O Pastor Karlos Anderman .Depoimento de Júlio Anderman um de seus filhos.

O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 5ª PARTE (última)

O PASTOR KARLOS ANDERMAN
5ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
]

Passei a trabalhar para a Família Kreplin, constituída dos pais e vários filhos. Eu dormia no mesmo aposento de um deles, o Ernesto.
Tive o privilégio de conviver dois anos no seio daquela família, um modelo de comportamento da Denominação Batista daquele lugar. Eram firmes nas suas convicções, honestos, tinham aptidão para gerir os seus negócios materiais com muito êxito e o seu lema era “ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto”, incluindo o meu.
Todo o dia de trabalho se iniciava às 4 horas da madrugada. Os pais acordavam primeiro para fazer o café da manhã. Isto feito os dois abriam o Cantor Cristão num hino e entoavam a melodia em duas vozes. Então vinha o Ernesto; em seguida o Roberto e as duas moças, engrossando este coro polifônico neste “toque de alvorada” que me acordava também, o mais jovem e lá vinha eu esfregando os olhos dos últimos vestígios do sono. A última estrofe nunca era cantada sem a minha presença; então era uma obrigação moral saltar logo da cama para não deixarem os outros repetirem.
Todos reunidos o Patriarca lia uma passagem da Bíblia para a meditação e designava alguém do grupo para fazer uma oração a Deus pedindo a benção para os afazeres daquele dia que ora se iniciava.
Tomava-se o café. Chamava os muares de tração para a sua refeição matinal e depois, junto com a filha Vitória íamos para o estábulo tirar o leite das vacas, bem uma dezena delas formando duas filas. Enquanto elas saboreavam a ração, nós espremíamos as tetas antes lavadas com água, com a mão, esguichando jatos de leite dos úberes intumescidos, para o balde.
Com detalhe me lembro de duas vacas temperamentais; uma delas somente consentia soltar o leite se estivesse comendo a batata doce; a outra, somente deixava ser ordenada por mulher, ela olhava primeiro e se fosse homem soltava um coice atirava longe o intruso.
Às vezes a Vitória de brincadeira colocava esta vaca na fila da minha ordenha. A luz bruxuleante pendurada no meio do estábulo não permitia distinguir qual era delas, pois todas eram castanhas e quando ela virava a cara já era tarde. Ela soltava o coice, enquanto a Vitória ria gostosamente.
Na ordem do dia então constava o segundo café que era reforçado por frutas e proteínas. Em seguida atrelava os muares que atendiam pelos nomes de Dourado e Galego que eram animais de tração de muita força e rebocavam os implementos agrícolas. Eram tão integrados no trabalho que faziam animados e repetiam as diversas fases como se tivessem uma inteligência imaginativa.
Doze horas, meio dia, era a hora do almoço. Desatrelava os animais e os conduzia para a manjedoura para comerem a sua ração, depois deles também eu ia almoçar junto com a família toda reunida por que os Letões tinham o costume de acolher os seus empregados na mesma mesa e assim como de manhã também agora a refeição era precedida por uma prece. Depois desta refeição na escala do dia constava o trabalho que consistia em cortar capim para triturar a ração, descascar milho, rachar lenha e outras funções consideradas repousantes. Às 15 horas a parelha alimentada e repousada junto com o seu condutor outra vez ia para o trabalho na lavoura.
Eram dirigidos por rédeas, mas os animais estavam tão habituados a rotina que, depois de virados no fim do rego, sabiam o rumo tanto na ida como na volta.
Entre o Dourado e o Faceiro havia uma diferença quando estourávamos acidentalmente uma cachopa de marimbondos, o primeiro ficava pulando no mesmo lugar enquanto o outro queria disparar, mas quem ficava mordido era eu.
Não era cansativo por que era só segurar nos manches do arado e acompanhar arrastado o sulco.
Havia ainda um lanche no interstício desta segunda jornada, que era trazido pelas mãos diligentes de alguém da família, antes do dia terminar com o aparecimento da estrela vespertina, por que as horas do ocaso eram mais frescas e por isto mais produtivas.
Os animais tinham um tratamento quase humano por que solidários com o homem enfrentavam o trabalho, comiam a última ração antes de serem soltos no pasto.
Depois de admitido na União de Mocidade, também comecei cantar no coro da Igreja um conjunto maravilhoso que se apresentava na estação de rádio de Campinas e uma vez veio cantar na primeira Igreja Batista do Rio de janeiro.
Era aprendiz por isto não tinha nenhum destaque. Os ensaios eram acompanhados por violino, voz a voz por que o harmônio, que tinha a afinação temperada, não oferecia a perfeição desejada. O coro cantava a capela todos àqueles hinos que Lakshevics depois traduziu para o português, mas as silabas anazaladas do nosso idioma português tiravam deles aquele brilho por que as consoantes é que dão o ritmo e destacam a pronúncia fazendo o texto compreensível. Os ensaios realizavam-se duas vezes por semana, as quartas-feiras e na véspera dos domingos.
Em algumas ocasiões o grupo da mocidade alugava um caminhão com bancos de tabuas atravessando a carroceria que era lotada para passeios no Carioba, então cantávamos a quatro vozes:
Se nos cega o sol ardente.
Quando visto em seu fulgor.
Quem contemplará aquele.
Que do sol é Criador.
Mas para mim o ponto alto da minha mocidade de efeito inesquecível foi à festa do aniversário que me proporcionaram. Eu estava dormindo, mas às duas horas da madrugada toda a mocidade da Igreja reunida no pátio da casa dos Kreeplin, de surpresa começou a cantar uma serenata acordando-me. Custei a me convencer que a festa era em minha homenagem. Quando desci fui abraçado, cumprimentado e fui distinguido com um lanche constituído de refrescos, guloseimas e ainda mais, o tradicional bolo de aniversário acompanhado de “Parabéns prá você”; tudo aquilo preparado pelas mãos diligentes daquela boa gente.
Como presente de aniversário ofereceram-me uma Bíblia com uma dedicatória autografada por todos os presentes. Esta Bíblia me acompanhou durante muitos anos. Levei ela comigo para a 2ª Grande Guerra na Itália no saco “B”, sim, por que tínhamos duas bagagens, a “A” que continha as coisas de uso diário e acompanhava o soldado na linha de frente e o outro que ficou na retaguarda. Nunca mais consegui reaver o saco “B”. Depois comentaram que o navio bagageiro que transportava este material fora afundado por um submarino alemão.
No entanto estava escrito que eu não ficaria na Fazenda Velha; os meus caminhos se abriram e a convite do meu irmão Emilio viajei para tentar a vida no Rio.
Tempos difíceis àqueles nos quais um jovem habituado a soltar as rédeas do pensamento em devaneios enquanto andava atrás da semeadura, agora era obrigado a concentrar-se em detalhes do trabalho mental.
A experiência adquirida no exercício da lavoura me ajudou muito e deu destaque a minha atuação até hoje, por que o próprio fluxograma de preparar a terra, plantar, cultivar, colher, predispõe para o planejamento com previsão para um resultado em longo prazo que é muito mais produtivo do que a especulação momentânea cujo lucro se esvai com a mesma facilidade com que veio. Em conclusão deste item posso dizer que tudo aquilo que eu fiz foi realizado com êxito, graças a Deus.
No Rio comecei a freqüentar a Primeira Igreja Batista de Catumbi na qual participei do coro e ingressei na União da Mocidade. O Pastor Antonio Neves Mesquita percebeu logo que havia algum problema com a minha vida espiritual. Ele me convidou para ser membro da Igreja, fiquei de pensar sobre o assunto e em conseqüência me abri com ele sobre todos aqueles acontecimentos havidos com o Pentecostalismo e a minha descoberta da mentira.
Fui franco, disse: “e tem mais, para resumir, como poderia ter Cristo subido aos céus com o seu corpo físico ressurreto se hoje sabemos que depois da estratosfera o corpo se desfaz”.
Depois conversamos sobre a imortalidade da alma, sobre a eternidade, a respeito do céu e do inferno e outros assuntos que a seqüência fria das palavras não conseguia explicar a luz dos conhecimentos modernos.
Então o que ficou resumido no meu cérebro, até hoje, foi à explicação que tudo era uma questão do “estado da alma”. De acordo com o meu procedimento eu poderia me sentir no céu ou no inferno. Que esta questão de eternidade perante Deus não tinha nenhuma significação por que cada momento se eterniza.
Conclui assim que havia uma eternidade horizontal que se traduzia em séculos e uma outra vertical que traduzia o momento vivido e por fim, de que a eternidade secular nada mais era do que a soma dos momentos vividos e que de acordo com as Escrituras, perante Deus um dia vale mil anos e mil anos são como se um dia fosse.
Sentir-se salvo por Jesus Cristo neste momento e nos momentos seguintes justapostos constituem a eternidade, incompreensível para a mente humana e sentir-se salvo na hora da morte também se tornava um sentimento infinito, eterno, como também a angustia provocada pelos pecados na hora final se perpetuava.
Batizado tornei-me membro da Igreja Batista e foi para valer, pois até hoje não tive dúvida sobre a salvação da minha alma. Cheguei a conclusão de que a religião era como se fosse um fio de ouro que acompanha o crente durante toda a linha da vida. Conclui que a religião não é para ser cultuada, mas para ser vivida intensamente.
Em Jesus adquiri um amigo que me guiava e acompanhava os meus passos mesmo materialmente e que não podia deixar ele do lado de fora esperando enquanto eu estivesse praticando num cômodo vizinho, um ato indigno.
Não era infalível, mas nas transgressões valia o arrependimento e o pedido de desculpas.
Mas afinal o que é o pecado? São atos repetidos que primeiro aniquilam o corpo orgânico e depois destroem o espírito. Antes da descoberta da cirrose do fígado provocado pela ingestão da bebida alcoólica, do enfisema conseqüência do fumo, da aids provocada pelas drogas injetadas e o heterosexualismo que um sinônimo de prostituição, os Batistas consideravam a conversão do crente como prova do abandono destes vícios e outros como apagados de uma nova vida pelo batismo.
Naquela mesma ocasião li o Discurso do Método de René Descartes que muito me influenciou. Este livro nada mais ensina do que a procura da verdade. Jesus resumiu este assunto quando disse: “vossa palavra seja sim, sim; não, não o que passa disto é do maligno”. Então na minha concepção firmou-se a convicção de que somente havia uma maneira de discernir uma questão; a certa ou errada, não existia meio termo. Aquele filósofo concluiu que a verdade era clara como o sol, ela não poderia ser destruída nem pelos amigos, nem pelos inimigos e tinha de resistir à prova de causa e efeito. Assim uma tese ateísta reforçou a minha fé evangélica.
Por exemplo, ao analisar o Pai Nosso descobri que neste texto havia ensinamentos de ordem prática. A frase “e livrai-nos das tentações” para mim passou a ter uma significação ativa e passiva. Então se eu, um crente, por negligência, descuido ou omissão permitisse que alguém “caísse em tentação”, eu tinha parte da responsabilidade pela falta que o outro praticou. Ela encerrava também um dos princípios da administração que é a vigilância constante para desencorajar a tentação de quem quiser dilapidar o patrimônio.
A outra citação: “pão nosso de cada dia nos dá hoje” não podia ser interpretada de uma maneira tão simplista de que Deus apanhasse uma côdea de pão na sua dispensa celeste e a colocasse sobre a mesa do peticionário num piscar dos olhos. Primeiro Deus fazia plantar a semente, depois cultivar, mandar para o moleiro triturar os grãos em farinha, ser manuseada pelo padeiro, assado no forno aquecido e por fim adquirido na padaria e somente depois a colocação do alimento sobre a mesa e o agradecimento a Deus por esta dádiva que passou por tantas mãos que instintivamente agiam como se a ele representassem.
Isto tudo foi citado resumidamente, por que somente o ato da semeadura ocupou bastante espaço quando analisado por Nosso Senhor naquela parábola do semeador.
É duro dizer isto, mas numa análise Cartesiana, somente poderiam existir dois tipos de espírito; o Santo que vem de Deus, pela primeira vez mencionado em Gênesis: “e o Espírito de Deus repousava sobre as águas” e que depois, materialmente realizou toda a obra da criação do mundo e o Espírito das trevas tantas vezes mencionado na Bíblia.
Quando nos Atos dos Apóstolos houve uma manifestação do Espírito Santo que induziu o uso de línguas estranhas, parece o efeito da causa por que todos entendiam no próprio idioma o que eles estavam dizendo, ficando assim estabelecido o principio de causa e efeito que rege a ciência.
Assim se um seminarista aprende um novo idioma durante o curso de Teologia para como missionário em terra estranha pregar o evangelho, ele cumpre o efeito embora a causa seja outra.
Então podemos propor um desafio para aqueles crentes que se dizem poliglotas por obra do Espírito Santo; é mandá-los pregar da mesma forma sem a memorização e depois verificar se o efeito foi o mesmo; se alguém entendeu alguma coisa do que disseram.
Destes profetas Pentecostalistas Letões que não sabiam a nossa língua, nunca ouvi dizer que algum deles depois de inflamado tivesse o dom de pregar em português para converter os brasileiros. Os pastores que o fizeram, aprenderam o idioma a duras penas; esta sim foi uma inspiração do Espírito Santo e entre eles também incluo o meu pai.
Por outro lado tudo que aconteceu nos primórdios do Cristianismo ficou escrito para análise e meditação, como foi aquele milagre quando o poder de Deus mandou o seu anjo para soltar o Apóstolo Pedro da prisão, mas destas línguas estranhas que se ouvem balbuciar hoje nas reuniões de Pentecostalistas e que pressupostamente deveriam conter mensagens preciosas para a meditação; nenhuma mensagem foi gravada, traduzida ou transcrita, apesar das facilidades dos meios de comunicação modernos. Isto mesmo pode-se dizer das visões, profecias, milagres que deveriam ser registrados para comprovar a sua veracidade pelo principio de causa e efeito.
Comparando, então podemos dizer que o Espírito de Deus que pairava sobre as águas disse: “haja luz”, quando aconteceu aquela explosão indescritível da criação de todo Universo e que atualmente os astrônomos chamam de ‘Big-bang “; assim ele fez todas aquelas coisas mencionadas na Bíblia, que naquela ocasião não poderiam ser narradas de outra forma por que o pensamento humano ainda não havia aprendido bastante para entender – e agora, em contraste aparecem alguns grupos que tem a ousadia de dizer que estão evocando este mesmo Espírito Santo de Deus para animar reuniões de saltimbancos, e que, no mínimo, pode ser considerado chacota e desrespeito”.
Finalmente, se você já passou, ou quando passar por uma desilusão igual a que eu passei e por isto tornou-se incrédulo então pense: “Quem criou o Universo e o sustenta?” Se você não quer chamá-lo de Deus, então lhe invente outro nome ou aproveite dos muitos que já existem – Bog em russo, Gott em alemão, Allah em árabe ou Adonai em hebraico, por que Ele é tudo aquilo que o cérebro deduz e que todos igualmente imaginam que Ele seja e que a cada nova descoberta cientifica é exaltado. Se além de tudo tiver duvidas, na hora de conciliar o sono, à noite, consulte o seu coração e ele lhe dirá muitas coisas que o cérebro não soube deduzir.

F I M

…pois quando eu vinha da outra casa montada, eu cai da Shanny…| De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1925 –

26 de outubro 1925
Querido maninho!!

Ainda que até agora não tenha recebido carta nenhuma sua assim mesmo tenho que escrever. O Arthur, este sim recebeu a tua carta no dia 17 de outubro juntamente com aqueles jornais. Por tudo muito obrigado, pois agora eu tenho muito que ler. Não terminei ainda de ler todos. Sempre quando sobra um tempinho eu estou lendo. Gosto muito das matérias escritas por você à máquina, pois contém bons ensinamentos. Também agradeço pelo “O Crisol” que agora eu estou encadernando e não pode faltar nenhum número. Continue me mandando inclusive aqueles “Zelhmallas Seedus” [Flores da beira do caminho], pois gosto muito deles.

É possível que tenhas recebido a carta que mandei no dia 8 de outubro, quando naquela eu prometi escrever novamente na próxima semana, mas não consegui, pois aconteceu um desastre comigo, pois quando eu vinha a cavalo da outra casa montada eu cai da Schanny [uma égua] machucando o joelho e cotovelo da mão direita inclusive machuquei ambas as mãos, tanto que por 3 dias não podia mexer com o corpo. Mas desastres deste aqui agora é moda, pois há mais de um mês o filhinho do Oswaldo Auras caiu de um esteio [esteio é chamado o pé direito de uma construção] e quebrou a perna, mas já está quase bom. E também umas duas semanas atrás o Hari Stekert viajando de auto e este tombando caiu [Não está claro se o automóvel tombou ou ele caiu do automóvel] e quebrou algumas costelas, mas agora já está quase bom.

Agora o tempo está chuvoso até demais, começou a chover forte no dia 12 de outubro e chove até hoje. Antes disso estava nublado e chovia normalmente, mas agora sábado, domingo e hoje está chovendo torrencialmente que todos rios e riachos que até rugem. Se chover mais um dia então vamos ter enchentes. Hoje mesmo é possível que o Rio Novo lá em baixo não dê passagem [A passagem a que se refere era abaixo da Atafona do Eugenio Elbert (Dª Alida) pela Estrada Velha – Meu pai quando trazia mercadorias com carro de boi da Estação de Estrada de Ferro para a Venda do tio Eduardo Karp teve diversas vezes passar toda mercadoria nas costas pela pinguela e passar com os bois e o carro por dentro d’água e depois recarregar tudo para prosseguir a viagem], pois o Rio Novo aqui em cima perto de nossa casa está como o Rio Novo normal, mas lá em baixo as condições são outras. Os previsores de tempo de plantão tinham antecipado que a primavera e o verão seria muito secos, mas a realidade é bem outra. Em São Paulo sim é que está faltando água pois as pessoas não tem água nem para lavar o rosto e muitas fábricas estão parando.

O Willis e o Augusto Klavim chegaram de São Paulo no dia 12 de Outubro e trouxeram junto o primo deles o Alfredo Neander, de estatura ele não é alto, quem sabe da altura do Karlis Klavin, mas tão hiper ativo com um menino da cidade em um piquenique na região rural.

A Festa de Aniversário da União da Mocidade foi no dia 16 de outubro. Um dia nublado e com as estradas lamacentas. O programa foi pequeno, não foi nem a metade do ano passado. Houve apresentações de hinos, músicas, saudações, preleções e relatórios das atividades da União no Ano passado. Na parte financeira a União movimentou mais de 1:200$00 mil réis. Os pastores também não estavam mais, pois foram embora dia 12 de outubro. O Deter não queria ficar mais. Ele chegou no Rio Novo procedente de Mãe Luzia no dia 9 de outubro. Naquele mesmo dia ocorria o casamento do Carlos Leepkaln com a Anna Sanerip. O tempo estava nublado, mas a estrada estava enxuta. A 1 hora da tarde foi a Cerimônia na Igreja e o Dr. Deter fez o Sermão em brasileiro, inclusive falou que este era o casamento do 2o. Leepkaln, pois na outra vez ele esteve no casamento do Alfredo Leepkaln. O pastor Stroberg fez o sermão em leto, o coro cantou e tudo transcorreu muito bem. Após as bodas foram servidos café com pão, bolos, bolachas e acompanhamentos. A noite foi repetida a dose na casa dos Sanerip, mas desta vez não para todo mundo e sim para os parentes, os amigos mais chegados e os pastores. Entre estes amigos chegados nós fomos incluídos, pois a família Sanerip gosta muito da gente, então somente o Paps não foi. Não podia ser diferente, pois durante os preparativos eu passei dias na casa deles ajudando, isto é fazendo bolos e comendo.

No sábado a noite teve culto na igreja e o Deters falou. No Domingo ele compareceu na Escola Dominical e logo após no Culto ele fez um sermão em brasileiro e logo após o Stroberg fez um resumo em leto. No Domingo a noite novamente culto na igreja. O missionário Deter elogia muito os letos em geral e principalmente os que estão no Rio como o João Klawa e outros que trabalham diligentemente. Tem especial apreço por você principalmente pelos resultados do seu trabalho e as demais coisas não vou escrever.

O Stroberg não te escreve? Ele contou para a Mamma que em Kuritiba ele consegue muitas informações sobre
você, principalmente quando você escreve para o Carlos Vieira então ai ele conta tudo.

Bem agora esta noite tenho que terminar. Desta vez eu matei coelho que o Arthur teria que matar, pois ele faz um mês que está adiando a sua obrigação. Ele promete escrever, mas não tão longa quanto a anterior.

Nós estamos indo como sempre. A Olga está ficando melhor, mas boa ainda ela não está, mas também com uma doença tão séria não ficaria boa tão rápido.
Muitas lembranças de todos de casa
Lúcia
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Agora somos duplamente irmãos | de Otto Roberto Purim para Reynaldo Purim 1922

Rio Novo 20 de abril de 1922

Querido irmão! Saudações.

Eu este ano não recebi nenhuma carta sua. Parece que você ficou preguiçoso em responder as minhas cartas, mas não tem importância, pois eu vou escrever outra vês, se bem que tenha bastante coisas para te contar.

Nem sei por onde começar, mas vou tentar escrever pela ordem de importância dos fatos: – Agora nós somos duplamente irmãos. Pois no primeiro domingo de abril fui aceito como membro da Igreja então a partir de agora além de sermos irmãos carnais também o somos em Cristo. Quando serão os batismos, eu não sei.

Os livros da Biblioteca da Mocidade estão em péssimas condições de tanto uso e eu já os li todos. Eu sou membro da União da Mocidade, desde o começo do ano. Eu também faço parte do Coral Jovem onde estou aprendendo a cantar tenor.

Você poderia mandar uma pessoa que me ensinasse a tocar violino, pois um pouco eu sei. Se tivesse uma pessoa que ajudasse, eu aprenderia bem e rápido a tocar.

Algumas semanas atrás eu e o Paps [Jahnis Purim, pai do Reynold e dos outros] fizemos de ripas de tronco de palmito jussára uma gaiola transportável para apanhar bichos, que vivem atacando as nossas galinhas.

Antes eu tinha armado laços, mas não pegamos nada. Até a Leda [Leda era o nome de uma cachorra muito leal e minha família teve mais de um cachorro com este nome que até foi adotado por pessoas que gostaram do som deste nome e temos amigas maravilhosas com este nome] cortou o barbante do laço. [Era aproveitada a elasticidade das árvores para capturar os bichos]

Esta gaiola é relativamente grande e é dividida em duas seções. Em uma dela a gente prende um galo, pois ao cantar ele atrai os bichos. A outra parte é feita uma portinhola para quando o bicho entrar ele passa por cima de uma tábua que desarma a portinhola que cai fechando o bicho ai dentro. Já pegamos dois cachorros do mato dos quais tiramos as peles. Nós levamos esta armadilha lá perto do mato pequeno. Lá eles além das galinhas, eles estragam muita cana. Se você precisar de peles para fazer casacos ou golas de casacos, ficariam muito bonitas estas peles de cor cinza..

De qualquer modo você deve conseguir comprar a minha ocarina.

Eu ganhei ovos de pata do Auggi e pus para chocar e saíram 9 patinhos dos quais a maioria morreu sobrando apenas 3 e todos são machos e não fazem som algum e, portanto deves comprar a minha ocarina [Ocarina e patinho em leto é a mesma coisa e daí o trocadilho]

Desta vez chega outra vez mais.

Com saudações. Arthurs. [Agora com 17 anos]