Já faz bastante tempo que não tenho recebido nenhuma carta…| De Reynaldo Purim para Lucia Purim – 1926 –

[ Trecho de um rascunho de carta datilografada do Tio Reynaldo para a tia Lúcia]

Rio de Janeiro, 16 de abril de 1926
Saudações.
Já faz bastante tempo que não tenho recebido nenhuma carta de casa. Espero todos os dias e não posso entender porque isso está acontecendo. A última carta sua foi escrita no dia 3 de fevereiro e eu recebi no dia 25 do mesmo mês e dai em diante está sendo uma espera sem fim. De boa vontade gostaria de saber o motivo desta longa interrupção. Não sei se as cartas que eu mando ou as que vocês mandam também não chegam.

Hoje está chovendo, portanto não posso sair, então por isso estou escrevendo esta mesmo sem ter recebido nada. Vocês receberam os remédios que eu enviei no dia 5 de março? Se não me escrevam para que eu possa procurar no Correio, pois, eu estou com o recibo em mãos. No dia 15 de março escrevi e mandei uma carta e no dia 25 um grande pacote de jornais. Vocês receberam? Os jornais foram registrados e se não receberam, vou perguntar o motivo no Correio.

Como estão todos em casa? Todos estão com saúde? Como vão os trabalhos na lavoura? O que este ano estão plantando? Como está o tempo por lá? Aqui tem sido quente e seco e nem parece o mês de abril. Ontem a noite começou a chover e ainda hoje está chovendo o dia inteiro. De modo geral não há nada de novo para ser escrito. A escola está novamente cheia de alunos grandes e pequenos. A grande maioria eu não os conheço. Também não tenho tempo para isso. Cada um vai para o seu lado e ninguém tem tempo para se interessar por outras pessoas.

A minha Igreja aqui vai relativamente bem. Recentemente tivemos reuniões evangelísticas, as quais foram dirigidas pelo ex padre Hyppolito de Olliveira Campos. Tinha muita gente. O Hippolito é uma pessoa de certa idade, mais de 70 anos ou talvez beirando os 80, mas ainda é um grande orador. Ele não poupa os católicos e suas atividades e para ele é muito fácil, pois durante 26 anos ele foi sacerdote católico. O povo gostou muito em ouvi-lo. Uma grande parte deste prometeu deixar o catolicismo e se converter. Agora estes são visitados e muitos assistem os trabalhos regularmente os trabalhos da Igreja. O trabalho é muito em visitar todos estes. Quase todos os dias eu tenho ido fazer estas visitas. Este é o meu trabalho e minha vida. Ainda dirigir os cultos aos domingo e as noites nos dias de semana, então o tempo passa sem a gente perceber.

Quanto a mim tudo está suficientemente bem. Estou com saúde ainda que às vezes muito cansado. Isto até é natural enfrentado tanto trabalho. Por isso eu não reclamo, pois tudo isso eu faço com alegria. Tenho oportunidade de encontrar as mais diversas pessoas, católicos, espíritas e até sabatistas. Ainda os chamados Estudantes da Bíblia ou Russelitas, cada um com os seus erros e um mais vil [No sentido de distorcer os ensinamentos da Bíblia ] que o outro, então você deve entender como é difícil, com cada qual se relacionar. [falta o final]

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN -3ª PARTE

Dr. Reynaldo Purim
Dados Biográficos
3ª Parte

REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin
3ª Parte
As minhas primeiras lembranças do Tio Reynaldo em casa são de quando ainda era muito pequeno. Talvez uns três ou quatro anos.
A biblioteca dele era bem grande e constituída das maiores e melhores obras em teologia, filosofia, comentários e dicionários bíblicos. Grande quantidade delas foi trazida dos Estados Unidos. Mesmo assim não se cansava em comprar livros e estar em dia com o mais atualizado do pensamento humano.
Gostava de freqüentar as feiras de livros na Praça Sans Peña e na Cinelândia. Sempre me convidava para irmos juntos. Orientava-me que ao comprar um livro devia olhar logo quem era o autor, o que fazia e o que faz na área.
* * * * * * * *
Era extremamente responsável em seus compromissos. Tudo era anotado em sua agenda. Não faltava às suas aulas. Podia cair a maior chuva, às 7 horas da manhã, lá vinha ele subindo a ladeira do Seminário, debaixo do seu guarda-chuva, pois não queria que alunos ficassem esperando pelo professor.
Tinha também os seus conceitos irremovíveis. Por exemplo: aposentado é só para quando ficar inválido. Assim foi muito difícil ele ser demovido do seu trabalho no Colégio Batista Brasileiro, quando já tinha tempo suficiente para se aposentar. Considerava-se em condições de trabalhar dando aulas de inglês a alunas da 1ª e 2ª séries do então ginásio, podendo estar fazendo outra coisa. – Na igreja foi também assim. Só saiu depois que as diabetes atingiram seu nervo ótico a ponto de não poder ler a Bíblia direito. Mesmo assim, já nos últimos meses de seu pastorado em Bangu pedia ao vice-presidente, que a lesse para ele. Conta esse irmão que numa tarde o encontrou de pé, à luz da janela, tentando ler sua correspondência.
Ele nunca foi de pedir ou exigir coisa alguma de ninguém e especialmente da igreja. Contou-me outro irmão que nos primeiros anos de seu pastorado, por exemplo, aos sábados, quando tinha alguma programação especial, ele não ia de volta para onde morava, bem distante, no sul da cidade. No dia seguinte, domingo pela manhã, lá estava ele já bem arrumado esperando o povo chegar. Então resolveram observar o que ele estaria fazendo. Viram, pela fresta da janela, que ele se deitava no tapete do púlpito e assim passava a noite. Foi, quando os líderes da igreja tomaram providências e colocaram um sofá-cama no escritório para o pastor.

Recordações de suas férias em nossa casa – Rio Novo
Todos os anos, especialmente no começo de janeiro, era o tempo da espera da chegada do “Unkuls” que em leto, nós crianças o chamávamos, que significa Tio. Ele não era de avisar. Assim, todos em casa ficávamos na expectativa. Geralmente achávamos que na primeira sexta-feira de janeiro, à noitinha, ele iria chegar. Naquele tempo os aviões da TABA já desciam na lagoa em frente do mercado de Laguna [eram anfíbios] ou no Aeroporto de Tubarão [sul de Sta. Catarina]. De lá viria de trem até Orleans depois a pé até nossa casa que ficava em Rio Novo, a uns 12 quilômetros de caminhada pela estrada cheia de curvas e sobe e desce. Morávamos na subida conhecida como o “morro dos Purins”, bem nas nascentes do Rio Novo. De lá, nós crianças, ficávamos com os olhos fixos na distante estrada, bem lá em baixo onde havia uma reta além da propriedade da Igreja Batista de Rio Novo, em que, no final, poderia surgir um homem alto que seria o Tio. A decepção, infelizmente, acontecia. Na semana seguinte quando meu pai ia para a cidade, no correio encontrava o telegrama comunicando que este ano não viria. Decepção geral.
Já era alta noite. Lá na roça tudo era sem chaves. As porteiras e portas, naquele tempo, só eram fechadas com tramelas que qualquer um podia abrir a qualquer hora do dia ou da noite. Assim é que lá pelas tantas, quando ninguém imaginava, eis que se ouviu a expressão em leto: “Esmu máias”, por várias vezes. Estava dizendo: “estou em casa”.Todos acordaram e foi aquele rebuliço. A vovó Lisete e o vovô Jahnis (João) também apareceram. As alegrias começaram. Lembro-me que nos dias seguintes ele me chamou de “Poadjis” cuja tradução talvez seja “Pirralho” ou coisa semelhante. Ele muito nos queria bem, tanto é que gostava de nos aconchegar, fazendo-nos “cavalinho, cavalinho” em seus joelhos.
Desta feita, o Tio Reynaldo já estava há alguns anos morando e trabalhando no Rio de Janeiro como pastor em Bangu e professor em várias instituições de ensino, inclusive no Seminário. Pelo que parece, era a primeira vez que ele estava a passar as férias em casa, depois que tinha voltado dos Estados Unidos. Lembro-me de que ele apanhou um Atlas Geográfico antigo para mostrar para a vovó Lisete onde se situava Bangu e como ele tinha que tomar o trem da Central do Brasil para lá chegar, uma vez que morava em Ipanema, zona sul daquela cidade. Eu só ficava observando tudo, sem nada entender.

Continua…</strong

…gastar um bom meio dia para ler e contar os inúmeros erros | De Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1923 –

Rio Novo 25 de junho [de 1923]

Querido Irmãozinho!!

Saudações! A tua carta escrita no dia 30-4-23 recebi ontem à noite. Muito obrigado. Esta, porém foi daquelas que demoraram quase dois meses para chegar e também foi aberta e ainda bem que tudo estava dentro. Agora não chega nenhuma carta sem que o pessoal do correio de Orleans não a tenha aberto e lido. Se o encarregado dos correios vai com a cara do destinatário até que ele entrega, senão ele vende para os donos das vendas [casas de comércio] como papel de embrulho.  Aqui na colônia existem pessoas que assinam jornais de maior porte e passam semanas, meses sem que chegue nenhum e às vezes calha que eles vêem o pessoal das Vendas embrulhar café com os jornais com o nome deles e quando interpelados, eles dizem que foi o Alfredo Balod quem vendeu para eles.

Por ai você pode avaliar como a ordem reinante tem descambado na cidade. Os jornais da região têm denunciado até com caricaturas, mas nada tem adiantado porquê o Alfredo é genro do Intendente [Prefeito nomeado pelo governador ou eleito???] e por ai você pode ver que governo nós temos por ai, que tem por única preocupação destes homens é ganhar dinheiro a qualquer custo.

Por isso também os impostos foram aumentados, neste ano pela terra teremos que pagar 16$000 quando no ano passado foi 13$000, o imposto do fogo [Imposto do Fogão] era 5$000 e agora é 12$000 e eu não sei direito, mas há uma conversa que teremos pagar 12$000 pela estrada e ainda outras leis e impostos que ainda não foram efetivados quando serão cobrados pelas vacas, cavalos, carros e carroças. Por isso os colonos estão em guerra com o Governo.

Hoje o tempo está nublado e chuvoso, mas até 4 dias atrás estava limpo e muito frio, a estrada está uma lamaceira só e os atoleiros só não são maiores porque assim já não cabem na estrada. Lá também está chovendo agora?

No Domingo passado à noite foi à noite de apresentações da Mocidade. Faz umas duas semanas que o Auras [Osvaldo Auras] chegou em casa voltando de Ijuy e naquela noite aproveitou para contar as peripécias para chegar de volta a Rio Novo. Foi muito interessante ouvir contar tantas dificuldades que ele teve na viagem. Na ida ele pegou o navio e foi direto a Porto Alegre e daí para frente de trem. A chuva não falhou nenhum destes dias. Na volta também veio de trem. O combóio e todas estações estavam repletas de soldados. Até que enfim chegou até Porto Alegre. Mas o navio já tinha partido há tempo. Queria encontrar alguém que pudesse trazer por terra, mas ninguém queria viajar numa época de revolução. Mais tarde encontrou um judeu que trazia passageiros até Campinas [Araranguá], de automóvel pela beira do mar. No princípio até que a viagem era agradável e vinha bem rápido. Mais adiante encontraram grandes rios quais não eram possível passar, então ele atravessou numa balsa e continuou a viagem numa carroça puxada por cavalos e mais adiante ela também quebrou e daí neste próximo trecho ele veio num carro de bois e depois de carroça puxada por cavalos novamente, chegou a Criciúma. Daí de trem a Orleans via Tubarão chegando feliz em casa trazendo a sua sogra e o cunhado juntos.

Corre a conversa por aqui que o Villis Leimann não deverá vir para cá. –

Bem agora já chega. Agora que eu consegui começar escrever você terá que ter paciência e gastar um bom meio dia para ler e contar os inúmeros erros. Mas seria muito bom que você também escrevesse bastante.

A Olga também deve ter “imprimido” a sua carta de muitas léguas de comprimento e assim você vai ter muito o que ler. Escreva uma longa carta sobre tudo que acontece por ai. Perguntar eu não pergunto mais nada porque não vale a pena, você nunca responde as minhas indagações. Assim sendo continuo a aguardar uma longa carta sua, porquê está na hora de ir para cama.

Eu na realidade não estou com sono, mas as minhas mãos estão geladas e é por isso que a minha caligrafia está tão bonita. Muitas lembranças da Lúcia.

 

Escrito nas laterais.

Se tivessem chegado os jornais e os acordoamentos dos violinos então poderíamos ir tocar na sua grande festa. Mas os violinos estão sem as cordas e a guitarra está empoeirada. Vamos esperar pelo verão quando os dias estarão mais longos então teremos mais tempo para acertar e afinar tudo muito bem. Bem não esqueça de junto com o convite mande junto algum automóvel.——

Você nem pode imaginar como hoje rendeu a minha escrita. Não pense que é só para você que eu tenho que escrever, pois nós temos parentes no mundo inteiro. São 2 as cartas que escrevi hoje como atirar eu atirei e matei dois coelhos com um tiro só, apesar de agora já ter passado da meia noite.

 

 

 

 

 

 

 

…vigiar aquele boi que gosta de pular as cercas para ir comer milho nas roças. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Açúcar 21 de março de 1923

Querido Reini:

Primeiro envio votos de muito bons dias e amáveis saudações. Eu igual a você sempre querendo matar dois coelhos com uma cajadada fiquei esperando mais alguma carta para responder duas ao mesmo tempo e como não veio mais nenhuma não vale a pena esperar mais. A tua carta escrita no dia 7 de março, com aquele convite recebi ontem durante a Festa de Aniversário da nossa Igreja. Percebemos que você foi esperto mandando aquele convite para aquela sua festa lá e tão bem calculado que quando a carta chegou a festa já tinha passado longe, para a gente não poder ir.

Você está fazendo como alguns Rio Novenses que fazem festas de casamentos e endereçam e subscrevem os convites, mas não os põem no Correio já. Ai colocam o convite no correio um dia antes. As pessoas recebem o convite em cima da hora e é claro não podem comparecer. Então eles dizem: oh nós os convidamos para o casamento, mas eles são tão orgulhosos que não quiseram vir.

Você não tinha algum aeroplano que nós pudéssemos ir voando, que grande coisa seria. Poucas horas de vôo e nós já estaríamos lá. E noutro dia de manhã estaríamos de volta em casa. Não podemos deixar a casa vazia, sem ninguém durante a noite.

Durante o dia nós temos que vigiar aquele boi que gosta de pular as cercas para ir comer milho nas roças. Também temos que tirar leite das vacas etc. Se nós tivéssemos ido levaríamos uma balde cheia de leite e muitos quilos de manteiga. Assim sim, seria uma grande festa para você. Pena que tudo já passou. Como realmente foram as suas festas?
Naquele dia perto da noite estava muito nublado, brusco e chovia um pouco. Se tivesse sido aqui, aquela festa iria pegar muita lama até a altura dos joelhos.

Ontem foi aqui a Festa de Aniversário da Igreja. O tempo estava maravilhoso. Quem dirigiu foi o Emils. [Emils Anderman]
Tinha muita gente. Cantou o Coro da Igreja, o Coro da Mocidade e o Duplo Quarteto de Homens cantou 3 hinos. Os oradores foram o K.Seebergs, o Wilis Slegmann, o Juris Frischembruder e o G. Auras. Foi realmente uma festa maravilhosa e transcorreu em perfeita paz.

As grandes chuvas amainaram e o nosso riozinho [O rio do Rodeio do Assucar]
está realmente com pouca água. Nós deveríamos estar fazendo farinha de mandioca, mas a água está muito escassa para mover o engenho e tempos atrás quando não precisávamos havia água sobrando.

Dos nossos parentes de São Paulo, nada temos recebido. O Pappa faz tempo que escreveu, mas não temos certeza sem não ficou retida na censura de lá.

O Matiss Frischembruder escreveu de lá contando mil maravilhas. É claro que ele tem que dizer que está tudo muito bem organizado, pois ele está envolvido na mesma sopa.

Segundo ele, do pessoal de Nova Odessa, há muita gente que apóia o Inkis. O Malvess é um deles, que por ser genro do Inkis cuida da carteira do dinheiro comunitário, ainda que pecaminoso. O outro genro o Willis Lustinhs é o responsável pela cozinha comunitária, e assim todos pedaços de parentes tem o seu emprego garantido e eles nunca precisarão jejuar 3 vezes por semana, porque já são perfeitos.

Bem já se vão 3 semanas que eu te mandei uma carta na qual escrevo que o Andreys escreveu lá da Latvia e nós vamos ter que responder. Teremos que dizer que nada sabemos do tio Jekabs e a família que foi para o “deserto “. E se eles não escreverem para ele como estamos passando, nós também nada poderemos fazer.

Você bem que poderia escrever uma carta para o primo Joãosinho. O Andreys perdeu os demais, pois morreram lá de fome na sua fuga da guerra e só ficou o Joãosinho, que não pode continuar os estudos porque não tem dinheiro.

Agora o Joãozinho trabalha numa repartição do Governo da localidade como escrevente. Ele já deve estar bem crescido, pois é bem mais velho que o nosso Arthur.

No Domingo passado recebi uma carta dos Fritz lá da Argentina. Agora todos estão bem, é que a Christine, este doente por dois meses e ele também por um mês, mas agora estão todos bem.

O velho Leimann está cada vez mais gordo e saudável e somente o que atormenta o coitado é a sensação de inutilidade sem ter o que fazer o tempo não passa e quase não tem distração nenhuma e nem outros letos para conversar.

Bem agora chega senão você não vai ter tempo para lê-la.

Onde agora anda o Janka Klava? Ou ele saiu da escola com aquele “passe”? Alguns outros tem escrito que ele foi para a América num navio como servente.

Este ano há muitos estudantes? O Inkis e o Schanis não voltaram atrás? Aqueles letos de Rio Branco continuam lá? Chegaram outros novos de lá?

Não espere matar os dois coelhos com um tiro só. Responda carta por carta que eu estou aguardando. Lembranças dos demais. Olga.

…soldados para as entradas da cidade com ordens para proteger a cidade, mas não atirar primeiro| De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Assucar 2 de março de 1923

Querido Reini! Saudações!

A tua carta escrita no dia 7 de fevereiro eu recebi hoje a noite, os demais de casa já a tinham recebido ante ontem [Pelo motivo de haver dois domicílios] e eu hoje mesmo vou começar a resposta.

Você reclama que não recebe cartas de casa e estas demoram, mas eu escrevi duas longas cartas que você recebeu e se elas tivessem sido extraviadas ai então haverá um grande prejuízo.

Você diz que as últimas notícias são referentes ao mês de novembro. Pois naquela ocasião, todos nós escrevemos convidando para você vir passar as férias em casa e assim ficamos esperando terminar as aulas e você vir para embora.

Quando as aulas terminassem você não, estaria mais lá, então prá que escrever para lá. Continuamos esperando quem sabe, ele tenha ou queira passar as Festas lá. Na véspera de Natal a Luzija foi até Orleans pronta para trazê-lo como grande e importante cidadão, mas nada, então você ainda esperava que em pleno Natal estivéssemos escrevendo cartas, quando tínhamos certeza que você estaria aqui.

Nesta época chovia muito e devido ao muito trabalho, quando chegava a noite, vinha um sono tão profundo que não era possível agüentar. Então no dia 19 de janeiro mandei uma longa carta e quando levamos ao correio naquele mesmo dia recebemos aquela sua carta escrita no dia 26 de dezembro e respondendo a esta no dia 9 de fevereiro mandei outra longa carta e ainda naquele mesmo dia a Luzija mandou um cartão postal a não ser que estas cartas não tenham saído de Orleans.
Os cartões que você diz ter mandado aqui não apareceram. Por ai você pode ver que não faz tanto tempo que nós não escrevemos, mas sim outras coisas estão erradas como o Correio.

Agora sim há alguma coisa de novo para escrever apesar de nós aqui estarmos em tempo de guerra por aqui e não sei se vai passar pela censura.

Aqui há semanas atrás, houve guerra e ameaças de luta e ainda não sei o que mais vai acontecer. O povo não está satisfeito nem em paz com o Governo por causa dos altos impostos e então se organizaram partidos dos italianos, poloneses, brasileiros, todos de todos os lados se dirigiram a Orleans à noite e fizeram uma grande reunião na frente da casa do Intendente onde falaram e reclamaram.

Isto foi num Sábado e como até Segunda feira nada tinha mudado foi programada uma invasão sobre a cidade de Orleans [Guerra da Palmatória] para Terça feira e ai os letos também foram. Mas como em tudo, haviam traidores e chegado antes e contado que os colonos marchariam sobre a cidade a policia mandou pelotões de soldados para as entradas da cidade com ordens expressas de proteger a cidade, mas de não atirar primeiro. A grande maioria fugiu e outros entraram em luta corporal com os soldados e foram presos. Tudo o que aconteceu eu não sei claramente, mas nas próximas cartas eu prometo esclarecer mais e ainda vamos ver como isto vai terminar.

O tempo, esta bastante chuvoso, mas não tanto como antigamente. Tempestades e tormentas com vento também vêm ocorrendo com freqüência, mas para nós não causaram nenhum prejuízo e daqui para a frente a gente não sabe, pois ainda tem muito milho ainda pendoando. [As ventanias derrubavam quebrando as hastes do milho causando prejuízos às lavouras.] Melancias este ano não deram, para não dizer que não deu nada deu uma só. Pepinos também deram menos que os outros anos.

Agora mesmo recebemos uma carta do Andreys [tio] da Letônia. No ano passado quando recebemos outras cartas dele eu e o Pappa escrevemos longas cartas e o Jekabs ainda estava lá, mas, quando ele recebeu o Jekabs e a família já tinham viajado para o Brasil. Ele em seguida tornou a escrever para o Jehkabs que já estava chegando no Brasil avisando que não fosse para o deserto, pois nós o estávamos esperando e qual eram os planos e o que nós fazíamos aqui.. O Andreys não veio porque não tinha dinheiro e também porque estava doente e por uma parte foi bom porque ele não concorda com infelizes espiritualistas que estão fugindo para o deserto. Ele tinha recomendado ao irmão Jehkab que não ficasse em São Paulo e sim viesse para cá, mas parece que ele não quis assim. A carta já ficou muito longa e eu não tenho mais tempo para escrever tudo. Outra vez eu escrevo mais. Lembranças de todos e também da Olga.
Escrito na lateral: Não admire que as cartas não cheguem, pois agora o agente do correio é um leto que pode censurar tudo. –

…o que leva a escrever que estou folgada e… | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 11 de agosto de 1921

Querido Reini!

Primeiramente mando muitas lembranças. Recebi ontem a noite a tua carta escrita em 26-7-21 e agora passadas umas 25 horas já estou escrevendo a resposta ou isso será rápido demais?… Também o que me leva a escrever que estou folgada e amanhã é possível que alguém vá a cidade e assim já possa levar ao correio e assim continua pois semanas depois terás que estar gastando tempo em decifrando mais uma carta. Hoje faz duas semanas que eu escrevi e a Lucija também escreveu convidando para a festa do açúcar. Você as recebeu?

Agora que os cachorros latiram forte deu a impressão que você tivesse chegado e tivesse entrado direto no engenho (fábrica) procurar açúcar para comer ou canas para chupar. Agora a fábrica está trabalhando a todo vapor pois 3 fornadas já estão na formas onde estão cheios de açúcar bem claro e bem seco. Também tem bastante melado no cocho de esfriamento, tanto que ontem pela manhã por estar ainda muito quente ficaram 3 fornadas sem que fosse possível despejar nas formas. As outras 3 fornadas que foram cosidas ontem foi necessário despejar em outro cocho.
E lá por cima todos os cantos estão cheios de feixes de excelente cana de aparência raiada e muito macias próprias para serem chupadas. Mas, se você viesse e entrasse fora de hora, isto é antes do amanhecer certamente levaria e também daria um susto nas pessoas que lá trabalham e quem sabe até apanharia uma surra, pois este açúcar não é nosso e sim eles estão pagando para usar a nossa fábrica. Eles não te conhecem. São os italianos que moram onde o Limors morava. Eles chegam bem de madrugada muito antes do dia raiar. Durante o dia é outra coisa todo mundo que chegar pode tomar quanta garapa quiser. Lamber o melado e provar quanto açúcar quiser. Como você não conhece nada de fabricação de açúcar, você poderia ficar de encarregado de jogar água na fornalha e ficar tomando garapa e assim teria a vida de grande senhor .
Nesta semana o italiano teve ajuda dos parentes e eram 4 carros de boi que se revezavam vindo, chiando bela música abarrotados de feixes de cana. A roça de cana deles é contígua com o nosso terreno junto ao mato no alto do morro. Ele plantou naquela parte mais plana e a cana cresceu maravilhosa. Aquela que ele plantou este ano não veio bonita, ele nem vai cortar e deixar para o ano que vem. Esta semana ele deve terminar com festa dele. Mas quando ele terminar nós vamos começar a cortar a nossa e até lá você poderá chegar e nos ajudar.

Agora em sua escola vocês tem um doutor a mais.
Faz bastante tempo que soube porque alguém escreveu de Nova Odessa que o grande herói tinha partido para o Rio para ensinar os professores com um novo e sofisticado método. Eles dizem que tem ganho muito dinheiro fabricando pinga em uma fazendinha de lá e também trabalhando na captura de ladrões. E durante as horas vagas fez um curso na escola local e passou. Dizem que ele não tinha que trabalhar muito somente 7 dias por semana. Ele te reconheceu? Em que classe ele está? Como ele está sobrevivendo, pois aqui ele dizia que não iria comer feijão preto lá no Rio e iria sim direto para a América do Norte. Só se ele aprendeu comer feijão preto em Nova Odessa. Por isso o feijão ficou tão caro por aqui. Então ele foi tão seguro, porque o Watson não está mais lá. [Falando de um Klawa que era bastante conversador]

Quanto a escola de Rio Novo não vale eu escrever nada, pois não sei por quanto tempo, ela vai permanecer pois já tem gente roncando contra ela. Durante a escola diurna eles fazem “kazenjandalin” e na parte da noite eles fazem “katerjandalin” e se você não souber o significado destas palavras em alemão, pergunte ao seu professor de alemão- bem desta vez chega.

Você vai demorar para ler. Você reclama que quer novas notícias, mas isso aqui não é como lá onde tem muita gente e acontecem muitas coisas. Aqui passam semanas que nada de novo acontece. Por isso eu vou aguardar uma longa carta sua.

Os jornais e as cordas do violino já recebemos. Obrigado. Aqueles papéis para aquecimento, não precisa mandar porque não adiantaram grande coisa neste grande frio que houve este ano.

Com saudações Olga.

Informações adicionais para o fabrico de açúcar mascavo

Forma era um cesto de taquara mansa na mesma tessitura do tipití, mas sem o estreitamento e reforço tipo corda na boca, Também eram bem maiores e colocados apoiados em sarrafos de madeira em cima de cochos, serviam para escoar o melado do açúcar a medida que o açúcar ia se cristalizando e depois de dias ficar escorrendo o açúcar ia par secagem no sol antes de ser armazenado, A parte inferior do açúcar no cesto era desprezada pelo comércio por estar contaminada ainda por melado. Daí era dado ou vendido para pessoas necessitadas para consumo mais imediato.
No começo da fervura saem todas impurezas na forma de espuma ou escuma como era chamada na época que era retirada e adicionada no cardápio dos porcos.

O momento do “ponto” é um dos momentos críticos da fervura. Se o mestre tirar muito cedo o açúcar ficava bem branco, mas rendia muito pouco. Se ele puxava ou apurava muito o ponto, então o açúcar rendia bastante, mas ficava de cor muito escura. No momento que este decidia que é era a hora de tirar ele gritava para um auxiliar que jogava vários baldes ou latas d’água dentro da fornalha baixando o calor dando tempo de tirar a carga e evitar que queime no tacho.

No momento seguinte era aberta uma tampa no cocho cheio de garapa para a próxima fornada. Neste momento a gente procurava a ” puxa-puxa” , uma espécie de doce que se formava dos resíduos que tinham ficado no tacho e esfriados repentinamente pela garapa. Uma delícia.