O Pastor Karlos Anderman .Depoimento de Júlio Anderman um de seus filhos.

O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 5ª PARTE (última)

O PASTOR KARLOS ANDERMAN
5ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
]

Passei a trabalhar para a Família Kreplin, constituída dos pais e vários filhos. Eu dormia no mesmo aposento de um deles, o Ernesto.
Tive o privilégio de conviver dois anos no seio daquela família, um modelo de comportamento da Denominação Batista daquele lugar. Eram firmes nas suas convicções, honestos, tinham aptidão para gerir os seus negócios materiais com muito êxito e o seu lema era “ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto”, incluindo o meu.
Todo o dia de trabalho se iniciava às 4 horas da madrugada. Os pais acordavam primeiro para fazer o café da manhã. Isto feito os dois abriam o Cantor Cristão num hino e entoavam a melodia em duas vozes. Então vinha o Ernesto; em seguida o Roberto e as duas moças, engrossando este coro polifônico neste “toque de alvorada” que me acordava também, o mais jovem e lá vinha eu esfregando os olhos dos últimos vestígios do sono. A última estrofe nunca era cantada sem a minha presença; então era uma obrigação moral saltar logo da cama para não deixarem os outros repetirem.
Todos reunidos o Patriarca lia uma passagem da Bíblia para a meditação e designava alguém do grupo para fazer uma oração a Deus pedindo a benção para os afazeres daquele dia que ora se iniciava.
Tomava-se o café. Chamava os muares de tração para a sua refeição matinal e depois, junto com a filha Vitória íamos para o estábulo tirar o leite das vacas, bem uma dezena delas formando duas filas. Enquanto elas saboreavam a ração, nós espremíamos as tetas antes lavadas com água, com a mão, esguichando jatos de leite dos úberes intumescidos, para o balde.
Com detalhe me lembro de duas vacas temperamentais; uma delas somente consentia soltar o leite se estivesse comendo a batata doce; a outra, somente deixava ser ordenada por mulher, ela olhava primeiro e se fosse homem soltava um coice atirava longe o intruso.
Às vezes a Vitória de brincadeira colocava esta vaca na fila da minha ordenha. A luz bruxuleante pendurada no meio do estábulo não permitia distinguir qual era delas, pois todas eram castanhas e quando ela virava a cara já era tarde. Ela soltava o coice, enquanto a Vitória ria gostosamente.
Na ordem do dia então constava o segundo café que era reforçado por frutas e proteínas. Em seguida atrelava os muares que atendiam pelos nomes de Dourado e Galego que eram animais de tração de muita força e rebocavam os implementos agrícolas. Eram tão integrados no trabalho que faziam animados e repetiam as diversas fases como se tivessem uma inteligência imaginativa.
Doze horas, meio dia, era a hora do almoço. Desatrelava os animais e os conduzia para a manjedoura para comerem a sua ração, depois deles também eu ia almoçar junto com a família toda reunida por que os Letões tinham o costume de acolher os seus empregados na mesma mesa e assim como de manhã também agora a refeição era precedida por uma prece. Depois desta refeição na escala do dia constava o trabalho que consistia em cortar capim para triturar a ração, descascar milho, rachar lenha e outras funções consideradas repousantes. Às 15 horas a parelha alimentada e repousada junto com o seu condutor outra vez ia para o trabalho na lavoura.
Eram dirigidos por rédeas, mas os animais estavam tão habituados a rotina que, depois de virados no fim do rego, sabiam o rumo tanto na ida como na volta.
Entre o Dourado e o Faceiro havia uma diferença quando estourávamos acidentalmente uma cachopa de marimbondos, o primeiro ficava pulando no mesmo lugar enquanto o outro queria disparar, mas quem ficava mordido era eu.
Não era cansativo por que era só segurar nos manches do arado e acompanhar arrastado o sulco.
Havia ainda um lanche no interstício desta segunda jornada, que era trazido pelas mãos diligentes de alguém da família, antes do dia terminar com o aparecimento da estrela vespertina, por que as horas do ocaso eram mais frescas e por isto mais produtivas.
Os animais tinham um tratamento quase humano por que solidários com o homem enfrentavam o trabalho, comiam a última ração antes de serem soltos no pasto.
Depois de admitido na União de Mocidade, também comecei cantar no coro da Igreja um conjunto maravilhoso que se apresentava na estação de rádio de Campinas e uma vez veio cantar na primeira Igreja Batista do Rio de janeiro.
Era aprendiz por isto não tinha nenhum destaque. Os ensaios eram acompanhados por violino, voz a voz por que o harmônio, que tinha a afinação temperada, não oferecia a perfeição desejada. O coro cantava a capela todos àqueles hinos que Lakshevics depois traduziu para o português, mas as silabas anazaladas do nosso idioma português tiravam deles aquele brilho por que as consoantes é que dão o ritmo e destacam a pronúncia fazendo o texto compreensível. Os ensaios realizavam-se duas vezes por semana, as quartas-feiras e na véspera dos domingos.
Em algumas ocasiões o grupo da mocidade alugava um caminhão com bancos de tabuas atravessando a carroceria que era lotada para passeios no Carioba, então cantávamos a quatro vozes:
Se nos cega o sol ardente.
Quando visto em seu fulgor.
Quem contemplará aquele.
Que do sol é Criador.
Mas para mim o ponto alto da minha mocidade de efeito inesquecível foi à festa do aniversário que me proporcionaram. Eu estava dormindo, mas às duas horas da madrugada toda a mocidade da Igreja reunida no pátio da casa dos Kreeplin, de surpresa começou a cantar uma serenata acordando-me. Custei a me convencer que a festa era em minha homenagem. Quando desci fui abraçado, cumprimentado e fui distinguido com um lanche constituído de refrescos, guloseimas e ainda mais, o tradicional bolo de aniversário acompanhado de “Parabéns prá você”; tudo aquilo preparado pelas mãos diligentes daquela boa gente.
Como presente de aniversário ofereceram-me uma Bíblia com uma dedicatória autografada por todos os presentes. Esta Bíblia me acompanhou durante muitos anos. Levei ela comigo para a 2ª Grande Guerra na Itália no saco “B”, sim, por que tínhamos duas bagagens, a “A” que continha as coisas de uso diário e acompanhava o soldado na linha de frente e o outro que ficou na retaguarda. Nunca mais consegui reaver o saco “B”. Depois comentaram que o navio bagageiro que transportava este material fora afundado por um submarino alemão.
No entanto estava escrito que eu não ficaria na Fazenda Velha; os meus caminhos se abriram e a convite do meu irmão Emilio viajei para tentar a vida no Rio.
Tempos difíceis àqueles nos quais um jovem habituado a soltar as rédeas do pensamento em devaneios enquanto andava atrás da semeadura, agora era obrigado a concentrar-se em detalhes do trabalho mental.
A experiência adquirida no exercício da lavoura me ajudou muito e deu destaque a minha atuação até hoje, por que o próprio fluxograma de preparar a terra, plantar, cultivar, colher, predispõe para o planejamento com previsão para um resultado em longo prazo que é muito mais produtivo do que a especulação momentânea cujo lucro se esvai com a mesma facilidade com que veio. Em conclusão deste item posso dizer que tudo aquilo que eu fiz foi realizado com êxito, graças a Deus.
No Rio comecei a freqüentar a Primeira Igreja Batista de Catumbi na qual participei do coro e ingressei na União da Mocidade. O Pastor Antonio Neves Mesquita percebeu logo que havia algum problema com a minha vida espiritual. Ele me convidou para ser membro da Igreja, fiquei de pensar sobre o assunto e em conseqüência me abri com ele sobre todos aqueles acontecimentos havidos com o Pentecostalismo e a minha descoberta da mentira.
Fui franco, disse: “e tem mais, para resumir, como poderia ter Cristo subido aos céus com o seu corpo físico ressurreto se hoje sabemos que depois da estratosfera o corpo se desfaz”.
Depois conversamos sobre a imortalidade da alma, sobre a eternidade, a respeito do céu e do inferno e outros assuntos que a seqüência fria das palavras não conseguia explicar a luz dos conhecimentos modernos.
Então o que ficou resumido no meu cérebro, até hoje, foi à explicação que tudo era uma questão do “estado da alma”. De acordo com o meu procedimento eu poderia me sentir no céu ou no inferno. Que esta questão de eternidade perante Deus não tinha nenhuma significação por que cada momento se eterniza.
Conclui assim que havia uma eternidade horizontal que se traduzia em séculos e uma outra vertical que traduzia o momento vivido e por fim, de que a eternidade secular nada mais era do que a soma dos momentos vividos e que de acordo com as Escrituras, perante Deus um dia vale mil anos e mil anos são como se um dia fosse.
Sentir-se salvo por Jesus Cristo neste momento e nos momentos seguintes justapostos constituem a eternidade, incompreensível para a mente humana e sentir-se salvo na hora da morte também se tornava um sentimento infinito, eterno, como também a angustia provocada pelos pecados na hora final se perpetuava.
Batizado tornei-me membro da Igreja Batista e foi para valer, pois até hoje não tive dúvida sobre a salvação da minha alma. Cheguei a conclusão de que a religião era como se fosse um fio de ouro que acompanha o crente durante toda a linha da vida. Conclui que a religião não é para ser cultuada, mas para ser vivida intensamente.
Em Jesus adquiri um amigo que me guiava e acompanhava os meus passos mesmo materialmente e que não podia deixar ele do lado de fora esperando enquanto eu estivesse praticando num cômodo vizinho, um ato indigno.
Não era infalível, mas nas transgressões valia o arrependimento e o pedido de desculpas.
Mas afinal o que é o pecado? São atos repetidos que primeiro aniquilam o corpo orgânico e depois destroem o espírito. Antes da descoberta da cirrose do fígado provocado pela ingestão da bebida alcoólica, do enfisema conseqüência do fumo, da aids provocada pelas drogas injetadas e o heterosexualismo que um sinônimo de prostituição, os Batistas consideravam a conversão do crente como prova do abandono destes vícios e outros como apagados de uma nova vida pelo batismo.
Naquela mesma ocasião li o Discurso do Método de René Descartes que muito me influenciou. Este livro nada mais ensina do que a procura da verdade. Jesus resumiu este assunto quando disse: “vossa palavra seja sim, sim; não, não o que passa disto é do maligno”. Então na minha concepção firmou-se a convicção de que somente havia uma maneira de discernir uma questão; a certa ou errada, não existia meio termo. Aquele filósofo concluiu que a verdade era clara como o sol, ela não poderia ser destruída nem pelos amigos, nem pelos inimigos e tinha de resistir à prova de causa e efeito. Assim uma tese ateísta reforçou a minha fé evangélica.
Por exemplo, ao analisar o Pai Nosso descobri que neste texto havia ensinamentos de ordem prática. A frase “e livrai-nos das tentações” para mim passou a ter uma significação ativa e passiva. Então se eu, um crente, por negligência, descuido ou omissão permitisse que alguém “caísse em tentação”, eu tinha parte da responsabilidade pela falta que o outro praticou. Ela encerrava também um dos princípios da administração que é a vigilância constante para desencorajar a tentação de quem quiser dilapidar o patrimônio.
A outra citação: “pão nosso de cada dia nos dá hoje” não podia ser interpretada de uma maneira tão simplista de que Deus apanhasse uma côdea de pão na sua dispensa celeste e a colocasse sobre a mesa do peticionário num piscar dos olhos. Primeiro Deus fazia plantar a semente, depois cultivar, mandar para o moleiro triturar os grãos em farinha, ser manuseada pelo padeiro, assado no forno aquecido e por fim adquirido na padaria e somente depois a colocação do alimento sobre a mesa e o agradecimento a Deus por esta dádiva que passou por tantas mãos que instintivamente agiam como se a ele representassem.
Isto tudo foi citado resumidamente, por que somente o ato da semeadura ocupou bastante espaço quando analisado por Nosso Senhor naquela parábola do semeador.
É duro dizer isto, mas numa análise Cartesiana, somente poderiam existir dois tipos de espírito; o Santo que vem de Deus, pela primeira vez mencionado em Gênesis: “e o Espírito de Deus repousava sobre as águas” e que depois, materialmente realizou toda a obra da criação do mundo e o Espírito das trevas tantas vezes mencionado na Bíblia.
Quando nos Atos dos Apóstolos houve uma manifestação do Espírito Santo que induziu o uso de línguas estranhas, parece o efeito da causa por que todos entendiam no próprio idioma o que eles estavam dizendo, ficando assim estabelecido o principio de causa e efeito que rege a ciência.
Assim se um seminarista aprende um novo idioma durante o curso de Teologia para como missionário em terra estranha pregar o evangelho, ele cumpre o efeito embora a causa seja outra.
Então podemos propor um desafio para aqueles crentes que se dizem poliglotas por obra do Espírito Santo; é mandá-los pregar da mesma forma sem a memorização e depois verificar se o efeito foi o mesmo; se alguém entendeu alguma coisa do que disseram.
Destes profetas Pentecostalistas Letões que não sabiam a nossa língua, nunca ouvi dizer que algum deles depois de inflamado tivesse o dom de pregar em português para converter os brasileiros. Os pastores que o fizeram, aprenderam o idioma a duras penas; esta sim foi uma inspiração do Espírito Santo e entre eles também incluo o meu pai.
Por outro lado tudo que aconteceu nos primórdios do Cristianismo ficou escrito para análise e meditação, como foi aquele milagre quando o poder de Deus mandou o seu anjo para soltar o Apóstolo Pedro da prisão, mas destas línguas estranhas que se ouvem balbuciar hoje nas reuniões de Pentecostalistas e que pressupostamente deveriam conter mensagens preciosas para a meditação; nenhuma mensagem foi gravada, traduzida ou transcrita, apesar das facilidades dos meios de comunicação modernos. Isto mesmo pode-se dizer das visões, profecias, milagres que deveriam ser registrados para comprovar a sua veracidade pelo principio de causa e efeito.
Comparando, então podemos dizer que o Espírito de Deus que pairava sobre as águas disse: “haja luz”, quando aconteceu aquela explosão indescritível da criação de todo Universo e que atualmente os astrônomos chamam de ‘Big-bang “; assim ele fez todas aquelas coisas mencionadas na Bíblia, que naquela ocasião não poderiam ser narradas de outra forma por que o pensamento humano ainda não havia aprendido bastante para entender – e agora, em contraste aparecem alguns grupos que tem a ousadia de dizer que estão evocando este mesmo Espírito Santo de Deus para animar reuniões de saltimbancos, e que, no mínimo, pode ser considerado chacota e desrespeito”.
Finalmente, se você já passou, ou quando passar por uma desilusão igual a que eu passei e por isto tornou-se incrédulo então pense: “Quem criou o Universo e o sustenta?” Se você não quer chamá-lo de Deus, então lhe invente outro nome ou aproveite dos muitos que já existem – Bog em russo, Gott em alemão, Allah em árabe ou Adonai em hebraico, por que Ele é tudo aquilo que o cérebro deduz e que todos igualmente imaginam que Ele seja e que a cada nova descoberta cientifica é exaltado. Se além de tudo tiver duvidas, na hora de conciliar o sono, à noite, consulte o seu coração e ele lhe dirá muitas coisas que o cérebro não soube deduzir.

F I M

O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 4ª PARTE


O PASTOR KARLOS ANDERMAN
4ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
]
[Digitado por Laurisa Maria Corrêa]

A tia Salit então sugeriu que aqueles que tivessem economias guardadas em casa deviam trazê-las e juntar em um só cofre numa repetição do exemplo de Atos 3:42-47 e aos mais hesitantes citava o exemplo de Barnabé. Foram trazidas latas cheias de moedas de prata de 2 mil reis que todos guardavam pensando serem imunes à inflação devido ao valor do nobre metal. Nesta aventura então entrou um fato novo que era o interesse pecuniário.

Novamente veio uma ordem transmitida por via espiritual para que todos aqueles crentes vendessem as suas propriedades e com as suas famílias se mudassem para a Colônia Varpa em São Paulo. Mas chegando lá se verificou que as condições do clima e do solo não eram apropriadas a uma existência saudável. A terra era muito arenosa dando a impressão que lá já existira o mar. Havia muitos bichos de pé. Faltava água e os lençóis freáticos, quando encontrados, localizavam-se a mais de 20 metros de profundidade tornando a escavação do poço manualmente arriscada pela ameaça do desmoronamento de suas paredes.

Mas nós éramos considerados como peregrinos em busca da terra prometida e que desta vez ainda não a tínhamos encontrado. Novas orações, novas consultas, novas
Outra peregrinação pela Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande para aquele destino.
Em Varpa sofri a maior perda da minha vida, faleceu a minha mãe Emilia. Habituada em Mãe Luzia a uma dieta de leite, legumes e cereais, em Varpa teve de se alimentar de arroz, feijão e carne, ao que não resistiu a sua delicada constituição orgânica, mas antes de fechar os olhos, escrevera cartas para aquelas lideranças espirituais dotadas de dons e que comandavam então os nossos destinos, denunciando aqueles desvios doutrinários designando com uma única palavra “pústulas”. Em conseqüência destas cartas depois dela morta ainda tive de ouvir insinuações de que, por não ter resistido às provações e se desviado daquela doutrina, pairava duvida sobre a salvação da sua alma.

No Rio Grande o nosso destino final foi uma localidade chamada Cascata de Burica que se localizava numa mata virgem próximo do Rio Uruguai. Outra vez fazia-se à derrubada da floresta para a construção das casas e as plantações agrícolas, mas terminados os trabalhos diários, as famílias se reuniam em reuniões de oração na mesma rotina costumeira.

A líder espiritual do grupo continuava a mesma tia Salit. Mas acontece que para o nosso acampamento veio outro par recém-casado e o nome da moça era Zelma Zvagere, uma das imigrantes da Colônia Varpa que se casara com um rapaz de Rio Branco chamado Alexandre. Por ocasião de uma destas reuniões de orações vespertinas, enquanto todos estavam ajoelhados a profetiza teve uma visão e então disse a Zelma: “Eu vi uma parelha de cavalos atrelada ao balancim que o teu marido Alexandre estava segurando e sendo arrastado para longe de ti”.
Sucedia que Alexandre tinha se afastado do grupo por que, embora fosse crente, o seu juízo não aceitava estes exageros, mas ele era meu amigo, pois trocávamos idéias. Assim que terminou esta reunião por acaso encontro o Alexandre e pedindo sigilo contei a visão profética. Logo a seguir chega em casa Zelma toda chorosa e se dirige ao marido: “Então você pretende deixar-me” ao que o outro respondeu: “Quando vierem os cavalos com o balancim”.
Na próxima reunião do dia seguinte ao formarmos o circulo de orações a profetiza aparentando inspiração espiritual disse assim: “Quem foi que contou ao Alexandre aquela revelação de ontem?” “Se o culpado não se manifestar o Espírito vai denunciar”. Ora, só poderia ter sido eu que já tinha fama de tagarela; então pensei, isto já passa da conta, vou me confessar e fingir arrependimento vamos ver se o Espírito vai denunciar a minha falsidade. Confessei-me culpado e choramingando pedi perdão e qual não foi a minha surpresa – fui perdoado.
Depois da reunião falei com o meu pai e lhe contei o acontecido e afirmei que tudo aquilo era mentira e sugeri que ele se afastasse deste grupo, mas ele ficou hesitante por que era o doutrinador Teológico. Estava escrito no Novo Testamento repetidas vezes a respeito da manifestação do Espírito Santo e aquela gente, se depois desta penitencia, desta obediência cega não fosse contemplada então ele não sabia encontrar o erro.

Abandonei aquele lugar pelas picadas através da floresta caminhei 15 quilômetros até Santa Rosa onde encontrei trabalho na chácara do Dr. Frederico Krebser e estava agnóstico.
Mas o que me salvou do desvio do comportamento foram os ensinamentos e a doutrinação que a minha mãe, ela acompanhou o meu pai sem discutir toda esta confusão, mas não se descuidou da minha educação, dando uma interpretação própria de várias citações evangélicas. Uma delas foi a de que “todos pecados seriam perdoados, menos os contra o Espírito Santo”. Ela explicava que a voz do Espírito Santo se manifestava através da consciência, mas tantas vezes o homem insistia no pecado que acabava não sentindo remorso e neste grau a perdição seria irreversível. Para exemplo citava a história de um assassino nos Estados Unidos que fora condenado a execução na cadeira elétrica e quando perguntado por que havia matado um cidadão que viajava na boleia de uma carroça dirigindo uma parelha de cavalos a resposta tinha sido: “Por que eu estava curioso em ver como iria cair o cigarro que estava fumando”.
Também naquele interstício do episódio da Linha Telegráfica e o outro da tia Salit que durou vários anos, freqüentei a Escola Dominical clássica onde aprendi aqueles hinos “Vinde Meninos” e outros, decorei versículos, assimilei as lições das aulas que freqüentava. Até que eu poderia ter me segurado naquela comunidade Batista liderada por Jacob Klava, mas ele feria os meus sentimentos filiais quando na minha frente dizia que meu pai, Carlos Andermann era podre e eu não pude admitir isto por simples respeito a minha origem e por que sabia que ele era um ingênuo pesquisador de uma literal verdade evangélica sem qualquer interpretação Teológica.
Então surge a pergunta; como foi possível que um adolescente de 13 anos ficou fiel a um grupo e excêntricos como aquele? Primeiro fui obediente aos meus pais. Depois quem entra num redemoinho de águas turvas ou idéias não consegue sair sozinho por que sempre é arrastado para o centro. O empenho principal da liderança era doutrinar os fieis para mantê-los unidos como minoria escolhida de Deus e evitar qualquer contágio de idéias de fora denominado “o mundo”. Também o que facilitou este Pentecostalismo obscuro foi o fato de eu ser semi-analfabeto, mas o principal foi o sentimento de obediência aos meus pais.

Certamente todos os meus irmãos o foram até os 13 anos, mas quando caíram na realidade tiveram um choque tão grande motivado por causa do batismo pelo Espírito que levou a este descalabro, que resolveram renunciar toda a doutrina da Salvação. Esqueceram que os Batistas explicavam a trilogia – Deus Pai – Jesus Cristo – Espírito Santo – dando o mesmo peso para cada um completando o outro; Deus determinava, Jesus mediava e o Espírito estabelecia o contato entre a mente humana e a inspiração Divina. Se tivessem pesquisado melhor a Escritura teriam descoberto que os primeiros crentes falaram línguas estranhas, mas que cada um daqueles forasteiros entendiam como sendo o próprio idioma. Então havia relação de causa e efeito, pregar o Evangelho numa língua que os outros entendiam como a sua própria.
Isto já foi dito há mais de 50 anos passados pelo Pastor Inke em Nova Odessa quando ele falou que Seminaristas inspirados pelo Espírito Santo estudavam línguas estrangeiras para trabalho missionário – então foi muito criticado pelos Pentecostalistas.
Mas neste caso também a relação de causa e efeito é a mesma dos primórdios do Cristianismo – falar uma língua estrangeira na qual um povo de fora entendesse a mensagem de Deus.
Já havia participado como voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932 defendendo a legalidade, mas este é um capítulo à parte.
A minha irmã Lídia que morava em Nova Odessa pediu ao João Jankovitz que viajou para Ijuí, que me fosse apanhar em Santa Rosa onde eu então era aprendiz de oleiro, favor que ele cumpriu devotamente e por isto eu estou-lhe eternamente agradecido.
Eis-me agora na Fazenda Velha perto da Estação de Nova Odessa em São Paulo, onde estava localizada uma Colônia Leta, muito progressista material e espiritualmente.
Todas as propriedades eram produtivas e respondiam a diligencia dos Letões que eram agricultores natos e ajudavam incansavelmente a natureza que retribuía este esforço com messes generosas.
Estava com 16 anos. Combinei com o meu patrão Arajs para trabalhar a metade do dia durante período de entre safra como empregado na lavoura mediante a retribuição da pensão completa, mas no período de cultivo me comprometi a trabalhar o dia todo mediante remuneração.
No sótão da Igrejinha Batista da Fazenda Velha havia uma sala que foi adaptada para a escola. De Nova Odessa a bicicleta pedalando 8 quilômetros vinha o Prof. Carlos Liepim, que foi bacharel formado pelo Ginásio Batista do Rio de janeiro, para ministrar as aulas. Com a sua ajuda recuperei todo aquele tempo perdido na penumbra do semi-analfabetismo e ele me ensinou tudo que sei, naturalmente aprimorado depois. Não fez por menos, preparou a mim e outros alunos diretamente para o admissão.
Depois ele foi convidado para ser professor de física e química num ginásio de Campinas, indo diariamente de trem para dar aulas, mas embora estivesse com seu tempo tomado, conseguiu uma vaguinha para orientar os meus estudos na sua residência à noite duas vezes por semana, quando eu pedalava a minha bicicleta para ir e voltar, por um caminho de terra iluminado por uma lanterna de carbureto.
Minha base religiosa Evangélica estava abalada. Mantinha uma rigorosa conduta de crente por que agir de outra forma seria burrice, mas intimamente duvidando daquilo que não fosse palpável, no entanto nunca deixei de ver a presença de Deus em todas aquelas maravilhas que ia descobrindo pelo estudo nos rudimentos da ciência, por que em tudo aquilo eu via a presença de Deus e sentia que ao aprender aquelas teorias de Lavoisier, de Pasteur, aquelas definições Newton a respeito da gravidade ele estava sendo lisonjeado.
Fui aceito como membro da Mocidade Batista que era constituída de jovens sadios, decididos, estudiosos e que me tratavam como se eu fosse igual a eles – embora fossem filhos de famílias abastadas.

CONTINUA

…vigiar aquele boi que gosta de pular as cercas para ir comer milho nas roças. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Açúcar 21 de março de 1923

Querido Reini:

Primeiro envio votos de muito bons dias e amáveis saudações. Eu igual a você sempre querendo matar dois coelhos com uma cajadada fiquei esperando mais alguma carta para responder duas ao mesmo tempo e como não veio mais nenhuma não vale a pena esperar mais. A tua carta escrita no dia 7 de março, com aquele convite recebi ontem durante a Festa de Aniversário da nossa Igreja. Percebemos que você foi esperto mandando aquele convite para aquela sua festa lá e tão bem calculado que quando a carta chegou a festa já tinha passado longe, para a gente não poder ir.

Você está fazendo como alguns Rio Novenses que fazem festas de casamentos e endereçam e subscrevem os convites, mas não os põem no Correio já. Ai colocam o convite no correio um dia antes. As pessoas recebem o convite em cima da hora e é claro não podem comparecer. Então eles dizem: oh nós os convidamos para o casamento, mas eles são tão orgulhosos que não quiseram vir.

Você não tinha algum aeroplano que nós pudéssemos ir voando, que grande coisa seria. Poucas horas de vôo e nós já estaríamos lá. E noutro dia de manhã estaríamos de volta em casa. Não podemos deixar a casa vazia, sem ninguém durante a noite.

Durante o dia nós temos que vigiar aquele boi que gosta de pular as cercas para ir comer milho nas roças. Também temos que tirar leite das vacas etc. Se nós tivéssemos ido levaríamos uma balde cheia de leite e muitos quilos de manteiga. Assim sim, seria uma grande festa para você. Pena que tudo já passou. Como realmente foram as suas festas?
Naquele dia perto da noite estava muito nublado, brusco e chovia um pouco. Se tivesse sido aqui, aquela festa iria pegar muita lama até a altura dos joelhos.

Ontem foi aqui a Festa de Aniversário da Igreja. O tempo estava maravilhoso. Quem dirigiu foi o Emils. [Emils Anderman]
Tinha muita gente. Cantou o Coro da Igreja, o Coro da Mocidade e o Duplo Quarteto de Homens cantou 3 hinos. Os oradores foram o K.Seebergs, o Wilis Slegmann, o Juris Frischembruder e o G. Auras. Foi realmente uma festa maravilhosa e transcorreu em perfeita paz.

As grandes chuvas amainaram e o nosso riozinho [O rio do Rodeio do Assucar]
está realmente com pouca água. Nós deveríamos estar fazendo farinha de mandioca, mas a água está muito escassa para mover o engenho e tempos atrás quando não precisávamos havia água sobrando.

Dos nossos parentes de São Paulo, nada temos recebido. O Pappa faz tempo que escreveu, mas não temos certeza sem não ficou retida na censura de lá.

O Matiss Frischembruder escreveu de lá contando mil maravilhas. É claro que ele tem que dizer que está tudo muito bem organizado, pois ele está envolvido na mesma sopa.

Segundo ele, do pessoal de Nova Odessa, há muita gente que apóia o Inkis. O Malvess é um deles, que por ser genro do Inkis cuida da carteira do dinheiro comunitário, ainda que pecaminoso. O outro genro o Willis Lustinhs é o responsável pela cozinha comunitária, e assim todos pedaços de parentes tem o seu emprego garantido e eles nunca precisarão jejuar 3 vezes por semana, porque já são perfeitos.

Bem já se vão 3 semanas que eu te mandei uma carta na qual escrevo que o Andreys escreveu lá da Latvia e nós vamos ter que responder. Teremos que dizer que nada sabemos do tio Jekabs e a família que foi para o “deserto “. E se eles não escreverem para ele como estamos passando, nós também nada poderemos fazer.

Você bem que poderia escrever uma carta para o primo Joãosinho. O Andreys perdeu os demais, pois morreram lá de fome na sua fuga da guerra e só ficou o Joãosinho, que não pode continuar os estudos porque não tem dinheiro.

Agora o Joãozinho trabalha numa repartição do Governo da localidade como escrevente. Ele já deve estar bem crescido, pois é bem mais velho que o nosso Arthur.

No Domingo passado recebi uma carta dos Fritz lá da Argentina. Agora todos estão bem, é que a Christine, este doente por dois meses e ele também por um mês, mas agora estão todos bem.

O velho Leimann está cada vez mais gordo e saudável e somente o que atormenta o coitado é a sensação de inutilidade sem ter o que fazer o tempo não passa e quase não tem distração nenhuma e nem outros letos para conversar.

Bem agora chega senão você não vai ter tempo para lê-la.

Onde agora anda o Janka Klava? Ou ele saiu da escola com aquele “passe”? Alguns outros tem escrito que ele foi para a América num navio como servente.

Este ano há muitos estudantes? O Inkis e o Schanis não voltaram atrás? Aqueles letos de Rio Branco continuam lá? Chegaram outros novos de lá?

Não espere matar os dois coelhos com um tiro só. Responda carta por carta que eu estou aguardando. Lembranças dos demais. Olga.