Origens da colônia: João Arums

HISTÓRIA DE UM PIONEIRO

No ano de 1889 foram publicadas no diário letão Baltijas Vestnesis [Mensageiro do Báltico] as primeiras referências sobre o Brasil, terra anteriormente totalmente desconhecida aos letos.

Alguma coisa havia sido relatada antes disso por marinheiros que transportavam em veleiros, ao porto de Santos, o conhecido e apreciado ‘’Pinho de Riga’’. Suas lembranças do Brasil não eram nada favoráveis, dadas as condições de trabalho no porto: durante o ano todo um calor insuportável, as montanhas ao fundo impedindo os ventos, dias a fio suando por todos os poros, carregando montanhas de madeira para fora do veleiro. Naquele tempo ainda ameaçava a febre amarela, que não havia sido combatida. As poças de água estavam em toda a parte; nas proximidades plantações de bananeiras estendiam-se por toda parte, espalhando sua cor verde pela redondeza. Era essa a imagem que os marinheiros transmitiam. Os navios da Letônia que descarregaram o ‘’Pinho de Riga’’ no porto do Rio Grande [do Sul], onde o clima era mais ameno, tiveram deste porto imagem bem mais favorável.

As impressões dos marinheiros sobre o Brasil não tiveram muita repercussão, tendo permanecido entre suas estreitas relações familiares. Não encontramos registros de que algum leto tivesse estado ou residido no Brasil, ou escrito alguma coisa sobre esta terra, anterior ao testemunho do pastor J. Balod e de Pedro Zalit. As primeiras referências, como já dissemos, ocorreram no Baltijas Vestnesis, de hábil autoria dos dois citados personagens, que lançavam aos lavradores a idéia de fundarem colônias agrícolas em condições melhores do que as estabelecidas em Novogorod, Simbriska, Ufa e na Sibéria – todas na Rússia. As agruras desses agricultores J. Balodis conhecia, tendo sido pastor luterano durante muito tempo na longínqua Sibéria.J. Balod e de Pedro Zalit lançaram a idéia de colônias agrícolas em condições melhores do que as estabelecidas na Rússia.

Naquela época havia entre os letos um grande sonho pelo que chamavam de ‘’meu cantinho, meu pedacinho de terra’’, não importava onde fosse. Os autores, ambos de cultura esmerada, um teólogo, outro filósofo, ainda em sua juventude e por natureza idealistas e otimistas, divulgavam suas amplas esperanças de conduzir seus patrícios às ‘’terras quentes’’. Eram parâmetros ideais as grandes colônias alemãs em Joinvile e Blumenau: suas escolas, comércio e liberdade políticas na província de Santa Catarina, de clima ameno e terras férteis.

Balod e Zalit contataram as melhores condições de imigração junto às autoridades de imigração e a empresa de colonização Grão Pará com sede na capital, Rio de Janeiro. A Grão Pará franqueou aos colonos europeus uma enorme área de terras com mata ainda intocada na comarca de Tubarão, que se estende de não distante do oceano Atlântico até a cordilheira da Serra do Mar. O acordo oferecia terras baratas, pagamento em longo prazo, passagens gratuitas desde Lisboa até a nova morada e sustento durante o primeiro ano, a ser pago com a produção das lavouras.

Os primeiros a aceitarem essas propostas foram operários da indústria cimenteira de Riga. Eram em sua maioria trabalhadores rurais que haviam deixado a agricultura por falta de condições de subsistência. Procurando trabalho, muitos haviam se juntado às indústrias de madeira e de cimento.

A terra das palmeiras
Nas industria de cimento o trabalho o trabalho era insalubre e o ambiente poluído: só poeira e fumaça. O combustível utilizado produzia mau cheiro, e a fumaça expelida pélas chaminés, levada pelo vento, poluía toda a redondeza, prejudicando continuamente a saúde da população. Os homens lembravam sua mocidade no interior, ao ar livre, e desejavam voltar a suas origens: tornarem-se outra vez agricultores, viver em suas propriedades e em suas casas. Em sua terra natal isso não era mais possível.

Entre esses operários interessados na imigração estava também o nosso irmão batista João Arums, pessoa sincera, de postura e linguagem elegantes e educadas, otimista ao extremo, líder respeitado entre seus companheiros. Podemos concluir que tenha sido graças à sua liderança junto aos operários da fábrica de cimento que durante o período de inverno um grupo organizou-se para, na primavera de 1890, quando o degelo do rio Daugava permitisse, embarcar para a cidade de Lübeck (na Alemanha) e depois Lisboa, e de lá para o Brasil.

Havia também interessados entre os batistas de Riga, que não puderam acompanhar este primeiro grupo. Porém na primavera seguinte também eles deixaram as costas de Riga rumo ao Brasil.

Enquanto esse outro grupo se preparava para o longo curso começaram a circular notícias desagradáveis. Os jovens colonos [recém-chegados ao Brasil] estavam inquietos, sentiam-se desapontados. As mulheres, nascidas na cidade, choravam pelo futuro de seus filhos. Parte dos colonos, com mais recursos, foram para os Estados Unidos, que ultimamente conquistou a fama de país de mais futuro.

Nosso Arums, no entanto, tem outras perspectivas. Ele estima a ‘’terra das palmeiras’’ com sua imensidão territorial, suas leis liberais, o romantismo da mata virgem. Comunica-se por carta com seus irmãos de fé em Riga, dizendo que não aceitem os lamentos dos descontentes: esses não confiam em Deus, não têm paciência nas agruras da vida, não possuem clara visão do futuro, sentem falta dos prazeres mundanos e da tranqüilidade da vida material. Arums assevera que as condições oferecidas pela colônia são aceitáveis e o governo correto.Ao final de sua viagem desembarcaram na estação ferroviária de Orleans. Dentro das possibilidades é possível viver e prosperar, e os parâmetros para esta avaliação são as já estabelecidas colônias alemãs. As rotas de comunicação entre as novas colônias e os pequenos portos à margem do Atlântico, bem como a ferrovia de bitola estreita (construída com a intenção de explorar as minas de carvão mineral), asseguram a possibilidade de se manter a comunicação via postal e a troca de mercadorias.

As margens do Rio Novo
Os imigrantes do grupo de batistas de Riga estavam com firmes esperanças de que no próximo ano estariam a caminho do Brasil, [o que de fato aconteceu]. Ao final de sua viagem desembarcaram na estação ferroviária de Orleans, onde foram encaminhados ao barracão coletivo da empresa de colonização.

Os recém chegados eram os “cimenteiros”, e foram recepcionados pelas duas famílias remanescentes, os Arums e os Indrikson, essa a última de estonianos (mais tarde, após algum desentendimento com a empresa colonizadora, os acima citados pioneiros mudaram-se para outra colônia).

Sem demora os batistas mudaram-se para as áreas destinadas dentro da mata virgem, às margens do pequeno riacho que os agrimensores haviam denominado de Rio Novo, distante oito quilômetros da sede do município e da estação ferroviária. Ali se estabeleceram, uns próximos aos outros. Começaram as derrubadas e fizeram suas culturas: plantaram milho, arroz, feijão e raízes comestíveis como mandioca e batata doce.

Nos cultos o coral entoava hinos em quatro vozes. Isto foi em 1891.

Logo no primeiro ano fundaram também uma igreja batista com cultos regulares. Na falta de pastor, designaram entre seus membros homens dignos e responsáveis para a administração da igreja. Nos cultos o coral entoava hinos em quatro vozes. Isto foi no ano de 1891.

Cada acampamento, sua história
A estes seguiram-se novos grupos de imigrantes das igrejas batistas de Riga, de Além rio Daugava, da Foz do Daugava e também de Liepaja e de outros lugares; mais tarde ainda da colônia leta de Novogorod, na Rússia.

Nesse ritmo de expansão, começaram a faltar terras férteis a serem cultivadas na colônia do Rio Novo. Inconformados, os colonos começaram a buscar outras áreas para moradia e cultivo.

João Zarin, um dos pioneiros no Brasil e que foi designado como agrimensor, liderou um grupo até as margens do rio Mãe Luzia. Os oriundos de Liepaja mudaram-se para o Rio Grande do Sul e fixaram-se na grande colônia de Ijuí, próximos às colônias alemãs.

Cada acampamento, sua história. Um grupo de Novogorod dirigia-se para Rio Novo, mas diante de notícias a bordo de que em Blumenau havia terras e infra-estrutura em boas condições, desembarcaram no porto de Itajaí e por via fluvial dirigiram-se para Blumenau.

Jacu-Açú
Em Blumenau sentem-se à vontade com a forma de vida dos alemães. Buscam terras onde desbravar e morar, e encontram terras devolutas a 40 quilômetros de distância, numa colônia de poloneses, entre as montanhas de Guaraniassú. Com suas oito famílias ocupam toda a área de uma baixada onde há um córrego; os que chegaram mais tarde tiveram que se contentar com outras áreas mais distantes e montanhosas.

Anos mais tarde foram chegando mais parentes e conhecidos da região de Novogorod. Estes se fixaram nas margens da estrada, onde haviam terras devolutas, embora improdutivas, por isso não ocupadas. Eram os chamados ‘’beiradeiros’’.

Chegam mais imigrantes. Onde colocá-los? Um comerciante do local, polonês inteligente, amigo dos letos, conta que em uma de suas caçadas, além do rio Patanga, encontrara numa região ainda desabitada uma várzea com um riacho. Observou que, com as frutas silvestres e as árvores, devia ser uma área de terras produtivas.

Organizam uma pequena expedição ao local conduzida pelo amável polonês, senhor Eduardo, de sobrenome polonês impronunciável. O lugar é agradável; os proprietários determinam as medições, e verifica-se que está situado nas fronteiras de três municípios: Blumenau, Joinvile e Parati. O agrimensor imagina que o riacho pertença ao município de Blumenau.

São distribuídas aos novos colonos as áreas na localidade que ainda não tem qualquer denominação. O agrimensor abate a tiro, para seu almoço, uma ave que na língua tupi-guarani chama-se Jacú-Acú – e naquele momente entende que encontrara um nome o para a localidade: Jacuassú!

Aumentaram os pretendentes às terras. Nas proximidades encontraram outro riacho, este já com nome, Ponta Comprida, reduzido a simplesmente Comprida. Verificou-se mais tarde que a área colonizada pertencia ao município de Joinvile. Correram boatos de que as áreas ocupadas a mais de dez anos, onde moram sem qualquer pagamento, é de proprietário desconhecido, de procedência realmente obscura. Não demorou a ser esclarecido: a propriedade é dos descendentes do famoso Barão do Rio Branco. Após o esclarecimento a área passou a chamar-se Rio Branco.

Um pouco do céu azul
Notícias sobre Guarani e Jaguassú alcançam Rio Novo e Mãe Luzia. Surgem famílias em uma e outra parte que se mudam e chegam para morar aqui. O primeiro a transferir-se e chegar é o nosso amigo Arums. Ele prefere a mata romântica, inóspita e desconhecida, caminhos por abrir e mudança de condições de vida. Prefere novos empreendimentos, os primeiros passos do desbravamento da natureza ainda virgem. Arums ama o Brasil e nutre por ele verdadeiro entusiasmo; lamenta não ter chegado aqui nos seus anos de juventude.

A família de Arums é pequena, três pessoas: a esposa e um filho adotivo, adotado ainda em Riga. Vivem alguns anos na colônia de Guarani. Quando falece sua esposa, fiel companheira de vida e de fé e exemplar dona de casa, Arums liquida seus bens e visita a nova colônia [leta] de Nova Odessa [no estado de São Paulo].

Volta a sua terra junto a seu filho Adolfo, que adquire uma gleba de terras em Bananal, nas proximidades de Rio Branco. Nos cultos da igreja a atmosfera espiritual é das melhores.

Com boa vontade e prazer Arums participa com o filho nos trabalhos de derrubada de árvores, abrindo novos espaços para agricultura. Não há dúvida de que a derrubada produz experiências: são árvores milenares, que sendo cortadas começam a lentamente a declinar e com grande estrondo vão ao chão, quebrando seus próprios galhos e as arvores menores. O chão estremece aos pés e na mata verde, sempre na penumbra, onde o sol não penetra, um facho de luz ilumina e aparece um pouco do céu azul…

Inesperadamente, ao cair uma destas árvores, nosso Arums foi vítima fatal. Ele amava a mata e a mata o levou. Sem enfermidades, sem sofrimentos e sem a fraqueza da velhice chegou à sua verdadeira morada, onde as arvores da vida estão sempre verdes, florescem e produzem seus frutos ‘’no meio do paraíso de Deus’’.

Um silencioso companheiro
Nós o vemos sorridente no seu retrato, tirado em sua residência – como ele andava pela vida.

Em sua memória acrescentamos algumas citações da recordação de amigos. Num discurso entitulado Letos no Brasil, impresso no Kristiga Drauga [O Amigo Cristão] de janeiro de 1948, J. Inkis referiu-se a Arums com estas linhas:

Neste grupo de imigrantes de Riga encontrava-se um silencioso companheiro, um batista com sua pequena família. Era o irmão Arums, que mais tarde passei a conhecer melhor. Vivendo numa colônia após outra, transmitia seu entusiasmo pelo Brasil, pela liberdade aqui reinante em comparação à Rússia, pela fertilidade das terras e o clima ameno, onde recuperou sua saúde.

Nas ocasiões festivas ele usava da palavra e com seu sincero semblante e sua amável figura e palavra entusiasmava a igreja dos pioneiros. No meio da mata virgem ele clamava alegremente “onde outrora os macacos em seus galhos cantavam, agora os crentes cantam louvores a Deus!’’

Numa carta o evangelista F. J. Janoskis escreve sobre ele, entre outras coisas:

João Arums foi um verdadeiro cristão, de coração ardente, sempre disposto a colaborar em qualquer atividade. A ele cabia perfeitamente a expressão bíblica a Barnabé, “filho da alegria”. Sua alma continha uma alegria inesgotável que transbordava, derramando seu entusiasmo a todos os que com ele se comunicavam.

Ele compreendia muito bem os jovens e as crianças. A cada um distribuía seus conselhos e experiências. Conhecia todas as crianças da redondeza, carregava-as no colo, afagava seus cabelos e falava meigamente de Jesus.

Na sua vida cristã cavou profundos fundamentos. Nenhum vento de doutrina poderia abalar suas convicções: era, para os demais, um anteparo seguro. Reconhecia que o objetivo e dever de todo cristão é anunciar o evangelho. Constantemente estimulava os jovens a estudar o vernáculo para poderem anunciar com eficiência a bela mensagem do evangelho aos outros cidadãos, ainda no obscurantismo. Este seu grande desejo ele chegou a ver começando a ser implantado…

Um homem como ele, de qualidades apreciáveis, foi, perceba, o primeiro batista leto a desbravar as matas do Brasil – e isso embora não tenham faltado seguidores batizados com mesmo espírito de amor. “Bem-aventurado o homem cuja força esta em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados. Aquele que leva preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo seus molhos… Esses vão de força em força.”

* * * *

Autor: Um de seus seguidores (anônimo)

Extraído do BRAZILIJAS LATVIESU KALENDARS (Calendário Leto do Brasil), Ano 1952
Tradução: V. E. Purim
Revisão: V. A. Purim e Paulo Brabo

432$000 réis para os refugiados de guerra na Letônia | Olga Purim a Reynaldo Purim

[trecho de carta, provavelmente setembro de 1918]

[…] o Butlers queria estar de volta em casa no começo de agosto, mas ainda não conseguiu navio para voltar de Desterro [Florianópolis], onde teve que ficar esperando uma semana em um hotel, pagando 6$000 réis por dia; depois conseguiu um preço mais especial de 4$000 réis pela diária, e por aí você pode ver a despesa — se tiver que parar aí.

Daqueles 150$000 que a igreja pagou, ninguém passou. As aulas começaram no começo de setembro e foi só um dia, pois no outro o professor Butler já viajou para Tubarão. A partir do ano que vem a escola vai ser paga pelo governo, tendo o Butler como professor, pois ele em Desterro prestou exame de suficiência, onde aprendeu mais em brasileiro. Mas, vamos ver se tudo isso vai mesmo acontecer, pois prometer é fácil.

Na noite do domingo passado houve a “Festa da Colheita” [Festa de Ação de Graças] e também a Festa da Escola Dominical, quando foi levantada uma coleta que será mandada para o Rio [de Janeiro] para a Associação da Escolas Dominicais, como está escrito no Jornal. A importância quanto rendeu eu não sei.

Você recebe “O Baptista” [Jornal informativo da Convenção das Igrejas Batistas do Paraná/Santa Catarina]? No último número saiu uma matéria referente ao Rio Novo. Eu encomendei esse jornal, mas ainda não recebi.

Quanto à Rússia, aquilo lá está terrível. Antes do Butler viajar foi enviada a importância de 432$000 réis para os refugiados de guerra na Letônia e outros países do Báltico. Da Escola Dominical do Rodeio do Assucar, mais 32$000 réis. Na despedida do João [Frischembruder] de Riga foi conseguida mais a quantia de 87$000 réis e ainda outras ofertas de outras sociedades, cujas quantias eu não sei. Mas o que poderá fazer este dinheiro? São tantos que precisam e tudo está tão caro!

Outra coisa terrível é que o Herman [Germano] Balod ficou louco. Faz bastante tempo que ele já estava doente — não de cama, mas sim, andando por aí e dizendo bobagens. Como ninguém mandava nos empregados eles ficavam vadiando, e dívidas há bastante. Eles estavam se aprontando para mudar para ir de mudança para Porto Alegre, inclusive venderam o gado, mas daí ele começou a ficar pior e assim mesmo o pessoal lá ficou esperando que ele melhorasse. Na semana passada ele ficou completamente alucinado, querendo matar todo mundo e quebrar a casa inteira, e a família teve que chamar os soldados para levar para a cadeia, para que se acalmasse. Assim mesmo são necessárias três a quatro pessoas para dominar o homem o tempo todo. Vamos ver como vai ficar.

Bem, hoje chega. Noutra vez escrevo mais. Lembranças de todos e que te sempre vá bem.

– Olga.

Muita gente perdeu tudo | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Antunes Braga, 8-XI-17

Querido amigo Reynold!

A tua carta de 19 de outubro, escrita para mim, para o Arnolds e para o Arthurs, deixou-nos muito felizes. Obrigado.

Nesta época a comunicação através dos correios está bastante prejudicada. O problema é que para o sul vem poucos navios. E também por isso os jornais reclamam bastante, alegando que os jornais ficam amontoados nos portos e não há navios que os levem embora. Assim também as cartas ficam bastante atrasadas.

Como já tinha escrito sobre os gafanhotos no Cartão Postal que mandei no fim do mês passado, vou continuar falando sobre eles. Provavelmente já tens notícia através de jornais de que na Província do Rio Grande do Sul foram literalmente destruídas diversas colônias, inclusive Ijuhy [Ijuí] e suas adjacências. A quantidade de gafanhotos seria tanta que o tráfego ferroviário estaria interrompido nas serras daquela província; aqui nas serras a espessura das camadas de gafanhotos seria mais de um metro, diante do que os serranos com suas tropas não conseguiriam prosseguir, etc.

Na semana do dia 23 de outubro começaram as primeiras revoadas. Muitos não pousavam, mas, todos dias passava uma nuvem de gafanhotos: um dia maior, outros dias menor. Os que pousavam eram um tanto medrosos e às vezes levantavam, saíam voando alto e iam embora. Mas havia aqueles que ao serem espantados somente mudavam de lugar. Nunca na minha vida tinha visto tantos gafanhotos. Eles devoraram grande parte do milharal e seis litros de feijão plantado; ainda bem que sobrou a maior parte, pois muita gente perdeu tudo.

No domingo, último dia de outubro, eu ia para o Rio Laranjeiras, passando pelo baixo Rio Novo, quando passaram nuvens de gafanhotos atravessando o rio. Quando cheguei na terra dos Paegles tinha ainda mais, e naquele trecho do lado do mato tinham pousado e estavam se aprontando para por ovos. Mas dentro da mata virgem não tinha nenhum.

Tendo atravessado a mata perto do morro onde mora o Leonardo, tinha ainda muito mais. Na beira do Rio Larangeiras eram tantos que faziam barulho (com as asas e as pernas) que não se ouvia outra coisa. Ao redor da casa de Caciano eram muitos, e na maioria estavam agarrados um ao outro. Os filhos do Caciano tentavam debalde espantar, pois uma vez que estes levantavam vôo, outros tantos pousavam atrás. A tendência deles era ir para as partes mais baixas do terreno comendo tudo que havia de verde por frente. A grama dos pastos já não mais existe, e coitado do gado que não tem mais nada para comer: permanece imóvel.

Quando voltei subindo o Rio Larangeiras a paisagem continuava cheios desses bichos. Atravessei o rio perto de onde alguma vez o Treimanis morou e subi aquele morro que subimos montados para visitar aquele conhecido teu e do Arthur, mas lá no alto não tinha nenhum.

Os brasileiros contaram que em Capivaras também lá passaram imensas nuvens de gafanhotos e pousaram e puseram ovos; quando o chão é cavado com uma enxada pode-se ver uma quantidade imensa de ovos, então calcule o estrago que vão fazer quando eclodirem em milhares de novos gafanhotos.

Também os de Rio Larangeiras contaram sobre a chegada; segundo eles foi assustadora, devido à imensidão das nuvens de gafanhotos, comparável a uma tempestade assoladora que fez escurecer os céus e a terra. O pessoal de lá usou de tudo para tentar espantar e fazer que continuassem sua rota, e acham que conseguiram algum resultado.

Esta região é muito procurada pelos gafanhotos; começando pelo Rio da Prata até Araranguá, poucos lugares deixaram de serem incomodados por esses insetos. E agora tive noticias de que no Rio da Prata chegaram ainda mais. Também em Urussanga fizeram estragos terríveis por toda aquela área. No Barracão ficaram mais para desova do que no Rio Larangeiras. Dizem que no Rio Belo também foi demais. Em Palmeiras e Santa Clara também.

Soube também que perto de Campinas [Nota: o mesmo que Araranguá] grande quantidade destes bichos, ao voarem para o mar, terminaram por se afogar; agora os pescadores não podem mais ir pescar, pois se atolam até a cintura na camada de gafanhotos mortos que o mar devolve para as praias. Também temos notícias de Florianópólis, de que lá a quantidade de gafanhotos afogados foi tanta que o mar devolveu para as praias, chegando a uma camada de dois metros e meio de altura…

Ainda hoje está passando pequena quantidade deles, mas voando muito alto que dificilmente se vêem; fossem poucos não seria possível avistar. Ontem apareceu uma nuvem branca que se deslocava para os lados do Rio Pequeno e ia se afastando das serras, e não era outra coisa senão outra nuvem deles. O que mais pode acontecer só Deus sabe.

A situação de minha saúde não tem melhorado nada. Estou tão magro que as pessoas que há algum tempo não me tem visto, em vez de me chamar pelo nome, me chamam de gozação de “garfo andante”. Durante o dia o trabalho não rende e as noites são curtas demais e insuficientes para o repouso. Todos dias após o almoço tenho que tirar uma grande soneca, senão não agüento até a noite. Agora estou me tratando com água [Nota: hidroterapia] e vamos ver como vai ficar.

Nas Escolas Dominicais nada importante tem acontecido, todos estão se aprontando para as Festas. Em Rio Larangeiras tem bastante trabalho com ensino das lições e apresentações, bem como ensinar a ler, e os domingos como você sabe passam que a gente nem vê; quando a gente consegue chegar em casa já é alta noite. As quartas-feiras e domingos à noite continuam como era quando você estava no nosso meio, sempre ensinando e aprendendo a cantar tanto em leto quanto em brasileiro.

Quanto à igreja, não tem acontecido nada importante até este momento. No dia 19 deste foi anunciado que o Arthur Paegle vai casar, mas isso não é nenhuma novidade. Pode ser que daqui para diante haja alguma mudança. O Artur Leimann depois das Festas pode ser que embarque indo embora, mas não está nada certo. Amanhã ele vai embarcar para passar o domingo com o pessoal do Onofre e vamos ver o que há de novo.

Onde você vai passar os dias livres (férias)? Virá para cá? Muitas lembranças do pessoal de Rio Larangeiras. Que Deus te ajude para que tenha um bom exame! Também não esqueço você nas minhas orações.

Finalmente muitas lembranças e tenha bons dias.

Roberts [Klavin]

Totalmente destruídas | Ludvig Rose a Reynaldo Purim

São Paulo, 1º de junho de 1917

Querido Reinold,

Envio-te um “vale postal” no valor de 50$00. Informe-se com pessoas corretas quanto à orientação para retirar o dinheiro nos correios.

Você me pergunta como estou passando em relação ao meu trabalho na imprensa. Nossas gráficas foram totalmente destruídas no dia 11 de abril e por isso o jornal não pôde mais sair. Faz seis semanas que estou fora de São Paulo, porquê a polícia me orientou ser melhor ficar um período fora do campo de visão – em outras palavras, sumir.

Agora pessoalmente nenhum perigo mais me ameaça, mas é realmente um período difícil, com as máquinas todas destruídas temos que providenciar novas. Esperamos dentro de poucas semanas poder voltar a circular. Até lá eu estou de férias. Passo sentado os longos dias inteiros e leio livros.

Com muitas lembranças de nós todos.

Ludwig Roze

P.S. Estou juntando alguns retratos de nossa redação após o ataque para você ver como ficou.

O Museo Nacional | Robert Klavin a Reynaldo Purim

28-V-17
A.B. [Antunes Braga]

Ao muito confiável amigo Reinhold, Rio de Janeiro

As tuas cartas recebi na quarta-feira. A primeira foi aquela que tinha uma para mim, uma para o Arthur [Purim] e uma para os seus pais, as quais imediatamente distribuí. O engraçado é que agora que eu tinha uma carta sua na mão esta deveria ser uma longa carta — E uma outra, escrita no dia 12-V, que recebi hoje e pela qual agradeço.

Alegro-me bastante, pois fiquei sabendo que estás passando bastante bem nos estudos e tens tirado boas notas.

Receba da Escola Dominical de Rio Laranjeiras muitas lembranças; eles nunca te esquecem, mas sempre perguntam se estás passando bem e aí e conto a todos das novidades e dos teus sucessos. O número de alunos é mais ou menos o mesmo, mas alguns que tem faltado não puderam ser visitados. Agora, por solicitação deles, todo domingo depois dos trabalhos normais da Escola Dominical nós lemos a lição do próximo domingo e é decorado o texto áureo – então podes ver que não sobra tempo para mais nada.

Três dos nossos alunos estão aprendendo a ler e escrever: Margarida, Augusta e José da Silva. Eu tenho ido regularmente e poucas vezes tenho falhado. A Sra. Kolegene tem se aprontado e prometido visitar o pessoal de Rio Laranjeiras há mais de dois meses, mas não foi por falta de companhia. A Isolina prometeu ir junto no Dia da Ascensão do Senhor; era para ter ido, mas daí surgiu uma dor de dentes que não permitiu, ficando assim para outra ocasião.

A “calça larga” [“moça”, pejorativo] do Slengmann esteve lá algumas vezes, mas depois saíram umas conversas desagradáveis por parte de alguns rapazes que começaram a contar vantagens. Depois de tudo investigado nada foi confirmado, mas causou muita tristeza e muitas lágrimas à pobre moça.

Aquela gente é muito unida; em qualquer caso, quando alguma coisa diferente aparece ou não dá certo, serão todas as condições avaliadas e naturalmente opiniões diversas surgirão – que deverão ser totalmente esclarecidas para que não paire nenhuma dúvida em nenhum componente do grupo.

Sobre o caso do Artur Paegle, a igreja nada pôde fazer, porque em 1912 a igreja em Pedras Grandes discutiu e deliberou que quando um membro da igreja se casar com um de fora não será reconhecido, mas também não será excluído como é praxe nas Igrejas Letas. O Arthur Leimann teria estado presente nessas deliberações mas não se lembra deste detalhe, e acha que alguma coisa teria sido alterada – mas assim mesmo ele não pôde ser disciplinado ou excluído.

No primeiro domingo deste mês, na igreja em Orleans, foi apresentado o novo casal, Artur Paegle e Frida Hilbert – e anunciado que a outra filha menor da Eeda também vai casar. Também ontem no Rio Novo noivaram o Osvaldo Auras e sua “gorda” [Emile Frischembruder].

Sobre o Rio Novo sei muito pouco. Agora na Escola regular o professor é o João Frischembruder, de Riga. Num trabalho muito esforçado, durante as aulas nos dias de semana, ele já organizou duas apresentações de trabalhos feitos pelos próprios alunos tendo em vista o desenvolvimento cultural deles – dando ênfase a saúde, higiene, comportamento responsável, correto e irrepreensível, etc.

Eu já queria ter escrito recomendando que você visitasse o “Museo Nacional”, sobre qual tenho lido bastante e que tem muita coisa interessante; agora soube que você já foi, e fico feliz que tenha aproveitado bastante.

No dia da Ascensão do Senhor o Arthur Leimann e o Avelino foram visitar o Leonardo lá no Rio Importe. Ele mora bem perto das serras, é bem o último morador antes das serras. Eles gastaram quatro horas a cavalo do Rodeio do Assucar até lá, isso avançando bem rápido pelos vales e pelos morros afora.

Quanto ao Rodeio do Assucar, nada importante há para ser assinalado: tudo correndo na melhor ordem. No domingo passado foi feita uma coleta que rendeu 10$000 para ser enviada ao Jornal Batista, para que seja distribuído gratuitamente nas cadeias. Outros deverão mandar mais 10$000 depois.

O Arthurs [Leiman] está as noites ensinado hinos brasileiros. A senhora Kolegeene ficou tão entusiasmada que encomendou da S.S.S. inglesa um hinário com notas.

Muitas lembranças de meus pais.

Que Deus o ajude a ser bem-sucedido, a seguir em frente com bons resultados em todas as atividades.

Também lembranças minhas.

Seu amigo Roberts [Klavin]



A grande revolta | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 27 de maio de 1917

Querido Reini!

Na semana passada, no dia 24 de maio, recebi sua carta que você mandou em nome do Roberto [Klavin]. Muito obrigado por ela. Ainda não tinha escrito a resposta porque não tinha ninguém que fosse a Orleans para levá-la até os Correios.

Hoje fui ao culto na casa dos Leimann e recebi A Folha da Moda e mais uma carta sua. Agora tenho, em vez de responder uma, que responder duas cartas suas. A carta do Klavin já devolvi.

Naquela primeira carta você pergunta se recebemos todas cartas. Você menciona que teria mandado uma longa carta para o papai, e esta ainda não foi vista. As outras todas foram recebidas. Essa que falta deve ter caído na unha de algum rionovense daqueles, então nunca mais a veremos. Eu já recomendei à encarregada do Correio para não entregar nossa correspondência a mais ninguém, mas nem sempre ela está lá e talvez algum outro entregue a qualquer um.

Sabe, os rionovenses vivem extremamente curiosos para saber o que está escrito em tuas cartas. Eles “sabem” que você está muito mal e que ainda nem chegou ao Rio de Janeiro, mas ficou em São Paulo com o Ludi. Agora o Ludis está na prisão, por ter sido o causador da grande revolta, e você estava junto. O Ludis está condenado a morte e ninguém sabe o que vai acontecer com você. Só sabem que não é nada bom.

Você pode mandar as cartas no rolo junto com os jornais e registradas, ou no nome do Roberto Klavin. Aquelas Folhas da Moda você não precisa assinar mais, pois quase não temos tempo para ler e trabalhos manuais elas não tem.

Agora estou passando muito bem. Você pergunta se já tivemos geadas. No dia 11 de maio teve uma grande geada aí para baixo, mas aqui em casa ainda não deu. Para os outros trouxe grande prejuízo, pois matou todo feijão. Tem italianos que perderam um saco de plantas, pois faz tempo que não geava tão forte e tão cedo.

Do [pessoal da igreja do] Rio Novo não sei de nada bom. Tenho ouvido um boato de que alguns rionovenses querem mandar o professor embora, como já é costume. Mal ele se instala no trabalho e tem gente querendo mandar embora – não entendem que ele é necessário e pode ficar desempregado.

Tu tens encontrado o Karlis? O Seeberg (Zeeberg) diz ter lido em “seu jornal” que o Karlis teria ido ao Rio para procurar emprego, mas não teria conseguido. O Zeeberg só sabe que os outros estão passando mal, mas ele mesmo o Zeeberg não sabe como está passando.

O que você pensa do grande e pretensioso Bruveris, que antes morava com os Ochs agora esta morando com o Zeeberg? Ele anda pela colônia fazendo jacás e balaios e tirando o trabalho do coitado do velho Malvess1. O Bekeris está lascando tabuinhas2 na casa do Seeberg e mora lá também. São muitas bocas para alimentar.

Você escreve que talvez o Ludis apareça por aqui – isso seria bom, ele poderia nos ajudar colher milho e bater feijão, ou será que ele já esqueceu esse tipo de trabalho? Poderíamos conversar em alemão e ainda discutir muitos assuntos (discordando). Ele poderia comer muito feijão e muita carne e ainda as laranjas que já estão ficando doces. Poderia engordar e ficar ainda mais gordo.

O comércio não está comprando feijão e a carne está barata demais, como nunca tinha sido antes. O toucinho está entre 11$500 a 12$000, e se tiver muita carne cai para entre 7$500 a 8$000. A carne tem pouca saída.

Bem, desta vez chega. O envelope estará cheio de papéis.

Com saudações sinceras,

Olga

* * *

1. O velho Malvess. Fritz Malwes chegou ao Rio Novo em 1891. Era pai, entre outros, do conhecido Julio Malwes.
2. Lascando tabuinhas. Para a cobertura de casas. A madeira mais utilizada era o louro (Cordia excelsa).

Corrida às compras | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo 29-04-17

Querido Reini,

Muito obrigado pelas cartas. Sexta-feira fui a Orleans e recebi três cartas: a do papai, a da mamãe e a minha própria. Esta última veio muito rápido, pois pelo carimbo já estava em Orleans desde o dia 21 de abril. Trouxe também uma carta tua para o Roberto [Klavin] e um cartão postal para o Arthur [Purim], que eu pude ler. Agora sei como estás passando e como vives. Pensei que esta carta de hoje deveria ser curta, porquê faz só uma semana que mandei uma carta muito, muito longa e depois disso aqui não aconteceu nada importante.

Nós aqui estamos todos bem e com saúde. O tempo está maravilhoso e no domingo passado soprava um vento muito frio. Chegamos a pensar em geadas, mas essas ainda não aconteceram. Porém os dias quentes estão longe para trás. Nas manhãs de neblina a gente já pode congelar. E como está o tempo por lá, está quente ou frio?

Numa das cartas você escreve sobre os rumores do Brasil e a guerra: aqui nada acontece e nada altera a nossa vida. Tudo continua como sempre. Há duas semanas correram rumores ou boatos de que o Brasil teria declarado guerra contra a Alemanha, porque esta teria afundado quatro navios cheios de café com destino a Inglaterra. Depois fiquei sabendo que não era verdade. Aqui o povo tem por moda, quando ouvem qualquer coisa, fazer um estardalhaço tremendo. Não tendo mais navios não haveria mais comércio; nem toucinho conseguiríamos vender, devido à interrupção total da ligação com outros portos. Durante uma semana o único comprador de toucinho foi a venda do Pinho, que através de sua fábrica de banha continuava trabalhando.

Devido a esses boatos [sobre a guerra] houve uma corrida às compras. Todo mundo saiu a comprar, pois com a chegada dos invasores “prussianos” nada mais haveria para ser comprado. Agora voltaram a comprar o toucinho, só que pagando menos, 10$300 a arroba – e agora que voltaram a comprar não querem pagar o preço anterior, mais alto.

Agora correm notícias, através de jornais de Porto Alegre, de que lá houve grandes desordens e que os alemães se comportaram com hostilidade contra os brasileiros em defesa de sua “Faterland”. Também em todo Rio Grande, porque os sócios das Sociedade de Tiro trazem em seus chapéus o emblema da “Deutschland”, brasileiros e italianos teriam se vingado destruindo os grandes estabelecimentos comerciais, metalúrgicas, etc, de propriedade dos alemães.

Dizem que aqui mesmo em Braço do Norte os soldados brasileiros estão vigiando os alemães. Mesmo aqui em Orleans, o Grünfeldt começou a se vangloriar e contar vantagens defendendo os alemães e logo foi ameaçado de levar uma surra. Ele tratou logo de fugir para não terminar na cadeia. Até agora realmente nada de mal aconteceu.

Quanto à Igreja de Rio Novo, nada de novo parece ter acontecido, e nada do que acontece em suas reuniões de negócios eles contam – mas com o passar do tempo eu fico sabendo. Hoje mesmo teve uma longa sessão, na qual o Maisin foi excluído do rol de membros e o Anz foi admitido. Continua a disputa pelos bens do Manemes, pois até o Butler e o Seeberg foram a Tubarão. Não sabemos quantas vezes eles já foram e ou quantas vezes terão ainda que ir. Pois aqueles quatro que vieram de baixo, quando você ainda estava em casa, tiveram que pagar 400$000 de seu próprio bolso.

Quanto a nossa Igreja [do Rodeio do Assucar] nada de novo tem acontecido, tudo velho.

Bem, hoje penso que chega. Você não está precisando de blocos para cartas? Se você quiser posso mandar, pois aqui posso conseguir estes blocos por 1$300, e são bem melhores que os
seus. O papel ai é caro? Como tu te vestes? Você tem com que se vestir (com orgulho)? E o Inkis é orgulhoso? E como é a esposa dele? Há entre os teus professores algum deles que sejam duros? (além do normal)

Desejo a você tudo de bom. Viva saudável.

Com muitas lembranças,

Olga

(Escrito nas laterais)
Se você mesmo lava a sua roupa, não deixe fora no varal durante o tempo em que está na aula, pois a senhora Leiman contou que o Karlis teve as dele roubadas durante o tempo que estava na escola, e por isso você deve ficar atento a essas coisas…

(No outro lado)
Se você quiser saber notícias da guerra pergunte ao “Jurka“1, pois ele sabe mais que todo mundo junto. Nas quartas-feiras ele conta notícias em roldão. A última é que sob a ponte de Laguna (Rio Pratas?) os alemães teriam colocado minas explosivas, para levar tudo pelos ares quando quiserem. Se fosse para escrever tudo que ele conta numa noite só já daria para encher o couro de um boi inteiro. Ele ganha do Ludi de longe; é pena que não tenha como ele uma gráfica…

* * *

1. Jurka. Provavelmente algum Juris; talvez o Juris Klavin.