois desta refeição na escala do dia constava o trabalho que consistia em cortar capim para triturar a ração, descascar milho, rachar lenha e outras funções consideradas repousantes. Às 15 horas a parelha alimentada e repousada junto com o seu condutor outra vez ia para o trabalho na lavoura.
Eram dirigidos por rédeas, mas os animais estavam tão habituados a rotina que, depois de virados no fim do rego, sabiam o rumo tanto na ida como na volta.
Entre o Dourado e o Faceiro havia uma diferença quando estourávamos acidentalmente uma cachopa de marimbondos, o primeiro ficava pulando no mesmo lugar enquanto o outro queria disparar, mas quem ficava mordido era eu.
Não era cansativo por que era só segurar nos manches do arado e acompanhar arrastado o sulco.
Havia ainda um lanche no interstício desta segunda jornada, que era trazido pelas mãos diligentes de alguém da família, antes do dia terminar com o aparecimento da estrela vespertina, por que as horas do ocaso eram mais frescas e por isto mais produtivas.
Os animais tinham um tratamento quase humano por que solidários com o homem enfrentavam o trabalho, comiam a última ração antes de serem soltos no pasto.
Depois de admitido na União de Mocidade, também comecei cantar no coro da Igreja um conjunto maravilhoso que se apresentava na estação de rádio de Campinas e uma vez veio cantar na primeira Igreja Batista do Rio de janeiro.
Era aprendiz por isto não tinha nenhum destaque. Os ensaios eram acompanhados por violino, voz a voz por que o harmônio, que tinha a afinação temperada, não oferecia a perfeição desejada. O coro cantava a capela todos àqueles hinos que Lakshevics depois traduziu para o português, mas as silabas anazaladas do nosso idioma português tiravam deles aquele brilho por que as consoantes é que dão o ritmo e destacam a pronúncia fazendo o texto compreensível. Os ensaios realizavam-se duas vezes por semana, as quartas-feiras e na véspera dos domingos.
Em algumas ocasiões o grupo da mocidade alugava um caminhão com bancos de tabuas atravessando a carroceria que era lotada para passeios no Carioba, então cantávamos a quatro vozes:
Se nos cega o sol ardente.
Quando visto em seu fulgor.
Quem contemplará aquele.
Que do sol é Criador.
Mas para mim o ponto alto da minha mocidade de efeito inesquecível foi à festa do aniversário que me proporcionaram. Eu estava dormindo, mas às duas horas da madrugada toda a mocidade da Igreja reunida no pátio da casa dos Kreeplin, de surpresa começou a cantar uma serenata acordando-me. Custei a me convencer que a festa era em minha homenagem. Quando desci fui abraçado, cumprimentado e fui distinguido com um lanche constituído de refrescos, guloseimas e ainda mais, o tradicional bolo de aniversário acompanhado de “Parabéns prá você”; tudo aquilo preparado pelas mãos diligentes daquela boa gente.
Como presente de aniversário ofereceram-me uma Bíblia com uma dedicatória autografada por todos os presentes. Esta Bíblia me acompanhou durante muitos anos. Levei ela comigo para a 2ª Grande Guerra na Itália no saco “B”, sim, por que tínhamos duas bagagens, a “A” que continha as coisas de uso diário e acompanhava o soldado na linha de frente e o outro que ficou na retaguarda. Nunca mais consegui reaver o saco “B”. Depois comentaram que o navio bagageiro que transportava este material fora afundado por um submarino alemão.
No entanto estava escrito que eu não ficaria na Fazenda Velha; os meus caminhos se abriram e a convite do meu irmão Emilio viajei para tentar a vida no Rio.
Tempos difíceis àqueles nos quais um jovem habituado a soltar as rédeas do pensamento em devaneios enquanto andava atrás da semeadura, agora era obrigado a concentrar-se em detalhes do trabalho mental.
A experiência adquirida no exercício da lavoura me ajudou muito e deu destaque a minha atuação até hoje, por que o próprio fluxograma de preparar a terra, plantar, cultivar, colher, predispõe para o planejamento com previsão para um resultado em longo prazo que é muito mais produtivo do que a especulação momentânea cujo lucro se esvai com a mesma facilidade com que veio. Em conclusão deste item posso dizer que tudo aquilo que eu fiz foi realizado com êxito, graças a Deus.
No Rio comecei a freqüentar a Primeira Igreja Batista de Catumbi na qual participei do coro e ingressei na União da Mocidade. O Pastor Antonio Neves Mesquita percebeu logo que havia algum problema com a minha vida espiritual. Ele me convidou para ser membro da Igreja, fiquei de pensar sobre o assunto e em conseqüência me abri com ele sobre todos aqueles acontecimentos havidos com o Pentecostalismo e a minha descoberta da mentira.
Fui franco, disse: “e tem mais, para resumir, como poderia ter Cristo subido aos céus com o seu corpo físico ressurreto se hoje sabemos que depois da estratosfera o corpo se desfaz”.
Depois conversamos sobre a imortalidade da alma, sobre a eternidade, a respeito do céu e do inferno e outros assuntos que a seqüência fria das palavras não conseguia explicar a luz dos conhecimentos modernos.
Então o que ficou resumido no meu cérebro, até hoje, foi à explicação que tudo era uma questão do “estado da alma”. De acordo com o meu procedimento eu poderia me sentir no céu ou no inferno. Que esta questão de eternidade perante Deus não tinha nenhuma significação por que cada momento se eterniza.
Conclui assim que havia uma eternidade horizontal que se traduzia em séculos e uma outra vertical que traduzia o momento vivido e por fim, de que a eternidade secular nada mais era do que a soma dos momentos vividos e que de acordo com as Escrituras, perante Deus um dia vale mil anos e mil anos são como se um dia fosse.
Sentir-se salvo por Jesus Cristo neste momento e nos momentos seguintes justapostos constituem a eternidade, incompreensível para a mente humana e sentir-se salvo na hora da morte também se tornava um sentimento infinito, eterno, como também a angustia provocada pelos pecados na hora final se perpetuava.
Batizado tornei-me membro da Igreja Batista e foi para valer, pois até hoje não tive dúvida sobre a salvação da minha alma. Cheguei a conclusão de que a religião era como se fosse um fio de ouro que acompanha o crente durante toda a linha da vida. Conclui que a religião não é para ser cultuada, mas para ser vivida intensamente.
Em Jesus adquiri um amigo que me guiava e acompanhava os meus passos mesmo materialmente e que não podia deixar ele do lado de fora esperando enquanto eu estivesse praticando num cômodo vizinho, um ato indigno.
Não era infalível, mas nas transgressões valia o arrependimento e o pedido de desculpas.
Mas afinal o que é o pecado? São atos repetidos que primeiro aniquilam o corpo orgânico e depois destroem o espírito. Antes da descoberta da cirrose do fígado provocado pela ingestão da bebida alcoólica, do enfisema conseqüência do fumo, da aids provocada pelas drogas injetadas e o heterosexualismo que um sinônimo de prostituição, os Batistas consideravam a conversão do crente como prova do abandono destes vícios e outros como apagados de uma nova vida pelo batismo.
Naquela mesma ocasião li o Discurso do Método de René Descartes que muito me influenciou. Este livro nada mais ensina do que a procura da verdade. Jesus resumiu este assunto quando disse: “vossa palavra seja sim, sim; não, não o que passa disto é do maligno”. Então na minha concepção firmou-se a convicção de que somente havia uma maneira de discernir uma questão; a certa ou errada, não existia meio termo. Aquele filósofo concluiu que a verdade era clara como o sol, ela não poderia ser destruída nem pelos amigos, nem pelos inimigos e tinha de resistir à prova de causa e efeito. Assim uma tese ateísta reforçou a minha fé evangélica.
Por exemplo, ao analisar o Pai Nosso descobri que neste texto havia ensinamentos de ordem prática. A frase “e livrai-nos das tentações” para mim passou a ter uma significação ativa e passiva. Então se eu, um crente, por negligência, descuido ou omissão permitisse que alguém “caísse em tentação”, eu tinha parte da responsabilidade pela falta que o outro praticou. Ela encerrava também um dos princípios da administração que é a vigilância constante para desencorajar a tentação de quem quiser dilapidar o patrimônio.
A outra citação: “pão nosso de cada dia nos dá hoje” não podia ser interpretada de uma maneira tão simplista de que Deus apanhasse uma côdea de pão na sua dispensa celeste e a colocasse sobre a mesa do peticionário num piscar dos olhos. Primeiro Deus fazia plantar a semente, depois cultivar, mandar para o moleiro triturar os grãos em farinha, ser manuseada pelo padeiro, assado no forno aquecido e por fim adquirido na padaria e somente depois a colocação do alimento sobre a mesa e o agradecimento a Deus por esta dádiva que passou por tantas mãos que instintivamente agiam como se a ele representassem.
Isto tudo foi citado resumidamente, por que somente o ato da semeadura ocupou bastante espaço quando analisado por Nosso Senhor naquela parábola do semeador.
É duro dizer isto, mas numa análise Cartesiana, somente poderiam existir dois tipos de espírito; o Santo que vem de Deus, pela primeira vez mencionado em Gênesis: “e o Espírito de Deus repousava sobre as águas” e que depois, materialmente realizou toda a obra da criação do mundo e o Espírito das trevas tantas vezes mencionado na Bíblia.
Quando nos Atos dos Apóstolos houve uma manifestação do Espírito Santo que induziu o uso de línguas estranhas, parece o efeito da causa por que todos entendiam no próprio idioma o que eles estavam dizendo, ficando assim estabelecido o principio de causa e efeito que rege a ciência.
Assim se um seminarista aprende um novo idioma durante o curso de Teologia para como missionário em terra estranha pregar o evangelho, ele cumpre o efeito embora a causa seja outra.
Então podemos propor um desafio para aqueles crentes que se dizem poliglotas por obra do Espírito Santo; é mandá-los pregar da mesma forma sem a memorização e depois verificar se o efeito foi o mesmo; se alguém entendeu alguma coisa do que disseram.
Destes profetas Pentecostalistas Letões que não sabiam a nossa língua, nunca ouvi dizer que algum deles depois de inflamado tivesse o dom de pregar em português para converter os brasileiros. Os pastores que o fizeram, aprenderam o idioma a duras penas; esta sim foi uma inspiração do Espírito Santo e entre eles também incluo o meu pai.
Por outro lado tudo que aconteceu nos primórdios do Cristianismo ficou escrito para análise e meditação, como foi aquele milagre quando o poder de Deus mandou o seu anjo para soltar o Apóstolo Pedro da prisão, mas destas línguas estranhas que se ouvem balbuciar hoje nas reuniões de Pentecostalistas e que pressupostamente deveriam conter mensagens preciosas para a meditação; nenhuma mensagem foi gravada, traduzida ou transcrita, apesar das facilidades dos meios de comunicação modernos. Isto mesmo pode-se dizer das visões, profecias, milagres que deveriam ser registrados para comprovar a sua veracidade pelo principio de causa e efeito.
Comparando, então podemos dizer que o Espírito de Deus que pairava sobre as águas disse: “haja luz”, quando aconteceu aquela explosão indescritível da criação de todo Universo e que atualmente os astrônomos chamam de ‘Big-bang “; assim ele fez todas aquelas coisas mencionadas na Bíblia, que naquela ocasião não poderiam ser narradas de outra forma por que o pensamento humano ainda não havia aprendido bastante para entender – e agora, em contraste aparecem alguns grupos que tem a ousadia de dizer que estão evocando este mesmo Espírito Santo de Deus para animar reuniões de saltimbancos, e que, no mínimo, pode ser considerado chacota e desrespeito”.
Finalmente, se você já passou, ou quando passar por uma desilusão igual a que eu passei e por isto tornou-se incrédulo então pense: “Quem criou o Universo e o sustenta?” Se você não quer chamá-lo de Deus, então lhe invente outro nome ou aproveite dos muitos que já existem – Bog em russo, Gott em alemão, Allah em árabe ou Adonai em hebraico, por que Ele é tudo aquilo que o cérebro deduz e que todos igualmente imaginam que Ele seja e que a cada nova descoberta cientifica é exaltado. Se além de tudo tiver duvidas, na hora de conciliar o sono, à noite, consulte o seu coração e ele lhe dirá muitas coisas que o cérebro não soube deduzir.

F I M

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS – POR JOÃO REINALDO PURIN – FINAL

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN – 6ª PARTE
FINAL

REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin

6ª Parte – Final
Morando no Seminário do Sul
Já nos últimos anos, quando o irmão Arthur Lakschevitz não tinha mais condições de tê-lo onde há muitos anos esteve, o Seminário arranjou um apartamento para ele no prédio 18. Lembro-me dele andando à noitinha pela pracinha do Seminário. Logo alunos se acercavam dele com perguntas as mais variadas. Uma vez foi impressionante. À noite estava assentado no degrau redondo do centro da praça onde está o mastro. Os alunos ao redor num silêncio impressionante. Uns pediam para os outros: “fiquem quietos, o homem está falando… queremos ouvi-lo”.Ele falava baixinho. No dia seguinte ele me procurou dizendo que isto “foi chato…” Ao que reverti esta falsa impressão dele. Falei que era um quadro lindo.
Ele era um verdadeiro sábio. Conhecia a Bíblia como poucos. Para todas as passagens e circunstâncias bíblicas tinha a interpretação completa e verdadeira, pois conhecia muito bem o hebraico, o grego e as circunstâncias em que o texto ou o caso aconteceu. Ia para o hebraico e o grego, fazia sua exegese e aplicava as regras de hermenêutica. Seu método principal era o de analisar uma doutrina bíblica em seu desenvolvimento. Por exemplo: como os discípulos chegaram à conclusão de que Jesus não era apenas um homem importante, um profeta, mas realmente, o Filho do Deus vivo, conforme a experiência em Cesaréia de Filipe. Assim, também as doutrinas da Igreja de Jesus Cristo, do Espírito Santo e as demais. Daí, então, os escritos e doutrinas esposadas por ele são de uma perfeição incontestável.
Dominava o Inglês, Português, Francês, Leto, Latim, um razoável conhecimento do Alemão. Além das línguas bíblicas, como o Grego e o Hebraico que foi professor no Seminário.
Deixou marcas profundas em centenas de alunos dos quais muitos já também terminaram sua carreira, outros ainda estão cumprindo sua missão como pastores e mestres em muitas instituições de formação teológica.
Muito poderia também falar de sua atuação no Seminário Betel nos tempos de seu início com o Pastor José de Miranda Pinto. Lá ele também exerceu forte influência sobre muito aspirantes ao ministério que ainda hoje atuam na obra do Senhor. Sobre este período, entretanto, como não foi do meu tempo, apenas menciono o fato.
O ético.
Era impressionante como ele era respeitador. Jamais se intrometia em áreas que não lhe competiam. Nunca procurou interferir na administração do Seminário, por exemplo. Tinha a chave. Entrava para o seu gabinete. Se a porta estivesse sem chave, assim ficava. Caso contrário, ele passava a chave.
Como não gostaria que alguém se intrometesse na função dele, tinha também por norma não fazer isso com os outros. Exemplo disso também repercutiu na realização de casamentos, com efeito, civil. Dizia que, como não gostaria que um juiz viesse realizar o casamento religioso, assim também não iria fazer a vez de um juiz. Essa era a lógica dele. Assim era o seu raciocínio.
O construtor
A Igreja Batista em Bangu funcionava em uma casa adaptada em terreno amplo. O plano de construir um grande templo esteve sempre em seus ideais. Assim é que vivia observando modelos e confeccionava plantas para o futuro templo. Queria um templo que chegasse à perfeição, ou próximo dela. Teve inúmeros contactos com o engenheiro acústico Dr. Del Nero, em São Paulo. Pretendia um santuário que não precisasse o sistema de som. Tudo isto foi feito, entretanto, talvez pelo tamanho, mesmo assim, foi preciso colocar som.
Lembro-me de que no começo da obra, numa segunda-feira, em seu gabinete no Seminário ele me mostrou, com muita alegria, um pacote de cédulas que iria levar para depositar na Junta Patrimonial Batista. Dizia, “não sei como aqueles pobres irmãos conseguem tanto dinheiro…?” Pensei comigo, isto não será nada…
Marcou o dia do lançamento da pedra fundamental. Dia 1º de maio de 1962.
Como naquele tempo já estava começando a Cidade Batista – Lar da Criança em Campo Grande, organização da para as crianças órfãs e abandonadas, consegui uma carona na Capela ambulante da Convenção Batista da Guanabara que ia para lá. O motorista/responsável era o seminarista Pedro Litwinchuk, conhecido como Pedro Capela. Depois de muitas voltas, pois pouco conhecia do Rio, chegou à Rua Francisco Real esquina com a Silva Cardoso. Disse: segue à frente que é logo ali. Realmente já havia muita gente reunida para o evento. O terreno estava limpo. A cerimônia foi à tarde. A mensagem foi entregue pelo Pr. Dr. José Lins de Albuquerque. Lembro-me de que após a mensagem, tomou as suas anotações e colocou-as dentro da “caixa/pedra” de que também constavam: uma Bíblia, Jornal Batista, Jornais do Dia. Com esse conteúdo, foi lacrada e enterrada.
A história da construção do templo foi também uma epopéia de fé e sacrifício. Lembro-me de tê-lo visto levando massa em carrinho de mão pelos andaimes até a galeria em construção.
Fui informado, também, de que em várias ocasiões em que a construção exigia grandes esforços financeiros, ele pedia ao tesoureiro que usasse os seus honorários na obra.
Passados alguns anos chegou o dia da inauguração. Lembro-me dele no púlpito, ao lado do pregador, chorando, não contendo as lágrimas de alegria e emoção.
Para quem não conhece, o templo é realmente muito grande. Embaixo há muitas salas e também um amplo salão que comporta bem umas 400 pessoas. Em cima o santuário para mais de 1.500 lugares. Tem muitas salas, gabinete pastoral e tudo que se espera para uma grande igreja.
Homem temente a Deus
Foi dito logo no começo, que ele era lógico e que usava muito o raciocínio em sua vida, entretanto, creio que a tônica maior foi o seu temor a Deus.
Lembro, quando eu ainda era pequeno, de minha avó e sua mãe Lisete me contar que adolescente, na roça, ele parava, por alguns instantes o seu trabalho, encostava a enxada, tirava o chapéu e passava uns bons momentos em oração a Deus.
Lembro-me também de que todas as noites, em meus contatos com ele, depois de ler algum livro, como vinha sempre fazendo, antes de se deitar, tomava a Bíblia e lia um texto e fazia sua oração de forma audível em sua língua materna. O leto eu podia acompanhar por também ter sido a minha língua da infância. Na noite em que estávamos em Belo Horizonte, véspera de irmos ao médico oftalmologista, pude ouvi-lo clamando a Deus que restabelecesse as suas vistas, “manas acis” (pronúncia atzis) = “minhas vistas”.
Tudo para ele era equilibrado. Bíblia e oração e vice-versa. Para ele a vida cristã tinha que ser mesclada, a espiritualidade com a doutrina bíblica.
Seus últimos anos
Certo dia, o vice-moderador da igreja em Bangu, irmão José Maximino me telefonou dizendo: “o seu titio não está bem de saúde. Ele não consegue mais ler. Eu é que tenho que ler para ele…”
Devido à falta de alguém que o vigiasse, especialmente quanto à saúde, alimentação etc., chegou o tempo em que a diabetes atingiu graus muito altos, degenerando os nervos óticos. Como ele e ninguém imaginava que isto poderia estar acontecendo, a igreja logo procurou tratamento com o melhor oftalmologista da época. Mais que depressa, o irmão Joel Cabral se dispôs a nos levar a Belo Horizonte, para uma consulta com o famoso Dr. Hilton Rocha que tinha na época tratado o jogador de futebol Tostão. Depois de consultado, o oftalmologista o encaminhou para um colega em Copacabana. E nada de melhoras. O estado geral cada vez pior a ponto de tê-lo que internar no Hospital Evangélico do Rio de Janeiro. Lá ficou em estado de coma. Foi constatado que a taxa de glicemia estava em 570. Pensou-se que dessa, ele não iria escapar. Os irmãos de Bangu já estavam dizendo que o corpo iria para o templo de Bangu…
Entretanto, passados alguns dias, o hospital informou que fizeram o mal principal baixar e que nada mais tinham a fazer com ele. A sua mente estava, também, totalmente confusa. Não aceitava injeções. Certo momento pisou um comprimido que deveria tomar. Fazer o que com ele assim? Deixá-lo na Igreja em Bangu, não tinha como. Então, com muito custo foi colocado no meu velho fusca e levado para o aeroporto de pijama e tudo e assim o levei para a casa de meus pais em Curitiba. No aeroporto, lá estavam meu pai e o meu irmão Carlos Ademar já nos aguardando. Um detalhe interessante: lá também estava o Pr. Herculano Ribeiro que o conhecia e foi logo dizendo, sou o pai do Pr. Ageo. E o Tio logo reclamou: “fala com ele que estou esperando o livro que emprestei para ele…”
Chegando em casa de meus pais, queria ir logo para o Seminário dar suas aulas. Eu disse que estávamos em Curitiba, muito distante geograficamente. Ele brigou comigo, dizendo que eu nada conhecia de geografia. Queria quebrar o portão e sair a pé para o Seminário. Foi uma luta.
Minha mãe tratou de colocar o homem nos eixos quanto à alimentação. Assim, passadas algumas semanas, fui informado por telefone que o titio estava melhorando. Semanas depois quando fui passar as férias em Curitiba, conversei bastante com ele. Foi a hora em que ele começou a se recompor mentalmente. Reconheceu: “Você é o João Reinaldo, foi meu aluno no Seminário” e tantas coisas mais.
Tive, então, um momento muito impactante. Passados alguns meses, veio passar uns dias em nossa casa no Rio, levei-o novamente à sua igreja em Bangu. Como aqueles irmãos e irmãs se alegraram com a presença daquele que deu 43 anos, o melhor de sua vida, por aqueles amados irmãos!
Biblioteca e mudança
Pensava-se que ele iria deixar os seus livros para a Biblioteca do Seminário no Rio, mas qual nada. Arranjamos inúmeros sacos e assim foram colocados todos nos mesmos e tudo foi transportado para Curitiba.
Depois disso ainda viveu vários anos junto dos familiares. Como não podia mais ler, sempre pedia para que alguém fosse ler algum livro para ele. Tive que fazê-lo por várias vezes, bem como meus irmãos. O Pastor Mauro Serafim leu a sua tese de doutorado, em inglês e tantos outros. Desta forma, a sua sede pelo saber era amenizada.
Assim passou seus últimos anos com seus irmãos, meu pai e com a irmã, a tia Lúcia.
Partiu para receber o seu galardão no dia 26 de dezembro de 1986 alguns dias antes de completar seus 90 anos. Em 9 de janeiro completaria essa idade.
Seus funerais aconteceram na Igreja Batista em Cajuru. Foi sepultado no Cemitério Iguaçu em Curitiba.
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Dou muitas graças ao meu Deus pelos contatos que tive com ele. Muito “bebi” daquela fonte inesgotável de sabedoria.
Sempre reconhecia que eu era diferente dele em tudo. Nunca procurei imitá-lo, uma vez que cada um é cada um.
Também creio que Deus me colocou no Seminário e também como pastor da Igreja Batista em Senador Camará, a mais próxima estação de Bangu, para ser alguém da família para essas horas difíceis por que ele passou.
Deus foi maravilhoso a ponto de ele poder passar seus últimos anos com a família. Prova de que Deus não desampara aqueles que O servem com fidelidade, até o último instante de suas vidas.
A Deus toda a glória e louvor!

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN – 5ª PARTE

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS POR JOÃO REINALDO PURIN – 5ª PARTE
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REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin

5ª. Parte
Em Curitiba
Voltando um pouco no tempo, preciso colocar que no mês de janeiro de 1954, por ocasião de uma Assembléia da Convenção Batista Catarinense em Urubici, uma vez que há tempos, me considerava vocacionado para o Ministério da Palavra, atendi ao apelo. Depois de tornar pública a minha decisão, procurei o missionário Adriano Blanckenchip que se prontificou a conseguir bolsa de Estudos em Curitiba, na então Escola Batista de Treinamento, hoje Faculdade Teológica Batista do Paraná. Ali permaneci como aluno interno 4 anos. Pelas manhãs aulas bíblicas e trabalhava na horta, rachava lenha para a cozinha. À noite fazia o Ginásio.
Logo que cheguei escrevi carta ao Titio, comunicando que estava em Curitiba estudando para o Ministério Pastoral. Creio que no ano seguinte ele veio a Curitiba. Gostou demais da cidade. Ficou surpreso ao ver como o curitibano se trajava bem. Ficou por alguns dias na pensão da irmã Maria Túlio, na Rua Duque de Caxias onde meus irmãos, Valfredo e Viganth Arvido moravam.
Quando ele chegou, eu estava fazendo trabalho como pré-seminarista pelas Igrejas do Norte do Paraná. Quando nos encontramos, ele olhou para mim de alto a baixo e acho que ficou decepcionado com a minha altura e disse em leto: “tu ês mass noo augum” = tu és pequeno de (crescimento) altura.
Tive a oportunidade de levá-lo para visitar a Escola onde estudava e também para uma visita ao diretor, o missionário Lester Bell.
Neste ínterim, o Valfredo, falando com o irmão Mizael Cardona de Aguiar aventaram a possibilidade de se adquirir uma propriedade. O tio ficou também entusiasmado com a idéia e ao voltar para o Rio, limpou as suas reservas nos bancos e foi adquirida a propriedade da Rua Jacob Bertinato, que se tornou o centro dos Purins até agora.

Eu no Seminário
No ano de 1961 ingressei no Seminário do sul. Lá chegando, os colegas, maldosos, brincando, começaram a fazer hora comigo, pois sabiam que eu era sobrinho dele, diziam: “como é que pode…, agora aparece aqui um filho do Dr. Purim?” Tudo não passou de uma brincadeira. Ele sempre gostava de me receber em seu gabinete. Nas primeiras vezes já foi me dizendo que a Igreja de Bangu já tinha um seminarista e que não teria como ter dois. Mas por Deus, o Pr. Benilton Carlos Bezerra, da Igreja Batista em Laranjeiras já havia pedido um seminarista ao reitor, Dr. Oliver, que logo me deu carta de recomendação e para lá fui, onde passei meus quatro anos de seminário. Nos últimos meses, antes de minha formatura, o Tio me convidou para pregar em Bangu. Foi uma experiência muito boa. No final do culto alguém interpelou o pastor: “Mas, Dr. Purim, o senhor com um sobrinho no Seminário e ninguém aqui ficou sabendo?” Ele deu aquela risada característica. Ele já tinha me dito, no começo do meu curso que tinha por norma não apresentar parentes em parte alguma. Isto já era coisa antiga. Nunca procurou ajudar seus irmãos, especialmente as irmãs que tanto pediram que isto acontecesse. Mas era uma das normas dele e ninguém poderia convencê-lo de outra forma.

Uma de suas esquisitices notada pela família foi o fato de não participar de meu casamento, pois naquela mesma hora estaria acontecendo o aniversário da Sociedade Feminina de sua igreja. Horas antes do casamento, passou na casa dos meus sogros, justificou-se e preferiu a sua igreja. E lá se foi. Todos “compreenderam” e perdoaram.
Conceituadíssimo
Em que pese estas esquisitices ele era conceituadíssimo por todos que o conheciam e que ouviam falar dele.
Na igreja era muito querido. Todos o tinham na mais alta consideração, apreço e respeito. Solteirão que era, entretanto, freqüentemente casais iam tomar conselhos com ele, acatavam suas orientações e acertavam-se em seus relacionamentos.
Seus estudos bíblicos e sermões eram apreciadíssimos. Todos recebiam a palavra dele como vinda de Deus e faziam questão de não perder uma palavra ou o raciocínio dele que levava o auditório a ponto de perder o fôlego. Apenas, quando terminava, o povo se mexia, como que dizendo: que coisa maravilhosa! Sempre tinha algo novo que extraía da Bíblia que é realmente inesgotável. Ele mesmo dizia com certo orgulho que não repetia sermões. De fato, isto pode ser verificado pelos sermonários que deixou.
Para o púlpito levava a Bíblia e o seu sermonário. Era um livro grosso e pautado. Para cada mensagem usava uma página. Escrito em letras bem pequenas, porém, legíveis. Começava com o título, data, hora e local em que iria pregar: Bangu, Universidade Rural (Seropédica), Padre Miguel, 2ª de Magalhães Bastos, Vila Realengo (essas eram filhas da Igreja de Bangu), Ricardo de Albuquerque que era pastoreada pelo Pr. Arnaldo Gertner e em outros lugares, como Orleans, Rio Novo, Cajuru. Temos sermões desde os anos 1918 até 1969.
Estes sermonários estão sendo disponibilizados aos interessados, sob o título: Idéias Bíblicas para seus Sermões.
Assim era também no Seminário. Ninguém queria perder suas aulas. Lá ele era o catedrático. Ministrou as seguintes matérias: Filosofia, Filosofia da Religião Cristã, Religiões Comparadas, Apologética Cristã, Teologia Sistemática, Teologia do Novo Testamento, Teologia do Antigo Testamento, Epistemologia, Metafísica, Metodologia Teológica, Lógica, Hebraico, e anteriormente, Grego e História da Igreja.
Suas provas eram corrigidas com muito cuidado, pois qualquer palavra mal colocada prejudicava a resposta e a nota.

Sempre alguém o procurava para tirar suas dúvidas. Lembro-me de um grupo de alunos do Colégio Batista que o procurou dizendo que alguém iria fazer uma semente, um grão de feijão. Ao que ele foi logo dizendo. “Mas, fazer um feijão é uma coisa, vamos ver se este feijão vai nascer! Colocar vida em um feijão é outra coisa”.

O Conferencista
Era freqüentemente convidado para institutos nas igrejas. Nem sempre podia ir, mas temos registros e escritos de suas palestras em retiros de pastores no Estado do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e outros. Em todos esses encontros deixava sempre as melhores impressões.

O Escritor
Em que pese ter deixado poucos livros, houve um período de janeiro de 1936 a dezembro de 1942, em que foi o redator da Revista da Mocidade Batista Brasileira. Essas lições eram estudadas pelos jovens nas então Uniões de Mocidade que funcionavam aos domingos à tarde, antes dos cultos. Através destas lições procurava orientar a juventude batista brasileira em aspectos bíblicos, doutrinários, missionários, morais e culturais. Este material também estará à disposição com o título geral: “Eu vos escrevi, jovens…”.
Os livros, nos quais deixou o seu pensamento registrado, são os seguintes:
As matérias disponíveis, por enquanto são:
* APOLOGÉTICA CRISTÃ, 73p;
* CRISTIANISMO E CULTURA CONTEMPORÂNEA, 63p.
* ELEMENTOS DE METAFÍSICA COM VISTAS À TEOLOGIA CRISTÃ, 70 p.
* FILOSOFIA DA RELIGIÃO CRISTÃ, 104 p.;
* HISTÓRIA DA FILOSOFIA, 100 p.
* INTRODUÇÃO À FILOSOFIA, 42 p.
* LÓGICA, APLICADA AO PENSAMENTO TEOLÓGICO, 68 p.
* METODOLOGIA TEOLÓGICA CRISTÃ, 42 p;
* TEOLOGIA BÍBLICA DO NOVO TESTAMENTO, 100 p.
Outro material que não foi produzido para uso em aula:
* A ESSÊNCIA DA OBRA DE CRISTO – Sua Tese de Ph. D, Com o título original “Um Introdução à Morte e Ressurreição de Cristo.”
* A EXULTAÇÃO DE CRISTO NO ESPÍRITO SANTO, 8p;
* A IGREJA DE CRISTO E SUA MISSÃO EVANGELIZADORA, 24 p;
* A IGREJA DE CRISTO, 52 p;
* A PREEMINÊNCIA DO INDIVÍDUO SOBRE AS CLASSES ORGANIZADAS, 10 p.
* ALGUNS PRINCÍPIOS EXCLUSIVAMENTE BATISTAS, 16 p.;
* AUTORIDADE NA RELIGIÃO CRISTÃ, 67 p.;
* DEMOCRACIA CRISTÃ (entrevista), 8 p.;
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. II, 98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. I, 98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. III, 99 p.
* JESUS CRISTO NO PANORAMA DA HISTÓRIA, 59p.
* JESUS CRISTO, O RECONCILIADOR, 76 p;
* O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO, 8 p.;
* O ENSINO DE JESUS SOBRE O ESPÍRITO SANTO, 10p.;
* O PODER DO ALTO, 20 p;
* ORIENTAÇÃO PARA OS NOVOS CRENTES, 24 p.;
* PREDESTINAÇÃO E APOSTASIA ou A PERSEVERANÇA DOS SALVOS, 70 p.;
* PRINCÍPIOS BATISTAS (tese para os pastores do Estado do Rio), 38 p.
Como já foi colocado acima, o Dr. Reynaldo Purim tinha uma cultura e um conhecimento geral de todas ou quase todas as áreas do saber humano.
Entretanto, para não incorrer em algum erro que alguém, algum dia pudesse incriminá-lo, ele era muito cioso aos expor suas idéias e pensamento. Esta, talvez, tenha sido uma das razões de ter produzido pouco. Antes de chegar à conclusão que o texto estava bom, ele corrigia e datilografava várias vezes (naquele tempo nem se falava em computador). Também ele perguntava, quem é que vai ler? Com isso dizia que, se ele expusesse o seu pensamento em sua profundidade, poucos iriam se interessar e ler.
O material que estou expondo, é o que encontrei em seus guardados em forma de apostilas e rascunhos datilografados. Como o que importa é o conteúdo estou colocando à disposição em forma de apostilas, sem muitas alterações.
Se o leitor estiver interessado, é só fazer o pedido.
Vem aí a 6ª Parte. Seus últimos anos – Morando no Seminário. Aguarde.

O PASTOR KARLOS ANDERMAN – SEGUNDA PARTE –

O PASTOR KARLOS ANDERMAN

2ª PARTE

DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS
Autor: Julio Andermann
Datilografado por Laurisa Maria Corrêa
Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
SEGUNDA PARTE

Professor? Não precisava mais ensinar as primeiras letras às crianças por que a vinda do Senhor estava próxima e instrução embotava a espiritualidade.
Ajudado por alguns membros da Igreja então adquiriu uma propriedade de uma colônia em Rio Mãe Luzia, tendo por limite numa ponta aquele rio, transparente, piscoso, que rolava num leito pedregoso entre cachoeiras e poços de águas mansas e profundas e que foi o meu amigo de brincadeiras durante a minha infância.
No mesmo local morava o meu avô Hans com a família onde restavam solteiros os filhos Rodolfo e Sigismundo e as filhas Tereza e Anna. Tereza a caçula da família nascera na mesma época que Lídia a primogênita de meus pais então a tia e a sobrinha tinham quase a mesma idade. Os dois lotes eram separados apenas por uma estrada que servia de limite.
A família do meu avô era abastada por que era dona do único moinho movida à água e também uma serraria e assim de longe vinham os colonos pra moer o milho e pilar o arroz como também cortar a madeira. Eles também possuíam uma ferraria para atender as necessidades locais de ferragens e serralheria. A mão de obra era paga ao moinho com 10% dos cereais em natura ou então mediante a conversão do valor em mil reis.
Até então eram todos membros da Igreja Batista cujo líder chamava-se Jacob Klava que era um radical seguidor da doutrina assim como ela fora transmitida há séculos.
Mas quando veio para aquele lugar o meu pai ele já decidido a insistir em fazer cultos e organizar reuniões de avivamento, onde durante muitas horas os crentes ficavam ajoelhados de quatro, com as nádegas para cima e a tônica temática, tanto da leitura do Evangelho como das fervorosas orações, era para o Senhor mandar o seu Espírito Santo conforme havia prometido e para receber esta graça buscava-se a purificação, o esvaziamento do próprio Ele, a fim de abrir o lugar para que esta força inundasse as mentes num êxtase que se manifestasse em todos aqueles dons descritos no Novo Testamento como seja: falar línguas estranhas, profetizar, ver visões, fazer milagres, mas sem a exigência de qualquer seqüência de causa e efeito; não importava que o linguajar ninguém entendesse, nem se comprovava se as nebulosas profecias se realizassem, ou se o milagre da cura realmente havia acontecido.
Da família do meu pai somente não aderiram o Emilio e a Lídia e da do meu avô, apenas o tio Sigismundo ficaram fieis a doutrina Batista, mas todos os outros se juntaram à nova seita por que o meu pai era considerado o intelectual do clã, o mais erudito, mais instruído, então a sua opinião prevalecia.
Ele então resolveu que a sabedoria mundana nada valia e lembro-me que a minha mãe queimava os livros como lenha para esquentar o forno de panificação doméstica, por que na sua opinião, seria mais interessante que esta literatura se queimasse do que as almas imbuídas das suas idéias enganosas ardessem nas labaredas do inferno.
Meu irmão Emilio que então tinha 13 ou 14 anos salvou alguns deles escondendo no mato e depois os entregou para serem guardados nas casas dos vizinhos; mas, conforme ele me contou depois, foi destruída uma vasta biblioteca constituída de livros doutrinários, enciclopédias, história, filosofia, ciência e ensino básico. O meu pai se convencera que a cultura não seria mais necessária por que, pelos sinais dos tempos, era eminente a vinda de Cristo que arrebataria apenas os crentes de corações limpos e não contaminados pelas coisas do mundo.
Como já disse: os meus irmãos Lídia e Emilio, não aderiram ao novo credo, mas depois que a coisa se aprofundou, certamente consideraram a doutrina Batista, como a base, o primeiro degrau desta escala que levou para aquela alienação mental, por que do seu meio saíram os seus primeiros seguidores, pois é próprio da natureza humana desprezar um todo por causa do suposto erro de um detalhe.
Assim a Comunidade Batista Leta de uma só vez perdeu mais de dez membros que se tornaram Pentecostais e além disto também várias famílias aderiram ao sabatismo; podendo se estimar em metade dos crentes que se afastaram. Então assim como acontece num rebanho que é invadido por um predador que agarra algumas ovelhas; o pastor somente consegue segurar algumas, as mais fieis, por que muitas outras se dispersam; assim também aconteceu lá, muitos indecisos ficaram balançando entre as crenças e acabaram perdendo a fé.
Não consta que tenham convertido algum incrédulo. Apanharam aqueles crentes que apesar de terem a certeza da salvação foram convencidos a tentarem emoções espirituais mais fortes, como se estas fossem um estagio superior, uma sobremesa do banquete espiritual e assim para satisfazer em uma emoção pessoal quase extinguiram o núcleo Batista naquele lugar.
Parece que o meu pai foi o primeiro doutrinador de Pentecostalismo no Brasil, mas devo dizer que naquele movimento ainda não entrou interesse pecuniário, a regra era dar de graça o que se recebesse de graça.
Na casa do meu avô havia uma sala destinada aos cultos Batistas, mas que depois passou a ser usada para aquelas reuniões de avivamento espiritual.
Naquela ocasião eu deveria ter a idade de 5 ou 6 anos, então me era permitido dormir o meu profundo sono de criança num quarto do lado. Quando de manhã eu acordava ia para sala ficava surpreso em vê-la cheia de detritos, latas velhas e numa ocasião até um cocho de dar comida aos porcos. Quando eu perguntei o porque? Responderam que era a perseguição do Kestrin Luris, que na minha imaginação tomei por um bicho papão, mas na realidade a curiosidade da vizinhança havia sido atraída por aquele vozerio de súplicas lancinantes: “Venha Senhor Jesus, mande o Consolador” num tom de exigência que se confundia com obrigatoriedade e eles por chacota haviam jogado todos aqueles objetos de noite pela janela para desestimular aquele escândalo e o Kestrin nisto entrava apenas como o chefe; mas os Pentecostais comparavam estes excessos com a perseguição dos crentes no inicio do cristianismo e como sinal inequívoco de que estava próximo a chegada dos dias finais.
Meus pais não se conformavam por que daqueles dons descritos no Novo Testamento nunca conseguiram uma manifestação pessoal, mas admiravam estes fenômenos nos outros. Hoje penso que foram sinceros, não sabiam fingir, esperavam uma manifestação verdadeira de transe espiritual que nunca conseguiram por inexistente naqueles termos.

Meu pai mantinha correspondência com outras comunidades Batistas Letas para divulgar o Pentecostalismo e principalmente com uma localizada no Rio Branco, nas proximidades de Jaraguá do Sul. Um dia chegou a notícia através de uma carta que havia um outro grupo procurando o avivamento espiritual através da doutrina de Pentecostes, num lugar chamado Linha Telegráfica. Lá já tinham conseguido as manifestações espirituais aguardadas e havia uma profetiza, a tia Ida [Strauss] e que ela intermediara uma mensagem marcando o dia em que Cristo desceria dos céus em toda a sua glória para arrebatar aqueles crentes reunidos e vigilantes].
Não me lembro dos detalhes, mas a nossa família na integra, meus avós e meus tios, abandonaram todas as propriedades; alguns de navio e outros mesmo em carroças puxadas por cavalos viajaram para aquele local.
Era um sítio inóspito, banhado cercado de morros e ameaçado de malária. Lá todos se reuniram numa comunidade imitando aquele ideal dos primórdios do Cristianismo descrito nos Atos dos Apóstolos. Construíram alojamentos, trabalhavam cooperativamente no cultivo de alimentos necessários a sobrevivência, vigiavam e oravam a espera do glorioso dia da vinda do Senhor.
Liam a Bíblia escolhendo aqueles versículos que davam apoio ao seu fanatismo e nas horas de lazer e durante muitas horas, de joelhos no chão e apoiados nos cotovelos, em circulo, oravam insistentemente pedindo a manifestação do Espírito. Quando um crente terminava com o amém o outro ao seu lado direito emendava, enquanto outros diziam “aleluia”.
Descobriram no Evangelho de que os Crentes deveriam confessar-se uns aos outros; então nesta mesma postura contavam as tentações a que teriam sido expostos. Na ausência de atos pecaminosos valiam aqueles praticados no pensamento. Qualquer dúvida quanto à legitimidade doutrinária desta iniciativa deveria ser declarada em público, desaprovada por todos os presentes e o culpado confesso compelido ao arrependimento.
No Apocalipse também consta que “eles cantarão um cântico novo” interpretando esta frase literalmente. Em conseqüência foram jogados ao chão todos o hinários tradicionais; balbuciando a comunidade qualquer coisa em qualquer tonalidade numa gritaria ensurdecedora.
A minha irmã Mely gritou tanto que acabou danificando as cordas vocais. Foi ela também que adolescente, com um alicate arrancou uma coroa de ouro que lhe revestia um dente e o jogou numa touceira de bananeiras, pois Deus tinha o poder de fazer nascer dentes novos.
Lembro-me de uma urna funerária pintada de branco guardada no sótão a vista de todos que se destinava a uma menina chamada Tabita, por que a profetiza havia previsto a sua morte; moça esta que anos depois encontrei em Varpa gozando perfeita saúde, mas a credulidade era tanta que na certeza do desfecho fatal, anteciparam a construção do caixão.
O fim desta história é fácil de se prever. No dia marcado Cristo não apareceu embora os fieis estivessem em vigília até o sol raiar no dia seguinte. [Estes fatos aconteceram aproximadamente na década de 1910 e também não constam nos Livros de História da Assembléia de Deus.]

CONTINUA…

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN -3ª PARTE

Dr. Reynaldo Purim
Dados Biográficos
3ª Parte

REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin
3ª Parte
As minhas primeiras lembranças do Tio Reynaldo em casa são de quando ainda era muito pequeno. Talvez uns três ou quatro anos.
A biblioteca dele era bem grande e constituída das maiores e melhores obras em teologia, filosofia, comentários e dicionários bíblicos. Grande quantidade delas foi trazida dos Estados Unidos. Mesmo assim não se cansava em comprar livros e estar em dia com o mais atualizado do pensamento humano.
Gostava de freqüentar as feiras de livros na Praça Sans Peña e na Cinelândia. Sempre me convidava para irmos juntos. Orientava-me que ao comprar um livro devia olhar logo quem era o autor, o que fazia e o que faz na área.
* * * * * * * *
Era extremamente responsável em seus compromissos. Tudo era anotado em sua agenda. Não faltava às suas aulas. Podia cair a maior chuva, às 7 horas da manhã, lá vinha ele subindo a ladeira do Seminário, debaixo do seu guarda-chuva, pois não queria que alunos ficassem esperando pelo professor.
Tinha também os seus conceitos irremovíveis. Por exemplo: aposentado é só para quando ficar inválido. Assim foi muito difícil ele ser demovido do seu trabalho no Colégio Batista Brasileiro, quando já tinha tempo suficiente para se aposentar. Considerava-se em condições de trabalhar dando aulas de inglês a alunas da 1ª e 2ª séries do então ginásio, podendo estar fazendo outra coisa. – Na igreja foi também assim. Só saiu depois que as diabetes atingiram seu nervo ótico a ponto de não poder ler a Bíblia direito. Mesmo assim, já nos últimos meses de seu pastorado em Bangu pedia ao vice-presidente, que a lesse para ele. Conta esse irmão que numa tarde o encontrou de pé, à luz da janela, tentando ler sua correspondência.
Ele nunca foi de pedir ou exigir coisa alguma de ninguém e especialmente da igreja. Contou-me outro irmão que nos primeiros anos de seu pastorado, por exemplo, aos sábados, quando tinha alguma programação especial, ele não ia de volta para onde morava, bem distante, no sul da cidade. No dia seguinte, domingo pela manhã, lá estava ele já bem arrumado esperando o povo chegar. Então resolveram observar o que ele estaria fazendo. Viram, pela fresta da janela, que ele se deitava no tapete do púlpito e assim passava a noite. Foi, quando os líderes da igreja tomaram providências e colocaram um sofá-cama no escritório para o pastor.

Recordações de suas férias em nossa casa – Rio Novo
Todos os anos, especialmente no começo de janeiro, era o tempo da espera da chegada do “Unkuls” que em leto, nós crianças o chamávamos, que significa Tio. Ele não era de avisar. Assim, todos em casa ficávamos na expectativa. Geralmente achávamos que na primeira sexta-feira de janeiro, à noitinha, ele iria chegar. Naquele tempo os aviões da TABA já desciam na lagoa em frente do mercado de Laguna [eram anfíbios] ou no Aeroporto de Tubarão [sul de Sta. Catarina]. De lá viria de trem até Orleans depois a pé até nossa casa que ficava em Rio Novo, a uns 12 quilômetros de caminhada pela estrada cheia de curvas e sobe e desce. Morávamos na subida conhecida como o “morro dos Purins”, bem nas nascentes do Rio Novo. De lá, nós crianças, ficávamos com os olhos fixos na distante estrada, bem lá em baixo onde havia uma reta além da propriedade da Igreja Batista de Rio Novo, em que, no final, poderia surgir um homem alto que seria o Tio. A decepção, infelizmente, acontecia. Na semana seguinte quando meu pai ia para a cidade, no correio encontrava o telegrama comunicando que este ano não viria. Decepção geral.
Já era alta noite. Lá na roça tudo era sem chaves. As porteiras e portas, naquele tempo, só eram fechadas com tramelas que qualquer um podia abrir a qualquer hora do dia ou da noite. Assim é que lá pelas tantas, quando ninguém imaginava, eis que se ouviu a expressão em leto: “Esmu máias”, por várias vezes. Estava dizendo: “estou em casa”.Todos acordaram e foi aquele rebuliço. A vovó Lisete e o vovô Jahnis (João) também apareceram. As alegrias começaram. Lembro-me que nos dias seguintes ele me chamou de “Poadjis” cuja tradução talvez seja “Pirralho” ou coisa semelhante. Ele muito nos queria bem, tanto é que gostava de nos aconchegar, fazendo-nos “cavalinho, cavalinho” em seus joelhos.
Desta feita, o Tio Reynaldo já estava há alguns anos morando e trabalhando no Rio de Janeiro como pastor em Bangu e professor em várias instituições de ensino, inclusive no Seminário. Pelo que parece, era a primeira vez que ele estava a passar as férias em casa, depois que tinha voltado dos Estados Unidos. Lembro-me de que ele apanhou um Atlas Geográfico antigo para mostrar para a vovó Lisete onde se situava Bangu e como ele tinha que tomar o trem da Central do Brasil para lá chegar, uma vez que morava em Ipanema, zona sul daquela cidade. Eu só ficava observando tudo, sem nada entender.

Continua…</strong