O Brasil está em guerra | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 15-11-1917

Querido Reini,

A tua carta escrita em 29 de outubro recebi ontem à noite. Obrigado! Você pergunta se recebemos todas as cartas, as últimas, sim. Uma no sábado passado, outra no domingo, e logo providenciamos as respostas: longas cartas e ainda 200$000 em dinheiro que despachamos logo na segunda-feira.

Apressamos as respostas para que chegassem ainda antes do fim do mês; esta estou escrevendo esta hoje de noite para mandar para ver se mando ainda amanhã.

Você escreve que o Brasil está em guerra. Nós só ficamos sabendo no dia 12 de outubro. Em Orleans o povo não fala outra coisa; contam coisas medonhas sobre a guerra, como em São Paulo todos estabelecimentos pertencentes aos alemães estão sendo sistematicamente destruídos. Se isso é verdade, como é que nas férias tu queres ir para lá? Junto com o Ludis [Ludvig Rose] acho não ser nada seguro. Nós nos preocupamos por você. Aqui acho que estamos relativamente seguros, pois achamos que na colônia não vai chegar nenhuma dessas desgraças.

Os donos das vendas sobem os preços das mercadorias todos os dias. Na outra vez, quando houve aqueles rumores de guerra, eles não queriam comprar toucinho, mas agora pedem encarecidamente que tragam toucinho; estão pagando 11$000 a arroba ainda com ossos, e enquanto o milho eles estão pagando 5$000 a saca, mas como será daqui para frente eu não sei.

Nos estamos bem, todos com saúde. Mas hoje foi um dia horrível, pois deu uma tempestade como não lembro ter visto um igual. Não tem chovido há mais de mês; tudo que foi plantado está secando, e hoje esta tempestade. Os dias anteriores eram realmente de tempo bom e também não tinha vento nenhum, mas hoje de manhã começou a soprar um forte vento do lado da serra; não aquele quente, mas bastante frio.

De manhã não era muito forte, mas quando chegou perto do meio-dia empurrava com tanta força que a gente não podia ficar de pé. Como a terra estava muito seca, formaram-se nuvens de poeira tão forte que nada na frente podia-se ver.

Hoje de manhã fomos à “Bukovina” e a serra estava limpa, mas os serranos que ontem e anteontem tinham queimado os campos deixaram aqui e ali porções de áreas queimando; com o vento, grande parte dos costões da serra estavam ardendo. Com mais vento, formou-se um verdadeiro mar de fogo descendo para o nosso lado. Aqui na roça também tínhamos um toco de madeira queimando e faltou pouco para que as faíscas levadas pelo vento chegassem nas samambaias secas da vizinha (Maninha?); com muito custo apagamos completamente esse foco.

Não sei como se saiu o Bekeris, pois ao redor de sua casa queimava mato, capoeiras e até o capim rasteiro; é verdadeiramente um milagre que a casa dele tenha escapado. Também do outro lado, perto da casa da Sesinanda, também vinha um grande fogo; à tarde, quando saímos para vir para casa, aquela área estava envolta em roldões de fumaça e fogo.

Também no Rio Novo há queimadas em diversos lugares. Por onde quer que a gente olhe são paisagens aterrorizantes; ainda a essa hora da noite clarões do fogo descontrolado estão por toda parte, espalhados pelo forte vento, e a gente não sabe como terminará esta tragédia.

Quando atravessamos a mata virgem na volta da Bukovina admiramos a grossa camada de folhas e galhos secos que cobriam o caminho e toda floresta, e calculamos com que facilidade, se chegasse uma faísca de fogo, aquilo tudo se transformaria numa verdadeira fogueira. Quando chegamos perto de casa, quase não a reconhecemos: laranjeiras derrubadas, e quando não a árvore, grande parte das frutas debulhadas. Pessegueiros caídos, galhos quebrados por toda parte, telhados das colméias arrancados.

Bem, agora chega. Esta vai ser a última carta que escrevo para o Rio. Até agora ainda não sabemos para onde tu vais nas férias, nem o teu endereço, por isso não espere cartas nossas. O Leiman falou que você talvez fosse para casa de Karlis. Agora faça o que achar melhor; nenhum conselho podemos te dar.

E ano que vem, vais continuar na escola? Não se preocupe muito conosco, o importante que te vá bem.

Com muitas sinceras lembranças de nós todos,

Olga

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