Ficaremos muito felizes com sua estada aqui . . . | F. Janowski para Reinaldo Purim

Rio Branco 18 de Outubro de 1920

Querido amigo Reinold.
Já faz um bom tempinho que recebi a tua carta. Obrigado por ela. Perdoe-me por ter demorado a responde-la. Nós ficamos sem a nossa mãe e também da minha irmã que diligentemente fazia as vezes dela. Agora quem nos ajuda nos trabalhos da cozinha é a sogra da minha irmã mais velha, a senhora Lavise Waldhauer. Ela já ultrapassou os 70 anos de vida, mas o seu espírito alegre e o seu constante bom humor não a tem abandonado. Também administrar a casa ela sabe muito bem e é pena que com o peso dos anos, as forças começam a diminuir. Mas estamos felizes com esta solução, pois parecia impossível e agora o problema está totalmente contornado.

Quanto àquele fornecimento de livros que mencionei na carta anterior mostra-se inviável. Após consultas a diversas pessoas amigas de livros, aqueles que os tem não querem largar e aqueles que herdaram de outras pessoas e não tinham interesse logo se desfizeram. Tenho esperança de conseguir alguns hinários antigos, alguns sem títulos, sem capas e até sem as primeiras e últimas páginas. Entendo não ser necessário mandar para o Rio via Correio, pois sendo que o período de férias estando tão próximo e certo que virás passar as tuas férias em St. Catharina; tenho um pressentimento que não vais deixar Rio Branco excluída das localidades honradas com a sua presença. Ficaremos muito felizes com sua estada aqui e todos livros que achares aproveitáveis e só por na mala de viagem.

Anteontem 16 de outubro em Curityba foi realizada a “Reunião da Junta da Convenção Baptista Paraná / Sta. Catharina”. Daqui da Igreja também foi mandado como representante o querido irmão P. Kalnin. Este irmão tem uma firme convicção na Palavra e o coração abrasado no Trabalho do Senhor Deus.

A Igreja Batista Leta de Nova Odessa convidou o irmão J. A . Freijs da Letônia o qual desde o dia 6 de agosto encontra-se na América do Norte para visitar as Igrejas Batistas Letas do Brasil. Este convite foi aceito com muita alegria e o grande líder Frejis deverá chegar ao Brasil aproximadamente em janeiro de 1921.
Eu descrevi vagamente a minha viagem ao Rio Novo. Mas queria descrever e compartilhar mais amiúde mas a tinta secou e a pena da caneta enferrujou e tempo para muito escrever, não consigo. Junto com esta carta mando um poema que guardei da minha viagem para o Rio Novo.

Por favor mande-me um livrinho com o título mais ou menos assim “A pratica da Oração” de W.E. Entzminger.

Com muitas e amáveis lembranças.
F. Janowsky

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Ciclo dos carros de boi [1] | Família de Hans Elbert


Hans Elbert e família.

Passeio com o carro puxado a bois, meio de transporte muito comum naquele tempo. A criança de camisola branca é o Otto Elbert. Na frente a Dona Camila, assegurando o total controle do veículo.

Veja também:
Anatomia de um carro de boi

Outras pessoas que escrevem melhor | Theodors Klavin a Reynaldo Purim

Barro Vermelho, 15 de julho de 1917

Querido amigo Reinhold,

Devo pedir desculpas pelo longo tempo que não tenho escrito. Aqui agora sopram ventos, ora quentes, ora frios; pela manhã são frios, e lá pelo meio dia são quentes – e o tempo está muito seco.

Na noite das reuniões, antes de começar, agora é determinada a leitura em brasileiro e também um ditado. O professor é o Arturs [Leiman] e os alunos somos nós mesmos. A minha deficiência é que não sei escrever rápido, e para ficar pior, quem senta na carteira do meu lado é a M. M.

Um dia estávamos trabalhando na construção do engenho quando chegou o Match montado numa égua que veio acompanhada por um cavalinho. Logo que entrou pela porteira ele soltou a égua para sair pelo pasto e se alimentar, e foi para dentro conversar com o Sr. Leimann.

Aí nós, rapazes, quando vimos a égua com a cauda muito comprida, logo resolvemos aprontar. Apanhamos o machado, aparamos o excesso da cauda e guardei. Na primeira oportunidade entreguei, muito bem embrulhada e num bonito pacote, para a dona da égua – a M. M. – e ela levou embora. Mas depois da reunião de quinta-feira à noite, no caminho de casa, ela começou a me apertar perguntando por quê – ou melhor, qual era intenção ou significado desse esquisito presente. Respondi que era brincadeira e não pensava nada de mal, mas ela disse que eu tinha chamado de rabo, [querendo dizer] que vivia seguindo o tempo todo, e a irmã dela também – achava que era isso que eu queria dizer com a brincadeira. Consegui convencê-la de que eu tinha dado porque, como tínhamos feito errado em cortar a cauda da égua, o mínimo que podíamos fazer era devolver o material para a dona, que era ela. Parece que eu a convenci e ela ficou mais calma.

Depois da tua saída surgiram boatos dentre alguns de nossa comunidade, de que haveria grupos querendo aparecer e fomentando desentendimento – e se fosse para descrever daria para escrever um livro.

O que realmente estou sentindo é que a M. M. quer o A.L. debaixo dos tamancos dela; ela está muito mais exibida do que no teu tempo, e acho toda essa situação muito triste.

Agora em casa estamos derrubando capoeiras e colhendo milho. Arar a terra não dá por que a terra está muito seca, seca como eu nunca tinha visto antes.

Sobre as demais novidades você deverá ter sabido através de outras pessoas que te escrevem melhor do que eu.

Com sinceras saudações,

Theodors [Klavin]

Fotos por toda a colônia | Lizete Rose Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 28 de maio de 1917

Querido filho,

Recebemos sua carta, que nos alegrou bastante.

Aqui estamos todos com saúde e trabalhamos o mais que podemos, mas os serviços não têm fim. Arrancamos feijão, quebramos o milho e engordamos os porcos, dos quais quinze agora estão no chiqueiro. De arroz recolhemos mais de doze quartas em todas as roças. Os outros [vizinhos] que plantaram no cedo tiveram colheitas espetaculares.

Nós estamos passando bem, graças a Deus, e estamos felizes que tu também estejas te saindo bem. Como estás em matéria de dinheiro? Estás precisando? Escreva e mandamos o que pudermos. Aqui nós pouca coisa temos vendido: um porco gordo por 44$000 mil réis e 4 latas de mel por 38$00 mil réis; mas dinheiro ainda temos suficiente.

Do tio Ludvig [Rose] não temos notícia, e não sabemos se está ainda vivo, se foi enforcado, fuzilado ou talvez afogado. O Matias e a senhora Burdes espalharam boatos de que ele fora enforcado nove vezes, mas quem está vivo, vive, e quando eles mencionam o tio Ludi, mencionam também você. O Karklin alardeia por todos os cantos que três redações de jornais alemães foram explodidas: do Deutsche Zeitung für S. Paulo [onde era redator o Ludvig], do Germania e do Diário Alemão – e junto com eles o tio Ludi. O Sr. Zeeberg teria contado parte desta história para o tafoneiro1, assinalando que também o Karlis estaria em má situação, pois teria alugado uma pequena casa e viveria à procura de trabalho na companhia de uns negros. Isso ele teria lido em jornais.

O Fahter2, quando recebeu as fotos do tio Ludi, andou mostrando-as por toda colônia, começando pelo Sr. Butler e terminando pelos estonianos de Orleans. Mencionou também o seu nome, pois também estivestes em São Paulo. Tudo isso causou aqui muita inveja, porquê:
1) O tio Ludi tem uma alta posição;
2) Tu também tiveste alguma vantagem, sendo íntimo do tio.
[Por isso] agora sempre apareces como motivo de conversa.

O Butler está escrevendo cartas para o Father enviar ao Ludi, mas o assunto eu não sei.

Ainda muitas lembranças nossas e as bênçãos de Deus, do Papai de da Mamãe3.

* * *

1. Tafoneiro. Moleiro, aquele mói grãos de cereais (na tafona/moinho) para fazer farinha.
2. Fahter. “Pai”. Seria Jahnis Purim, meu avô, ou o pai do Ludvig (e da autora da carta), Jekabs Rose? Provavelmente o Jekabs Rose, pois o Jahnis Purins não iria pedir para o Prof. Butler escrever nenhuma carta.
3. Do papai e da mamãe. Escrita pela mãe, Lizete Rose Purim.

Papagaios | Artur (Otto) Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 16-04-17

Querido Reini,

Agora vou eu escrever uma carta para você. Sei bem que não sei escrever direito, mas você vai conseguir ler.

Eu estou indo muito bem. Aqui apareceram muitos papagaios. Outro dia quando o Arnoldo Klavin ia para Orleans admirou-se com a quantidade e a bulha que faziam. Noutra viagem, quando ia para o Rio Larangeiras, ele trouxe a espingarda e deixou aqui em casa. Na volta, como era tarde, ele não foi para a casa dele e dormiu na nossa e ainda na sua cama e vestiu o seu paletó cinza.

No outro dia ambos fomos para o mato caçar porcos do mato, mas os cachorros não acharam. Ao todo matamos 10 papagaios. Cinco deles ele levou para o pequeno Karlos [Carlos Klavin]. Foi um grande tiroteio, e é uma pena que os papagaios foram embora.

Ontem na volta da Escola Dominical achei um canivete de bolso com duas lâminas, e se ninguém procurar vai ser meu.

Agora chega de imprimir.

Muitas lembranças,

Arthurs [Purim, na época com 11 anos de idade]

PS. (Escrito por outra pessoa) Agora o Artur está um palmo mais alto. Antes, quando chegava um grupo de meninos, ele ficava sumido no grupo e só se ouvia a sua voz. Agora ele é o primeiro, o mais alto.

Missões Nacionais | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo 25-3-17

Querido irmão,

Recebi as tuas cartas escritas em São Paulo no dia 9 de março para mim e para o Papai. Muito obrigada mesmo. Você não imagina como essas linhas com as notícias que você escreveu nos tranqüilizaram, principalmente saber que você chegou bem ao final de sua viagem.

Você menciona que enviou cartões postais de Paranaguá, mas estes até agora não chegaram. No dia 3 de março o Robert [Klavin] trouxe do Correio [de Orleans] seis fotografias do Ludi1, que talvez você já tivesses visto. Numa aparece o tio Ludi com a noiva, noutra ele sozinho, na terceira ele com os cunhados, e em outra ele com a falecida Olga. Assim pude admirar tanto o tio quanto a tia bem demoradamente, pois ele de fato está muito diferente de antigamente. Ele escreve que mudou completamente o seu temperamento, que mantém a serenidade, mas raramente sorri. Fiquei olhando e admirando nossa tia e tentando avaliar se ela é uma dama, se se veste na “moda” e como realmente ela é.

Você poderia descrever mais sobre São Paulo. Você esteve na casa de Emilija e onde largou aquela caixa dela? Bem pouco tempo atrás recebi a tua carta que veio junto daquela do A.B. Deter2 que tinha sido escrita para a Igreja. Esta eu entreguei para o Robert [Klavin]. Ele escreve que até agora não pôde vir a Santa Catharina por falta de tempo e muito trabalho, mas talvez, logo que puder, deverá programar uma visita. Também pede que seja feita uma coleta para Missões Nacionais. A igreja concordou em atender o seu pedido e esta será feita no dia da Páscoa, e quanto vai render eu escrevo depois. Nenhuma outra coisa importante tem acontecido em nossa igreja3.

Quanto ao Rio Novo, a novidade é que a escola voltou a funcionar todos os dias da semana. Está com 12 alunos e o professor é o Jahnis4 de Riga, e a mensalidade por aluno é 2$000. Quanto aos bens da falecida Martinson, ainda continuam sem solução. Quanto eu sei, o dinheiro que ela determinou que fosse entregue para “a Missão” foi preciso o Sr. [Juris] Frischembruder levar a Tubarão (o ouro ficou para o Ernesto) e entregar ao Juiz; este vai depositar em um banco, enquanto procura eventuais herdeiros.

Sobre as comemorações do Jubileu do Rio Novo5: quanto a isso pouco teria o que escrever, mas todos dias acontecem coisas de que tudo mundo fica escandalizado. As festas deles você conhece bem, mas agora parece que foram além. Convidaram também os membros de nossa igreja com convites em cartão cor de rosa. Mas dos nossos só foram o Arnolds e Wilis Klavin, o Wilis, o Ernests, a Emma, a Lonija dos Slengman e mais alguns dos Paegles.

Hoje veio fazer-nos uma visita a Sra. Grunski e começou contar as novidades e as ”maravilhas” da Festa, e assim houve muita coisa para se ouvir. Disse que pela primeira vez na sua vida tinha visto um “Teatro Batista”. O programa começou às 11 horas da manhã e terminou às 4 da tarde. Tinha sido trazida a Banda de Música de Orleans. Há pessoas que dizem que eles vieram de graça, mas outros falam que foram pagos 50$000 para que viessem. Nem mesmo os jovens que tocam instrumentos na igreja participaram. Foi bem diferente das festas antigas, que começavam com hinos e orações. Desta vez começaram com valsas, e todas músicas apresentadas eram de dança.

Você sabe aquela bodega lá em baixo do Rio Novo? Pois é, o italiano pegou um garrafão com pinga e outro com vinho e veio se esconder na capoeira do Lövenstein. Naquele dia foi fácil, pois naquele dia ele teria vendido 25 garrafas entre pinga, vinho e outras misturas. À noite na frente da porta da igreja a rapaziada bêbada começou a brigar com tamancos e lá dentro o pastor com palavras. A Sra. Frischembruder quase desmaiou, chamando “meu Jahnis, meu Jahnis”, e isto nada tem de jubileu.

No final o Pastor Butlers6 teria dito que se continuar assim teria que chamar um advogado. Mas sobre o Rio Novo chega.

Eu ainda gostaria de saber como o Tio Ludi te reconheceu. E pelo Fater ele nada perguntou? E de nós outros também não? Como tens levado a tua caixa de coisas? Aquele mel não azedou quando você chegou no fim da viagem? Tens encontrado o Inkis? Aqui corre um papo de que o Inkis de Riga7 virá para o Brasil.

Escreva como tens passado, como estás vivendo. Onde dormes e o que comes. Tudo eu gostaria de saber. Conosco não há necessidade de se preocupar pois estamos vivendo como sempre. Bem, minha carta já está escrita, mas quando poderei levar a Orleans não sei, porque está chovendo torrencialmente.

Desejamos a você uma alegre e feliz Páscoa. Que o Senhor Jesus te guie e guarde sempre.

Com amáveis saudações,

Olga

* * *

1. Ludi, Ludis ou Ludwig era o mesmo Ludvig Rose – Pronuncia-se “Ruose”.
2. A. B. Deter, missionário batista norte-americano que trabalhou no Paraná e em Santa Catarina.
3. Nossa igreja, Igreja Batista em Rodeio do Assucar – localidade próxima ao Rio Novo, entre a Invernada-Barracão e Rodeio das Antas. Ali moravam, entre outros, os Leiman.
4. Jahnis Frischembruder? Este João Frischembruder (marido da Austra?) foi um professor importado da Letônia para ser professor da Escola de Rio Novo. Era primo do Juris e dos demais Frischembruders de Rio Novo e de Mãe Luzia.
5. Jubileu. Aniversário de 25 anos da fundação da Igreja Batista Leta de Rio Novo.
6. Willis Butler, pastor e professor da escola anexa à Igreja Batista de Rio Novo. Professor no Colégio Batista do Rio de Janeiro e do Seminário Teológico do Sul do Brasil do Rio de Janeiro. Professor de diversas instituições superiores e outras de ensino em Curitiba. Foi também pastor da Primeira Igreja de Curitiba.
7. João Inkis Senior, grande líder batista na Letônia. Já tinha estado no Rio Novo em 1897.