DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN – 4ª PARTE

DR. REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin
4ª Parte

Sua rotina semanal:
Aos sábados: Bangu, onde, tomava as providências, fazer visitas, reuniões, programa especial à noite. Domingo o dia inteiro, Escola Bíblica Dominical, culto, almoço em casa de alguma família escalada, mais visitas, trabalho evangelístico ao ar-livre, culto a seguir. Tudo terminado tomava o trem e vinha para a cidade para as suas lides da semana. Quarta-feira à tarde, novamente Bangu e assim sucessivamente. Só quem conheceu os trens e os bondes daquela época pode calcular o sacrifício que era.

Um ano ele enviou para nós, pelo correio, um pacote com livros, em sua maioria de Monteiro Lobato: História das Invenções, Aritmética da Emília, Emília no País da Gramática, Serões de Dona Benta e outros. Foi uma alegria e também oportunidade, uma vez que gostávamos muito de ler, pois lá no sítio poucos recursos tínhamos para obter livros.

Certa vez, no dia seguinte à sua chegada em Rio Novo, após o café da manhã, ele foi logo dizendo: “calça velha, calça velha e um chapéu de palha”. Seria uma calça remendada de meu pai que era mais baixo que ele. Ficou uma “figura”. Queria logo ir com a gente para a roça capinar ajudando na lavoura. Como o sol era muito quente ele ficava com os braços queimados. Lembro-me de que ele próprio tirava a pele dos braços em longas tiras secas. Tudo isso era contra a nossa vontade, pois viera para descansar. Mas ele não era de ficar parado. Isto também era, para ele, uma boa higiene mental. Aos domingos ele pregava e também em algumas noites, à luz dos lampiões, no templo da Igreja Batista local em Rio Novo.

Lembro-me de que ele, com a mania de professor, sempre andava com lápis vermelho no bolso para corrigir as provas. Assim é que pediu logo os nossos cadernos da escola primária. Foi logo achando o que corrigir e reclamar da professora que não corrigia direito os seus alunos.

Houve um ano em que ao chegar em casa e abrir a mala nós, os meninos, vimos que ele trouxera um exemplar cinza-azulado de “Admissão ao Ginásio”. Supúnhamos que ele tinha intenções de levar algum dos sobrinhos para internar em um colégio no Rio ou em algum outro lugar. Passados alguns dias ele começou a nos dar aulas das matérias ali contidas: Português, Matemática, História, Geografia. Mas como ninguém cobrou nada dele, ficou por isso mesmo. Assim como veio, deixou o livro e voltou para as suas lides no Rio de Janeiro.

Nas suas férias gostava muito de apreciar a natureza. Ficava impressionado com o verde exuberante do sítio.
Mas reclamava de que meu pai e a família precisavam se organizar e viver dentro de um orçamento fixo. Não adiantava argumentar que as colheitas eram muito incertas e que os imprevistos eram constantes. Como solteirão e não tendo filhos, ele podia viver desta forma; mas para uma família na roça, dependendo da lavoura, isto era impossível. Mas quem para convencê-lo?

Também não queria que derrubássemos as matas virgens, pois, havia uma área muito boa, um chapadão com mata nativa e que poderíamos cultivar uma excelente área para boas plantações e colheitas. Entretanto, tínhamos que fazê-las em encostas e já muito gastas pelos anos anteriores e erosões. Às vezes as chuvas eram muito fortes e lá ia tudo água abaixo.

De longe, ele exercia forte influência sobre a nossa família que o respeitava e considerava. Entretanto, o tempo passou e tudo lá ficou.

No Rio de Janeiro

A minha primeira experiência com o tio Reynaldo no Rio de Janeiro foi já no ano 1958, quando já estava estudando em Curitiba. Eu era o coordenador da Organização Embaixadores do Rei no Paraná. Então fui convidado, com tudo pago, para participar de um Congresso Nacional no Sítio do Sossego em Rio Dourado, Estado do Rio. Como o trem da Leopoldina iria partir numa segunda-feira, viajei de avião pela primeira vez, chegando ao Rio no sábado, já bem de noite e fui logo procurar o Colégio Batista na Tijuca onde a meninada estaria se encontrando. Assim foi. No dia seguinte, procurei ir a Bangu. Tomei todas as informações e depois de muitas voltas cheguei à estação de Bangu. Procurei pela Rua Silva Cardoso e me informaram que era a próxima abaixo. Queria o número 279. Fui caminhando e encontrei uma casa velha e adaptada bem simples. As classes da Escola Dominical já estavam voltando para o culto. Era gente que não acabava mais. Assentei-me bem atrás e uma senhora logo veio falar comigo, perguntando se era crente. Respondi que era sobrinho do pastor, mas que era surpresa e não queria que ele soubesse. Assim foi. Logo pude ver o Tio lá na frente. Terno azul-marinho. Ao se por de pé, no púlpito, lançou seu olhar de quase 180º, e o silêncio total. Como que abraçando o púlpito que era próprio para a altura dele, colocou o seu dedo indicador da mão direita em riste, todos ficaram em pé. Anunciou o primeiro hino, e assim o culto transcorreu. Mensagem simples, de ótimo conteúdo bíblico. Era impressionante como ele prendia a atenção de todos até o fim da mesma. Todos prestavam atenção. Não queriam perder o pensamento até o fim. Quando o culto acabou, fui me encontrar com ele que foi dizendo “mas você por aqui?” Logo falou com a família que iria dar o almoço para ele e pediu que “colocasse mais água no feijão…” Pude notar o quanto era querido e considerado por todos.

Naqueles tempos ele já morava no bairro do Rio Comprido, à Rua Sampaio Viana, 46, propriedade do Maestro Arthur Lakschevitz. Ele morava em cima de uma garagem onde funcionava a gráfica desse irmão. Nela eram confeccionados os Coros Sacros, a Revista Teológica do Seminário do Sul e impressos para as igrejas. Lá em cima eram dois cômodos. O da frente, o maior, era a biblioteca, cadeira, escrivaninha e de tudo o mais. Na parte de trás era a cama e outras coisas do seu dia a dia. Como ele sabia que iria chegar, estava me esperando na calçada. Assim me fez entrar. Subimos pela escada que ficava nos fundos. Foi logo me mostrando a sua famosa tese de doutorado em filosofia. Estava embrulhada em vários papéis, inclusive um contra incêndio e outro contra umidade. Lembro-me que, talvez pela emoção, acabou quebrando o vidro ao fechar o armário.

Depois, em junho/julho do ano 1960, foi quando aconteceu o X Congresso da Aliança Batista Mundial. Fui o responsável pelo grupo que foi de ônibus de Curitiba. Ficamos alojados no Edifício Love no Colégio Batista. Logo nos encontramos e gostava muito de que estivéssemos juntos. Como ele sempre gostou de aproveitar bem de tudo, não participou como dirigente de nenhum grupo ou como intérprete que bem poderia ter sido. Gostava sempre de procurar um lugar próximo a uma caixa de som para não perder nada do que acontecia no Maracanãzinho. A gente ia almoçar no bandejão do SAPS da Praça da Bandeira que hoje já não existe mais.

O Congresso foi indescritível. Tive muitas oportunidades maravilhosas, especialmente no encerramento na tarde do dia 03 de julho, com o Maracanã cheio, o grande coral, Billy Graham pregando e milhares de pessoas manifestando-se ao lado de Cristo.

Continua…

Agradeço a Gramática Inglesa que você me mandou.| De Luzija Purim para Reinaldo Purim – 1925 –

(Outra carta sem indicação do ano)
Rio Novo 19 de junho

Querido irmãozinho! Saudações!

Eu recebi a tua carta escrita em 16 de maio já há bastante tempo e por ela muito obrigada. Eu já poderia ter escrito a resposta antes, mas agora não mais estamos indo toda semana para Orleans, porquê a manteiga não é bastante para vender e dai a gente também não vai ao correio toda semana, você não vai tomar por mal eu ter feito esperar então agora vem à compensação porquê terei mais notícias para relatar e provavelmente a Olga também escreva e assim você terá bastantes coisas para ler.

Agradeço pela Gramática Inglesa que você me mandou. Recebi no dia que eu mandei a carta escrita no dia 23. Você já a recebeu? Você me pergunta como eu estou indo com os estudos. Eu realmente para estas coisas não tenho tido oportunidade de chegar perto, pois durante o dia inteiro trabalho na roça e a noite ou eu fio a lã ou teço meias. Este ano as meias estão bem valorizadas, pois os negociantes em Orleans estão pagando 4$000 o par e outros lugares estão ainda mais caras.

Recebemos os medicamentos que você enviou através do Vitor [Vitor Stawiarsky] e por elas muito obrigado. Este portador não tivemos chance de encontrá-lo, pois ele foi embora muito rápido. Quando fomos procurar, ele já tinha ido embora. Estes remédios ainda não foram utilizados e por isso pedimos que por agora não mande mais porque a Olga está agora se tratando com remédios indicados pelo Stawiarsky [Etienne Stawiarsky ] e por não poder misturar tudo pedimos que não fique gastando o seu dinheiro com remédios e para as suas próprias despesas poderá ficar sem dinheiro nenhum.
O tempo agora está chuvoso e toda semana ficou nublado e esta noite está chovendo forte. Agora os atafoneiros que moem o milho para fazer fubá não podem reclamar de falta d’água para movimentar as atafonas e também a nossa calha [Uma calha escavada com enxó goiva em troncos de palmito Jussara, sustentado por forquilhas, trazia água de uma nascente para próximo da casa] começou a correr maior quantidade, pois até a pouco mal pingava. Geadas tem havido em algumas manhãs, mas aqui elas não queimaram nada.

A festa do piquenique [Não pudemos inferir a que feriado se refere este piquenique] caiu em um dia chuvoso, tinha pouca gente. A tia Maisin antes da Festa esteve em Mãe Luzia e na volta trouxe consigo o Arthur Abolin sobre o qual já escrevi algo na outra carta. Ele ainda está por aqui. Ele tem a fisionomia semelhante ao Alex Klavin, muito parecido mesmo. Agora ele está hospedado na casa do Willis Slengmamm . Ele tem dirigido diversos cultos na igreja, muitas pessoas estão muito interessadas e acham que ele não deve ir embora antes da volta do Stroberg e outras pessoas já acham que não vale a pena ficar ouvindo. As suas prédicas são longas e se o relógio não bater as 12 horas, ele não saberia a hora de terminar. Os sermões não tem um título ou texto base. Um é igual ao outro. A chamada é sempre a mesma é que nós os escolhidos temos que orar mais em busca da plenitude do Espírito Santo, nós temos que estar vigilantes etc. Somente não prega o arrependimento ou conversão dos pecadores, as mensagens são sempre as mesmas: que o tempo da misericórdia está chegando ao fim e que os escolhidos devem se aprontar para a chegada de Cristo. Você escreve que soube que os pentecostais estão fazendo propaganda, eu pelo menos sobre línguas estranhas não tenho ouvido, pois é possível que eles têm estas manifestações em suas próprias casas porquê na igreja eu nunca vi.

Na 1a. Festa do Verão [Ascensão do Senhor cai no verão no hemisfério norte] dia estava muito chuvoso, mas na 2a. da Festa [Oitavas da Ascensão do Senhor] o tempo estava esplêndido e ouve um longo programa quase toda constituída de hinos e músicas. O dirigente foi o Abolin. O programa começou às 10,30 horas e terminou às 3 horas da tarde. Gente tinha bastante e também tinha vindo bastantes brasileiros de Orleans, mas para estes não foi lido nenhum texto nem cantado nenhum hino, como eles chegaram assim eles foram, viu como é, em outros lugares aqui ninguém vai pregar, e aqui eles vieram, mas nem assim, mesmo as pessoas que poderiam fazer algo nada fizeram e ninguém quer nada com nada.

Na semana passada recebemos uma carta do Andrejs, ele escreve que mandou uns papéis e desenhos para sua construção. Você os recebeu? O Jahnites agora está em Riga trabalhando com um sapateiro e aguardando oportunidade para entrar num Seminário. Eles próprios dinheiro não tem, mas esperam alguma vaga livre ou bolsa de estudos com o Freij [Líder Batista da Letônia] ou com o Fetler [Outro líder batista da Letônia], mas como nós aqui acompanhamos tudo o que acontece lá pelo “Kristiga Draugs” [O Amigo do Cristão – Publicação religiosa da Letônia] percebemos que o Fetler não tem escola nenhuma. Ele anda viajando e coletando dinheiro e planejando abertura de um Seminário ou uma Escola Superior. Os nossos parentes sempre tiveram o Fetler em alta conta e ainda hoje acreditam piamente no que ele diz.

Os remédios para “mal da terra” [Ancilostomíase] ainda não recebemos, mas é possível que estejam no correio em Orleans.

Bem por hoje chega de escrever e é possível que você não tenha tempo de ler e se esta carta chegar enquanto você tiver ido a “Chautaqua” [Acampamento Anual Batista] então ai mesmo que você vai demorar mesmo a ler esta carta devido ao seu muito trabalho.

O genro do Farmacêutico é o Jorge Moures e ele próprio quer te escrever.

As tuas lembranças foram entregues a todos. A senhora Klavim está quase totalmente recuperada. Escreva bastante para mim dizendo como estás passando.

Muitas lembranças de todos de casa e eu disse no começo que os demais iriam escrever também, mas todos ficaram com preguiça e nenhum quer mais escrever.

Assim fico aguardando longa carta de resposta.
Luzija

Primeiramente desejo muitas felicidades pela passagem de seu Aniversário. | De Luzija Purim para Reinaldo Purim – 1925 –

Rio Novo 4-1-25
Saudações!

Querido Irmãozinho!!

A tua carta escrita no dia 8 de dezembro e por ela muito obrigada.

Primeiramente desejo muitas felicidades pela passagem do teu aniversário. Se você tivesse mandado alguma lembrancinha no meu aniversário, também eu teria mandado para você, Mas agora deixa como está.

Nós graças a Deus estamos passando suficientemente bem, ontem o tempo foi muito quente. Vieram nuvens e nos costões da serra roncava trovoada. Mas aqui caíram somente algumas gotas. Em outros lugares deu uma boa chuva. Hoje novamente amanheceu quente e logo depois do meio dia começou a ficar nublado e começou roncar trovoada, mas não chegou até aqui. À noite nós fomos a Igreja para um culto de Oração então sim, começou a chover forte.

Semana que vem novamente vamos ter separação e despedidas, pois a Marta Slegmann com o seu irmão Edvard e mais o pastor Stroberg irão para Varpa. O Stroberg, este, vai voltar no próximo mês. Ele está indo para Varpa porque lá ele ainda tem partes da mudança e das suas coisas. Também tem uma gleba de terra. Vai primeiro regularizar tudo para depois voltar. Vai trazer junto uma tia dele que está ainda lá. Também no mês que vem o Strobergs vai para Kuritiba estudar. A igreja aqui recebeu uma carta de Kuritiba, na qual convida para que a Igreja aqui envie um estudante para lá para estudar com a vantagem de obter uma mensalidade reduzida. Como agora o preço e 90 mil réis para ele vão fazer somente 60 m. por mês. Diante desta oferta a igreja resolveu mandar o Stroberg, para que ele possa aprender a língua portuguesa, para possibilitar a pregação também para outras pessoas, porquê os Rio-novenses são suficientemente ricos e todos tem dinheiro para pagar os seus estudos e quando recebem os Graus de “Doutor” [Alguma vaga referência ao Sr. Reynold Purim] eles não querem voltar mais para cá e a Igreja fica novamente sem pastor.

Nós vamos sentir a falta do Stroberg como dirigente da Escola Dominical, pois ele sabia bem dominar as crianças e também a nossa classe vai ficar sem professor, pois até agora era ele quem dirigia, pois a senhora Beker, faz bastante tempo deixou desta função. Também o Gustav Grikis logo vai mudar para as Serras [Urubicí] para morar lá e hoje já declinou do cargo de regente do coro da Igreja. Por ai você pode ver que nós temos os momentos alegres, mas também temos os momentos tristes, mas neste mundo é assim mesmo.

Bem desta vez vou ter que terminar, porquê já é tarde e você sempre manda cartas de somente uma página. Eu me alegro porquê está passando bem e já terminastes o curso na Escola e não está mais amarrado à carteira ou a classe e assim podes respirar mais livremente. Eu sempre oro por você para que com você vá tudo bem. Eu também tenho um forte desejo de aprender mais. Mas onde eu irei conseguir, Estou tentando aprender alguma coisa em brasileiro, bem, mas como eu vou conseguir, pois trabalho na roça o dia inteiro. Em casa tenho que fazer tudo e as forças não são lá tantas assim, para dar conta do recado e ainda achar tempo para estudar alguma coisa.

Ah! Quase ia esquecendo; Hoje recebemos uma carta do Tio Ludwig. Quando aquele senhor Isernhagen esteve de passeio aqui em casa, nós comentamos porque ele não escreve. Então ele levou uma bronca do amigo dele, então rapidamente ele nos escreveu. Ele está muito bem, mas a tia [Helena Rose ] não esta nem doente nem sã, mas falta alguma coisa. Ele mesmo diz que engordou. Ele também convida para que eu vá até lá vai precisar um cavalo muito forte para trazer para cima, [Não está claro, parece que ela pensou que ambos iriam montar o mesmo animal ], pois só ele pesa mais ou menos 100 quilos, eles estão morando naquele mesmo lugar, mas também comprou um pequeno pedaço de terra próximo à cidade por 6 contos e logo está construindo a sua nova casa própria. Então nós todos devemos ir passear na nova casa dele.

Ainda muitas lembranças de todos de casa e que você esteja passando muito bem. Luzija