Agora vou contar alguma coisa sobre o tempo que está por ai. | De Arthur Purim para Reynaldo Purim – 1925 –

Rodeio do Assucar 4 de novembro de 1925
Querido irmão Reini: Saudações.
A tua carta escrita a 30-8 [Deve haver algum erro nesta data] recebi já há alguma semanas atrás. Por ela um grande muito obrigado. Desta vez a sua carta veio um pouco mais longa do que nas outras vezes. Mas eu gostaria de receber cartas mais extensas suas, porque eu mando 3 folhas de papel escritas nos ambos lados e você me responde com um papelzinho escrito somente de um lado e ainda diz que escreveu mais do que eu. Nisso não acredito.

Agora eu vou contar alguma coisa sobre o tempo que está por aí. O tempo está muito chuvoso, já ha algumas 3 semanas que chove todo o dia que quase não permite trabalhar na lavoura e o que é capinado volta a brotar na mesma hora.

Aqui antes estava bastante seco, mas no dia 14 de outubro começou a ficar escuro e nublado e mais tarde na mesma noite começou a chover e assim continua até hoje e o sol não tem chance de brilhar, na semana retrasada talvez por ½ hora o sol brilhou. Mas os rios não subiram demais, deve ser porque antes estava seco demais. As chuvas não são fortes demais, mas suficiente para que a lama não seque e não permitir que se trabalhe nas roças.
Durante a semana passada nós estivemos fazendo farinha de mandioca, para aproveitar a boa quantidade de água no riozinho [Este pequeno rio é o do Rodeio do Açúcar que vem do beirando a estrada que vai para a Invernada].

Pois ele estava bem cheio e também pela pressa, pois este ano a mandioca está terrivelmente atacada por uma espécie de podridão e assim deixar para o ano que vem não vale a pena.

Quanto aos demais serviços de casa e das lavouras estão indo mais ou menos bem, somente esta temporada de chuva tem atrasado os trabalhos de um modo geral, mas assim mesmo de um jeito ou de outro temos plantado 9 mil pés de mandioca, 1 mil pés de aipim, todos em terra arada. Também 3 quartas de arroz cuja maioria está no limpo, pois nós já capinamos uma vez. Milho é que nós temos plantado pouco, pois com este tempo de chuvas não permitiu a queima da coivara. Se não fosse assim teríamos plantado bastante, mas neste caso paciência.

Sobre aquela Associação Rural eu gostaria mais te explicar, respondendo a tua pergunta se eles dão as sementes de graça. De graça eles não dão, mas o pagamento é quase simbólico e insignificante, por exemplo, semente de arroz: todo sócio pode adquirir 60 quilos de semente e não mais, ao preço de 50 réis o quilo. Este limite é estabelecido, pois se aos não sócios fosse fornecido a Associação não teria sementes suficientes e mesmo com sendo pagas se todo Maneco escrevesse e pedisse as sementes e em elas chegando ele poderia por na panela e é por isso que as sementes são fornecidas a sócios idôneos e estes todas sementes recebidas deverão ser plantadas e durante o ano um fiscal desta sociedade deverá fazer uma visita a fim averiguar o bom uso e o resultado das sementes. Quanto ao pagamento de inscrição, jóia, ou mensalidade nada foi informado, mas eu acho que a única despesa é o custo das sementes. Você recomenda-me conversar com alguma pessoa que já é sócio, mas aqui não sei de nenhuma pessoa e assim não tenho elementos para melhor avaliar a validade de associar-se a esta sociedade.
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Penso que desta vez chega. Noutra vez eu escrevo mais. Escreva uma longa carta para mim. Com saudações. Arthurs

(Escrito na margem)
Hoje é 6 de outubro [Deve ser 6 de Novembro e não 6 de outubro] e eu estou no Correio e recebi a tua carta de 27 de outubro. Não li ainda. O mesmo.

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN – 4ª PARTE

DR. REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin
4ª Parte

Sua rotina semanal:
Aos sábados: Bangu, onde, tomava as providências, fazer visitas, reuniões, programa especial à noite. Domingo o dia inteiro, Escola Bíblica Dominical, culto, almoço em casa de alguma família escalada, mais visitas, trabalho evangelístico ao ar-livre, culto a seguir. Tudo terminado tomava o trem e vinha para a cidade para as suas lides da semana. Quarta-feira à tarde, novamente Bangu e assim sucessivamente. Só quem conheceu os trens e os bondes daquela época pode calcular o sacrifício que era.

Um ano ele enviou para nós, pelo correio, um pacote com livros, em sua maioria de Monteiro Lobato: História das Invenções, Aritmética da Emília, Emília no País da Gramática, Serões de Dona Benta e outros. Foi uma alegria e também oportunidade, uma vez que gostávamos muito de ler, pois lá no sítio poucos recursos tínhamos para obter livros.

Certa vez, no dia seguinte à sua chegada em Rio Novo, após o café da manhã, ele foi logo dizendo: “calça velha, calça velha e um chapéu de palha”. Seria uma calça remendada de meu pai que era mais baixo que ele. Ficou uma “figura”. Queria logo ir com a gente para a roça capinar ajudando na lavoura. Como o sol era muito quente ele ficava com os braços queimados. Lembro-me de que ele próprio tirava a pele dos braços em longas tiras secas. Tudo isso era contra a nossa vontade, pois viera para descansar. Mas ele não era de ficar parado. Isto também era, para ele, uma boa higiene mental. Aos domingos ele pregava e também em algumas noites, à luz dos lampiões, no templo da Igreja Batista local em Rio Novo.

Lembro-me de que ele, com a mania de professor, sempre andava com lápis vermelho no bolso para corrigir as provas. Assim é que pediu logo os nossos cadernos da escola primária. Foi logo achando o que corrigir e reclamar da professora que não corrigia direito os seus alunos.

Houve um ano em que ao chegar em casa e abrir a mala nós, os meninos, vimos que ele trouxera um exemplar cinza-azulado de “Admissão ao Ginásio”. Supúnhamos que ele tinha intenções de levar algum dos sobrinhos para internar em um colégio no Rio ou em algum outro lugar. Passados alguns dias ele começou a nos dar aulas das matérias ali contidas: Português, Matemática, História, Geografia. Mas como ninguém cobrou nada dele, ficou por isso mesmo. Assim como veio, deixou o livro e voltou para as suas lides no Rio de Janeiro.

Nas suas férias gostava muito de apreciar a natureza. Ficava impressionado com o verde exuberante do sítio.
Mas reclamava de que meu pai e a família precisavam se organizar e viver dentro de um orçamento fixo. Não adiantava argumentar que as colheitas eram muito incertas e que os imprevistos eram constantes. Como solteirão e não tendo filhos, ele podia viver desta forma; mas para uma família na roça, dependendo da lavoura, isto era impossível. Mas quem para convencê-lo?

Também não queria que derrubássemos as matas virgens, pois, havia uma área muito boa, um chapadão com mata nativa e que poderíamos cultivar uma excelente área para boas plantações e colheitas. Entretanto, tínhamos que fazê-las em encostas e já muito gastas pelos anos anteriores e erosões. Às vezes as chuvas eram muito fortes e lá ia tudo água abaixo.

De longe, ele exercia forte influência sobre a nossa família que o respeitava e considerava. Entretanto, o tempo passou e tudo lá ficou.

No Rio de Janeiro

A minha primeira experiência com o tio Reynaldo no Rio de Janeiro foi já no ano 1958, quando já estava estudando em Curitiba. Eu era o coordenador da Organização Embaixadores do Rei no Paraná. Então fui convidado, com tudo pago, para participar de um Congresso Nacional no Sítio do Sossego em Rio Dourado, Estado do Rio. Como o trem da Leopoldina iria partir numa segunda-feira, viajei de avião pela primeira vez, chegando ao Rio no sábado, já bem de noite e fui logo procurar o Colégio Batista na Tijuca onde a meninada estaria se encontrando. Assim foi. No dia seguinte, procurei ir a Bangu. Tomei todas as informações e depois de muitas voltas cheguei à estação de Bangu. Procurei pela Rua Silva Cardoso e me informaram que era a próxima abaixo. Queria o número 279. Fui caminhando e encontrei uma casa velha e adaptada bem simples. As classes da Escola Dominical já estavam voltando para o culto. Era gente que não acabava mais. Assentei-me bem atrás e uma senhora logo veio falar comigo, perguntando se era crente. Respondi que era sobrinho do pastor, mas que era surpresa e não queria que ele soubesse. Assim foi. Logo pude ver o Tio lá na frente. Terno azul-marinho. Ao se por de pé, no púlpito, lançou seu olhar de quase 180º, e o silêncio total. Como que abraçando o púlpito que era próprio para a altura dele, colocou o seu dedo indicador da mão direita em riste, todos ficaram em pé. Anunciou o primeiro hino, e assim o culto transcorreu. Mensagem simples, de ótimo conteúdo bíblico. Era impressionante como ele prendia a atenção de todos até o fim da mesma. Todos prestavam atenção. Não queriam perder o pensamento até o fim. Quando o culto acabou, fui me encontrar com ele que foi dizendo “mas você por aqui?” Logo falou com a família que iria dar o almoço para ele e pediu que “colocasse mais água no feijão…” Pude notar o quanto era querido e considerado por todos.

Naqueles tempos ele já morava no bairro do Rio Comprido, à Rua Sampaio Viana, 46, propriedade do Maestro Arthur Lakschevitz. Ele morava em cima de uma garagem onde funcionava a gráfica desse irmão. Nela eram confeccionados os Coros Sacros, a Revista Teológica do Seminário do Sul e impressos para as igrejas. Lá em cima eram dois cômodos. O da frente, o maior, era a biblioteca, cadeira, escrivaninha e de tudo o mais. Na parte de trás era a cama e outras coisas do seu dia a dia. Como ele sabia que iria chegar, estava me esperando na calçada. Assim me fez entrar. Subimos pela escada que ficava nos fundos. Foi logo me mostrando a sua famosa tese de doutorado em filosofia. Estava embrulhada em vários papéis, inclusive um contra incêndio e outro contra umidade. Lembro-me que, talvez pela emoção, acabou quebrando o vidro ao fechar o armário.

Depois, em junho/julho do ano 1960, foi quando aconteceu o X Congresso da Aliança Batista Mundial. Fui o responsável pelo grupo que foi de ônibus de Curitiba. Ficamos alojados no Edifício Love no Colégio Batista. Logo nos encontramos e gostava muito de que estivéssemos juntos. Como ele sempre gostou de aproveitar bem de tudo, não participou como dirigente de nenhum grupo ou como intérprete que bem poderia ter sido. Gostava sempre de procurar um lugar próximo a uma caixa de som para não perder nada do que acontecia no Maracanãzinho. A gente ia almoçar no bandejão do SAPS da Praça da Bandeira que hoje já não existe mais.

O Congresso foi indescritível. Tive muitas oportunidades maravilhosas, especialmente no encerramento na tarde do dia 03 de julho, com o Maracanã cheio, o grande coral, Billy Graham pregando e milhares de pessoas manifestando-se ao lado de Cristo.

Continua…

Pois tu sabes que eu não tenho nenhuma máquina de escrever,… | De Olga Purim para Reynaldo Purim 1924

Rodeio de Assucar 26-11-24

Querido Reini: Saudações!
A tua carta recebi junto com os medicamentos já há algum tempo atrás. Por tudo isso muito obrigado. Você naturalmente vai me perdoar porquê já em seguida minutos depois não escrevi a resposta. Pois tu sabes que eu não tenho nenhuma máquina de escrever, que funciona rapidamente. Eu também economizei para esta carta chegar num momento que você esteja de férias para dar tempo de ler.

Você se esforça demais, porquê tem muito que fazer, mas depois poderá ficar como eu que não consigo nem fazer metade do que eu fazia antes. [Ela já estava muito doente] Será que não existem outras pessoas que possam fazer o seu trabalho ou você que sabe não precise mais ir para a escola, pois nunca poderás absorver toda sabedoria e ciência do mundo.
Nós graças a Deus estamos passando mais ou menos bem. O tempo sim está muito seco e muito ventoso. Não sei qual vai ser o resultado das roças, uma coisa é certa, não vai ser tão bom quanto ao ano passado. Para qualquer lado que se olhe tudo está pelado e ressequido por falta de chuvas e se continuar assim não vamos ter nem melancias nem pepinos, apesar de termos plantado muito.
O milho já terminamos de plantar e de um modo geral os trabalhos nas roças estão rendendo bem porquê a chuva não atrapalha e as coivaras que são queimadas, elas ficam realmente limpas e mais fáceis de trabalhar e ainda as ervas daninhas que quando capinadas ela logo estão realmente secas. As ervas daninhas também não crescem tanto se bem que mais que o milho.
Agora esta seca está em toda parte. O Artus Leiman tem escrito para os Osch [Os sogros dele] que onde eles agora estão na nova morada 2 e 1/2 dias de viagem de trem, adiante do Fritz e lá também faz 6 meses que não chove [Na Argentina] e por isso quase não se consegue água boa para beber e pode-se fazer o café quanto forte quiser, o mesmo não fica com sabor aceitável. Nós dos Leimans faz bastante tempo que não temos recebido nada. O Fritz escreveu para o Zeeberg que a senhora mãe dele está começando ter problemas de visão e tem muita dificuldade de enxergar e bons óculos por lá não se conseguem.

O dinheiro que você mandou faz muito tempo que já recebemos. Dos nossos parentes de São Paulo faz muito tempo que não temos recebido nada, apesar de eu ter escrito para eles. Acho que eles estão ficando orgulhosos na sua nova fazenda, pois depois da revolução não recebemos mais nada deles. O Pappa pediu para que nós escrevêssemos para você no caso de não vir para casa nas férias, então fosse até São Paulo para visitar estes nossos parentes e ver quantos eles realmente são.
Recentemente recebemos de S. Petersburgo, uma carta com a fotografia do Tio Reine. [Irmão do Jahnis, Do Jehkabs e do Andreijs. ??????] Você se lembra dele? Ele é um gordo solteirão. [Resns Vetzpuisis em leto]
Bem por hoje chega. Tenho ouvido dizer que no Rio teve uma grande Revolução, nem sei se as cartas estão chegando normalmente e se não chegarem todo este trabalho ao vento. O que fazes agora? Onde moras agora? Lá mesmo na Escola?
Agora a Kate está toda alegre porque a Selminha virá para casa nas férias. Vamos ver se será possível, pois nesta época de revoltas de repente não dá…
Mais uma vez muito obrigado pelos remédios vamos ver se o resultado será satisfatório. Com muitas lembranças Olga.

Ernesto Grüntal – Recordações de João Reinaldo Purin | Crónica Histórica de Rio Novo

ERNESTO GRÜNTALL – RECORDAÇÕES DE JOÃO REINALDO PURIN

Ernesto Grüntall era uma “figura” solitária que morava ao norte de nossa propriedade na colônia dos letos de Rio Novo e adjacências.

A nossa casa ficava numa subida que era conhecida como “o morro dos Purim”. A estrada ao chegar em cima do morro se dividia.

O local era conhecido como “encruzo” ou “encruzilhada”. À direita ia-se para Rio Carlota e à esquerda ia-se para Brusque do Sul. [ Neste ponto as pessoas que vinham da Igreja as vezes ficam bastante tempo conversando antes de separar-se e antigamente este lugar era chamado de “Kanels” porque havia um tronco imenso desta árvore]

Caminhando-se uns 100 metros para a esquerda, pela estrada cheia de pedras ferro pontiagudas, chegava-se à entrada da casa do Ernesto Grüntall. Havia uma porteira e mais para dentro uma casa de tijolos à vista. Era tudo muito simples, uma vez que não tinha a menor preocupação com coisa alguma. Estava sempre lendo alguma revista ou jornal antigo.

Mais aos fundos havia uma olaria que nunca a vi funcionando.
Mais adiante ainda ele fazia algumas plantações que não davam para a sua subsistência. Apesar de serem terras planas e uma grande área para cultivo.

Passados alguns tempos apareceu em sua propriedade e mais tarde veio morar na mesma casa uma senhora conhecida como Maria Bombazara que nós a chamávamos de “Velha Marica”. Usava óculos redondos, cabelos oxigenados e crespos artificialmente. Lembro-me que vi, perto do fogão, pela primeira vez uma espécie de tesoura ou tenaz que era aquecido no fogo para aquela finalidade. A “Velha Marica” era bem ranzinza. Criava problemas com todos os vizinhos; inclusive com meus pais, nunca soube o por quê. Parece também que mexia com algum tipo de magia.

Pois bem, o Ernesto Grüntall era de um físico frágil, como se pode ver na foto de n.289. Tinha um andar lépido. Freqüentemente aparecia em nossa casa para conversar com a vovó Lizette e com papai e os demais. Conversava bastante com o Valfredo que poderá também relatar outras recordações. Era pacífico e muito bom de conversa, sempre querendo saber das novidades. Não me lembro de tê-lo visto nervoso ou criando problemas com quem quer que seja.

Lembro-me de que nos tempos da 2ª Grande Guerra, ao receber uma carta, creio que tenha sido a última de sua namorada que se chamava Toska que morava na Alemanha; veio feliz nos mostra e lia alguns trechos que falavam de uma tal de “schlakfeast” que se referia ao carnear porco cevado.

Também trazia jornais da Alemanha com um suplemento infantil em Alemão “ KunterBunt” que nós ficávamos vendo as figuras. Ele era grande admirador do Führrer Adolf Hitler.

Outra lembrança que tenho do Ernestinho como era conhecido, foi quando, certa vez, ao voltar da cidade de Orleans, entrou em nossa casa e contou maravilhado que viu uma “máquina de moer dinheiro”. Era naturalmente a máquina registradora que ao se rodar a manivela, a gaveta se abria para dar o troco.

Outra vez, não sei como a conversa girou em torno de dentes. Ele, então disse que não queria mais dentes, pois assim toda comida ia direto para o estômago… Meu pai, como sempre, por tudo isso achava muito engraçado e ria muito. Pois o Ernestinho sempre dava a tudo um ar filosófico.

Pouquíssimas vezes aparecia na Igreja Batista Leta de Rio Novo bem como em outros eventos da comunidade leta, tais como piqueniques etc. Como já foi dito, era asceta, ou niilista, ou ateu ou coisa que o valha.

Saí de Rio Novo, em fevereiro de 1954. Passados alguns tempos, soube que o velho Ernestinho havia falecido e que tinha sido sepultado no cemitério da Igreja Batista de Rio Novo. O nosso pai é quem dirigiu o serviço do funeral. Não sei o que ele teria dito nessa ocasião a respeito dele. Realmente ele foi uma “figura” ímpar. Um bom vizinho.

Está um luar maravilhoso…. | De Olga Purim para Reynaldo Purim

25 de novembro de 1920
Querido Reini! Saudações!
Eu não pensei que tão rápido teria que te escrever, porquê cada ano que ia e ano que vinha, as tuas férias, nunca sabia onde ias passar e como não podia ser diferente este ano também você nada escreveu onde estás e para onde irias. Recebemos no Domingo passado os papéis azuis com os jornais, mas lá também não veio nada escrito. Já estava conformando-me em ficar aguardando o seu endereço temporário, não sei quando. Mas ontem a noite recebi a carta escrita no dia 11-11-20, a qual chegou muito rápido. Por tudo muito obrigado. E hoje a noite já estou escrevendo a resposta, pois é provável que alguém de nós vai para a cidade e logo esta chegará ao seu destino. Também não te admires se não tenho novidades, pois não faz muito tempo uma dia 4 de novembro acompanhada de uma fotografia e a outra dia 9 de novembro. As tuas cartas foram todas recebidas e extravios não houveram nenhum. – Dos nossos parentes da Rússia você mandou alguma carta para nós?
Tempos atrás pensávamos que você viria para casa, mas há pouco tempo atrás, recebemos “O Baptista”, onde está escrito que estão te convidando para trabalhar no Paraná. Então deduzi que se fostes convidado então irás para lá, mas veja infelizmente não deu.
Se tivesses vindo para casa poderias ainda chupar muitas laranjas e também os pêssegos estão muito bonitos. O Rubis (Roberto Klavin) como grande cientista previu que este ano será um ano bom, também para as uvas e tudo vai se desenvolver-se muito bem. E ainda tem o mel, enfrentar as abelhas para colher o mel, você não vai mais precisar, porque a colheita já terminou e todo o mel já foi tirado. O que você poderia fazer era negociar, comprando barato e vendendo com lucro em outros lugares. Nós das 55 colméias antigas tiramos 17 latas. Todos produtores de mel fizeram boa colheita. O tempo hoje à noite está muito bom, está um luar maravilhoso, tão claro que é possível ler um livro ao luar e também a temperatura está amena e nada quente. Nós agora estamos capinando a mandioca e o milho e ainda tem tantos outros serviços. Na semana passada choveu e tudo esta crescendo bonito inclusive o mato. A coivara da Bukuvina, nós queimamos no dia 9 de novembro. Foi uma queimada formidável. Naquele dia o vento também estava forte e fez uma fumaceira sem fim. O fogo pulou o aceiro para dentro das samambaias em diversos lugares, mas foram imediatamente controlados (apagados) e a grande vantagem é que os troncos e outros tocos de árvores, não estavam muito secos. O Enoz como vizinho veio ajudar e foi muito bom queimar naquele dia porquê não estava tão seca ainda e se tivesse esperado ai o perigo seria muito maior. Por mais de uma semana depois da nossa grande queimada o povo por todos os lados continuou fazendo as grandes fumaceiras. A roça da Bukuvina nós plantamos em 3 dias 4 ½ quartas de semente de milho. No total nós já plantamos mais de 10 quartas.(Quartas de alqueire – Um alqueire tem 4 quartas)
Bem por hoje chega. Nada de novo tem ocorrido e tudo continua velho. Pode ser que receba alguma carta, então ai eu escrevo de novo. Ai também é possível que você tenha também mais tempo, porque já estará de férias. Lembranças de todos. Viva com saúde. Olga.

NT A espressão ” recebemos os papéis azuis ….” deve ser papel carbono usado para copiar modelos de vestuário de Revistas e Jornais

Os enxames este ano, são muitos e grandes | De Olga Purim para Reynaldo Purim

Rio Novo 3 de novembro de 1920

Querido Reinold!

Primeiramente envio muitas lembranças…. Recebi a tua carta escrita em 14-10-20 no dia 24-10-20. Muito obrigado por ela, tinha esperado muito até que enfim chegou. Esta noite não poderei escrever muito porquê já é tarde, pois nós chegamos da Igreja agora e amanhã eu quero ir para a cidade e agora já é muito tarde e ainda na carta não encontrei nenhuma pergunta ou questionamento que tenha que responder. Nós estamos passando suficientemente bem e estamos todos com saúde.

O tempo está muito instável. Um dia está frio, outro já está quente e chove quase constantemente. Com a queimada das coivaras este ano não está nada fácil. As roçadas estão cheias de mato verde crescendo. Nós na Segunda feira ao anoitecer, queimamos uma coivara lá perto do Kazbuk. Naquele dia , na hora do meio dia estava fazendo um vento muito forte, mas ao entardecer amainou e o céu começou a encher-se de nuvens. Então tacamos fogo e queimou muito bem e não pulou fogo para o mato em nenhum lugar e ainda a noite choveu, então no outro dia já fomos plantar milho. Aliás, milho já plantamos 4 quartas e a coivara da Bukuvina ainda não foi queimada. Plantamos também 10.000 pés de mandioca, então com os serviços da lavoura estamos nós saindo bem.
Hoje estávamos colhendo mel, então esta carta também deverá ser doce. Este ano a colheita do mel vai ser boa, pois vai render muito. Nós já temos 7 latas [de 18 litros] tiradas de 23 colméias. Agora contando com as colméias novas nos já temos 74. Os enxames este ano, são muitos e grandes. Pena que estas coisas você não tem oportunidade de ver.

Quando você vier para casa poderá comer bastante mel e ainda levar junto porque quando o Watsons esteve aqui, ele quis levar para os seus familiares, mas naquela ocasião aqui na Canaã ninguém tinha.

Aqui no Rio Novo nada importante tem ocorrido que mereça destaque. No dia 16 de outubro conforme previsto houve o programa da Festa da Mocidade. O tempo naquele dia estava magnífico, apesar que no dia anterior tinha chovido. Gente tinha bastante. A direção geral da Festa foi do Oscar Karp. Houve poesias, hinos pela Mocidade e pelo Coro da Igreja. Ainda quartetos e músicas especiais tudo transcorreu muito bem. Nesta Festa também foi levantada uma coleta especial para os Batistas na Letônia qual rendeu próximo a 100$000. Como o “Drauga Balss” [ A voz do Amigo] noticiou que o Dr. Freys viajou para a América e depois ele virá para o Brasil então os Rionovenses aproveitaram e mandaram um convite e se tudo der certo em Janeiro é possível que ele esteja também por aqui. Nesta data também o Willis Leiman deverá vir para o Rio Novo. E ainda no Ano Novo é esperado o Dr. Lupers que naquele período deverá estar em Florianópolis e então virá para cá também. Se todos os planos derem certos, então vamos ter muito o que contar.

Durante a Festa da Mocidade a União das Jovens da Igreja montou um Bazar que rendeu 260$000. Os Jovens tiraram fotografias, então eu estou mandando para você observar estas maravilhas e quem sabe reconhecer alguém ainda. Estas fotografias planas são metade mais baratas e você pode colar em algum papel mais firme. Bem desta vez chega. Aquela importância em dinheiro você recebeu? Nós mandamos 200$000 através do Pinho e também uma carta.
Lembranças de todos. Olga.