…chegamos em casa em Paranaguá eram 2 da madrugada, mortos de cansaço | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim -1922

Paranaguá 28 de agosto de 1922

Querido Reinold

Saudações

Parece que eu nunca tenha escrito para você desta cidade. Você também terá o direito de dizer que não foi possível escrever por absoluta falta de tempo por não ter condições de estabelecer uma escala de prioridades, pois as tarefas e necessidades se sucedem de maneira impressionante.

Estou cheio de trabalho, já tive oportunidade de conhecer todo meu campo de ação que é muito grande. O maior problema é que muito poucas pessoas sabem ler, também a maior parte do meu deslocamento é por água.

Na semana passada saí de Assunguí de canoa em companhia de um negro que era o ajudante, às 10 horas da manhã, tinha chovido muito e o rio estava por fora das margens e para baixo íamos muito bem e ao entramos no mar na força da maré alta surgiu um forte vento contrário então tivemos que esperar a maré baixar e depois na base de remos enfrentando as ondas e o vento até que às 8 horas da noite quando ficamos encalhados numa parte rasa e dai quando chegamos em casa em Paranaguá eram 2 da madrugada mortos de cansaço.

Na Sexta Feira nós saímos às 3 horas da madrugada para chegar de volta em casa há meia noite. Estarei aprendendo lidar com o motor para sair com o barco grande.

O povo aceita o Evangelho, mas o difícil é organizar o trabalho para ele continuar sozinho, pois faltam pessoas capacitadas e com iniciativa. Daí sobra, tudo, pra gente.. Escreva-me como estás passando. Eu mandei para você as conclusões da Convenção.

O novo Inkis ainda continua na escola?

Tens alguma novidade do Rio Novo ou de Nova Odessa?

Saudações

Carlos Leiman

1898: A primeira visita de um pastor leto à Colônia Rio Novo | Parte 1/3

Por Jahnis Inkis

Publicado no Majas Viesis (O Visitador do Lar) 1898, números 46-48 (inicio do registro no n° 45). Traduzido por V. A. Purim. Cortesia de Brigita Tamuza.

As primeiras famílias de letos deixaram a Letônia para o Brasil em abril de 1890; nos anos seguintes foram seguidas por muitas outras. Jahnis Inkis (leia sobre ele aqui) foi o primeiro pastor enviado da Letônia para conhecer a colônia do Rio Novo, em 1898. Seguem, em três partes das quais esta é a primeira, as porções do seu relatório de visita pertinentes à história dos letos de Rio Novo.

 

[…] Quando as famílias passaram a ocupar seu terreno designado e construíram seu barraco de palha, não se encontravam mais debaixo dos olhares alheios. Sem perturbar os mais próximos, os homens começaram a derrubar a mata, então todos se sentiram melhor. Trabalhando aumentava a força e a esperança por dias melhores. As árvores caíam uma após outra e na mata bruta surgiam espaços ensolarados. Quando foram colhidas as primeiras espigas de milho e as donas de casa com farinha nova faziam pão, então para parte dos novos colonos parecia que com o Brasil poderiam se acertar. Então foi fundada Rio Novo, primeira e até agora a maior colônia leta no Brasil.

Nas proximidades, distante quatro horas de caminhada para o oeste, fundou-se outra colônia leta, denominada Oratório. Esta se encontra mais distante da cidade e em lugar mais montanhoso que Rio Novo. Ali a ocupação ocorreu mais tarde, por letos vindos de Riga e Liepaja. Mas lá não ficaram. Levantaram como aves de arribação e voaram para a província de Rio Grande, ao sul de Santa Catarina, mais distante do Equador, onde o clima é mais frio. Algumas famílias também saíram de Rio Novo, juntando-se aos de Oratório. Este foi um passo imprudente. Os letos não deveriam se espalhar, mas viver juntos.

As cartas que durante este período foram remetidas para a terra natal transmitiam variadas noticias: pessoas mais esclarecidas, que esqueciam o difícil presente e esperavam um melhor futuro, escreviam a realidade, porém outros em suas cartas descreviam condições nada agradáveis, retratando os aspectos mais negativos. Seus parentes na terra natal não entendiam. Ficou por costume a cada emigrante a recomendação: “você nos escreva a mais completa verdade”. E pelas correspondências ninguém podia saber a verdade — embora em todas as cartas estivesse a mais completa verdade…

Entretanto, abandonando a divulgação do Novo Mundo e as custas de viagem, o governo brasileiro deixou de fornecer passagens gratuitas. Assim mesmo surgiam pessoas que partiam para o Brasil: este eram da província de NovGorod (Rússia), aos quais dificuldades não afugentavam. Estavam acostumadas a elas desde que saíram da terra natal e acamparam nas matas de NovGorod. Lá estavam com certa estabilidade e alguma prosperidade, mas almejavam algo melhor. Estes eram viajantes destemidos e colonos experimentados. O governo alemão não permitia transpor suas fronteiras, alegando a possibilidade de serem portadores de vírus de cólera. Esses imigrantes navegaram até a Suécia e de lá para a Holanda, em seguida atravessando a Alemanha para só depois embarcar para o Brasil.

Os letos vindos de NovGorod não se estabeleceram em Rio Novo; uma parte deles se desviaram para as proximidades de uma cidadezinha habitada por alemães, Blumenau, fazendo seu acampamento nos seus arredores e ficando por lá definitivamente. Opinavam que lá as terras eram mais férteis que as da colônia Grã-Pará, onde se encontra Rio Novo. Enquanto isso outros encontraram, na distância de dois dias de viagem, umas terras à margem do Rio Mãe Luzia, e em suas correspondências apregoavam suas vantagens, atraindo para lá um grupo de letos.

Desse modo, os letos no Brasil se estabeleceram em quatro lugares distantes uns dos outros…

Neste período a unidade dos patrícios não foi padronizada. Pensavam assim: “Desde que já percorri este longo caminho, quero então procurar o melhor lugar do Brasil…” Vejamos, amigos, que para cada vantagem encontrada há sua correspondente desvantagem. Sendo assim, alguns se transferiram três ou quatro vezes, até cansarem, ou então até acabarem os recursos para novas buscas, pelo que se obrigaram a aceitar a área e as condições em que se encontravam. Passam os anos e os maus resultados da vagueação começam a tornar-se visíveis em maior quantidade, enquanto benefícios não são visíveis.

Quatro templos e quatro escolas certamente serão mais difíceis de construir do que para todos uma só igreja e uma só escola. As crianças crescem cada vez mais e a necessidade da escola é cada vez maior. Uma pequena parcela dos letos mora nas cidade; esses últimos parecem ter esquecido as razões, os motivos da imigração da terra natal, onde também moravam na cidade e onde poderiam ter ficado. Queriam ser agricultores, mas a agricultura não era o seu forte e aconteceu que permutaram a cidade da terra natal pela cidade brasileira, sendo que a última não tinha a oferecer os mesmos benefícios da primeira.

Neste resumo passamos em revista a imigração dos letos ao Brasil e seu acampamento na mata bruta. Agora vamos visitá-los e observar como vivem…

Conseguimos passagem de Bremen até Desterro [hoje Florianópolis], capital de Santa Catarina… Viagem de navio por 5 longas semanas… após algumas semanas avistamos as costas do Brasil.

À distância parece ser uma grande nuvem azul; ao aproximar-se se vê: não são nuvens, mas uma cadeia de montanhas. Das montanhas chega até nós um aroma agradável. Durante mais uma semana atracamos em diversos portos brasileiros, até chegar ao final da jornada, a província de Santa Catarina; em sua capital, Desterro, deixamos o navio.

(continua)