Um mar de fogo | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 26 de julho de 1917

Querido Reini,

A tua carta escrita em 10 de julho recebi ontem a noite, quando fomos ao culto lá na casa dos Leimann, e foi o Jurka quem me entregou. Muito obrigado. Você escreve que aguarda resposta de duas cartas. Há duas semanas mandei um rolo com as cartas e na semana passada, mandei escrevi outra aproveitando os dias livres, e como podes ver as cartas vão e vem muito devagar.

Nós estamos passando bem, estamos todos com saúde. O tempo está bom e quente e parece um ar de primavera. Ontem e hoje está soprando um vente quente, do lado da serra parece que está se aprontando para chuva: estão aparecendo nuvenzinhas planas e está ficando tudo enfumaçado, por que na serra a queima dos campos está medonha. Ontem a noite quando voltávamos dos Leimann [trajeto Rodeio do Assucar – Rio Carlota – Rio Novo] podíamos ver no alto da Serra um mar de fogo. Até o Limors quis ver como é linda uma queimada e pôs fogo na samambaia seca no lado de baixo da estrada; esta queimou com tanta violência que o assustou. Ele teve que gritar chamando os vizinhos para ajudar a apagar, pois estava queimando demais.

Se o verão for tão seco como agora vai queimar demais, pois a vegetação está toda morta por causa das geadas. Hoje começamos a cortar a cana de açúcar. As canas novas cresceram pouco e
têm poucas folhas novas; as canas velhas estão bem ressequidas e por isso não vão dar grande coisa. A arroba do açúcar está valendo 10$000 mil réis.

Sobre [a igreja d]o Rio Novo vai diferente e nem por isso muito bem. A mocidade tem uma apresentação mensal de temas livres, onde todos participam, e que é feita numa das noites. Fazem também uma caixinha de perguntas, mas dizem que são tantas as asneiras perguntadas que se se fizesse uma revisão pouca coisa restaria. Dizem que os grandes desta área são o Emils e o Blukis.

Até o Arnolds Klavin tem para lá corrido, para ouvir desta sabedoria. Pode ser que ele te escreva mais do que eu saiba.

Do Oscar nada foi anunciado do púlpito, porque ainda não foi tão longe. A senhora Frischembruder, depois de muita luta, conseguiu levar o Osvaldo, até a declaração oficial e pública. Por isso o Oscar foi para o Rio. A mãe dele queria afastá-lo da Lida; a intenção do coração dele não era esta, mas o menino não é tão bobo que possa esquecer tão rápido.

O Oscar conta que no Rio não tem nada de bom e que quando você não tem dinheiro ninguém te liga. Em relação aos estudos, não poderia ir em frente, pois todos os exames são comprados a dinheiro e se não o tiver você não passa; os professores não gostam de pobres e os bons lugares são só reservados para os ricos.Todos aguardam tuas cartas, mas nem todos têm facilidade para escrever. Que o dinheiro domina o mundo. Diz ele que se dará por feliz quando conseguiu sair fora deste pesadelo.

O Ludi [Ludvig] te escreve? Temos escrito várias cartas mas não obtemos dele nenhuma resposta. Nesta última mandei a fotografia do Fater e, como não tenho resposta, não sei se recebeu ou não. Pode ser que ele tenha escrito e a resposta tenha caído na mão dalguns rionovenses que você sabe…

Bem por hoje chega. Muitas lembranças de todos, todos aguardam tuas cartas, mas nem todos têm facilidade para escrever.

Viva com saúde.

Olga [Purens]

[Nas laterais da carta] Nesta carta coloquei um papelzinho verde. Fio de lã preta não temos mais, quanto nós tínhamos você levou; será que lá não tem para comprar? E os buracos maiores podes remendar com tecido.

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