A Paz do Senhor seja convosco. | De Artur Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rodeio do Assúcar18/11/26

Querido irmão Reinaldo!

A paz do Senhor seja Convosco.

As tuas cartas escritas no dia 17 de setembro e dia 5 de outubro foram recebidas, a última recebi no domingo passado e pelas quais agradeço muito. Foram longas cartas onde você descreveu sua grande viagem. Deve ter sido muito interessante mesmo esta viagem naquele imenso navio e todas aquelas cidades que você passou inclusive a loucura de uma imensa cidade como Nova York e ainda aquelas outras cidades da América, lotadas daqueles imensos arranha-céus, fábricas enormes etc. Você também poderia escrever quanto custou à passagem até lá e se com aqueles 1.500$00 mil reis previstos deu para chegar lá.

Nós agora graças ao bom e querido Deus estamos passando suficientemente bem. O tempo esteve semana está bastante quente e seco que faz tempo que não ocorria. Durante o inverno e a primavera chovia tanto que não tinha fim e também atrasou todos os serviços da lavoura e plantações que não puderam ser feitos na época apropriada.

Agora como de costume estamos com dois domicílios, o que não é muito confortável. Isto, por que com tão, pouca gente, cuidar de duas propriedades é demais. Camaradas [Trabalhadores rurais avulsos] também são inviáveis contratar devido ao alto custo 2 a 2$500,00 por dia e mais a comida é caro demais. Só a Maria trabalha para nós por mês, mas quanto isto adianta de tanto trabalho? Comparando com aquele tempo que você ainda morava ai quando nós todos íamos para o trabalho e ainda também mais o “Pintado” •• sempre junto, ai sim, rendia bastante o serviço e ainda assim, nos achávamos que não era demais. Mas agora contratar um quando precisávamos de três e quando nós próprios não estamos acompanhando o ritmo, não digo eu, mas o Paps que esteve doente há algumas semanas quando estava roçando uma capoeira furou o pé nalgum toco da roçada e daí a infecção tomou conta do pé inteiro transformando-se num furúnculo e ainda bem que já está melhor, mas ainda não pode fazer nada, pode ser que na semana que vem ele já possa ir para a roça, mas pouco ainda poderá fazer. Assim você pode avaliar como nós estamos indo.

Agora temos um visitante aqui pelo Rio Novo. É o Arthurs Leiman. Ele chegou no dia 15 de outubro. Da Argentina ele viajou direto para São Paulo e dali veio para cá. Durante a semana ele mora com o cunhado dele em Tubarão o João Ochs e aos fins de semana ele vem aqui para o Rio Novo.

Sobre aqueles negócios vou escrever muito pouco porque nada aconteceu. Apareceu um comprador para o terreno aqui, mas não deu nada. Tem outro que virá. Também a Bukovina não foi vendida e nem apareceu nenhum comprador. Também não saímos por oferecendo por que daí qualquer comprador vai querer oferecer uma ninharia. E sobre aquele preço sugerido eu tenho sérias dúvidas se será possível conseguir tanto. Agora tudo está tão barato, se fosse como no ano passado que tudo era caro quando um saco de feijão valia 80$000 e uma arroba de toucinho 40 mil então o povo tinha dinheiro para comprar terrenos. Mas este ano não é assim. Vamos ver como vai ser para frente. Sobre venda e compra de terrenos hoje é só isso.

Há pouco tempo atrás houve um incêndio em Orleans e queimou a Venda e a casa do Cardoso. Virou um monte de cinzas. O que parece e o povo comenta é que eles mesmos são os culpados. É que toda aquela propriedade esta assegurada dizem que por 80:000$000. Agora virou moda de todo mundo fazer seguro de suas vendas e casas. Alguns por 55:000$ outros por 73:000$000 e assim por adiante. O próprio Cardoso estava em Desterro internado no Hospital e a família estava morando em Imbituba. Naquela noite em que houve este sinistro havia na cidade uma grande festa, um tempo seco e um forte vento. Diante de tudo isso o povo ainda fala que eles mesmos foram os culpados.

Bem hoje chega, já escrevi esta longa carta. Poderia escrever até mais, mas o sono está apertando. Logo depois da ceia eu comecei a escrever porque durante o dia não há tempo. Você deve se conformar com o tanto que eu escrevi. Com lembranças minhas e de todos daqui. APurim.

(Página anexa escrita depois)
Você poderia verificar o preço quanto custaria uma bicicleta lá na América. Eu tinha escolhido uma da marca alemã “Vanderer” com freio de mão e de contrapé, campainha, dínamo com iluminação e marcha com duas velocidades. Em Laguna na loja da Karl Hoepcke custa entre 450:000$ a 600:000$000. Então faça o favor de perguntar o preço lá e verificar o tamanho, pois se for da marca Vanderer precisaria ser de No. 7. Se der negócio, nós vamos precisar de 2, uma para mim e outra para o Puischel do Auggi.

Sobre mais um assunto eu gostaria de escrever. É sobre o nosso Engenho de farinha de mandioca que está no terreno dos Leiman e o terreno onde está sendo vendido. O Salits diz que o engenho pode ficar lá quanto tempo quiser. Mas de que adianta ter uma fábrica de farinha e não ter a mandioca. E comprador nenhum até agora apareceu. Nós oferecemos para o Sahlit, mas ele não deu nenhuma esperança de comprar. E se algum comprador de fora terá que desmontar e levar embora então eu acho que não vai querer pagar nada. Existem partes que quando desmontadas elas não servem mais, outras como os esteios que são imensos e pesados serão muito difíceis de serem retirados. Existe o perigo de incêndio, pois ela, a fábrica, está na beira de capoeira cheia de samambaias. Por isso antes que se determine o destino dela seria bom chamar uma empresa de seguros para proteger de qualquer eventualidade. Então em caso de que alguém deixe entrar fogo o prejuízo não seria total. O perigo é que ela está bem na beira da capoeira e se ela estivesse dentro do pasto não haveria perigo algum. No ano passado um “maneca” [Termo pejorativo dado aos brasileiros nativos pelos descendentes de outras etnias] que mora perto da rocinha, resolveu queimar uma pequena coivara num domingo com clima muito seco e muito vento. Não deu outra, poucos momentos depois o capoeirão dos Slengmann estava uma linda fogueira. A sorte era que o vento não vinha em nossa direção.

Por isso a minha preocupação, pois pode acontecer em qualquer lugar. Hoje chega. Pois escrevi quase um livro. Escreva-me uma longa carta e comente sobre todos estes assuntos. Aqui fico teu amado irmão. Arthurs. [ Artur Purim]

_____________________________

Pois nossa casa estava correndo perigo | Olga Purim a Reynaldo Purim

ADVERTÊNCIA
Esta carta apresenta uma série de não-conformidades. Houve falhas no comportamento de pessoas, sinais claros de ruptura na comunidade e também nas famílias, mas foram tratadas de modo pouco equilibrado pelo narrador, demonstrando partidarismos e envolvimento pessoal que até hoje poderiam causar embaraço aos seus descendentes. Além disso, algumas afirmações são baseadas em alguém que ouviu que alguém falou, e nunca teremos como verificar a outra parte. Sem interesse em gerar polêmica, mas por amor à fidelidade e à ambivalência da história, segue mais esta do jeito que foi escrita.
V. A. Purim

* * *

Escripto em letto
[Nota em português no original]

Rio Novo 22 setembro de 1918

Querido Reinold,

Na sexta-feira passada, voltando o Robert [Klavin] da cidade, trouxe para nós a tua carta escrita dia 6-9-18 em língua leta e que só demorou 2 semanas [para chegar]. Agradeço, pois me alegrei muito sabendo que aquela minha longa carta também recebestes. Na semana passada recebi os pacotes de jornais, um do dia 20, outro do dia 31 de agosto.

Agora a correspondência vai até que muito bem, pois todas as semanas recebo, senão cartas, então jornais. Não faz muito que escrevi uma outra longa carta em resposta àquela que veio dentro dos jornais no nome de E. L. [Eva Leiman]. As minhas cartas parecem que não são mais censuradas, pois todas chegam ao seu destino. Também aquela última tua não tinha sido aberta pela censura.

Os rapazes dos Klavim disseram que as cartas que eles escrevem para o Arthur [Leiman] e para você somem e não chegam a lugar nenhum. Não faz tempo, quando o Jurka ainda estava em casa, a encarregada dos Correios em Orleans perguntou se ele era irmão [palavras em itálico em português no original] pois sempre pedia as minhas cartas e ele respondeu que era “primo, sim”, mas não sei de onde arranjei esses “primos”. O Jurka acho que não sabe o que é primo. A Aninha é uma funcionária muito caprichosa e não dá a nossa correspondência para qualquer um, só para os primos.

Nós estamos passando bem. O tempo hoje de manhã estava quente e molhado. Ontem perto da noite veio uma tempestade com trovoadas e chuvas, mas agora todos dias ao entardecer fica um clima ameno e fresco. Hoje, 22 de setembro, é o primeiro dia da primavera, e hoje pela manhã realmente assim parecia. Os pastos ficando mais verdes, as laranjeiras plenas de flores, as abelhas trabalhando que chegam a zunir. Mas o tempo ainda está bastante irregular: ora está quente, ora frio.

No domingo passado, choveu forte quando voltávamos da igreja [na casa dos Leiman], e chegamos encharcados. Logo que limpou, noutro dia deu geada outra vez lá embaixo perto da igreja de Rio Novo ficou com o pasto todo branco.

A chuva é muito necessária, pois está tudo muito seco e ai é que acontecem as queimadas descontroladas que tem acontecido por aqui, e ainda bem que nós não fomos atingidos.

Na sábado passado foi um grande fogaréu.

Começou assim: na quinta-feira o Butler quis queimar uma pequena derrubada de capoeira grossa e soprava um vento forte. Ele tinha convocado o Augge [Augusto Felberg], os Grikis, os Leeknin e outros italianos que moram aí por perto para que às 13 horas estivessem lá para ajudar na queimada. Mas ainda nem eram 12 horas e o Butler com a Marta subiram o morro e puseram fogo. Quando o Augge e o seu pessoal viram a fumaça em sua direção, correram morro acima, em direção da queimada, e encontraram o Butler gritando que viessem correndo, que o fogo já tinha pulado pro mato do lado dele.

[NOTA: Queimadas de derrubadas (coivaras). Era convencionado que nenhuma queimada poderia ser executada sem a convocação do vizinho que possivelmente pudesse ser prejudicado. Este vizinho ou estes vizinhos tinham o poder do veto em caso de vento forte ou acendimento incorreto. Isto quer dizer que toda queimada tinha ser feita com os aceiros em perfeita ordem e começando sempre no lado que o vento não acelerasse a queimada e só depois de ter queimado uma área razoável, então iam cercando toda área com fogo. Mediante qualquer desobediência a este ritual poderia ser pleiteada indenização por danos causados.]

O vento vinha do lado do Grikis [sul]; justamente desse lado ele tinha posto o fogo, e o aceiro do outro lado não tinha ficado essas coisas. Nenhum ajudante tinha ainda chegado e ele, como um moleque afobado, que não sabe esperar, já tinha posto fogo. Ano passado, durante aquelas queimadas descontroladas, o Butler também tinha posto fogo e queimado meio mundo; agora outra vez, um fogo ainda maior que no ano passado.

O Augge correu para a casa velha dele e pegou um cavalo e saiu em desabalada carreira atravessando as roças para avisar os Karklin que um fogo descontrolado seguia na direção deles, e daí para os Stekert, Suschen e também o Wilis Balod e muitos outros italianos das vizinhanças. Com este todo povo trabalhando, conseguiram apagar já dentro das terras dos Karklin. O Butler mesmo, logo que o dele queimou, desceu e foi direitinho para casa; nem foi ver o tamanho do desastre que tinha provocado.

Aí, na quinta, o vento amainou e nada mais aconteceu. Mas no sábado lá pelo meio-dia começou soprar o vento quente do lado da serra. Lá pela uma da tarde avistamos rolos de fumaça negra do lado da igreja velha [norte]. A fumaça indicava fogo muito próximo, pois apareciam labaredas e faíscas de fogo lá por detrás do morro.

Nós todos ficamos assustados, pois o fogo poderia descer o morro, empurrado pelo vento, para a nossa casa. O Puisse [Artur Purim] foi correndo avaliar a situação e voltou informando que o fogo ainda estava no outro lado do banhado do Augge. Nem a casa nem as cercas do Augge podiam ser vistas, envoltas que estavam na densa fumaça. Mas ele pôde enxergar grandes labaredas de fogo saindo do alto do mato.

O Puisse voou para o lombo da Marsa e foi chamar Papai, que estava na roça, pois nossa casa estava em perigo, coberta de fumaça, com o vento empurrando agora o fogo em nossa direção. Enchemos todas barricas de água e começamos em desespero a molhar o telhado de tabuinhas do telhado da nossa cozinha. As tabuinhas estavam um tanto apodrecidas e já deviam ter sido trocadas; do jeito que estavam, era uma só faísca que aquilo explodiria em chamas.

O Enoz já tinha chamado o Schuschirs e o Willis Balod. Quando Papai chegou, apanhamos baldes e enxadas e subimos o morro tentando deter o fogo, antes de chegar mais perto, ainda no banhado do Augge. Para a casa do Augge, faltavam só três metros para que o fogo a tomasse conta.

Era um exército em luta diretamente contra o fogo. O pessoal do Augge, os rapazes dos Karklin, os Schunschis, o Vilis Balod com uma porção de camaradas. A senhora Grüntal também veio, apesar do sábado santo, o Karlis Karkle — enfim todos, com muito denodo e determinação enfrentaram as chamas e as debelaram.

Eram mais de 30 pessoas ao todo, e o que ajudou também foi que o poço tinha bastante água para que o pessoal jogasse no telhado da casa, naquele caminho que vai da casa do Augge para a casa de B. [Butler] e também para o caminho que vai para a igreja velha. Segundo a versão de alguns rapazes, o Butler tinha subido e perguntado se o fogo estava longe e eles teriam respondido que estava no mato ali mesmo; ele teria dito que este o ano o diabo mesmo ia apagar esse fogo, e descido em seguida novamente para casa.

A colônia do Augge queimou inteira, e também 100 braças de cerca de arame farpado, e mais outro tanto de cercas de espinheiros maricá do Willis Balod. Todo aquele pasto do velho Leepkaln ficou inteiramente queimado.

[NOTA: As cercas de espinheiros maricá (Mimosa bimucronata) eram cercas vivas ou sebes, e eram desenvolvidas do seguinte modo: no lugar onde se queria a cerca eram plantadas desta espécie de árvore espinhenta numa distância regular de uns 50 cm. Logo que estivessem bem desenvolvidas, isto é, com uns 2 metros de altura, era cavada em paralelo e no lado de dentro do pasto uma valeta de um metro de profundidade com uns 50 cm de largura. Esta terra era jogada sobre os espinheiros, e logo os espinheiros eram parcialmente cortados e dobrados (virados) por cima da terra, e assim rebrotavam; quando crescidos novamente eram virados, formando uma barreira para que o animal não passasse. Também podiam ser plantados ananazes com a mesma função. A valeta era para que quando o animal pusesse as patas dianteiras lá dentro não tivesse mais impulso para saltar através dos espinhos.

Quanto a este caso específico, não temos os dados suficientes para determinar a real responsabilidade pelo desastre, mas achamos que pode ter sido falta de orientação pelos responsáveis pela comunidade — uma vez que o pastor Butler, embora tenha vivido algum tempo em Rio Novo logo depois da sua chegada da Letônia, logo viajou para os Estados Unidos da América, onde frequentou a diversas Escolas Superiores; retornando ao Brasil, permaneceu como professor do Seminário e Colégio Batista do Rio de Janeiro. Só depois disso veio a assumir a nova função de pastor e agricultor na colônia de Rio Novo. Não deve ser justo esperar que, quando ocorreu esta calamidade, ele tivesse toda a experiência e informações necessárias para dominar a nova atividade.]

Nós naquele dia voltamos para casa só lá pelas quatro horas e, como todo sábado, fomos fazer pão e mais todo aquele serviço, como tu bem sabes — todos sujos e exaustos ao extremo, um calor de rachar e tudo enfumaçado.

[NOTA: Aos sábados, principalmente à tarde, havia uma preparação para o domingo. Era lavado o assoalho da casa, feita uma faxina geral na parte externa, varrido o terreiro, passada a roupa com ferro a carvão para ser usada para ir a igreja, abatidas e limpas as galinhas para o almoço de domingo, feitos um pão de ló, bolachas ou pastel para se poder oferecer a alguma eventual visita que viesse no domingo à tarde, engraxados os sapatos, trazida uma reserva de cana ou de qualquer alimento suplementar para que no domingo somente fosse colocado para o gado comer; da mesma forma era cozido um tacho de batatas suplementar para os porcos e muitas outras coisas, como a troca da roupa de cama e do banho geral de gamela ou de sauna, pois aos domingos além de todos estarem imaculadamente limpos deveriam também fazer somente o inadiável como ordenhar as vacas e alimentar os animais.]

Pensávamos que não seria possível ir para a igreja [no dia seguinte], pois com tempo limpo e o perigo de reavivar algum foco de fogo, não seria seguro que todos saíssem de casa. Mas à noite ficou nublado e pela manhã começou a chover, e assim choveu o dia inteiro, apagando tudo. Não se pode brincar “com o honorável pai fogo” [ar seenigu tevu uguni].

O Butler agora tem mais inimigos que amigos. Antes a igreja fazia mutirão para fazer derrubadas, plantar, capinar e colhia o milho — agora eles mesmo tem que fazer. Aqueles bons tempos já se foram; ninguém mais vai trabalhar e todos falam: que trabalhem eles mesmos.

O Butler mesmo declinou uma vez do cargo de pastor. Não sei de onde saiu uma conversa de que o Willis Leimam estaria vindo para cá, para que ele de medo reconsiderasse, para não perder o seu bom lugar, mas o Wilis não virá. Isto esse povo inventou, pois o Butler não quer ninguém. Ele teria dito que não falaria para nenhum outro pastor vir para cá, pois as pessoas aqui são muito pobres e não conseguem pagar adequadamente o seu salário.

O João [Frischembruder] de Riga vai ano que vem deixar o cargo de professor. O Butler então apresentou a Marta para a vaga de professora. Vamos ver se vão aceitar. Ela espera um bom salário para ficar sentada algumas horas, diante de 10 ou 15 crianças, e ensinar o ABC. Agora o João de Riga está ganhando 45$000 réis por mês, e isso para o Butler serviria muito bem.

O Butler teria também se oferecido, a alguém de maior idade que quisesse se especializar, para dar algumas horas de aula por semana. E, quanto à Marta ser professora, não sei se vai dar alguma coisa, pois ela nunca foi a escola nenhuma. Quando ela começar a dar aula eu também devo ir aprender um pouco de inglês e álgebra com a digníssima esposa do Doutor, pois outras matérias mais comuns não vale à pena. Eu no primeiro dia a submeteria a um exame, e no outro dia não precisaria mais ir.

O genro do velho Butler, o Peteris, teria ido embora, não sei para onde. Ele e a Kate viviam brigando, e chegaram a ir à justiça apresentar queixas contra a Kate e o Peter. Ganharam a questão, mas tiveram que pagar bem para a justiça, porque na realidade viviam como gato e cachorro. A Kate queria que a justiça os separasse, mas isso ela não fez. A justiça teria dito para o Peter que a Kate teria dito lá na justiça para ele ir embora. Ele pode até estar indo embora, mas depois de algum tempo ele volta e vive novamente com ela: a Kate não pode mandá-lo embora.

Então o Peteris teria vendido os porcos e bois que lhe pertenciam e tinha viajado. Dizem que o Peteris não é tão má pessoa, mas a Kate reclamava demais que ele não providenciava roupas bonitas para os filhos e não comprava pão branco para eles. Agora toda Orleans sabe que “maravilhosa” irmã tem o Butler.

Bem, agora vou começar a terminar. Quanto à tua vinda nas férias, iria trazer alegria para todos nós. Informe-se com as pessoas aí se os navios tem terceira classe. Nós aqui de navios sabemos pouco, pois estamos longe daquele açude cheio, mas você pode descobrir até quem sabe nas tuas igrejas: pode ter alguma pessoa que tenha informações sobre este assunto, e depois nos escreva. Quando receber essas notícias eu te mando o dinheiro para as passagens, pois sei que você para isso não tem.

Bem, agora chega. Vou aguardar uma longa carta, pois tens que mandar notícias novas de lá. Muitas lembranças de Papai, Mamãe, Luzija, Arthurs e

Olga

O fogo chegava até a altura das árvores mais altas | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Invernada, 20-9-18

Querido amigo,

Sábado recebi a tua carta escrita no dia 31-8 pela qual agradeço. Estou muito satisfeito em saber que você se está saindo bem nos estudos.

A irmã Guedes, depois de longa enfermidade, separou-se dos desta terra. Quando no dia da Ascenção do Senhor estive lá, visitando, ela estava muito fraca e tão magra que parecia que a pele estava cobrindo os ossos. A fisionomia era totalmente diferente. O Guedes tinham gasto uma fortuna em remédios e médicos, mas nada disso adiantou.

Também a senhora Onofre Regis está mais doente do que nunca. Esteve com médicos de Tubarão e eles vêm às vezes visita-la em casa, e assim mesmo não consegue melhorar nada — e ela está doente há mais de 20 anos.

Quanto à nossa igreja [em Rodeio do Assucar], por enquanto não tem nada de novo, o que mais falta é um pastor. Quanto à Escola Dominical do Rio Laranjeiras, vai estável. A Maria Verginia e a Benta foram embora dali. Os netos do Caciano não vem mais para a Escola Dominical porque foram proibidos pela mãe, que tem medo dos batistas, e crêem nas doutrinas católicas e outras superstições. Ela foi fazer farinha de mandioca lá no Rio Bonito e quando voltou não mais deixou os filhos irem para a Escola Dominical.

No começo deste mês inscreveu-se um de nome Pedro Vieira. O pai dele é muito rígido em suas convicções, mas ele não se inscreveu o sem conhecimento do pai e do avó. Também uma filha daquela Maria solicitou para inscrever na Escola Dominical, então por aí você pode ver como está o trabalho da mesma no Rodeio do Assucar, que aos poucos está levando o seu objetivo em frente.

O Theodoro [Klavin] já faz tempo que foi embora; na noite de 25 passado ele chegou em São Paulo.

O tempo aqui se mantém bom e muito frio e ainda na semana passada houve geadas. Neste ano podemos observar um fenômeno inédito na região: fortes ventostrouxeram imensas nuvens negras de fumaça do alto da serra. Lá queimam os campos e os faxinais numa medida antes nunca imaginada, porque nunca as cinzas chegaram até aqui, e vindo daquela distância do alto da serra.

Na semana passada aqui em baixo da serra também queimaram descontroladamente muitas áreas de mato, capoeirões e capoeiras, fazendo um ruído medonho; à noite, apesar da fumaça, havia clarões por todo o lado. A queima é facilitada porque grande parte da vegetação das matas está totalmente queimada pela geada. O fogo era realmente apavorante, pois chegava até a altura das árvores mais altas. Fiquei imaginando que se não tivesse chovido, apagando tudo, o fogo teria chegado às nossas vizinhanças e acabado com todas as samambaias.

Mas lá nas Serras não choveu e o fogo continuou, e o forte vento trazia, além das nuvens de fumaça, um calor desagradável. Por fim lá também choveu, apagando aquele inferno, tudo voltando a normalidade.

Agora outra vez, o tempo está bom e sopra uma brisa agradável.

Terminando, receba muitas lembranças minhas e votos de bons dias. Que Deus te ajude.

Teu Roberts [Klavin]

[Escrito na lateral:]
Muito obrigado pelas lembranças recebidas do Eduardo Sahlit. Quando escreveres saúde ele por mim.

Os soldados estão tocando brasileiros das terras que não compraram | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto
[Observação em português no original]

Rio Novo, 8 de setembro de 1918

Querido Reinold!!

Envio muitas lembranças. Sexta-feira, dia 6 de setembro, o Arnolds [Leiman], voltando da cidade, deixou preso, enfiado entre os sarrafos da porteira da entrada de nossa casa, um rolo de jornais; enrolada entre eles estava uma carta, pela qual agradeço. Tinha demorado mais de um mês, mas enfim chegou.

Hoje fomos nos Leimann, e a senhora Leiman também entregou uma carta escrita em 24-8-18, em brasileiro, que o próprio Arnolds tinha trazido na sexta-feira. Esta veio muito rápido. A senhora Leiman tinha ficado feliz, achando que a carta era do filho Karl, que faz muito tempo que não escreve. Mas não era.

Chegou a pegar fogo na casa dele, enquanto ele estava na festa.

Bem, agora preciso responder as duas cartas. Há três semanas escrevi uma longa carta registrada e é possível que já tenhas recebido, pois nela contei todas as novidades daqui. Das cartas sumidas nem notícia, e acho que estão perdidas para sempre.

Nós graças a Deus estamos passando bem. Ficamos muito alegres em saber que também estás passando bem. Estamos todos com saúde; ficar doente não está na moda e também por falta absoluta de tempo, pois serviço a gente tem demais.

A época do plantio chegou. A derrubada da mata daquela parte perto da casa terminamos, como já escrevi. Aproveitamos para derrubar o capoeirão que ficava junto do lado da mata e o Enoz [Ernesto Grüntal] derrubou a capoeira do lado dele, assim vai ser uma grande queimada e uma grande coivara.

Plantamos 1500 pés de cana de açúcar e 2000 de rama de mandioca. Agora estamos capinando aquela coivara do ano anterior, perto da ponte, e está quase no fim. Lá vamos plantar o milho de cedo, onde mais tarde vamos plantar [intercalado ou consorciado] feijão.

Outras coisas não temos começado ainda a plantar, porque o tempo está tão seco e a terra tão dura que se torna difícil fazer uma simples cova. Já vai fazer um mês que não chove uma chuva de verdade. Fica nublado freqüentemente, mas não chove nada e quando começa já para. Todo o capim e as samambaias estão totalmente secos. Se por acaso pegar fogo, parece pólvora; se ainda houver vento, apagar nem pensar. Na nossa propriedade não aconteceu de pegar fogo em nada, mas no domingo passado teve outra vez uma tempestade de fogo.

A atmosfera está extremamente seca, esfumaçada e um clima pesado. Soprava aquele vento quente do lado da serra e se aprontava para uma tempestade com ventania e trovoadas. Quando estávamos voltando da igreja [na casa dos Leiman] estava queimando alguma coisa lá para os lado do Rodeio das Antas, mas parecia muito longe — e também estavam queimando as matas dos Klavin. Mas, quando chegamos na altura dos Grunski o vento estava trazendo fumaça e um calor que parecia uma sauna.

Mais tarde, quando escureceu, roncava trovoada por todos os lados e o vento parou, e parecia que fosse cair aquela tormenta de chuva. A noite estava por demais escura. Era a noite em que a Igreja do Rio Novo estava festejando a Festa da Colheita [Ação de graças], e as pessoas iam descendo como que seguindo um fio, pois não se enxergava absolutamente nada. A chuva começou, mas logo parou. Durante o anoitecer o morro dos Leepkaln estava já um pouco iluminado pelo fogo, mas lá pelas dez ou onze horas ficou tão iluminado que parecia que o fogo estivesse aí mais perto. Voltou soprar um vento forte que trazia redemoinhos de fumaça, e a trovoada continuando.

O pessoal que estava na Igreja do Rio Novo passava correndo para as suas casas. Aquele fogaréu era nas samambaias do João Leepkaln, e daí subiu para as colônias do velho Indrikson, depois para a do Grunski.

O povo que estava tentando apagar gritava e urrava, alertando e tentando flanquear a frente de fogo. Mais tarde começou a chover e apagou tudo, e se não fosse assim não sei onde teria terminado.

Queimou a maior parte das terras do Leepkaln e chegou mesmo a pegar fogo na casa dele, enquanto ele estava na festa, mas aí os vizinhos e outras pessoas conseguiram apagar.

A partir de agora se o governo descobrir quem são as pessoas que põem fogo por aí, é cadeia na certa — ou terão que pagar pesadas multas. Neste caso foram alguns rapazes brasileiros que resolveram por fogo nas samambaias secas. Agora com estas ameaças do governo acho que eles vão ficar mais temerosos.

Como já escrevi na outra carta, passamos pelos tempos [das medições] dos agrimensores: agora está tudo medido e pago. Este ano foi tudo bem, porque não tivemos que pagar ninguém para ajudar. Pessoas para ajudar [voluntariamente] havia bastante: dos Karkle o Velho e o Karlis, o Enoz, Papai e o Puisse e mais o Joaquim Flontim, que agora mora na casa do velho Balod. Agora ele comprou o terreno que fica perto daquele do Frischembruder, portanto faz divisa com o nosso: agora é nosso vizinho. Por isso mesmo ele ajudou a medir, porque assim ficou sabendo direito onde estão as extremas [divisas]. Ele mesmo é brasileiro, mas é casado com uma alemã de Orleans, filha do velho Jung.

Do lado dos agrimensores eram quatro ao todo: três brasileiros e o Hermans Hilberts, que é o responsável, pois ele dá o início e deixa para os outros o trabalho de abrir a picada, assentar os aparelhos e puxar as correntes. Ele fica só com os cálculos.

O pagamento também não é por dia e sim por metro. Por mil metros o preço é 10$000 réis; se medem bastante ganham bastante, e se medem menos ganham menos. Se passarem o dia inteiro e nada medirem, não será pago nada.

O pagamento de nossa parte foi a meia com o Karklis, e a nossa parte deu 12$600 Réis. Para o diretor [da Empresa Colonizadora Grão Pará] pagamos o que faltava para a quitação final, que era 116$000 réis.

Agora as terras estão muito caras, 0$35 a braça [quadrada], e para aqueles que não pagaram regularmente todo ano foram estabelecidos novos preços. Já foram os tempos em que cada um fazia o que queria. Agora se um não consegue pagar, é passado para outro que quer trabalhar. Este ano novamente os soldados estão tocando brasileiros das terras que não compraram e ficam acocorados nas suas benfeitorias [palavra escrita em português no original].

A senhora Karkle teve a honra de engordar os agrimensores. Ela dava o “broukast” [café da manhã reforçado] e o Karlis e o Ernests levavam o “pusdienu” [“janta” do meio-dia] para o nosso rancho na Bukuvina, onde era ponto do almoço. Para nós sobrou a “vakarinhas” [ceia da noite] e o pernoite, e algumas vezes o café da manhã.

Ocorreram diversas mudanças em nossa colônia. O magnífico Firmanis Peteris logo vem para morar no fim da estrada do Grikis, naquela capoeira do Limors, e vai construir uma casa nova. A madeira já trouxe e logo vai começar a construção.

Também o genro do velho Geda, com sua Leni, foram para a sua propriedade nos fundos, e lá moram como se fossem realmente brasileiros.

Também a senhora Sanerip veio de Campinas [Araranguá] para morar aqui. Ela comprou dois terrenos do Bekeris, e assim uma família leta a mais.

Mas também o Matiss e o pessoal dele foram para São Paulo. E ainda o Juris Klavin foi para Nova Odessa, com aqueles imensos salários ganhar!

Agora as passagens de navio estão extremamente caras, porque os navios que saem de Imbituba tem somente primeira classe, e esta dizem que custa mais de 90$000.

Você durante as férias virá para casa? Se outros navios tivessem a terceira classe, como antigamente, por 50$000 Réis, até não custaria tanto. Mas, agora quase 200$000 Réis de ida e volta e mais a parte de trem.

Você diz que vai procurar lugar para ficar, mas será que vais encontrar? E se conseguir um lugar para ficar vai precisar ganhar para o sustento; será que vale a pena? O Ludis tem escrito e convidado para passar as férias com ele? Quem sabe fosse mais fácil. O que o Victor te escreve? Poderias escrever mais sobre os parentes de São Paulo.

Tens recebido cartas do Arthur Leiman? Na última ele reclamava que fazia seis meses que estava prá lá [na Argentina] e não tinha recebido nenhuma carta dos rapazes do Klavin. E do Rio Novo também nada sabia. Tu sabes por onde anda o Karlis Salit e se está vivo? O pessoal de Rio Novo alardeava que ele estava preso ou enforcado. Certo ninguém sabe. Tens escrito para o Karlis Leiman? A senhora Leiman disse que você teria escrito para ele diversas vezes e, como não tinha recebido respostas, deixara de escrever.

Os Leiman estão bem e vivem como sempre. Construíram novo paiol e até Papai também foi ajudar a levantar. Agora o Robert [Klavin] às quartas-feiras nos ensina a cantar, mas ele não tem a desenvoltura do Arthur [Leiman].

Desta vez chega, noutra vez tem mais. Esperaremos de você longas cartas.

Ainda muitas e amáveis lembranças do Papai, Mamãe, Luzija e do Arthur. Fico sua resposta aguardando,

Olga

Adeus cartas longas | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 27-12-17

Querido Reini,

Recebemos a tua carta, escrita em 5 de dezembro, no dia 23 de dezembro. Obrigado. Foi uma longa espera e nem sabíamos onde você estava. Tu escreves que mandou uma carta ainda do Rio, mas esta ainda não chegou. Os desenhos recebemos junto com dois rolos de jornais. Os pacotes de desenhos tinham sido abertos pela censura, mas os rolos de jornais não, portanto você pode escrever nos espaços vagos dos jornais que eles não abrem. Dia 22 de dezembro te mandei um cartão escrito em leto, vamos ver se chega. A mulher do correio falou que as cartas escritas em leto não serão mais abertas, mas esta tinha sinais que tinha sido aberta. A censura pelos correios não é uma coisa boa, mas muito mais difícil se as cartas tiverem que ser escritas em brasileiro — se for assim, adeus cartas longas, porque nesta língua a gente não tem facilidade.

Agora tenho tanta coisa para escrever que não sei se vou conseguir fazer pela ordem… Nós estamos passando bem, estamos todos com saúde, e nenhuma calamidade aconteceu depois daquela tempestade de fogo que varreu toda região. Pela minha carta anterior você deve ter percebido que condições precárias nós passamos.

Oh. Foi a situação mais crítica de toda nossa história. Neste ano o 15 de novembro, maior Feriado Nacional, deverá ser gravado com letras de ouro. Quantas famílias perderam tudo! Só abaixo da serra mais de vinte casas de brasileiros ficaram um monte de cinzas. Propriedades inteiras ficaram irreconhecíveis: cercas, árvores, pastagens e plantações viraram uma mancha negra. Até para os Klavin, faltou muito pouco para perderem a casa e as demais dependências. Foi quase sorte: juntaram muita gente e durante o dia inteiro usaram escadas para molhar os telhados, paredes e cercas, isso no meio de uma nuvem de fogo e fumaça.

Este ano foi um ano cheio de tragédias. No começo de ano as enchentes, depois as grandes geadas, a neve, os gafanhotos, um mês e meio de seca imensa e depois, para completar, o fogo.

Você pode imaginar como tudo ficou ressequido depois de tanto tempo que não chovia: os pastos estavam tão secos que o gado nada tinha para comer. Começamos a trazer folhas do mato [grandiuva] até dezembro, mas já estava faltando e tínhamos de ir longe nos matos e capoeiras em busca do pouco verde que restava para os animais. Também dávamos espigas de milho (as pequenas), mas já estavam acabando. Ainda bem que dia 1° de dezembro começou a chover, e choveu sem parar por dois dias e meio: agora está tudo verde.

Este ano as plantas não cresceram o que seria esperado. O milho plantado no cedo, se não continuar a chover, não vai dar nada. Em muitos lugares o milho não tem um metro de altura e já está soltando o pendão. O milho terminamos de plantar no dia 15 de dezembro, e no total plantamos 16 ½ quartas. Nunca tínhamos plantado tanto quanto este ano. A batata inglesa [kartupeles] cresceu um pouco, mas depois secou tudo. Só aqueles plantados no tarde estão verdes.

Perto de Orleans apareceram novamente gafanhotos, também em Rio Laranjeiras, Rio Belo e Braço do Norte. Perto de Orleans tive oportunidade de ver uma nuvem deles, as beiras das estradas tão cheias que chegavam a chiar; ainda bem que não estão em toda a parte. Onde eles estão eles comem tudo e começam pôr ovos. O governo determinou que as pessoas não atingidas fossem trabalhar dois dias, pelos menos, matando os filhotes [NOTA: Abriam-se valetas e espantavam-se os filhotes para dentro, cobrindo-os em seguida com terra]; nas roças tudo fácil, mas nos matos e nas capoeiras nada havia o que fazer. Se os que sobrarem subirem o Rio Novo, vão comer tudo. Esperamos que sigam para o leste, para onde foram os adultos. Para baixo de Orleans falam que tem muito mais, que na estrada de ferro não se consegue enxergar os trilhos. Os filhotes são pouco maiores que moscas, com um risco cinza nas costas; ainda não tem asas
mas são muito espertos para pular.

Semana passada comecei escrever esta carta, mas como durante as festas ninguém foi a Orleans, perdi a pressa de terminar esta. Hoje, dia 30 de dezembro, o Roberto [Klavin] trouxe a sua carta escrita em 10 de dezembro. Muito obrigado. Estou muito feliz porque você está passando bem. Você pergunta se aquelas cartas enviadas do Rio chegaram: não, a última escrita do Rio foi aquela datada 16-11-17.

Como foi o seu exame? Você não recebeu o último boletim da tua escola? Se você mandou, deve ter-se extraviado. Quanto aos desenhos, são os últimos? Eles são lindos e servirão de moldes para as minhas costuras. Você levou a sua caixa de coisas junto? Desta vez vou fazer muitas perguntas e aguardar longas cartas. Você está em férias e tem tempo bastante para escrever.

Bem, preciso escrever sobre as festas de Natal. Este é o primeiro Natal que passamos sem você…… Bem, mas tudo correu muito bem, passamos alegres e fazia muitos dias que o tempo não estava tão lindo. Não está quente demais e havia um luar muito lindo. Naquele domingo antes das festas estava chovendo e estávamos temerosos, pois poderia atrapalhar as programações, mas a chuva logo parou.

No Rio Laranjeiras estava programada a festa com pinheirinho e tudo para o dia 24, mas este dia amanheceu brusco e parecia que logo iria chover; felizmente, lá pela hora do almoço começou soprar um vento seco que dispersou todas nuvens, então alegres pudemos nos aprontar para a viagem.

Saímos às 4 da tarde e chegamos lá antes de escurecer. A estrada estava inteiramente seca mesmo dentro da mata virgem, lá onde na vez passada, na Páscoa, havia aquele lamaçal horrível. Por coincidência, éramos novamente treze pessoas: Arthurs, Arnolds, Juris, Augusts, Ernest Slengman, Ema, Lonija, Isolina, Milda, Schenia, Lusija e eu. O Roberto estava lá desde domingo. O pinheirinho era igual do ano passado e no mesmo lugar. Não tinha tanta gente como no ano passado e o programa não foi tão longo.

A festa foi dirigida pelo Roberto, que é da Escola Dominical daquela Congregação. A escola tem 24 alunos matriculados e as entradas do ano, com o saldo do ano passado, perfazem mais ou menos 30$000; as despesas, 18$000, ficando um saldo de 20$000 para o próximo ano.

Este ano não foram feitos bolos [kukas] porque está tudo muito caro. Foram comprados em Orleans, nas padarias, onde saiu mais barato, bem como os bombons [bombongas] para as crianças. Os presentes foram muitos.

Agora vou contar quais os hinos foram cantados e daí você pode cantar e fazer de conta que participou da festa. Pela E.D. de Rio Laranjeiras, foram cantados dois hinos, os de número 210 e 438 do Cantor Cristão. Todos juntos cantamos 4 hinos: os de números 18, 217, 225 e 242. Dois hinos foram cantados pelos vicitantes que vieram para cima, os de números 248 e 446. Então ainda cantou um trio masculino — Roberts, Arnolds e Arthurs, — o hino 444: “Sejais Corajosos Povo de Deus”. As poesias eu não teria como transcrever. Todo o povo participou com grande reverência.

Depois do término tomamos café e saímos de volta para casa. O cansaço apareceu na subida daquele grande morro, mas de modo geral saiu tudo bem, pois não estava nem quente nem frio. Chegamos em casa a uma e meia da madrugada. Só música não houve; não porque não tivessem sido levados os instrumentos, mas porque não foram levadas cordas de reserva e deu azar de terem arrebentado algumas — e deu no que deu…

Nos Leiman [sede da Igreja de Rodeio do Assucar] o pinheirinho foi aceso dia 26 Dez. Lá houve um programa mais longo do que no ano passado.

A festa foi dirigida pelo Arthurs [Leimans]. Poesias houve vinte e uma: dez em leto e onze em brasileiro. As em brasileiro foram declamadas por Arnolds 1, Juris 1, Augusts 1, Vilis Slengmann 1, Isolina 1, Emma 2, Milda 1, Luzija 1 e eu 1. Não posso te transcrever pois não sei onde foram encontradas. Os professores entregaram, mandaram decorar e pronto. As poesias em leto foram apresentadas pelos mesmos.

Hinos foram cantados doze: sete em leto e cinco em brasileiro. A Escola Dominical cantou os hinos do Hinário Bernu Kokle números 125, 127, 137, 109, e 134. E ainda cantaram em trio Emma, Lonija e Milda o de número 78, enquanto o Arthurs acompanhava com a guitarra. O Ernesto, Emma e Lonija Slengman cantaram o hino 7 do Musu Dsiesma Gramata, seção Ceribas Auseklis. Pela Escola Dominical os alunos cantaram em brasileiro os números 76, 161 e 247. O Arthurs fez solo do hino 220 do Cantor Cristão acompanhando da guitarra e também do violino do Roberts. Ainda a Milda e Isolina cantaram o número 73 do Cantor Cristão. Agora você sabe quais hinos foram cantados. Foram apresentadas duas músicas instrumentais do hinário inglês. O programa ficou um tanto longo.

Nunca tinha havido tanta gente: brasileiros, italianos mas muito mais rionovenses [NOTA: Membros da igreja batista rival, de Rio Novo], a juventude quase toda. Até os velhos Karklim também estavam. Para abrir mais espaço, o Matiss ajeitou lugares atrás das janelas. Assim pudemos bem recepcionar os “inesquecíveis” visitantes rionovenses. Barulho ou qualquer movimento não foi permitido pelo encarregado da ordem, o Juris Klavin, que ficou no lado de fora. Ficaram tão comportadinhos que lembraramvque não estavam em sua Igreja do Rio Novo.

Neste dia tive a oportunidade de ver as beldades do Rio Novo, antigamente não apareciam como agora vão… Pelas estradas sempre estão aos pares, e junto de cada rapaz vai uma mocinha. Ninguém sabe como vai terminar essa grande loucura…

No dia 25 de Dez. os rionovenses comemoraram o seu Natal. No pinheirinho havia somente treze velinhas, e estas eram curtas e acabaram logo. A Escola Dominical é tão grande que quase não se pode enxergar… Mas para o próximo ano o professor Butler vai tomar as rédeas e fazer todos os pequenos e grandes participar da E.D. — se não os novos ficam mal acostumados e ficam por aí.

Nas cartas passadas escrevi que o Oscar ia se casar, mas até hoje não saiu nada. As promessas eram muitas mas até agora nada, e porque também não sei. No domingo passado na casa de “T” houve o noivado de Laura e João. Agora “T” e ”S” são tão parentes que é de se admirar. Antes “T” e “S” não podiam nem se ver, agora se beijam.

Logo parece que vamos ter o casamento do Vilis Paegle com a Erna Auras. Agora saiu uma lei na Justiça que no ano que vem só poderão casar os que tiverem se inscrito este ano, e o motivo é a convocação para servir o Exercito. Por isso os meninos estão correndo para casar. E ainda há um papo de que se por acaso for casado e convocado, passará a receber um soldo muito maior que o solteiro. Não sei se estas novas da justiça tem alguma lógica ou se são só para se ganhar dinheiro com mais casamentos.

Sobre os feitos heróicos dos rionovenses eu teria muito o que escrever, mas deixa prá lá. Não vale a pena escrever.

Agora, o ano no fim, vou descrever o nosso balanço com as entradas e saídas. Neste ano vendemos 70 arrobas de toucinho que renderam 709$590. Banha, 69 quilos por 69$00. Das abelhas mel e cera, 98$000. Manteiga, 21 quilos e 37$500. Ovos, 189 dúzias e 66$300. Feijão, 11 sacos, deram 110$000. Total de entradas, 1:101$890; saídas, 374$320. Saldo: 726$970.

Este ano as entradas foram maiores e as saídas menores do que no ano passado. Agora está tudo mais caro, o feijão já está a 17$000 a saca, o toucinho 13-14$000 a arroba, e o que a gente compra é três vezes mais caro do que antes.

Dias atrás em Orleans saiu uma conversa de que teria chegado um telegrama informando que a guerra tinha terminado e que a Alemanha derrotada havia pedido a paz, pelo que houvera grandes festas em Orleans.

Bem, chega. Vou esperar uma longa carta sua. Tu podes escrever em leto e colocar no rolo com jornais, e assim vão chegar sem ninguém abrir. Aquelas fotografias dos seminaristas você chegou a nos mandar?

Com sinceras lembranças para vocês todos,

Olga