…e se a seca continuar assim será muito triste. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1924 –

Rodeio do Assucar 17 de setembro de 1924

Querido Reini: Saudações!

A tua carta recebi já há bastante tempo atrás. E hoje não estou com ela e eu não me lembro nem metade do que você pergunta nesta carta. Acho que não tenha nada muito importante e se tinha a Luzija já deve ter te escrito. Porquê ela diz que manda cartas quase todas as semanas e o que ela escreve ela não diz e não deixa ninguém ler as cartas que ela escreve.

Aqui nós graças a Deus estamos passando suficientemente bem e nada tem de novo tem acontecido. As chuvas sim que são muito poucas e se continuar assim será muito triste. A seca no ano passado começou em novembro e deste então não houve nenhuma chuva que fizesse o nível dos rios subirem ao normal. Aqui no Rodeio do Assucar o riozinho ainda corre, mas lá no Rio Novo faz tempo que a calha não corre nenhuma gota d’água. A água para o consumo da casa tem que ser trazida da grota funda. As atafonas passam mais tempo paradas [A grande maioria destas atafonas, engenhos e serrarias em tempo de seca, tinham represas ou açudes para acumular água, para serem usadas por um certo período] e nem grãos para serem moídos.[Está se referindo aos danos da seca na colheita anterior].O tempo sempre está bom frio e com muito vento. A semana passada foi um pouco diferente porquê esquentou um pouco, mas ficou tão enfumaçado que não dava para ver o sol. As vezes a gente podia ver o sol como um disco através da fumaça. Sábado ficou nublado e no Domingo choveu um pouquinho e na Segunda e na Terça feira amanhecer nublado e escuro então pensamos que agora iria chover bastante e então ontem a noite choveu até bastante, mas hoje está tudo limpo outra vez e não aparece nenhuma nuvem para qualquer lado do horizonte. Melhorou um pouco porquê a poeira apagou e o pasto está se mostrando um pouco mais verde. Para o gado este ano não foi fácil pois durante o verão o pasto já tinha secado e depois agora no Agosto vieram as grandes geadas. Tudo agravado, pois este ano o restolho [As espigas de milho pequenas eram destinadas para a alimentação do gado e eram chamadas de “restolho”] não temos suficiente.

Na semana passada terminamos de plantar a mandioca. Plantamos de mandioca 18.600 mudas, De aipim plantamos 2.700 mudas. As derrubadas dos capoeirões também já terminamos. [Era hábito entre os agricultores deixar as áreas de terra cultivada “descansando” por um período de até 5 anos e quando já havia crescido uma capoeira ou mais tempo um capoeirão era novamente roçado e queimado e tornado a cultivar.] Já plantamos pepinos e batata inglesa para que até as Festas do Natal quando vieres para casa passear para você se deliciar de tudo isso e mais das grandes melancias que também nós já plantamos.—-

Junto a esta carta estou enviando uma “receita” que o Diretor prescreveu e as quais aqui na farmácia tinha que esperar por um longo tempo e ainda ele cobra 15$000 por vidro e assim eles põem 5$000 de lucro por unidade. Naquela vez eu comprei um vidro e tomei e não observei nenhuma melhora significativa porquê aqueles são aqueles remédios que são necessários tomar aos baldes. Então comecei a tomar aqueles dois vidrinhos de remédios que o Wictor trouxe que agora já estão no fim, mas a perna não melhorou nada. Se você puder comprar maior quantidade, quem sabe uma meia dúzia, então poderia usar mais tempo, aqui o farmacêutico quer encomendar, mas ele quer ter um lucro exorbitante, no Rio custa 6$000 e aqui ele quer 15$000. Melhor seria se alguém que viesse de lá pudesse trazer.

Bem desta vez chega de tanto escrever, pois também eu não tenho a máquina de escrever que facilita escrever mais rápido como você ai. Sobre outras coisas eu pouco sei porquê às noites poucas vezes a Igreja eu vou. Pode ser que a Luzija que vai para todas reuniões de preparação dos professores da Escola Dominical e Estudos Bíblicos possa te contar porquê para mim ela não diz nada. Então escreva diretamente e pergunte a ela.. Vou esperar carta sua. Com lembranças. Olga.

…soldados para as entradas da cidade com ordens para proteger a cidade, mas não atirar primeiro| De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Assucar 2 de março de 1923

Querido Reini! Saudações!

A tua carta escrita no dia 7 de fevereiro eu recebi hoje a noite, os demais de casa já a tinham recebido ante ontem [Pelo motivo de haver dois domicílios] e eu hoje mesmo vou começar a resposta.

Você reclama que não recebe cartas de casa e estas demoram, mas eu escrevi duas longas cartas que você recebeu e se elas tivessem sido extraviadas ai então haverá um grande prejuízo.

Você diz que as últimas notícias são referentes ao mês de novembro. Pois naquela ocasião, todos nós escrevemos convidando para você vir passar as férias em casa e assim ficamos esperando terminar as aulas e você vir para embora.

Quando as aulas terminassem você não, estaria mais lá, então prá que escrever para lá. Continuamos esperando quem sabe, ele tenha ou queira passar as Festas lá. Na véspera de Natal a Luzija foi até Orleans pronta para trazê-lo como grande e importante cidadão, mas nada, então você ainda esperava que em pleno Natal estivéssemos escrevendo cartas, quando tínhamos certeza que você estaria aqui.

Nesta época chovia muito e devido ao muito trabalho, quando chegava a noite, vinha um sono tão profundo que não era possível agüentar. Então no dia 19 de janeiro mandei uma longa carta e quando levamos ao correio naquele mesmo dia recebemos aquela sua carta escrita no dia 26 de dezembro e respondendo a esta no dia 9 de fevereiro mandei outra longa carta e ainda naquele mesmo dia a Luzija mandou um cartão postal a não ser que estas cartas não tenham saído de Orleans.
Os cartões que você diz ter mandado aqui não apareceram. Por ai você pode ver que não faz tanto tempo que nós não escrevemos, mas sim outras coisas estão erradas como o Correio.

Agora sim há alguma coisa de novo para escrever apesar de nós aqui estarmos em tempo de guerra por aqui e não sei se vai passar pela censura.

Aqui há semanas atrás, houve guerra e ameaças de luta e ainda não sei o que mais vai acontecer. O povo não está satisfeito nem em paz com o Governo por causa dos altos impostos e então se organizaram partidos dos italianos, poloneses, brasileiros, todos de todos os lados se dirigiram a Orleans à noite e fizeram uma grande reunião na frente da casa do Intendente onde falaram e reclamaram.

Isto foi num Sábado e como até Segunda feira nada tinha mudado foi programada uma invasão sobre a cidade de Orleans [Guerra da Palmatória] para Terça feira e ai os letos também foram. Mas como em tudo, haviam traidores e chegado antes e contado que os colonos marchariam sobre a cidade a policia mandou pelotões de soldados para as entradas da cidade com ordens expressas de proteger a cidade, mas de não atirar primeiro. A grande maioria fugiu e outros entraram em luta corporal com os soldados e foram presos. Tudo o que aconteceu eu não sei claramente, mas nas próximas cartas eu prometo esclarecer mais e ainda vamos ver como isto vai terminar.

O tempo, esta bastante chuvoso, mas não tanto como antigamente. Tempestades e tormentas com vento também vêm ocorrendo com freqüência, mas para nós não causaram nenhum prejuízo e daqui para a frente a gente não sabe, pois ainda tem muito milho ainda pendoando. [As ventanias derrubavam quebrando as hastes do milho causando prejuízos às lavouras.] Melancias este ano não deram, para não dizer que não deu nada deu uma só. Pepinos também deram menos que os outros anos.

Agora mesmo recebemos uma carta do Andreys [tio] da Letônia. No ano passado quando recebemos outras cartas dele eu e o Pappa escrevemos longas cartas e o Jekabs ainda estava lá, mas, quando ele recebeu o Jekabs e a família já tinham viajado para o Brasil. Ele em seguida tornou a escrever para o Jehkabs que já estava chegando no Brasil avisando que não fosse para o deserto, pois nós o estávamos esperando e qual eram os planos e o que nós fazíamos aqui.. O Andreys não veio porque não tinha dinheiro e também porque estava doente e por uma parte foi bom porque ele não concorda com infelizes espiritualistas que estão fugindo para o deserto. Ele tinha recomendado ao irmão Jehkab que não ficasse em São Paulo e sim viesse para cá, mas parece que ele não quis assim. A carta já ficou muito longa e eu não tenho mais tempo para escrever tudo. Outra vez eu escrevo mais. Lembranças de todos e também da Olga.
Escrito na lateral: Não admire que as cartas não cheguem, pois agora o agente do correio é um leto que pode censurar tudo. –