Depoimento de J. A. Zanerip | Meu primeiro par de sapatos

Quinta Parte

Uma pequena história do meu primeiro par de sapatos. Como já tinha contado antes, por absoluta falta de dinheiro quase todas as crianças iam à Escola Dominical descalças. Costumavam ir descalças até mesmo aquelas que pelas condições financeiras poderiam ir calçadas, pois por longos períodos não havia as mínimas condições de usar sapatos, por causa da muita lama em períodos de chuva, o que era agravado pela grande quantidade de carros de bois.

Meu primeiro calçado foi um par de tênis, mas este durava muito pouco naquela época devido às grandes distâncias e às grandes caminhadas.

Um dia resolvi plantar um talhão de feijão só para mim, por entre um milharal qual estava quase maduro. Fiquei muito feliz quando, ao fazer a colheita, rendeu mais de quatro sacos de feijão limpo. Além disso, como no ano anterior quase não tinham aparecido compradores, pouca gente tinha plantado neste período. Daí o preço foi uma fábula: 25 mil réis a saca de 60 quilos, e na venda apurei limpo 75$00 réis.

Olha, creio que em toda colônia ninguém era mais rico que eu. Já pensaram, um menino com 75$00 mil réis no bolso? Um sonho!

Nestes dias apareceu alguém vendendo uma bicicleta por 75$00 mil réis, mas naquela altura eu já tinha gasto 5$00 réis. Ofereci 65$00 mil réis, mas o dono da bicicleta se mostrou irredutível: menos de 75$00 nem um tostão. Por fim ofereci o que tinha, 70 mil réis. Aí o dono da bicicleta abaixou o preço para 72$00 mil réis — e por causa de 2 mil réis deixei de comprar minha sonhada bicicleta.

Em compensação, um dia fui à cidade e comprei um par de sapatos, meus primeiros e lindos sapatos.

Aqueles sapatos rangiam muito; quando andava faziam “nhique nhoque, nhique nhoque”. Eram tão bonitos que eu nem queria usar para não sujar. Do dinheiro que sobrou gastei mais um pouco e o resto dei para a mamãe.

Foi um sucesso não esperado.

* * *

[continua…]

As galinhas do Augustin ou as vacas dos Gritch | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripa em Letto
[anotação em português no original]

Rio Novo, 12-05-1918

Querido Reynold,

Recebi a tua carta escrita em 25 de abril no dia 9 de maio. Muito obrigada. As minhas cartas foram rápido, as suas nem tanto. Na sexta feira passada fez uma semana que mandei uma carta em resposta àquela que veio junto com o Boletim. Mas a que mandaste em resposta à carta em que enviamos o dinheiro ainda não chegou, e é bem provável que não chegue mais, pois parece que os rionovenses ficam fisgando as nossas cartas. Por causa disso, mande as próximas no nome da senhora Leimann — mas por favor não cole o envelope, porque a senhora Leiman nunca leria uma carta que não fosse dela e porque os envelopes colados são uma atração para a censura: pensam logo que por aí tem segredos.

As últimas duas cartas não tinham sido abertas. Os jornais que vieram em nome do Artur também chegaram, mas aquela que você mandou em nome do Roberto ainda não chegou. Aquela carta que recebeste da Rússia, já mandastes? Se extraviou será realmente grande prejuízo.

Você quer que eu escreva boas notícias, que elas por aí não existem. Nós vamos bem. Estamos todos com saúde. Nem tempo para ficar doentes nós temos, tal a quantidade de serviço. Estaremos colhendo feijão e logo teremos que bater, mas o tempo está muito instável: um dia está bonito e seco, no outro já está chovendo e também bastante frio — se bem que geadas [como aquelas] no ano passado (11 de maio já foi a primeira) este ano não teve ainda nenhuma.

Nosso feijão está muito mais bonito que no ano passado, mas o dos outros tem madurado muito rápido e os grãos ficam muito pequenos, principalmente daqueles como os Leiman e os Klavim, que plantaram bem cedo. Nós também tivemos uma roça nesta situação, lá perto da grande Peroba: numa semana estavam verdes e noutra já estavam bem secas.

A nossa roça grande perto do mato está madurando normalmente, mas a colheita está muito mais difícil do que no ano passado, quando se podia colher uma quarta de planta por dia, pois o feijão embaraçou muito nos pés de milho e a gente demora a desenroscar. Nem todas partes estão maduras e são as verdes que estão mais enrodilhadas nos pés de milho. O feijão está com bom preço, 18$000 a saca, e aqueles que colhem já correm vender. A venda do Pinho ainda não está comprando, porque diz que tem gente colhendo feijão ainda verde.

[Leia sobre o cultivo do feijão]

Sobre os rionovenses, eles vão muito bem. No Dia de Ascensão do Senhor houve um piquenique no pasto da Igreja de Rio Novo, mas cada um teve que levar a sua rosca e as suas bolachas. A Escola Dominical entrou só com o chá. Tudo teve que ser trazido pelas pessoas, pois tudo está tão caro e a Escola Dominical não tem verba. Mas piquenique era preciso.

Agora também o Butlers determinou que uma vez por mês os dirigentes da Escola Dominical leiam a lição em português, pois assim eles aprendem o idioma. Agora as sessões regulares de negócios são aos domingos depois da Escola Dominical e do culto, por isso as vezes ficam até as 3 horas da tarde.

O Augus está sendo convidado para sair [da zeladoria], e o Peteris para ficar no lugar dele. Mas o Augustin vai continuar plantando no terreno da Igreja, uma vez que o Peteris vai plantar muito pouco. O próprio Peteris foi à casa dos Klavim contando como foi a reunião em que foi tomada a resolução da substituição do Augustin por ele, e diz -se que não foi uma reunião fácil [NOTA: Pelo contexto parece que eles eram professores primários, mas ainda não se pode comprovar].

Os outros professores também não querem cobrar tanto dinheiro das crianças, mas se faltar dinheiro para pagar o professor a igreja é que deve pagar. Agora eles tem que pagar 45$000 por mês e 3$000 por cada criança.

De que tenho informações, a escola não está lá grande coisa, Não mandam decorar nada, e para os mais novos não tem aritmética. E tem ainda por cima três recreios, que só servem para a turma ficar correndo e brincando.

Você pergunta o que o Butlers está fazendo. Nunca no Rio Novo a Igreja teve um pastor tão distinto e honrado. Ir embora, ele parece que não está pensando. Se você o visse não sei se o reconheceria, pois ele está bem mais gordo e com o cabelo bem grisalho; quem olha por traz, está todo branco. No ano passado ele arou o pasto e fez dele um quintal onde plantou toda sorte de verduras e raízes. Mas agora ele tem que ficar cuidando, senão chegam as galinhas do Augustin ou as vacas dos Gritch para fazer estragos, e já começam as reclamações, que nem sempre valeriam a pena.

Aos domingos ele teria vendido algumas vacas e sempre está na casa do Limor [Löwenstein], do qual é um grande amigo. Enquanto os outros estavam no piquenique ele estava fazendo o telhado do paiol e o barulho das marteladas só parou de ecoar ao anoitecer quando começou a chover.

Durante a sessão da igreja teriam alguns sabichões dito que não viam necessidade nem de pastor nem de professor, pois eles eram “inteligentes” o bastante.

Quanto ao Grünfeld quase não sei nada, mas sei que seu nariz afilado está mais comprido ainda. Dizem que o Butler aos domingos, à noite, também lê notícias da guerra, em velhos jornais brasileiros, que o Grünfeld empresta dos negociantes de Orleans. Quando isso acontece a assistência às reuniões é muito maior e mais pessoas vem para a igreja.

Junto com esta carta estou mandando um pacotinho. Ele contém: dois pares de meias, duas camisas, dois chapéus e uma gravata. Quando receberes não esqueças de conferir tudo. E, se procurar direito, vai encontrar as cartas da Lucija e do Arthur. Você diz que suas camisas ainda estão boas, mas acho que estão bem puídas.

Naftalina você consegue comprar? Para nós o Arnold trouxe de São Paulo. Onde você coloca a lenha que diz que corta? Você corta lenha ali mesmo ou aí algum lugar por perto? Que é que te ajuda ou você tem que fazer tudo sozinho? Quantas horas por dia você tem que trabalhar? Neste ano tem algum outro leto estudando com você? O Treimann continua na Escola?

Bem, por hoje chega. Não tenho mais nada de novo para escrever. Vou esperar longa carta sua. Muitas calorosas saudades de todos nós aqui.

Olga