Devidamente inutilizados | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 4 de maio de 1919

Querido Reinold!!

Primeiramente mando muitas e sinceras lembranças! Semana passada, dia 29 de abril, recebi tuas cartas escritas do dia 4-4-19. Danke [“obrigado”, em alemão no original].

Estou muito alegre porque tu estás bem e eu posso dizer o mesmo. Nós estamos passando bem e estamos com saúde. Agora já está fazendo duas semanas que mandei uma carta que espero a esta altura que você talvez já tenha lido; antes das festas da Páscoa mandei um cartão postal, e na semana passada, quando recebi as cartas, mandei outro cartão postal. Tudo foi recebido?

Bem, desta vez você pediu dinheiro. Toda as vezes que você pede dinheiro ele já há algum tempo foi enviado. Faz duas semanas que o dinheiro seguiu, mas desta vez não pelo correio. O nosso Diretor [da Companhia de Colonização Grão-Pará] estava se aprontando para ir ao Rio visitar o filho no Colégio Batista [Colégio Batista do Rio de Janeiro, adjacente ao Seminário], então pensamos que ele poderia levar o dinheiro para você. Sendo assim, eu tive a honra de subir as escadas do palacete da Companhia com 300$000 na mão, mas ele disse que não gostava viajar com grandes importâncias em dinheiro e imediatamente desceu comigo até o Pinho, onde determinou que se fizesse uma transferência para a firma correspondente via telégrafo e o imediato pagamento para o Colégio Batista. Então o nosso dinheiro ficou aqui no Pinho, que também forneceu um recibo legal com as estampilhas e selos da República devidamente inutilizados, garantindo a legalidade da transação. Nos Correios para enviar os 300$000 eu teria que pagar 7$000, e assim não tive que pagar nada.

O Diretor sabia que você estava naquela escola; ele quis ainda saber quanto tempo você iria estudar, e se iria estudar tanto quanto o Butler. Já nas férias do ano passado o filho dele vinha estudar inglês com o Butler. Aliás, a recomendação do Colégio Batista também foi dele [Butler], pois melhor não poderia se desejar.

Então, semana passada o Sr. Diretor e sua distinta filha viajaram para o Rio para visitar o filho, aproveitando para visitar a outra filha em Florianópolis. Pode ser que você tenha visto este hóspede tão ilustre.

O tempo está magnífico, com lindos dias de outono. É uma pena pensar que o que está verde e lindo logo que venham as geadas elas deixarão tudo cinza e deprimente. Os dias estão ficando mais curtos. Os milharais estão amarelados.

Semana passada a Anna Burmeister foi com o Alfredo [Leepkaln] dela a Laguna a fim de fazer altas compras para o casamento, que parece que vai ser este mês. Esta gente anda numa pinta de um jeito que até agora não foi visto por aqui. A senhora Wilman não fazia nada que parecesse ostentação, mas este pessoal nem se fala: todo domingo tem recepções e festas. Se dinheiro houvesse tudo bem, mas o que sobra são dívidas, e ainda contam vantagens dizendo que o mais rico da comunidade é o Leepkaln. Outro que se possível seria rico é o Willis Slegmann.

A Nanija Karklin está trabalhando em Laguna. Ela passou uns tempos em casa, e quando as roupas ficaram ultrapassadas e gastas ela voltou trabalhar.

O Jurgis Karklin vai para São Paulo, e dos projetos de eletricidade até agora nada. O Rio Novo está completamente às escuras; agora que faltou petróleo ele poderia ter iluminado toda Rio Novo com a eletricidade.

Agora em Orleans já chegou o querosene, mas os donos das vendas estão querendo muito caro por ele. Uma lata [custa] 25$000 e a garrafa 1$000, e quando vier mais deve ficar mais barata. A potassa [soda cáustica] para fazer sabão, que custava ano passado 6$000 a 8$000, agora pode ser comprada por 2$500. As roupas continuam caras e não há nenhuma que seja realmente boa, pois as vendas continuam vazias.

Bem, por hoje chega de escrever, você não terá tempo de ler tudo isso. Mas escreva uma longa carta para mim.

Porque não tem mandado aqueles “boletins” este ano, ou eles não têm sido mais distribuídos? Não recebemos nenhum este ano. Jornais estamos recebendo regularmente. O Deter ainda
não veio e nem sei quando virá. Quem disse que ele já teria vindo?

Com lembranças de todos de casa,

Olga

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