…soldados para as entradas da cidade com ordens para proteger a cidade, mas não atirar primeiro| De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Assucar 2 de março de 1923

Querido Reini! Saudações!

A tua carta escrita no dia 7 de fevereiro eu recebi hoje a noite, os demais de casa já a tinham recebido ante ontem [Pelo motivo de haver dois domicílios] e eu hoje mesmo vou começar a resposta.

Você reclama que não recebe cartas de casa e estas demoram, mas eu escrevi duas longas cartas que você recebeu e se elas tivessem sido extraviadas ai então haverá um grande prejuízo.

Você diz que as últimas notícias são referentes ao mês de novembro. Pois naquela ocasião, todos nós escrevemos convidando para você vir passar as férias em casa e assim ficamos esperando terminar as aulas e você vir para embora.

Quando as aulas terminassem você não, estaria mais lá, então prá que escrever para lá. Continuamos esperando quem sabe, ele tenha ou queira passar as Festas lá. Na véspera de Natal a Luzija foi até Orleans pronta para trazê-lo como grande e importante cidadão, mas nada, então você ainda esperava que em pleno Natal estivéssemos escrevendo cartas, quando tínhamos certeza que você estaria aqui.

Nesta época chovia muito e devido ao muito trabalho, quando chegava a noite, vinha um sono tão profundo que não era possível agüentar. Então no dia 19 de janeiro mandei uma longa carta e quando levamos ao correio naquele mesmo dia recebemos aquela sua carta escrita no dia 26 de dezembro e respondendo a esta no dia 9 de fevereiro mandei outra longa carta e ainda naquele mesmo dia a Luzija mandou um cartão postal a não ser que estas cartas não tenham saído de Orleans.
Os cartões que você diz ter mandado aqui não apareceram. Por ai você pode ver que não faz tanto tempo que nós não escrevemos, mas sim outras coisas estão erradas como o Correio.

Agora sim há alguma coisa de novo para escrever apesar de nós aqui estarmos em tempo de guerra por aqui e não sei se vai passar pela censura.

Aqui há semanas atrás, houve guerra e ameaças de luta e ainda não sei o que mais vai acontecer. O povo não está satisfeito nem em paz com o Governo por causa dos altos impostos e então se organizaram partidos dos italianos, poloneses, brasileiros, todos de todos os lados se dirigiram a Orleans à noite e fizeram uma grande reunião na frente da casa do Intendente onde falaram e reclamaram.

Isto foi num Sábado e como até Segunda feira nada tinha mudado foi programada uma invasão sobre a cidade de Orleans [Guerra da Palmatória] para Terça feira e ai os letos também foram. Mas como em tudo, haviam traidores e chegado antes e contado que os colonos marchariam sobre a cidade a policia mandou pelotões de soldados para as entradas da cidade com ordens expressas de proteger a cidade, mas de não atirar primeiro. A grande maioria fugiu e outros entraram em luta corporal com os soldados e foram presos. Tudo o que aconteceu eu não sei claramente, mas nas próximas cartas eu prometo esclarecer mais e ainda vamos ver como isto vai terminar.

O tempo, esta bastante chuvoso, mas não tanto como antigamente. Tempestades e tormentas com vento também vêm ocorrendo com freqüência, mas para nós não causaram nenhum prejuízo e daqui para a frente a gente não sabe, pois ainda tem muito milho ainda pendoando. [As ventanias derrubavam quebrando as hastes do milho causando prejuízos às lavouras.] Melancias este ano não deram, para não dizer que não deu nada deu uma só. Pepinos também deram menos que os outros anos.

Agora mesmo recebemos uma carta do Andreys [tio] da Letônia. No ano passado quando recebemos outras cartas dele eu e o Pappa escrevemos longas cartas e o Jekabs ainda estava lá, mas, quando ele recebeu o Jekabs e a família já tinham viajado para o Brasil. Ele em seguida tornou a escrever para o Jehkabs que já estava chegando no Brasil avisando que não fosse para o deserto, pois nós o estávamos esperando e qual eram os planos e o que nós fazíamos aqui.. O Andreys não veio porque não tinha dinheiro e também porque estava doente e por uma parte foi bom porque ele não concorda com infelizes espiritualistas que estão fugindo para o deserto. Ele tinha recomendado ao irmão Jehkab que não ficasse em São Paulo e sim viesse para cá, mas parece que ele não quis assim. A carta já ficou muito longa e eu não tenho mais tempo para escrever tudo. Outra vez eu escrevo mais. Lembranças de todos e também da Olga.
Escrito na lateral: Não admire que as cartas não cheguem, pois agora o agente do correio é um leto que pode censurar tudo. –

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