O Pastor Karlos Anderman .Depoimento de Júlio Anderman um de seus filhos.

O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 5ª PARTE (última)

O PASTOR KARLOS ANDERMAN
5ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
]

Passei a trabalhar para a Família Kreplin, constituída dos pais e vários filhos. Eu dormia no mesmo aposento de um deles, o Ernesto.
Tive o privilégio de conviver dois anos no seio daquela família, um modelo de comportamento da Denominação Batista daquele lugar. Eram firmes nas suas convicções, honestos, tinham aptidão para gerir os seus negócios materiais com muito êxito e o seu lema era “ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto”, incluindo o meu.
Todo o dia de trabalho se iniciava às 4 horas da madrugada. Os pais acordavam primeiro para fazer o café da manhã. Isto feito os dois abriam o Cantor Cristão num hino e entoavam a melodia em duas vozes. Então vinha o Ernesto; em seguida o Roberto e as duas moças, engrossando este coro polifônico neste “toque de alvorada” que me acordava também, o mais jovem e lá vinha eu esfregando os olhos dos últimos vestígios do sono. A última estrofe nunca era cantada sem a minha presença; então era uma obrigação moral saltar logo da cama para não deixarem os outros repetirem.
Todos reunidos o Patriarca lia uma passagem da Bíblia para a meditação e designava alguém do grupo para fazer uma oração a Deus pedindo a benção para os afazeres daquele dia que ora se iniciava.
Tomava-se o café. Chamava os muares de tração para a sua refeição matinal e depois, junto com a filha Vitória íamos para o estábulo tirar o leite das vacas, bem uma dezena delas formando duas filas. Enquanto elas saboreavam a ração, nós espremíamos as tetas antes lavadas com água, com a mão, esguichando jatos de leite dos úberes intumescidos, para o balde.
Com detalhe me lembro de duas vacas temperamentais; uma delas somente consentia soltar o leite se estivesse comendo a batata doce; a outra, somente deixava ser ordenada por mulher, ela olhava primeiro e se fosse homem soltava um coice atirava longe o intruso.
Às vezes a Vitória de brincadeira colocava esta vaca na fila da minha ordenha. A luz bruxuleante pendurada no meio do estábulo não permitia distinguir qual era delas, pois todas eram castanhas e quando ela virava a cara já era tarde. Ela soltava o coice, enquanto a Vitória ria gostosamente.
Na ordem do dia então constava o segundo café que era reforçado por frutas e proteínas. Em seguida atrelava os muares que atendiam pelos nomes de Dourado e Galego que eram animais de tração de muita força e rebocavam os implementos agrícolas. Eram tão integrados no trabalho que faziam animados e repetiam as diversas fases como se tivessem uma inteligência imaginativa.
Doze horas, meio dia, era a hora do almoço. Desatrelava os animais e os conduzia para a manjedoura para comerem a sua ração, depois deles também eu ia almoçar junto com a família toda reunida por que os Letões tinham o costume de acolher os seus empregados na mesma mesa e assim como de manhã também agora a refeição era precedida por uma prece. Depois desta refeição na escala do dia constava o trabalho que consistia em cortar capim para triturar a ração, descascar milho, rachar lenha e outras funções consideradas repousantes. Às 15 horas a parelha alimentada e repousada junto com o seu condutor outra vez ia para o trabalho na lavoura.
Eram dirigidos por rédeas, mas os animais estavam tão habituados a rotina que, depois de virados no fim do rego, sabiam o rumo tanto na ida como na volta.
Entre o Dourado e o Faceiro havia uma diferença quando estourávamos acidentalmente uma cachopa de marimbondos, o primeiro ficava pulando no mesmo lugar enquanto o outro queria disparar, mas quem ficava mordido era eu.
Não era cansativo por que era só segurar nos manches do arado e acompanhar arrastado o sulco.
Havia ainda um lanche no interstício desta segunda jornada, que era trazido pelas mãos diligentes de alguém da família, antes do dia terminar com o aparecimento da estrela vespertina, por que as horas do ocaso eram mais frescas e por isto mais produtivas.
Os animais tinham um tratamento quase humano por que solidários com o homem enfrentavam o trabalho, comiam a última ração antes de serem soltos no pasto.
Depois de admitido na União de Mocidade, também comecei cantar no coro da Igreja um conjunto maravilhoso que se apresentava na estação de rádio de Campinas e uma vez veio cantar na primeira Igreja Batista do Rio de janeiro.
Era aprendiz por isto não tinha nenhum destaque. Os ensaios eram acompanhados por violino, voz a voz por que o harmônio, que tinha a afinação temperada, não oferecia a perfeição desejada. O coro cantava a capela todos àqueles hinos que Lakshevics depois traduziu para o português, mas as silabas anazaladas do nosso idioma português tiravam deles aquele brilho por que as consoantes é que dão o ritmo e destacam a pronúncia fazendo o texto compreensível. Os ensaios realizavam-se duas vezes por semana, as quartas-feiras e na véspera dos domingos.
Em algumas ocasiões o grupo da mocidade alugava um caminhão com bancos de tabuas atravessando a carroceria que era lotada para passeios no Carioba, então cantávamos a quatro vozes:
Se nos cega o sol ardente.
Quando visto em seu fulgor.
Quem contemplará aquele.
Que do sol é Criador.
Mas para mim o ponto alto da minha mocidade de efeito inesquecível foi à festa do aniversário que me proporcionaram. Eu estava dormindo, mas às duas horas da madrugada toda a mocidade da Igreja reunida no pátio da casa dos Kreeplin, de surpresa começou a cantar uma serenata acordando-me. Custei a me convencer que a festa era em minha homenagem. Quando desci fui abraçado, cumprimentado e fui distinguido com um lanche constituído de refrescos, guloseimas e ainda mais, o tradicional bolo de aniversário acompanhado de “Parabéns prá você”; tudo aquilo preparado pelas mãos diligentes daquela boa gente.
Como presente de aniversário ofereceram-me uma Bíblia com uma dedicatória autografada por todos os presentes. Esta Bíblia me acompanhou durante muitos anos. Levei ela comigo para a 2ª Grande Guerra na Itália no saco “B”, sim, por que tínhamos duas bagagens, a “A” que continha as coisas de uso diário e acompanhava o soldado na linha de frente e o outro que ficou na retaguarda. Nunca mais consegui reaver o saco “B”. Depois comentaram que o navio bagageiro que transportava este material fora afundado por um submarino alemão.
No entanto estava escrito que eu não ficaria na Fazenda Velha; os meus caminhos se abriram e a convite do meu irmão Emilio viajei para tentar a vida no Rio.
Tempos difíceis àqueles nos quais um jovem habituado a soltar as rédeas do pensamento em devaneios enquanto andava atrás da semeadura, agora era obrigado a concentrar-se em detalhes do trabalho mental.
A experiência adquirida no exercício da lavoura me ajudou muito e deu destaque a minha atuação até hoje, por que o próprio fluxograma de preparar a terra, plantar, cultivar, colher, predispõe para o planejamento com previsão para um resultado em longo prazo que é muito mais produtivo do que a especulação momentânea cujo lucro se esvai com a mesma facilidade com que veio. Em conclusão deste item posso dizer que tudo aquilo que eu fiz foi realizado com êxito, graças a Deus.
No Rio comecei a freqüentar a Primeira Igreja Batista de Catumbi na qual participei do coro e ingressei na União da Mocidade. O Pastor Antonio Neves Mesquita percebeu logo que havia algum problema com a minha vida espiritual. Ele me convidou para ser membro da Igreja, fiquei de pensar sobre o assunto e em conseqüência me abri com ele sobre todos aqueles acontecimentos havidos com o Pentecostalismo e a minha descoberta da mentira.
Fui franco, disse: “e tem mais, para resumir, como poderia ter Cristo subido aos céus com o seu corpo físico ressurreto se hoje sabemos que depois da estratosfera o corpo se desfaz”.
Depois conversamos sobre a imortalidade da alma, sobre a eternidade, a respeito do céu e do inferno e outros assuntos que a seqüência fria das palavras não conseguia explicar a luz dos conhecimentos modernos.
Então o que ficou resumido no meu cérebro, até hoje, foi à explicação que tudo era uma questão do “estado da alma”. De acordo com o meu procedimento eu poderia me sentir no céu ou no inferno. Que esta questão de eternidade perante Deus não tinha nenhuma significação por que cada momento se eterniza.
Conclui assim que havia uma eternidade horizontal que se traduzia em séculos e uma outra vertical que traduzia o momento vivido e por fim, de que a eternidade secular nada mais era do que a soma dos momentos vividos e que de acordo com as Escrituras, perante Deus um dia vale mil anos e mil anos são como se um dia fosse.
Sentir-se salvo por Jesus Cristo neste momento e nos momentos seguintes justapostos constituem a eternidade, incompreensível para a mente humana e sentir-se salvo na hora da morte também se tornava um sentimento infinito, eterno, como também a angustia provocada pelos pecados na hora final se perpetuava.
Batizado tornei-me membro da Igreja Batista e foi para valer, pois até hoje não tive dúvida sobre a salvação da minha alma. Cheguei a conclusão de que a religião era como se fosse um fio de ouro que acompanha o crente durante toda a linha da vida. Conclui que a religião não é para ser cultuada, mas para ser vivida intensamente.
Em Jesus adquiri um amigo que me guiava e acompanhava os meus passos mesmo materialmente e que não podia deixar ele do lado de fora esperando enquanto eu estivesse praticando num cômodo vizinho, um ato indigno.
Não era infalível, mas nas transgressões valia o arrependimento e o pedido de desculpas.
Mas afinal o que é o pecado? São atos repetidos que primeiro aniquilam o corpo orgânico e depois destroem o espírito. Antes da descoberta da cirrose do fígado provocado pela ingestão da bebida alcoólica, do enfisema conseqüência do fumo, da aids provocada pelas drogas injetadas e o heterosexualismo que um sinônimo de prostituição, os Batistas consideravam a conversão do crente como prova do abandono destes vícios e outros como apagados de uma nova vida pelo batismo.
Naquela mesma ocasião li o Discurso do Método de René Descartes que muito me influenciou. Este livro nada mais ensina do que a procura da verdade. Jesus resumiu este assunto quando disse: “vossa palavra seja sim, sim; não, não o que passa disto é do maligno”. Então na minha concepção firmou-se a convicção de que somente havia uma maneira de discernir uma questão; a certa ou errada, não existia meio termo. Aquele filósofo concluiu que a verdade era clara como o sol, ela não poderia ser destruída nem pelos amigos, nem pelos inimigos e tinha de resistir à prova de causa e efeito. Assim uma tese ateísta reforçou a minha fé evangélica.
Por exemplo, ao analisar o Pai Nosso descobri que neste texto havia ensinamentos de ordem prática. A frase “e livrai-nos das tentações” para mim passou a ter uma significação ativa e passiva. Então se eu, um crente, por negligência, descuido ou omissão permitisse que alguém “caísse em tentação”, eu tinha parte da responsabilidade pela falta que o outro praticou. Ela encerrava também um dos princípios da administração que é a vigilância constante para desencorajar a tentação de quem quiser dilapidar o patrimônio.
A outra citação: “pão nosso de cada dia nos dá hoje” não podia ser interpretada de uma maneira tão simplista de que Deus apanhasse uma côdea de pão na sua dispensa celeste e a colocasse sobre a mesa do peticionário num piscar dos olhos. Primeiro Deus fazia plantar a semente, depois cultivar, mandar para o moleiro triturar os grãos em farinha, ser manuseada pelo padeiro, assado no forno aquecido e por fim adquirido na padaria e somente depois a colocação do alimento sobre a mesa e o agradecimento a Deus por esta dádiva que passou por tantas mãos que instintivamente agiam como se a ele representassem.
Isto tudo foi citado resumidamente, por que somente o ato da semeadura ocupou bastante espaço quando analisado por Nosso Senhor naquela parábola do semeador.
É duro dizer isto, mas numa análise Cartesiana, somente poderiam existir dois tipos de espírito; o Santo que vem de Deus, pela primeira vez mencionado em Gênesis: “e o Espírito de Deus repousava sobre as águas” e que depois, materialmente realizou toda a obra da criação do mundo e o Espírito das trevas tantas vezes mencionado na Bíblia.
Quando nos Atos dos Apóstolos houve uma manifestação do Espírito Santo que induziu o uso de línguas estranhas, parece o efeito da causa por que todos entendiam no próprio idioma o que eles estavam dizendo, ficando assim estabelecido o principio de causa e efeito que rege a ciência.
Assim se um seminarista aprende um novo idioma durante o curso de Teologia para como missionário em terra estranha pregar o evangelho, ele cumpre o efeito embora a causa seja outra.
Então podemos propor um desafio para aqueles crentes que se dizem poliglotas por obra do Espírito Santo; é mandá-los pregar da mesma forma sem a memorização e depois verificar se o efeito foi o mesmo; se alguém entendeu alguma coisa do que disseram.
Destes profetas Pentecostalistas Letões que não sabiam a nossa língua, nunca ouvi dizer que algum deles depois de inflamado tivesse o dom de pregar em português para converter os brasileiros. Os pastores que o fizeram, aprenderam o idioma a duras penas; esta sim foi uma inspiração do Espírito Santo e entre eles também incluo o meu pai.
Por outro lado tudo que aconteceu nos primórdios do Cristianismo ficou escrito para análise e meditação, como foi aquele milagre quando o poder de Deus mandou o seu anjo para soltar o Apóstolo Pedro da prisão, mas destas línguas estranhas que se ouvem balbuciar hoje nas reuniões de Pentecostalistas e que pressupostamente deveriam conter mensagens preciosas para a meditação; nenhuma mensagem foi gravada, traduzida ou transcrita, apesar das facilidades dos meios de comunicação modernos. Isto mesmo pode-se dizer das visões, profecias, milagres que deveriam ser registrados para comprovar a sua veracidade pelo principio de causa e efeito.
Comparando, então podemos dizer que o Espírito de Deus que pairava sobre as águas disse: “haja luz”, quando aconteceu aquela explosão indescritível da criação de todo Universo e que atualmente os astrônomos chamam de ‘Big-bang “; assim ele fez todas aquelas coisas mencionadas na Bíblia, que naquela ocasião não poderiam ser narradas de outra forma por que o pensamento humano ainda não havia aprendido bastante para entender – e agora, em contraste aparecem alguns grupos que tem a ousadia de dizer que estão evocando este mesmo Espírito Santo de Deus para animar reuniões de saltimbancos, e que, no mínimo, pode ser considerado chacota e desrespeito”.
Finalmente, se você já passou, ou quando passar por uma desilusão igual a que eu passei e por isto tornou-se incrédulo então pense: “Quem criou o Universo e o sustenta?” Se você não quer chamá-lo de Deus, então lhe invente outro nome ou aproveite dos muitos que já existem – Bog em russo, Gott em alemão, Allah em árabe ou Adonai em hebraico, por que Ele é tudo aquilo que o cérebro deduz e que todos igualmente imaginam que Ele seja e que a cada nova descoberta cientifica é exaltado. Se além de tudo tiver duvidas, na hora de conciliar o sono, à noite, consulte o seu coração e ele lhe dirá muitas coisas que o cérebro não soube deduzir.

F I M

O PASTOR KARLOS ANDERMAN – SEGUNDA PARTE –

O PASTOR KARLOS ANDERMAN

2ª PARTE

DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS
Autor: Julio Andermann
Datilografado por Laurisa Maria Corrêa
Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
SEGUNDA PARTE

Professor? Não precisava mais ensinar as primeiras letras às crianças por que a vinda do Senhor estava próxima e instrução embotava a espiritualidade.
Ajudado por alguns membros da Igreja então adquiriu uma propriedade de uma colônia em Rio Mãe Luzia, tendo por limite numa ponta aquele rio, transparente, piscoso, que rolava num leito pedregoso entre cachoeiras e poços de águas mansas e profundas e que foi o meu amigo de brincadeiras durante a minha infância.
No mesmo local morava o meu avô Hans com a família onde restavam solteiros os filhos Rodolfo e Sigismundo e as filhas Tereza e Anna. Tereza a caçula da família nascera na mesma época que Lídia a primogênita de meus pais então a tia e a sobrinha tinham quase a mesma idade. Os dois lotes eram separados apenas por uma estrada que servia de limite.
A família do meu avô era abastada por que era dona do único moinho movida à água e também uma serraria e assim de longe vinham os colonos pra moer o milho e pilar o arroz como também cortar a madeira. Eles também possuíam uma ferraria para atender as necessidades locais de ferragens e serralheria. A mão de obra era paga ao moinho com 10% dos cereais em natura ou então mediante a conversão do valor em mil reis.
Até então eram todos membros da Igreja Batista cujo líder chamava-se Jacob Klava que era um radical seguidor da doutrina assim como ela fora transmitida há séculos.
Mas quando veio para aquele lugar o meu pai ele já decidido a insistir em fazer cultos e organizar reuniões de avivamento, onde durante muitas horas os crentes ficavam ajoelhados de quatro, com as nádegas para cima e a tônica temática, tanto da leitura do Evangelho como das fervorosas orações, era para o Senhor mandar o seu Espírito Santo conforme havia prometido e para receber esta graça buscava-se a purificação, o esvaziamento do próprio Ele, a fim de abrir o lugar para que esta força inundasse as mentes num êxtase que se manifestasse em todos aqueles dons descritos no Novo Testamento como seja: falar línguas estranhas, profetizar, ver visões, fazer milagres, mas sem a exigência de qualquer seqüência de causa e efeito; não importava que o linguajar ninguém entendesse, nem se comprovava se as nebulosas profecias se realizassem, ou se o milagre da cura realmente havia acontecido.
Da família do meu pai somente não aderiram o Emilio e a Lídia e da do meu avô, apenas o tio Sigismundo ficaram fieis a doutrina Batista, mas todos os outros se juntaram à nova seita por que o meu pai era considerado o intelectual do clã, o mais erudito, mais instruído, então a sua opinião prevalecia.
Ele então resolveu que a sabedoria mundana nada valia e lembro-me que a minha mãe queimava os livros como lenha para esquentar o forno de panificação doméstica, por que na sua opinião, seria mais interessante que esta literatura se queimasse do que as almas imbuídas das suas idéias enganosas ardessem nas labaredas do inferno.
Meu irmão Emilio que então tinha 13 ou 14 anos salvou alguns deles escondendo no mato e depois os entregou para serem guardados nas casas dos vizinhos; mas, conforme ele me contou depois, foi destruída uma vasta biblioteca constituída de livros doutrinários, enciclopédias, história, filosofia, ciência e ensino básico. O meu pai se convencera que a cultura não seria mais necessária por que, pelos sinais dos tempos, era eminente a vinda de Cristo que arrebataria apenas os crentes de corações limpos e não contaminados pelas coisas do mundo.
Como já disse: os meus irmãos Lídia e Emilio, não aderiram ao novo credo, mas depois que a coisa se aprofundou, certamente consideraram a doutrina Batista, como a base, o primeiro degrau desta escala que levou para aquela alienação mental, por que do seu meio saíram os seus primeiros seguidores, pois é próprio da natureza humana desprezar um todo por causa do suposto erro de um detalhe.
Assim a Comunidade Batista Leta de uma só vez perdeu mais de dez membros que se tornaram Pentecostais e além disto também várias famílias aderiram ao sabatismo; podendo se estimar em metade dos crentes que se afastaram. Então assim como acontece num rebanho que é invadido por um predador que agarra algumas ovelhas; o pastor somente consegue segurar algumas, as mais fieis, por que muitas outras se dispersam; assim também aconteceu lá, muitos indecisos ficaram balançando entre as crenças e acabaram perdendo a fé.
Não consta que tenham convertido algum incrédulo. Apanharam aqueles crentes que apesar de terem a certeza da salvação foram convencidos a tentarem emoções espirituais mais fortes, como se estas fossem um estagio superior, uma sobremesa do banquete espiritual e assim para satisfazer em uma emoção pessoal quase extinguiram o núcleo Batista naquele lugar.
Parece que o meu pai foi o primeiro doutrinador de Pentecostalismo no Brasil, mas devo dizer que naquele movimento ainda não entrou interesse pecuniário, a regra era dar de graça o que se recebesse de graça.
Na casa do meu avô havia uma sala destinada aos cultos Batistas, mas que depois passou a ser usada para aquelas reuniões de avivamento espiritual.
Naquela ocasião eu deveria ter a idade de 5 ou 6 anos, então me era permitido dormir o meu profundo sono de criança num quarto do lado. Quando de manhã eu acordava ia para sala ficava surpreso em vê-la cheia de detritos, latas velhas e numa ocasião até um cocho de dar comida aos porcos. Quando eu perguntei o porque? Responderam que era a perseguição do Kestrin Luris, que na minha imaginação tomei por um bicho papão, mas na realidade a curiosidade da vizinhança havia sido atraída por aquele vozerio de súplicas lancinantes: “Venha Senhor Jesus, mande o Consolador” num tom de exigência que se confundia com obrigatoriedade e eles por chacota haviam jogado todos aqueles objetos de noite pela janela para desestimular aquele escândalo e o Kestrin nisto entrava apenas como o chefe; mas os Pentecostais comparavam estes excessos com a perseguição dos crentes no inicio do cristianismo e como sinal inequívoco de que estava próximo a chegada dos dias finais.
Meus pais não se conformavam por que daqueles dons descritos no Novo Testamento nunca conseguiram uma manifestação pessoal, mas admiravam estes fenômenos nos outros. Hoje penso que foram sinceros, não sabiam fingir, esperavam uma manifestação verdadeira de transe espiritual que nunca conseguiram por inexistente naqueles termos.

Meu pai mantinha correspondência com outras comunidades Batistas Letas para divulgar o Pentecostalismo e principalmente com uma localizada no Rio Branco, nas proximidades de Jaraguá do Sul. Um dia chegou a notícia através de uma carta que havia um outro grupo procurando o avivamento espiritual através da doutrina de Pentecostes, num lugar chamado Linha Telegráfica. Lá já tinham conseguido as manifestações espirituais aguardadas e havia uma profetiza, a tia Ida [Strauss] e que ela intermediara uma mensagem marcando o dia em que Cristo desceria dos céus em toda a sua glória para arrebatar aqueles crentes reunidos e vigilantes].
Não me lembro dos detalhes, mas a nossa família na integra, meus avós e meus tios, abandonaram todas as propriedades; alguns de navio e outros mesmo em carroças puxadas por cavalos viajaram para aquele local.
Era um sítio inóspito, banhado cercado de morros e ameaçado de malária. Lá todos se reuniram numa comunidade imitando aquele ideal dos primórdios do Cristianismo descrito nos Atos dos Apóstolos. Construíram alojamentos, trabalhavam cooperativamente no cultivo de alimentos necessários a sobrevivência, vigiavam e oravam a espera do glorioso dia da vinda do Senhor.
Liam a Bíblia escolhendo aqueles versículos que davam apoio ao seu fanatismo e nas horas de lazer e durante muitas horas, de joelhos no chão e apoiados nos cotovelos, em circulo, oravam insistentemente pedindo a manifestação do Espírito. Quando um crente terminava com o amém o outro ao seu lado direito emendava, enquanto outros diziam “aleluia”.
Descobriram no Evangelho de que os Crentes deveriam confessar-se uns aos outros; então nesta mesma postura contavam as tentações a que teriam sido expostos. Na ausência de atos pecaminosos valiam aqueles praticados no pensamento. Qualquer dúvida quanto à legitimidade doutrinária desta iniciativa deveria ser declarada em público, desaprovada por todos os presentes e o culpado confesso compelido ao arrependimento.
No Apocalipse também consta que “eles cantarão um cântico novo” interpretando esta frase literalmente. Em conseqüência foram jogados ao chão todos o hinários tradicionais; balbuciando a comunidade qualquer coisa em qualquer tonalidade numa gritaria ensurdecedora.
A minha irmã Mely gritou tanto que acabou danificando as cordas vocais. Foi ela também que adolescente, com um alicate arrancou uma coroa de ouro que lhe revestia um dente e o jogou numa touceira de bananeiras, pois Deus tinha o poder de fazer nascer dentes novos.
Lembro-me de uma urna funerária pintada de branco guardada no sótão a vista de todos que se destinava a uma menina chamada Tabita, por que a profetiza havia previsto a sua morte; moça esta que anos depois encontrei em Varpa gozando perfeita saúde, mas a credulidade era tanta que na certeza do desfecho fatal, anteciparam a construção do caixão.
O fim desta história é fácil de se prever. No dia marcado Cristo não apareceu embora os fieis estivessem em vigília até o sol raiar no dia seguinte. [Estes fatos aconteceram aproximadamente na década de 1910 e também não constam nos Livros de História da Assembléia de Deus.]

CONTINUA…

…e se a seca continuar assim será muito triste. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1924 –

Rodeio do Assucar 17 de setembro de 1924

Querido Reini: Saudações!

A tua carta recebi já há bastante tempo atrás. E hoje não estou com ela e eu não me lembro nem metade do que você pergunta nesta carta. Acho que não tenha nada muito importante e se tinha a Luzija já deve ter te escrito. Porquê ela diz que manda cartas quase todas as semanas e o que ela escreve ela não diz e não deixa ninguém ler as cartas que ela escreve.

Aqui nós graças a Deus estamos passando suficientemente bem e nada tem de novo tem acontecido. As chuvas sim que são muito poucas e se continuar assim será muito triste. A seca no ano passado começou em novembro e deste então não houve nenhuma chuva que fizesse o nível dos rios subirem ao normal. Aqui no Rodeio do Assucar o riozinho ainda corre, mas lá no Rio Novo faz tempo que a calha não corre nenhuma gota d’água. A água para o consumo da casa tem que ser trazida da grota funda. As atafonas passam mais tempo paradas [A grande maioria destas atafonas, engenhos e serrarias em tempo de seca, tinham represas ou açudes para acumular água, para serem usadas por um certo período] e nem grãos para serem moídos.[Está se referindo aos danos da seca na colheita anterior].O tempo sempre está bom frio e com muito vento. A semana passada foi um pouco diferente porquê esquentou um pouco, mas ficou tão enfumaçado que não dava para ver o sol. As vezes a gente podia ver o sol como um disco através da fumaça. Sábado ficou nublado e no Domingo choveu um pouquinho e na Segunda e na Terça feira amanhecer nublado e escuro então pensamos que agora iria chover bastante e então ontem a noite choveu até bastante, mas hoje está tudo limpo outra vez e não aparece nenhuma nuvem para qualquer lado do horizonte. Melhorou um pouco porquê a poeira apagou e o pasto está se mostrando um pouco mais verde. Para o gado este ano não foi fácil pois durante o verão o pasto já tinha secado e depois agora no Agosto vieram as grandes geadas. Tudo agravado, pois este ano o restolho [As espigas de milho pequenas eram destinadas para a alimentação do gado e eram chamadas de “restolho”] não temos suficiente.

Na semana passada terminamos de plantar a mandioca. Plantamos de mandioca 18.600 mudas, De aipim plantamos 2.700 mudas. As derrubadas dos capoeirões também já terminamos. [Era hábito entre os agricultores deixar as áreas de terra cultivada “descansando” por um período de até 5 anos e quando já havia crescido uma capoeira ou mais tempo um capoeirão era novamente roçado e queimado e tornado a cultivar.] Já plantamos pepinos e batata inglesa para que até as Festas do Natal quando vieres para casa passear para você se deliciar de tudo isso e mais das grandes melancias que também nós já plantamos.—-

Junto a esta carta estou enviando uma “receita” que o Diretor prescreveu e as quais aqui na farmácia tinha que esperar por um longo tempo e ainda ele cobra 15$000 por vidro e assim eles põem 5$000 de lucro por unidade. Naquela vez eu comprei um vidro e tomei e não observei nenhuma melhora significativa porquê aqueles são aqueles remédios que são necessários tomar aos baldes. Então comecei a tomar aqueles dois vidrinhos de remédios que o Wictor trouxe que agora já estão no fim, mas a perna não melhorou nada. Se você puder comprar maior quantidade, quem sabe uma meia dúzia, então poderia usar mais tempo, aqui o farmacêutico quer encomendar, mas ele quer ter um lucro exorbitante, no Rio custa 6$000 e aqui ele quer 15$000. Melhor seria se alguém que viesse de lá pudesse trazer.

Bem desta vez chega de tanto escrever, pois também eu não tenho a máquina de escrever que facilita escrever mais rápido como você ai. Sobre outras coisas eu pouco sei porquê às noites poucas vezes a Igreja eu vou. Pode ser que a Luzija que vai para todas reuniões de preparação dos professores da Escola Dominical e Estudos Bíblicos possa te contar porquê para mim ela não diz nada. Então escreva diretamente e pergunte a ela.. Vou esperar carta sua. Com lembranças. Olga.

…as Estações das Estradas de Ferro foram bombardeadas… | De Luzija Purim Para Reynaldo Purim – 1924 –

Rio Novo 31 de julho
Querido irmãozinho! Saudações!!
Recebi a tua carta escrita no dia 27 de junho no dia 17 de julho. Ela demorou a chegar, mas ainda bem que chegou e por ela muito obrigado. Eu já queria responder em seguida, mas àquele amontoado de notícias sobre a grande revolução e o boato que o correio estava parado fez que eu adiasse esta carta. A Olga recebeu a tua carta então agora eu sei que o correio para o Rio está funcionando. Então como não quero ficar devendo vou escrever que talvez ela chegue.
Nós estamos passando bem até agora graças a Deus. O tempo agora está frio. Hoje deu uma forte geada. Na semana passada estava um tempo seco e quente. A água de nossa fonte na calha acabou de vez. Agora nós temos que carregar da grota funda. [Esta grota tem uma fonte que nunca alterava a quantidade d’água tanto em tempos de chuva como os de seca. O primeiro acampamento dos imigrantes letos ficava no plano logo acima deste penhasco. ] No Domingo estava um tempo bom e quente, mas a noite já começou a ficar nublado e daí choveu bastante forte e agora tempo bom outra vez.
Aqui nada de novo tem acontecido porquê aqui não tem nenhuma revolução, mas o povo está bastante preocupado, Alguns estão preocupados com os seus parentes em São Paulo. Outros tem medo que dia mais ou dia menos poderão soldados serem convocados, enquanto isso os negociantes sobem os preços até mais não poder. O querosene há 3 semanas atrás estava a 17$ a lata e agora já está a 23$ e isso vale para todas as mercadorias e ainda dizem que vai ficar mais caro ainda. O toucinho está valendo 23$ a @. O milho está a 16$ a saca. Os preços estão bons para vender, o problema é que ninguém tem as mercadorias.
A Igreja está indo bastante bem. As grandes demandas estão desaquecidas. O Stroberg dirige os cultos. Estes estão bem freqüentados. Vamos ver como vai ficar daqui para frente se ele não vai desanimar. Os sermões dele não são mais como foi o primeiro, naquele dia do Natal. Agora o povo reformou a cozinha da Igreja e é possível que ainda esta semana ele venha morar vizinho nosso. Até agora ele está morando com os Karp. Junto com eles veio uma irmã mais nova dele chamada Lídia [Mais tarde casou com um Books] que é uma excelente cantora dotada de uma bela voz.
Quanto a Escola Dominical também vai bem. O Zeebergs ainda continua no seu posto, mas o Stroberg ajuda bastante. Nas noites das sextas feiras são feitas reuniões de preparação das lições para o próximo Domingo e assim os professores saem-se melhor nas suas aulas. Eu também participo destes estudos. No dia 10 de agosto a Escola Dominical vai organizar uma Festa, melhor uma celebração parecida com aquela do Dia da Estrela, [Dia 6 de janeiro ] então eu aproveito esta para convidar-te para vir alegrar-se junto na nossa festa.
A Festa da Colheita [Dia de Ação de Graças ] deste ano será no dia 13 de agosto. Haverá poesias, cânticos, sermões e outros, mas o ponto principal do programa para este povo daqui é o café com pães e doces. E como diz o velho Leepkaln: Que espécie de Festa é esta que nem tem nem Café e outras iguarias?
Quanto a União da Mocidade vai sempre nos velhos trilhos. São mantidas todas aquelas reuniões de sempre. Para o trabalho no Rio Larangeiras todos os domingos um grupo de jovens para lá se dirige. Eu nas últimas vezes eu não fui porquê estava com a garganta doendo então não podia cantar. Se tudo correr bem no próximo Domingo eu irei e vou aproveitar para entregar aquelas lembranças e eu tenho certeza que ficarão alegres porquê eles têm você em alta conta porquê dizem que você não é orgulhoso e nunca esquece deles, pois sempre está mandando lembranças.
Brevemente vão mudar daqui para São Paulo o Willis Ochs com sua família. E também o Wilis e Anna Slengmann, A Anna, é mãe da mulher [Sogra] Olga,do Willis Ochs. A Anna irá passear na casa de parentes, mas o Willis Ochs vai de mudança mesmo porquê aqui ele a terra já vendeu para um italiano e este quer que desocupe logo a casa. Eles vão viajar logo e como a Lilija disse que de revolução eles não têm medo nenhum porquê eles dizem que não vão entrar na cidade, mas vão passar por fora ao redor, não sei como e por que tanta pressa de sair do Rio Novo e não sei como tem gente que época de conflitos e convulsões se metem a viajar. Nós temos lido em jornais que situação está medonha, as Estações das Estradas de Ferro foram bombardeadas e muitos edifícios também. O povo foge para toda parte e as autoridades do Estado não permitem a entrada de pessoas de outros estados e sim somente tropas do exército que os venha ajudar.
Bem acho que devo terminar. Porque está ficando longa demais e os dedos estão ficando gelados de frio, melhor mesmo é eu ir dormir.
Você tem mandado aqueles jornais. Toda vez que vou ao correio eu pergunto e ele diz que não veio nada. Agora o agente do correio é muito bom e atencioso e entrega direitinho toda a correspondência e cartas.
E o Kraul já foi lá? Ele gostou de lá? O que ele contou dos Rio-novenses?
O Jahnaits ainda está na Escola? Ele também concorda com os renovados como o Jahnites Inkis e Sprogis? Ou deixou inteiramente estes exageros?
Por que você não manda mais “O Crisol” ou ele já terminou a sua vida?
Muitas e amáveis lembranças de todos os de casa. A Olga prometeu escrever, mas ainda não o fez. Que ela mesma responda a sua carta porquê eu também somente respondo a minha.
Com sinceras lembranças e longa carta de resposta aguardando
Luzija.

Sejas saudado por mim, Lilija e lembranças da minha mamãe…. | De Lilija Purens para Reynaldo Purim – 1924

Nova Odessa [sem data]

Que a Paz de Deus e sua misericórdia estejam com todos os teus!!!

Reinhold!!

Sinceros cumprimentos a você e aos teus.
Agradeço a tua carta qual recebi semanas atrás, mas querido primo, desculpe porque eu a demorei responder. Agora nós estamos agarrados com tanto serviço então as cartas têm que serem escritas à noite.
Hoje é domingo e como estava com um pouco de dor de cabeça pela manhã, eu não quis ir a Igreja. Então vou aproveitar para escrever algumas linhas.
O Coro de tua Igreja têm muitas e boas vozes? Quem canta solo soprano? Quem canta alto? Quem canta tenor e baixo?
Como estão os primos Olga, Luzija e Arthurs? Como vão o tio e a tia? Quais são as idades de todos?
Como foi a viagem de Rio Novo de volta ao Rio?
Os teus familiares estavam te esperando no Rio Novo? Escreva e descreva tudo que for possível, pois eu quero saber de tudo e de todos.
Bem por hoje chega de escrever. Você pode me escrever quantas páginas quiser, pois nós para ler temos bastante tempo e não estamos vivendo sob pressão como você perguntou.
Sejas saudado por mim, Lilija e lembranças da minha Mamãe e do meu Papai e da Alma, da Vilma, da Melania e do Teófilo e também do meu avô.

…mande toda correspodência em nome da família Steckert, | De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1923 –

Rio Novo 11 de outubro de 1923
Querido Reini!!
Saudações. Então eu estou de novo tentando escrever algo.
Porquê o Arturs começou a “imprimir” a sua carta e mandar uma só folha no envelope é um desperdício então eu também vou escrever algumas poucas linhas. Para escrever até que teria bastante notícia e acontecimentos, mas eu não sou tão desembaraçada na escrita como você e ainda por cima esta noite me veio um sono muito forte, porquê já são nove horas da noite e lá fora está chovendo forte e amanhã cedo eu tenho que ir a cidade levar toucinho, banha, ovos e manteiga.
Agora estamos passando suficientemente bem.
Estamos todos quase sãos, porquê na semana passada eu estive de cama e agora já estou melhor e já posso trabalhar.
Aqui as pessoas estão ficando sempre muito doentes e duas em pouco tempo vieram a falecer. No dia 22 de julho acompanhamos o funeral do Alberto Grikis e ele ficou doente somente uma semana. No dia 2 de setembro foi a vez do menino Eugênio Sahlit com um ano e meio de idade. Este ficou doente somente por dois dias. Os novos vão rápido enquanto os velhos ficam doentes sobrevivem.
Como você está passando? Você recebeu as cartas junto com as meias?
Agora você mande toda a correspondência em nome da Família Steckert, pois o Agente do correio, as dele ele não abre e entrega tudo direitinho. Melhor é solicitar, digo, você solicitar a outra pessoa escrever o endereço com outra caligrafia e se possível mandar registrado.
Outra alternativa é mandar em nome do Diretor da Cia. Colonizadora. De outras pessoas nós recebemos as cartas normalmente, mas as suas nunca chegam.
Ontem recebemos uma carta do “deserto” e eles escrevem que estão passando bem. O Tio [Jekabs Purens]
está trabalhando na derrubada das matas na fazenda de um brasileiro e ganha 6 mil réis por dia, mas com sua própria alimentação.
A Alma e a Melania estão trabalhando em plantações de café e a Lilija é diarista na casa do Sr. Fritz Puke em Nova Odessa. Ela recentemente me escreveu uma carta contando que escreveu para você com muito medo e para tanto teve acumular muita coragem para escrever para um tão culto e escolarizado primo e ela teve somente os 5 anos do primário este tempo todo ainda em russo. O que ela te escreveu? Os demais daquela família não te escrevem?
Bem desta vez chega de imprimir [Drukat = imprimir] senão não vou ter nada para escrever na outra na próxima. Mesmo assim não sei se você vai ter tempo para ler esta. Escreva sobre todas as coisas que por lá acontecem. Quem é o novo seminarista que o Inkis levou de Nova Odessa para o Rio?
Onde este ano vais passar as férias?
Você vira para casa ou vais para a América do Norte junto com o Emils? [Emils Anderman]
No dia 30 de setembro foi feita uma grande noite de despedida dele. Terminou o período escolar aqui e foi para a Mãe Luzia, pois depois das Festas deverá embarcar para a América para lá estudar. O Tio Bahlkites deverá mandar uma passagem de navio. Ele foi embora e os rio-novenses novamente sem professor.
No dia 6 de setembro chegou o Karlis [Karlis Leiman] e ficou até o dia 16. Neste domingo ele passou o dia aqui em casa e foi uma festa. Já tinha usado nossos cavalos e ele gosta muito de inticar [Inticar = irritar, perturbar, mexer, enfim não deixar em paz]
os nossos cachorros pode ser que ele mesmo tenha escrito contando tudo, porquê eu soube que ele estava escrevendo para você..
Se você vier para casa traga mais acordoamentos para os violinos, pois aqui nós não temos encontrado para comprar.
Apesar de nós termos 3 ovelhas, temos lã, mas da lã não dá de fazer cordas de violino. [Não foi possível encontrar a correlação entre os carneiros, a lã e as cordas do violino.] Se você vier para casa, vai poder tomar muito leite, porque agora nós temos 4 vacas dando leite. Também pêssegos e laranjas deliciosas.
Venha para casa ai você vai poder contar melhor do que escrevendo. Vem.
Muitas lembranças de todos e da Luzija

…aqui a vida flui monótona e quase nada maior acontece… | De Olga Purim para Reynaldo Purim 1923

Rodeio do Assucar 31/1/23 [ Assim era escrito na época]
Querido Reini. Saudações!

Então esta noite vou ter que começar a escrever, pois a tua carta escrita no dia 26-12-22 já recebi semanas atrás com todos aqueles cartões de Boas Festas. Muito obrigada porquê, esta carta, foi mais longa que as demais talvez porque nestes dias de férias você está mais folgado. Naquele mesmo dia que recebi a sua mandei também uma longa carta contando todas novidades daqui por isso tive que dar um tempo para começar a resposta.

Lá mais coisas acontecem e aqui a vida flui monótona e quase nada maior acontece e as coisas vão como sempre.

Este ano chove muito, mas o sol também brilha muito; os rios estão transbordando e troveja como antigamente.

Trabalho, nós temos muito porquê as ervas daninhas crescem como nunca e ainda bem que o milho também está crescendo bonito e para nossa sorte aqui não tem havido grandes tempestades com ventanias para derrubar o milho, mas em outras partes da colônia sim.

Semana passada os Grunski mudaram-se e foram morar junto com o Willis Grunski na casa que eles compraram do Grünfelldt. Eles estão ajeitando para fazer uma grande marcenaria.[ Galdeneka darbnizu – Literalmente local para fabricar mesas.]
O Emílio [ ? ]vendeu a colônia [Chamavam de colônia a gleba de terra de um colono que poderia variar de tamanho e de formato. A forma básica era a chamada “Frente” começar no fundo do vale para facilitar o acesso à água. Muito inteligente também a idéia da Cia. Colonizadora fazer esta frente em perpendicular ao o fundo do vale e não obrigatoriamente no rio, pois facilitava de certo modo as cercas que eram retas e com as curvas o rio entrava e saia diversas vezes na mesma propriedade. A do meu pai deveria ter uns 80 hectares (200 braças de frente X 700 braças de fundo) e se a frente ficava no fundo do vale onde também seguia o caminho principal é claro que o fundo ficava na parte mais alta que era o Kazbuck. A do tio Reynaldo a qual os fundos se encontravam ia fazer a “Frente” no Rio Larangeiras que era o outro vale mais para o lado do poente. Resumindo os “Fundos” se encontravam adiante do “Kazbuck”.] para um italiano que pagou 8:500$000 a vista.

O Limors está novamente por ai, mora em Orleans com a filha.

Antes das Festas do Natal chegou de São Paulo a Olga Grunski com a filhinha para ficar passeando uns dois meses e agora que passaram poucas semanas já foi embora. Diz que faz tempo que não mora mais junto com o seu Vanag, que nada faz, não trabalha e ela não consegue ganhar o suficiente para cobrir o que ele consegue gastar. Agora ela trabalha em um hospital como mensalista e a administração permite que ela more junto com a criança lá mesmo e o salário é 150$000 por mês. –

O Grünfeldt agora aluga algum casebre e mora com a mulher, mas não tem aparecido por aqui ou a vida de colono talvez seja muito simples e humilhante para ele.

O Konrads Frischimbruder com sua companheira na semana passada foram embora novamente para São Paulo procurar uma vida mais leve e menos trabalhosa.

Ele o Condis, não pode trabalhar nada no pesado, pois quando ele ainda estava em São Paulo ele teve apendicite e foi operado que teria custado 800$000 e que nada adiantou, pois não pode levantar nada e nem trabalhar. Mas a esposa não gostou daqui. Aqui ele ficando na casa dos pais pelo menos teria comida a vontade e lá o que ele vai fazer? Tolo sim, o que ele é.

Você escreve bastante sobre este movimento de renovação espiritual e eu também escrevi bastante sobre isso. No dia que recebi a tua carta, eu também recebi um cartão postal do Jehkabs. Um outro cartão já tinha recebido de São Paulo. Então diz que mandou uma carta, mas nada chegou e agora ele diz que mandou outra. No cartão ele escreve que quer saber notícias nossas e convida o Pappa e a Mamma para acertar os compromissos de trabalho e ir passar uns dias com eles talvez uma semana para poder conversar bastante. E sobre estas conversações ele já escrevia da Latvia, mas nunca mencionou nada sobre visões e profecias. Quem poderia imaginar que ele estivesse tão junto dentro do partido do Inkis, pois agora todos estão juntos ou perto do Inkis como abelhas perto da rainha. Lá na colônia deles [ Palma em Varpa, Município de Tupã S.P.] agora é como na Rússia Bolschevique a pessoa vai morar lá por bem ou por mal e a censura da correspondência é rígida qualquer coisa que seja contrária não sai.

O Pappa passou o Domingo passado escrevendo uma longa carta para ele descrevendo como nós estamos passando e informando que aquela viagem de visita lá não poderá ser feita por falta de tempo e também de dinheiro e esta história de passar dois dias não vai funcionar pelas grandes distâncias que ele ainda não conhece. Também diz que nós estávamos esperando eles todos aqui. Por outra parte foi bom que eles não vieram, pois agora não seria nenhuma alegria em recebê-los sabendo que eles são daquele “movimento”. O que eles viriam fazer pois aqui não temos mais tantas matas, nem temos um Inkis e ainda temos que morar neste mundo de pecados e assim nada poderia ser pior.

Agora seria outra coisa se eles admitissem que estas coisas estão na mão do verdadeiro Deus e não cabe a nenhum de nós, cabe saber dos tempos do fim com profecias e visões etc. Segundo temos outras informações, eles não pretendem fazer nada definitivo, pois estão esperando para logo o fim do mundo.

O Andreys não veio e nem sabemos se ele virá depois. Eles te mandam muitas lembranças. Voltando a nova colônia você escreve que poderia conhecer melhor se fosse até lá. Mas você sabe se você vai conseguir entrar e se entrar você poderá sair. Você nem sabe que largura tem o Portal do Reino. E se alguém te perguntar se você veio para ficar então entregue todo dinheiro para senão não poderás entrar. Que vivam todos felizes por lá.

Em Nova Odessa já tem bastante gente que já saiu de lá. Aqui o pessoal de Rio Novo fala que lá deve haver um mau espírito, senão por que as pessoas correm tanto para lá.[ Não dá para saber se ela estava se referindo a nova Colônia ou a Nova Odessa]

No Domingo passado o Zeeberg leu aquelas notícias missionárias contando como vai o trabalho na Latvia e na Alemanha e que este movimento pentecostal já é bastante antigo por lá.

O Roberto Klavim tinha traduzido para o leto aquele artigo do “O Jornal Batista” escrito pelo Alschekbirse que se referia ao artigo escrito pelo Freyvalds sobre este mesmo assunto. Pode ser que você já tenha lido, mas nós aqui não recebemos jornais novos.

Bem por hoje chega. Você deve saber sobre estes assuntos mais do que nós aqui. Escreva bastante. Nós estamos todos bem aqui e parece que você também está por lá. Lembranças de todos. Olga.

Escrito na lateral: Pelo que parece você não fez por merecer esta carta porquê, toda vez que eu começava a escrever, vinha um sono tão forte. Tinha que ir dormir e assim precisei de diversas noites para terminar de escrever. Amanhã eu vou despachar. Se não chover 8-2-23.