O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 4ª PARTE


O PASTOR KARLOS ANDERMAN
4ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
]
[Digitado por Laurisa Maria Corrêa]

A tia Salit então sugeriu que aqueles que tivessem economias guardadas em casa deviam trazê-las e juntar em um só cofre numa repetição do exemplo de Atos 3:42-47 e aos mais hesitantes citava o exemplo de Barnabé. Foram trazidas latas cheias de moedas de prata de 2 mil reis que todos guardavam pensando serem imunes à inflação devido ao valor do nobre metal. Nesta aventura então entrou um fato novo que era o interesse pecuniário.

Novamente veio uma ordem transmitida por via espiritual para que todos aqueles crentes vendessem as suas propriedades e com as suas famílias se mudassem para a Colônia Varpa em São Paulo. Mas chegando lá se verificou que as condições do clima e do solo não eram apropriadas a uma existência saudável. A terra era muito arenosa dando a impressão que lá já existira o mar. Havia muitos bichos de pé. Faltava água e os lençóis freáticos, quando encontrados, localizavam-se a mais de 20 metros de profundidade tornando a escavação do poço manualmente arriscada pela ameaça do desmoronamento de suas paredes.

Mas nós éramos considerados como peregrinos em busca da terra prometida e que desta vez ainda não a tínhamos encontrado. Novas orações, novas consultas, novas
Outra peregrinação pela Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande para aquele destino.
Em Varpa sofri a maior perda da minha vida, faleceu a minha mãe Emilia. Habituada em Mãe Luzia a uma dieta de leite, legumes e cereais, em Varpa teve de se alimentar de arroz, feijão e carne, ao que não resistiu a sua delicada constituição orgânica, mas antes de fechar os olhos, escrevera cartas para aquelas lideranças espirituais dotadas de dons e que comandavam então os nossos destinos, denunciando aqueles desvios doutrinários designando com uma única palavra “pústulas”. Em conseqüência destas cartas depois dela morta ainda tive de ouvir insinuações de que, por não ter resistido às provações e se desviado daquela doutrina, pairava duvida sobre a salvação da sua alma.

No Rio Grande o nosso destino final foi uma localidade chamada Cascata de Burica que se localizava numa mata virgem próximo do Rio Uruguai. Outra vez fazia-se à derrubada da floresta para a construção das casas e as plantações agrícolas, mas terminados os trabalhos diários, as famílias se reuniam em reuniões de oração na mesma rotina costumeira.

A líder espiritual do grupo continuava a mesma tia Salit. Mas acontece que para o nosso acampamento veio outro par recém-casado e o nome da moça era Zelma Zvagere, uma das imigrantes da Colônia Varpa que se casara com um rapaz de Rio Branco chamado Alexandre. Por ocasião de uma destas reuniões de orações vespertinas, enquanto todos estavam ajoelhados a profetiza teve uma visão e então disse a Zelma: “Eu vi uma parelha de cavalos atrelada ao balancim que o teu marido Alexandre estava segurando e sendo arrastado para longe de ti”.
Sucedia que Alexandre tinha se afastado do grupo por que, embora fosse crente, o seu juízo não aceitava estes exageros, mas ele era meu amigo, pois trocávamos idéias. Assim que terminou esta reunião por acaso encontro o Alexandre e pedindo sigilo contei a visão profética. Logo a seguir chega em casa Zelma toda chorosa e se dirige ao marido: “Então você pretende deixar-me” ao que o outro respondeu: “Quando vierem os cavalos com o balancim”.
Na próxima reunião do dia seguinte ao formarmos o circulo de orações a profetiza aparentando inspiração espiritual disse assim: “Quem foi que contou ao Alexandre aquela revelação de ontem?” “Se o culpado não se manifestar o Espírito vai denunciar”. Ora, só poderia ter sido eu que já tinha fama de tagarela; então pensei, isto já passa da conta, vou me confessar e fingir arrependimento vamos ver se o Espírito vai denunciar a minha falsidade. Confessei-me culpado e choramingando pedi perdão e qual não foi a minha surpresa – fui perdoado.
Depois da reunião falei com o meu pai e lhe contei o acontecido e afirmei que tudo aquilo era mentira e sugeri que ele se afastasse deste grupo, mas ele ficou hesitante por que era o doutrinador Teológico. Estava escrito no Novo Testamento repetidas vezes a respeito da manifestação do Espírito Santo e aquela gente, se depois desta penitencia, desta obediência cega não fosse contemplada então ele não sabia encontrar o erro.

Abandonei aquele lugar pelas picadas através da floresta caminhei 15 quilômetros até Santa Rosa onde encontrei trabalho na chácara do Dr. Frederico Krebser e estava agnóstico.
Mas o que me salvou do desvio do comportamento foram os ensinamentos e a doutrinação que a minha mãe, ela acompanhou o meu pai sem discutir toda esta confusão, mas não se descuidou da minha educação, dando uma interpretação própria de várias citações evangélicas. Uma delas foi a de que “todos pecados seriam perdoados, menos os contra o Espírito Santo”. Ela explicava que a voz do Espírito Santo se manifestava através da consciência, mas tantas vezes o homem insistia no pecado que acabava não sentindo remorso e neste grau a perdição seria irreversível. Para exemplo citava a história de um assassino nos Estados Unidos que fora condenado a execução na cadeira elétrica e quando perguntado por que havia matado um cidadão que viajava na boleia de uma carroça dirigindo uma parelha de cavalos a resposta tinha sido: “Por que eu estava curioso em ver como iria cair o cigarro que estava fumando”.
Também naquele interstício do episódio da Linha Telegráfica e o outro da tia Salit que durou vários anos, freqüentei a Escola Dominical clássica onde aprendi aqueles hinos “Vinde Meninos” e outros, decorei versículos, assimilei as lições das aulas que freqüentava. Até que eu poderia ter me segurado naquela comunidade Batista liderada por Jacob Klava, mas ele feria os meus sentimentos filiais quando na minha frente dizia que meu pai, Carlos Andermann era podre e eu não pude admitir isto por simples respeito a minha origem e por que sabia que ele era um ingênuo pesquisador de uma literal verdade evangélica sem qualquer interpretação Teológica.
Então surge a pergunta; como foi possível que um adolescente de 13 anos ficou fiel a um grupo e excêntricos como aquele? Primeiro fui obediente aos meus pais. Depois quem entra num redemoinho de águas turvas ou idéias não consegue sair sozinho por que sempre é arrastado para o centro. O empenho principal da liderança era doutrinar os fieis para mantê-los unidos como minoria escolhida de Deus e evitar qualquer contágio de idéias de fora denominado “o mundo”. Também o que facilitou este Pentecostalismo obscuro foi o fato de eu ser semi-analfabeto, mas o principal foi o sentimento de obediência aos meus pais.

Certamente todos os meus irmãos o foram até os 13 anos, mas quando caíram na realidade tiveram um choque tão grande motivado por causa do batismo pelo Espírito que levou a este descalabro, que resolveram renunciar toda a doutrina da Salvação. Esqueceram que os Batistas explicavam a trilogia – Deus Pai – Jesus Cristo – Espírito Santo – dando o mesmo peso para cada um completando o outro; Deus determinava, Jesus mediava e o Espírito estabelecia o contato entre a mente humana e a inspiração Divina. Se tivessem pesquisado melhor a Escritura teriam descoberto que os primeiros crentes falaram línguas estranhas, mas que cada um daqueles forasteiros entendiam como sendo o próprio idioma. Então havia relação de causa e efeito, pregar o Evangelho numa língua que os outros entendiam como a sua própria.
Isto já foi dito há mais de 50 anos passados pelo Pastor Inke em Nova Odessa quando ele falou que Seminaristas inspirados pelo Espírito Santo estudavam línguas estrangeiras para trabalho missionário – então foi muito criticado pelos Pentecostalistas.
Mas neste caso também a relação de causa e efeito é a mesma dos primórdios do Cristianismo – falar uma língua estrangeira na qual um povo de fora entendesse a mensagem de Deus.
Já havia participado como voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932 defendendo a legalidade, mas este é um capítulo à parte.
A minha irmã Lídia que morava em Nova Odessa pediu ao João Jankovitz que viajou para Ijuí, que me fosse apanhar em Santa Rosa onde eu então era aprendiz de oleiro, favor que ele cumpriu devotamente e por isto eu estou-lhe eternamente agradecido.
Eis-me agora na Fazenda Velha perto da Estação de Nova Odessa em São Paulo, onde estava localizada uma Colônia Leta, muito progressista material e espiritualmente.
Todas as propriedades eram produtivas e respondiam a diligencia dos Letões que eram agricultores natos e ajudavam incansavelmente a natureza que retribuía este esforço com messes generosas.
Estava com 16 anos. Combinei com o meu patrão Arajs para trabalhar a metade do dia durante período de entre safra como empregado na lavoura mediante a retribuição da pensão completa, mas no período de cultivo me comprometi a trabalhar o dia todo mediante remuneração.
No sótão da Igrejinha Batista da Fazenda Velha havia uma sala que foi adaptada para a escola. De Nova Odessa a bicicleta pedalando 8 quilômetros vinha o Prof. Carlos Liepim, que foi bacharel formado pelo Ginásio Batista do Rio de janeiro, para ministrar as aulas. Com a sua ajuda recuperei todo aquele tempo perdido na penumbra do semi-analfabetismo e ele me ensinou tudo que sei, naturalmente aprimorado depois. Não fez por menos, preparou a mim e outros alunos diretamente para o admissão.
Depois ele foi convidado para ser professor de física e química num ginásio de Campinas, indo diariamente de trem para dar aulas, mas embora estivesse com seu tempo tomado, conseguiu uma vaguinha para orientar os meus estudos na sua residência à noite duas vezes por semana, quando eu pedalava a minha bicicleta para ir e voltar, por um caminho de terra iluminado por uma lanterna de carbureto.
Minha base religiosa Evangélica estava abalada. Mantinha uma rigorosa conduta de crente por que agir de outra forma seria burrice, mas intimamente duvidando daquilo que não fosse palpável, no entanto nunca deixei de ver a presença de Deus em todas aquelas maravilhas que ia descobrindo pelo estudo nos rudimentos da ciência, por que em tudo aquilo eu via a presença de Deus e sentia que ao aprender aquelas teorias de Lavoisier, de Pasteur, aquelas definições Newton a respeito da gravidade ele estava sendo lisonjeado.
Fui aceito como membro da Mocidade Batista que era constituída de jovens sadios, decididos, estudiosos e que me tratavam como se eu fosse igual a eles – embora fossem filhos de famílias abastadas.

CONTINUA

Primeiramente desejo muitas felicidades pela passagem de seu Aniversário. | De Luzija Purim para Reinaldo Purim – 1925 –

Rio Novo 4-1-25
Saudações!

Querido Irmãozinho!!

A tua carta escrita no dia 8 de dezembro e por ela muito obrigada.

Primeiramente desejo muitas felicidades pela passagem do teu aniversário. Se você tivesse mandado alguma lembrancinha no meu aniversário, também eu teria mandado para você, Mas agora deixa como está.

Nós graças a Deus estamos passando suficientemente bem, ontem o tempo foi muito quente. Vieram nuvens e nos costões da serra roncava trovoada. Mas aqui caíram somente algumas gotas. Em outros lugares deu uma boa chuva. Hoje novamente amanheceu quente e logo depois do meio dia começou a ficar nublado e começou roncar trovoada, mas não chegou até aqui. À noite nós fomos a Igreja para um culto de Oração então sim, começou a chover forte.

Semana que vem novamente vamos ter separação e despedidas, pois a Marta Slegmann com o seu irmão Edvard e mais o pastor Stroberg irão para Varpa. O Stroberg, este, vai voltar no próximo mês. Ele está indo para Varpa porque lá ele ainda tem partes da mudança e das suas coisas. Também tem uma gleba de terra. Vai primeiro regularizar tudo para depois voltar. Vai trazer junto uma tia dele que está ainda lá. Também no mês que vem o Strobergs vai para Kuritiba estudar. A igreja aqui recebeu uma carta de Kuritiba, na qual convida para que a Igreja aqui envie um estudante para lá para estudar com a vantagem de obter uma mensalidade reduzida. Como agora o preço e 90 mil réis para ele vão fazer somente 60 m. por mês. Diante desta oferta a igreja resolveu mandar o Stroberg, para que ele possa aprender a língua portuguesa, para possibilitar a pregação também para outras pessoas, porquê os Rio-novenses são suficientemente ricos e todos tem dinheiro para pagar os seus estudos e quando recebem os Graus de “Doutor” [Alguma vaga referência ao Sr. Reynold Purim] eles não querem voltar mais para cá e a Igreja fica novamente sem pastor.

Nós vamos sentir a falta do Stroberg como dirigente da Escola Dominical, pois ele sabia bem dominar as crianças e também a nossa classe vai ficar sem professor, pois até agora era ele quem dirigia, pois a senhora Beker, faz bastante tempo deixou desta função. Também o Gustav Grikis logo vai mudar para as Serras [Urubicí] para morar lá e hoje já declinou do cargo de regente do coro da Igreja. Por ai você pode ver que nós temos os momentos alegres, mas também temos os momentos tristes, mas neste mundo é assim mesmo.

Bem desta vez vou ter que terminar, porquê já é tarde e você sempre manda cartas de somente uma página. Eu me alegro porquê está passando bem e já terminastes o curso na Escola e não está mais amarrado à carteira ou a classe e assim podes respirar mais livremente. Eu sempre oro por você para que com você vá tudo bem. Eu também tenho um forte desejo de aprender mais. Mas onde eu irei conseguir, Estou tentando aprender alguma coisa em brasileiro, bem, mas como eu vou conseguir, pois trabalho na roça o dia inteiro. Em casa tenho que fazer tudo e as forças não são lá tantas assim, para dar conta do recado e ainda achar tempo para estudar alguma coisa.

Ah! Quase ia esquecendo; Hoje recebemos uma carta do Tio Ludwig. Quando aquele senhor Isernhagen esteve de passeio aqui em casa, nós comentamos porque ele não escreve. Então ele levou uma bronca do amigo dele, então rapidamente ele nos escreveu. Ele está muito bem, mas a tia [Helena Rose ] não esta nem doente nem sã, mas falta alguma coisa. Ele mesmo diz que engordou. Ele também convida para que eu vá até lá vai precisar um cavalo muito forte para trazer para cima, [Não está claro, parece que ela pensou que ambos iriam montar o mesmo animal ], pois só ele pesa mais ou menos 100 quilos, eles estão morando naquele mesmo lugar, mas também comprou um pequeno pedaço de terra próximo à cidade por 6 contos e logo está construindo a sua nova casa própria. Então nós todos devemos ir passear na nova casa dele.

Ainda muitas lembranças de todos de casa e que você esteja passando muito bem. Luzija

Primeiramente os nossos votos de um Feliz Ano Novo …| De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1925 –

Ano de 1925

Rodeio do Assucar 3-1-25

Querido Reini! Saudações!

Primeiramente os nossos votos de um Feliz Ano Novo e também muitas felicidades pelo seu aniversário, então pensei que precisava mandar um cartão de felicitações, mas depois refleti e cheguei a conclusão que você sendo um homem tão importante, o que iria fazer com um cartão. Também nos nossos aniversários e dias dos nomes que você nem lembrar, lembra.

A tua carta escrita, melhor datilografada no dia 8 de dezembro recebi na semana anterior as Festas do Natal. Obrigada! Desta vez você foi muito caprichoso e escreveu em seguida. Aqui não dá para responder tão rápido, pois tenho que esperar acumular as notícias para então poder te escrever. Pensava que depois de ter passado todas as Festas teria muita coisa para escrever.

Mas se você se lembrar, foi igual ao Natal do ano passado. A diferença foi que no primeiro dia da Festa [O primeiro dia era sempre o dia 25 de dezembro] depois do meio dia deu um forte temporal de chuva e um pouco de granizo. Mas à tardinha passou e podemos ir para ver o pinheirinho, somente a estrada estava muito mole. [A chuva tornava o barro vermelho mole e pegajoso] Apesar disso tinha muita gente. A festa foi dirigida pelo Strobergs. As crianças [O Natal era uma Festa dirigida pelo pessoal da Escola Dominical e a própria Escola Dominical era considerada uma escola para crianças] apresentaram poesias, hinos e Representações e tudo transcorreu muito bem.

Na Noite do Ano Velho [Noite de Vigília] foi uma noite de apresentações sob responsabilidade dos Jovens e a espera pelo Novo Ano. Já na manhã do Ano Novo houve uma Festa de Missões e esta também foi muito bonita e também tinha muita gente. O tempo estava bom e seco e quente. Muitas poesias, hinos pelo coro e também muitos quartetos e a prédica do Karkle como acontece todo ano. É provável que sobre as Festas a Luzija já tenha escrito mais amiúde, para tanto não vale a pena. No Dia da Estrela [Dia dos Magos – 6 de janeiro] a Escola dominical está organizando um piquenique na casa dos Klavim.

A Selma da Kate [ Selma Klavin ] chegou de viagem[ do Rio de Janeiro ] totalmente abatida e cansada de tanto estudar, nas outras vezes era alegre e extrovertida e agora já não sabe mais ser assim. Eu pensava mesmo que ela fosse a frente em alguma ocasião e pedisse a palavra para contar algo de lá, mas até agora não aconteceu.

Por que vocês não nunca autorizam o João Klava a sair para vir para casa? Eu faz tempo que ouvia dizer que ele viria, mas até agora nada. Ele não pôde vir porquê, porquê ele é o diretor da Escola, ou substituto dele e por isso não pode viajar e ainda no começo de dezembro teve que fazer um curso especial de aperfeiçoamento e assim este ano teve que ficar.

A Sylvia Karklim e o Waldi chegaram de São Paulo de passeio aqui.

No Domingo passado recebi uma pequena carta da Lilija.[Lilija Purens]Eu tinha escrito para ela reclamando por que ela não me escreve e perguntando se eles ficaram orgulhosos morando na nova fazenda então ela respondeu que não tinha recebido as cartas minhas cartas anteriores e nada mais atrapalhou a escrita senão a preguiça e ninguém deles não escreveu para ninguém. Diz que o tempo estava muito seco, mas agora já está chovendo. Também de você eles receberam uma carta e a qual ainda não responderam.

Aqui as chuvas tem sido ainda poucas, Antes das Festas, ai sim chovia, mas desde aqueles dias tem estado muito quente e um vento seco que resseca tudo. Ontem à noite sim, roncou trovoada e formaram-se muitas nuvens, mas logo tudo se desvaneceu. Hoje amanheceu limpo e no meio dia estava marcando 40 graus C. no sol. Pela impressão que as lavouras nos dão são desanimadoras. As roças estão completamente estorricadas e não sei como vai ser com o pão de cada dia. Nós temos a nossa reserva, então com o pão realmente não nos preocupa, mas muitos não tem. Muitos colheram pouco e porquê o preço estava muito bom venderam tudo e agora a fome. Tudo está caro e às vezes nem tem para comprar. Os Letos não tem problema de passar fome, mas os Brasileiros e os Italianos não tem o que comer então andando pelas estradas e roubando. Se alguém tem feijão ou batatas em roças a beira de estradas, elas desaparecem. Trabalhar eles não querem, se não pagarem 3$ por dia e mais a comida, então eles dizem que é melhor morrer de fome, do que fazer os letos ainda mais ricos.

A Arthur diz que se você escrever então ai ele também vai escrever. Ele teria o que escrever a semana inteira. No mês passado foram tantos os acontecimentos que você não poderia imaginar.

Lembranças da Olga.

O relógio está marcando 12 horas, já é meia noite e eu preciso ir dormir.| De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1924

Rio Novo 8-10-24.
Querido irmãozinho! Saudações!
Eu recebia tua carta escrita no dia 11 de setembro e por isso muito obrigada. Gostaria de saber se você recebeu a carta que eu escrevi em 24-9-24.
Nós estamos relativamente bem. Com os trabalhos na lavoura também vão bem porque todos os dias dá para trabalhar na roça, pois a chove de vez em quando, mas não chega a atrapalhar.

Naquela noite que eu escrevi a última carta eu mencionei que tinha soprado um forte vento e é este mesmo vento que trouxe a chuva. O vento voltou no dia seguinte e ai começou a chover mesmo. Na Sexta feira continuou nublado e no Sábado de manhã amanheceu escuro, roncava trovoada forte e ai choveu tanto que correntes de água formaram-se por toda parte e lá na casa dos Leiman [Parte da família morava lá] no Rodeio do Assucar nesta mesma manhã, teve uma forte chuva de granizo, com pedras de gelo do tamanho de um ovo de galinha, tanto que todo chão daquela área ficou branco. Prejuízos não houveram porquê a grande parte das plantações não tinham nascido. Choveu ainda no Domingo e na Segunda feira. Na Terça feira, o tempo, limpou e na Quarta feira ainda deu uma geada nas partes baixas, matando o feijão de muitos produtores.
No dia 6 nós queimamos a nossa coivara. Foi uma muito boa queimada porquê estava nublado e logo que terminamos de queimar começou a chover outra vez, mas desta vez não foi muito e até agora está nublado e é provável que ainda chova mais. Agora estamos plantando, mas não está rendendo muito porque a terra ainda está muito dura e chega no fim do dia e achamos que devíamos ter feito mais. A batata inglesa já plantamos e já esta grande e bonita. As ervilhas já estão florescendo, os pepinos já estão brotando e os repolhos já estão formando cabeças. Então você pode vir para cá para comer tudo isso.
Ainda mais! Na semana que vem será comemorada a Festa da Mocidade e quem sabe você e seus amigos já estão se largando na estrada par vir para este evento. Poderão ver a “Grande Ponte” que os fazendeiros do Rio Novo estão construindo lá na barra do Rio Novo.

Também poderá ajudar na colheita do mel e ainda mais comer muito, do mesmo, porque este ano as colméias estão repletas de mel que as tampas estão tão pesadas que fica difícil para serem tiradas. [Naquele tempo lá eram usadas colméias de somente duas partes, embaixo o ninho e na parte de cima a melgueira, mas sem os quadros de cera alveolada usados hoje e então as próprias abelhas tinham que fazer os seus próprios favos. Os favos da melgueira ficavam fixados pelas próprias abelhas na tampa superior e daí porque eram pesadas. Mas já naquela época se sabia que os favos pretos ou escuros do ninho, na primavera tinham ser removidos, porque com as sucessivas reformas durante o ano os habitáculos iam ficando pequenos, influindo no tamanho das operárias.] Também o sabor está muito especial e a consistência bem espessa.

Na Domingo dia 28 de setembro foi o dia da Revisão das Lições do Trimestre. Isso tomou todo o tempo do culto então por isso neste dia não houve. Os alunos, cada um, tinham discorrer sobre alguma lição e eu tive que falar da lição de Jesus e Nicodemos. Mas depois da nossa explicação o Strobergs ainda fazia alguns comentários, perguntas e conclusões. Também nos intervalos eram cantados hinos. Foi muito bom, é pena que devido o charco da chuva tivesse menos gente. De um modo geral a freqüência está bem melhor que antes. O Stroberg durante os cultos fala muito de avivamento. Fala que na Letônia alguns irmãos das Igrejas renovadas obtiveram a bênção de falar outras línguas, que uma irmã foi curada maravilhosamente pela fé, que um irmão leto passou a falar o hebraico e com isso muitos judeus se converteram e este irmão está servindo de pastor para os judeus, mas qual é o nome dele eu não sei. Ele aplaude muito este trabalho, mas eu pessoalmente não posso concordar, ele ainda afirma que ele é Batista, mas de qualquer modo, ele é diferente de outros Batistas e tem um carisma que os outros não tem.
Bem agora vou ter que terminar. Eu sei que não consigo satisfazer, quando eu escrevo uma carta com duas páginas, você quer duas ou três vezes mais longa e por isso esta será mais curta, porque mesmo, eu não tenho novidades para contar, se bem que o progresso está chegando e a medida de que quando irei obtendo as informações eu irei te escrevendo e não vou deixar você vazio das notícias daqui.
O Robert continua nas Serras construindo atafonas.
Onde ficou “O Crisol?” Por acaso já faliu? Porque não mandas mais? O relógio está marcando 12 horas, portanto já é meia noite e eu preciso ir dormir. Os olhos não sararam direito e ainda aparece uma “neblina” na visão e ainda eu estou com a garganta fechada. Escreva bastante e conte também como estás passando.
Muitas lembranças de todos de casa e também da Lucy.

…eu sei que estou gastando querosene e este está muito caro… De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1924 –

Rio Novo 27 de agosto

Querido irmão! Saudações!!
Hoje à noite eu fui a Igreja onde recebi a tua carta escrita no dia 14 de agosto e por ela muito obrigada. Eu faz tempo que estava aguardando e agora que eu recebi tantas novas notícias, por isso também vou começar a responder e pode ser que amanhã à noite eu termine, pois estou com muita coisa na cabeça para te escrever, apesar de que agora é tarde e eu não esteja atrapalhando ninguém eu sei que estou gastando querosene e este é muito caro e por isso não posso fazer tudo o que quero.

Nós graças ao bom Deus estamos passando bem. Somente está muito frio e seco. Na semana passada estava um pouco mais quente e ficou nublado, pensei que era a chuva que estivesse chegando, mas caíram algumas gotas esparsas e agora está novamente tudo seco e todas as manhãs amanhece branco de geada, apesar de estarmos no final de agosto ainda não esquentou nada. Agora na roça já começamos a plantar milho e já plantamos mais de uma quarta [de alqueire] de semente, também já plantamos mandioca e tudo está capinado, a terra limpa pronta para se plantada só aguardando a chuva. O açúcar também já fizemos e este ano deu muito pouco porque as canas este ano não cresceram e ainda estas mesmas os bichos comeram demais. [Cachorros do mato e graxains é que comiam a cana de açúcar]

Você pergunta como as coisas vão de um modo geral. A revolução ainda não chegou ainda aqui e quem sabe nem seja necessária a revolução chegar aqui porque no dia 29 de agosto às 8 horas da noite foi morto com um tiro o homem da Justiça, [Delegado da Polícia] Jonvili Nunes, [Jovelino ou Juvenil Nunes.] O famoso delegado era irmão do Evaristo. [Intendente ou prefeito nomeado pelo Interventor ou governador do Estado] Este homem que morreu era uma pessoa terrível, quando encontrava uma pessoa que não era do seu gosto, ele colocava na cadeia e fazia com eles o que queria, Uma vez na casa dele foi colocada uma bomba, não muito tempo atrás na Brusque, lá perto da atafona do Rudolfo Maisim [Na parte mais baixa do Morro da Coxia Seca (Coxilia Seca) A atafona do Maisin era movida por uma roda d’água, aproveitando o desnível de uma queda d’água do Rio Molha. A estrada da Brusque passava por dentro d’água, na parte cima da cascata e a água corria por cima de lajes de pedra. Eu quando era pequeno tinha medo que o carro de bois, pudesse despencar abismo abaixo.] Ele foi emboscado e levou um tiro, mas daquele ele sarou. A mulher dele até na última manhã tinha dito que seria mais prudente eles irem embora daí. Ele teria respondido dizendo quem vai poder fazer alguma coisa para mim. E a noite na frente da venda do Luiz Verane Cascaes, bem na porta, no meio de muitas pessoas foi atingido por um tiro e ninguém sabe quem foi quem atirou. [Existem diversos autores da história de Orleans que mencionam as prováveis pessoas que teriam praticado o crime.]

Então agora diversas pessoas daqui do Rio Novo foram embora para São Paulo. No Domingo dia 17, foi à noite da despedida, mas na realidade eles saíram no dia 21 deixando o Rio Novo e as pessoas ainda dizem não saber se eles conseguirão chegar lá porque até agora não tem chegado notícia nenhuma de lá. Outras pessoas diziam que a revolução tinha terminado e o caminho estava livre. Outras recomendavam a eles para não saírem nestas condições. Até o Cascaes não queria liberar o Salvo Conduto. Quando eles chegaram em Laguna todo mundo ficou admirado que como esta gente vai viajar para São Paulo, num período tão convulsionado. A viagem deles está mais complicada porque eles estão levando toda a mudança junto. São mobílias, louças, roupas enfim tudo que era móvel foi levado junto. Dizem que gastaram 4 dúzias de tábuas para fazer as embalagens, isso porque segundo eles, existe a promessa do Governo de São Paulo reembolsar todas despesas das passagens e das bagagens. Vamos ver se isso realmente vai acontecer. Existem pessoas que dizem que Nova Odessa está cheia dos ex-acampados de Varpa e segundo o “Der Compass”, os revolucionários já chegaram em Campinas e daí já estão perto de lá. Não sei como está o povo de Nova Odessa porque nem os nossos parentes de lá não tem escrito.

Você quer saber como foi a nossa Festa das Crianças, o tempo aquele dia estava chuvoso e frio. Gente não tinha muito devido às condições do tempo. A Festa começou logo depois da Escola Dominical e foram apresentadas poesias, hinos e tudo transcorreram muito bem, só faltou o sermão, O Stroberg falou novamente sobre os tijolos, mas isto nada me comoveu e nem lembro direito o que ele falou.
A Festa da Colheita [Ação de Graças] o tempo estava bom, somente muito frio mesmo, pela manhã tinha dado uma grande geada. O programa estava rico e variado com hinos, poesias, o coro da Igreja cantou e houve diversos quartetos. E sermões e prédicas eu não consegui contar quantas pessoas falaram. Só sei que o grande Karkles falou duas vezes, pode ser que ele tenha falado porque ele é grande e assim é mais que os outros. Depois o café com leite e o famoso pão doce e quando terminou já eram 11 horas.

A Escola Dominical está indo, muito bem. Quem dirige é o Stroberg. A direção dele é melhor que a do Zeeberg. Eu também vou as sextas feiras na Reunião da preparação dos professores e lá tem muito que aprender. Aqueles professores que sabem melhor o brasileiro traduzem as lições das Revistas e depois estudam os melhores meios de apresentar a lição às crianças e o que deverá ser apresentado aos maiores. Finamente o Stroberg faz um resumo apresentando as suas idéias e sobre isso eu teria muito o que escrever, mas deixa isto para outra vez.

O Victor Staviarski ainda continua na Escola? Ele ainda mora lá? Na semana passada encontrei a mãe dele e ela perguntou se você não tinha escrito alguma coisa sobre ele o Victor, porquê eles nenhuma notícia tem recebido dele e não sabem se ele concluiu o curso ou não e se ele está no Rio ou já viajou.

Quando o Victor fez a festa do noivado, você foi convidado para participar desta honra? Dizem que ele está noivo com a filha mais velha do Soren [Francisco Fulgencio Sorem – Por longos anos Pastor da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro e mais – Na realidade este moço casou com uma jovem do Sudoeste do Paraná.].

A Kate que fica contando isso por aqui e se é verdade não sei e ainda nem tudo que a Kate conta tem procedência

Você nos tem mandado o “Kristiga Balss”. [“A Voz do Cristão”] Não precisa mais mandar porquê quando por ocasião quando fiz uma encomenda de livros lá de Riga, eu encomendei esta também e as revistas tem chegado regularmente.
Agradeço pelo papel azul ele vai nos servir muito. [papel carbono] Podes mandar mais algum.
A União de Mocidade resolveu em sessão que este ano também vai comemorar o seu aniversário no dia 16 de Outubro, então com bastante tempo de antecedência estou convidando para prestigiar a nossa Festa.

Bem agora chega de escrever, os demais aqui de casa não querem escrever, eles ficaram com muita preguiça, que não é possível dizer para ela escrever e a Olga ainda não respondeu a tua carta.

Se eu tiver tempo eu logo vou escrever novamente.
Bem hoje chega. Ainda muito amáveis lembranças de todos os de casa e também minhas. Lucy.
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Nós graças a Deus estamos passando bem . | De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1924 –

Rio Novo 3 de julho
Querido irmãozinho! Saudações!!
Recebi a tua carta escrita no dia 5 de junho e por ela muito obrigado. Nós graças a Deus estamos bastante bem. Então eu vou escrever outra vez porquê não quero ficar devendo nada se bem que a Olga já escreveu sobre todas as coisas daqui e ainda me incriminou dizendo que eu teria dito para que ela não escreva e que tenha já escrito tudo. Isso não é bem assim, eu sempre falo para ela escrever e ela sempre respondia que ela sempre tinha escrito bastante e era a minha vez de escrever.
Você quer saber como vai a Escola Dominical. A Escola Dominical vai bastante bem. São novos alunos matriculando-se, mas ainda continua aquela grande classe. No Domingo passado o Zeeberg pediu demissão da superintendência da Escola porque não se sente capaz de dirigir uma escola tão grande por motivo de sua saúde estar precária e com o Stroberg está aqui então que ele fique no lugar dele. A Igreja ainda não aceitou este pedido de demissão e vamos ver para frente se ele vai ficar ou não.
Como você está passando lá? O Karlis Leiman também foi para a Chautauqua? Tinha muitos letos de Nova Odessa participando? Aqui falaram que muitos letos de Nova Odessa iriam ao Rio.
Se tivesse sabido que você iria me buscar de auto, se eu tivesse ido para a sua Festa do Coro. Ai é claro que eu iria. Por que você não me disse antes? Agora toda vez que mandar algum convite mande-o com antecedência suficiente para dar tempo de eu chegar lá e você vir ao meu encontro para me buscar de auto.
Bem desta vez chega de escrever. Se escrever tudo o que eu vou, escrever outra vez? Também você não vai ter tempo para ler tudo isso.
Ainda lembranças de todos de casa e pode ser que na outra vez se eu der um aperto o Arturs também escreve uma carta para você.
Fico aguardando uma longa carta, resposta sua. Luzija.

Quanto a nós estamos mais ou menos bem, graças a Deus…| De Jehkabs Klava para Reynaldo Purim – 1924 –

Mãe Luzia, 1924 de 21 de abril

Querido Irmão em Cristo Reinaldo Purim
A Paz de Deus como Saudação!
Já faz algum tempo que recebi a sua carta pela qual de coração expresso um grande muito obrigado. Queria responder logo, mas fiquei esperando da possibilidade do Pastor Karlis Kraul vir até aqui e ai teria muito mais assuntos para escrever, mas ele não veio. Penso que as novidades de Rio Novo já te foram escritas.

Agora com nós está o Irmão Leimainis [Karlis] e durante uma semana passamos momentos muito alegres. Ele dirigiu 7 cultos na Igreja. Agora mesmo ele está saindo de viagem para Criciúma aonde vai pernoitar para amanhã viajar para Pedras Grandes, daí para o Rio Novo e em seguida para as Serras. Também informou que agora não virá ainda para trabalhar em Sta. Catarina.
Tivemos que nos conformar com a promessa que virá somente quando o Missionário Schmidt mudar para Florianópolis. E se o Schmidt não vier? Vamos ficar sem ninguém? O desejo de todos aqui é que venhas para Sta. Catarina ajudar a puxar a rede do Evangelismo. Aqui na região teria trabalho para 4 ou 5 pessoas. Também penso que seria o desejo da Igreja aqui. Aqui a Igreja está mais ou menos bem.[Vidus mehra. Literalmente no meio da medida].
Os trabalhos da Igreja são realizados aos domingos. Pela manhã a Escola Dominical e a tarde o Culto. Nas quartas feiras a noite o Culto de Oração, mas nem todos colaboram e acham demais, mas isso parece que acontece em todo lugar.
Quanto a nós estamos mais ou menos bem, [Pus lihdz = Meio termo] graças a Deus todos com saúde e no dia 3 fomos agraciados com mais um filho.
No demais tudo transcorre no seu caminho.
Entrego você a Deus e a sua Misericórdia.
Com amáveis saudações minhas e dos meus.
Do seu irmão na fé J. Klava.