Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 5

continuação da parte 4

5

Estando exausto, adormeci logo. Durante a noite acordei e pensei, onde estou? Lembrei. Vieram-me à mente as necessidades do dia seguinte. Como poderei ser útil ao meu Senhor Jesus Cristo? De joelhos, implorei bênçãos e ajuda. Belo e santo momento aos Seus pés; sinto profunda paz em meu coração, como se uma amável voz estivesse dizendo: “Meu Filho, eu estarei contigo, durma em paz”.

Voltei a repousar até o alvorecer. Ouço o anfitrião na cozinha auxiliando a esposa; ambos conversam em surdina. Levanto-me e agradecendo a Deus cumprimentei os anfitriões.

Observei os arredores, que clima agradável! Próximo à sala de visitas vejo um pomar, onde vicejam macieiras, pereiras, ameixeiras, cerejeiras, pessegueiros, parreiras. Não há laranjeiras; para as laranjeiras é demasiado frio. Ao lado do pomar, um belo riacho, com boa queda d’água, que pode ser aproveitada para movimentar engenhos agrícolas.

No dia seguinte me mostraram onde reside o velho irmão Bruver. Fui visitá-lo. Chegando ao portão, bati palmas. Os velhinhos não ouvira: com a idade, os ouvidos ficaram acometidos de surdez. O irmão ainda ouve um pouco, vem ao meu encontro. Com voz forte, digo:

— Saúdo o irmão em nome de Jesus Cristo; a Paz de Deus esteja com vocês!

Responde:

— Obrigado!

Convida-me a entrar. A irmã idosa está na cozinha. Cheguei perto dela e falei em alta voz, no ouvido:

— Deus ajude, irmã! A paz de Jesus Cristo esteja contigo! Sou missionário, venho de Rio Novo; a Igreja saúda vocês e deseja a misericórdia de Deus!

Vejo lágrimas em seus olhos, sentimentos arrebatados pelas saudações dos irmãos distantes. Segura minhas mãos e diz:

— Obrigado, irmãozinho, obrigado! Alegro-me por estar ainda na memória dos irmãos. — e acrescenta: – Estou velha e os ouvidos ficaram surdos!

Respondo:

— Vim visitar e alegrá-los no nome do Senhor Jesus, e com vocês adorar a Deus e vos anunciar que o Reino de Deus está próximo. A volta de Jesus não tardará!

Seu rosto resplandece, o espírito renovado despertou do sono da solidão. Ela diz:

— Ninguém nos visitou, durante longos anos vivemos na solidão e sem participar da Ceia do Senhor.

Convidei os velhinhos para sentar junto a mim, tirei do bolso o Novo Testamento e em alta voz li um trecho significativo, depois ajoelhados adoramos a Deus. Ficamos renovados, com novas energias. Enquanto eu e o idoso irmão trocávamos idéias, a irmã preparava o almoço.

Servidos, saímos para o depósito. Perguntei ao irmão:

— Como vai? Não tem necessidades? Ainda tem forças para trabalhar? E como estão de saúde?

Ele me conduziu para o armazém e mostrou:

— Veja irmão, lá estão dois enormes sacos de trigo em grão, aqui temos um estoque de carne e tenho um porco de 10 arrobas para abate, e mais outros alimentos. Agradeço a Deus que não nos permite sentir falta de nada e não permite a fome rondar a minha casa. Aqui vamos bem, este terreno o governo deu considerando e reconhecendo minha invalidez.

Andamos ao redor da propriedade, mais de meio alqueire de terra. Terra de primeira qualidade. Podemos ver tudo o que é produzido é produzido em um jardim.

— Minha dificuldade é a fraqueza — o idoso irmão comenta. — Não consigo trabalhar, arar e plantar; tenho que pagar e o quintal deveria ser capinado, porém não tenho mais forças.

Relata também outro problema:

— Queria trazer madeira para a casa: contratei um ajudante com uma carreta e cavalo. Em uma encosta estavam algumas toras de pinheiro, e tentamos colocá-las sobre a carreta. Estava eu no lado de baixo, tínhamos colocado sobre o eixo, algo se mexeu e a tora com a carreta rolaram em cima de mim. Não consegui impedir o desastre: me derrubou, rolou sobre mim, desmaiei. Expeli sangue pelos ouvidos, boca e nariz. Ele me levou para casa, me tratou. No dia seguinte voltei do desmaio. Depois desse acidente estou quase inválido. Não temos filhos nem parentes. Agradeço a Deus pelo que temos.

Pensei: como poderia ajudá-lo? Dinheiro não tenho para dar, tempo também não; talvez alguns dias de trabalho.

Volto ao meu Salvador: “Mostre, Senhor, como poderei ajudá-los.” Sinto um apelo ao meu coração que diz: “Vá recuperar o quintal dos teus irmãos velhinhos.”

Fiquei com eles até o dia seguinte e pela manhã, com a ferramenta adequada, comecei o trabalho. Até o meio dia o trabalho estava tudo pronto. Eu mesmo me senti feliz juntamente com o casal de velhinhos.

Ficamos amigos de fato. Mantivemos cultos domésticos, nas manhãs, ao meio dia e a noite; fiquei umas duas noites com os queridos velhinhos.

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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

Sete chupetas | Artur Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 14 de agosto de 1919

Querido irmãozinho!!

Eu recebi a tua carta escrita no dia 22 de julho no domingo passado. Muito obrigado. Eu realmente não estava querendo resposta, pois agora preciso responder. Se não tivesse recebido não teria que escrever!

Eu estou bem. Desta vez a Luzija não vai poder escrever. Ela está acidentada pois na noite de segunda-feira cortou o braço e agora carrega o braço numa tipóia pendurada no pescoço. Ela não pode fazer nada, então dirige os cavalos com as cargas das roças para casa. Agora ela está trazendo milho da Bukovina com três animais: o Traginim na frente e os demais atrás.

Agora, é muito ruim você não ter bastante laranjas para chupar! As laranjeiras estão cheias de laranjas e flores. Hoje eu já chupei sete chupetas.

[NOTA: “Chupetas” eram feitas com laranjas descascadas deixando-se a parte branca; abria-se um orifício em forma de cone invertido na extremidade inferior, por onde era chupado todo o suco.]

Agora não está havendo aulas porque o Butlers e o Robert ainda não chegaram. Quando as aulas vão recomeçar eu não sei.

Daqui há pouco vamos derrubar capoeiras. O Augge [Augusto Felberg] começou derrubar o capoeirão atrás de nossa casa. Vai ser bom, pois o sol pela manhã vai aparecer mais cedo. Chega desta vez, senão o que vou escrever na próxima vez?

Fico aguardando uma longa carta, sua. Com lembranças,

Arturs

Só as velhinhas e pessoas de idade cantam no coro | Lucia Purim a Reynaldo Purim

29 de maio de 1919

Querido irmão,

Primeiramente envio muitas lembranças para você. Eu estou passando muito bem. O tempo está lindo e quente. Hoje estivemos na igreja, onde teve um piquenique. Pela manhã teve um programa com poesias pelos alunos, que também cantaram três canções do hinário “Bernu Kokle”. O grande coro também cantou vários hinos, mas este está bem reduzido: só as velhinhas e pessoas de idade cantam no coro, pois o pensamento dos jovens está em outro lugar… Depois foi servido café com mistura [pão branco feito com bastante açúcar e manteiga] e depois fomos para o pasto brincar e correr.

As crianças são poucas e ignorantes. Laura tocava harmônio e Gutis Grikis ajudava cantar, mas ainda assim não ia.

Na sexta-feira passada, dia 23 de maio, houve o casamento da Ana Burmeister com o Alfredo Leepkaln. Este sim foi o par de noivos mais skists que nunca houve e nunca mais haverá.

[NOTA: Falta traduzir “skists”. Se estivesse sido escrito “skaists” a tradução seria “lindos, maravilhosos”]

O casamento foi na igreja, e depois serviram pão caseiro [integral], café e pão branco. Mas se os recém-casados não se portarem direito depois do memorável sermão que o Deter proferiu, aí não sei o que fazer mais. Depois disso não teve nada importante. O casamento começou às 2 horas da tarde e antes do sol se pôr todo mundo já ia para casa.

O Waldis Karklin estava domando uns cavalos para o Bekeris. Ele também estava domando um potro do Hermann Grunzkis, mas quando foi subir num outro potro que pretendia ensinar foi jogado no chão, quebrando o braço esquerdo perto do cotovelo. Achei que foi muito bom, porque ele era muito pretensioso, desfazendo e zombando de todos rapazes daqui por qualquer coisa.

Agora o Waldis e o Jurgis vão embora para São Paulo, e sobre a famosa eletricidade ninguém conseguiu ver nada.

Chega por hoje, outra vez escrevo mais. Ainda muitas lembranças da

Luzija

Um barulho imenso e uma nuvem de poeira | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 19 de agosto

Querido Reini,

A tua carta escrita em 1º de agosto recebi ontem. Obrigado. Você escreve que dias atrás nos mandou outras cartas, mas essas ainda não chegaram. Pode ser que ainda cheguem, ou então foram extraviadas. Ainda não tenho resposta de uma carta que mandei há mais de três semanas.

Aqui estamos passando bem. O tempo está bom e ainda bastante frio, e hoje pela manhã houve geada. Algumas semanas atrás estava enfumaçado e tão quente como fosse verão, então começou a roncar trovoada e deu uma grande chuva. Essa chuva passou (fazia já uns dois meses que não tinha havido trovoadas), mas sábado passado à noite começou novamente a chover — e choveu praticamente dois dias e duas noites sem parar. Domingo passado quase ninguém foi à igreja, por causa da chuva muito forte e porque soprava um vento frio, mas na segunda-feira estava um céu azul e o vento tinha levado todas as nuvens embora.

Fizemos açúcar e deu dois tachos. Não foi muito. Este ano a “festa” do açúcar não foi essas coisas como nos outros anos. As canas novas foram apanhadas pelas geadas e ficaram para crescer mais um ano. Este ano não tivemos de fazer mutirão; a cana e a lenha trouxemos com o [boi] Bosi, e as moendas também foram movidas por ele.

Agora deixe-me contar uns fatos que aconteceram durante a “assucrada”. O Bosi estava acostumado com o carretão de duas rodas com o qual trazíamos toras do mato e da coi-
vara, e com ele trouxemos grandes toras. Mas cana não dá para trazer desse modo, e como nos não temos carro de boi colocamos o Bosi na carroça da [égua] Marsa e fomos lá no morro perto da peroba grande [da encruzilhada do Rio Carlota para o lado do Grüntal]. Carregamos a carroça de cana, mas ele não estava acostumado e apesar de eu ir na frente, saiu em disparada morro abaixo [Nota de VAP: Quando um animal disparava sem razão aparente dizia-se “deu a botuca” ou “pegou a botuca”, referindo-se à mosca botuca, que dava picadas muito dolorosas nos bois e cavalos, fazendo com que ficassem totalmente descontrolados.]. O Bosi me derrubou e ainda uma roda passou por cima do meu pé esquerdo e do tornozelo do direito, mas sem muita gravidade.

Quando me levantei e me recompus o Bosi já estava parado lá em baixo perto da cerca e da porteira. A carga estava virada, mas nada havia quebrado. Levantamos a carroça e a carga, mas quando chegou na estrada grande o bicho começou a correr novamente. Começou um barulho imenso e uma nuvem de poeira. como fosse um trem, e só conseguimos pegá-lo quando ele parou na porteira sem nada — a canga, os canzís, as rodas quebradas: tudo espalhado pela estrada.

Mas não deixamos o Bosi desse jeito. Colocamos no carretão e fomos buscar mais toras no mato, e lá ele foi muito bem. No outro dia fomos buscar cana na roça, de novo com a carroça, mais dessa vez colocamos freio nela. Como ele tinha de fazer força para puxar, aí ele veio bem e não pôde mais inventar nenhuma corrida — e nunca mais a voltou fazer aquelas corridas malucas.

Na moenda ele também foi muito bem; num dia ele moeu uma fornada e no outro outra. Colocávamos pouca cana na moenda pra não ficar pesado para ele.

Naquele dia em que você estava escrevendo a carta nós estávamos tomando garapa; pena que o dia estava frio e a garapa nem pareceu tão gostosa.

(falta a parte final)

Um tiro no próprio pé | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Antunes Braga, 29-07-17

Querido amigo Reinhold,

A tua longa carta recebi e por ela agradeço, foi muito interessante. Desta vez demorei a responder, devido a diversos obstáculos.

Estive trabalhando na construção do engenho, e no momento estamos construindo a roda d’água. O açude está pronto faz tempo, e se você quiser dar umas braçadas e nadar um pouco pode vir para cá. A primeira idéia era fazer com que a água passasse por baixo da roda, mas depois de uma série de avaliações chegamos à conclusão que um rendimento muito maior seria obtido fazendo com que a água passasse por cima da roda. Para isso tivermos fazer uma valeta profunda costeando o barranco do rio (mais funda que altura de um homem) e colocar uma calha passando por cima da estrada da entrada e da construção da fábrica. Se não houver nenhum atraso dentro de um mês deverá estar pronta.

Sobre a Igreja de Rio Novo sei muito pouco. Dizem que o Frischembruders está demandando com o Slegman devido ao uso de um caminho. O Bankovitch não está morando com o Slengmann; está morando com Juris e este último está pedindo meia colônia pra ele também. A senhora Stekert reclama que o marido não está dando de comer, que ela está passando necessidades e ele ignora que ela existe.

Tem rionovenses reclamando que a escola está sendo dirigida por um professor ateu [Nota: Provavelmente o famoso João/Janis de Riga], e que nas noites de apresentações já estão sendo apresentadas participações com conotação inteiramente pagã. Dizem que o Professor é um grande Homem e é “intocável”; que a tradicional caixinha de perguntas sumiu de todo; que o Jenzis Frischenbruder e o Augustin Felberg estão indo a Orleans para aprender a tocar instrumentos de sopro com o pessoal da banda e que por enquanto estão tocando hinos, mas a qualquer momento poderão estar tocando marchas, polcas, etc.

Contam ainda que o Artur Paegle deu um tiro no pé com uma pistola Browning, e ainda bem que não aconteceu um desastre maior. O acidente foi assim: um freguês da serra trouxe a pistola para fazer uma revisão; [o Artur] tirou o pente de balas e, esquecendo que poderia haver uma bala na agulha (havia), fez o primeiro teste direto no pé.

[Aqui uma parte ilegível que trata de dificuldades de locação de casas em Orleans e algo sobre a demanda entre o Slegman e o Match sobre uma indenização de um trecho de estrada em algum lugar]

Agora que já conheces bem a tua cidade e também a tua nova igreja, gostaria que contasse com detalhes a tua nova vida, e quais são as atividades nesta Igreja.

Concluindo, desejo que te vá bem e que Deus te ajude. Receba muitas lembranças de meus familiares e finalmente as minhas.

Roberts [Klavin]

Uma falha no Novo Testamento | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Antunes Braga1, 9 de abril de 1917

Querido amigo Reynold!

A tua carta escrita no dia 17 de março recebi no dia 4 de abril, pela qual agradeço. Desculpe não ter respondido antes.

No dia 1º de abril, domingo, estivemos em Orleans, e a igreja recebeu o meu irmão Augusto para o batismo. O empregado do Onofre disse que viria quando tivesse uma ocasião, mas como ele não veio a igreja decidiu dar oportunidade no dia do batismo: se ele viesse, seria chamado para a profissão de fé. A Margarida não foi chamada, pois já tinha sido aprovada em 1915. A igreja determinou para 9 de abril a data dos batismos no [Rio] Laranjeiras, junto à casa do Caciano de Medeiros e, como pastor para efetuar os batismos, o Artur Leiman.

Depois chegou um recado do Onofre, dizendo que o empregado dele não estaria nesse dia no Rio Laranjeiras. Na Sexta-Feira Santa fomos eu e o Artur Leiman solicitar autorização do Caciano de Medeiros para usar a propriedade dele para esse fim, se bem que de antemão tínhamos certeza de sua aquiescência. Também precisávamos providenciar um lanche para os visitantes que viessem de outras localidades. Tudo foi acertado, inclusive o abrigo para a troca de roupas.

Também começaram as dificuldades com o pai e a mãe da Margarida, que não queriam que ela se batizasse, mas ele ia decidir até sábado.

Viemos para casa e paramos nos Leiman para o culto, agora com novas reformas que acabaram de ser implantadas: uma é que a leitura bíblica é feita em português. Em seguida é feito um ditado para fixação do texto, e somente depois é estudada a lição.

[Ali] também o Artur contou os problemas com a Margarida e outros de Rio Larangeiras. A Sra. Kolegene achou que isso representava uma reclamação, e entendeu que diante das dificuldades de acesso deveriam abandonar este trabalho — idéia esta que foi refutada por todos, principalmente pelo grupo de voluntários, que não medem esforços para estar sempre lá.Pedro, o alemão, tinha encontrado uma falha no Novo Testamento.

No domingo pela manhã, depois das atividades normais da igreja, fui para o Rio Laranjeiras terminar de cuidar das providências para as atividades do dia seguinte. Ali contaram que o tal Pedro, o alemão, tinha encontrado um erro, uma falha no Novo Testamento: haveria uma passagem sobre dois irmãos que viviam em determinado lugar; um dele teria atravessado três colunas de fogo e ido para o céu, e como nada lá fosse bom, teria voltado e dito ao outro irmão que para o céu nunca fosse.

O Caciano então me perguntou se eu sabia ler em alemão e eu disse que sabia, se bem que não muito bem. O Caciano determinou que o Pedro viesse e trouxesse o seu Novo Testamento em alemão: ele veio todo prosa, e quando foi pedido que mostrasse o trecho mencionado ele levou um tempo imenso e apresentou um trecho que nada tinha daquilo que ele tinha falado. Li em alemão, traduzi e depois li o mesmo trecho em português: ficou comprovado que ele tinha inventado toda a história.

Depois que o Caciano deu um apertão ele disse que achava então que tinha lido no Cantor Christão. Depois ele procurou outra passagem; quando eu li e provei que nada do que ele falou havia nesta passagem, o Caciano entrou diplomaticamente no assunto, solicitando que ele estudasse direito e em outra oportunidade continuariam os esclarecimentos.

À tarde fui aos Paegles visitar o Willis, que teve um acidente mas agora já está andando. Ele estava trabalhando na atafona [engenho de farinha] e chegou perto da roda dentada; nem ele sabe como, mas bateu a cabeça com uma violência tal que ficou desacordado e assim ficou várias horas. Quando voltou a si estava todo ensangüentado, com o carretel dentado caído junto dele. Sangrava pelos ouvidos e tinha alguns dentes quebrados, e junto dele os eixos e as rodas giravam a toda velocidade. Assim mesmo sangrando ele foi fechar a água para parar a roda d’água, e depois foi se arrastando até a casa. Por vários dias continuou sangrando pelos ouvidos; nos primeiros dias ele se alimentou somente de leite e hoje está ainda com um dente quebrado e outro deslocado, e a cabeça toda inchada.

Dos Paegles fui de volta para o Rio Laranjeiras e pousei na casa do Caciano, para no dia seguinte aguardar os convidados e visitantes de Rodeio do Assucar e outros. Lá pelas 10 ½ da manhã começaram a chegar os brasileiros da localidade, e um pouco mais tarde chegaram os mesmos que tinham estado no Natal, com exceção do Wilis Slegmann que desta vez não veio.

Atravessaram os morros, enfiando-se por caminhos quase fechados pelo mato para chegar até o Rio Laranjeiras.

No domingo o pai da Margarida não apareceu, mas disseram que ele estava firme no “não” para que a filha não se batizasse. Logo chegou a hora dos batismos: depois de um culto na casa de Caciano nos dirigimos para o local junto ao rio. Ali, depois de cantados diversos hinos e lidos um trecho da Bíblia e uma dissertação pelo Artur sobre o batismo bíblico, foi batizado o candidato. Ambas as margens estavam cheias de gente, que se comportou dignamente — e, sendo assim, não houve o mínimo incidente durante o evento.

Voltando para casa do Caciano ainda cantamos diversos hinos, antes de tomarmos o caminho de casa.

Quanto à igreja, vai um tanto difícil, pois o Artur Paegle enamorou-se até as orelhas pela “calça larga” do Hilbert e a Margarida está apaixonada pelo alemão Pedro. Para nós é um tanto complicado administrar essa situação; o que a Igreja determinará neste caso, não sei.

Quanto ao Rodeio do Assucar2, vai tudo a mesma coisa. O Arturs [Leimann] ainda está em casa, e se ele vai embora não sei. Muita gente está fazendo tudo para que ele não se vá.

Quanto à igreja de Rio Novo, não sei como está. A estrada desde a Canela3 até Orleans, que estava muito ruim, foi totalmente consertada pelos rionovenses.

Quanto a tua saída daqui, não sei se alguém se alegrou. Se isso aconteceu, não fiquei sabendo.

Bem, por hoje chega. Escreva logo que puder. Lembranças de meus pais e finalmente as minhas.

Teu amigo Roberts [Klavin]

* * *

1. A “Linha Antunes Braga”, onde moravam os Klavin, ficava mais ou menos um quilômetro adiante da casa dos Leimann no Rodeio do Assúcar. Esta “Linha” ficava já na vertente que tende para Grão Pará e Braço do Norte. O forte da colonização dessa localidade era polonesa. Mais precisamente seria a “Alta Linha Antunes Braga”, que também fazia parte da microbacia da Invernada.
2. Rodeio do Assucar é um pequeno vale onde passava a antiga estrada de Imaruí, que tomava o rumo da serra. Nos lugares limpos, como nos pastos, até há pouco tempo viam-se marcas profundas características, formadas pelas pegadas das mulas. Devia haver variantes mais antigas, pois os Klavin encontraram na propriedade deles, que fica bem mais adiante na Invernada, as mesmas trilhas profundas, mas já com perobas crescendo – e pela contagem dos anéis concêntricos foi confirmado que este caminho, naquele lugar e naquela época já tinha sido abandonado há mais de 80 anos. Lendas dizem que era um pouso das tropas que transportavam charque e outros produtos serra abaixo e que levavam sal, ferragens e açúcar para o planalto. Neste lugar uma das tropas teria sofrido um ataque dos índios, e muito açúcar teria ficado esparramado. Há também lendas sobre uma bruaca cheia de ouro, pertencente a Anita Garibaldi, que teria sido enterrada em suas margens, durante sua fuga de Laguna para Curitibanos. Outra versão diz que, por falta de uma ferramenta própria, como uma pá, Anita teria afundado o tesouro num banhado. Rodeio do Assucar é também o nome de um pequeno rio, onde os Leiman tinham um engenho de farinha de mandioca. Esse rio, juntando-se ao rio do Rodeio das Antas e ao rio Carlota, forma o rio Barracão.
3. Canela, encruzilhada no final do vale do Rio Novo. Neste ponto a estrada se dividia, indo à esquerda para Coxia Seca e Brusque, à direita para Rio Carlota, Rodeio do Assucar, Barracão, etc.