Agradeço a Gramática Inglesa que você me mandou.| De Luzija Purim para Reinaldo Purim – 1925 –

(Outra carta sem indicação do ano)
Rio Novo 19 de junho

Querido irmãozinho! Saudações!

Eu recebi a tua carta escrita em 16 de maio já há bastante tempo e por ela muito obrigada. Eu já poderia ter escrito a resposta antes, mas agora não mais estamos indo toda semana para Orleans, porquê a manteiga não é bastante para vender e dai a gente também não vai ao correio toda semana, você não vai tomar por mal eu ter feito esperar então agora vem à compensação porquê terei mais notícias para relatar e provavelmente a Olga também escreva e assim você terá bastantes coisas para ler.

Agradeço pela Gramática Inglesa que você me mandou. Recebi no dia que eu mandei a carta escrita no dia 23. Você já a recebeu? Você me pergunta como eu estou indo com os estudos. Eu realmente para estas coisas não tenho tido oportunidade de chegar perto, pois durante o dia inteiro trabalho na roça e a noite ou eu fio a lã ou teço meias. Este ano as meias estão bem valorizadas, pois os negociantes em Orleans estão pagando 4$000 o par e outros lugares estão ainda mais caras.

Recebemos os medicamentos que você enviou através do Vitor [Vitor Stawiarsky] e por elas muito obrigado. Este portador não tivemos chance de encontrá-lo, pois ele foi embora muito rápido. Quando fomos procurar, ele já tinha ido embora. Estes remédios ainda não foram utilizados e por isso pedimos que por agora não mande mais porque a Olga está agora se tratando com remédios indicados pelo Stawiarsky [Etienne Stawiarsky ] e por não poder misturar tudo pedimos que não fique gastando o seu dinheiro com remédios e para as suas próprias despesas poderá ficar sem dinheiro nenhum.
O tempo agora está chuvoso e toda semana ficou nublado e esta noite está chovendo forte. Agora os atafoneiros que moem o milho para fazer fubá não podem reclamar de falta d’água para movimentar as atafonas e também a nossa calha [Uma calha escavada com enxó goiva em troncos de palmito Jussara, sustentado por forquilhas, trazia água de uma nascente para próximo da casa] começou a correr maior quantidade, pois até a pouco mal pingava. Geadas tem havido em algumas manhãs, mas aqui elas não queimaram nada.

A festa do piquenique [Não pudemos inferir a que feriado se refere este piquenique] caiu em um dia chuvoso, tinha pouca gente. A tia Maisin antes da Festa esteve em Mãe Luzia e na volta trouxe consigo o Arthur Abolin sobre o qual já escrevi algo na outra carta. Ele ainda está por aqui. Ele tem a fisionomia semelhante ao Alex Klavin, muito parecido mesmo. Agora ele está hospedado na casa do Willis Slengmamm . Ele tem dirigido diversos cultos na igreja, muitas pessoas estão muito interessadas e acham que ele não deve ir embora antes da volta do Stroberg e outras pessoas já acham que não vale a pena ficar ouvindo. As suas prédicas são longas e se o relógio não bater as 12 horas, ele não saberia a hora de terminar. Os sermões não tem um título ou texto base. Um é igual ao outro. A chamada é sempre a mesma é que nós os escolhidos temos que orar mais em busca da plenitude do Espírito Santo, nós temos que estar vigilantes etc. Somente não prega o arrependimento ou conversão dos pecadores, as mensagens são sempre as mesmas: que o tempo da misericórdia está chegando ao fim e que os escolhidos devem se aprontar para a chegada de Cristo. Você escreve que soube que os pentecostais estão fazendo propaganda, eu pelo menos sobre línguas estranhas não tenho ouvido, pois é possível que eles têm estas manifestações em suas próprias casas porquê na igreja eu nunca vi.

Na 1a. Festa do Verão [Ascensão do Senhor cai no verão no hemisfério norte] dia estava muito chuvoso, mas na 2a. da Festa [Oitavas da Ascensão do Senhor] o tempo estava esplêndido e ouve um longo programa quase toda constituída de hinos e músicas. O dirigente foi o Abolin. O programa começou às 10,30 horas e terminou às 3 horas da tarde. Gente tinha bastante e também tinha vindo bastantes brasileiros de Orleans, mas para estes não foi lido nenhum texto nem cantado nenhum hino, como eles chegaram assim eles foram, viu como é, em outros lugares aqui ninguém vai pregar, e aqui eles vieram, mas nem assim, mesmo as pessoas que poderiam fazer algo nada fizeram e ninguém quer nada com nada.

Na semana passada recebemos uma carta do Andrejs, ele escreve que mandou uns papéis e desenhos para sua construção. Você os recebeu? O Jahnites agora está em Riga trabalhando com um sapateiro e aguardando oportunidade para entrar num Seminário. Eles próprios dinheiro não tem, mas esperam alguma vaga livre ou bolsa de estudos com o Freij [Líder Batista da Letônia] ou com o Fetler [Outro líder batista da Letônia], mas como nós aqui acompanhamos tudo o que acontece lá pelo “Kristiga Draugs” [O Amigo do Cristão – Publicação religiosa da Letônia] percebemos que o Fetler não tem escola nenhuma. Ele anda viajando e coletando dinheiro e planejando abertura de um Seminário ou uma Escola Superior. Os nossos parentes sempre tiveram o Fetler em alta conta e ainda hoje acreditam piamente no que ele diz.

Os remédios para “mal da terra” [Ancilostomíase] ainda não recebemos, mas é possível que estejam no correio em Orleans.

Bem por hoje chega de escrever e é possível que você não tenha tempo de ler e se esta carta chegar enquanto você tiver ido a “Chautaqua” [Acampamento Anual Batista] então ai mesmo que você vai demorar mesmo a ler esta carta devido ao seu muito trabalho.

O genro do Farmacêutico é o Jorge Moures e ele próprio quer te escrever.

As tuas lembranças foram entregues a todos. A senhora Klavim está quase totalmente recuperada. Escreva bastante para mim dizendo como estás passando.

Muitas lembranças de todos de casa e eu disse no começo que os demais iriam escrever também, mas todos ficaram com preguiça e nenhum quer mais escrever.

Assim fico aguardando longa carta de resposta.
Luzija

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…do ano passado eles voltaram à Igreja Batista…| De Roberto Klavin para Reynaldo Purim 1923

Invernada, 12 de janeiro de 1923.

Querido amigo!

A tua carta escrita em 11 de dezembro 1922 recebi durante as Festas e pela qual agradeço muito. Eu não estava devendo nenhuma resposta e quando escrevi a última fiquei aguardando a resposta um mês atrás do outro, mas nada de resposta. Comecei a pensar que talvez o tenha desagradado em alguma coisa que tenha escrito ou talvez você esteja tão ocupado com os estudos que não mais tenha mais tempo para escrever para os amigos e conhecidos.

Agora que as Festas estão longe atrás e a Semana de Oração também já passou, estão posso escrever. No ano passado estive 2 vezes trabalhando em Mãe Luzia e na última nós começamos uma Escola Dominical qual enquanto eu estava lá eu a dirigia e depois de eu vir embora eles continuaram e agora as crianças dos Anderman também estão freqüentando e colaborando na Escola Dominical. No mês de agosto do ano passado eles voltaram a Igreja Batista, pois estavam aborrecidos daquele movimento de saltar e pular reconhecendo o como comportamento errado e sem fundamento nas doutrinas da Palavra de Deus.

A Escola no Rio Larangeiras [naquela época era escrito assim] eu parei pelo motivo de que a freqüência e o interesse eram muito poucos e muitos preferiam ir as Festas da Igreja Católica e bailes etc. A Isolina virou católica e o Leonardo não aparece mais e pode ser também que tenha retrocedido. Entre os brasileiros é assim quando não há uma liderança contínua e a pergunta é quando alguém virá aqui?

Eu estou passando bem. Alguns meses eu trabalhei em casa, mas semana que vem eu vou trabalhar com o W. Slengmann.
Receba mui amáveis lembranças e muitos bons dias.

Seu Roberto Klavin.

Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 4

continuação da parte 3

4

Fui convidado a visitar as montanhas da serra, onde residem duas famílias de letos crentes e outros patrícios. Pensei, que fazer? Eles são filhos de Deus e tenho necessidade de visitá-los.

Dois dias de viagem a pé. Sou idoso, não estou seguro em encetar tal objetivo. Já passaram 67 anos, as pernas sentem fraqueza. Não sou o mesmo que, quando na Letônia, aos trinta anos, em plena força, em viagem de evangelização, podia andar de Jaunjelgava até Latgale, mais de 200 quilômetros.

Mas que bobagem pensar só em si! O que uma pessoa é se não uma flor, uma sombra, que desaparece. Está escrito: “Ele aos cansados dá forças, aos fatigados reanima”. Por isso coloquei-me de joelhos aos pés do Senhor, a quem todos os caminhos das missões pertencem. Falei com o meu pai, expondo as necessidades e rogando forças para todos os membros do corpo. Então me raiou o amor e a fé, que suplanta e vê sobre todas as montanhas de dificuldades e coisas humanamente impossíveis.

Uma voz no meu coração me dizia: “Levanta, filho, e vai, pois serei contigo.” Respondi: “Bendito és, meu querido Guia e Mestre, pela promessa. O que Tu dizes se realizará.”

Jacob Karkle me acompanhou como intérprete e condutor. Saímos segunda-feira, 11 de agosto de 1931. Andamos o dia inteiro, quando chegamos ao sopé de uma alta cadeia de montanhas.

No início, aos meus olhos, as montanhas pareciam estar a poucas horas – mas nada disso! Quanto mais andávamos, mais as montanhas fugiam de nós; porém a vitória ficou do nosso lado.

Encontramos um colono brasileiro. Conversamos. Ele perguntou para onde estávamos indo, respondemos que vamos até a cidade de Urubici, nas montanhas. Ele afirmou:

— Esta noite não podem prosseguir, venham comigo, fiquem aqui, amanhã poderão ir adiante.

Fomos com ele. No meu coração pensei: “Oh, Jesus, como Tu protege os teus!”

Entramos na residência do nosso benfeitor. Ele convidou que deixássemos as nossas coisas no seu melhor quarto, conduziu-nos até a cozinha, colocou bancos junto ao fogo, sentamos e nos aquecemo: era uma noite fria.

O proprietário teve a idéia de sugerir que cantássemos algum de nossos hinos. Lamentavelmente, não tínhamos nenhum hinário em português, então cantamos em leto.

Após a ceia fomos ao repouso. O proprietário nos mostrou um quarto com uma cama grande, onde os dois viajantes cansados puderam dormir confortavelmente.

Pela manhã, ao alvorecer levantamos, mas a dona da casa já estava com o café pronto. Refeitos, continuamos a jornada.

Agora era subir a grande montanha, que está a 2000 metros acima do nível do mar. Subimos durante uma hora e não estamos nem na metade. A montanha continua as nos desafiar. Subimos mais durante outra hora e ainda sobra montanha a vencer.

Duas horas e meia de subida e finalmente estamos no topo. O clima no topo da montanha é agradável; mais adiante encontramos um pequeno riacho com água cristalina e gelada. Sentamos e almoçamos: na subida a montanha a fome havia despertado.

Após o almoço e continuamos a andar. Agora na descida, mas a frente mais uma montanha. Subimos novamente. Minhas pernas começam a protestar pelas subidas e passagens pelos riachos. Daqui para frente continuamos com pés descalços, os calçados perdemos nas águas e na lama.

Meu companheiro, jovem, continua com as mesmas energias, obrigando-se a me esperar. Durante as subidas ele carrega minhas coisas sem dificuldade enquanto não consigo acompanhá-lo.

Neste alto da serra vejo enormes planícies e matas inteiramente cobertos de pinheiros, como também encostas e desfiladeiros. Para onde fossemos olhar eram somente pinheirais.

Não podemos demorar por aqui, temos longo caminho pela frente e o relógio marca 12 horas. Metade do dia já passou, sempre subindo. Agora lentamente, descendo.

O ar é límpido e leve, agradável. Os riachos correndo entre pedras que brotam da fonte aqui mesmo no sopé da montanha. Agora o caminho faz voltas junto à margem da montanha e temos que cruzar a pé os riachos. Por muitas vezes, mais de dez.

Finalmente as travessias terminaram e meu companheiro avisou que daqui para frente apenas alguns pequenos riachos estarão pelo caminho, e que são afluentes de um rio maior [NOTA: Não nos é possível afirmar qual dos caminhos da serra eles tenham usado. Pessoalmente só conheço o caminho da Serra do Grã-Pará ou Serra da Forcadinha, ou ainda a Serra do Morro do Engenheiro. O itinerário não bate em alguns itens. Pode ser que seja o caminho da Serra do Imaruí, mas ainda falta averiguar. Se for a primeira hipótese o rio maior em frente seria o Canoas.].

A planície se apresenta cada vez maior. As montanhas, mais distantes umas das outras, deixam que a linda planície mostre sua terra preta e fértil, a produzir riqueza útil. Vemos algumas colônias onde foram derrubados belos pinheiros e, em seu lugar foi semeado trigo. Sim, aqui é um mundo diferente: outro ar, outras árvores e outras safras.

Tínhamos passado por muitas residências e o sol descambava para o poente, e ainda não tínhamos nos alimentado.

Chamei meu companheiro e disse que minhas pernas não estavam obedecendo sem novo reforço alimentar. Ele compreendeu imediatamente. Estávamos outra vez junto ao curso da água que cruzamos tantas vezes, mas se tivesse que atravessá-lo novamente não haveria condições: estava largo, profundo e a correnteza forte.

Sentamos junto a corrente, servimo-nos de alimento e tomamos água diretamente da correnteza. Vinham a nossa frente algumas pessoas, e perguntamos se estava longe o nosso objetivo; responderam que mais 4 horas de caminhada.

Quase desmaiei, preocupado com minha canseira. Comecei em meu coração implorar a Deus por novas forças para a fadiga não me vencer. O companheiro me fez lembrar que nesta noite não haverá luar e que na trilha com lama (choveu durante a noite) será impossível caminhar com a escuridão. Suspirando por ajuda divina, segui meu companheiro. Horas antes tínhamos passado em frente a uma igreja, agora vejo outra [NOTA: Aqui eles já parecem estar descendo as margem do Canoas. Primeiro São Pedro, onde deveria haver uma igrejinha, e depois outra em Santa Teresa.]. Caminhando lembrei que este povo, que aqui vive, não é de selvagens; eles pensam em Deus. Seria necessário que alguém mostrasse a eles com certeza o caminho da salvação, para que eles se tornem em filhos de Deus e nossos irmãos.

O sol se escondia, nós nos apressamos, às vezes até as carreiras. No caminho escorregadio, caí umas três vezes, felizmente não sujei as roupas de lama. Agradeci a Deus pela proteção. Como eu pareceria sujo de lama?

Um bêbado?

Como alguém me receberia desse jeito em residência estranha?

O sol se pôs, despedindo-se com os últimos raios pelos cumes das montanhas. Despediu-se também de nós ainda a caminho. Refleti com que precisão, sem qualquer atraso, são cumpridas as leis estabelecidas pelo Criador. Está escurecendo e ainda não estamos no fim da viagem.

O caminho está cada vez melhor e seco, não há perigo de quedas, caminhamos depressa e com segurança. Meu companheiro diz:

— Estou vendo uma residência conhecida — e aponta: — Veja, do lado direito, a luz na janela, esta é uma residência de letos. É a colônia do [Adolfo] Maisin, proprietário da terra. O próximo é um brasileiro, e depois é a propriedade do meu irmão Carlos Karkle com duas casas: uma na beira do caminho, à esquerda, e outra, mais velha, à direita, a uns cem passos do caminho. Pode ser que esteja residindo na morada nova.

Chegando mais perto vemos uma lareira num barraco. Batemos palmas. Veio ao encontro um brasileiro. Perguntamos:

— O proprietário mora aqui ou na casa velha?

Ele aponta para a casa velha. Voltamos pelo mesmo caminho para o lado oposto. A escuridão era total. Apalpamos o portão e começamos a bater palmas.

Fomos recebidos pelo irmão do meu companheiro, o Carlos Karkle. Chegando bem próximo e reconhecendo seu irmão exclamou:

— É, Jacó? Que bons ventos te trazem?

E, cumprimentando, conduziu-nos para adentrar a residência.

Meu companheiro me apresentou aos seus parentes, informando que sou irmão do João Purens, o qual é amplamente conhecido. Abrigando as malas e bengalas, sentamos.

A dona da casa é de origem alemã. Desde os cumprimentos na chegada podemos deduzir a língua alemã, embora fale muito bem a língua leta. Senhora amável e hospitaleira.

Indagavam sobre a viagem: foi difícil andar a noite tão longo trecho do caminho? Respondo que para um idoso como eu não foi tão fácil, as pernas estão exaustas.

Ela disse:

— É preciso fazer uma imersão demorada em salmoura quente — e em seguida, providenciou a salmoura.

Fiz a imersão e ajudou bastante, mas nas solas dos pés havia bolhas produzidas pela estrada pedregosa. Refleti como seria no meu querido Mestre, que andou pelas montanhas e vales buscando as ovelhas perdidas de Israel?

A dona da casa havia preparado o jantar e nos convidou a mesa. Agradecemos ao Pai do Céu e servimo-nos de saborosas ervilhas, cultivadas aqui na propriedade. Plantou apenas dois litros e colheu duas sacas, isto é, cem vezes mais.

Nosso anfitrião comentou que foi o primeiro leto a chegar à cidade de Urubici. As plantações são planas e devidamente cultivadas. Conversamos sobre alguns assuntos, e em seguida fizemos um culto noturno. Li no Novo Testamento um capítulo apropriado da Palavra de Deus e dobramos os joelhos em gratidão e adoração.

No inicio imaginei que Carlos, irmão de Jacó, fosse membro da igreja batista. Mais tarde entendi que não. Era, no entanto, querido amigo e benfeitor dos batistas, e sua esposa sabatista, ambos queridos amigos e amantes da Palavra de Deus. Que o Senhor os abençoe e os mantenha na sua misericórdia. Terminamos e repousamos até a manhã.

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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim