…mas não obtive autorização para viajar. | de Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1928 –

Rio Novo 18 de abril de 1928
Querido irmão! Saudações!

As tuas cartas escritas em 12 de fevereiro e 7 de março uma na semana passada e a outra na semana anterior. Elas vieram rápidas. Muito obrigado por elas. Agora eu vou ter que matar 2 coelhos com um tiro só. É muita sorte receber duas no mesmo tempo.

Nós agora graças a Deus estamos bastante bem, estamos todos bem de saúde, somente o tempo está por demais chuvosos. Chove quase todo dia e quase não dá para trabalhar nas roças e muita coisa apodrece nas roças. Todo este verão não foi só chuvoso, mas teve tempestades e enchentes que impediam a gente ir à cidade. Os pequenos riachos se transformaram em grandes rios. Neste ano em todo Brasil chove muito e a chuva tem causado muitos prejuízos e desastres com muita infelicidade. Soubemos que em São Francisco a chuva foi tanta que o cemitério da cidade foi destroçado pelas águas das chuvas arrastando corpos sepultados e esqueletos pelas ruas da cidade. E que os morros adjacentes da cidade de Santos estão desmoronando e cobrindo grande parte da cidade causando imensos prejuízos a toda população.

Falando em chuva talvez você queira saber como estão as nossas roças. Na realidade penso que você tem pouco ou nenhum interesse neste assunto. As nossas lavouras estão muito bem. Não temos aquelas grandes roças que tínhamos antigamente, mas estão muito limpos porque nós capinamos 2 ou 3 vezes cada roça e assim as espigas crescem realmente maiores.

Na beira da estrada temos uma lavoura e também um pedaço plantado com cebolas. Na encosta do morro temos feijão plantado e está muito bonito. Pena que chove demais. Depois da mata na divisa com o terreno do Ernesto Grüintall no morro junto à mata está todo plantado com milho. Neste lugar quando você estava aqui não tínhamos culturas e sim pasto.
Na grota funda também derrubamos a mata e plantamos milho e abóboras e as plantas estão muito lindas. Pena que é tão difícil de trazer as abóboras lá de baixo. Depois vamos plantar grama e em outras partes semear o Capim catingueiro.
A semente deste capim chegou um saco de 18 quilos que o Artur conseguiu com um amigo do Ministério da Agricultura em Florianópolis. Agora ele tem recebido mudas de plantas frutíferas, sementes de lá. Nem tudo que ele pede consegue, mas quando ele tem, eles mandam.

Agora vamos conversar sobre os nossos parentes na Letônia. Estes estão realmente pobres e isso é realmente penoso assim o Tio André [André Purens irmão do Jahnis Purim meu avô] escreveu um Cartão Postal. Ele mesmo está sempre doente e o Jahnites tem que ir servir o Exercito. A notícia boa é que a Igreja de Jaunjelgava conseguiu um espaço para ele morar de graça. Recentemente enviamos um cheque de 100$000 (cem mil réis) para o Pastor Frejis em Riga a fim que ele troque e mande adiante sabendo que em Jaunjelgava não tem nenhum banco com correspondente estrangeiro. É o que podemos fazer com parentes que precisam de ajuda em caso de tão grande necessidade e a fome bate a porta. O tio André também pediu o teu endereço e diz que vai escrever.

Dos parentes de São Paulo no momento não tenho notícias deles. A última carta do Tio Jehkabs e da Lilija recebemos antes do Natal as quais nós respondemos, mas depois disso não temos notícias deles. Nestas cartas eles insistiam em convidar para passar as Festas e poder visitá-los e como nós não demos bola para este convite é provável que tenham ficado tristes. Esta semana eu queria escrever para a Lilija e perguntar por que ela não escreve. Eu naquela oportunidade queria viajar, mas não obtive autorização para viajar. Tanto eu como o Artur somos tolhidos e não temos liberdade para sair, como você tinha e têm ainda.

As tuas lembranças para o Pastor Stroberg foram entregues e ele manda muitas amáveis lembranças pra você e também disse que vai escrever.
Lucia

Uma viagem missionária do Pastor Karlos Stroberg. – 1927 – De Lucija para Reynaldo Purim

Rio Novo 26 de maio de 1927

Querido maninho. Saudações!!

Recebi a tua carta escrita em 24/03/27 há bastante tempo atrás, mas não tinha tempo de responder, porquê aqui temos muito serviço e quando a gente trabalha demais durante o dia não tem gosto nem vontade de escrever à noite.

Serviço aqui não falta e ainda o deslocamento de uma casa para outra então para mim e para as correrias, nós temos de sobra.
Aqui nós estamos passando relativamente bem, O tempo também está bom e quente. Umas semanas antes veio uma chuva muito forte e depois quando limpou veio uma grande geada. Para a maioria das pessoas a geada matou muito feijão, o prejuízo foi muito grande. Nós fomos espertos, pois nem feijão nós não plantamos e por isso não tínhamos feijão para a geada matar. Agora o tempo está bom e já há algumas semanas é bastante quente apesar das manhãs serem bem frescas, mas quando chega ao meio dia o suor escorre como no verão, apesar dos dias serem muito curtos.

Hoje é o dia da Ascensão do Senhor e houve uma festa com programa especial na Igreja liderado pelo pessoal da Escola Dominical que foi até o meio dia. As crianças apresentaram poesias, hinos e músicas especiais e àquele café com pão e bolos por 400, réis por pessoa. Há tarde foram correr e fazer piquenique.

Foi hoje também que o Stroberg contou os detalhes de sua viagem, pois ele chegou em casa somente na terça feira à noite de sua viagem missionária que durou 10 dias quando visitou os irmãos da Igreja de Mãe Luzia onde o trabalho foi muito bom. O comparecimento aos cultos foi grande e houve um avivamento e conversões ao lado de Jesus e quando na próxima viagem deverão ser efetuados batismos. O Stroberg ainda foi a Laguna, Tubarão, Pedras Grandes locais onde organizou cultos em clubes e outros locais todos bem concorridos por pessoas muito atenciosas. Insistiram para que voltem liberando locais como clubes e outros lugares inteiramente sem qualquer ônus para a realização destes trabalhos insistindo que levem com os corais e também os músicos. Agora o Stroberg tem um campo muito vasto e não sabemos se ele vai dar conta por que há lugares muito longe. No domingo eles vão a cavalo para Grão Pará onde também eles são bem recebidos pela população local.

Ainda o Karlos Stroberg e um dos Klava foram 6 horas a cavalo e seguidos por outros rapazes carregando instrumentos musicais foram até um pequeno povoado chamado Meleiro habitada por gente de sentimentos muito nobres e é liderada pela distinta família Napoli [ Pode ser algum ramo da família de Miguel Napoli , importante administrador da Cia Metropolitana que foi a Colonizadora de Nova Veneza e adjacências – Ver História de Nova Veneza de Zulmar H. Bortoletto. Pref. Mun. Nova Veneza.] e nesta pequena cidade celebraram um culto muito bem concorrido. Até o padre pôs a disposição o templo da Igreja Católica. Mas, o templo dele era muito pequeno assim mesmo agradeceram e declinaram de tanta consideração, mesmo porquê outro local maior já tinha sido preparado, mas eles fizeram prometer que em outra oportunidade a oferta continuaria em aberto. Os filhos do senhor Napoli disseram que se as visitas continuassem regulares eles iriam construir um local apropriado definitivo isto é um templo para a Igreja.A escola regular aqui no templo da Igreja conta agora com 17 alunos. Quando o Stroberg está em casa, é ele com a Griselde que dão as aulas para as crianças. Quando o Stroberg tem que ir a algum lugar,, então, a Griselde sozinha domina as crianças desobedientes.

Você escreveu para o Karlos Salit? Aqui corre um boato que o Karlis teria casado.

Hoje vou ter que terminar porquê já é tarde e hoje também eu pulei cedo quando o sol apareceu por detrás da Serras eu já tinha dado comida para todos animais e tinha que me apressar mesmo para chegar na hora na Igreja. Amanhã também eu tenho que levantar cedo para Orleans para levar manteiga e ovos.

Ainda teria muito que escrever, pois eu não sei resumir então eu vou continuar na semana que vem quando vou escrever outra vez.
Lembranças do pessoal de Larangeiras e da senhora do Caciano.

Agora vou esperar uma longa carta com muitas notícias.
Ainda muitas lembranças da Lucija.

…Durante o dia tenho que correr junto com os demais para as roças e….De Lucija Purim para Reynaldo Purim 1926

Rodeio do Assucar 18-11-26

Querido maninho! Saudações.

Enfim vou-te que escrever, pois o Arturs terminou de escrever a dele, se bem que eu não tenha nenhuma vontade de escrever ou mesmo pensar, pois durante o dia tenho que correr junto com os demais para as roças e na hora do almoço tenho que cozinhar a comida. Tenho que tirar o leite das vacas e ainda alimentar os porcos que estão no chiqueiro para engorda diante de toda esta luta quando chega à noite vem um sono tão forte que escrever cartas nem pensar. E ainda você foi para tão longe [Nesta época o Reinaldo já estava estudando em Louisville Estado de Kentucky nos Estados Unidos] e muito pouco interesse deve ter por nós aqui em casa e mesmo nem tempo para pensar em nós aqui não tem.

Nós aqui estamos passando suficientemente bem. A perna do Paps está ficando melhor. Durante 3 semanas ele não pode trabalhar, mas agora o furúnculo [Furúnculos ou abscessos eram bastante frequentes para as pessoas que moravam naquela região. Geralmente na maioria das vezes ocorriam nos pés, mas também podiam aparecer em qualquer parte do corpo. Por naquela época não haver nenhum tratamento específico eram tratados com emplastros mais variados. Quando terminava o ciclo rompia-se a pele saindo grande quantidade de pus amarelado culminando com a saída do “carnegão” que devia se o núcleo da infecção. Era vulgarmente chamado de “mijacão” e dizia-se que a infecção era transmitida através da urina de bovinos] rompeu-se e está ficando cada dia melhor e pelo menos agora nas noites ele consegue dormir.

A Festa do aniversário da União da Mocidade ocorreu com tempo muito bom apesar de um tanto frio [Esta Festa era no dia 16 de outubro]. Gente tinha bastante, vieram muitos visitantes de Mãe Luzia e Orleans. A direção do programa foi do Alex [Alexandre Klavin]

. Entre outros houve diversas saudações de outras Uniões e pessoalmente saudou esta o Artur [Arthur Leiman] em nome da congênere qual ele dirigia na Argentina. Ele tinha chegado na véspera em Orleans. A Festa continuou na noite de domingo, pois o programa era realmente muito extenso. Agora estão aprontando as partes para o Programa de Natal. Os pequenos estão decorando as poesias e assim que uma Festa se vai é hora de começar os preparativos para a próxima.

O Arthurs [Arthur Leiman] não vai mais voltar a morar na Argentina e sim vai continuar a morar no Brasil. Ele diz que lá ele não se saiu bem. Aqui ele não sabe onde vai estabelecer-se, mas para lá ele não vai voltar porquê a Associação de lá já autorizou ele voltar e também o salário era somente 150 pesos por mês e com isso era impossível sobreviver, se insistisse em continuar lá teria que morrer de fome. Num lugar onde tudo tem que ser comprado, pão, lenha, água em dinheiro a vista. O pão mais ordinário custa 50 centavos o kilo então eles compravam só deste e comiam e algumas vezes ficaram até deste sem comer por falta de dinheiro e por isso emagreceram tanto e também adoeceu. Agora logo que arranjar algum dinheiro vai terminar de aprender a profissão de dentista, pois ele já tinha praticado junto com o Fritz [Frederico Leiman] e agora só falta um documento emitido por um profissional atestando a capacidade técnica e os conhecimentos para exercer esta atividade.

O Arthurs quanto à oratória está muito mais fluente do que antigamente. Domingo ele falou na Igreja sobre Efésios 4 20 a 25. Deteve-se no versículo 20 e irritou algumas pessoas que já não gostavam dele. A maioria gostou bastante. Agora os Rio-novenses na maioria são como é descrito no versículo 25 que só é correto falar de uma pessoa na sua presença isso é na sua frente e não ficar malhando pelas costas com fazem alguns Slegmans e Matchs. Estes até os parentes como os Karp e os Stroberg eles conseguiram implantar inimizades porque queriam o Stroberg para a Mildinha [Amilda Karp], agora ele os causadores da polêmica também ficaram de mal com o Stroberg. Quando não foi possível, conseguir fazer o Karlites [Karlos Stroberg] namorar quem eles queriam porque manter então qualquer amizade se esta era a meta principal.

Desta vez chega, agora vou aguardar uma longa carta sua. Escreva sobre a sua escola, o que você come e quanto tempo vai ficar lá. A minha escrita está como a sua: pois nunca aprendi bem e o pouco que sabia já esqueci então nós somos iguais.

Muitas e amáveis lembranças da Lucija.
____________________________________

…se nós não conseguirmos comprar a terra dos Leiman,nós não vamos vender a Bukovina. De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

03 de agosto 1926.
Querido Maninho!
Se bem que nada tenha recebido de você, vou te escrever. Também não tenho nada de novo depois da longa carta que eu te mandei e é provável que já estejas lendo.
Nós graças ao nosso querido Deus [A palavra Deus está no diminutivo que em português não teria sentido, mas em leto é uma forma carinhosa e familiar de se referir a Deus.] estamos todos bem.
Na sexta feira da semana passada nós mandamos um pacote via postal registrado com valor declarado de todos bens nela contidos para eventual ressarcimento, por que quando é envia uma encomenda sem valor expresso não há como pleitear qualquer pagamento. O pacote continha 4 pares de meias, 2 pares de luvas 1 pequeno xale – [ devia ser um cachecol, pois homem nenhum usava xale que era bem maior feito de tricô ou crochê em lã e era um artigo muito usado por elementos do sexo feminino ] e ainda uma camisa. Dentro de uma das luvas foi também uma longa carta então se você achou e leu está muito bem informado sobre tudo daqui.
Nesta carta estou anexando o croqui do teu terreno da Bukovina, aliás, é o mesmo que tu mandasses, agora com a distância em metros de cada uma das divisas. Agora com a tua escala podes fazer um novo desenho em papel de boa qualidade isso por não termos material nem aquela facilidade de fazer desenhos como você.
Eu já mencionei em outras cartas que se nós não conseguirmos comprar a terra dos Leiman nós não vamos vender a Bukuvina no Rio Laranjeiras. Dinheiro para outras coisas não precisamos e não estamos convencidos se nós devemos mesmo comprar, pois a casa aqui não pode ficar vazia como já escrevi em outra ocasião, mas a “Procuração” podes mandar se não for muito cara para que no caso que saia o negócio já tenhamos a autorização. Sobre isso já escrevi em outra carta estou repetindo, pois se no caso aquelas cartas tenham se extraviadas então deves saber as providências que deves tomar.

Junto estou enviando um livrinho, se você não tem e gostar então podes ler. Este tipo de livros são revendidos aqui pelos Karklim e pelos Frischembruder. Este livrinho vale a pena ler. Assim a gente fica sabendo o que aconteceu por lá e por que tanta controvérsia entre o Fetlers [Líder Batista na Letônia] e o pessoal do “Kristiga Westnesis” [Jornal Batista da Letônia].
Desta vez chega. Muitas lembranças de todos.
Lúcia

…mas receber alguma carta não tenho tido este prazer. De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rio Novo 30 de maio de 1926

Querido maninho.

Embora de você nada tenha recebido, apesar de sempre estar aguardando todos os dias e assim passam-se as semanas, mas receber alguma carta não tenho tido este prazer. Não sei o que tenha acontecido por que não escreve mais. Pode ser que esteja doente, pois em uma das cartas você menciona que está muito cansado e que seria possível vir o descanso na noite eterna, ou antes, e isso me deixou muito preocupada. Pois agora por qualquer coisa fico super nervosa e abalada. Fico pensando porque ele não escreve sobre a nova fase de sua vida. Pode ser que nesta fase esteja passando necessidades e ainda devido ao excesso de trabalho ou será que existe algum outro motivo. Antigamente você escrevia longas cartas e agora quando escreve são cartas curtas. Ou nada tens mais para contar. Para nós você pode contar tudo. Por que ficar tão reservado se nós somos da mesma família irmãos e irmãs.

Nós aqui vamos levando a vida de sempre, serviço à gente tem demais e nunca conseguimos fazer tudo. Como pessoas somos poucas e trabalhos demais e assim sempre estamos sobrecarregados de serviço e temos que trabalhar demais. A Olga nada pode ajudar, não está de cama, mas melhor não fica.

As Festas passaram já há bastante tempo, o tempo estava bom, se bem que pela manhã começou a chover um pouquinho, mas depois melhorou e saiu um belo sol. O programa foi longo e variado, mais hinos e músicas. Foram esperados visitantes de outras localidades, mas não veio ninguém.
O convite foi feito através da publicação “Zelhmalla Seedos” [“Flores a Beira do Caminho”], mas não tenho certeza se foi publicado, mas sei que o dinheiro da assinatura e também o correspondente ao valor do anúncio foram entregues pelo João Zeeberg para a Selma [Klavin] para que a mesma entregasse a pessoa responsável lá no Rio de Janeiro. Ficou bem claro que o dinheiro era também para o convite, mas agora surgem dúvidas se mesmo a Selma entregou e porque ninguém recebeu este ano este jornal e quem sabe tenha terminado a sua vida de publicação. Se isto aconteceu é deveras lamentável, pois a Kate contou que no Seminário este ano são 24 os alunos letos. São tantos mesmo?

Então agora acho que já escrevi bastante e é bastante tarde. Hoje à noite estivemos na Igreja e teve aquele programa da Noite de apresentações diversas da Mocidade. Foi muito interessante o programa com hinos, mensagens, poesias etc. foi muito agradável para ouvir e meditar. Venha você também ouvir e ver como o trabalho é harmonioso quando todos componentes escalados colaboram e apresentam um trabalho muito bonito.

Hoje na Igreja foi apresentado o novo casal de noivos: A Natalia Felberg com o Eduardo Karklim.

Muitas lembranças de todos de casa e vou ficar aqui esperando uma longa carta tua.

Lucija

PS – Gostaria de saber se as cartas minhas enviadas em 16 de abril e 7 de maio tu já recebestes.

…o nosso tio Ludis faleceu vitimado por um derrame cerebral. De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1925 –

(Sem Indicação do ano, mas é 1925)
Rio Novo 11 de novembro
Querido irmãozinho! Saudações!!
Recebi a tua carta escrita no dia 27 eu recebi no dia 6 de novembro e por ela muito obrigada. Estou muito alegre porque estás respondendo todas as minhas cartas e não ficas esperando a segunda para responderes as duas numa vez só. O Arthur também recebeu aqueles jornais e agradece por eles. Você já recebeu a carta que eu mandei no dia 27 de outubro e o Arthur mandou a sua carta na semana passada no dia 6 de novembro. Se você recebeu estas cartas, você já estará sabendo como nós estamos passando por aqui pelo menos pelo que eu sei. Também não tenho nenhuma notícia alegre e o que eu tenho que te escrever não é nada agradável e como a gente vive neste mundo está sujeito a muitas tristezas.

Na quinta feira passada o Arthur foi a Orleans e trouxe a dolorosa notícia que o nosso tio Ludis faleceu no dia 23 de outubro vitimado por um derrame cerebral [Segundo a informação do Gerd Vitor, filho do Sr. Ludis a causa da morte foi meningite.] Dizem que esteve doente poucos dias. Esta notícia saiu no “Der Compass” que a Matilde Balod recebeu da irmã dela Amalija com outras anotações. Pode ser que até tenha algum telegrama em Orleans, mas como ninguém foi lá procurar e para aqui no Rio Novo ninguém manda e pode ter acontecido como no ano passado quando o Fater [Pai do Ludis] morreu o telegrama ficou retido em Orleans por 3 meses.

O Ludis agora em 23 de outubro tinha 45 anos e 4 meses e como rapidamente a vida dele terminou. O Fater viveu mais de 80 anos e ele somente 45 anos. Esta doença ele adquiriu devido aos longos períodos escrevendo e forçando demais a cabeça e a imaginação, não sei como a titia está passando agora, mas a tristeza deve ser muito grande para ela. Ela ficou com dois meninos o Gert Vitor tem oito anos e o Rudolf com 4. Você poderia escrever uma carta para a tia, pois ela te conhece. O endereço dela eu não tenho, mas você pode escrever neste: “Diário Allemão ou “Deutsches Zeitung” Rua Libero Badaró No. 99. A última carta que o tio escreveu ele prometia alguma vez voltar a passear aqui e nos visitar e também convidava para que eu fosse passear lá e conhecer cidades grandes e outras novidades como conhecer os parentes. Eu realmente tinha vontade alguma vez ir até lá, mas até agora ninguém me deixou sair e agora é tarde demais. —-
O tempo já há dias está claro e bom. Está bastante quente. As pessoas estão queimando as roçadas. Hoje estava tão enfumaçado que quase a gente não conseguia respirar, mas ao anoitecer deu um forte vento e choveu um pouco e é provável que chova mais.
Bem tenho que terminar de escrever, pois não vou escrever mais por que não há o que escrever que seja importante e nada relevante aconteceu e sobre pequenos detalhes não valeria a pena escrever e para você não interessa mesmo.
Você promete estenografar as cartas porque se torna mais rápido. Você devia vir e ensinar a ler estenografia e ai poderemos usar esta escrita quanto quiser.
Eu entreguei todas as tuas lembranças e através do August Klavim mandei para o pessoal de Rio Larangeiras e eles carinhosamente retribuíram.
Muitas lembranças de todos de casa. Lúcia.

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN -3ª PARTE

Dr. Reynaldo Purim
Dados Biográficos
3ª Parte

REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin
3ª Parte
As minhas primeiras lembranças do Tio Reynaldo em casa são de quando ainda era muito pequeno. Talvez uns três ou quatro anos.
A biblioteca dele era bem grande e constituída das maiores e melhores obras em teologia, filosofia, comentários e dicionários bíblicos. Grande quantidade delas foi trazida dos Estados Unidos. Mesmo assim não se cansava em comprar livros e estar em dia com o mais atualizado do pensamento humano.
Gostava de freqüentar as feiras de livros na Praça Sans Peña e na Cinelândia. Sempre me convidava para irmos juntos. Orientava-me que ao comprar um livro devia olhar logo quem era o autor, o que fazia e o que faz na área.
* * * * * * * *
Era extremamente responsável em seus compromissos. Tudo era anotado em sua agenda. Não faltava às suas aulas. Podia cair a maior chuva, às 7 horas da manhã, lá vinha ele subindo a ladeira do Seminário, debaixo do seu guarda-chuva, pois não queria que alunos ficassem esperando pelo professor.
Tinha também os seus conceitos irremovíveis. Por exemplo: aposentado é só para quando ficar inválido. Assim foi muito difícil ele ser demovido do seu trabalho no Colégio Batista Brasileiro, quando já tinha tempo suficiente para se aposentar. Considerava-se em condições de trabalhar dando aulas de inglês a alunas da 1ª e 2ª séries do então ginásio, podendo estar fazendo outra coisa. – Na igreja foi também assim. Só saiu depois que as diabetes atingiram seu nervo ótico a ponto de não poder ler a Bíblia direito. Mesmo assim, já nos últimos meses de seu pastorado em Bangu pedia ao vice-presidente, que a lesse para ele. Conta esse irmão que numa tarde o encontrou de pé, à luz da janela, tentando ler sua correspondência.
Ele nunca foi de pedir ou exigir coisa alguma de ninguém e especialmente da igreja. Contou-me outro irmão que nos primeiros anos de seu pastorado, por exemplo, aos sábados, quando tinha alguma programação especial, ele não ia de volta para onde morava, bem distante, no sul da cidade. No dia seguinte, domingo pela manhã, lá estava ele já bem arrumado esperando o povo chegar. Então resolveram observar o que ele estaria fazendo. Viram, pela fresta da janela, que ele se deitava no tapete do púlpito e assim passava a noite. Foi, quando os líderes da igreja tomaram providências e colocaram um sofá-cama no escritório para o pastor.

Recordações de suas férias em nossa casa – Rio Novo
Todos os anos, especialmente no começo de janeiro, era o tempo da espera da chegada do “Unkuls” que em leto, nós crianças o chamávamos, que significa Tio. Ele não era de avisar. Assim, todos em casa ficávamos na expectativa. Geralmente achávamos que na primeira sexta-feira de janeiro, à noitinha, ele iria chegar. Naquele tempo os aviões da TABA já desciam na lagoa em frente do mercado de Laguna [eram anfíbios] ou no Aeroporto de Tubarão [sul de Sta. Catarina]. De lá viria de trem até Orleans depois a pé até nossa casa que ficava em Rio Novo, a uns 12 quilômetros de caminhada pela estrada cheia de curvas e sobe e desce. Morávamos na subida conhecida como o “morro dos Purins”, bem nas nascentes do Rio Novo. De lá, nós crianças, ficávamos com os olhos fixos na distante estrada, bem lá em baixo onde havia uma reta além da propriedade da Igreja Batista de Rio Novo, em que, no final, poderia surgir um homem alto que seria o Tio. A decepção, infelizmente, acontecia. Na semana seguinte quando meu pai ia para a cidade, no correio encontrava o telegrama comunicando que este ano não viria. Decepção geral.
Já era alta noite. Lá na roça tudo era sem chaves. As porteiras e portas, naquele tempo, só eram fechadas com tramelas que qualquer um podia abrir a qualquer hora do dia ou da noite. Assim é que lá pelas tantas, quando ninguém imaginava, eis que se ouviu a expressão em leto: “Esmu máias”, por várias vezes. Estava dizendo: “estou em casa”.Todos acordaram e foi aquele rebuliço. A vovó Lisete e o vovô Jahnis (João) também apareceram. As alegrias começaram. Lembro-me que nos dias seguintes ele me chamou de “Poadjis” cuja tradução talvez seja “Pirralho” ou coisa semelhante. Ele muito nos queria bem, tanto é que gostava de nos aconchegar, fazendo-nos “cavalinho, cavalinho” em seus joelhos.
Desta feita, o Tio Reynaldo já estava há alguns anos morando e trabalhando no Rio de Janeiro como pastor em Bangu e professor em várias instituições de ensino, inclusive no Seminário. Pelo que parece, era a primeira vez que ele estava a passar as férias em casa, depois que tinha voltado dos Estados Unidos. Lembro-me de que ele apanhou um Atlas Geográfico antigo para mostrar para a vovó Lisete onde se situava Bangu e como ele tinha que tomar o trem da Central do Brasil para lá chegar, uma vez que morava em Ipanema, zona sul daquela cidade. Eu só ficava observando tudo, sem nada entender.

Continua…</strong