…O milho vem bonito e todas as roças e estão estão muito viçosos.

Rodeio do Assucar 2-2-27
Querido irmão!
A tua carta escrita no dia 25 de Dezembro eu recebi no dia 28 de janeiro e por ela muito obrigado, pois esta foi longa e eu gosto quando descreves o modo como você vive, como você está passando, o que você come e se está trabalhando ou não. Agora queria saber mais se tens alguma outra atividade ou somente estudas e depois sai por ai passeando com o seu novo casaco? Aquela camisa que nós costuramos aqui conforme a nossa moda é provável que não estejas usando, talvez seja ordinária demais por que é um trabalho nosso aqui do mato e assim é possível que eles achem graça de uma camisa destas.

Hoje está fazendo tempo bom e está bastante fresco, quase um tanto frio e um ar como fosse um dia de outono. Dias atrás choveu, mas não demais e foi muito bom para a lavoura, noutros lugares sim no domingo passado deu um temporal com granizo e tudo, mas aqui para nós, não deu. As roças este ano crescem muito bem. Agora somente esperamos que apareça nenhuma seca. As plantas de modo geral então o milho que já vem bonito em todas as roças estão muito viçosoas. Logo que plantamos o milho não estava vindo muito bem e as ervas daninhas cresciam demais, mas logo capinamos e começou logo a chover, agora todas as roças estão capinadas, somente a coivara do Rio Novo aquela na beira da estrada falta capinar a segunda vez então assim todas as roças estarão limpas. Aquele velho pasto que nós aramos e plantamos milho, já está com espigas grandes, podes vir comer do modo americano e assim poderemos aprender a “tornear” as espigas.

Este ano não vamos ter melancias, não cresceram e as que sobreviveram estão cheias de larvas, todos falam que este ano não foi bom para melancias.

Uvas nós temos bastante, mas não aqui. Aqui enquanto estavam verdes os cachos eram lindos, mas ainda verdes elas começaram a cair. No Rio Novo ali sim estes ano as uvas estão lindas, doces e você pode comer até dizer chega.

Outra coisa que se você estivesse em casa poderia comer bastante mesmo são os figos, também leite, pois nós temos 3 vacas dando leite. Eu aqui tiro de 2 vacas um balde cheio e a Mamma lá tira da “Bunita” bastante então você poderia tomar leite puro e também o soro de manteiga. Foi bom que você foi para a América, pois aprendeu a tomar soro de manteiga o que aqui você não fazia. Isto foi muito bom que você aprendeu.

É muito bom que você está passando bem e também a comida é abundante. O Artur [Artur Leiman] conta que quando ele estava na Escola passava fome e eles davam tão pouca comida que não dava para sobreviver, assim para 12 estudantes 1 kilo de carne então cozida numa sopa não era suficiente para sobreviver, então quem tinha algum dinheiro comprava algo para complementar e aos domingos era muito pior porque se não conseguisse chegar na hora não tinha mais comida. Por isso uma vez nesta situação eles arrombaram o armário da cozinha e comeram tudo o que acharam e assim você pode imaginar que vida. Por isso o Artur agora está doente e cai por ai, ele não sabe como vai ser a vida dele, pois ele está doente, a esposa dele também e ainda com duas crianças pequenas. Agora ele está em Nova Odessa com toda família, mas logo vai mudar para Itajay para aprender a ser dentista com o Adam da Minna. Esta Minna é aquela Kushmane que algum tempo teria morado com nós. Como que o Artur vai se sair eu não sei. Quando ele veio de Nova Odessa ele deixou toda mudança lá e tinha emprestado 700 mil em dinheiro e viajado pensando que voltaria a estudar. Agora achou que a proposta da Minna era mais conveniente então não sei quantas idas e vindas serão necessárias para acertar tudo. A esposa ele não quer deixar sozinha. Esta vez que ele veio ele gastou os 700 mil até Imbituba então calcule o custo desta viagem. A esposa com cabelo cortado em estilo conforme a ”moda” . E os filhos de óculos. Aqui uns irmãos da Igreja sugeriram que ele se apresentasse a Associação Missionária para trabalhar em Santa Catharina, pois trabalho há bastante e nem falta lugares para tanto onde ele poderia evangelizar. Ele declinou dizendo que todos americanos não cumpriram com o prometido e talvez o Deter não seja melhor. Melhor aprender uma profissão para suprir as necessidades da família e parece que o trabalho de Missões está fora das prioridades dele.

Nós soubemos que a esposa do Willis Leiman faleceu no dia 20 de dezembro deixando 4 crianças pequenas. Ela faz tempo que estava doente com câncer e disso que ela morreu. Para os familiares muitas preocupações. O Willis agora morava em Guarany um dia de viagem de Ijuy. Ele trabalha para a Missão Sueca que trabalha com os alemães.
A Selminha [Selma Klavin] está planejando voltar para o Rio e vai levar mais duas alunas que são a Kornelija Balod e a Klara Salit. Vamos se realmente irão, mas que estão se aprontando estão. Assim o Rio Novo cada dia está ficando mais vazio.

Já agora no dia 10 a Milda Match vai viajar para a Argentina, viagem para a qual faz tempo que está se aprontando. Nenhuma moça daqui não fez uma viagem desta e também nenhum objetivo como o dela foi tentado por nenhuma jovem daqui. Ela está determinada para que aconteça o que acontecer ela tem que ir embora para lá. Que seja para a vida ou para a morte e se fracassar nunca mais chegará perto de seu homem e seu casamento. Faz muito tempo que o Fritz [Fritz Leiman] tinha escrito para o Match sobre o assunto e quando o Arturs chegou, contou com mais detalhes. Começou com uma carta do Zeeberg daqui para o Fritz onde junto foi uma fotografia do pessoal daqui do Rio Novo onde também aparece a Milda e em lá chegando um viúvo chamado Kristian Hainze achou a moça muito bonita e encarregou o seu pastor, o Fritz para que escreva inclusive enviando uma soma de dinheiro para que ela fosse para lá. Assim ela vai embora mesmo, pois sendo homem já vale a pena. Dizem que é um homem gordo de bigodes fartos e pretos e barba de bode. Tem 45 anos de idade. Aqui no pedaço tem gente fazendo gozação porquê o Fritz além de ser pastor lá é encarregado de conseguir esposas para os viúvos de plantão. Agora uma vez que a Milda está indo embora, aqui ela tinha tentado pegar todos, mas não deu certo. Ela queria o Stroberg e por isso ela entrou em choque com todo mundo. Aqui ela está com um conceito muito lá embaixo. Ela queria ensinar o coro e como não deu certo então as reclamações vieram aos montes. Em nenhum dos coros apareceu uma tão manhosa como a Milda.

Logo na semana que vem chega aqui o Pastor Stroberg com a esposa com a qual se casou. A escolhida foi a professora alemã Griselde Bichels de Kuritiba, então vamos ver como ela vai ser.

Na semana passada o Arturs viajou para Lauro Müller onde foi visitar o Ivo Reis, pois ele mora lá mesmo e recentemente faleceu a sua esposa e com eles está tudo bem e manda para você muitas lembranças.

Estou também mandando o endereço do Karlos Salit e assim você poderá escrever para ele.

Desta vez chega de escrever, pois o papel acabou. Ainda tinha algumas coisas para contar, mas fica para outra vez.
Ainda muitas lembranças de todos nós, que estamos passando bem. Lucija.

(Escrito na lateral)
Muito obrigado pelos Cartões de Boas Festas, se bem que não são tão bonitos quanto os do ano passado. Gostei muito do costume dos americanos de mandar presentes durante as Festas. Você pode trazer este hábito para o Brasil. Nas entrelinhas de tuas cartas observei que não é tão logo que você volta para o Brasil. Estou certa disso ou não?
(Escrito na lateral pelo Artur (irmão deles)

A Lucija no dia 14 de janeiro mandou uma carta contendo 2 fotografias como presente para o seu aniversário, recebeste ou não, se não escreva que então eu vou reclamar no Correio, pois elas foram registradas. AP.
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Onde isso vai levar e o que você vai fazer com isso? | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 26 de maio de 1921

Querido Reini! Saudações!

Hoje eu estava com receio, pois já faz duas semanas que recebi a tua carta escrita no dia 29-4-21. Nunca eu deixei uma carta, tanto tempo sem resposta..

O motivo é que para a cidade raras as vezes que a gente vai. Então a gente ia deixando para frente e também os novos escrevinhadores estavam aguardando coisas novas acontecerem, para então escrever, mas como você sabe aqui as novidades são poucas. Bem desta vez vou escrever tudo o que for possível. Isso mesmo.

Você possivelmente não vai achar muita coisa e tempo você não tem muito e sempre deve ter alguma carta pendente para responder. Quando pode achar muito tedioso, mas responda somente o que for importante.. No dia 29-4-21 eu mandei uma carta. Agora já são duas vezes que coincidiu que no dia que você estava escrevendo lá, e eu estava escrevendo cá.

Nós graças a Deus estamos passando bem e faço votos que tu também estejas.

O tempo está muito seco. Outono assim faz tempo, não tem havido como deste ano. A chuva tem sido mínima e há semanas que o tempo permanece limpo a semana inteira, Na outra semana sim, uma noite até que choveu bastante, mas pela manhã estava tudo enxuto, pois um desagradável vento frio soprava intensamente. Este trouxe as primeiras geadas. Noutro dia, lá perto da Igreja já estava com a grama um pouco branca, mas foi por pouco tempo, pois agora já está quente outra vez.

Noutros anos por esta época as geadas, já tinha deixado tudo acinzentado, mas este ano por aqui ainda está tudo verde. No ano passado as folhas verdes da mandioca tinham caído todas e esse ano continuam como estivessem continuando a crescer.

E também as roças de milho este ano estão mais bonitas. Noutros anos quando as chuvas e tempestades derrubavam o milho, muitas espigas apodreciam.

Desta vez foi muito diferente e principalmente daqueles perto da ponte e também mesmo a coivara junto do mato, o milho está um amarelo dourado, firme de pé, pois muito poucas as hastes que estão caídas. Também na coivara da Bukuvina o milho está muito bonito com espigas muito grandes e muito bem maduras devido ao tempo quente e seco. Somente nas duas grotas, na roça junto a mata, mais para o lado de casa, o vento derrubou um pouco, mas ai, já estamos terminando de colher.

Daqui uns dias vamos começar a transportar e jogar dentro do paiol que você conhece bem.

Estamos ainda com muito serviço porque o feijão não está todo arrancado e ainda muito por “bater”. Você escreve que arrancar feijão e quebrar o milho é um serviço leve, mas não está rendendo nada, porque estão muito entrelaçadas com as hastes do milho e ai não é nada fácil. Tudo isto agravado pelo acentuado declive do terreno que você bem conhece, onde estão paus das queimadas anteriores e pedras descem rolando e batem nas canelas da gente.

E você nas ruas planas e limpas do Rio de Janeiro. Claro que lá é muito melhor.

Eu sempre pensei que no Rio de Janeiro as roupas e tecidos seriam mais baratos. Aqui as mercadorias estão muito baratas. Somente a farinha de trigo está a 1$500 o quilo, mas essa a gente não está comprando. Sem ela a gente sobrevive e deixa que custe até 2$000 o kilo.

O açúcar está valendo 7$500 a arroba. A farinha de mandioca a 5$000 a saca. A carne de gado estava a 1$600 o kilo em Orleans. Agora está a 1$200. O toucinho até bem a há pouco tempo estavam pagando a 13$000 a arroba com ossos e tudo. O feijão está a 8$500 a saca.

O arroz que este ano deu de maneira sensacional estão pagando a 6$000 a saca e nas vendas já limpo é vendido a 4$000 a arroba. Nós não temos muito, porque não plantamos muito este ano, mas a qualidade dos grãos está muito bonita.

Os vizinhos que plantaram 2 quartas colheram de 25 a 30 sacas da variedade de casca amarela. Nós este ano não conseguimos esta semente. Outros conseguiram com os poloneses, lá para os lados da Linha Antunes Braga. Esta variedade é muito mais produtiva. No ano que vem vamos deixar de plantar as de cascas brancas e mudar para as de casca amarela, pois além de ser mais produtivo é menos exigente quanto à qualidade do solo.

As roupas aqui são caras, mas não tanto quanto lá que te pediram por um terno de brim 100$000. Aqui na Venda do Pinho, eu vi um brim bonito amarelo como aquele que uma vez você já teve somente mais encorpado do que aquele por 4$000 o metro.. Se você quer um terno completo com colete então 7 metros seriam suficientes que dariam 28$000 e mais botões, linha, forros e tecidos para os bolsos 30$000 então ainda sobraria 70$000 para o alfaiate. Eu e a Mamma estivemos conversando sobre a possibilidade de comprar aqui um tecido bom e mandaríamos já com as calças prontas e o tecido para você mandar fazer o fraque e o colete. Gostaria de saber, quanto isto custaria e é possível que saísse mais barato e assim você poderia guardar o seu rico dinheirinho para as outras coisas, porque as roupas geralmente com o uso diário duram muito pouco.

Tecidos de lã boa, não sei quanto, as mais caras de 18$ a 20$ o metro e aquelas de 10$- 12$ a gente vê que não são grandes coisas. Gostaria que você calculasse direito e me escrevesse, pois quando eu for à cidade, posso avaliar a melhor solução para a sua roupa.

Agora a senhora Leimann no mês de abril mandou duas vezes, alguns pares de meias feitas em casa, para o menino lá na Argentina. Lá elas custam de 5 a 8 pesos. O menino sente muito frio, lá em Buenos Aires. Ele ainda te escreve? Não se pode esperar muito de uma pessoa, que diz que vai muito bem. Frio ele passa porque a cidade dele está mais perto do pólo sul. Este ano ele vai terminar o curso e vai sair de lá pronto “Doutor”.

Você saiu daqui antes e parece que vais demorar a conseguir este título de “Doutor”. Não sei, se vale a pena estudar tanto. O outro cuidou de estudar caligrafia e todas manhãs fazer café para os professores.

Você fica quebrando a cabeça e a língua com a Língua Grega e fica fazendo experiências com microscópios. Onde isso vai levar e o que você vai fazer com isso?

Bem, por hoje chega senão vai ser muita coisa para você ler e eu também preciso ir dormir, pois estou com muito sono.

Pode ser que logo receba alguma carta e ai tenho que escrever outra vez. Logo a Luzija vai imprimir o seu manuscrito. Então eu mandarei na semana que vem porque neste envelope não cabe mais.

Vai também junto uma carta do Arthur.

Com muitas e amáveis lembranças – Olga.

P. S – Junto eu estou mandando duas amostras de tecido, mas parecem que não são muito bons. O branco custa 3$500 e o cinza custa 4$000. Logo vão chegar novos tecidos e eu vou especular mais.

Ele é malandro demais. | De Lucia e Olga Purim para Reynaldo Purim – 1921

Duas cartas no mesmo papel

Rio Novo 17 de fevereiro
Querido irmão!!
Primeiramente envio muitas lembranças. Nós todos estamos com saúde, somente a mãe reclama que doem as pernas.
O tempo está chuvoso. Ontem houve um grande temporal e o vento vinha de cima [noroeste, lado das Serras] e quebrou muito milho na roça do lado de cá do mato e na roça do outro lado do mato o milho estava muito altos, quase 4 metros de altura e agora estava começando a pendoar. Não sabemos o que aconteceu na Bukovina,[no outro lado, através da mata, atrás do Kasbuck] pois hoje nós não fomos lá.
Hoje passamos o dia plantando feijão e se tudo correr bem esta semana, vamos terminar.
A nossa Zebra tem um cavalinho novo e ele já tem 4 meses. Ele é marrom escuro, com a testa e as pernas brancas. Ele é malandro demais. Só quer brincar. Quer arrancar todo que botão da roupa da gente. Ele se chama “Sírio” e é um nome que os árabes dão a uma raça de cavalos muito velozes. Quando você vier para casa, já, poderá montar.
Este ano vamos ter muitas melancias, mas ainda não estão maduras. Você consegue melancias para comer?
Já colhemos a batata inglesa, pois ele cresceu muito bem este ano. Já vendemos 3 sacos e amanhã vamos levar mais um. Os homens das Vendas estão pagando 7$ por saca.
Junto com esta carta estaremos mandando calças e tudo que vai junto costurado à mão é serviço meu. Em troca eu quero que você mande cordas para o meu violino. Já poderia ter aprendido a tocar, mas devido ao medo de ao afinar, ocasionar o rompimento de alguma corda que infelizmente terminou acontecendo. O meu arco também é muito velho, mas eu vou tentar fazer um novo. Se não conseguir terei que procurar algum especialista para que este o faça.
Você já aprendeu a tocar piano? Estás aprendendo com quem? Quem está pagando estas aulas?
Você mandou algum alfaiate fazer as tuas roupas de lã?
Tens comido muito mamão? Aqui nós não temos mamões. Laranjas, ainda têm em algumas laranjeiras. As uvas este ano foram muito boas, bem melhores que ano passado.
Bem, desta vez chega, quando vier a resposta, eu escrevo mais. Eu acho que vais conseguir ler.
Muitas lembranças de todos de casa. Lusija.

(Escrito no mesmo papel)
– Neste pacote você vai receber muita mercadoria. – E você como sendo seu próprio alfaiate poderá refazer o que não estiver certo. Pois, para nós, sem as medidas atuais fica difícil. As calças, você poderá soltar a barra se tiveres crescido muito. Se teus colegas começarem, a perturbar por causa da tua roupa, você diz que é a moda que está em voga em Sta. Catarina ou é “Moda do Rio Novo”. Nós aceitamos figurinos de lá, pois não sabemos se a moda lá é de calças largas em baixo e estreitas em cima. Nós de lá, não sabemos nada. O tecido para uma calça custa 6$800, para camisa 11$000, Meias 1$800 o par, colarinhos $500, gravata vermelha 700, agora como grande sabichão, você pode calcular quanto isto tudo custaria, sem calcular os forros e botões. Você poderia aproveitar os dias livres das férias e confeccionar tudo isso na moda de lá. Bem se alguém não gostar que não olhe.
Hoje não vou escrever mais nada, pois podes estar exausto de ler os “manuscriptos” e na semana passada eu já mandei uma carta.
As tuas todas foram recebidas. Viva com saúde. Com saudações. – Olga.

Principalmente as moças | Reynaldo Purim a Olga Purim

[Rascunho de carta, em bloco de papel, que parece não ter sido enviada.]

Rio, 15 de setembro [de 1917]

Querida Olga,

As tuas cartas de 19 e de 28 de agosto recebi esta semana. Obrigado. Ambas chegaram quase juntas. Alegro-me em saber que vocês todos estão passando bem.

Eu também, graças a Deus, estou passando bem. Aprontei-me muito para os exames e acho que me saí muito bem. Na prova de Língua Portuguesa foi que tive alguma dificuldade. Nas outras matérias cheguei perto do 100. Em Aritmética [Arithmetica] tive a maior nota da classe: 98. Na nossa classe uns dez levaram pau e não conseguiram passar. Se continuar assim esses não vão passar para o 2º ano e vão ter de estudar tudo novamente. Em Inglês só um além de mim tirou 99. Em Geografia só um tirou 99, e nessa prova escrevemos 1 ½ hora sem parar. O professor deu quatro questões tão amplas que teria o que escrever o dia inteiro. Os alunos não ficam com a cópia da prova, que são entregues para o arquivo do Watson, como histórico escolar do aluno.

Há pouco tempo a Igreja Batista de São Christovão comemorou o seu aniversário. O coro do nosso seminário cantou um hino com a música do número 123 do Hinário Skanhas Ruota, e foi o próprio dirigente que escreveu a letra em português. Os baixos eram três: eu, o (b) e o (rv). O hino nós aprendemos de cor de acordo com os costumes dos corais brasileiros.

Aqui nas festas não é hábito dos homens e mulheres se apresentarem com números especiais como no Rio Novo. A maior parte do tempo entre a abertura e o orador oficial é preenchida com hinos e breves saudações de outras igrejas e outras associações.

Agora recentemente teve uma grande reunião no Salão Nobre e sobre isto já deves ter lido no Jornal; essa foi maravilhosa e muito bem organizada. Aqui o público da cidade é gente fina. Você deve estar pensando que as pessoas são muito bonitas. Mas [mesmo com] essa elegância toda, não acho nada bonito e beleza mesmo não há nenhuma. Principalmente as moças, não parecem
pessoas normais ou naturais: as roupas parecem esticadas no corpo e justas como o sapato no pé; outras usam penteados de mil coques, etc. Aqui na cidade consigo encontrar pessoas vestidas exatamente como naquelas “Folhas da Moda”. Todos inventam modas mil.

Perguntei na carta ao Ludi [Ludvig] se ele recebeu a carta que você mandou para ele. Ele respondeu que tinha recebido e disse mais: “Sim, agora que você sabe que ele recebeu pode ter a certeza que ele vai escrever respondendo”.

Eu por aqui não sei mais o que escrever. O tempo está quente. Ainda sobre o tempo na Rússia…

Um mar de fogo | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 26 de julho de 1917

Querido Reini,

A tua carta escrita em 10 de julho recebi ontem a noite, quando fomos ao culto lá na casa dos Leimann, e foi o Jurka quem me entregou. Muito obrigado. Você escreve que aguarda resposta de duas cartas. Há duas semanas mandei um rolo com as cartas e na semana passada, mandei escrevi outra aproveitando os dias livres, e como podes ver as cartas vão e vem muito devagar.

Nós estamos passando bem, estamos todos com saúde. O tempo está bom e quente e parece um ar de primavera. Ontem e hoje está soprando um vente quente, do lado da serra parece que está se aprontando para chuva: estão aparecendo nuvenzinhas planas e está ficando tudo enfumaçado, por que na serra a queima dos campos está medonha. Ontem a noite quando voltávamos dos Leimann [trajeto Rodeio do Assucar – Rio Carlota – Rio Novo] podíamos ver no alto da Serra um mar de fogo. Até o Limors quis ver como é linda uma queimada e pôs fogo na samambaia seca no lado de baixo da estrada; esta queimou com tanta violência que o assustou. Ele teve que gritar chamando os vizinhos para ajudar a apagar, pois estava queimando demais.

Se o verão for tão seco como agora vai queimar demais, pois a vegetação está toda morta por causa das geadas. Hoje começamos a cortar a cana de açúcar. As canas novas cresceram pouco e
têm poucas folhas novas; as canas velhas estão bem ressequidas e por isso não vão dar grande coisa. A arroba do açúcar está valendo 10$000 mil réis.

Sobre [a igreja d]o Rio Novo vai diferente e nem por isso muito bem. A mocidade tem uma apresentação mensal de temas livres, onde todos participam, e que é feita numa das noites. Fazem também uma caixinha de perguntas, mas dizem que são tantas as asneiras perguntadas que se se fizesse uma revisão pouca coisa restaria. Dizem que os grandes desta área são o Emils e o Blukis.

Até o Arnolds Klavin tem para lá corrido, para ouvir desta sabedoria. Pode ser que ele te escreva mais do que eu saiba.

Do Oscar nada foi anunciado do púlpito, porque ainda não foi tão longe. A senhora Frischembruder, depois de muita luta, conseguiu levar o Osvaldo, até a declaração oficial e pública. Por isso o Oscar foi para o Rio. A mãe dele queria afastá-lo da Lida; a intenção do coração dele não era esta, mas o menino não é tão bobo que possa esquecer tão rápido.

O Oscar conta que no Rio não tem nada de bom e que quando você não tem dinheiro ninguém te liga. Em relação aos estudos, não poderia ir em frente, pois todos os exames são comprados a dinheiro e se não o tiver você não passa; os professores não gostam de pobres e os bons lugares são só reservados para os ricos.Todos aguardam tuas cartas, mas nem todos têm facilidade para escrever. Que o dinheiro domina o mundo. Diz ele que se dará por feliz quando conseguiu sair fora deste pesadelo.

O Ludi [Ludvig] te escreve? Temos escrito várias cartas mas não obtemos dele nenhuma resposta. Nesta última mandei a fotografia do Fater e, como não tenho resposta, não sei se recebeu ou não. Pode ser que ele tenha escrito e a resposta tenha caído na mão dalguns rionovenses que você sabe…

Bem por hoje chega. Muitas lembranças de todos, todos aguardam tuas cartas, mas nem todos têm facilidade para escrever.

Viva com saúde.

Olga [Purens]

[Nas laterais da carta] Nesta carta coloquei um papelzinho verde. Fio de lã preta não temos mais, quanto nós tínhamos você levou; será que lá não tem para comprar? E os buracos maiores podes remendar com tecido.