…mas podemos afirmar que tudo que tens mandado já foi recebido…| De Arthur Purim para Reynaldo Purim 1926

Rodeio do Assucar 9-8-26

Querido irmão Reini:

Recebi a tua carta escrita no dia 19 de julho quase não esperando, pois existem outras cartas em trânsito e não daria tempo para chegar à resposta. Você agora tem se apressado em escrever quem sabe pensando que alguma carta sua tenha se extraviado, mas podemos afirmar que tudo o que tens mandado já foi recebido aqui inclusive aquele pacote de jornais que veio em meu nome recebi na semana passada.

Você mandou uma longa carta “comercial” qual recebi por ocasião do funeral da Olga. Esta carta veio registrada. Você escreve sobre a alternativa de vender o terreno da Bukuvina e comprar o terreno aqui dos Leimann. Na semana passada escrevi que nada ainda tínhamos deliberado sobre o assunto e como a sopa não deve ser tomada quente demais deixamos para depois. Mas agora já está mais claro entre nós sobre o que queremos: Se fosse vendida a Bokuvina por um bom dinheiro então poderíamos comprar o terreno dos Leimann e moraríamos aqui. Eu gosto mais daqui pelas facilidades do cultivo da terra por que aqui a topografia é muito mais plana e as raízes crescem melhores. Por exemplo, a mandioca, aipins e batatas. Também o arroz cresce melhor que no Rio Novo. Quanto aos pastos são mais planos e não existem aquelas grotas profundas. Quanto às madeiras das matas é vantagem também. São lindas árvores com cerne muito duro que nem existem na Bukuvina nem no Rio Novo.

Principalmente é muito melhor quando se refere aos animais, pois nós agora temos 20 bovinos entre bois e vacas, 8 equinos entre cavalos e éguas e 19 porcos. Todos estes ano nós temos vendido manteiga se bem que agora um pouco menos, mas durante todo verão inteiro nós entregávamos 4 kilos por semana a 4$000 o kilo. O preço continua 4$000 e assim houvesse manteiga era só entregar. Se por acaso o negócio da compra por qualquer razão não der certo então a maioria destes animais deverá ser vendido uma vez que no Rio Novo, pois lá os pastos são menores, plantas daninhas demais e as cercas sem boas condições e agora principalmente que não estamos lá os pastos lá no Rio Novo mais parecem um matagal e não vale a pena levar um bando de animais não será vantagem nenhuma e por outro lado vender; quem os comprariam. Agora para vender por preço de vintém é só dar um assobio que tudo mundo vai correr comprar.

Agora que tenho descrito as nossas dificuldades e obstáculos da nossa vida aqui, agora está em ordem o estudo das alternativas para fazer o negócio. Nós achamos que você deveria escrever para Argentina tanto para o Arthur Leiman como para o Fritz explorando todas as possibilidades e fechando o negócio como realmente é seu. Então quando eles viriam para cá os preços e as condições já estariam previamente estabelecidas. Todo aquele terreno está em nome do Arthur, mas quem tratou sobre o arrendamento das terras para nós foi o Fritz. Então dai a razão para que você escreva para os dois principalmente o preço. Ele faz bastante tempo que não tem escrito para nós. Quanto a Bukuvina nós também não temos aberto o preço e nem realmente posto a venda. Existem pessoas perguntando se nós vamos vender a Bukuvina e por quanto? Nós temos deliberado que por menos de 20$000,000 não será possível vender. Quem sabe pedir uns mil a mais para pode baixar. Você concorda com este preço? Será que é baixo o preço ou é caro demais? Escreva para ambos, pois quanto nós sabemos eles virão ambos depois para fazer os negócios.
O endereço deles é o seguinte:
Fr. Leiman, Urdinarrain Entre Rios Argentina.
A. Leimann, Rufino F. e P. Santa Fé Argentina.

Bem por hoje chega e como você vê foi escrito bastante e você terá muito que ler e avaliar. Faça o negócio e venha morar aqui na tua terra nova. Devo lembra que se possível e não for muito cara mande já esta “Procuração” e se por acaso sair o negócio ela já esteja à mão.
Com lembranças de todos. Arthur.

Alexandre Klavim – Primeiro Pastor da Igreja Batista Leta de Rio Novo – Orleans Santa Catarina

ALEXANDRE KLAVIN, FOI O PRIMEIRO PASTOR DA IGREJA BATISTA LETA DE RIO NOVO – ORLEANS NO BRASIL.
TERCEIRA PARTE.

Ano 1900
Notícia publicada no Jornal da Letônia chamado
“Majas Viesis n.19 (O Visitador do Lar) de 14 de abril de 1901 “
Traduzido do leto por Valfredo Eduardo Purim
Matéria gentilmente cedida pela Sra. Brigita Tamuzza de Riga na Letônia

(continuação)
As pastagens aqui, devem ser plantadas, que aqui é chamada de “pasto”. Existe uma pastagem oriunda da mata que não resiste ao rigor do inverno, mas o “pasto” plantado permanece verde o ano todo. É uma pastagem alta, de folhas largas, que é arrancada do chão e em seguida, após aberto um furo na terra com auxilio de um bastão de madeira. A muda é plantada e após 6 meses o chão está coberto por um tapete verde. Bovinos, eqüinos e suínos são confinados na pastagem cercada, dispensando um pastor ou vigia.

Estradas aqui não há, se você mesmo não fizer em sua colônia. Uma estrada grande cheia de curvas foi construída pelo governo que percorre por toda a colônia que perpassa pelas colônias umas pelo meio, outras pela margem… Em todos os lugares, a cavalo. Os letos mais ricos possuem animais de tração… Quando um proprietário possui 6-7 “purvietas” de plantações e outra 6-7 “purvietas” em pastagens, pode manter 2-3 cavalos, 10-12 vacas, 50-60 suínos, 100 galinhas e 4-5 pessoas e durante o ano juntar 400-500 mil réis pode dar-se por satisfeito.

… No Brasil progride-se depressa, porém com grandes dificuldades, e aqui eles são felizes, todos aqueles que estão dispostos a fazer tudo a sós, porque contratar pessoas é muito difícil, os brasileiros ou mori (?) não produzem nada…

As moças letas, que preferem ser empregadas domésticas, conseguem nas cidades boas colocações e percebem 15 rublos mensais[ 45 mil réis] (quanto na Letônia?). No Brasil o proprietário e o empresário trabalham devagar quanto podem e ainda afirmam que “há tempo que chega”.

Jovens com alguma especialização logo estão com dinheiro. Aqui em Rio Novo temos diversos profissionais. Ainda não temos alfaiate e sapateiro. Rio Novo é a maior colônia leta…. Aqui podemos desenvolver a agricultura e também a pecuária. Aqui se produz de tudo. Realmente não há tanto calor. Já possuímos Igreja e escola.
FIM

Alexandre Klavin | O primeiro Pastor da Igreja Batista Leta de Rio Novo Orleans Santa Catarina

ALEXANDRE KLAVIN, FOI O PRIMEIRO PASTOR DA IGREJA BATISTA LETA DE RIO NOVO – ORLEANS NO BRASIL.
Ano 1900
Notícia publicada no Jornal da Letônia chamado
“Majas Viesis n.12 (O Visitador do Lar) de 21 de março de 1901 “
Matéria gentilmente cedida pela Sra. Brigita Tamuzza de Riga Letônia.
Trad. por V.A.Purim

Informo só, que estou aqui em Rio Novo (Rio Novo a colônia, encontra-se 12 km distante da estação ferroviária de Orleans do Sul, onde se encontra o centro da citada colônia o qual a jusante do rio Tubarão ate o porto de Laguna percorre uma ferrovia). Na colônia pela observação vejo que aqui as coisas andam e andarão… Minha viagem durou quase 2 meses. Orleans do Sul fica na província de Santa Catarina no Brasil..

Ao chegar, fui recebido por amigos, irmãos e irmãs da colônia leta de Rio Novo, cavaleiros e carros de boi vieram me receber na colônia Rio Novo…
Fomos honrados com diversos portais elaborados com palmeiras e guirlandas de flores, bem como um jantar elaborado com muito amor.

Então no primeiro domingo assumi como pastor da igreja. Surgiram dificuldades, onde arranjarei terra? Nas proximidades não há… soubemos que um colono próximo da igreja quer desfazer-se das suas duas propriedades e mudar-se para outro lugar. Então teremos que negociar, mas negociar com a seguinte condição: terei que comprar as duas casas com todos os pertences.
O assunto foi devidamente avaliado, o lugar está à mão, bonito e agradável, com pastagem formada e diversas fruteiras, reconheci que não poderia demorar e comecei a negociar.
No inventário havia 7 animais grandes e alguns pertences, somando tudo no contrato comprei por 600 mil réis (mais ou menos 200 rublos), mas a terra terá que pagar em separado. Pelo conjunto das duas colônias perfazendo 150 “pűrvietas”.[ A purvieta era uma medida agrária da Letônia e correspondia a 0.4 de hectare então ele na realidade comprou 37.5 hectares por 600 mil réis e ainda continuar pagando o saldo devedor na Empresa Colonizadora ] Assim de imediato tornei-me um proprietário com 7 animais grandes. Fui presenteado com mais ou menos 70 galinhas, porcos, gansos, perus, cabras e ovelhas, somando umas 100 cabeças…

Agora como líder espiritual dos letos chegar no (Eberea)??, então a igreja achou por bem doar 100 diárias em regime de mutirão então imediatamente encaramos o trabalho, para que até o Natal a casa esteja pronta. Embora estejamos vivendo na mata virgem, mas, quando o problema é construção, então há grande dor de cabeça, porque a madeira apropriada para construção, não há muitas e temos que transportar por duas ou três (pűrvieta) [novamente a distância que a madeira tinha ser transportada] de distancia e é bastante difícil. Mas, quando há boa vontade e um pouco de dinheiro, é possível construir uma boa residência e pelo visto terei a melhor e mais bonita casa em Rio Novo. Ela está sendo construída com diversas madeiras fortes e valiosas. Aqui as casas são construídas com esteios e entre os esteios são colocados pranchões. A minha casa é construída com a seguinte madeira: esteios de “Louro” e “canela”. [os esteios eram nos cantos da casa e eram parte enterrados no solo]. Nestes esteios eram abertos sulcos onde eram encaixadas as pranchas Os barrotes e linhas são de “peroba” e “pinheiro”, as paredes de “cedro” e forro de “baguaçu”. Diversas madeiras duras e valiosas existem acima de 10 variedades, que devemos conhecê-las bem, antes de construir…

Continua

Depoimento de J. A. Zanerip | Na Rússia também tem Araranguá

(Neste mais uma versão da ” Guerra da Palmatória” em Orleans.)

Quarta Parte

Agora com quatorze aninhos de vida, achei que não teria futuro na vida grudado no cabo da enxada de sol a sol, portanto resolvi procurar aprender a profissão de marceneiro. Assim um dia fui a Orleans à procura do excelente marceneiro Guilherme Feldmann, mas ele me disse que não era possível, pois já tinha três meninos enchendo o saco dele todos os dias.

Na volta de Orleans passei na oficina de ferreiro do Sr. Artur Paegle e perguntei se ele poderia me ensinar a malhar o ferro. Respondeu que ia pensar. Passado algum tempo, voltou perguntando se ainda queria aprender a profissão. Respondi que sim. Então ele me propôs dar a pensão, cama e mesa — banho não precisaria pois água tinha bastante no rio. Só que teria trabalhar dois anos sem salário, isto é, de graça — ou melhor, em troca dos ensinos dos segredos da profissão, como era praxe naqueles tempos. Claro que aceitei.

Apesar de não ser tão perto, todo sábado eu ia para casa.

Um dia, nessa viagem para casa, parti um pouco mais tarde do que costumava fazer. O sol já havia descido e começava a escurecer quando cheguei a um lugar onde o Eduardo Karklin tinha plantado milho. Na beira da estrada ele tinha deixado de derrubar uma árvore enorme. Quando eu já ia passando por baixo dela vi uma macacada em seus galhos, e já corria aquela história dos bichos.

Eu sempre levava uma garrucha escondida na cintura; vendo aquela macacada nos galhos, tirei a garrucha e quis atirar, mas lembrei que macaco tem o rosto parecido com o da gente. Guardei a garrucha e só bati palmas.

Ai meu Deus! Meus cabelos ficaram de pé. Aquela bicharada caía como se fossem novelos de algodão, até na estrada dura e quase em cima de mim (por azar dias antes eu tinha lido histórias sobre bichos na África). Fiquei duro, pois nem da garrucha não me lembrei.

Quando me recuperei do susto não vi mais bicho nenhum. Só ai é que voltei a lembrar da arma, e para meu consolo tirei da cintura e dei um tiro em direção do mato.

Na verdade não eram macacos e sim quatis. Dizem que os quatis quando se assustam pulam dos galhos para escapulir. Correm de pé, isto é, nas patas traseiras.

Mal eu tinha começado o meu aprendizado minha mamãe vendeu o sítio e foi para São Paulo. Fiquei só eu para continuar aprendendo a profissão.

Vencido o primeiro ano, um belo dia informei ao meu patrão:

— Quero ir para São Paulo. O senhor vai me deixar ir?

Ele resmungou em alemão mas não disse nada. Uns dias mais tarde ele me chamou junto a sua escrivaninha e disse:

— Você não vai para São Paulo, de hoje em diante vai ganhar dois mil réis por dia — o que naquela época era uma ótima proposta.

Aguentei mais três meses, mas um dia eu disse:

— Quero ir embora para São Paulo sim. Isto é, se o senhor me dispensar.

Ele não respondeu, mas após alguns dias me chamou e disse:

— Já que queres ir, então vá.

Me deu uma camisa de presente e uns cinquenta mil réis e me dispensou. Já no dia seguinte fui a Laguna comprar a passagem para ir de navio para Santos, porque naqueles tempos era o único meio de se ir para São Paulo.

O seguinte acontecimento eu deveria ser contado antes do período de nossa ida à escola, mas por um lapso e esquecimento deixei de contar o que faço agora:

Certo dia correu a notícia de que os gaúchos tinham se revoltado e iam descer a serra. O delegado, sabendo que os gaúchos vinham, mandou uns soldadinhos esperá-los na boca da serra, mas os gaúchos quando souberam se dispersaram.

Não demorou muito veio outra notícia: os gaúchos já tinham descido a serra e vinham trazendo junto todos homens adultos, cavalos, vacas, porcos e mantimentos para alimentar a tropa. Nos tínhamos um cavalo e uma vaca e bastante porquinhos. Os porcos nós soltamos do chiqueiro, o cavalo e a vaca levamos para a mata virgem, onde os amarramos e onde também viemos a pernoitar. Deste pernoite nasceu uma frase no meu “Poema do Centenário”:

Pousar nesta densa mata, a noite era escura e sombria
Só vaga-lumes como estrelas errantes se viam
Grilos, rãs e sapos por todo lado gemiam
Parecia uma novela de terror que exibiam

Como o meu irmão Carlos já era adulto teve que ir junto com a tropa de revolucionários. Ele pegou a sua espingardinha pica-pau e foi.

Pernoitaram numa várzea, e ao amanhecer o dia resolveram marchar sobre Orleans, mas logo foram barrados por meia dúzia de soldadinhos do delegado. Um deles disparou um tiro pro ar e os valentes revolucionários se dispersaram como se fossem ratos.

Foi um salve-se quem puder. Só alguns trouxas, pensando que não tinham nada com a revolução, foram presos e levados para Orleans. Entre eles estavam o Jacob Karklis e o Vitorio Maisin, sendo que cada um levou vinte e quatro palmatórias em cada mão. Voltaram todo machucados, a revolução acabou sem graça e só os inocentes e os covardes apanharam.

Agora, voltando a falar da minha despedida do Rio Novo: ao chegar na agência do porto em Laguna, falei ao chefe do porto:

— Quero uma passagem para Santos — mas como eu ainda falava mal o português, ele me perguntou qual era a minha nacionalidade. Respondi que era leto.

— Leto — disse ele. — Mas como que aqui no documento diz que seus pais são da Rússia?

Respondi que os russos tinham invadido a Latvia/Letônia.

— Certo, mas onde você nasceu?

— Em Araranguá — respondi eu.

Surpreso, perguntou-me:

— Ué, na Rússia também tem Araranguá?

Então respondi que não era na Rússia e sim logo adiante de Criciúma. Pobre de mim. O homem virou uma fera. Berrou ele que esse negócio de russo, alemão e italiano, que isto tinha que acabar.

— Você fica sabendo quem manda no Brasil é brasileiro, viu? Você nunca mais me diga que é isso aí que você falou, entendeu?

— Sim, senhor! Sim, senhor!

Passada a fúria ele preencheu a passagem e me deu com um sorriso amarelo. Como o navio ia demorar cinco dias para chegar, voltei para a casa do meu cunhado e irmã Alvina.

Na véspera da minha partida tive uma agradável surpresa: veio uma turminha da gentil mocidade dizer adeus. Cada um com seu bolinho e seu docinho, e minha irmã deu café com leite. Comeram, beberam, cantaram e por fim desejaram boa viagem e breve regresso.

Entre esta turminha havia uma donzelita com a qual eu tinha brincado desde criança. Parecia um amorsinho infantil, mas agora já tinha mudado muito, eu com dezesseis anos e ela com treze.

Ao se despedir ela perguntou:

— Volta logo?

Aí eu respondi:

— Quem sabe — e convidei: — Vamos juntos?

Ela respondeu com os olhos rasos de lágrimas:

— Agora não, mas se você quiser um dia irei sim!

Sabe, diante desta situação fiquei com uma vontade de não ir mais para São Paulo.

Após todos terem ido embora, já no silêncio da noite, me ajoelhei e pedi ao Senhor que me desse uma boa viagem e que me concedesse a graça de viver todos os dias no temor do seu Santo Nome. Lembrei daquela donzelita que ficou chorando.

Se ela for a minha eleita faça-me voltar para buscá-la. E se minha eleita conforme a sua vontade estiver em São Paulo, então que seja a primeira que eu por lá encontrar. Não importa que seja feinha ou bonitinha, de gente abastada ou pobrezinha. Só peço duas coisas: primeiro que tenha o verdadeiro temor pelo seu Santo Nome. e segundo que realmente goste de mim — sendo assim, terei absoluta certeza de uma vida muito feliz.

Agora, já no dia seguinte bem cedo, fui a Orleans a fim pegar o trem para ir a cidade de Laguna, onde era o porto — lá onde ao comprar a passagem do navio tinha levado aquela tremenda bronca já contada nas páginas anteriores.

À noite, já a bordo do navio, começou a viagem que durou duas noites e dois dias, para chegar as nove horas da noite na cidade de Limeira, em São Paulo.

Pernoitei, e no dia seguinte saí à procura de um posto de gasolina onde o Guilherme Slengmann, que era proprietário de um caminhão, talvez fosse conhecido. Ele era amigo meu.

Tive sucesso logo no primeiro posto onde indaguei, ele era conhecido por ser freguês. Então perguntei se o homem do posto sabia onde ficava a [fazenda] Boa Vista e ele realmente sabia. Orientou-me a apanhar o trem das nove horas e voltar até a primeira estação, de onde ainda distava mais quatro quilômetros. De lá seria mais fácil conseguir as informações que faltavam para conseguir a localização do meu destino final.

Após seguir essas instruções, foi fácil chegar próximo à tal fazenda. Neste instante saìa de um terreiro um comprador de frangos e quando perguntei se ele conhecia muita gente por aqui, ele respondeu que sim. Então perguntei se ele conhecia o tal Guilherme Slengmann. Ele respondeu que não.

— De todas pessoas que eu conheço nenhuma se chama Guilherme.

Aí contei que eu tinha um irmão o Carlos que trabalhava com o Guilherme e esse Carlos era muito conhecido e muito prosa.

Aí o frangueiro perguntou se ele era gordo. Respondi que era só um pouco corpulento. Aí ele perguntou se era russo. Respondi que sim e expliquei que assim os letos eram chamados. Então ele disse:

— Sim, deve ser o seu irmão, monta aqui na carroça, pois eu vou te levar até bem perto.

Em certo momento ele parou e mandou seguir até uma cerca e depois virar à esquerda; era lá que morava um russo que deveria ser a pessoa que eu estava procurando.

Chegando à dita casa bati palmas e os cachorros começaram a latir. Logo alguém abriu uma janela e apareceu uma linda donzelita. Logo surgiu o pai dela, ao qual pedi a informação. Quando ele chamou a mocinha “Melania natz schurp” [Melania, vem cá] logo percebi que eram letos.

Perguntei em leto se sabiam onde morava o Carlos Zanerip. Aí ele perguntou de onde eu tinha vindo. Respondi que tinha vindo do Rio Novo, Santa Catarina. Então ele disse:

— Entra e descansa, e conta como vai a nossa gente por lá. Lá mora um irmão meu que é pai do Artur Purim (cujo nome eu tenho esquecido).

Entrei e a donzelita fez um saboroso lanche. Foi neste momento, quando ela trazia, lembrei do meu pedido ao Senhor. Pois eu não tinha visto ninguém, nem mesmo o pai dela, no momento que ela surgiu na janela.

E quando voltei à fazenda fiquei estupefato. Lá de onde eu havia abordado o frangueiro, a menos de duzentos metros, vivia meu irmão Carlos. Alguns metros adiante morava o Guilherme Slengmann, e logo no outro lado do córrego vivia o Guilherme Och. Mais adiante morava o Guilherme Ivercen, todos bem conhecidos do frangueiro — que tinha esquecido de todos para levar-me a conhecer primeiro a linda senhorita Melania Purim.

Apesar de tanta evidência, nossos caminhos não se cruzaram. Só atrapalhou minha vida por longos anos. Talvez tenha sido porque não cheguei a contar isto a ela, por muito respeito que a ela eu dedicava. Não contei por receio de ser mal interpretado ou incompreendido.

Isto foi em 1931, e só contei a ela num Congresso Leto em Nova Odessa em 1978 apenas — só para arrancar um sorriso de dois velhinhos que esperavam a longa noite chegar.

Porque o Senhor já disse: “Os meus caminhos não são os vossos caminhos, os meus pensamentos não os vossos pensamentos” e também a minha escolha era outra. Deus também diz que bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, e Deus de um lar também.

* * *

[continua…]

Muito triste você não ter | Artur Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 9 de junho de 1919

Querido irmãozinho!!!

A tua carta recebi, pela qual agradeço. Agora ultimamente escrever cartas está se tornando coisa do dia-a-dia. Faz só uma semana que escrevi uma carta para você e agora já vai outra. Você não vai ter tempo de ler todas.

Eu estou bem. O tempo ainda está quente. Eu acho muito triste você não ter tantas laranjas para chupar. Eu, desde que levanto pela manhã, quando vou soltar os carneiros, quando passo no lado debaixo do paiol, como bergamotas a não mais poder. No lado de cima do quintal as árvores novas também estão cheias de laranjas graúdas e muito doces. Bananas sim, estas faz muito tempo que não tenho comido, pois a geada do ano passado matou até embaixo.

Semana passada eu trouxe da casa dos Grikis dois gatinhos com pelagem preta e branca. Já são bastante grandes, já sabem comer ratos e brincam muito. Um se chama Loli e o outro Lili. Ultimamente não tínhamos nenhum gato em casa. O velho bichano era muito preguiçoso e exímio ladrão. Nós levamos ele por aí e soltamos no mundo.

Cachorro não temos outro senão o velho Latzis [urso]. Ele com certeza não conhece mais você. Faz tempo que nós estamos procurando um ajudante para o Latzis, mas não encontramos algum que valesse a pena. Quem sabe você pudesse trazer algum cachorrinho do Rio. Quem sabe os alunos que se saem bem nos exames ganhem algum cachorrinho para brincar nas horas vagas.

Pouco tempo atrás os cachorros do Grüntall mataram um “comedor de cana” [graxaim ou cachorro-do-mato]. Os bichos este ano estão vindo muito comer cana.

Bem chega desta vez, vou deixar o que escrever para outra vez. Fico aguardando longa resposta sua e envio sinceras saudações.

Teu irmão,

Artur