História da Igreja Batista de Rio Novo e de Juris Frischembruder

História de minha Vida

Por Juris Frischembruder


Texto original gentilmente cedido por Marta Karp Paegle

Traduzido para o Português por Valfredo E. Purim

Digitado por Laurisa Maria Corrêa

Revisado e notas por V.A.Purim

 

Preâmbulo

Assim eu, como também minha esposa, sempre nós nos desviamos de glórias ou ufanismos. Alguns dias antes de falecer ela me dizia: Que o Klavin junto à minha sepultura não faça elogios póstumos (Cristo disse: este já tem a sua recompensa). Eu e Lídia dissemos isto ao Klavin; ele respondeu: a verdade permanece verdade, e portanto podemos falar a beira da sepultura. Seus feitos a acompanham. Disse também: uma parte eu relacionei, parte por ela e por você, pelos dias felizes e festivos como também pelos dias de dificuldades e tristezas. Ao ler parece algo como exagerado, porem, de exageros tenho me cuidado. Poderia escrever ainda mais, sobre os dias felizes como também sobre dias amargos e tristes. Em tudo isto o principal é o temor a Deus, na alegria, na felicidade, na tristeza e na enfermidade, não esmorecer nem desanimar, mas constantemente fazer a obra do Senhor. – Um copo com água fria que alguém oferece com sã consciência Deus observa e recompensa!

II Coríntios 1:30 Hebr. 11,10,13,16

Tudo o que te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças… Eclesiastes 9.10

Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no Espírito, servindo ao Senhor. Romanos 12.11

Os dias de nossa vida chegam a setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o orgulho deles é canseira e enfado, pois cedo se corta e vamos voando. Salmos 90.10

É bastante que cada dia tem suas tristezas. Mateus 6.34

Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios. Salmos 90.12

Regozijai-vos sempre no Senhor, outra vez digo, regozijai-vos. Filipenses 4:4

Senhor, dá-lhe mais forças para aumentar minha fé, na tristeza, nas lágrimas da aflição e poder voltar a sorrir.

Juris Frischenbruder, 29 de maio de 1933

 

Histórico da nossa infância, juventude e vida em comum, desde o ano de 1884 até 1931, nos dias de minha velhice

Esta noite completa 5 semanas da ultima noite que minha querida e bondosa esposa permaneceu nesta casa. E em sua memória dou inicio ao histórico de nossa vida.

30 de abril de 1931

Júris Frischenbruder

 

Este histórico dedico a minha filha caçula Amilda; que para mim e sua mãe é muito querida; por ela nós nos dedicamos e preocupamos, pelo tempo enquanto podíamos e depois a deixamos nas mãos de Deus.

Nossa querida filha Amilda! Você no nosso difícil histórico de vida, você absorveu bons ensinamentos, como perolas preciosas; que na tua difícil caminhada te servirá. Acharas Deus que te abençoa! Com um amável abraço e beijo! Teu pai.

Rio Novo em 29 de maio de 1933

 

Dia do falecimento da mamãe, 24 de março de 1931

O histórico da minha querida e bondosa esposa não é longa. Anna Frischenbruder, nascida Anna Bankowitch, em 16 de janeiro segundo o novo calendário, no ano de 1869, na aldeia chamada Rembata (Vidzemē). Seu pai Júris e mãe Made Bankowitch mudaram-se para Riga (capital da Letônia). Ele trabalhava na serraria Dambravski; aos domingos freqüentava a Igreja Batista na Rua (??????) também a menina Anna os acompanhava e matriculou-se na Escola Dominical, onde do irmão Rolman recebeu sólido ensino da Palavra de Deus, que durante sua vida muitas vezes relembrava.

Os primeiros passos no canto coral foram incentivados pelo velho irmão Janson. Mais tarde do irmãos Pilinsh! Reconheceu nela vocação para o canto, convidou-a para participar do coro da Igreja onde foi aceita de boa vontade. Como conseqüência dos ensinamentos Bíblicos ministrados na Escola Dominical pelo irmão Rolman imprimiu em sua alma. Então em sua juventude dedicou-se a Deus e ingressou no rol de membros da Igreja aos 14 anos de idade. Foi batizada pelo pastor E. Walman em abril. No mesmo ano de 1884 foi fundado um ponto de pregação da palavra de Deus na residência do irmão E. Didrikson, na presidência do irmão E. Walman. Foi fundado também um conjunto coral na regência do irmão J. Frischenbruder (eu mesmo). Ali a irmã Anna Bankowitch era uma das melhores cantoras.

Mais tarde no coral da Igreja ela ocupava o lugar ao lado das principais cantoras. Naquele tempo eu regia o coral, ela também cantava sob a regência do Meoguel. Porem ele adoeceu e o coral voltou para a minha regência ate novembro do ano de 1889, na Capela do Seminário.

Pelo fato de residir distante e trabalho secular não pude atender de forma satisfatória as lides na regência do coral, já estava casado então o coro escolheu e elegeu o W. Krumeir (?) para regente, ele ainda não era membro. – Naquela ocasião eu também não estava bem de saúde grassava forte influenza.

Desde sua mocidade, a irmã Anna com seu brilhante comportamento e vida temente a Deus; seu amor unia meu coração a ela; como minha eleita companheira manifestei a ela minhas intenções, apesar dos apenas 17 anos de idade. Então, quando estava livre das obrigações militares que foram pretextos dela, ela disse: – Eu ainda sou jovem! Mas após um dialogo deu seu amável consentimento e ao despedir selou com um carinhoso beijo. – Em seu 18° ano de vida iniciou seu trabalho em costura junto a uma boa profissional. – Esse tempo foi maravilhoso, – Mas seguiu um ano de tristeza e dor: do 18° a 19° ano de vida.

De forma infeliz rompeu nosso amor e amizade. Esse período foi para mim, como para ela um período de dor. No entanto sem aviso divino, sim, sem aviso divino (?) nenhum fio de cabelo não cairá da cabeça. Assim este acontecimento não era sem consentimento de Deus e sem bom resultado. No começo do ano de 1888 no seu 19° ano de vida fui visitá-la, falar sobre nossa separação, terminar nosso relacionamento, mas de forma cristã; foi na primeira noite do Dia de Pentecostes.

Quando expus meus pontos de vista, quando apertava meu coração, pedi a ela que exponha sua opinião e daí de forma cristã o assunto estaria definitivamente terminado. Embora, para mim muito difícil aceitar. – Então recebi uma inesperada resposta! – que até agora bem me lembro. Ela disse: – Porque não podemos voltar como dantes?

Disse eu: – da minha parte pode voltar como era antes, ambos estendemos as mãos, nosso corações pulsavam pela renovação de uma amizade e amor permanentes.

Comunicamos imediatamente aos seus pais e irmãos.

Eles, todos nos desejaram as bênçãos de Deus e felicidades – (anotar que neste intervalo outras me achegaram).

Até uma senhora me recomendou sua filha, mas isto só poderia acontecer o que Deus tinha determinado. Após vários anos de casamento ela me contou que se não pudesse ser minha esposa então poderia ser como uma servente. Tinha lido isto em uma historia.

Como bondosa e querida esposa e como companheira. Desde 1888 ate 22 de abril de 1889, foi um período maravilhoso!

Eu regia o coral da Igreja e ela ocupava o primeiro lugar do coral. Embora outros olhares me eram dirigidos também nossos olhares se confundiam, amor de coração.

Quando nosso noivado foi anunciado na Assembléia da Igreja. Então, então sim, alguns bons corações pulsavam em silencio. Por um amor não correspondido.

Nós pertencíamos um ao outro! No dia 22 de abril de 1889, pelo novo calendário na Páscoa, foi o dia do nosso enlace. Fomos o primeiro casal a usar a capela do Seminário. Fomos declarados casados pelo Pastor I. Erunga (?)

A espaçosa capela do Seminário estava repleta, com pessoas fora, quando chegamos com a carruagem. O texto do sermão foi: I Pedro 3:1-7. O Pastor I. Menguels estava surpreso por novo hino do coral que nos saudou no término da cerimônia.

Nossos convidados não foram muitos, aproximadamente 40. Mas a cerimônia transcorreu bela e alegre, cantando e confraternizando. Naquele tempo não havia o costume das brincadeiras para passar o tempo. Recebemos bastantes presentes valiosos, que quando viemos para o Brasil tivemos que vender, a necessidade obrigou-nos, e outras vendemos no Brasil.

Ate agora temos conservado duas, um está com Lídia e outra com Emilia. Minha nova e querida esposa, diariamente se dirigia ao trabalho de costura, ate dezembro. Eu trabalhava com o fornecimento de Pães aos Senhores de Riga e do mercado.

Às 4 horas e 40 minutos de janeiro do ano de 1890 Deus abençoou nosso casamento com uma filhinha a qual demos o nome de Marta Maria, Através de que minha querida recebeu (?) da mãe.

Após dois meses incompletos ela (esposa) voltou a cantar no coral. Da nossa morada ate a capela do seminário a distancia era uma hora de caminhada.

Decorrência disto não tive condições de continuar a reger o coral conforme as necessidades que o cargo exige e considerando a distancia entre a nossa residência e a capela; então em meu lugar veio o irmão W. Krums, e eu fui para a fila do baixo. Krums, durante anos trabalhou como regente, e ainda agora para mim, ele continua para mim um querido amigo e irmão:

Em janeiro do ano de 1891, Deus abençoou nosso matrimonio com outra menina, a Emilia, agradável, bonita como nascida diante dos céus. …….. um amargo incidente me aconteceu o qual descreverei adiante. Então, em Riga ficaram situações difíceis e amargas. Então se deu o inicio a emigração para o Brasil; com enormes sentimentos e lagrimas nos separamos da Igreja, do Seminário, velha Riga; onde durante 11 anos moramos e dedicamos nossa vigorosa mocidade. Então decidimos deixar a pequena Emilia com a avó. Eles viajarão em outra leva e nos encontraremos no Brasil.

Adeus velha e querida Riga!

Adeus pátria! Nossos olhos nunca mais te verão! Experiências valiosas havia muitas, com bastantes dificuldades. Após uma longa viagem de mais de dois meses, então em 13 de julho felizes desembarcamos em Orleans.

Passaram algumas semanas e já estávamos na mata bruta, 5 famílias no seu barraco onde 4 famílias podiam se manter. O velho Malvess construiu logo seu barraco. Cada um derrubava a mata para plantar a sua roça, quando a área estava derrubada começamos a construir nossas casas. Mas para mim, infelizmente, sofri um acidente, um corte no pé. Fiquei de cama durante 6 semanas, e depois várias semanas trabalhei com muletas.

Isto foi triste para a mamãe, separação da nossa querida filhinha e de outros parentes! Nós planejamos e administramos a igreja e fui nomeado regente. Em novembro chegaram o Neuland e Simpsons; dois bons coristas a mais. Em 20 de dezembro chegaram 25 famílias de Riga, da Igreja de Agenskaln e Dinaminde e também meus sogros, mas a nossa querida filhinha não chegou até aqui, no Rio de Janeiro, no dia 11 de dezembro ela faleceu de sarampo. Alegrias com tristezas, lágrimas e sorrisos. Nossas tristezas em comum, Isaias 49.15, eterna recordação. Esta criança que descanse em paz, na paz de Deus. Do peito da mãe, do colo do pai separada. Quando chegar o novo e claro dia, quando nós daqui seremos chamados, então nós nos encontraremos, então estaremos junto ao Senhor todos os dias! As tristezas tivemos que esquecer!

A mamãe embora com lágrimas, cantava no coral.

Foi fundado mais um coral com o pessoal oriundo de Dünaminde na regência de K. Match. Trabalhamos com fervor e sinceridade, embora lutando com dificuldades e assim continuamos indo em frente.

Outra vez, inesperados problemas! No ano de 1893 ao derrubar a mata uma arvore atingiu minha perna esquerda que fui carregado para casa. Seis semanas de cama e daí de muletas pude trabalhar na roça. A perna mais tarde ficou boa.

Apesar de tudo sempre Deus foi generoso. Pessoas amáveis nos ajudaram a terminar a derrubada. Em 18 de setembro de 1894 nos visitou outra menina: Lídia Selma [Esta mais tarde casou com Oskar Karp]. No mesmo ano nós levantamos nossa casa. W. Slengman e minha cunhada Julia (?) contraíram matrimonio em nossa nova casa. Trabalhávamos com denodo. Os ensaios eram feitos aqui em nossa casa. A Lídia pouco nos perturbava, no entanto, nos ajudava. Depressa passava o tempo! Na igreja havia boa convivência e paz. Trabalho em casa e trabalho na igreja. Em 15 de abril do ano de 1896, fomos agraciados com mais uma menina Emilia [Esta mais tarde casou com Osvaldo Auras]; a primeira Emilia havia falecido, II foi sua substituta. A família foi crescendo, no entanto não havia como impedir o interesse da mamãe pelo coral.

Nossa esperança era ter um filho homem! Em junho do ano de 1897 desembarcou João Inkis de Riga. Veio visitar os letos – prendado em música!

Sem a mamãe no coral não era possível, então tivemos que no final do ano de 1897 nos afastar da querida função de regente do coral; e quanto possível colaborei com os baixistas. Durante algum tempo ensaiei e regi o coral masculino. Como reconhecimento pelo meu trabalho a igreja me ofertou em luxuosa encadernação do livro “A terra por onde Jesus andara”.

Gustavo Grikis foi colocado na regência do coral. E, eu trabalhava como supervisor da Igreja e secretario da colônia. No ano de 1900 desembarcou aqui W. Butler [Professor Willis Butler famoso professor em Curitiba e conhecido pelas suas viagens em todo Brasil.]; então deixei a função de secretario.

Em 28 de junho de 1898 com o irmão Inkis a caminho de Mãe Luzia; a serviço da Igreja. Infelizmente caí do cavalo e quebrei a perna direita. Estava morto, ao recuperar os sentidos pensei que não verei mais os meus. Pelas tristezas não descreverei. O irmão Arajum e sua amável esposa pelo seu grande cuidado, a perna recuperou. Sofri muito as dificuldades, dores. A mamãe dificuldades e tristezas. Fazia os trabalhos da Igreja, os compromissos foram saldados. Após 8 semanas voltei para casa [Voltou de Mãe Luzia] conduzido pelos irmãos Arajum e J. Klava.

Deus que os recompense! A irmã Arajum me tratou como seu próprio filho! Paz e repouso a ela!

Quatro meses de muletas, trabalhava na roça e mais tarde apoiado em um bastão.

No mesmo ano, na Vassar Svetki – Festa do Pentecostes! Festa do verão a mamãe ficou muito doente; pensei que não resistiria à enfermidade. Deus ajudou e ela se recuperou! Na madrugada de 15 de junho fomos a uma serenata ao Professor Butler em homenagem ao seu aniversario. Após os cumprimentos voltamos para casa; para nos preparar para a recepção de mais uma menina Amilda. Na mesma época em Riga falecia meu cunhado André. Ele durante muitos anos exerceu a função de secretário no Gabinete do Governador. Foi chocante. Exigiram da mamãe muitas lágrimas.

O engenho de farinha de mandioca já estava pronto e nos exigiu muitas dificuldades e tristezas. A mamãe ao manejar um bezerro dando-lhe uma espiga na boca, ao mastigar feriu um dos dedos que não recuperava. Sem saber aplicou um medicamento inadequado que veio piorar a situação e que exigiu a amputação. Passou longo tempo até a recuperação. Dores, dificuldades, tristezas e lágrimas!

Juntou-se mais uma tristeza! A pequena Julia, menina, no engenho de farinha houve um acidente com a mão e veio a falecer no Hospital de Laguna.

A tristeza não tem fim, ela vem e vai, e novamente raia o sol!

Em 25 de agosto do ano de 1901 nossa família outra vez aumentou com um menino robusto e lindo Guilherme Conrado [Conrado casou com Lídia Akeldam de Nova Odessa.]. Mamãe com sincero amor o cuidava e criava. Cresceu grande, andou cedo e foi tratar da sua vida, a esperada alegria não gozamos como recompensa na velhice. A mamãe permaneceu fiel ao coral, cantando, eu trabalhava em outras atividades na Igreja. Assim os anos passavam apressados e em 13 de fevereiro do ano de 1906 Deus abençoou nosso lar com o terceiro filho – Carlos Rodolfo caçula. Este foi o mais querido de todos! Criança amável e benquista. Tudo o que via e ouvia guardava na memória. Gostava muito da Escola Dominical, cantava e como podia ou entendia orava a Deus. Nos períodos chuvosos ficava em casa. Ele, caçula era o dodói da mamãe. Mas um dia mamãe foi para a roça. Emilia tirou do fogão uma frigideira com gordura fervente e Carlinhos correu ao encontro e a gordura caiu em seu rosto e pescoço, todos os recursos e esforços disponíveis foram usados, e após 3 dias veio a falecer – foi grande tristeza e dores, principalmente para a mamãe. Ele faleceu em 27 de janeiro e o sepultamento dia 28 de 1909. No dia do aniversario da mamãe. Sua trajetória de vida terminou rápido. Ele era alegre, vivaz, obediente, convivendo bem com outras crianças. Sua alegria era freqüentar a Escola Dominical. Sua alma pura, amparo da mamãe, Deus o levou para junto dEle. Paz e doce repouso até o dia da ressurreição. Feliz reencontro na eternidade! Mas o coração da mamãe suportou grandes dores, faltou pouco para ela também não falecer; pois seu coração estava saudoso do seu querido menino, seu desejo era seguir o destino do seu filho.

Assim também aconteceu comigo após o falecimento da mamãe. Para cima, para cima! Na glória do céu, lá a mamãe o encontrou. No entanto, para nós temos que nos submeter na direção de Deus e temos que nos contentar, Deus faz bem o que faz!

Nossa filha mais velha, Marta Maria, estava noiva com Matias Felberg. Seu enlace estava programado para o outono; com o coração repleto de tristezas, tivemos que nos preocupar e as lágrimas aumentavam e ampliavam as tristezas.

A cerimônia do casamento realizou-se em data de 29 de abril de 1909. Belo e agradável dia!

No coração da mamãe despertou uma nova alegria e saúde. Mas o dia do falecimento do Carlinhos ela relembrou por muito tempo. No dia do sepultamento foi também o dia do seu aniversário. Matias e Marta se relacionavam muito bem, mas a madrasta do Matias não se relacionava bem com a Marta e Matias. Então aconteceu; tiveram que vir morar conosco durante alguém tempo; fato que o coração dolorido da mamãe foi novamente fustigado. Que as tristezas e os corações feridos foram atingidos uma coisa era certa, a sincera participação no coral e louvar a Deus. Embora que algumas vezes com lagrimas…

No ano de 1910 nosso pastor K. Andermann começou devagar no movimento pentecostal e abandonou os trabalhos da Igreja. Naquela época fui eleito Diretor da Escola Dominical. A mamãe se preocupava com os hinos e ajudava nos cânticos das crianças e as coisas eram feitas com alegria.

Estes dias de Escola Dominical foram de um trabalho difícil, havia muitas crianças, muitas preocupações e responsabilidades.

No ano de 1911 o Pastor João Inkis visitou novamente Rio Novo, solenes, belas e abençoadas reuniões; as maiores solenidades de batismo em Rio Novo. Entre os quais estava nosso grande filho João [João casou com Laura Zeeberg]. Viajou para casa de Mãe Luzia com 28 companheiros, também lá houve festas e agora em Rio Novo. Verdadeiras festas de louvor no Monte Tabor.

No ano de 1912 chegou da Letônia uma certa família, a senhora cantava bastante bem, mas exigente em reconhecimento e criava dificuldades tanto no coral como na Escola Dominical. No ano de 1913 K. Leiman era o pastor. Na minha responsabilidade repousava todo trabalho da igreja, naquela época tive que suportar estas pessoas com grandes dificuldades e tristezas, me parecia que minha vida estava à beira da morte, mas Deus me deu forças para suportar e vencer. Esta (Bekerene???) (pág. 19) também a Igreja não perturbou, pois havia os que a defendiam. Após alguns anos foi embora para Mãe Luzia e lá ela continuou com suas más influências.

Por causa dos meus sogros também havia tristezas. Meu sogro durante bastante tempo ficou de cama, doente e em 10 de setembro de 1913 veio a falecer, dia 11 foi o sepultamento. Ele foi para nós um bom pai, paz e bom repouso aos seus restos mortais.

Bom período de tempo às coisas andou mais ou menos bem. As crianças estavam crescidas e trabalhavam bem! A mamãe também permaneceu com razoável saúde. Então em julho e agosto de 1917 ela teve difícil enfermidade que acho ser da idade.

Também ao cuidar dela foi difícil nas minhas noites de insônia.

Naquele período Emilia era noiva de Osvaldo Auras. Este noivado trouxe a mamãe bastantes preocupações. Em 13 de setembro do ano de 1917 houve a cerimônia do enlace matrimonial. O pastor Dr. Butler foi o oficiante. A festa do casamento foi boa.

Também Lídia estava noiva de Oscar Karp, em novembro, após o casamento da Emilia também o grande filho João noivou com Laura Zeeberg. Após o casamento da Emilia e o noivado do João, mamãe adoeceu novamente, muito difícil, diversas vezes, a vida dela estava à beira da morte.

Mas graças a Deus, que com as minhas permanentes atenções, dias e noites, atenção dos filhos e a solidariedade dos vizinhos, Deus permitiu a recuperação e a saúde, e me deixou com minha preciosa companheira e ajudadora.

Quando as filhas casam, vão com seus esposos, sobram para a mãe preocupações e tristezas. Ao pai também produzem dores de cabeça.

Em 21 de fevereiro do ano de 1918 foi dia do casamento da Lídia. O pastor Dr. Butler foi o oficiante, as bodas foram as mais belas possíveis. Grande e feliz dia da sua vida!

Quantas lágrimas derramamos em silencio? Só Deus sabe!

Desde novembro de 1917 até 24 de outubro do ano de 1919. Foi um período repleto de dificuldades e preocupações.

Enquanto construímos, ao grande filho João por vontade nossa e do Zeeberg, uma boa e linda casa, sofremos muitas dificuldades e investimento em dinheiro.

Em 24 de outubro de 1919 foi o enlace matrimonial, o oficiante foi o pastor Dr. Butler. Casamento de grande repercussão.

Durante o período de dois anos, através do inicio de vida matrimonial; três filhos saíram de casa, não é assunto fácil!

Antes do casamento do João a mamãe teve como uma previsão de futuras tristezas que virão do lado da família da esposa muito se chorou de dor no coração. Eu não estava em casa, trabalhava com o Zeeberg.

Depois do casamento, não muito depois surgiram amargas desavenças; que ate hoje, nem o tempo nem o poder de Deus apagou. Assim que: a família da esposa se firmou com a família Betcher e a vida de paz e parentesco não mantiveram em boa harmonia (a senhora Betcher foi a promotora das desavenças). Também o filho que perambulava e nos proporcionava tristezas e lagrimas. Também na fundação da sociedade dos músicos no ano de 1917 e sua primorosa regência do João. Promoveu a nós muitas preocupações, despesas em dinheiro, tristezas e também lágrimas, por isso outros músicos se indignaram e também ele se indignou. Então o João foi morar em Mãe Luzia; também a música terminou em agosto do ano de 1924. Em 11 de outubro de 1921 quando os filhos já adultos tinham ido embora, após quase 2 meses de enfermidade e cuidados minha sogra faleceu. Quando a velhice se aproxima temos que partir; muito embora a separação produz dores e lágrimas. Na glória nós nos encontraremos!

Isto é um após outro, também ao filho mais novo Conrado despertou o desejo de encontrar uma companheira. Noivou com Lídia Akeldam de São Paulo. Viajou para lá, foi operado de apendicite. Casou, sendo o oficiante o pastor Dr. Butler. Voltaram para casa, não permaneceram aqui. Não estavam satisfeitos. Voltaram a São Paulo, tristezas, lágrimas, chorei muito. Voltaram em 31 de janeiro de 1923. Em data de 17 de setembro de 1922 foi a data da cerimônia do casamento.

Todos os fortes adultos se foram.

 

COMEÇO DE NOVAS DIFICULDADES E TRISTEZAS

Ficamos só nós três, todos os trabalhos pesados ficaram para nós.

No outono Milda adoeceu gravemente, por bastante tempo. Mas ficou recuperada. Em 26 de abril do ano de 1923 ao transportar mantimentos da roça, a roda bateu em uma ponta de madeira, a carreta tombou e feriu meu joelho e as costas e durante 2 meses estive na cama e sofri muitas dores.

A mamãe com Milda, ambas tiveram que desempenhar as mais difíceis tarefas, na roça e em casa. Os trabalhos mais difíceis tiveram a colaboração do filho e genros. Quando fiquei curado, então todos os três voltamos a trabalhar. Milda enquanto não se sentia bem, em dezembro, foi a cidade de Tubarão onde foi internada no hospital e em 21 de dezembro foi submetida a difícil cirurgia.

Exigiu recursos e despesas e somou tristezas e lagrimas , recuperou a saúde mas não plenamente. Em outubro do ano de 1924, voltou ao hospital, onde por mais tempo ficou internada ate recuperar a saúde.

 

UM PAVOR INESPERADO

Uma noite com Milda ainda acordada percebe que alguém entra na varanda. Naquela ocasião constava que um marginal andava pela região. Ela deduz que de fato é um marginal e nos desperta. No momento estávamos tomados de pavor, pedimos a proteção de Deus e acordamos o João, embora o João lá não estivesse. Convenci as mulheres e saí fora com uma lanterna na mão. Verifiquei por todos os lados e não encontrei nada e voltei; agradeci a Deus e voltamos a dormir. Embora não sentíamos nada seguros. Assim com dificuldades, tristezas e medo achamos por bem convidamos o Osvaldo e a Emilia morar conosco.

A colônia [terreno] transferimos para eles [Para o Osvaldo e Emília] como sua propriedade com a condição de que eles nos acolham na velhice. Estava prevista uma parte para Milda, mas ela não quis assumir 2 contos de réis.

O Osvaldo terá que devolver a parte dela. Os Auras estavam de acordo. Em 7 de julho do ano de 1924 eles vieram morar conosco.

Estava eu aguardando o melhor, diligentemente trabalhávamos juntos naquela época eu ainda tinha dinheiro.

O primeiro ano transcorreu regular. Porém no ano seguinte quando tivemos que transferir a terra ao Osvaldo, a mamãe teve sérias preocupações e choros. Por isso houve diálogos amargos. Mas com boas esperanças, dia seguinte realizamos a transferência.

No terceiro dia, quando levantei e saí; expus a minha filha o que não tinha previsto; ela disse: nada posso fazer. Então pelo feito chorei amargamente.

Em 24 de junho do ano de 1924, desembarcou o pastor Stroberg como pastor que foi recebido com festa noturna.

A vida ia para frente, de diversas maneiras. Assim que: A Milda não podia mais fazer trabalhos rudes, Marta a convidou para ir a São Paulo. Então com tristezas, dificuldades, de coração partido e lágrimas no dia 10 de fevereiro de 1926 ela embarcou para Nova Odessa junto a sua irmã mais velha Marta, mais tarde na cidade esta bem estruturada.

Nós nos separamos chorosos com os nossos votos de que a mão de Deus a conduza e guarde. Logo mais ela mudou-se para morar em São Paulo, onde está até agora e vai bem.

No primeiro emprego não ganhava bem, junto à outra família está ganhando mais, até 250 mil réis mensais.

De 1926 até o ano de 1928, nós sobrevivemos a diversas agruras, amarguras e tristezas, mamãe diversas vezes esteve muito doente e próxima da morte, mas pela misericórdia de Deus permaneceu entre nós.

Por motivo da irmã de Stroberg levantou-se tumulto na Igreja; atingindo nossa família. A paz de nossa casa foi perturbada. Em abril e maio fui a Mãe Luzia trabalhar com meu sobrinho.

Nosso genro Matias soube das nossas dificuldades e tristezas, veio nos buscar para junto da família dele. Gostaríamos de acompanhá-lo. Queiramos também ficar com o Oscar e Lídia. Finalmente Lídia não deixou ir com Matias.

Já trabalhei com o Oscar e fiquei na balança.

Mas em um sábado chuvoso tomamos uma decisão definitiva ficar com o Oscar. Bati com um machado em tronco de madeira, meu coração tremeu! O tronco poderá ser útil para nossa futura casinha.

Esta atitude me colocou em diversas conjecturas e avaliações.

Três coisas difíceis de decidir:

No entanto, com boas esperanças em julho do ano de 1928 saímos de nossa casa para viver com o Oscar. Gravei na minha memória – Adeus casa!

Dói o coração e lágrimas afloram nos olhos….

Com o Oscar e Lídia convivemos muito bem; trabalhamos quanto podíamos! Mas os outros não estavam satisfeitos conosco. Mamãe constantemente chorava em silencio. Também Satanás não se envergonhava, me tentar, recomendando ser melhor morrer antecipado.

Isto ele também fazia quando morávamos em nossa casa. Mas graças a Deus, que me deu forças para vencer. Pela misericórdia de Deus conduzidos e guardados em 9 de julho de 1929 voltamos a nossa casa. A vida de casa havia melhorado. O passado certamente precisava ser esquecido. Também de lá nós nos separamos com lágrimas.

Matias e Marta nos convidavam para visitá-los no inverno. De 11 de agosto até o fim de novembro trabalhamos com denodo na roça, para adiantar os trabalhos da lavoura. Para os quais Deus concedeu as necessárias forças. Deus conduziu da melhor forma e em 4 de dezembro do ano de 1929 quando pela manhã nós sinceramente oramos a Deus e dirigimo-nos a Orleans, para com outros ir a São Paulo.

Em Orleans, Osvaldo abraçou a mim e a mamãe e pediu perdão pelos seus erros. Nós também de coração o perdoamos e chorando nós nos separamos. No trem ainda nos despedimos com lágrimas da Lídia e outras com tristeza e choro.

Até a vista, se não aqui então na glória!

A viagem foi agradável, mas no final achamos longa, assim que a mamãe dizia: não suportarei ate o fim da viagem. Embora muito cansada mas satisfeita desembarcou no Porto de Santos. Naquela mesma noite chegamos em São Paulo. Outro dia, após o almoço já estávamos com o Matias, onde por todos fomos alegremente recebidos. Na primeira noite dormimos na casa do Conrado! Por causa da enfermidade do filho dele, nós também sentimos. Depois de alguns dias voltamos para o Matias e a Marta, assim ficou melhor.

O primeiro domingo foi pleno de bênçãos e alegrias. Aniversário da Igreja onde eu, como mensageiro da Igreja Batista Leta do Rio Novo; fui incumbido de saudá-los. Havia pleno reconhecimento, honra e bênçãos. Após algumas semanas fui atingido por um automóvel. Tive que ficar acamado. Fomos atendidos pelos irmãos e irmãs com uma atenção fraternal, visitamos muitas famílias. A gentileza de Matias e Marta não foi possível aceitar no sentido de lá permanecer definitivamente. Estávamos aguardando a chegada do Osvaldo e Emilia, ele havia manifestado por carta. Com o Matias estava tudo bem. Apenas a mamãe queixava-se do excesso de roupas para lavar, para ela impossível. Em abril, no primeiro domingo, disse: Queridos Odessenses, sincero adeus! Passamos mais de uma semana em São Paulo, com os Neander (???), visitamos velhos amigos e nossa filha mais nova. Sentimo-nos repletos de amor e felicidade. Separamo-nos em lágrimas até a vista; se não aqui, então na glória. Matias nos acompanhou até Santos e nos conduziu até o navio. O primeiro dia não foi bom, no entanto sábado pela manhã, satisfeitos ancoramos em Laguna. E a noite estávamos em casa, onde os filhos, netos e parentes nos aguardavam com muita alegria.

O mesmo também aconteceu na Igreja de Rio Novo quando se comemorou a Páscoa. Mamãe voltou ao seu lugar a cantar no coral.

Na primeira Assembléia da igreja fui eleito novamente como moderador presidente, contra minha vontade, visto que a casa de cultos exigia muitos reparos. Mas assim mesmo aceitei a incumbência.

Na roça, trabalho havia bastante. Enquanto não precisava de materiais, cal, tintas e outras coisas. Íamos, mamãe e eu capinar o mandiocal e preparar a terra para o plantio. No final de junho começamos trabalhar no prédio da Igreja. Para mim um trabalho difícil e de muita responsabilidade. Naqueles dias a mamãe ia só para o trabalho da roça. Certo dia trabalhou além do previsto, neste dia fui a Orleans. Querendo terminar o trabalho, mas ao anoitecer foi tomada por um vento frio, resfriou-se e com isso começou uma enfermidade. O frio e o excesso de trabalho, dores nos rins, no peito e no coração.

Em agosto do ano de 1930 na festa de Ação de Graças, ela foi pela última vez à igreja e também pela última vez cantou no coral.

Em setembro ficou seriamente enferma e acamada, mal com tosse, vômitos e dor no peito. Eram os sintomas. Para mim estava difícil! Tinha que atender os serviços da Igreja. Atender a mamãe, embora a Emilia ajudasse como podia, ela mesma não estava bem. Mal dormia a noite e durante o dia também não. Assim passava com dificuldades, lutando e orando a Deus. À noite quando eu voltava do trabalho, ela com visível interesse perguntava quanto o trabalho havia avançado? Esperava pelo dia do seu retorno, estar no culto e cantar no coral. Dar graças e louvar a Deus.

Em outubro começou a recuperar-se devagar. Em setembro duas vezes estava tão mal que aparentava ser os últimos momentos.

Em novembro, no começo, infelizmente numa noite houve um começo de incêndio no telhado da cozinha. Foi um choque para ela, e a doença retornou.

Em dezembro, estava razoavelmente bem, começou a recuperar as roupas, e fazer serviços leves. Mas assim mesmo qualquer esforço é prejudicial!

Após 6 de janeiro foi piorando sempre, os pés inchando, o inchaço aumentando! Os medicamentos nem a hidroterapia e nem os cuidados permanentes, nem as preces a Deus. Pelo sofrimento Deus queria chamá-la para perto de Si. Ela mesma dizia que pela luta e sofrimento junto a coroa da glória!

Em fevereiro ela ainda podia andar um pouco. Em março, acamada o tempo todo. Período difícil, muito difícil. Ela sofrendo, lutando com a enfermidade e dores, insônia, não podia dormir. Nas noites e manhãs lia a Palavra de Deus e juntos oramos e chorávamos. Em um sábado à noite, quando a tinha ajudado de trocar as roupas, sentamos juntos na beira da cama. Comecei a cantar um hino para ela. Ela disse: não cante! Ela começou de memória a enumerar hinos! “Meu filho tua força é fraca” –“ Rocha eterna” – “A morte me traz frutos” e outros. Depois orou a Deus tanto como possível e terminando com Amém, por tudo ela me agradecia. Disse eu: não me agradeça. Estou cumprindo a minha promessa e meu dever. Mas agora sinto que deveria fazer mais, ainda mais. Mesmo fazendo tudo eu mesmo estava me sentindo esgotado. Suas mãos esquálidas ela levantou e silenciosamente orou a Deus. As últimas duas semanas desde 24 de março as dores aumentaram não podia deitar, somente sentada entre colchões, dia e noite. Alguém tinha que estar junto. Lídia veio me ajudar! Última semana não se alimentava. A irmã Purim (Lisete) [Lisete Rose Purim era a minha avó paterna] também ficou duas noites e mais outras. Certa noite quando a irmã Purim viu que devia ser o último momento, Ela colocou suas mãos e orou a Deus. Por si mesma, por mim, filhos, amigos, coristas e outros que não da igreja. Recitou o hino “Rocha Eterna” e duas estrofes do hino “Felizes são as pessoas.”

Filho tu sentes saudades,
Estar na casa do Senhor?
Em terra estranha andar é difícil
Os pés cansam e as forças desaparecem?
Como a pesada carga da vida
Gostarias deixar em paz
Passar para a outra margem
Para as mãos do Salvador?
Nas mãos de Jesus descansar?

E no hino, quando a luta da vida esta por terminar e o portal de perolas para mim estiver aberto, olharei para Jesus Santo e resplandecente; isto será para mim celeste beleza e honra.

E dizia: Através da luta e sofrimento junto à coroa de glória assim em paz repousou: a irmã Purim chorava….

Pela manhã havia grande canseira! As crianças vieram despedir-se da vovó.

No entanto, Deus permitiu a Emilia chegar com a pequena Martinha (?), pegar nas mãos e dar sua benção.

Ver esta criança ela desejava e por várias vezes disse: Eu tenho que ir embora e ela que fique em meu lugar. Embora ela desejasse viver ainda mas sentindo sua fraqueza repetia. Não ficarei, não ficarei, tenho que ir embora! Tudo ela previu e me deu instruções. Como vesti-la e como acompanhá-la.

De lisonjas e falsos elogios ela sempre se desviou. Por mim também se preocupava, onde ficarei. Ela dizia: No Matias (em Nova Odessa) pode ser mais fácil; respondi: quem vai zelar pela tua sepultura. Ela respondeu com a frase de um hino, “Então se abrirá toda a sepultura esquecida!” Tinha visto a vó, outra vez na casa do Rudzit; como que tivessem chegado para buscá-la. No sábado ainda trouxe os últimos medicamentos, mas sem resultados. Domingo, foi difícil; segunda feira também, neste dia vieram muitas visitas; cantaram alguns hinos para alegrá-la. Então como a enfermidade se prolongava e não esperávamos que o último momento estivesse próximo. À noite cobri com cobertores da melhor maneira possível; pois estava exausto.

À noite eu e a Lídia, cada um durante períodos sentamos a sua cabeceira e atendíamos todos os seus desejos conforme foi possível. Última manhã, triste e nebulosa! Lídia tinha ido a cozinha e de repente ela ouviu forte respiração; eu ouvi a estrofe “Ó Jesus tuas caras mãos” seu hino preferido “A cidade celeste é linda” orou a Deus e disse amém, foi seu último amém. Lídia deu uma colher com bebida, eu disse: mamãe você está indo para casa? E comecei a chorar! Ela disse: não chore! Não chore! Estou indo para casa foram as suas últimas palavras. Lídia ofereceu bebida. Eu segurei sua mão direita. A respiração foi diminuindo e sua mão deslizou da minha. A respiração terminou, a cabeça pendeu, ainda o coração bateu duas vezes, o último, muito devagar. Então, ela, nas minhas mãos. Em 24 de março, às 7 horas da manhã, o bom e amável coração parou de bater, após o sono da morte, a alma acompanhada pelos anjos transpôs o portal de pérolas, junto ao trono da glória. Louvar Àquele que durante a vida toda cantou louvores, e quem a ela deu forças, para permanecer fiel até a morte.

Eu, Lídia e Osvaldo choramos junto a ela.

A separação sempre é ligada a dores. Em seguida conforme sua vontade foi preparada e vestida.

Lídia se apressou para sua casa.

Logo chegou o irmão Purim (Jahnis) [Meu avô paterno] e mais um ajudante, para confeccionar o ataúde para ela. Lídia e o Oscar deram o tecido preto para cobrir o ataúde. Oscar foi a cavalo para Orleans avisar o falecimento e o horário do sepultamento.

Às 4 horas tudo estava pronto, o ataúde coberto de tecido preto com rendas brancas ao redor. Eu, Otto e Lídia colocamos devagar em sua última cama e segundo a sua vontade a colocamos na varanda. Após a merenda cada um foi para sua morada. Mas no meu coração ficou um sentimento pesado; estava fraco e exausto de corpo e alma.

A noite silenciosa e dolorida, seus gemidos fracos estavam silenciados. Em sua nova cama repousava em paz. Mas meu coração doía e dói até agora. Tenho muito sentimento, muito sentimento (em 8 de julho às 9.00 horas da noite terminei de escrever estas linhas; 12 de julho, quanto é difícil e doloroso voltar a escrever!)

Ela na varanda, eu deitei na nossa cama; no lugar onde ela faleceu. Medo eu não tive e não tenho agora. Mas no quarto havia cheiro de medicamentos; dormi durante algumas horas quando acordei, se aproximava uma tempestade e as portas estavam abertas; adormeci e acordei novamente. Então fui para o quarto dos meninos e dormi outra vez.

Manhã com névoa, manhã de tristeza e sepultamento. Levantei, orei a Deus, cheguei ao esquife, levantei a toalha; olhei e arrumei o que foi necessário. Suas mãos esquálidas, imóveis, não se levantaram para pedir apoio para levantar-se.

Tudo silêncio! Silêncio, até o dia da ressurreição. Tomei café e pessoas iam chegando de todos os lados. O irmão W. Karklin pronunciou o sermão de despedida, cantamos um hino.

Será que nesta vida vai pulsar
Nunca mais serás um coração de mãe fiel?
Será que na eternidade perguntarás
E fui tão inesperadamente separado

(Tradução livre NT)

Lídia comentava a palavra de Deus e chorava copiosamente e cantamos o hino 775 – “Adeus casa terrestre … Adeus queridos…”

Recebi amáveis abraços, apertos de mãos, palavras com sentimentos de irmãos e irmãs. O esquife foi conduzido pelo quarto da Emilia para que ela contemplasse pela ultima vez sua mãe.

Em frente à porta da varanda, em um lado estava eu com o Oswaldo e as crianças do outro o Oscar, Lídia e seus filhos. A foto foi tirada por A. Klavin.

O esquife foi fechado e colocado no carro. Adeus morada onde vivemos quase quarenta anos. Grande acompanhamento. O caminho lamacento, os bois são lentos, fui montado num cavalo do Oscar. Estamos no cemitério. A sepultura aberta aguarda minha querida. O irmão J. Klavin dirigiu o culto fúnebre. Primeiro hino: Ceribas Ausekli número 5 “Aurora da esperança”. Felizes pelas pessoas que esperam pela morada. Lê II Timóteo 4:6-8 fala pelas afirmações: Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz me dará naquele dia, e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda….

No sermão destaca a fiel cooperadora e freqüentadora; sincera participação no Coral, amável hospitalidade com os pastores e aos demais, respeito à igreja. Usa da palavra o irmão W. Karklin, o coral canta seus hinos prediletos. Ao abrir o ataúde durante o transporte suas mãos caíram para os lados, arrumamos. Lídia cobriu com o lenço quando todos tinham contemplado, eu acariciei seu rosto e recitei a seguinte estrofe:

Vai agora em paz repousar
Em teu quarto escuro
Deus permitiu o repouso
Todas as dores e sofrimentos
Nas mãos do Salvador deixaste
Goze a felicidade do paraíso!

(Tradução livre NT)

Adeus minha querida! Adeus doce repouso! Até o dia da Ressurreição!

Coro:”Adeus, adeus à Aurora desperta – 166”

Eu chorava copiosamente, também a Lídia e outros queridos irmãos e irmãs, O ataúde foi fechado e devagar é baixado ao fundo. Solenemente a terra cai sobre o esquife. A cova se enche e a sepultura se forma e é coberta com coroas e flores em grande quantidade. O som dos hinos se irradia para o alto, junto ao trono do céu, onde os sinos anunciam a sua feliz chegada a gloria. Mais uma oração de gratidão a Deus pela sua misericórdia e direção ate a nossa vez junto à sepultura. Ainda usa da palavra à irmã Olga Klavin: relembra sua infância na Escola Dominical como a mamãe a acolheu quando pequena a aceitou em amor como amiga, fiel amiga, cuja amizade perdurou ate a sepultura.

O irmão A Klavin usou da palavra em público. Toda a cerimônia do sepultamento durou quase duas horas. Uns conversando com os outros, deixavam devagar o cemitério, as minhas pernas dormentes me conduziam para casa. Quem sabe, quanto tempo terei de vida? Onde será que serei sepultado? Será junto à mamãe, no cemitério de Nova Odessa, ou em outro lugar, só Deus sabe!

Cheguei em casa, tudo, tudo mesmo, vazio e em silencio!

Oh coração levante-se e confie em Deus!

Dia seguinte chegou Lídia, Selma Hilbert, Erna Paegle – fizeram uma limpeza geral, lavaram as roupas e arrumaram e deixaram toda a casa em ordem. Mas o meu coração, meu coração! Quanto suportou as dores. Com enormes dificuldades suportei, mais de dois meses de insônia, lia a palavra de Deus e pedia que Deus me tranqüilizasse, que consegui com o passar do tempo.

Todavia, nas terças e quartas-feiras pela manhã eram dias doloridos. Na terça feira ela faleceu e na quarta feira foi o sepultamento.

Nesta noite, estas linhas, essas queridas e doloridas linhas, ao escrevê-las tenho chorado copiosamente. Debaixo do meu olhar ela cresceu, desde a infância eu a amei e ela a mim. Pensava eu que ela me cuidaria na velhice e me conduziria até a sepultura, mas eu que tive que colocá-la na última morada. Pelos 42 anos de matrimonio, há muitas outras experiências. O canto no coral foi sua maior alegria e preciosidade; verdadeiro dom. Em Riga cantamos muito. Festivais de corais, festividades da mocidade e em outros eventos. Assim também no Brasil. Havia grande alegria e contentamento – o tempo da juventude, e dias passados!

Como ligaste minha memória contigo? Tanto a mim quanto a ela havia o lado das sombras e fraquezas! Como o poeta diz:

Às vezes costumamos tropeçar, cair
Costuma acontecer às pessoas;
A consciência insensível
Contra todos os próximos

(Tradução livre NT)

No dia 26 de julho de 1931: no dia de Santa Marta (Varpu Diena). Agora com o coração partido, interrompo a descrição da nossa vida em comum, e passo a descrever, em resumo, a descrever as memórias da minha infância e juventude; bem como algumas descrições sobre períodos vividos com dificuldades, na minha vida e na velhice.

Meu pai, Krists (Kristóvão) Frischenbruder, mãe Ana. Nasci quando já eram idosos; como diz o documento; no ano de 1864, 30 de março (pelo novo calendário 11 de abril). Na casa do Disc Brenzeniek, na vida de Rahpat, região de Pilene, nos arredores de Ventspils, na baixa Curlandia.

Quando criança fui batizado pelo pastor luterano Beker com o nome Júris (Jorge???). Consta que fui uma criança raquítica, após vários meses ainda não mantinha a cabeça ereta.

Minha vida me foi predeterminada, quando muito a dez anos de vida. Minha mãe me amava, e se preocupava comigo.

Quando ia crescendo, as pessoas se alegravam com a minha bela aparência, cabelos amarelados, a senhora do pastor dizia: belo menino! (cresce para o trabalho e uma vida cheia de dificuldades)

Agora com 67-69 anos. Muitas dificuldades sofridas, falta de tudo, e ainda estou vivo.

Minha mãe foi minha professora! Foi difícil aprender pelo sistema daquele tempo. Ao aprender alguns hinos, aprendi a ler decorando. Aprendi ao ponto que meu pai me levou a ler diante do pastor. Li duas linhas sem erro. O pastor pôs a mão no meu ombro e disse: muito bom meu filho! Pelo que meu velho pai ficou alegre. Na escola fui colocado lá no ultimo banco. Na escola havia muitas crianças, 75-80, um só professor, bom homem! Ele gostava de mim e me ensinava. No primeiro inverno fui promovido ao segundo ano à frente dos demais alunos, isto aconteceu também no segundo e terceiro inverno. No terceiro conclui o curso e diploma pelos anos de 1878-1879. Comportamento: muito bom. Recomendado: seis vezes. Religião: ótima e assim por diante. Uma vez me lembro que o professor, por alguma brincadeira me deu um tapa nas costas e disse: até você não sossega. Na Páscoa do ano de 1879 fui crismado pelo pastor Aug. Von Ianow. Naquele ano em fevereiro, meu pai faleceu, ele durante a vida sofreu muitas tristezas e dificuldades. Não esqueço que no meu período escolar, foi bastante difícil, muitas vezes com sal e pão de centeio: na água quente quebrava-se o pão e com o sal era até saboroso. Gostava de estudar! Assim fiquei mais um inverno na escola, com dificuldades e carências a serem vencidas.

Ao terminar o período escolar, meu bom professor propôs para eu ficar com ele como funcionário, sem remuneração; apenas a comida. Ele mais tarde me promoveria a professor auxiliar. Muito bem! Conversei com minha boa e idosa mãe, pouco ela poderia me ajudar. Esta oportunidade não aceitei e reconheço que errei. Queria me apresentar no serviço militar, na infantaria. Quando os irmãos Frey e Fideman se preparavam para ingressar no Spurgeon Seminary em Londres; também despertou em mim interesse embora sempre esbarrou em falta de recursos.

Após o período escolar, junto com o meu primo K. Kulkeewitz, me preparei a ir a Riga em busca de sorte. O passe meu tio me deu por empréstimo, 150 kopeks. O principal fiquei devendo, 150 kopeks. O dinheiro da viagem minha mãe emprestou de uma amiga, um rublo, de Tukum até Riga. Roupa do corpo, outra na sacola. Assim deixei a casa paterna, a querida mamãe e a vila natal. Adeus terra natal! Junto com o primo viajamos para Riga. Esperava conseguir um bom emprego, mas não consegui. Trabalhei em uma serraria, trabalho comum, por uma diária de 75 kopeks. Dessa diária tinha que deduzir, para a mamãe, ajudar o irmão que servia o exercito e economizar para comprar melhores roupas. Pelo meu primo fui convidado a freqüentar os cultos na Igreja Batista onde cantam muito bem, Runberg com Eichman pregavam muito bem! Isso me agradou. Em um domingo invernal no culto da tarde Eichman pregava com grande sinceridade: convertei-vos, convertei-vos vós da casa de Israel, porque querem morrer?

Sua pregação era sincera, e me conquistou, diante de Deus e da Igreja Batista, isto foi no ano de 1881, no mesmo ano, em setembro fui batizado por I.A.Bumbieris na Igreja da rua Puworouri (???). logo em seguida passei a participar da União da Mocidade e comecei a participar de todas as atividades. Assim como a mamãe, Pilinch me convidou a participar do grande coral (mesmo antes) e tornei-me seu amigo! Ele me ajudou a comprar um violino, ajudou no aprendizado, técnicas de regência e outros conhecimentos. Freqüentemente visitava seu pai e família, outras vezes ele me visitava e me chamava de amigo! Ele era generoso e boa pessoa. Verdadeiro regente. Anos mais tarde, quando eu regia o grande coral, ia eu junto com a famosa regente E. Wigner adquirir mais conhecimentos sobre regência.

No ano de 1883 junto com o irmão I. Friedenberg, planejamos fundar um pequeno coral e em 1884 fundamos na data de 21 de setembro foi à primeira apresentação. Nós ainda fazíamos parte do grande coral e continuamos a cooperar. Na maioria éramos jovens, cantávamos com sinceridade e alegria, após um ano realizamos a festa de aniversário. Antes do inicio da festividade, Anna Bankowitch me colocou na lapela com o sinal de amor um botão de rosa.

À noite da festa foi bela e abençoada, louvamos a Deus e nos alegramos nEle. Anna leu uma longa consideração previa em forma de poesia, que segue:

A alegria hoje aqui reina!
Hoje aqui é momento de festa
Por isso a satisfação é doce,
Cada coração sente junto.

A sociedade de coristas
Aqui comemoram seu aniversario
Por isso estão felizes
E decoram sua festa.

Hinos belos, hinos queridos
Preciosos presentes de Deus,
Entoados com sentimentos profundos
Hinos ecoam em beleza.

Hinos tornam mais leves
As cargas pesadas da vida
O som dos hinos tem este poder
Mas perto da divindade

Nossos ancestrais cantavam,
Hinos na pesada escravidão,
Os hinos os acalmavam
Nas difíceis lidas da servidão.

Nos, filhos dos ancestrais
Filhos da liberdade!
Os ancestrais cedo desejaram
Cantamos hinos com dignidade

Fazemos de boa vontade
E nesta festa demonstramos
Ao alto espírito do canto
Aqui festejamos.

Que o coral em harmonia
Desenvolva e floresça!
Sempre em amor
E cante para a glória de Deus!

21 de setembro do ano de 1885 – Anna Bankowitch

(tradução livre NT)

Querendo ou não, chegaram dias de tristeza; eu com o coração dolorido este querido trabalho e amável convivência ter que declinar com o coração pesaroso. Tenho que ir a Ventspils e provavelmente fazer o serviço militar.

Foi doloroso, muito doloroso, os dois regentes: I. Pilinch, I. Fridenberg e meu irmão carnal me acompanharam ate a estação ferroviária, me comportei alegre e dignamente. Quando a composição ferroviária foi se afastando, e eu fiquei só, as lágrimas corriam dos meus olhos. Em Tukum me aguardava o irmão mais velho. O caminho estava esburacado. Em uma parada, deixamos os cavalos em repouso, enquanto isso, sentei a mesa e adormeci de cansaço. Minha Anna, em sonho me dizia: acaricie meu rosto! Despertei com dor no coração.

Viajando devagar com meu irmão, falávamos só as dificuldades da vida.

Tarde da noite, chegamos à terra natal, na casa do pai, próximo a um fraco ponto de luz minha querida e idosa mãe sentada e tricotando, eu interrompi o seu trabalho! Não sabia o que fazer de tanta alegria, beijei suas queridas mãos sim… aquelas mãos que me cuidaram na minha infância, cuidaram, criaram e me acariciaram duas vezes em grande enfermidade lembro-me bem, ela clamou: os pés estão frios! No entanto não morri, ela foi para mim, boa e querida mãe! Seu amor sente até agora, e lágrimas enchem meus olhos. Paz e doce repouso aos seus restos mortais, até a ressurreição.

Na estada da aldeia visitei parentes meus velhos amigos, e outros conhecidos. Mãe e parentes, todos se preocupavam comigo. Faziam votos pela dispensa do serviço militar. Não contava com a dispensa, estava pronto a ir, contando que não voltaria para casa como soldado raso! Estive doente com problemas pulmonares. Nas inquirições dos médicos militares relatei dos pregressos, males do pulmão, falei que ainda sinto seqüelas, os dois médicos me examinaram meticulosamente e me dispensaram do serviço militar.

Pessoas, mais tarde comentaram maliciosamente que eu subornei os médicos, mas não era verdade! Meu aspecto exterior indicava ser completamente sadio, não era anêmico, mas entendo tudo como providencia de Deus. Em Wentspils visitei meu irmão, permaneci com ele e desfrutei sua amável hospitalidade. Em Piltene, visitei meu bom professor com o qual conversamos longamente. Na casa de minha sobrinha ela chorava de alegria quando disse que fui dispensado, depois sorria e chorava.

De Wentspils mandei um telegrama ao irmão I. Friedenberg relatando minha dispensa. Tínhamos combinado em pregar uma peça, se dispensado, falar ao contrário. Todos estavam tristes, mas minha Anna não suportou, chorou e cantou!

Em Riga cantaram:

Separação, separação quanto é difícil!

A separação dos parentes e da bondosa e querida mãe, também foi difícil. Ela chorava amargamente e dizia: meu filho, eu não te verei mais, e foi o que aconteceu…

Quando retornei a Riga, então fui recebido festivamente e me saudaram, também a minha querida Anna! Na mesma época houve lindas festividades.

Resultados a favor do irmão Piling – em 16 de janeiro do ano de 1886 foram às festividades da mocidade mais lindas e elaboradas. O coral masculino era composto por 40 elementos. O pastor Herman da Igreja Batista Alemã me dizia: nunca vi nem ouvi na Alemanha um coral masculino com este vigor e qualidade. Anna conseguiu boa colocação.

Em agosto de 1886 assumi a regência de um pequeno coral em Jaunvartu. Então o irmão Júris Friedenberg mudou-se para sua terra natal em Talsos. Na minha mocidade ele foi para mim o melhor e destacado amigo e irmão. Ele há muito tempo repousa dos seus trabalhos, paz para seus restos mortais!

Na data de 18 de agosto de 1931, trabalhando na lavoura, muitas recordações e pensamentos sobre os dias da minha mocidade… hoje estou enfermo com minha perna que foi quebrada! Assim mesmo descrevo as minhas memórias. A minha Anna: em alguma carta com linguagem poética:

A lembrança guardamos
De você no coração
Para o espírito sempre voejar
Junto ao meu espírito

(tradução livre NT)

Mas, agora é o inverso, ela repousa no tumulo, o espírito na glória, meu espírito lembra a sua presença…

No ano de 188? na igreja S.E.Vasmanis não estava em harmonia com a igreja, pelo motivo do seu infeliz matrimonio e funesta vida matrimonial. Os coristas e eu deixamos de participar nos cultos Jaunvartu. Fui atingido por uma falsa denuncia sobre a igreja, havia sido encaminhada uma denuncia falsa sobre a igreja junto a autoridades. O irmão André, escrivão, ele tirou uma cópia da denuncia, o pai encaminhou a comissão da igreja, o pastor soube, pressionou o irmão André assumir o coral, senão perderia o seu cargo no governo, fato impossível de acontecer mas ele não teve outra alternativa. Esse fato foi lamentável para todos nós. Principalmente a minha Anna. A ela, para tranqüilidade escrevi esta poesia:

Riga, março de 1887.

Em Riga, março do ano de 1887

TRANQUILIDADE

Porque lamentações e choros
Porque tantas tristezas?
A que tristes lamentos
E tristes lamurias?
Que oprimem teu coração
Que em teu peito tem morada
No qual raios de amor
Irradiam a todo instante
Deus esta no céu
Ele tudo vê
Como aqui todos se conduzem
Ele sempre nos ajudou
Ele nos vê com amor
A todos com compaixão
E alegra
Aqueles entristecidos
Ele aos chorosos enxuga
Bondoso, suas lágrimas.
Quando explodem tristezas
Então ele ajuda, como Deus!

(Tradução livre NT)

Onde não há verdadeiro temor a Deus, ali também não há continuidade. Os novos coristas, devagar se dispersaram. O pequeno coral se desfez! André estava livre! Despertou-nos alegria. Não demorou muito, terminaram também os cultos. O regente do coral também se desviou do bom caminho. Fiquei deveras triste! Seu auxiliar era J. Mengels – por motivo de saúde, com tuberculose, não pode continuar o trabalho.

Na primeira tarde do dia de pentecostes; no ano de 1887 fui convidado a assumir a regência do coro. Foi o idoso regente Adams junto com o Mengels, pediram e também pressionavam assumir o trabalho relutei porque como me faltava conhecimento e desembaraço. Trabalhei com as forças que possuo, os idosos mestres então me aconselharam, Mengels disse: faça tudo seguro e firme, se houver alguma pequena falha os coristas nem perceberão. Nova e difícil labuta novamente com o dirigente! Ele sempre escolhia as mais difíceis partituras, hinos de execução primorosa. A. Grünfelt se colocava junto a mim nós empregávamos os melhores esforços para uma impecável apresentação.

Algumas vezes os hinos não foram apresentados sem falhas. Então eu enxugava da testa o suor da vergonha! L.E. Wasmanis também foi meu amigo; mas quando me coloquei ao lado da Igreja, terminou nossa amizade. Em uma assembléia da Iigreja ele empurrou o Presidente da assembléia R. Dimberg da mesa e assumiu intempestivamente a direção dos trabalhos. Ele estava à deriva, deslizando. A maioria dos membros se afastou e não participavam da SantaCeia. Reuniam-se na represa Catarina na residência dos Birgan onde o pastor I. Evangs havia sido nomeado pastor; também ali fui reger várias vezes distante da minha residência.

Difícil situação da Igreja, difícil também para mim… o pastor relacionou-se com um certo judeu, Silbergman, em uma situação desfavorável, o professor luterano Buiwru; um pastor excluído da Alemanha; ele promoveu alguns trabalhos religiosos de forma incorreta e inconveniente.

A diretoria da Igreja lacrou as portas do templo. Esse pastor recorreu à justiça e foi atendido. Até um policial foi designado para garantir a reabertura do templo. Os decanos da igreja Ir. K. Dimberg, K. Rolman vieram até a mim, me pressionar e implorar, para que reassuma meu lugar no coro. Senão a Igreja perderá seus direitos. Embora contrariado, aceitei. Certo domingo, muitas pessoas presentes compareceu o oficial de justiça e abriu as portas. O pastor e também eu, entramos, me seguiram os coristas. Houve aglomeração, no entanto tomamos nossos lugares no coral. Cantamos o hino 57 do Ceribas Ausekli (Aurora da esperança) Estás seguros vós os salvos e no término: Apenas folhas, apenas folhas, número 129. O ultimo hino sem ensaio, não correspondeu às expectativas, estávamos estressados. O que o tal pastor pregou não me lembro mais.

Quanto tempo esses serviços religiosos perduraram, também não lembro mais. A Igreja se reunia na represa Catarina, até o término da construção da Capela do Seminário.

O pastor nos denunciou junto ao juiz de paz como perturbadores da ordem. A mim, A Grinfelt, P. Klavin e Ulandu, quatro irmãos, com as mãos levantadas juraram falar só a verdade, o velho Redins, L.Kupstcha, Bosenis e Jordan faltaram com a verdade. I – perturbadores da paz, II – cantavam canções profanas, III – faltaram com a educação com a esposa do pastor.

Após vários anos Kupstcha e Redins voltaram à igreja, confessaram suas faltas e falsos juramentos. Não conseguimos contestar por não ter testemunhas. Fomos condenados com 7 dias de prisão. Constituímos um advogado defensor senhor Weinberg denunciamos ao juiz de paz no tribunal.

Nós tínhamos 20 testemunhas; os decanos da igreja, coristas, todos participaram ativamente. Vários assuntos foram apresentados. O auxiliar do advogado e juramentado, o Vinberg, foi almoçar….

Os assuntos são rápidos, chega a nossa vez, o advogado está ausente. A primeira sentença foi confirmada; chega o advogado, mas a sentença estava confirmada!

Voltando para casa, eu estava inconformado; P. Klavin diz: observe o que vou dizer: – se você sente-se tão infeliz; então procure as águas mais profundas de Daugava!

Recorremos ao tribunal de Jelgava; com o mesmo resultado; os barões confirmaram a mesma sentença.

Grinfeld e Ulands, foram condenados, e no inverno, período sem trabalho, sofreram e cumpriram sua injusta condenação.

P. Klavin como bancário e também como pessoa de destaque; não aceitava ser preso (embora lá não era tão ruim assim).

Recorremos a S. Petersburgo.

Durante a lide judicial, a igreja manteve seus serviços religiosos na Capela do Seminário.

Eu já estava casado, e trabalhava como regente do coral; mamãe cantava, mais tarde eu também cantava; o irmão Krums assumiu a regência.

A Igreja prosperava. Quanto aos empregos foi um período difícil. Despertou a emigração para o Brasil!

Tudo estava pronto. O passe em ordem; as caixas prontas. Meu irmão sempre me ajudando. Ele como funcionário público entendia de tudo.

Sábado estaremos a bordo! Chega um Oficial de Justiça, policial, e estou preso! Ele é meu conhecido; bom homem; permite conversar. André como funcionário público, confere e verifica; que após 7 dias, posso alcançar meus companheiros; em Brehmen, na Alemanha por via férrea. Nossos pertences, 2 caixas, os companheiros levaram, eu fiquei 7 dias preso. Mamãe, Marta e Emilia esperavam por mim, tristezas e lágrimas.

A prisão não era tão desconfortável, mas era prisão! Na prisão a mamãe me visitou e também Al. Klavin, poderia dizer como Paulo dizia na prisão em Roma.

Após 7 dias, fui solto! Junto com o Ir. Frishman meus amigos me cercaram! Tomei banho, troquei as roupas, me alimentei, troquei algumas palavras; o tempo era curto.

Frishman nos conduziu a estação; nos deu um farnel. O coral tinha organizado uma despedida, e juntaram um pouco de dinheiro para a viagem!

Despedimo-nos dos parentes, irmãos e irmãs.

Eu da minha mãe e de meu irmão, para sempre; com lágrimas mamãe separou-se da pequena Milinha, eu não consegui mais beijá-la, e também não a vimos mais. Adeus velha e querida Riga!

Dois dias e meio e duas noites, viajamos ate Brehmen, na Alemanha; onde estavam nossos companheiros. Para nós, foram difíceis e dolorosas tristezas!

Nossos companheiros, com saudades nos aguardavam.

Após 6 meses, o ir. Klavin recebeu a intimação para cumprir a sentença.

Porque isto aconteceu? Fiz tudo de coração; porque a mim e meus companheiros; tantas dificuldades e desgostos tivemos que experimentar? Só Deus sabe.

A Igreja também caiu em decadência, havia contraído dividas a serem resgatadas. Il. E. Wasmanis: embora mais tarde, renegociou com a diretoria, reconhecer seu comportamento inadequado. Porem as perdas e sofrimentos não puderam ser resgatadas!

Em minha existência aproveitei bastante, por isto em meus cabelos escuros, com a idade de 25 anos, já havia fios prateados. Também na vida diária não tive facilidades. Em Riga na primeira industria madeireira trabalhei apenas uma semana, na outra, um ano todo; na terceira, cinco anos. Como transportador de pranchões, trabalho, trabalho duro. Durante quatro anos trabalhei em uma panificadora, vendia pães no mercado, na cidade e a domicilio aos senhores abastados.

Com o Neuland, trabalho rude, mal conseguimos dormir. No Brasil não conheço trabalho fácil, não conheço, nem amável, nem em trabalho religioso. Então com a idade de 50 anos, já estava com todos os cabelos brancos.

No ano de 1913, no que se refere à vida espiritual, no período do pastor K. Leiman; atravessei uma temporada difícil. Naquela época a principal atividade da igreja era sob minha responsabilidade. Era o Diretor da Escola Dominical, tesoureiro da Igreja, supervisor das atividades religiosas e outras atividades afins.

O novo pastor, não podia e não queria se entender comigo, por causa do seu temperamento apressado e de mando; minha esposa e eu suportamos; suportamos dificuldades materiais e espirituais. Sofria eu de nervosismo e insônia, mas minha saúde retornou. Pelas atitudes do Pastor parte dos membros abandonaram a freqüência! Após 5 anos, ele retornou. Após alguns anos, reconheceu seu grande erro! A Igreja perdoou! No ano de 1916 uma irmã, antes de falecer: com três testemunhas presentes, me entregou duzentos mil réis, para Missões e uma parte para seus parentes; o inspetor de quarteirão com ameaças me tomou. – Mamãe, viu em sonho este dinheiro em um prato, coberto com um lenço e com muitas agulhas espetadas! Enquanto tentava recuperar o dinheiro: experimentei muitas agulhadas; e não consegui recuperar o dinheiro. De policiais e advogados temos que nos cuidar! – Após o falecimento da mamãe, nas eleições na região, fui nomeado feitor na manutenção das rodovias (estradas).

Não tinha a obrigação de trabalhar, mas para que o trabalho fosse bem executado, eu também trabalhava; só assim dissipava meus pensamentos doloridos e tristezas.

Adoeci com forte reumatismo; que me obrigou a procurar o leito! Duas vezes estive a beira da morte!

Em 20 de agosto de 1931, meu estado de saúde havia melhorado um pouco; pretendo ainda que por instantes voltar à terra natal! Meu pai foi bondoso, mas suportou grandes dificuldades! Quebrou as duas pernas e uma das mãos!

Fora isso ainda outras dificuldades. Ele me ensinou tudo de bom, apenas uma vez levei dois tapas, bem que merecia tinha saído com o menino do vizinho sem autorização paterna. Fomos passear e, na neve em processo de degelo e estava molhado e sujo.

Seu hino predileto ele cantava a noite era o hino n° 491 “Cristo nos santifica”. Seu falecimento foi repentino, ficou acamado durante uma semana. Enquanto podia orava a Deus em silencio. Na glória o encontrarei.

Estava eu na escola quando ele faleceu, estive presente no seu sepultamento.

Oh pátria, minha infância!
Pátria amada e bela
Em tudo memorável
Estranha era ??? feroz
Felizes dias vivi
Na casa paterna jardim e sebe
Quando cada lugarzinho
Para sempre me será santa,
Minha adorada meninice.

Mamãe era de natureza calma e delicada, me amava e me incentivava para o bem e me ensinava, orava a Deus e chorava. Esta influência ela transmitiu a mim e a minha filha Amilda! Recebida a noticia do seu falecimento em Riga em julho de 1887 não foi possível comparecer no sepultamento.

Em um domingo à tarde; andava eu pela sala, não sabia onde ficar, pois eu mesmo estava com muitas tristezas que mais tarde passaram, felicidade e alegria.

Tempos da mocidade tempos de alegria
Que tempos inesquecíveis!
Companheiros felizes no divertimento
Como era viçoso seu rosto!
Minha testa altiva
Os cabelos adornavam;
Outono com seu manto branco
Minha cabeça coloriu

(totalmente branca como a neve) (tradução livre)

A infância, mocidade e os anos de vigor já se foram; pai, mãe, esposa e dois filhos repousam nos túmulos, dias felizes e alegres não existem mais, ao lembrar os olhos ficam marejados de lágrimas!

Pai e mãe vossa imagem
Nos meus sonhos revejo
Amaram vosso filho,
Cem vezes me comove
Embora o tempo repouse no tumulo
No regaço da mãe terra estais
Também aqui não é meu lar
Logo também irei ao repouso
O reencontro feliz será na glória!
Ao alto nosso caminho conduz
Junto ao céu nosso caminho vai
A pátria nós nos apressamos
Onde aguarda feliz destino
Alegria imarcescível alcançará
Que no regaço de Jesus teremos

(tradução livre)

Como a qualquer um, assim também em minha existência; vários obstáculos houve. No entanto o poderoso Deus me segurou pela mão, e assim consegui servi-lo e trabalhar na sua causa e fitando a Jesus Cristo que sofreu e morreu por mim!

Teu sangue, tua justiça
E, Senhor minha glória e meu adorno
Quando adentrar no paraíso

(tradução livre)

Ainda algumas queridas lembranças da mamãe: de uns três dias antes do seu falecimento ela me disse: você paizinho não procures outra.

Uma única amei
Com ela convivi
Antes do desenlace ela dizia:
Paizinho, outra não procure!
E o paizinho a ela respondeu:
Veja mamãe, porque pensas assim
Para que preciso de outra!
Minha velhice já não exige!
Quando minha vida terminar,
Então na glória nós nos encontraremos
Onde nunca haverá separação
Mas minha felicidade, alegria e satisfação

(tradução livre)

 

MINHA SAÚDE E DIAS DA VELHICE

Após o falecimento e sepultamento da mamãe, logo viajei para Mãe Luzia, em visita aos parentes em doze de abril. Vi em sonho nosso salão de cultos o qual eu havia restaurado e recuperado, estava escuro, muito escuro e depredado; chorei e não sabia o que fazer; o irmão Osch, que construiu este templo estava de pé atrás de mim. Pensei, certamente ele saberá o que fazer. Saí, lá fora havia tábuas empilhadas, quis fazer alguma coisa com elas, vi a mamãe, aquelas tábuas empilhadas estavam caindo sobre nós; disse: Corra! Fuja! Ela disse: não chore.

Acordei assustado e orei a Deus.

Aquela queda que já havia acontecido na igreja aumentou e ameaçava aumentar mais ainda. Somente pela graça de Deus e auxilio de um pastor idoso voltou à normalidade, embora com ferimentos_____ fui destituído da função de moderador da igreja. Depois de um ano fui reconduzido.

Meu período de enfermidade, 18 de agosto de 1931 fiquei muito doente ate 25 de agosto. A fadiga me impõe: não escreva, fique sossegado. Em 21 de agosto estou muito doente! Não consigo escrever, muita fadiga! Graças a Deus estou melhor, 1 de setembro a moléstia retornou e fiquei a semana inteira acamado. Em 5 de setembro Deus me foi misericordioso! Todo o mês de setembro fiquei de cama sofrendo dores constantes. Minha filha Lídia me visitava com regularidade e me ajudava. Graças a Deus, diz 16 houve festa da mocidade. Festa maravilhosa! Fui com muletas, só assim de 1 a 16 de janeiro fui a Mãe Luzia, fiz tratamento com sauna e massagens. Um médico em Tubarão (o melhor) me proibiu comer carne, receitou remédios pouco ajudou. Estive durante 4 dias em Laguna, visitei o novo campo missionário. Os irmãos e irmãs me receberam com alegria.

No hospital, o melhor médico sentenciou! Devolver a saúde não posso, posso ajudá-lo. Então houve melhoras. Pedi a Deus, que Ele me livre dos meus incômodos. Tentei uma auto medicação, no entanto, sem resultado satisfatório, minha mão doía. Deduzi que estes males estão me preparando e me avisando que estou mais próximo de Deus, e mamãe em suas aparições em sonhos esta me preparando para este evento. Confio na mão poderosa de Deus e nas palavras do poeta sacro.

Deus, faça de mim o que tu queres,
Nunca estarei contra a tua vontade;
Em ti meu coração pode confiar
Ele nunca me abandona

(tradução livre)

24 de fevereiro de 1932

 

Em 26 de fevereiro a Igreja me incumbiu de escrever a historia de seus últimos 40 anos de existência: foi um difícil e grande trabalho! Assim mesmo escrevi 3 exemplares.

Tratar ferimentos adquiridos
Tu não deves relatar e cessar
Embora sejas como um navio à deriva,
Que esta prestes a submergir…
Tens ainda trabalhos a terminar
Ainda que com o coração fatigado.
E ao redor ventos impetuosos
E o prenuncio da morte a rondar…

(tradução livre)

Pelos meus pontos de vista, muitas vezes estive a morte, trabalhava e me preparava. No dia 15 de maio de 1932 comecei o trabalho, escrever a historia dos últimos 40 anos da Igreja, espero conseguir terminar, ou a mamãe me levará para junto dela? Só sabe o próprio Deus!

Graças a Deus! Que a historia já escrevi III volumes e 3 da minha autobiografia (??????) onde estão????? VER.

A recuperação e a saúde voltaram lentamente conforme a visão do Dr. Braronano (???) e Kneip (Sebastian) todas as manhãs fazia fricções com água fria e em seguida me enxugava com uma toalha seca. Tomava muitos chás, losna, pelashru (??) e sálvia.

Experimentei um chuveiro improvisado! Percebi que foi ótimo construí uma calha em um córrego, e quando o tempo de calor, banhava-me 3 vezes ao dia; durante 1 a 2 minutos inclusive a cabeça depois a toalha seca e fricções em seguida algum trabalho leve, por uns instantes conseguia uma boa circulação sangüínea, temperatura uniforme, sono profundo e bom apetite.

Ainda por alguns dias, em partes doloridas fricções com azeite de oliva duas partes de terebentina e um pouco de cânfora.

Com estes procedimentos recuperei a saúde e disposição e continuei a trabalhar e a andar sem o amparo do bastão. Louvado seja Deus que colocou na água tal poder de cura.

Em abril do ano de 1933: aceitei novamente a feitoria da recuperação das estradas, trabalhava menos, e pelo meu trabalho consegui reconhecimento.

Pequeno resumo da historia da igreja com 86 páginas Júris Frischenbruder: nada fácil escrever sobre si mesmo, mas a verdade permanece verdade. Raro foi o ano de repouso. O inicio parte já descrita. Servi como membro da administração, mais tarde com administrador, durante 6 anos como regente do coral continuamente como tesoureiro, em em face de denuncias maldosas tive que renunciar o cargo, no entanto, fui reconduzido. Presidente quase vitalício da Escola Bíblica Dominical e o ecônomo da Igreja, de ambos os cargos tive de me afastar. Presidia as cerimônias da distribuição da Santa Ceia e celebrava casamentos.

No ano de 1926 não aceitei o cargo de administrador mas no ano de 1929 fui reconduzido ao mesmo cargo tendo como companheiro o irmão J. Purim. Os trabalhos mais urgentes conseguimos vencer!

No final do ano viajei para S.Paulo…. no ano de 1930 fui eleito novamente como administrador da igreja para restaurar o prédio da igreja. Mais uma vez não quis aceitar o cargo, pois o trabalho e grande e difícil!

A pedido da igreja aceitei. Deu-me auxiliares: R. Klavin e O. Auras. O primeiro ano com grandes dificuldades a maior parte do trabalho foi vencida: no ano seguinte foi razoavelmente concluído. Durante bom tempo estive doente a idade e as fraquezas. Ao companheiro R. Klavin como meu substituto no serviço de administração faço votos de êxito. Despeço-me lentamente das já habituais responsabilidades e trabalhos na igreja. O último com dificuldades ao descrever a historia dos acontecimentos durante 40 anos de existência.

 

ALGUNS DOS MEUS VERSOS!

O hino de boas vindas ao irmão J. Inkis no ano de 1897 quando da sua primeira visita ao Brasil e entoada pelo coro da igreja de Rio Novo.

Querido irmão, hoje nós,
Alegremente te recebemos
De coração e alma
Amavelmente te saudamos
Após muito tempo Deus
Designou o nosso encontro;
Por isso damos gloria a Deus,
Por nós todos agora manifesto
Separar-se da pátria,
Querida e cara terra natal
Terás tristezas sofrido,
Dores no coração sofrido
No longo caminho também,
Sofrimentos podem ocorrer!
Mas agora deixamos tudo
E alegria nos invade
Por isso o bondoso Deus
Nos mandou o verdadeiro
Na longínqua e estranha terra
Vir a nos ajudar
Sua palavra anunciar
A verdade testemunhar,
Despertar os povos na escuridão
Trazê-los juntos ao pai do céu

(tradução livre)

Este hino de saudação, a mamãe cantou com toda a sinceridade e alegria. Assim como o poeta afirma:

Quem canta livre desprendido
Está no mundo de Deus
E sempre sentem-se felizes
Estes tem paz na alma.

A estes o ocaso da vida não perturba
Quando a morte se aproximar
Então no reino dos hinos,
Deus os convida

(tradução livre)

Alguns dias antes de falecer mamãe se preocupava comigo e dizia: com o Matis, você estará melhor respondi perguntando: e quem vai zelar pela tua sepultura e ela respondeu a mim com um verso do hino:

Então se abrirá todo o túmulo esquecido!

Em 21 de maio de 1931. Até agora o túmulo não foi esquecido, mas bem cuidado. Quando visitei o túmulo sobre ele derramei novas lágrimas ali repousam meu sogro, sogra, o pequeno Karlos e a mamãe. Mas onde será o meu lugar de repouso? Meus filhos estão: o mais velho, em Mãe Luzia e mais três sobrinhos a 70 Km daqui de Rio Novo. O genro e o filho mais novo em Nova Odessa – São Paulo longe daqui, a filha mais nova em São Paulo capital, os dos genros Osvaldo Auras com quem convivi e o Oscar Karp, que pretende mudar seu estabelecimento comercial para outra cidade distante 100 km de Rio Novo. Hoje Lídia me visitou quer que eu me mude para sua casa que na velhice terei melhores dias; meu neto Carlos me convida para Nova Odessa e também afirma que na velhice terei melhores dias.

O momento decisivo é sempre difícil, sabemos lá ate quando viverei? Junto ao Osvaldo não está mal!

Mas onde há abundancia certamente será melhor. Será que terei que abandonar os cuidados das sepulturas ou deitar ao lado das sepulturas.

 

APÓS TRES MESES TOMAREI A DECISÃO

Senhor a ti me entrego,
Como a um castelo forte
Não permita que fique na vergonha
Mantem-me dê também distancia do mal.

23 de maio do ano de 1933. Hoje entreguei ao sr. Capitão Fernando Guedes Galdino o relatório sobre os serviços prestados na recuperação das estradas e pontes recebi o dinheiro para o pagamento dos trabalhadores. Recebi também reconhecimento pelo trabalho feito; prometeu novos trabalhos. Ele é meu conhecido durante 41 anos. Somos bons amigos…

Enquanto escrevo estas linhas, inesperadamente esta passando um avião sobre a nossa casa, vem do Rio de Janeiro a Porto Alegre. Sobre nossa casa é a sua rota e regularmente alguns cruzam por aqui.

Entre os anos de 1914 ate 1919; esteve conosco meu sobrinho professor Jahnis Frischenbruder. Ele como pessoa culta proporcionou a todos nós muita alegria; ele era um cantor de boa voz cantava baixo com a mamãe e as primas muitas vezes faziam apresentações primorosas em canto sacros, realmente maravilhosos! Ele também fazia parte do coral durante vários anos também era um excelente fotografo. Seu pai meu irmão Krists no ano de 1914 me escreveu: cuide do meu filho; foi sua ultima comunicação, pois a primeira grande guerra mundial não permitiu outras comunicações e em 1 de setembro do ano de 1918 meu irmão veio a falecer, paz aos seus restos mortais…

Meu irmão mais velho Henrique faleceu em 12 de maio do ano de 1931, foi sepultado em 17 de maio. Paz e repouso doce a ti meu irmão ate a aurora do dia da ressurreição; sua idade 81 anos. Na minha família, os outros irmãos já faleceram e repousam em seus túmulos, eu sou o único sobrevivente! Nós nos encontraremos!

Uma pequena nota que tardiamente veio as minhas mãos, irmão Joris saudações, pode ser um adeus! Desejo a todos vocês a benção de Deus, Deus que os proteja!

Urubici, 27 de julho de 1939

 

Minhas memórias e minhas experiências! Em agosto de 1927 em Mãe Luzia vim conhecer seus parentes que recentemente chegaram da Letônia: Joris Frischenbruder e sua família. Mais tarde muitas vezes os visitei. Recebi simpática acolhida e sincera amizade. Conheci junto a eles famílias e parentes da Letônia! Entre eles minhas sobrinhas Ana Wask, seus garbosos filhos e a filha Marta! Em especial Willes Wask muito me impressionou… Ele foi aluno da escola de missões de W. Fetler em Riga. Escrevi uma carta a sua mãe, lembrando o seu nome. Ele me respondeu mandei a carta para Riga, minha carta foi para Chicago nos Estados Unidos na Escola de Missões. Entre nós começou uma amável comunicação escrita e também um fraterno relacionamento que se mantem até agora em 1934. Eu o amo como filho e sinto a mesma reciprocidade! Ele é um legitimo filho de Deus, estuda para pastor com ótimos resultados….

Obteve no ano de 1933 alto reconhecimento da diretoria do estabelecimento do ensino; pelo qual conseguiu maior atenção e apoio…

Neste ano, com 30 anos de idade termina seus estudos. Pretende voltar para a Letônia no trabalho religioso. Deus abençoe seu trabalho durante sua vida.

O irmão mais moço Arvido Waskis: em setembro de 1929 matriculou-se no Seminário Batista de Riga. Precisei pedir ao irmão dr. J. A. Frey por carta para que ele admita o jovem, o dr. Frey por carta me comunicou que foi admitido no ano de 1933. Terminou os estudos com bons resultados como pregador da palavra de Deus.

A mão de Deus que o conduza e abençoe o seu trabalho. O irmão do meio, irmão Augusto também deseja ingressar no Seminário. A benção de Deus que repouse sobre ele.

O irmão mais velho, irmão João foi sincero filho de Deus, esforçado e trabalhador cedo foi para a eternidade. Há única irmã Marta com bons resultados na escola de Piltene escrevia para mim amáveis e delicadas cartas manuscritas. Continuará seus estudos na escola Komers (???) em Wentspil.

Tendo conhecimento da minha mudança para Urubici – em julho do ano de 1933, visitei ainda meu filho, demais parentes em Mãe Luzia. Por todos fui amavelmente recebido. Permaneci com meu filho, com meu sobrinho João e muitos dias com o sobrinho Júri e também com o genro Jekabson e mais com o sobrinho Krisch.

Com o filho recebi verdadeiro amor, separamo-nos com sinceridade. No último dia o Júris me conduziu, separamo-nos com um beijo (?). Quem sabe, ainda nos encontraremos?

Satisfeito e feliz cheguei em casa! Graças a Deus! A noite houve pela ultima vez, um culto de apresentações.

Apresentei da historia da Igreja sobre as sociedades femininas e sociedades missionárias, suas atividades e o seu termino… Falei sobre os nossos deveres perante Deus, embora com imperfeições, temos mantido também o último dever dizendo: Nós somos servos inúteis e nossa felicidade vem unicamente pelos méritos no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Teu sangue, tua justiça
É, Senhor minha honra e adorno,
Com a qual estarei perante Deus
Quando no céu entrarei.

(tradução livre)

O culto foi rico de apresentações e abençoado. Volta ao modorrento cotidiano.

 

20 De Agosto Domingo Esplendoroso

Festa triforme! Culto de missões, culto de gratidão e culto de despedida.

Despede-se da igreja, meu genro O. Karp foi Presidente da Igreja, tesoureiro, presidente da União de Mocidade. A professora Emilia Zichmann, também professora da Escola Dominical, Júris Frischenbruder (eu) fui administrador e segundo secretario. O evento contém rico programa, pronunciamentos, hinos, café com saborosas guloseimas. No meu pronunciamento citei que vivi 16 anos em Piltene; 11 anos em Riga período da mocidade, minha terra natal, trabalhando e sofrendo.

Mais 42 anos em Rio Novo onde todo o tempo dediquei as lides materiais e espirituais e na velhice ainda tenho que me separar. O. Karp também usa da palavra e diz que no trabalho existem imperfeições muitas vezes; pede desculpas pelas falhas a todos nós e a Igreja; a qual agradece a confiança e reconhecimento.

Separamo-nos com os melhores propósitos e a reunião decorreu em 4 horas e meia.

O sol estava descambando, senti fragilidade, mas assim mesmo fui ate ao campo santo visitar a sepultura dos meus entes queridos, especialmente a sepultura da minha esposa. Ali repousam também meus companheiros de trabalho.

Reina silencio por tudo – fiquei sentado por uns momentos em silenciosa meditação, cantei um hino, derramei lágrimas, silenciosamente proferi uma prece neste panorama de liberdade. Repousem em paz, encontraremos na aurora da ressurreição!

O sol remete seus últimos raios às montanhas e vales de Rio Novo! Com pensamentos pesarosos voltei para casa…

A ultima semana fiquei doente com influenza, pensei que será impossível viajar! Tomei medicamentos e a saúde retornou. A ultima noite, um sentimento tão estranho e pesado.

 

1° de setembro, envolto em neblina!

Aguardo com ansiedade o sol nascer, seus raios, penetram através da neblina e douram as montanhas e os vales do Rio Novo… Chega o pesado caminhão… com volumosa carga e meus companheiros de viagem.

Sincera separação dos meus parentes, filha Emilia, genro Osvaldo e seus filhos; os olhos escurecem e cai uma chuva de lágrimas; abraços, beijos….

Adeus parentes, crianças e a casa. Se não aqui, mas na glória nós nos veremos! Osvaldo afirmava que não ficarei lá, pode voltar! Em Orleans despedi-lhe dos meus amigos das redondezas e do capitão Galdino Fernando Guedes de quem recebi uma recomendação pelos 42 anos de convivência exemplar e competência na condução da recuperação das estradas.

Amável, abraçou-me e desejou feliz viagem.

Às duas horas da tarde a condução deixa Orleans. De muitos lugares mãos acenando. Tempo agradável. A condução avança com pressa! O caminho está bom, porém montanhoso e repleto de voltas que exige do condutor a maior atenção e responsabilidade. Noite viajamos ao luar. A condução prossegue ate chegar a um vilarejo agradável. Hotel de brasileiros, muita ordem, pessoal distinto. Dormimos bem, tomamos café e às 7 da manhã com muita disposição continuamos a viagem. Em silencio louvei a Deus e pedi sua orientação, a manhã que envolta em neblina e silencio. A condução prossegue em boa velocidade para frente. I Na margem da estrada uma bela igrejinha. II A localidade é agradável! Após uma hora de viagem a condução para. Alguma coisa aconteceu! Quebrou? De forma a mais infeliz entramos num desfiladeiro! O trecho que nos aguarda se apresenta tenebroso! Três dias e duas noites passamos em más condições. Sofremos algumas dificuldades…

A condução foi recuperada em 4 de setembro tarde da noite!

Na nossa frente, ainda o desfiladeiro, esperamos um difícil trecho pela frente. A lua cheia ilumina as montanhas e os profundos vales. A nossa condução percorre para frente em boa velocidade junto ao sopé das montanhas e após uma hora de viagem, chegamos ao fim do desfiladeiro e a uma pousada de alemães, boa gente, repousamos bem e em 5 de setembro com a ajuda de Deus prosseguimos a viagem. As estradas ora boas, ora ruins, os panoramas são variados.

Começa o crepúsculo, estrada em más condições, escurece, a esquerda altas montanhas; a direita profunda e horrível ribanceira. Curvas curtas e perigosas. Todos estão em silencio apenas o condutor e seu auxiliar conversam em surdina! Eu em silencio pedi a Deus: conduza-nos ao destino sem problemas!

Um pequeno cochilo ou pequeno erro, uma morte horrível! O cuidado e proteção de Deus é a mão que guia!

Graças a Deus, estamos na margem do Rio Canoas! O balseiro nos transpôs o rio e mais adiante ficamos em um atoleiro, saímos do veiculo e com o esforço de todos transpusemos o trecho com lama, felizmente! Após as 8 horas da noite chegamos ao nosso destino, ou seja a encruzilhada de Urubici.

O irmão Zalit amavelmente nos recebeu acompanhado com um bom italiano! Na família Zalit degustamos uma boa ceia. Descarregamos nossas coisas na nova morada!

Noite alta! A paz e repouso aos viajeiros! Primeira manhã, um pouco de geada, lugar agradável! Abrimos as caixas e a arrumação das coisas, visitas e novos amigos.

Urubici tão lembrada, louvada terra de maçãs, pêras, ameixas, marmelos, uvas, trigo e pinhões.

5 de setembro do ano de 1933. Será aqui o lugar de feliz morada?

 

A VIDA EM URUBICI

Os letos aqui existentes a mim demonstram a maior simpatia, alegram-se pelo aumento da colônia de letos e que chega um leto comerciante. Vieram nos visitar e alguns trouxeram pão salgado. No primeiro domingo, meu companheiro de trabalho e lutas irmão G. Grikis dirigia o culto, me convidou para usar a palavra, declinei do convite, estava exausto da viagem e com rouquidão. No domingo seguinte falei poucas palavras e meus sentimentos expressei com o hino 522. meu coração me conduz ao Sião, ali encontro o Senhor. Lá é como o portal do céu. Eu penetro na paz eterna.

Na vida espiritual, havia grandes dificuldades. Aqui havia um irmão e algumas irmãs, que demandavam por visões, profecias, curas e quejandos. No entanto Deus não confiou a eles tão elevados dons. Após algumas lutas e dificuldades; em 25 de agosto o irmão pastor K. Stroberg, E. Klava e O. Auras ajudaram a fundar uma igreja batista. Graças a Deus e aos citados irmãos!

Na vida material, no inicio havia muito trabalho antes de inaugurar a casa comercial. Os principais trabalhos foram feitos pelo Arvido Karp irmão do Oscar um apartamento (?) ficou para mim que consumiu meio ano.

Embora eu soubesse me foi dito pelos médicos é melhor não se dedicar ao trabalho, pode perder a sua fraca saúde.

Desde a nascença tenho por norma: dedicar-me firmemente ao trabalho. Muito trabalho e necessidade me puxaram em suas fortes ondas, trabalhei com denodo, um trabalho não estava terminado e o outro esperava por mim e algumas vezes me fatigava.

Perdi o sono regular, inchavam as pernas e quando respirava profundamente sentia falta de ar, o vento frio que aqui é comum me proporcionou problemas nos pés e no coração.

Ambas as pernas, uma após outra ficaram doloridas, alguém me recriminava, que eu mesmo sou o culpado, que tenho trabalhado além da minha capacidade.

As pernas estavam enfaixadas como duas crianças! Chorava amargamente pois eu mesmo sou o culpado. Os médicos me afirmaram, ser doença do coração, porém curável, poderá viver até 100 anos. É muito. Que fazer? Voltei para a água dada pelo querido Deus, e aos costumeiros chás.

Improvisei um chuveiro para a glória de Deus e para os incrédulos uma incrível maravilha! Após 3 meses os inchaços desapareceram e ambas as pernas estavam boas! E o meu velho coração que com boa alimentação e ar puro estava também restaurado embora trabalhasse mais devagar porém seguro.

Pequei pelo excesso de trabalho, contra Deus e a saúde! Desapareceram também os sintomas do reumatismo. Quando sopra o frio vento do sul ainda sinto seqüelas do reumatismo.

A velhice exige uma vida mais fácil. Em todo trabalho pesado, sinto grande atividade do coração, em repouso a atividade é lenta, e lentamente vai diminuindo.

Oh! Meu velho coração você participou e sobreviveu a vida espiritual e material! Tenho que cuidá-lo para que não pares de bater em hora imprópria, tenho ainda muito trabalho a terminar.

Nosso primeiro ano em Urubici! Toda a redondeza foi maravilhosamente abençoada por Deus com uma safra riquíssima.

Fartura de frutas, maçãs e trigo em abundancia. Também na vida espiritual a pequena igreja há melhores e abençoados tempos. Sinto-me mais disposto e o meu velho coração trabalha ainda bem! Tenho que me resguardar de exageros, louvor e honra a Deus!

EM URUBICI, 23 DE DEZEMBRO DO ANO DE 1934

 

MINHAS MEMÓRIAS E EXPERIÊNCIAS

Fui incumbido de dirigir um culto noturno de despedidas, estava a mesa sentado e pensando como organizar o programa e a ordem do culto, entra nossa boa e piedosa empregada e diz a mim, dedo em riste “agora quero ver como o senhor amanhã a noite vai se comportar, e daí verei o quanto o senhor vale.” Ali mesmo, na sala de jantar e com outros familiares ouvira, ela diz boa noite e vai embora. Tal atitude sei que não mereço e amanhã ela virá desculpar-se.

Isto não perturbou meu espírito, pois sou consciente do trabalho que faço bem e corretamente, mas o sono naquela noite demorou mais.

Pela manhã, logo que levantei a senhora humildemente veio pedir desculpas. Ela imaginou que eu iria “elogiar a pessoa que se despedia.”

No entanto, eu conhecia a pessoa! A noite estava agradável e demorou até quase meia noite, a mensagem foi dirigida aos que se despediam e aos demais.

Entre outras cosias disse este verso:

Onde a justiça está
Se a vida cheia de pecados
Sobre as flores puras caem

(tradução livre)

Sim, assim estas boas pessoas, tão depressa decidem e se comportam rudemente. Ainda bem que com longanimidade e paciência podemos alcançá-los e perdoá-los!

Em outra ocasião, em um domingo à noite ela veio a mim e começou um diálogo. Eu afirmei: você pode pensar como quiser, crer e viver como quiser. Eu permaneço na convicção, onde há 53 anos tenho me mantido.

Eu sei em quem tenho crido, quem tem me conduzido, guardado e em difíceis momentos tem me ajudado e sob corretos ensinamentos bíblicos tenho me conduzido. Este me mostrará o caminho do lar, você pode ir pelo caminho que julgar melhor, enquanto conversávamos, ela deixou uma anotação com seu nome e a frase “Deus é amor!” Pela manhã do outro dia acrescentei uns versos com esclarecimentos:

Deus é amor, mais sinceridade.
Deus é amor, Ele nos fortalece.
Digo mais também
Deus é amor, Ele nos abençoa.

(tradução livre)

O homem sem amor divino não pode ser solidário. Mas revestido com o poder divino, ele pode divinamente sentir o sofrimento alheio.

Mas revestido com o poder divino ele pode sentir a dor alheia e com empatia, repousa a benção de Deus, ambas as partes Deus ampara.

Esta anotação ela levou consigo como lembrança.

 

MEUS PARENTES ESTUDANTES

Recebi do irmão W. Wask uma carta relatando que ele felizmente com a ajuda de Deus concluiu seus estudos da palavra de Deus. Conseguiu notável honraria e reconhecimento e foi ordenado pastor. A escola deu apoio para uma viagem para visitar lugares mais importantes. Na solenidade da ordenação o diretor afirmou que na historia da instituição foi o primeiro ano com alunos tão notáveis como W. Wask.

Ele foi reconhecido e apoiado pela igreja, foi dito que se ele trabalhar em outra igreja vão continuar intercedendo a Deus por ele. O periódico Kristigais Draugs (O Amigo Cristão) fez ampla cobertura jornalística sobre o evento.

A força das intercessões deram a eles, na igreja e no ensino os caminhos mais convenientes, felizes retornam ao lar, na Letônia.

Participaram no Congresso da Aliança Batista Mundial, em Berlim.

Anuncia seu noivado com Selma Klansielin (???) e assume o pastorado em Piltene! Desejo a ele felicidades com as bênçãos de Deus!

Arvido Wask me escreve que trabalha na igreja da foz do rio Daugava como pastor. Descreve as qualidades excepcionais da sua noiva; após 6 meses terminará seus estudos de medicina; na época Se São João (24 de junho) estarão casando. Mandam uma fotografia de ambos, ela simpática e séria, simples e distinto vestuário e em seu peito bom coração e alma!

Para ambos meus votos de felicidades:

I ~Coríntios 13 e outros

Em 28 de fevereiro recebi uma fotografia do Wilis (Wask) com Selma! Wilis com um olhar para o futuro, como será a grande tarefa no campo de trabalho espiritual na igreja de Piltene e redondezas e também na sua futura vida matrimonial?

Em contrapartida, Selma com sorriso sincero olha para o futuro confiando nas bênçãos de Deus que serão ricas, a estas considerações acrescento meus sinceros votos de felicidades. Em 15 de maio recebo um simpático e amável convite ao seu enlace a ser realizar em data de 01 de junho de 1935 às 18 horas na Igreja Batista de Wentspils.

Com os melhores votos embora minha velhice não permite. Desejo uma avalanche de bênçãos e felicidades em sua vida matrimonial é a minha súplica a Deus. Seu retrato está permanente na escrivaninha, na noite da solenidade toquei (violino?) em sua homenagem.

Eles, na alegria e satisfação do momento não deram, certamente atenção a minha música!

A distancia e a velhice nos separam, na glória nós nos veremos.

Fui convidado pelo irmão C. R. Andermann a ser mensageiro e viajar à Letônia como enviado pelos batistas letos do Brasil para representar junto às comemorações do Jubileu, dos 75 anos dos batistas da Letônia, levar a mensagem de saudação de todos os batistas letos do Brasil. A mim como o mais idoso dos batistas, regente de coro bem que seria interessante, porém para a missão foi destinado o Pastor J. Inkis e mandei, por escrito as minhas saudações. Deus guarde a Letônia!

Em 26 de maio do ano de 1935, a Igreja Batista de Urubici me incumbiu para saudar a Igreja Batista de Varpa em 24 de junho, com o que eles também comemoravam os 75 anos de existência dos Batistas letos.

 

PREZADOS IRMÃOS E IRMÃS, IGREJA BATISTA DE VARPA!

É maravilhoso e louvável, como a maior Igreja Batista Leta no Brasil decidiram comemorar os 75 anos de existência da comunidade batista leta, lembrando as difíceis lutas, objetivos claros, fé inabalável e firmeza! Suportar o desprezo, as humilhações, ridicularizações, pressões, cadeias e prisões, até um crime (?) e assim mesmo permaneceu junto à clara e santa convicção: “Eu amei a Cristo” e nós só podemos exclamar: o espírito de desapontamento dos velhos tempos. Quando as primeiras testemunhas estavam com armaduras; vocês convidaram a nós a participar dessa solenidade.

É difícil, devido à longa jornada a participar desta festividade. A Igreja me incumbiu em saudá-los e desejar uma caminhada cheia de bênçãos, elevar-se em santidade, as alturas do Monte Tabor!

Minha saudação está em Hebreus 11, onde o apóstolo levanta alto os heróis da fé. Assinalei no Verso 27 as últimas palavras onde Moises se firmou naquele que era invisível, como se fosse visível.

Nossos antepassados testemunharam e se firmaram naquele que é invisível como se fosse visível e do qual recebiam forças e vigor para suportar as suas lutas chegamos a Ele e na glória nós os encontraremos.

Nos nossos registros
O espírito dos antepassados
Ao trabalho e lutas
Teríamos novo entusiasmo
No cumprimento do dever da igreja

J. Frischenbruder

 

MINHAS VIAGENS E EXPERIÊNCIAS

Desejava conhecer as redondezas de Bom Retiro, meu bom vizinho cedeu seu cavalo e carroça. Meu amigo Leopoldo assumiu a condução. No mês de março o tempo estava bonito, mas meu coração danificado. Às 11 horas saímos. Os familiares temiam que não suportaria a viagem. São 43 kms. Estrada montanhosa, a estrada serpenteando entre as montanhas. Durante duas horas de subida e outras duas na descida, a última etapa, morro e planícies. Em Santa Clara e Bom Retiro, fizemos uma parada. As 7 da noite, felizmente chegamos à casa do meu amigo, onde fui recebido amavelmente como se fosse um pai. Durante a noite dormi bem, sábado pela manhã encontrei um panorama agradável. Na noite passada fomos visitar um vizinho onde reside à noiva do meu companheiro de viagem. Pessoal amável e simpático. Todos adventistas. Assisti a um de seus cultos. Escola sabatina e o culto demorou quase 3 horas, rígida organização. Contribuições em dinheiro e conhecimento bíblico são os principais assuntos. Na hora do almoço, trocamos idéias sobre o assunto do sermão, uma senhora comentou sobre o comportamento inadequado dos jovens. Não devemos constranger os jovens. Após o jantar ainda na casa do vizinho ainda amáveis conversas e música. Durante a noite tive um sono reparador. Domingo pela manhã, em toda a redondeza todos estão em seu trabalho, às 10 horas deixamos a bela paisagem e voltamos para casa. Pelo caminho encontramos bom numero de automóveis, mas nossa condução, o cavalinho, não se assustou. Conversei o tempo todo com o meu companheiro sobre seus predicados e a vida cristã. As 7 da noite felizmente chegamos em casa. Graças a Deus.

OS RESULTADOS DA VIAGEM

Na mesma casa onde nós nos hospedamos, o casamento da Alice para o qual também fui convidado. No dia 19 de março pela manhã às 8 horas catorze pessoas no caminhão deixamos Urubici. Tempo bom todos cantam alegremente, estou sentado junto ao motorista, atrás, manifestação alegre e divertida.

Em um vilarejo a condução para, os jovens desembarcam, uma senhora me pergunta se estou bem, respondi que estou bem. Perguntei o porque de toda a alegria, ela respondeu que todos estavam com ameaça de enjôo. Após uma hora de viagem o veículo adentra o local do evento. Fomos amavelmente recebidos, pequeno repouso e almoço, a mesa estava posta, rica com diversas comidas. Tive a oportunidade de ocupar o assento junto a um dos pastores com quem conversamos sobre os tempos remotos, sobre pessoas que já repousam na eternidade.

Após pequeno repouso, teve inicio a cerimônia do casamento. Foram cantados vários hinos. O acima citado pastor em longo sermão levanta a questão: porque Deus ao criar a mulher tirou uma costela e não a cabeça ou os pés. Explicação: a costela esta perto do coração para amar seu marido e ele a sua mulher, se tivesse tirado dos pés, ela seria submissa, se da cabeça estaria acima do homem e poderia governá-lo. Mas da costela, junto ao coração, para que ambos amem um ao outro.

Cantam vários hinos, ouvimos as promessas, juntam às mãos, ajoelham-se, o pastor põe as mãos sobre as cabeças dos nubentes e com uma longa oração roga pela felicidade na vida matrimonial.

Após um hino muitos usam da palavra para apresentar poesias e votos de felicidades.

Fiquei deveras satisfeito com a ordem do cerimonial, em seguida a mesa do café repleta de guloseimas depois seguiam brincadeiras e muita música, onde meu violino entrou em cena.

Outro dia às 11 horas do dia chegamos felizes de volta em casa, graças a Deus.

 

VIAGEM AO RIO NOVO

No dia 17 de abril Deus maravilhosamente me proporcionou um dia ensolarado quando eu e meus companheiros de viagem deixamos Urubici e prosseguimos a caminho de Rio Novo. A viagem foi boa; ao anoitecer descemos as montanhas eretas e pedregosas onde é impossível andar a cavalo, o percurso de uma hora e 20 minutos me fatigou, mas felizmente chegamos ao sopé das montanhas. A noite soprou um forte vento e a cama dura. Ao despertar estava com tonteiras, mas na manhã seguinte estava bem. Por diversos caminhos, bons e maus à noite chegamos em casa. Lua cheia com sua luz prateada iluminava toda a natureza, montes e vales, fui recebido amavelmente pelos meus familiares, pois ainda estavam despertos apenas a Martinha e o Samuel dormiam docemente. Após o jantar e algumas trocas de palavras dirigimo-nos as camas macias recuperar nossas forças. Também pudera!

Não está quem meu coração amava…

Manhã de sexta feira santa, bela e dourada manhã. Percebo ainda a fadiga da viagem.

Após o culto doméstico e o café da manhã, vesti-me e mergulhado em velhas recordações fui à igreja.

Sol escaldante, dirigi-me primeiro ao campo santo, o suor escorre pelas faces, ao entrar pelo portão e ao chegar aos túmulos dos meus familiares, as lágrimas misturaram-se com o suor. Lá repousa aquela a quem meu coração amava. Os pensamentos vagavam pelo passado, pelo presente e pelo futuro. A manhã da ressurreição, qual prateada e dourada manhã. Lenta, silenciosa e ondulante sons do hino:

Cidade Celestial que bela
Ruas de ouro que reluzem
Junto a Jesus me reporto
Por Jesus anseia meu coração

(tradução livre)

Detenho-me em silenciosa prece e em seguida deixo o campo santo.

Neste momento tem inicio o culto, com algum ainda me cumprimento. Sou possuído de divinos sentimentos ao lembrar os tempos e os dias quando o Salvador da humanidade morre na cruz pelos pecados de todos. O pequeno coro canta com vigor que é regido pelo meu genro. O sermão: Cristo envergonhado, manhã de Páscoa, o tempo uma beleza. O culto com muita sinceridade é conduzido pelo meu genro, e em seu pronunciamento fala do alto significado da alegria e felicidade que temos porque na ressurreição de Cristo isto é possível.

Transmiti as mais sinceras saudações à igreja e fiz votos e desejei a mais profunda paz e alegria da Páscoa e expressei minha alegria pelo cuidado de Deus. Pois confio na sua palavra quando ….. esta viagem, não temas nem te espantes Crônicas 23.13 ?????

Desejei encontrar-me com irmãos e irmãs, embora esteja residindo a certa distancia, mas assim mesmo, esta é minha Igreja, sou um dos seus fundadores, minhas forças tenho usado para seu progresso, e como seu membro quero morrer.

Mais duas vezes usei da palavra, recebi amáveis cumprimentos e apertos de mão.

A alegria da Páscoa, a amável acolhida de irmãos e irmãs, me alegraram bastante.

No segundo dia da Páscoa (segunda páscoa, costume dos letos NT), houve o culto de missões. À tarde, acompanhado de meu neto, fui a Orleans.

Em Orleans algumas rápidas visitas. À noite fiquei na casa do meu amigo Willis Feldman e família onde fui amavelmente recebido como um pai. Durante a noite conversamos longamente sobre assuntos religiosos, lembramos os nossos primórdios no Brasil.

No terceiro dia da Páscoa, viajei para Mãe Luzia, cheguei tarde da noite. Minha sobrinha estava me esperando, me tomou pela mão e me conduziu para sua casa. Janes está beneficiando arroz. Após uma breve conversa fui dormir. Dia seguinte surpreendi o Oscar e Lisinha???? Com a nora Laura, as crianças reuniram-se ao meu redor querendo doces, o filho não estava em casa. Janes me conduziu até meu sobrinho Júris. Surpreendi a todos como caído do céu.

Após um repouso de duas horas, a noite um banho de sauna, em seguida o jantar. Uma conversa agradável e pernoite agradável. Pela manhã cantamos e oramos a Deus implorando a sua proteção, pois não sabemos se ou quando nós nos veremos outra vez. Júris me acompanha até o irmão Klava, conversamos sobre as dificuldades, as lutas da Igreja e desejos por um tempo melhor. Com o Oscar e Lisinha ???? um saboroso jantar com o irmão Zigismundo (NT – Andermann) tivemos longas conversações sobre a vida religiosa, suas necessidades e falta de santidade!

Depois de tantos problemas é difícil conciliar o sono.

Tomamos o café da manhã na casa da nora (Laura?) e chega o Juris, o filho ainda não chegou de viagem, despeço-me de Janes, Anna, Oscar e Lisinha e do irmão Zigismundo.

Aguardo a condução e continuamos conversando, chega o automóvel, lotado, chega o segundo e arranjei um lugar e ai chega o meu grande filho. O tempo é curto, então falamos apenas o necessário e despedimo-nos com um abraço carinhoso.

O automóvel corre a grande velocidade. À noite na composição ferroviária chegamos a Orleans. Visitei a idosa titia “Grüntal” que já passou dos 80 anos. Em Riga, ela quando jovem cantava no coral sob minha regência, era uma boa corista, lembrava bem aqueles tempos. A velhice, fraqueza, o ocaso da vida se aproxima. Separamo-nos para o reencontro na glória eterna.

Pernoitei outra vez na casa dos Feldman. Amáveis conversações noite adentro até a exaustão. Dia seguinte visitei o sr. Galdino Guedes com quem conversamos sobre as dificuldades da vida como melhorá-las. O almoço foi na casa dos Balod. Despedi-me dos Feldman, com bons propósitos na vida secular e religiosa. Fiquei mais alguns dias na casa do meu neto em Rio Novo.

No domingo fui convidado dirigir o culto em Rio Novo, li o Salmo 103 e a oração sacerdotal de Nosso Senhor. Deus me deu forças para falar bem e o culto foi bom.

Mais algumas visitas com exaustivas conversas, na ultima noite dormi apenas duas horas. Sai a cavalo de madrugada, com o semblante triste, mas com o coração em paz até a vista.

À esquerda esta o campo santo, onde repousam os meus queridos, à direita a igreja onde tanto trabalhei, caem algumas lágrimas, mas sigo a viagem adiante.

No lugar combinado, um número de 14 mais meia dúzia de acompanhantes. Uma família inteira esta de mudança com todas as suas coisas também seus animais. Também um casal de noivos ele com 38 anos, ela 18, pelo que originou muitas brincadeiras. A viagem, dois dias, bastante difíceis e significativos, pelo que renderia uma longa descrição. No entanto, sexta feira às 8 horas bastante fatigados, mas felizes chegamos. Graças a Deus pela misericórdia e direção!

Após algumas palavras fomos ao repouso. Em novembro do ano de 1897 junto com um jovem percorri este mesmo caminho. Em duas horas de descida das montanhas e uma noite negra nos cobriu em plena mata bruta, onde havia animais silvestres, bugres, homens da mata, o caminho uma estreita picada.

Temos que ficar onde estamos, enquanto um cochilava o outro montava guarda as duas vaquinhas que levamos para tirar leite. Eu pedi a Deus a guarda, nós trocamos a vigilância e pedíamos a Deus. Deus nos guardou maravilhosamente dos espantos noturnos, animais selvagens e mãos de malfeitores. Graças a Deus! No mesmo dia tarde da noite chegamos em casa, onde nossos queridos nos aguardavam.

No dia da Ascensão fomos ao piquenique em data de 30 de maio. Por motivo de dolorosa amargura, consegui dormir por poucas horas. No entanto, na volta do piquenique conversei com irmãos sobre a boa estabilidade da Igreja e vida consagrada. Graças a Deus!

 

UMA TRISTEZA NÃO TERMINOU OUTRA JÁ COMEÇOU

Escrevo com tristeza. Em 20 de junho do ano de 1935. Indesejáveis e dolorosas acusações tomaram meu sono, repouso, me causou um estado de insônia. Na noite de sábado tive um sono perturbado. No domingo estava com dor de cabeça, estava preocupado com algum problema cerebral. No santuário dificuldade em falar em público. Após o almoço, escrevi uma carta. Chega a minha adversária, a nossa boa empregada que me agrediu com extrema violência verbal ao ponto que chorei como uma criança. Ela para dialogar comigo, mas no que expôs não recuou nem concordou eu disse a ela: você tem duas naturezas, uma boa e agradável e outra má, a boa deve melhorar e a má crucificar. Ela retirou-se sem qualquer solução… minha mente sentia-se mal, sono nem pensar. Consegui dormir uma hora e pouco, despertei como do sono da morte.

Sinto-me mal, coração lento e grande desalento, a mão esquerda fria e com dormência, também a perna, respiração fraca. Meu quarto, separado, pensei a morte quer me levar e tenho tanto trabalho por terminar. Deitei e falei com Deus: Tu vês os meus trabalhos inacabados. Estou nas tuas mãos. Se tu desejas que eu os termine, então me dê o restabelecimento. Estou a tua disposição, ao teu chamado. Em silencio recitei o verso do hino:

Eu sei em quem tenho crido,
Que meu redentor vive
E do sono da morte
Me despertará.

Após curta prece entreguei-me nas mãos de Deus. Eu te verei – Jesus meu salvador, na glória celeste junto com os meus que lá estão. Eu não chorava mais grossas lágrimas desciam pelas minhas faces.

Próximo da alvorada dormi mais ou menos 1 hora. Durante o dia não tive sono, um pouco de chá, ao meio dia um pouco de alimento, dormi por 3 horas em sono profundo. Deus ouviu minha prece e me devolveu a saúde, em sua misericórdia me concedeu o restabelecimento e todas as noites dormi bem.

“Tu tens muito o que fazer ainda não podes repousar. Glória a Deus pela sua misericórdia que a mim mostrou: Ó Deus me ajude também daqui para frente…”

Na noite de 28 de julho tive um sonho! No sonho ouvi um grande som, como de trovão. Uma voz desconhecida dizia: o sinal da besta aparece no céu!

Outra voz desconhecida disse: o Senhor vem!

Tudo isto aconteceu atrás de mim. Voltei meu olhar para trás. Vi o céu muito vermelho, e duas aberturas, como duas janelas. Pensei, o Senhor vem! Uma grande multidão onde percebi minha velha casa, no limite vi minha esposa ela empurrada pela multidão, cai, eu a levantei pela mão. Vejo que estou na nossa casa. Minha vontade era receber o Senhor junto a minha casa. Aí ouvi a voz do meu sogro: ainda não, mas em breve virá o Senhor (Jesus). Olhei para o céu, estava com nuvens cinzentas, onde estavam as duas aberturas estavam avermelhados, acordei, não estava assustado e nem surpreso. Meu coração e mente estavam em plena paz. Falei com Deus, refleti e adormeci.

Este sonho para mim foi um incentivo e me alegrou em confiar e esperar a vinda do Senhor.

 

Após duas semanas

Subi por uma escada em um amplo, branco e iluminado salão. Em um dos lados dormia uma mulher coberta de branco, perguntei se a mulher é a Alvine? Atrás de mim, minha neta respondeu: sim, é ela, e acorde.

Vi, alguém me deu um pedaço de moeda. Perguntei onde conseguiste, ele mostrou uma pequena elevação coberta levantei a coberta e vi um brilhante pedaço de moeda. Cobri a moeda e disse, venha e veja! Quando levantei a coberta outra vez, vi a frente da igreja dourada e brilhante. Jesus Cristo com veste dourada e coroa na cabeça e um longo bastão na mão. Despertei. Pensei, o primeiro pedaço de moeda é minha alma, ainda bastante impura, mas quando Cristo me levar até a presença do Pai, mas brilhante do que ouro, sem culpas e arestas esta é a minha clara esperança.

Por volta do meio dia, voltava da lavoura, entrei no depósito, subi na balança, queria saber o meu peso, a balança se moveu ameaçando tombar, me segurei como podia, sentei, chamei o Alfredo, trouxe água, após a queda fui lentamente ate meu quarto onde fiquei deitado por algumas horas.

Na manhã seguinte na hora do café, sentado a mesa percebo que estou caindo para o lado, aconteceu por três vezes. Estranha sensação, a cabeça sem problemas, tudo claro, mas quando ereto a tendência é cair. Sinto-me fatigado e tenho que repousar.

SETE DE JANEIRO DO ANO DE 1937

 

No ano passado tive muitas experiências amargas, remeto as ondas do mar do esquecimento… no dia do ano novo, à noite e só pedi a Deus, chorei, quem sabe se este não será meu ultimo ano neste mundo de tristezas. Confio na poderosa mão de Deus.

Hoje 16 de janeiro bela leitura, eu te ajudo diz o Senhor em Isaias 41.14. Anoto que: 16 de janeiro do ano de 1929 convivi com um triste acontecimento. No ano de 1934 fui atingido por um doloroso acidente. Mas neste ano, graças a Deus não tive nenhum mal.

No ano de 1936, só Deus sabe! Se o ano de 1937 ainda estarei neste mundo ou estarei em casa junto a Deus e aos meus. Ensina-me a andar segundo a tua vontade, pois tu és o meu Deus – Salmos 143.10. Seja para mim bondoso e me ajude nas dificuldades guarde minhas forças, console nas tristezas.

16 DE JANEIRO DE 1936 – URUBICI

 

Comecei o ano de 1935 segundo a descrição da eleição do cônsul da Letônia, a imigração da Letônia e chegada ao Brasil e Rio Novo como primeira colônia leta fundada e sua permanência por 42 anos, seu desenvolvimento e depois seu lento aniquilamento e outros fatos históricos, este trabalho exigiu bastante esforços…

Também os trabalhos na edificação exigiu minhas forças e ao terminar o trabalho mais uma vez meu velho coração e as vertigens se manifestam com maior intensidade do que antes.

Mais uma vez, eu mesmo sou culpado, não poupo os meus velhos esforços. Utilizei novamente úteis recursos e durante meses trabalhei sem muita atividade e não podia ser pior. As vertigens diminuíram, atividade do coração esta melhor, se melhorar ainda mais ou vai declinar? Estou nas mãos de Deus! Deus dará para mim o que Ele desejar.

Em 23 de junho, será ainda longa a minha vida?

Junto a Deus quero me manter!

14 de fevereiro de 19????

Papus

 

Nota do Revisor:

Existem informações e datas que estão ilegíveis. Favor ajudar na confirmação das faltantes.

Cartas de Rio Novo | Por V.A.Purim

NESTE CAPITULO TENTEI DESCREVER A RAZÃO PELA QUAL EU USEI BASTANTE TEMPO NA TRADUÇÃO DAS CARTAS PARA QUE AGORA SEJA POSSÍVEL VISUALIZAR UMA PANORÂMICA DA VIDA DOS COLONOS DAQUELE TEMPO. VER O CAPÍTULO DE “CARTAS ” NESTE MESMO BLOG.

Cartas
de
Rio Novo

Cartas
Cartas que foram escritas de Rio Novo – Orleans e também de outras localidades também relacionadas à Colônia Rio Novo, para Reinaldo Purim, um estudante do Seminário Batista no Rio de Janeiro pelos seus familiares e amigos.

e
traduzidas
ou compiladas em 1.995 em diante
Por V. A. Purim.

Observação: Foi respeitada, na medida do possível, a linguagem na forma originalmente escrita, sem preocupação de corrigir os erros encontrados (concordância, gênero, etc. ) e nem os nomes de lugares e pessoas como Rio Larangeiras, Rodeio do Assucar e nem as cartas escritas em português ou castelhano. Também não foram consideradas todas as cartas que não tivessem alguma relação direta ou indireta com Rio Novo ou Orleans com exceção de algumas de amigos que nos permitem a visualização do tipo de amizades e relacionamentos entre os imigrantes letos e os seus descendentes.
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• MUITO IMPORTANTE: Sempre que são mencionadas opiniões sobre pessoas, Igrejas, associações, autoridades etc. daquela época devem ser encaradas somente no sentido histórico e todos descendentes destas pessoas como nós, possamos ver a História de modo positivo com o propósito de cada dia aprender mais e não repetir os eventuais erros de comportamento de nossos antepassados.

Objetivos:

Obter uma visão panorâmica da vida na colônia principalmente quanto as seguintes áreas:
1) Cultural – Avaliar a capacidade de absorção das influências externas. Jornais, livros, música, poesia e intercâmbio de informações com outros lugares e outros países. A Biblioteca da Comunidade. A língua e seus problemas, a comunicação informal, os boatos, as fofocas, etc. A importância dos Almanaques. Os primeiros rádios. A diferença cultural entre os Imigrantes Letos e das outras etnias.

2) Comercial – Observar os impactos dos acontecimentos mundiais no comércio e na vida de modo dos colonos de modo geral. As Vendas. Os Caixeiros Viajantes. Os Mascates. Os intermediários nas compras de porcos dos Serranos. Outros produtos comprados e vendidos pelos serranos. As Bodegas. Os Reclames.

3) Social – Verificar as diferenças entre as classes sociais, o preconceito racial, as divergências entre as famílias, entre grupos religiosos, os direitos da mulher, os serranos, os manecos, o impacto da Primeira Guerra Mundial na vida diária. As principais preocupações. Festas, noivados, casamentos, aniversários e funerais. As crendices, superstições. A comunicação com as outras colônias. Comportamento da Comunidade numa visão geral.

4) Geográfica –A posse legal das terras. O sistema da divisão das glebas, (Colônias) A Companhia Colonizadora Grão Pará. Sistema de pagamentos pela terra. Medidas usadas na época. Influência dos Diretores da Cia. na vida dos colonos. Nesta área incluímos os fenômenos climáticos, os desastres como inundações, queimadas, e ainda pragas como gafanhotos, papagaios, e as vias de comunicações como Estradas de Ferro. Estradas ligando as cidades entre si. Estradas ligando as colônias à cidade. Estradas ligando regiões como a área do litoral (Serra Abaixo) com o planalto (Serra Acima). Os correios e seu desempenho. O relacionamento com outros países, outras cidades e principalmente com as outras colônias como Rio Oratório, Mãe Luzia, Rio Branco, Nova Odessa, Varpa e outros países como Argentina, Estados Unidos, Letônia, etc.

5) Econômica – Principais culturas milho, feijão, arroz, batata, mandioca, cana de açúcar; principais criações, suínos, bovinos, aves, abelhas; renda anual de uma família de colonos.

6) Religiosa – Algumas diferenças entre os batistas e outros grupos religiosos e as divergências entre os próprios batistas. Os tradicionalistas e os “evangelistas”. Os movimentos de Renovação ou Pentecostais. Os cultos e outras atividades. As Festas Religiosas. A importância da Música. A importância do Domingo. Os dias separados dos Batistas Letos. Os Dias Santos dos Católicos. Os Sabatistas. Os Pentecostais. Os Luteranos. Os Ateus. As aspirações em busca da perfeição.

7) Educação – Escolas, cursos, professores e o alcance e a amplitude do conhecimento que era possível aspirar naquela época. As bibliotecas. A importância da vida cultural com intercâmbio através de publicações, livros, revistas e mesmo contato com pessoas de outros lugares e países. Necessidade da saída dos jovens em busca de mais oportunidades.

8) Política – Sistemas de governo. Campanhas políticas. Eleições. As revoluções. Impostos. Abertura e manutenção de estradas. Idem pontes. Serviço do Exército, Prefeitos, Justiça. Polícia. Inspetores de quarteirão. Comportamento das diversas classes de pessoas como Nacionais, Italianos, alemães, poloneses e outros etc.

9) Meio ambiente – Animais silvestres, caçadas, vegetação, ecologia, conservação etc.
10) Saúde – Doenças, epidemias, vacinas, acidentes, picadas de cobras, aranhas, marimbondos, mangangabas, motucas, mosquitos, formigas etc., medicamentos como chás, infusões, homeopatia, emplastros, hidroterapia, benzeduras, crendices, superstições.

11) Habitação – Templos, escolas, casas, ranchos, paióis, chiqueiros, galinheiros. A arquitetura típica. Os materiais de construção. O superdimencionamento das estruturas das construções.

12) Energia – A força do boi e do cavalo. As rodas d’água. As turbinas.

13) Os Profissionais carpinteiros e outros que planejavam e construíam casas, atafonas, os engenhos de cana, de farinha de mandioca, as serrarias, ferrarias. Etc.

14) Indústrias – De transformação como engenhos de cana para a fabricação de açúcar e também para farinha de mandioca, atafonas, serrarias, tecidos de lã de fiação e tecelagem caseira. As ferrarias rudimentares. Os fabricantes de móveis (marceneiros). Banha e linguiça. Carne seca (charque). Fabricação caseira de sabões. As Olarias (cerâmicas para fabrico de telhas e tijolos).

15) Transporte- navios, (vapores) trens, carroças, charretes, aranhas, galeotas, carros de bois, cavalos, tropas de mulas, manadas de bois (tropas), idem de porcos etc. Mais tarde automóveis e caminhões. Pontos de pousada.

16) Esporte e recreação – Bailes, Corridas de Cavalos. Jogos de Bocha. Caçadas. Pescarias. Banhos em rios e açudes. Piqueniques.

17) “Alimentação – Pão de farinha de milho, a polenta, as panquecas, a farinha torrada, o pão de trigo, as bolachas, a “minestra”, o molho leto, a biezu putru” (polenta de canjica servida com leite desnatado frio), o pirão de farinha de mandioca, o mel, o melado de cana, o açúcar mascavo, as roscas de polvilho, o requeijão, a nata, os queijos, os doces de frutas (mousse), o “thissel” que é uma geleia de suco de frutas com polvilho para dar consistência, o “tclhiltchan” que são sopas doces de frutas com massa panqueca dentro e servidos frios, os sucos de frutas em conserva, o salame de carne de porco, a carne de fumeiro (ossos salgados, costelas, etc., o charque, o torresmo o toucinho (bacon), o chouriço de fressura, o galet, o bullion, os ovos de galinhas e patas, a pasta de amendoim, a banha de porco, a carne conservada na banha, a carne de gado, a carne de porco, a carne de aves, a carne de ovelha, a carne de cabritos; os peixes como traíra, acará, piava, cascudo, jundiá e às vezes peixes do mar como tainha e pescada; em conserva como sardinhas e outros; a carne de caça como tatus, inambus, pombas, urus, pacas etc.) os feijões pela ordem: preto, manteiga, 60 dias, de vara, de metro, feijão arroz, macuco, de vagem etc.; a batata inglesa, a batata doce (branca, roxa, etc.), a batata ou mandioquinha salsa, os aipins (branco, manteiga pêssego, ouro etc.) o café de café, café de milho, café de sorgo, café com açúcar queimado; os chás de mate, de folhas de laranjeira, de groselha, de hortelã, preto e outros medicinais; arroz comum e o ligeirinho, palmito de juçara; hortaliças como os repolhos (Chato de Brunswick, Coração de boi, Roxo etc., as couves (Manteiga, Repolhuda etc.), os nabos, as cenouras, as beterrabas, as rúculas, as alfaces, as acelgas que eram usadas para fazer panquecas, os tomates, os rabanetes, as ervilhas, as chicória (as nativas eram chamadas pelos italianos de “radichi”), os chuchus, os agriões, os pepinos, as abóboras e as morangas, as a os taiás, os inhames; as frutas começando pelas laranjas: da terra, a crava ou mexerica, a tangerina, a baiana, a “coruja”, os pomelos etc. ; as bananas branca, nanica, roxa, abóbora, maçã, ouro, prata, figo, etc. ; os pêssegos, as ameixas enxertadas, as ameixas amarelas, as jabuticabas, os araçás, as cortiças, as cerejas, as amoras silvestres, as amoras domésticas, as goiabas, os figos, as pêras, as uvas, as melancias, os abacaxis, os ananases, os melões e os mamões. Os temperos como a pimenta cayena, a pimenta redondinha, a salsa, a cebolinha, o endro, a erva doce, os alhos ( colorau não tinha não).

18) Serviços Públicos = Escolas, estradas e cemitérios etc.

Atualizado em 10/08/2009

Viganth Arvido Purim
Curitiba – Paraná

O FEITICEIRO | POR VILLIS LEIMANN

O FEITICEIRO

Escrito por Willis Leimanis

Traduzido do Leto por Julio Andermann

Revisado: Viganth Arvido Purim

Há 70 anos, próximo da estrada de rodagem que seguia para o Leste, pela margem esquerda do rio Dvina [Daugava], na Letônia, a primeira casa que era visível acerca da metade do caminho foi a suntuosa edificação branca da Taberna de Pedra e continuando o caminho, construída em tijolos vermelhos, a Tasca [Também taberna] do Silo.

Continuando, por esta mesma estrada aparecia, em sequencia, a casa do Didemo e o lar dos Russinhos, que se compunha de várias casinhas, assim chamada por que foram doadas pelo Tzar da Rússia, junto com um pedacinho de terra, como preço [Premio] a soldados que haviam servido a Coroa por mais de 25 anos.

Deste conjunto de habitações, cruzando a estrada, por um caminho secundário se chegava à casa dos Pliko. O seu proprietário era agricultor e guarda de florestas, que eram entremeadas por charcos.

Ali também nascia o rio Ezerva, afluente do Dvina. Ignoro se aquelas florestas pertenciam a Coroa ou a algum latifundiário abandonado.
Estas são as lembranças de um menino que tinha 4 anos, que hoje está com 74 lamentando a falta de oportunidade de visitar este cenário e rever como ele está hoje. Ao lado da casa do Pliko, próximo à represa, em condições de muita pobreza, habitava a família Leiman que era constituída dos pais, avô paterno e 3 garotos. O pai da família ganhava a vida como serrador de taboas e dormentes – quando e onde pudesse encontrar o trabalho escasso e mal remunerado – sem qualquer esperança no futuro.

Corriam notícias de que no Brasil era possível comprar terras e que as Empresas de Colonização financiavam a viagem e o assentamento.
Nas casinhas dos Russinhos morava a família de Pliederis e Rudzi [Deve ser Rudzit] que também levavam uma vida miserável. Não me lembro do número de quantas pessoas eram, mas sei que o meu pai combinou com eles que iria procurar um caminho que todos conduzissem ao Brasil.

No fim da última década do século passado, emigrou a família do Leimanis (comigo entre eles); junto com o pai e filhos dos Pleederis [a pronúncia é “Pliederis”.] ficando a mãe e a filha para virem, em outro grupo, junto com o Rudzit, mais tarde. Depois de uma viagem de 8 semanas enfrentando desconforto e tempestades, a minha família estava nas matas virgens do Brasil no Estado de Santa Catarina.

Logo depois que o primeiro pedaço de terra estava preparado para o cultivo e a plantação começou a brotar, os Leiman, pai e filho, carregando o serrote, saíram à procura de trabalho.

Nas noites frias e chuvosas, os Pleederis vinham visitar a família Leiman, que sentados em volta de uma fogueira aconchegante, falavam sobre a Terra Natal distante, dos vizinhos que lá deixaram e também sobre acontecimentos sobrenaturais.

A senhora Leiman animava os filhos para que fossem dormir. Mas como? E estas estórias! Então contavam a respeito daquele fazendeiro que tinha um olhar azarado. Bastava ele olhar firme para um animal, para que ele em breve morresse. Até para os próprios cavalos evitava olhar e para isto, por traz do cocheiro, foi estendida uma cortina. Sim senhor – existe cada tipo!

No sótão de uma certa casa trabalhava um alfaiate, que era um agregado. Num dia, de manhã, exigiu da senhoria que imediatamente lhe servisse carne para comer. A dona da casa prometeu sacrificar um galo para lhe servir no almoço, mas o alfaiate insistiu, quero comer carne agora mesmo no desjejum. Inquieto se retirou da casa e logo depois o pastor de ovelhas ali próximo começou a gritar:
“Socorro, socorro, olha o lobo atacando o rebanho”.
Muita gente acudiu, mas o lobo já havia sumido deixando um carneiro com a garganta cortada. Logo depois, a dona da casa entrou outra vez na sala e observou restos de lã de carneiro nos dentes do alfaiate que tinha voltado. Então, ficou entendido que ele era um lobisomem.

Mas como isto pode acontecer? É muito simples, quem tem esta dupla natureza, quando quer rasteja por baixo de uma raiz de carvalho [Na nossa infância em Rio Novo Orleans também eram contadas estórias deste gênero com a diferença que seria necessário passar três vezes. Nós crianças fazíamos experiências com raízes de figueiras, embauvas etc. ficando decepcionados por não acontecer nada] – torna-se lobo – rasteja de volta – é outra vez homem com dantes. É por esta razão que um lobo deste tipo, não se consegue capturar nem mesmo com auxílio de cachorros.

Mas tudo isto não é nada. Vocês já ouviram falar daquele sujeito que carregava no bolso aquele rublo de prata encantado do diabo? É… com este rublo de prata ele podia comprar tudo que desejasse, mas depois quando o vendedor dava o troco, grachos e copecos, [Moedas divisionárias do rublo que eram a moeda oficial do Império Russo da qual a Letônia na época era uma simples província].
ao sair da venda, o rublo de prata estava outra vez no seu bolso. Quando chegou a hora da morte por causa da sua velhice, surgiram as dificuldades; ele não conseguia expirar. Sua agonia demorou um dia e meio, por que a alma não queria se separar do corpo. Então começou a inchar, ficando tão inflado que as suas roupas ficaram apertadas. Era terrível ver a agonia daquele homem que ficou tão estufado que acabou explodindo com um grande estrondo que quebrou as vidraças da casa e da vizinhança. Mas quando foram examinar os seus restos mortais espalhados por todo lado, verificaram que tudo cheirava a enxofre, sendo obrigados a chamar o padre para defumar tudo com incenso.
Onde ficou o rublo de prata? Não se sabe, por que qualquer um que o quisesse gastar teria primeiro de fazer o juramento ao diabo, e recitar os seus mandamentos.
Agora no Brasil.
Lá no meio da mata virgem onde ainda se ouvia os uivos de animais selvagens notívagos no escuro inescrutável, nos os adolescentes, tremendo de medo, se achegavam mais ao lume de lenha, o queixo tremendo e os dentes batendo e depois que foram dormir, o menino menor vítima de um pesadelo, acordou gritando, então a senhora Leiman concluiu que este tipo de estória era imprópria para auditório de menores; com o que não concordavam os garotos sequiosos de ouvir novidades tão escassas no local.

O jovem Pleederis veio nos visitar para solicitar da senhora Leiman uma opinião sobre as moças da colônia. Disse que estava pensando em se casar para constituir família, mas ela respondeu que, neste momento, isto era desaconselhável, por que a sua mãe e as irmãs, ainda não haviam chegado ao Brasil.
Os Pleederis e Leiman falavam o idioma Letão com a pronúncia do interior, quase com sotaque de caipiras, enquanto a maioria dos colonos da redondeza era oriunda dos arredores de Riga e caçoavam deste modo de falar. Mas o jovem Pleederis estava decidido a procurar uma noiva e quando há força de vontade, abre-se o caminho como diz o poema Kr. Waldemar [Karlis Waldemar – famoso poeta leto] que talvez ele não tivesse cultura para conhecer:
“Quem tem vontade e a mente forte,
Não temerá o percurso,
Vencendo florestas e muros fortes.
Abrirá o seu caminho”.
E, assim o Pleederis, resoluto começou a abrir o caminho em busca de uma moça para se casar.

Na Colônia Letã os livros no idioma pátrio eram escassos, a não contar a Bíblia e os hinários das igrejas. As famílias que tinham trazido livros de literatura emprestavam-nos aos vizinhos num intercâmbio, como também a outras pessoas que os desejassem ler.
Ficará em segredo o nome do proprietário que possuía o “Livro dos Noivos” que continha amostras e modelos de como escrever cartas de amor. De posse deste livro o Pleederis comprou papel de carta florido e deu início de elaborar cartas copiadas daquelas belas e amorosas sentenças insinuando amor, esperança e muitos outros sentimentos nobres.
Para entregar a correspondência a sua amada ele empregava aquela estratégia de emprestar e tomar emprestado livro, como era o costume, colocando a carta entre a capa e o título. Ele pegou o livro bem embrulhado e na reunião da Igreja no próximo domingo, na presença de senhoras e moças, aproxima-se da eleita do seu coração, devolve o volume e agradece a gentileza do empréstimo elogiando o seu conteúdo e pergunta se no próximo dia santificado, não lhe pode trazer um outro livro, acompanhando as palavras com aquele olhar furtivo que a moça entende imediatamente como um pedido de troca de correspondência.
Na Bíblia o Rei Salomão desaconselha a confiar em gente que se entreolha furtivamente; mas o que se pode esperar da decisão de uma moça inexperiente, cheia de paixão, embora ela tenha decorado o conteúdo do livro sagrado. Chegando em casa, sozinha e atenta, a eleita lê com agrado àquela carta escrita com aquelas palavras doces e enganosas que ele copiou do livro e o seu coração quase derrete esperançosa da felicidade.
Na vida monótona dos colonos que passavam os dias no trabalho pesado, tanto os homens como as mulheres, falta de recursos para pagar outras diversões, este era um momento fulgurante.
Finalmente as cartas acabavam marcando o encontro pessoal, que era um acontecimento difícil por que, durante o dia, todos trabalhavam na lavoura e a noite a família ficava reunida na pequena sala da primitiva habitação, até a hora de dormir, que tornava muito difícil manter o anonimato. Mas até para vencer este empecilho a “força de vontade” encontrou solução. Num breve diálogo com a sua eleita que tinha o nome de Ana, ficou combinado que este encontro se realizaria, numa manhã, na casa dos pais dela.
Enquanto todos trabalhavam na lavoura, ela encontrou uma razão plausível para dar uma chegada em casa. Absortos no namoro, os dois não notaram o tempo passar e eis que ouvem o alvoroço da família que estava voltando para o almoço. A única saída encontrada foi o Preedelis esconder-se num armário de roupas até que os comensais alimentados voltam para o trabalho vespertino, enquanto ele suava dos pés até a cabeça.
Este romance teve pouco tempo de duração. A Ana também tinha uma mente forte e afiada. Em breve ela verificou que o caráter do namorado não era bem aquele que transparecia nas cartas. Duro com duro não dá um bom muro e assim apareceu o desentendimento e o relacionamento acabou.

Mas o Pleederis não se deu por vencido e depois de algum tempo de espera, começou a agradar a outra moça. Mas também desta vez as mensagens daquelas cartas arrebatadoras, causaram boa impressão por pouco tempo e o resultado se repetiu, quando os namorados se aproximavam, num encontro pessoal, os rosados sonhos da noivinha se esmaeceram, deixando um coração ferido, humilhação e o amargor do engano.

O Pleederis tinha uma boa apresentação: a cabeleira avermelhada, bigodes, olhos da cor de azul celeste, face rosada, bem trajado até o ponto que isto era possível no meio da floresta; mas no seu relacionamento com outras pessoas, era desumano, empedernido e grosseiro com as palavras e na atitude. Quando procurava a noiva para se casar, não escondia a cobiça querendo saber quantos porcos, gado bovino e galinhas a noiva traria de dote e por causa destas exigências desmoronaram vários idílios.

Finalmente quando chegaram da Letônia a outra parte da família – a sua mãe e a irmã Elsa, se pode verificar que ele havia herdado a natureza da mãe. Esta senhora era rancorosa, ambiciosa, vingativa além de ter outros defeitos. Por motivos fúteis ela implicava com os vizinhos e num linguajar de caipira dizia: “Nunca, jamais, a minha Elise pensara em se casar com Frederico Leiman, [Fritz era irmão do Willis] porque nunca vou esquecer que sua mãe me xingava”, mas o máximo que a Sra. Leiman dissera para a Preedulis fora: “Você é fedorenta”.

Havia também uma diferença no modo de se expressarem, os colonos que vieram de Riga diziam: “Mas que rosa perfumada”, enquanto os caipiras diziam: “Esta rosa cheira bem”.

Mas na colônia as coisas se modificavam pela ação do tempo que se passava, a velha Pleeder de repente adoeceu e depois de alguns dias faleceu. Mais uma vez ficou comprovada a falta de sentimento no comportamento do filho. Mal o corpo da senhora chegou ao cemitério foi baixada a sepultura, e enquanto os assistentes ainda estavam rezando o “Pater Noster”, o jovem Pleederis jogou, com toda brutalidade, a terra em cima do caixão da mãe falecida, provocando aquele ruído seco de trovoada distante ao cair sobre a urna funerária, e embora esta gente tivesse acompanhado os outros enterros de patrícios falecidos anteriormente, nunca dantes se viu um procedimento tão irreverente. Meneando a cabeça alguns letões sentenciavam: “parece que este ato encerra alguma ciência oculta”.

A filha dos Pleederis, Elsa, viajou para a cidade a fim de servir como empregada doméstica e assim ganhar algum dinheiro, deixando o pai e o irmão sozinhos no sítio. O velho era um homem fraco. Já no primeiro ano de atividade, uma secreção leitosa de um cipó cortado, caiu num dos seus olhos que vazou. Portando uma barbicha e cabelos brancos, tendo as faces rosadas, ele deixava uma impressão estranha. Solitário, perambulando pelas estradas gesticulava ameaçadoramente. Falava sozinho e o que ele dizia, ninguém entendia nem mesmo os meninos adolescentes que se escondiam nas moitas da beira do caminho.

O jovem Pleederis continuou a perseguiu o casamento e quando ele estava bem humorado, se vangloriava, contando aos adolescentes as suas conquistas.

A estrada que cortava a colônia passava pelo terreno e perto da casa dos Leiman e o Frederico, já quase adulto, dizia caçoando como se fosse um diálogo, mas com a força da voz suficiente para ser ouvida pelo caminheiro: “Ele está febril e vai à consulta médica”. Diziam que outro costume que Pleederis tinha é que no meio da noite, para não levar um tombo ele andava com as pernas abertas. Sobre a estrada, em frente da casa dos Leimanis, passavam a noite, deitados os bovinos. Distraído ele acabou trepando no lombo de um novilho, que assustado levantou-se inesperadamente, com ele aboletado nas costas. Então o Pleederis escorregara ao solo, não se machucando, por milagre, por que caiu em cima de bosta ainda quente.

Já mencionei que ele gostava de andar bem trajado. Não tendo mulher em casa, ele próprio escovava, lavava e passava o seu traje. Certo dia com o ferro quente estava engomando a roupa, costume que adotara dos Letões de Riga. Inesperadamente os cães começaram a latir enquanto as galinhas cacarejavam. Correndo foi acudir as galinhas, por que um lagarto estava engolindo os pintos. Quando adultos estes animais mediam mais de um metro, pareciam crocodilos e não tinham medo de cachorros. Quando Pleederis se aproximou o lagarto fugiu o liberando para continuar o trabalho interrompido. Então viu que em vez de colocar o ferro sobre o suporte o havia deixado em cima da roupa, verificando que havia queimado nas calças um buraco do seu tamanho.

As calças ficaram inutilizadas e o usuário ficou muito zangado e ainda mais por que não tinha com quem desabafar, e por causa disto resolveu procurar outra vez uma esposa. Então ele se conscientizou que estava desmoralizado em toda a colônia em que morava [Rio Carlota] onde já não era mais levado a sério e se insistisse em alguma nova conquista, não teria êxito, por isso resolveu procurar a noiva em outro local, longe dos conhecidos.

Ausentou-se e por não ter amigos, ninguém percebeu, que durante algumas semanas, o Pleederis não fora visto, até que num dia, em que o seu pai, o velho Pleederis, foi procurar os vizinhos para pedir socorro a fim de capturar um leitão que havia fugido do chiqueiro. Mas onde estaria o filho? Viajou para o Rio Novo onde existia uma outra colônia Letã. Já muito antes de Marconi ter levantado o telégrafo sem fio, nas matas virgens entre as colônias se usava este meio de comunicação. Isto foi comprovado por que os comentários de um conglomerado eram ouvidos em outro e de forma exagerada. Logo que o pai havia deixado transparecer que o filho havia viajado, na outra ponta da linha todos já sabiam que ele fora contratar casamento.

As mais interessadas em espalhar notícias desabonadoras foram as suas ex-noivas. Algumas caçoavam, outras choramingavam, outras ficaram zangadas e mais alguma – por puro ciúme. Mas a despeito disto ele foi a Rio Novo e lá se casou.

Nesta colônia moravam os seus antigos conhecidos desde a terra natal, os Russinhos, que ele visitou para saudá-los e o encontro foi revestido de tanta alegria quanto pode haver quando se encontra um antigo vizinho numa reunião que acontece na terra estranha, embora nunca tivesse havia dum convívio assim tão amigável.

Quando o Pleederis falou de sua necessidade e solicitou do Russinho uma ajuda para encontrar a esposa, então o anfitrião indicou as famílias onde havia moças casadoiras e o convidou para ser o hóspede da sua casa. O Russinho nada sabia a respeito daqueles romances do seu hóspede; se tivesse conhecimento daquelas trapalhadas talvez teria convidado ele a se retirar da sua casa.

Ficou um tanto admirado por que o moço não era persistente na constância no relacionamento da namorada escolhida, não firmou com a primeira, nem a segunda, menos a terceira; até que visitou a família Salit, observou a Valentine e disse: “aquela me agrada” contratou casamento com ela e a trouxe para a sua casa.

Este acontecimento não despertou nenhuma curiosidade na colônia nem foi levado muito a sério, por que ele era motivo de chacota. A moça recém casada se apresentou bem vestida. O seu perfil e o seu rosto pareciam aceitáveis, mas as relações dos Pleederis com restante dos Letões, nunca foram muito cordiais e por causa disto assumiu uma vida solitária ao lado do marido. Eles recebiam visitas raramente e assim não necessitavam retribuí-las

Passado algum tempo chegou do Rio Novo o irmão de Valentine, de nome João e ficou hospedado na casa dos Pleederis ajudando nos urgentes trabalhos da lavoura. Depois da hora do almoço o João subiu pela escada ao sótão, onde ele dormia, e ficou surpreendido com o grande número de manuscritos espalhados pelo chão. Em alguns destes escritos ele reconheceu as letras dos hinos cantados na Igreja que eram copiados dos cantochões, por que não os havia em número suficiente para manuseio, facilmente identificáveis. Mas então veio a surpresa, as maiorias dos escritos eram cartas recebidas das namoradas assinadas “a tua Kátia”, “com todo amor Betia”, etc.
Estas missivas eram tantas que o João formou um colchão para dormir sobre elas. Então o João tentou convencer o cunhado: “Você agora é um homem casado, por que não queima aquelas cartas lá do sótão”. “Elas desagradariam muito a tua esposa se ela as descobrisse”; ao que ele respondeu: “Eu nunca mandei ela ler aquelas cartas”.

“Mas como foi possível você prometer casamento a uma que aceita o seu convite e ao mesmo tempo procura amizade com outra” ao que o Pleederis retrucou: “Você é muito moço e não entende destas coisas”. É verdade o João nunca entendeu.

De Rio Novo também chegou a velha Salit com os dois filhos mais jovens, mas o Pleederis recusou-se a hospedar a sogra e os cunhados obrigando os parentes procurar amparo junto de outras famílias, onde trabalhavam por uma pequena recompensa.
Ele tinha todas as condições para ter uma vida sossegada e feliz, mas não era, embora a sua esposa já houvesse desmamado o seu segundo filho. Não frequentava a Igreja, era rancoroso e desconfiado sem qualquer causa aparente. Todos os colonos possuíam uma espingarda de caça, mas Pleederis comprou uma pistola automática Browning, e esta já era uma arma de bandido.

Então ele fez aquilo que, antes dele, nenhum imigrante Letão ainda tinha feito – procurou o conselho de um feiticeiro. Nas encostas montanhosas do rio Capivara morava um ex-escravo famoso, por que diziam que ele podia resolver casos difíceis, principalmente mau olhado, inveja e ainda outros assuntos.
Havia muitos deles e estes feiticeiros conseguiam grande fama através do misticismo, falsidade e tapeação. Como se sabe, as dores de dentes ou do aparelho digestivo, muitas vezes aparecem e somem espontaneamente. Acontece que a dor some no momento em que o feiticeiro apalpa a região do corpo do consultante e assim fica a fama da cura milagrosa.
Em outras ocasiões ele prepara bolinhos de batata ou de pão recheados com pelos e cabelos enrolados, ou então outra substância, que manda o enfermo engolir. Minutos depois manda ingerir uma porção que causa vômito, tudo isto acompanhado de ritual e pronunciamento de palavras misteriosas como demonstração de sua sapiência e força oculta. Quando o freguês regurgita, aparecem os cabelos e outras coisas que ele considera como se fosse de geração espontânea do seu organismo enfeitiçado.

Existem muitos empreendimentos deste tipo, mas se entre eles realmente funciona alguma com força positiva ou sabedoria, isto ainda não foi comprovado. Os negros trouxeram os seus rituais e cerimoniais da África e os preservaram durante o período da escravidão, apesar de muito sofrimento e perseguição eles foram cultuados, o que já por si causa admiração. Nos subúrbios das grandes
cidades existem centros de magia, onde os antigos escravos cultuam as cerimônias que tiveram origem nas florestas africanas.
Não são apenas os negros que lá comparecem para por em ordem o rumo da sua vida. Um jornalista com o auxilio de uma generosa gratificação em dinheiro, conseguiu assistir estas reuniões e imaginem o que ele viu – senhoras de famílias aristocratas abastadas, altos funcionários do Governo, deputados, todos lá estavam para confidenciar e receber orientação.

Ainda não haviam passado 20 anos de quando a escravidão foi legalmente extinta, o Pleederis foi procurar o seu salvador. Enfrentou uma caminhada no dorso do cavalo de longo percurso. Havia começado a cavalgada a meia noite. Quando despertou a madrugada encontrou colonos alemães de quem indagou a localidade onde o feiticeiro morava, dizendo o seu nome e assim obteve o rumo que deveria seguir, mas de tão absorto nem encarava estas pessoas.
Já passava do meio dia quando finalmente Pleederis encontrou o seu destino. Felizmente o feiticeiro estava em casa fumando o cachimbo sentado na sombra, em frente da sua choupana. Agora surgiu um novo obstáculo, o consultante conhecia apenas 10 palavras em português de objetos de uso diário. Ele sabia falar alguns substantivos, mas desta vez tratava-se de assunto abstrato e sobre esta matéria, o nosso personagem somente sabia dizer “diabo” e que assim mesmo pronunciava como “quiabo”, “grabu” ou “grebu”. Com auxílio deste vocábulo e “força de vontade”, gesticulando, o Pleederis conseguiu fazer-se entender. O feiticeiro não seria digno do seu oficio se não fosse um psicólogo nato para entender as aflições do cliente.
Depois de mandá-lo a entrar em casa, mandou que ele tirasse toda roupa deixando o corpo nu, da cabeça aos pés e continuando, com giz vermelho e branco, alternadamente, riscou o seu corpo verticalmente. Disse “grebu”, colocando a mão no seu peito, meneando negativamente a cabeça. Repetiu novamente a palavra “grebu” e agora apontou par o próprio peito, apanhou uma vara e começou a chicotear o ar em todas as direções, desde as paredes, nos cantos, no teto e o piso da casa, fazendo o zunir com aquele sibilar que acontece quando a atmosfera é cortada por uma haste devidamente preparada como se fosse uma espada, a ponto do paciente ter se apavorado, por que o objeto passava rente a sua cabeça.

De volta a colônia, numa fluente linguagem do idioma Letão, o Pleederis contou aos mais achegados, o que ele havia entendido. Os riscos de giz defendiam e fechavam o seu corpo expulsando o diabo para nunca mais dele se aproximar. Mas tendo saído o espírito maligno queria se abrigar outra vez num outro aconchego que estivesse por perto e assim queria invadir o do feiticeiro, que então energicamente agiu em defesa própria enxotando o demônio.
E depois desta sessão do exorcismo, ele foi advertido para tomar cuidados com os vizinhos, dizendo em português: “inimigo”.

Satisfeito e aliviado por este “trabalho” pagou a consulta ao feiticeiro com a importância que havia recebido na venda de um porco, assim satisfazendo a sua ambição.
Mas apesar deste empenho o Pleederis tornou-se cada vez mais pessimista, diferente. Poderia se imaginar que este estado de nervos abalados fosse consequência daquele período de noivados repetidos que o deixaram isolado dos conterrâneos respeitáveis.

Numa tarde ele abateu um leitão para o próprio consumo. O animal morto era raspado sobre algumas tabuas colocadas no quintal, derramando-se sobre ele água quente para soltar a epiderme e os pêlos que caiam no chão e eram calcados dentro da lama com os tamancos. As águas pluviais apagavam as pegadas e levavam os pêlos que ficavam agarrados nas raízes de alguma touceira no canto da casa. Chegando o verão no quintal cresceram ervas daninhas. O Pleederis então capina uma clareira em torno da casa para impedir que as cobras invadam-na furtivamente. Quando ele chega à esquina encontra um arbusto espinhoso que ele precisa cavar mais fundo para livrar as raízes. Imaginem a surpresa dele ao ver embaraçados nas suas raízes um monte de pêlos, então ele conclui que isto é magia negra. Este feitiço tem de ser queimado imediatamente antes que faça efeito, mas o fogo da cozinha está ocupado na preparação do jantar. Ali mesmo ele faz uma fogueira com gravetos e folhas secas e com a enxada vai jogando nas suas labaredas este “atraso de vida”. A combustão exala um cheiro de cabelo queimado. ‘“Pfui” (interjeição de nojo), esta é a fumaça de cabelos de uma bruxaria e conclui: “Sim senhor – na semana passada sumiu uma porca, o bezerro está com diarreia; dos 12 pintinhos da galinha amarela sobraram apenas 4. Ainda bem que descobri em tempo; mas será que não existe mais em outro lugar? Quem poderia ter feito este trabalho”?

Há muito tempo ele não recebia visitas de quem pudesse desconfiar. Os cães guardavam a casa com zelo agressivo desanimando qualquer intruso. Então conclui que isto só pode ser obra da velha Salit. Já faz muito tempo que tinha notado o seu mau olhado; tinha de expulsá-la da casa.

A providência seguinte foi fechar a estrada que cortava a sua terra para impedir a aproximação de estranhos. Mas quando ele mesmo por ela perambulava e sentiu alguém atrás, atirava com a Browning por cima do ombro, por sorte não acertou ninguém. Por esta razão ninguém se amedrontava, considerando este procedimento como uma atitude besta e apenas motivo para chacota.

Nos dias da semana combinados todos os colonos se reuniam na escola para o ensaio do coral. O Zeeberg vindo do povoado trouxe a correspondência dos vizinhos e manda avisar que Pleederis tem uma carta no correio trazendo dinheiro, mas, quem se disporia de dar a noticia sabendo que ele era meio louco. O destemido filho de Leiman se prontificou a avisá-lo na volta para casa e assim perturbar o seu sono com a boa notícia. O Wilis monta num cavalo meio xucro ainda amansando que sempre quer andar galopando. Noite de lua cheia irradiando luz como se fosse de dia. Ele entra no quintal de Pleederis enquanto os cães latem raivosos querendo atacar. Então ele grita a frase legal: “Oh de casa”. Nem tique nem taque. Repete a chamada mais duas vezes e não entende por que o dono da casa não acorda. Talvez estivesse fora, mas na sua ausência estariam o pai e a esposa. Chama mais uma vez. O cavalo indócil quer galopar e já pensa em desistir quando ouve um ruído. A porta se abre um pouco e na fresta aparece o nariz do dono da casa. “Boa noite, mas como você tem o sono pesado”. Ele abre a porta e sai com as mãos atrás das costas e o Wilis deduz “o homem está armado”. Ele responde: “muito boa noite, ainda bem que o reconheci, senão, teria atirado”. Então ele concluiu que isto não era brincadeira, mas perguntou “por que teria atirado? Estou trazendo boas notícias, para você ir ao Correio da Vila retirar o dinheiro que chegou”. Dá meia volta e sai galopando para casa.

Numa outra ocasião a sua irmã Antonia e a Matilde, filha do vizinho, foram fazer uma visita de cortesia a Valentine. O velho e o moço Pleederis olhavam para as visitas com o branco dos olhos e quando elas se retiraram, o velho espalhou cinzas na estrada por onde elas haviam passado, com o tição de lenha aceso fez o sinal da cruz, para destruir qualquer mau olhado.

No centro da Colônia moravam os Grunzis, uma família composta de 5 filhos, deles o mais velho já casado. Disseram que o terceiro filho foi participar da guerra dos Boers (África do Sul) como voluntário, onde morreu. Era gente pacata, mas falava-se que os pais não se entendiam. O velho então começou a beber até o porre. O velho Leiman sentia pena por ele e numa ocasião em que os dois cavalgavam juntos pela estrada, Grunzis estava bêbado e balançava no lombo do cavalo. Então o velho tentou convencer o viciado para deixar a bebida ao que o outro respondeu: “Mas meu estimado e caro Leiman, qual é o prazer que ainda me resta. Estou velho, mas ainda tenho tino, se desejo aquecer o coração então uso o copinho”.
Não havia botequim na colônia Leta e também ninguém produzia aguardente, por isso o Gruntzis procurava os italianos, além dos limites. O caminho mais curto para se chegar naquele local passava pela casa dos Pleederis que proibiu o seu uso para o público, o que era contra a Lei, por que este caminho foi demarcado pelo Governo e se esta irregularidade fosse denunciada certamente ele teria levado um pito que o faria esquecer esta manha.
“Mas onde não existe reclamante também não há justiça”. Não faltavam desavenças entre os Letões, mas apelar para justiça por causa fútil, quem consegue ganhar a demanda também adquire um inimigo para o resto da sua
vida. Além disto, não se dominando a língua falada no Brasil, o querelante não conseguia expressar-se por que lhe faltavam palavras.

Os imigrantes poloneses e alemães, bem que tentaram procurar a polícia, gesticulando, não dizendo coisa com coisa entremeando algumas palavras inteligíveis sobre questões irrelevantes, irritando as autoridades, que resolviam a contenda da seguinte maneira: Quem apresentasse a queixa iria direto para o xadrez. Depois traziam preso o réu, trancafiando os dois na mesma cela e lá deixavam, os dois passar 24 horas um encarando o outro, como havia acontecido com o Pawub e Kenzio.

Depois eram apresentados ao comissário de polícia que os xingava e destratava empregando todo um vocabulário de baixo calão, brandindo ameaçadoramente um relho e aumentando ainda mais a rispidez da voz numa admoestação de que os querelantes não entendiam palavra. O queixoso pensava que a descompostura era contra o outro como culpado, mas por fim, tanto um como outro apanhavam de palmatória, como gatos num saco.

Os Letões já sabiam deste método de fazer justiça; então quando um ameaçava o outro dizendo que iria apresentar queixa na polícia, o outro dizia: “Vai, vai esquentar o lugar”.

Quanto àquela estrada que passava pela terra dos Pleederis, ela tornara-se inútil. Antigamente sim, quando os italianos, que moravam além do rio que rolava a sua água em muitas cascatas, possuíam um moinho para moer os grãos, então era uma passagem obrigatória. Mas depois que os Letões construíram o próprio engenho, aproveitando um outro rio, ficou desnecessária, pois não se precisava mais dela. Por esta razão a proibição de se usar aquela via, não incomodava ninguém a não ser ao Gruntzis, que precisava dela para ir a colônia italiana “esquentar o coração”. Quando interpelava o Gruntzis, surgia uma grande e acalorada discussão. Pleederis berrava que era o dono das terras; o ofendido alegava que a estrada era pública e continuava o seu percurso.

Num belo dia o vizinho Karp precisou convocar um mutirão de gente jovem para realizar um trabalho pesado. Todos então observaram Grunzis montado num cavalo, por aquela estrada se dirigindo para o lado dos italianos. Pouco depois, à distância, ouviram-se vozes ásperas e iradas, que, devido à distância, não se conseguia entender as palavras, mas sabia-se que os vizinhos estavam discutindo outra vez.
Inesperadamente ouve-se um estampido de tiro seguido de gritos desesperados por socorro. Vários rapazes correram para lá e encontraram o Grunzis caído na estrada dentro de uma poça de sangue e um ponto vermelho no peito. A bala havia varado o seu tórax e examinando o seu pulso e a respiração verificou que ele estava morto. Mais adiante o velho e manso cavalo em pé aguardava a volta do dono.

Improvisaram uma padiola e removeram a vítima para o prédio da escola que também funcionava como centro comunitário e Igreja aos domingos. A seguir tomaram todas as providências que se fazem necessárias para em consequência de uma tragédia assim, incluindo a captura do assassino.
Emilio, [Anderman] o filho mais jovem do professor estava admirado com este grande movimento. Num dia de semana, nunca viu um tão grande número de pessoas dentro e cercando o prédio da escola. Nos domingos e dias santificados sim, ele estava habituado a ver muita gente, quando havia Culto, o pastor falava e o coral cantava. Então os fiéis vinham bem trajados, sorrindo e conversando alegremente, os rapazes e as moças trocavam olhares e arriscavam alguma palavra. Hoje todos estavam usando a grosseira e remendada roupa de trabalho e trazendo armas de fogo.

Para passar o tempo faziam competição de tiro ao alvo. Pareciam ameaçadores. Os meninos sentiam medo. Depois de reunidos todos aqueles homens foram embora e o menino juntava os cartuchos vazios de diversos tamanhos para usar como apitos, os menores faziam um ruído mais agudo enquanto os maiores tinham um som mais grave, mas antes de terminar, eles voltaram trazendo junto o Pleederis com as mãos amarradas. Ele tinha sido preso, sem resistência dentro da própria casa.

Os colonos acharam por bem anteciparem a ação da polícia e entregar o criminoso na delegacia, antes que os filhos e os amigos de Grunzis praticassem vingança com as próprias mãos e então o caso se tornaria mais complicado.

Os conselhos do feiticeiro não deram bons resultados na vida do Pleederis.

FIM
NOTA DO TRADUTOR
Traduzido de um manuscrito encontrado nos arquivos do meu falecido irmão Emilio Anderman e traduzido do Letão por mim Julio Anderman, em agosto de 1991.

…Nos profetas de plantão que falavam… | de Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1928

Rio Novo 21 de agosto de 1928

Querido irmão Reinaldo!!

Há pouco tempo atrás recebi a tua carta escrita em 19 de junho e por ela muito obrigado. E também já foi recebida aquela carta para o Arthur com as fotografias. Muito obrigado também.

O que eu não pensava que nesta boa América ficasse tão velho e tão magro realmente parece um “padre” e se tivesse óculos poderia ser um “doctor”, mas deixa pra lá.

Nós graças a Deus estamos todo bem de saúde e trabalhamos tanto quanto podemos. Teríamos mais o que fazer, mas o tempo está chuvoso demais. Este ano foi um ano de temporais fora da conta. Diversas vezes houve grandes enchentes e agora semanas atrás começou a chover no dia 10 de manha e parou somente no dia 15. Isso mesmo que foi chuva. Foi um temporal qual eu nunca havia visto na minha vida chover os 6 dias sem parar. O sol não conseguia aparecer e a chuva era bastante fria e este tempo foi muito prejudicial para os animais que não tinham onde de abrigar. Muitos cavalos de propriedade dos italianos morreram congelados e os nossos animais todos tinham abrigo eram alimentados ficaram um tanto enrijecidos imagine aqueles que não tinham nenhum telhado para se abrigar.

Quando o tempo começou a melhorar tudo ficou mais alegre, pois quase nós estávamos começando a acreditar nos profetas de plantão que falavam que este ano a América do Sul iria afundar no mar e também havia profetas que diziam que uma guerra iria começar no dia 28 de maio. E o mês de maio passou e guerra nenhuma começou e assim todas estas previsões são de pessoas que falam e é só Deus que faz.
Este inverno não foi forte, várias vez deu geadas maiores, mas estas não prejudicaram tanto quanto em outros anos. Agora que a primavera está chegando temos que começar a plantar. Agora nos estamos derrubando o capoeirão perto do “Kanels” [a encruzilhada no alto Rio Novo era assim chamada devido a um colossal tronco desta madeira] onde está bastante crescido, pois desde que você foi embora nós não plantamos mais nada ai e por isso ele está infestado de cipoal e espinheiros que torna a derrubada muito difícil, eu estou com as mãos doendo. Fazia tempo que eu não trabalhava em derrubadas e agora tive que voltar. Nós também estamos contratando camaradas para trabalhar, mas está muito difícil conseguir boas pessoas, pois todo mundo está ocupado. A melhor opção seria contratar uma mocinha para ajudar em casa para todo mês, pois uma garota tanto em casa com na roça faz tanto quanto um empregado homem. Alguns anos atrás tínhamos a Maria do Maneco, mas no ano passado ele voltou a morar com a sua família e agora eu falei para ela voltar e ela disse que iria pensar. Ela era muito operosa e sabia fazer todos os serviços. Não bebia nem fumava como outras manecas (manekenes) costumam fazer.

O milho já faz tempo que terminamos de colher. Deu 37 carradas inda porque tínhamos plantado menos que noutros anos, mas este ano as espigas foram realmente maiores e bem regulares. Está até difícil achar as espigas pequenas (restolhos) destinados à alimentação dos animais que até agora no inverno era necessário. [não é possível dar espigas grandes para as vacas por que elas têm o hábito de engolir sem mastigar e ai ficam engasgadas ou afogadas]
Agora nós não estamos plantando tanto com antigamente, pois agora plantamos somente 5 quartas [4 Quartas dá um alqueire e 2 Alqueires dão 1 saco de 60 quilos] e nós antigamente plantávamos 15 quartas e hoje plantamos menos e colhemos a mesma quantidade e é claro que a capinação e os cuidados são sempre maiores, mas agora realmente as colheitas são bem melhores.

Agora está morando conosco a Lídia Klavim Que está indo à aula aqui na Igreja de Rio Novo, porque eles moram muito longe quase na Invernada e para ela vir para a aula fica difícil e por isso eles estão pagando pensão pra ela aqui. Ela gosta muito de conversar e fica falando o dia inteiro. Ela pediu para escrever que o irmão dela não escreve pra você porque é muito preguiçoso. Ele só pensa em sair e construir atafonas e engenhos. Ai ele ganha 10 mil réis por dia e mais a comida e lugar para dormir. Mas quando não tem serviço ele fica em casa. Aquela fotografia do Coro que eu mandei ele não aparece porque ele estava fora. A Senhora Klavim esteve muito doente e saia sangue pela boca e muita gente achou que ela iria morrer, agora sarou de tudo e está bem mais gorda [Ser gordo naquela época era sinal de saúde]. Agora ela vai à Igreja e faz visitas pelas vizinhanças. Ela manda muitas lembranças para você.

No próximo primeiro domingo de mês que vem haverá batismos Aqui na Igreja incluindo os filhos da Maria Thomaz do Rio Larangeiras e as noras dela. Também haverá batismos em Laguna onde 8 candidatos estão à espera. O trabalho lá é pequeno, mas está indo pra frente graças também ao trabalho do Pastor Stroberg que periodicamente viaja pra lá e também para Mãe Luzia. Aqui na Igreja apareceram algumas desavenças e existem pessoas que não podem passar sem elas. Não entendem que a proclamação do Evangelho e a salvação de almas deve ser a missão principal da Igreja. Acham que o Pastor viaja muito.

O Rio Novo está ficando cada dia mais vazio. O povo não quer mais morar aqui. Agora são os Match que estão indo embora para a Argentina, A Milda casou com um senhor argentino muito rico e que tem uma casa muito grande e outras casas e terrenos sem fim. Aqui os velhos sozinhos e cada vez mais velhos seria muito difícil sobreviver. Vão pra Argentina cuidar do Elias o filhinho da Milda e exercer a função de Vovô e de Vovó. Quem garante que quando crescer também não vire um profeta…

Os Matchis venderam a sua propriedade com casa [Na sala desta casa em 1940 eu tive o primeiro encontro com letras e números, pois ali foi a minha primeira sala de aula com a professora a Dª Matilde Tezza, mas isto já é outra história], moveis tudo de porteira fechada para o Eduardo Karp por 10 contos de réis. Agora ele tem onde ir morar. E é provável que ainda este ano eu também possa ir morar lá. O lugar é muito bonito . Um dos lugares mais lindos por ai. É provável que Deus tenha providenciado este lugar para mim.

Bem por hoje chega, já escrevi esta longa carta. E agora está batendo meia noite. Hoje à noite eu fui ao trabalho da Igreja e ai comecei a escrever. Quem começa tem que terminar. Os demais estão há muito dormindo. Eu também estou com sono. Como faz tempo que não recebemos noticias suas espero receber amanha quando for à cidade. Lembranças do Onofre Regis e família.

Muitas lembranças de Mamãe, Papae e minhas.
Lucija

História de Emílio Andermann – 9ª parte -2º Caderno

História de Emílio Andermann – 9ª Parte – 2º Caderno

M E M Ó R I A S
De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

“Leiam também neste mesmo Blog o artigo escrito por Julio Andermann que está em “Crônicas Históricas com o titulo de” Meu pai Karlos Anderman “

Nesta parte o escritor descreve a infinidade de providências e cuidados para a viagem para os Estados Unidos.
Também tendo chegado lá apresenta as primeiras impressões.

(O Terceiro Caderno devido a não ter relação direta com o Rio Novo será publicado neste Blog somente se houverem solicitações especificas para tanto.).

SEGUNDO CADERNO (ÚLTIMA PARTE DESTE CADERNO)

TERMINEI A ESCOLA

Ontem terminamos o exame das matérias lecionadas durante o mês e a minhas alunas mais adultas Aldonia Balod e a Marta Slengman de mim se despediram. Elas passaram com muitas boas notas. Como é doloroso separar-me dos meus alunos que já estou ensinando durante um ano e três meses. Durante a insônia da noite no meu pensamento desfilaram várias ideias e o sono não foi repousante… por que vou ter de te abandonar também. Também sentaram na classe os meus irmãos Teófilo e a Claudia, que com um carro de bois vieram me buscar de Mãe Luzia. Estou dando as notas finais.
Os meus amigos vieram para se despedir de mim e para cada um deles dei uma palavrinha e abraço. Não demonstrei tristeza por que os sentimentos de dor foram transformados em sorrisos… e foi hoje a última vez em que apertei a tua mão. Também tiramos fotografias de toda a escola reunida.
O tempo está bom e assim segunda feira partiremos, deixo atrás de mim muitas realizações e centenas de sonhos e a sepultura das minhas esperanças. Deixo também a ti, o meu tesouro, por quem daria tudo que possuo até a última gota do meu sangue; daria o mundo todo… e agora me separo de ti, deixando-te no meio destas colinas e vales, cobertos desta natureza exuberante, e sob a guarda de teus pais cuidadosos. ADEUS!

A DESPEDIDA DA CONGREGAÇÃO

Nunca pensei nem esperei uma tão espontânea demonstração de amabilidade. A União de Mocidade organizou esta reunião. Embora eu estivesse triste, esta noite me alegrou por que tudo foi organizado com muito cuidado. Os adolescentes recitaram poesias cujo tema era a separação. Os hinos ecoavam cordialmente. O salão da Congregação estava enfeitado onde nem rosas faltaram. Tudo dava testemunho do amor que esta gente tinha por mim e mostrava a tristeza da separação.
O Alexandre Klavim falou entusiasmado lembrando o meu desempenho na União da Mocidade durante a atividade do ano passado e a falta que farei no futuro. Aldonia Balod recitou um poema cujo tema era a “Luta”. A Clara Salit declamou uma poesia triste sobre a separação (ela mesma tristonha e enigmática como as profundezas de um oceano) – dizia que toda a luta pela vida se situava entre o berço e a morte. O Eduardo Salit, um menino ponderado e tranquilo, relatava as dificuldades e as lutas da vida, acentuando que a “Paz somente existe sob a Cruz de Cristo”. A Cornelia Balod (sempre inquieta como se fosse um filete da água) falou da esperança de um novo encontro – se não aqui, lá na pátria do além. As outras poesias não consegui anotar. Ainda ouvimos um lindo dueto de despedida cantado pelos meus alunos. O Diretor da Escola Dominical, K. Zeeberg expressou a sua alegria pela esperança de que continuaria estudando e lamentou a falta que eu faria como professor da Escola Dominical e terminou dizendo: “Deus vê e sabe o nosso destino” e de que “nas orações perante o trono de Deus será o nosso encontro permanente”.
O conjunto de violinos tocaram algumas músicas, especialmente “Viaje seguro”. O organizador da Escola onde eu ensinei disse que: “nós andávamos como através de uma galeria de quadros onde vemos diferentes paisagens; e, um destes quadros, estava sendo pintado nesta noite”. Elogiou-me dizendo que eu fora despretensioso, nunca falara alguma coisa ofensiva, fora bem comportado e já tinha o meu lugar garantido no coração da comunidade… mas agora temos de separar-nos, e terminou com as palavras de Paulo: “Conserve o Tesouro”. Alida Klavin declamou uma poesia longa bonita sobre a despedida: “Encontramo-nos, conversamos e outra vez temos de separar-nos; em toda à parte a instabilidade não permite a nossa permanência por muito tempo no monte Tabor”.
Um intervalo para saborear um cafezinho acompanhado de pãezinhos e o descanso. Na segunda parte mais músicas sobre a despedida, todas melancólicas, mas uma foi excepcionalmente linda e continua soando no meu ouvido. Freiman falou sobre a necessidade de mais pregadores e missionários e disse estar alegre por que mais um candidato está se encaminhando. O velho tio Karklis fez desfilar na minha frente os nomes dos jovens tementes a Deus que constam da Bíblia e aos quais foram atribuídas grandes responsabilidades. O Alexandre Klavim emocionado disse palavras em nome da União de Mocidade: “Seja alerta para que ninguém arrebate a tua coroa” (Apocalipse 3-11).
No aperto de mão da despedida vi lágrimas num e noutro semblante; eu não chorei embora o meu coração estivesse tomado de saudosa tristeza.
Depois desta abençoada despedida, arrumamos as caixas contendo a bagagem no carro de bois e partimos para uma longa e difícil jornada para Mãe Luzia, alcançamos o nosso destino três dias depois, onde fui recebido com muito amor pela minha família.

5 DE OUTUBRO DE 1923

Uma vez que agora tenho de morar aqui, longe de ti e onde não te vejo e onde tangido pela brisa do ocaso eu apenas posso sonhar com as lembranças que profundamente se enraizaram na minha memória; quero ainda registrar alguns aspectos da tua figura. Tens a cabecinha redonda ornada com cabelos dourados que pendiam sobre as orelhas e a nuca; a testa alta adornada com alguns anéis deles; os olhos escuros que às vezes olhavam com tanta serenidade; outras vezes choravam amargamente e também alegremente brilhavam quando sorriam para mim; o narizinho redondo; a boca de lábios rubros que me pareciam tão doces; a formosa face quando sorria exprimia a pureza; o porte tão esbelto; as costas retas; mãozinhas elegantes, os dedos ágeis; pequenos pés com os artelhos curtos, musculosos e fortes. O comportamento gentil, esperto e interessante; a tua voz soava como se fosse um sininho e era possante, mas doce quando falavas afinado em “sol” com inflexões para “la”. Quando choravas com amargura e arrebatamento o teu lamento parecia uma admirável melodia em “do”, que subia para “fa” e depois, descia. A tua risada era tão alegre que eu não consegui defini-la com precisão.
Tu és o meu anjo, viva com saúde e alegria ignorando a minha dor por que eu te amo e de ti sentirei saudades – mas, quem sabe, todas estas esperanças, com dor e lágrimas, terei de sepultar na tumba escura da inoportunidade.

18 / X / 1923

A minha vida tornou-se uma sequencia rotineira por que estabeleci um programa ordenado que só espero modificar quando viajar para os EUA, daqui a um semestre. De manhã quando acordo faço ginástica pelo método Mueller, tomo banho. Até o desjejum tenho tempo de estuda alguma coisa, depois desta refeição realizamos um culto matinal e em seguida vou para o campo trabalhar na lavoura durante duas horas. Voltando para casa estudo inglês e francês até a hora do almoço. Na parte da tarde estudo História Universal e ciências. Depois das 14 horas vou para a Carpintaria de João Karklis aprender aquele oficio durante hora e meia (algo parecido com o que vou fazer nos EUA). Depois estudo álgebra e a gramática portuguesa e leio obras clássicas. Após o jantar até dormir estudo música, pratico o violino e leio em inglês.
As terças e sábados, tenho aulas com J. K. Frischenbruder para esclarecer várias matérias e ele me cobra 1$00 por aula. Mas acima deste empenho todo – tu oh minha preciosa menina permaneces no meu coração e minha mente em forma de uma doce lembrança.
O tio Sigismundo e eu estivemos em Araranguá procurando uma certidão de nascimento para poder tirar o passaporte e viajar para a terra estranha. Como já disse, embora nascido na Letônia fui registrado como brasileiro. Foi uma viagem agradável – Araranguá é uma cidadezinha bonita.

A PRECIOSIDADE MAIS CARA

Luto para alcançar um alvo, que no momento é um sonho – Tu. Não consigo esquecer-te, não passo uma noite sem te ver nos sonhos. Meu coração sente a mágoa do amor oculto. Tu arrebataste o meu coração, os meus sentimentos, o meu amor; será que em algum dia vais me devolve-los? Ou serei condenado a morar na América sentindo saudades tuas eternamente.
Contei tudo para a minha mãezinha. Ela me disse para eu não ser orgulhoso e não considerar este amor levianamente, porque, igual a este, só nasce uma vez na existência. Disse para eu procurar manter correspondência com os seus pais e a sua família e talvez Deus me atenderá.
Ela me contou sobre o seu grande amor para com J. I., mas por causa do orgulho e não querendo se manifestar casou com outro e, depois de arrependeu. Estas palavras impressionaram o meu coração, mas por ora somente resta a esperança, e a lembrança de alguns acontecimentos. Uma certa ocasião ela disse, depois que eu falei que iria embora “eu vou correndo para te acompanhar”, depois ela ficou assustada com o que falou, enquanto os outros riram. Quando formamos o grupo para tirar o retrato da escola tu disseste: “parece que não te verei nunca mais”, eu respondi: “que não sabemos o que a vida vai trazer para nós e que poderá acontecer um novo encontro”.
Não há existência sem preocupações, se a vida não tivesse obstáculos então ela se tornaria frágil e qualquer brisa nos derrubaria.
O tio Rodolfo teve a ousadia de escrever para os Balkit nos EUA para eles tomarem cuidado comigo por que estava entregue ao diabo, por que seguia a doutrina do inferno. Foram os meus irmãos que em contaram por que ouviram ele dizer isto. O que posso esperar quando o meu próprio tio procura destruir a minha imagem pessoal, mas em 9 de dezembro recebi uma carta dos EUA que eles esperavam receber-me na primavera; depois de passar o frio de inverno e isto ajudou a normalizar a minha esperança no futuro. Espero que esta viagem se realize em fevereiro ou março.

25 DE DEZEMBRO DE 1923 – NATAL

De noite organizada pela Escola Dominical, houve uma pequena festa. Há 3 meses dirijo uma classe da Escola Dominical. Fiquei muito feliz. O ano de 1923 esta se despedindo e neste período tenho lutado muito e trabalhado, às vezes com alegria e outras com tristeza no meu coração; mas tudo isto tem reforçado o meu ânimo. Neste ano estabeleci grandes objetivos que terei de realizar em pouco tempo e para isto terei de trabalhar com todas as minhas forças. Na profissão de carpinteiro aprendi a usar a plaina e outras ferramentas, pois este será o meu ganho pão. Na música descobri as maravilhosas obras de Beethoven.

SALVE 1924
“TUDO POR TI HUMANIDADE, TUDO POR TI MEU POVO QUERIDO”
1 DE JANEIRO DE 1924

Carrego dentro do meu coração a saudade, cada dia que passa os meus pensamentos ganham asas e voam para ti e quanto gostaria de ver-te nem que fosse uma única vez.
Neste ano na minha vida se desenrolarão grandes mudanças. Acredito que a passos largos e decididos, alcançarei aqueles objetivos, cujo ideal se desabrocha em mim desde a minha infância; mas talvez o preço desta conquista será a tua perda – que sofrimento – no entanto sou capaz de fazer tudo em beneficio da humanidade.

10 DE FEVEREIRO DE 1924

Recebi uma carta do meu tio Balkit de cuja leitura conclui que a minha viagem para os EUA ainda demorará alguns meses. Este assunto da América já está me aborrecendo; está se tornando um conto de fadas que não tem fim. Estou escrevendo. No mês passado terminei a descrição da História do Brasil e neste mês, vou escrever a primeira parte de um livro sobre o Brasil, conforme havia planejado.

18 DE MARÇO DE 1924

Recebi duas cartas registradas, uma contendo o Termo de Responsabilidade assinado pelo meu tio Balkit para minha emigração aos EUA e outra com uma passagem de navio paga e um bilhete de trem de Nova York até Filadélfia, que custou US $86 dólares.
A minha viagem está bem delineada. No dia 22, de navio, partirei para o Rio de Janeiro e no princípio de abril embarcarei em um navio da Lampport & Holt Inc.
Agora na parte da manhã estou trabalhando na obra da ampliação da nossa casa construindo uma cozinha e sala de jantar em anexo. Numa atividade diligente tudo já está em pé embora as minhas mãos tenham ficado calejadas. Em breve terei de deixar esta construção – também me despedirei de Mãe Luzia, de todos os meus conhecidos e de ti minha cara que já não te vejo há mais de 6 meses, de ti que vives no meu coração.

18 DE MARÇO DE 1924

De noite a Congregação Batista de Mãe Luzia organizou uma reunião de despedida. Foi um acontecimento confortador para mim e para todos os presentes. Jacob Klava explicou vários textos da Bíblia sobre reanimação para todos e principalmente para mim. O tio Zigismundo disse: “É muito difícil falar numa ocasião de despedida, por que a linguagem embola e as lágrimas escorrem; mas por outro lado todos devem alegra-se por causa dos ideais meus. Que tinha o mérito de ter reativado a Escola Dominical e reforcei a fé de todos através dos meus sermões inflamados; que eu era um cristão de natureza pacífica e arrebatado”. Terminou com a frase, “Seja fiel até a morte e eu te darei a coroa da vida” para servir de lema a fim de vencer as tentações que surgem nas grandes cidades, no meio das multidões, as quais tantos jovens têm sucumbido. O Jacob Klava lembrou ainda que desde pequeno eu fora um bom aluno da Escola Dominical, falou da festa do meu batismo em 1911 e de que agora eu o havia ultrapassado no conhecimento e de que o seu desejo final era o de me encontrar salvo na praia do mar de cristal. Todas estas falas foram entremeadas de hinos de despedida.
Terminada a reunião fomos convidados para uma mesa de guloseimas oferecida pela Escola Dominical, através das mãos diligentes da tia Janina. Nunca poderei esquecer tamanha prova de amor e apreço, pois eles ainda me ofertaram uma coleta de 20$000 (vinte mil reis). Como poderei retribuir isto tudo? Mantendo a memória deles na minha lembrança.

20 DE MARÇO DE 1924

Ontem de tarde me despedi dos meus pais e dos meus irmãos. O carro de bois nos transportou, por 12 quilômetros, até a estação de Criciúma. Lá me despedi do Teófilo e do Julinho que choravam muito. Despachei a bagagem e depois fui dormir no hotel que, junto com o jantar e o café da manhã, custou 4$000. Agora, às 11 horas do dia 21, já me encontro no porto de Imbituba. Fiquei com cólicas intestinais por causa do café forte de que havia abusado, mas agora já estou bom. Hoje, no Rio Novo, estão festejando o aniversário da Igreja.

29 DE MARÇO DE 1924 – NO RIO DE JANEIRO

Até aqui a minha viagem transcorreu muito linda e agradável. O mar estava admiravelmente calmo. Ontem ao entrar na barra, com admiração observei os poéticos montes cobertos de florestas da Capital da República. Junto com o meu companheiro de viagem Adão Bernardes, estudante de Direito, procuramos uma pensão para nos hospedar e que vai custar 6$000 por dia. De tarde ele me levou à Biblioteca Nacional, um lugar que eu admirei profundamente. O meu companheiro de viagem é um Brasileiro com amplos horizontes de idealismo.
Fui a Agência Marítima de Lampport & Holt e ao Cônsul dos EUA onde encontrei ainda dois obstáculos no meu caminho. 1° – os meus documentos tem de ser visados pelo Cônsul em Porto Alegre ao qual está subordinado o Estado de Santa Catarina; 2° – tenho de deixar aqui um depósito de $25 dólares dos quais serei reembolsado quando desembarcar no destino. Somente poderei partir naquele navio que vai partir no dia 1° de maio. Cedinho de manhã no domingo fui procurar o Celino que estava morando num quarto pequeno e mal arrumado. Fiz a visita na esperança de que ele me emprestaria os 25 dólares, mas enganei-me porque ele não possuía o dinheiro.
Hoje, domingo, dia 30, me dirigi para o Colégio Batista na esperança de encontrar alguns velhos amigos conhecidos; mas neste dia eles estavam ausentes. No dia 31, novamente me dirigi para lá e o João Klava veio ao meu encontro com quem troquei ideias sobre o meu passaporte. Fomos à Central de Polícia que me deixou uma boa impressão por que o meu Requerimento foi despachado, mas o passaporte somente me seria entregue no dia seguinte porque já passava da hora do expediente. O meu companheiro então me mostrou a grande cidade e me levou a Igreja para me apresentar por que ele trabalha lá como missionário e é por ela apoiado materialmente. Em seguida pegamos o Bonde e fomos para a casa do pastor G. Ginsburg. O encanecido obreiro Batista estava trabalhando em casa. Ele é um homem admiravelmente simples e que está lutando no campo missionário há 40 anos. Nas suas veias corre o sangue judeu e pode ser comparado com os apóstolos de Cristo.
Hoje de noite faleceu um grande amigo do povo brasileiro, Nilo Peçanha e por isso as Repartições Públicas ficarão fechadas em sinal de luto, por que o povo está triste.

02 DE ABRIL DE 1924

Ontem o João Klava me acompanhou, mas o passaporte ainda não conseguiu, hoje fui lá sozinho e consegui superar este obstáculo. O passaporte me custou mais de 30$000. Ainda falta o visto do Cônsul. Esta cidade é muito enfadonha, a natureza que a envolve é muito bonita e entusiasma o visitante logo que ele aqui chega e até o arrebata, mas as ruas são estreitas e cheias de poeira. O sol esquenta e o ar se torna abafado e traz o desanimo e o cansaço. O calor e a alimentação inadequada roubam-me todas as forças. Hoje à tarde tomo o trem e amanhã estarei em São Paulo.

03 DE ABRIL DE 1924

Fui procurar a minha irmã Mely Zelma e a encontro andando no meio da rua. Ela me leva aos seus aposentos da casa onde trabalha, tomo banho e repouso. O ar fresco e saudável de São Paulo e a recepção acolhedora da minha irmã me reanimaram. Ela está gordinha, bonita e forte e trabalha muito, mas mesmo assim temos momentos para conversar.

04 DE ABRIL – EM NOVA ODESSA

Depois de pagar o bilhete de trem para Nova Odessa, ainda fiquei com 1$000 na algibeira. Ainda bem que a minha irmã me alimentou, caso contrário não teria tido dinheiro para pagar esta viagem. O meu espírito se eleva quando olho pela janela do vagão e vejo plantações variadas em toda à parte.
A Lídia e o Gustavo me receberam amavelmente. Trabalhando eu ajudo na colheita do arroz e o esforço de bater para separar os grãos me fatigou, mas desenvolveu o apetite. O clima daqui é muito bom e em breve fiquei reanimado. Também ajudei na colheita do algodão que trouxe desconforto para a coluna. Este foi um esforço agradável e cada tostão ganho era para mim precioso, porque me preocupava muito aquele depósito de $25 que teria de conseguir emprestado. Os homens não querem ajudar e entre os parentes os mais acessíveis foram os meus tios João e Lina Andermann que nesta emergência estenderam-me a mão.
Como tudo aqui está mudado: Os novos imigrantes, desconhecidos para mim, já ocupam a metade desta coletividade, a administração das propriedades agrícolas sofreu modificações, os jovens se tornaram homens adultos e fortes. Ao redor da Igreja foi plantado um grande e bem cuidado jardim resultado do esforço da mocidade. Os meus antigos conhecidos vieram ao meu encontro com muita amabilidade por que os velhos laços da amizade ainda não haviam rompido. O pastor da Igreja me procurou para um encontro e me deu conselhos notáveis, pois o irmão Kraul é um moralista profundo que procura apontar qualquer pecado. Lá também encontrei o João Salit que chegou a procura de terras para comprar e isto foi para mim muito agradável. Para a minha irmã Lídia eu falei abertamente a verdade e ao despedir-me lhe disse que era capaz de trocar as minhas convicções cem vezes para servir a “verdade” e de que para esta luta eu precisava de muita força moral e de apoio.
Voltei a São Paulo onde a minha irmã Mely Zelma me hospedou no seu quarto, com a permissão dos seus patrões; a vida dela corre muito bem e ela engordou um pouco. Ela me emprestou 80$000 e na separação chorou amargamente e isto me deu a certeza de que agora conseguirei superar as dificuldades desta viagem para os EUA.

26 DE ABRIL – AFINAL O CAMINHO LIVRE

Hoje estive na Polícia Central para retirar os meus documentos no que tive êxito, mas outra vez me atrasei para a visita com o Cônsul. Hoje, dia 27, passei no meu quartinho que me custa 4$000 por dia. No dia 28 pedi a ajuda do João Klava. Ele me acompanhou ao Cônsul e falou em meu nome. Tive muita dificuldade por que a minha certidão me fez 5 anos mais jovem e pediu um atestado de Ricardo Inke que fomos procurar de automóvel para ganhar tempo. Lá conseguimos o documento desejado e finalmente o Cônsul visou o passaporte que me custou 100$000. Para pagar a despesa tive de tomar emprestado 40$000 do Ricardo Inke e agora estou devendo: 250$000 para João Andermann; 80$000 para Mely Zelma; 40$000 para o Ricardo Inke; 20$000 ao Celino e 10$500 ao João Klava; num total de 400$000. Subirei a bordo do navio sem um tostão no bolso, mas estou feliz porque finalmente consegui o meu intento, graças à ajuda dos meus amigos.

VANDYCUS

No dia 1° de maio fiquei numa situação estranha, passei o dia inteiro sem comer por que não tinha dinheiro. Os trocados que me restaram tive de gastá-los para o transporte da bagagem a bordo; os carregadores exigiram mais de mim do que o combinado e isso me aborreceu. Cheguei a bordo do grande navio faminto e cansado. Ele é um gigante marítimo; dentro dele caberiam 4 ou 5 dos nossos paquetes costeiros.
Os passageiros da terceira classe são constituídos de italianos, russos, israelitas, alemães e eu o único de sangue letão. A maioria destes passageiros parece bem abastada; algumas famílias parecem ter recursos. Nós fomos alojados 6 em cada cabine. No café tínhamos pão com manteiga, no almoço sopa, comida, salada e sobremesa e a mesma coisa no jantar; tudo com bastante fartura.
Aquilo que nos outros naviozinhos se chama de balanço, aqui quase não se percebe porque ele é muito grande e as ondas se esboroam no seu costado. Estou meditando muito sobre a humanidade, não sei por que esta preocupação, este empenho, de ver o seu progresso e a sua salvação.

OS PASSAGEIROS

Já no Rio eu tinha encontrado a Emilia, uma alemã, que estava visitando os Inke e que também está seguindo viagem no mesmo navio. Ela disse ter trabalhado em Wurtemburg como professora e é uma pessoa agradável, culta e me emprestou alguns livros.
É muito interessante observar como os membros de várias nacionalidades se agrupam. O bloco italiano, numa noite organizou uma apresentação artística com um conjunto cantando as suas canções populares. No bloco dos israelitas russos havia um músico que tocava música clássica no bandolim, acompanhando os patrícios que cantavam entusiasmados. O grupo de alemães é o menor, mas também se mantêm unido. Os jovens jogam baralho e até as crianças encontram brincadeiras para passar o tempo.
Na tarde de 4 de maio o sol se deitou nas costas do Brasil. Os dias anteriores estavam nublados, mas hoje tivemos um céu limpo. Esta costa pernambucana é a mais avançada do Brasil e termina no Cabo de São Roque e por isto esta aproximação que nos permite ver de noite, as luzes de Recife. Está quente porque estamos nos aproximando do Equador. No dia seguinte o navio seguiu rumo para o Oeste até que alcançamos Trinidad que é uma pequena cidade servida por um porto insignificante. O navio recebeu uma carga de cacau, se abasteceu de água e recolheu passageiros negros com destino a Barbados. Estas ilhas são tomadas de arbustos e ao longe aparecem montanhas de cor parda.
Agora a rota vai para o oriente. Depois de uma dia de viagem jogamos âncora perto de uma linda cidadezinha situada numa ilha de praias planas e águas límpidas onde o navio ficou cercado de canoas que trouxeram frutas e a sua tripulação mergulha para apanhar moedinhas jogadas no mar. Outra vez embarcaram muitos companheiros negros. Agora estamos viajando para as ilhas das Antilhas, que ficam mais para o Leste. Como é lindo quando acompanhamos pelo mapa e observamos de bordo todas estas pequenas ilhas dormindo e parece que até estão sonhando dentro da atmosfera tropical e mergulhas nas águas escuras. Neste solo trabalham os pretos… e quanta poesia eles inspiraram para a história do sofrimento… que, afinal, foi o canto da liberdade que soou quando foram rompidas as correntes da escravidão. Entre os passageiros negros vejo crentes que leem a Bíblia e cantam hinos.
Hoje é dia 15 e desde ontem à noite notamos a atmosfera mais fria. A água esta menos morna. Como me sinto feliz porque estou me aproximando do meu destino. Leio os livros que guardei nas malas e o tempo se esgotou rápida e imperceptivelmente. Não sei por que tenho vontade de mandar saudações para todos os meus conhecidos e principalmente para ti… caro coração.

17 DE MAIO – FIM DE VIAGEM

Ontem, através de muita neblina e um frio cortante, o nosso gigante Transatlântico chegou a Nova York que parecia muito maior, do que se poderia imaginar antes de conhecê-la. Que porto grande e edifícios enormes. Depois de passar a noite a bordo, de manhã iniciamos o desembarque. Os inspetores examinaram a nossa bagagem e depois subimos em uma lancha que nos levou para a ilha dos imigrantes. Os passageiros de segunda e primeira classe não foram submetidos a este ritual. Eu havia ouvido críticas nas informações sobre esta verificação, mas agora encontro tudo muito bem organizado. O exame de saúde foi muito rigoroso, mas depois tudo correu tranquilo e fácil. Fui dispensado junto com outros que teriam de tomar o trem e o acompanhante nos conduziu para a estação. E como aconteceu isto? Primeiro fomos conduzidos de lancha e depois pelo Metrô e por fim outro barco nos conduziu para a estação. Sozinho eu estaria perdido entre toda esta gente movimentada e situação complicada que até parece mágica. Tomei um trem que em duas horas me deixou em Filadelphia. E depois para onde ir? Não sabia dar um passo. A língua inglesa que este povo fala para mim é quase incompreensível, mas por sorte todos entendem o que eu pergunto. Cordialmente os homens me conduzem e respondem as minhas indagações, me acompanham, até a passagem de Metrô eles pagaram.
Depois de muita dificuldade tomei aquele trem que vai para Quakertown, a última cidade do meu caminho, mas ainda não sei como chegar à casa do Balkit que se localiza no interior. Tomo um automóvel que corre iluminando a estrada de terra mal conservada e chegando ao destino onde não foi fácil encontrar a casa desejada, lá chegando o dono estava ausente. Então esperei pensando que, por ser sábado de noite talvez os moradores estivessem na Igreja, conjectura que não estava errada, porque em breve chegou num automóvel toda aquela gente que me receberam carinhosamente. Eu não conseguia fazer mais nada do que sorrir, sorrir, sorrir.
Terminada esta viagem tão selvagem e cheia de obstáculos me senti como um herói que venceu uma dura batalha. Para aqui eu vim ao encontro de uma humanidade livre.

AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES

O ar ainda está fresco e o clima parece ameno. A água está fria. As arvores, com exceção dos pinheiros, estão revestidos de uma tenra folhagem verde. Os campos estão cobertos por uma erva macia enfeitada de florzinhas amarelas como se fossem lágrimas. Aqui não se vê nenhuma planta tropical que veste a forte e selvagem natureza Brasileira, apenas alguns salgueiros que sonham a beira de um lago se assemelham. Tudo está tão lindo como se fosse um sonho maravilhoso.
Eu trabalhava em grotões cobertos de floresta e piso de pedras e cada cantinho me parecia tão agradável, tão lindo.
Os meus parentes estão com as faces coradas, o meu tio é um homem alegre, muito ágil, muito franco e dedicado. A minha tia parece uma dama respeitável e fala num tom de voz agradável parecida com a da minha avó Ana que é a sua mãe. A prima Lídia se parece muito com a Ema Karklis e a Milija com a Tereza. Os dois meninos de faces rosadas Carlos e Vilis se parecem com os filhos do tio João Andermann com a diferença de que são de natureza mais ativa. Todos eles são profundamente tementes a Deus.

AVISO IMPORTANTE:
Como o 3º Caderno não tem relação direta com a história da Colônia Rio Novo somente será publicado se houverem solicitações para tanto.

História de Emílo Andermann – 8ª Parte – 2º Caderno

História de Emílio Andermann – 8ª Parte

História de Emílio Andermann – 8ª Parte

M E M Ó R I A S
De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman


“Leiam também neste mesmo Blog o artigo escrito por Julio Andermann que está em “Crônicas Históricas com o titulo de” Meu pai Karlos Anderman”

Nesta parte o escritor começa a dar aulas na Escola Anexa a Igreja Batista Leta de Rio Novo no Município de Orleans onde tem amizades e parentes. Neste período ocorre a famosa Revolta da Palmatória apresentando assim mais uma versão dos acontecimentos. Mais tarde volta prá Mãe Luzia para se aprontar para viajar para os Estados Unidos.

SEGUNDO CADERNO

03 / VII / 1922

Ontem recebi 60$000 de honorários e hoje vou dar a primeira aula. Chegaram 8 crianças e em breve me apresentei e fiquei conhecido de todos os alunos.

09 / VII / 1922

Dividi a turma em duas classes; a primeira dos alunos mais adiantados que já conhecem as 4 operações e a outra daquelas crianças que mal sabem ler, escrever e contar até 10.
Para estas classes darei aulas em separado. Espero que tudo saia bem. Quero trabalhar com todas as minhas forças e até me sacrificar se isto for necessário. O único objetivo é abrir a inteligência e o coração destas crianças para que elas aspirem tudo àquilo que é elevado e valoroso.
Na Igreja o Frederico Leiman dirigiu o culto. O velho Leiman se despediu da Congregação, por isto todos choraram por que ele vai deixar o Rio Novo para viajar com destino a Argentina a convite do filho que mora lá. Fui também visitar o meu tio Karklis.

31 / VII / 1922
A MINHA EXPERIENCIA NA ESCOLA

O mês passado trabalhei como professor. É uma ocupação dignificante, embora ligada a muitas preocupações. Tenho lido muito sobre a pedagogia, mas entre a teoria e a prática encontrei uma grande diferença. Como é difícil encontrar o caminho verdadeiro do ensino. Eu sempre procuro melhorar o meu desempenho, mas percebo que este é um caminho difícil de prosseguir e muitas vezes sinto que estou caminhando na penumbra ou na neblina.
Os meus alunos são muito bons com exceção de um italiano, o Pedro Baio, que é um menino pouco dotado e não consegue acompanhar a classe embora tenha 13 anos de idade. Eduardo e Clara Salit, Cornelia Balod e Elza Zanerip são os meus melhores alunos. Atualmente estamos estudando frações, mas a leitura deles é meio embaraçada. A Cornelia é a mais hábil por que também tem mais escolaridade. A Elza não está tão esperta e desconfio de que ela tem algum problema de saúde ou então que em sua casa a alimentação é muito pobre. Ela frequentemente se desculpa que não tem tempo para estudar. O Eduardo Salit, embora tenha apenas 8 anos, é muito diligente, mas algumas vezes é voluntarioso.
A classe dos iniciantes também progride a passos firmes para frente. Os filhos de Zanerip – João, Otilia e Lídia são bastante talentosos, principalmente na aritmética embora um pouco atrasados no estudo do português e estas dificuldades tenho de vencer.
A pequena Lídia Balod é muito esforçada, mas tive de colocá-la naquela classe iniciante por que sabia muito pouco. Pedrinho e Ângela são italianos, crianças de muito valor, principalmente a Ângela que aproveita muito bem o ensino e é a primeira da classe. Agora estamos decorando a tabuada.
Muitos dos meus alunos são chorões, mas, de um modo geral, eles me estimam e me respeitam. Faço todo o esforço para que o meu trabalho seja perfeito.
Surgem muitas situações interessantes. A pequena Lídia se concentrou tanto no desenho que, distraída, acabou caindo da cadeira. Eu a levantei, todos ficaram rindo, mas a pequena heroína não verteu uma lágrima.
No período de recreio os meninos descobriram num pé de laranjeira um fruto. Todos eles cobiçaram a laranja e iniciaram a escalada para alcançá-la, mas como havia muitos espinhos ficaram presos sem poder sair do lugar. Então houve uma choradeira geral até que os salvei desta situação.

06 / VII / 1922

No desempenho das obrigações e os deveres do professor surgem muitas situações imprevistas que revelam a natureza da criança, a sua personalidade e as suas emoções. Começamos a aula de História do Brasil e estudamos a respeito de Luiz Brito e Antonio Salema que vieram ao Brasil como Governadores. Quando terminei a explicação do assunto, pergunto a Otilia qual era o nome do 4° governador. Ela se levanta rapidamente e disse: “João Cabrito”. Todos nós fomos tolhidos pelo riso, mas a pobre Otilia chorava muito sentida e eu tive dificuldade de dissipar-lhe o pranto.
No comportamento da criança podemos identificar o seu caráter. Eu me viro para frente da classe adiantada e o pequeno João bate com a caneta na cabecinha da irmã. Eu vejo que o seu rostinho está rubro de impaciência e de raiva. Eu interpelo: “o que está acontecendo”? e o Joãozinho responde: “ela não quer me devolver” e começa a chorar.
Esta pequena gente sente tudo, querem parecer fortes e bonitos eles querem agradar o professor. Eles são iguais a plantinhas.


10 / VIII / 1922
O MEU ANIVERSÁRIO

O tempo corre rápido e a existência segue em frente a passos largos. Hoje estou completando 20 anos de idade. Agora já sou um jovem, mas ainda cauteloso, com um olhar desconfiado estou examinando a vida. A minha retina ainda não detectou o meu objetivo, mas de uma coisa tenho a certeza de que trabalharei, durante a minha vida toda, em benefício da humanidade. Sofrerei ofensas, talvez seja perseguido por divulgar a verdade.
Na minha mente surgem planos para trazer benefícios para toda esta gente, todo este povo que são meus irmãos. Não sei quanto tempo vou trabalhar em Rio Novo e quando tiver cumprido a minha missão aqui, não sei que rumo tomarei.
Leio muito e no meu pensamento surgem centenas de sentimentos e pensamentos e, através da minha cabeça, passam centenas de ideias e crescem muitas dúvidas; mas isto enriquece e fortalece todo o meu ser consolidando a minha base.
Não sei por que me conscientizei tão tarde. Em todos os setores eu me desenvolvi muito vagarosamente. Reconheço que não sou um individuo excepcionalmente bem dotado intelectualmente, tudo o que consigo aprender é à custa de muita força de vontade – mas isto pouco importa – para frente.


16 / VIII / 1922
DIA DE ALEGRIA

Ontem chegaram a Rio Mãe Luzia os meus pais vindo da Linha Telegráfica e este foi o meu dia de grande alegria. Até que por fim aquela loucura terminou. A Cornelia Balod chegou na escola e me deu esta notícia com muita alegria, dizendo: “Os Andermann chegaram”! A notícia foi tão boa e tão surpreendente que até custei de acreditar. Depois de indagar de várias pessoas, cheguei à conclusão de que os meus de fato haviam chegado. O João Karklis e a Lídia que casaram na Linha Telegráfica também chegaram, mas para o Rio Novo e se hospedaram na casa do pai dele, o tio Karklis.
Mas os meus como eles estão passando? Aquele grupo se dissipou como uma neblina soprada pelo vento e agora voltaram pobres e doentes. Hoje também recebi uma carta dos meus pais ainda escrita em Linha Telegráfica que, pelo seu conteúdo, provocou uma tempestade no meu pensamento e por vou guardá-la.
Hoje visitei o João e a Tereza. Eles estão tristes e abatidos. Fiz-lhes várias perguntas diretas e as suas respostas foram curtas e incisivas. Indagando se houve alguma mudança na sua vida espiritual – responderam que Rodolfo Andermann, nos últimos tempos, começou a falar com muita força de uma maneira muito estranha. No início houvera dúvida, mas quando ele insistiu, depois de muita desconfiança todos aceitaram de que o que ele dizia era a verdade. Isto certamente se referia aquela questão da dissolução do grupo de fanáticos.
Deixarei a escola por dois dias e vou a Mãe Luzia visitar a minha família.

VISITA A CASA DOS MEUS PAIS

No dia 18, depois da escola, a cavalo viajei para Mãe Luzia. Tomei o cavalo emprestado de Frischenbruder. Foi um dia tão lindo quanto quente e abafado. Cavalguei devagar absorto em vários pensamentos. O cavalo andava lentamente e trotava muito. Depois de passar por Orleans, escureceu, continuei o restante do caminho à noite. Estava tão agitado que o sono nem se aproximava.
Para descansar a velha montaria às vezes parava e me deitava, mas os mosquitos não davam sossego. De manhã bem cedinho cheguei a Mãe Luzia. Esperei os meus pais acordarem enquanto amanhecia e aproximei da casa com o coração angustiado.
A minha mãe foi a primeira a sair e ao me ver começou a chorar de alegria e por muito tempo me beijou e abraçou contra o seu peito. Depois saiu o meu pai sorrindo e até o Julinho saltitava de alegria.
Cumprimentei todos, um a um. A minha mãe me disse que veio ansiosa para me encontrar, mas quando chegou a Mãe Luzia e soube que eu havia ido embora sentira tristeza no coração. Todos demonstraram grande amor, carinho, estavam falantes e o encontro foi jubiloso.
Na mesa da família novamente comíamos juntos como nos velhos tempos. Julinho disse: “O nosso alimento vem através das portas e das janelas”. Eles estão pobres e não tem mais nada: “Pois tudo que eles possuíram, deixaram pela causa do Senhor”, conforme declarou o meu pai.
Quando saíram da Linha Telegráfica de volta para Mãe Luzia os Strauss não se lembraram de devolver nada do que tinham levado e dado para a coletividade. Além disto, eles ficaram com o celeiro cheios de espigas de milho muitos sacos de arroz, 25 bovinos, novas construções e um moinho de farinha e beneficiar arroz. Até a roupa com que regressaram era a mesma com a que tinham ido para lá.
Houve compra de fazendas para a coletividade, mas os da minha família como os mais humildes, não souberam amealhar nada para si próprios; outros se aproveitaram e costuraram roupa até para encher baús.
Lá eles passaram dias negros. Todos os usos e costumes foram copiados da vida diária que os Strauss levavam, por que eles eram os anfitriões. Na mesa conjunta as refeições tinham de ser devoradas com rapidez e silenciosamente. Aqueles que não tinham dentes ou os tinham em mau estado e não tinham aprendido a “engulir” como os Strauss, se alimentavam parcialmente.
A todos eram atribuídos trabalhos e obrigações como tarefa de tempo determinado e havia os “fiscais” encarregados de vigiar o desempenho. Deitavam-se para dormir às 9 horas e a alvorada era tão cedo que muitas vezes, feita a reunião matinal de orações e tomado o café, ainda estava escuro e tinham de aguardar o nascer do dia para irem ao trabalho na lavoura, isto tudo sem receber qualquer recompensa pecuniária.
Logo que a Ida casou-se com o Rodolfo ela tirou o corpo da liderança alegando que agora era uma senhora casada obediente ao marido.

MINHA MÃE

Tornou-se pálida e fraca, surgiram muitos cabelos brancos, perdeu o sono e ficou com o sistema nervoso totalmente abalado. Ela esteve enferma de impaludismo a ponto de querer morrer. Não conseguia comer quase nada, chegou a ficar inchada e já estava cheirando a defunto. Chegou a olhar a morte nos olhos, mas que a sua fé a havia salvado.

O MEU PAI

Ele perdeu quase todos os dentes e parece muito envelhecido. Está amável como nos antigos tempos, sorri e parece feliz. Também ele adoecera de impaludismo.

MELY ZELMA

Ela está admiravelmente desenvolvida. O seu rosto está cheio de sardas e por isto não parece tão bonito. As suas cordas vocais ficaram danificadas irreversivelmente por causa daquela gritaria nas reuniões de fanáticos durante aquele período abominável, mas ainda me deu o testemunho do amor de Jesus e parece estar feliz.

O TEÓFILO

Ele cresceu, mas moderadamente. Está pálido. Os dentes estão em ruínas e a sua vozinha também está danificada por causa daqueles excessos de gritaria da Linha Telegráfica. Também padeceu longo tempo com impaludismo. Queixou-se que teve de trabalhar carregando pesados feixes de rações de capim, por ele mesmo cortados, da roça para local distante onde estavam os estábulos para alimentar os animais; quando lhe faltaram forças devido a enfermidade, a Ida através daquelas línguas o destratara chamando-o de malandro e preguiçoso. Apesar disto está esbelto e bonito, mas muito circunspeto e declarou que lá, naquele lugar, o que ele mais fazia era chorar.

CLAUDIA

Está pálida e parece uma brasileirinha. Também estivera a morte por causa daquela malária e chegou a ficar tão exangue que não conseguira mais caminhar de casa para a cozinha.
Lá nenhuma assistência médica ou de remédio era permitida.

JULINHO

É alegre, despreocupado, esperto e vivo. Também ele se desenvolveu. Já sabe ler, mas não sabe escrever. Ele é saudável e é a minha alegria.

20 / VIII / 1922

Esta chovendo. Fizemos culto em casa. Ainda orava-se em fila ajoelhados no chão com o rosto no assoalho. Não se falavam mais aquelas línguas nem se pulava ou dançava. Só se admitia dançar por motivo de alegria. Ainda se cantavam aquelas cantigas espirituais que foram iniciadas por Rodolfo, e, que já foram passadas para o pentagrama que são cantigas curtas, mas muito espirituais.
À tardinha fui à casa do Zeeberg e arranjei dinheiro e dei 50$000 para ajudar os meus pais. Combinei com João Frischenbruder que ele me daria aulas de álgebra por correspondência.
O Rodolfo parece à mesma coisa de antigamente. Ele foi poupado do trabalho pesado, enquanto os outros trabalhavam na roça, fazia alguma coisa em casa. Foi ele quem construiu o moinho. A minha avó Ana, esta sim sofrera muito, mas agora contente, apenas lamenta que o tio João e a Lina vão embora para Nova Odessa, pois já venderam as terras que possuíam aqui.
Minha mãe falou-me que quando o Rodolfo começou a falar para irmos embora de Linha Telegráfica, então por algum tempo ela deixou de entender e acreditar que isto realmente aconteceria, por que até então, repetidas vezes, todos haviam falado que aquele grupo não se separaria mais. Finalmente acordara como se isto fosse um sonho e que então no seu ouvido soaram as palavras de um poeta que dizia:
“Tudo isto foi apenas um sonho”.
Que não merece consideração”.
‘No domingo à noite iniciei a minha viagem de volta para o Rio Novo. O tio João e a tia Lina vão embora na segunda feira. Também no meu ouvido soava:
“Life ist but a empty dream”
(a vida é apenas um sonho vazio).

07 / IX / 1922

A festa dos 100 anos de independência estão sendo festejados no Brasil com grande entusiasmo. Esta é uma data excepcional. Independência como tu é cara e quanto és bela. Tu solidificas a nacionalidade dos povos que é à base do seu desenvolvimento. Que cada um tenha escrito no seu coração esta palavra “A Liberdade”.
O meu desejo é para que os povos conquistem a verdadeira liberdade, unidade e irmandade.
Os tempos passam, mas permanece a história que é a memória do passado preciosa e sagrada, mas, oh povo Brasileiro, não olha tanto para traz. O teu verdadeiro objetivo é o desenvolvimento no futuro. Avante! Avante!
Seja este o seu grito de ordem neste dia sagrado – sempre Avante!
O João Karklis e a Lídia Tereza que voltaram de Linha Telegráfica para o Rio Novo, agora vão mudar para Mãe Luzia.
Mamãe escreveu uma carta dizendo que está passando bem. Para ajudar, os vizinhos, mandam uma coisa e outra a fim de ajudar neste novo início de vida e avisaram que estão dispostos a suprir tudo que estiver faltando.
Diz que o Julinho está sempre falando que quer vir ao Rio Novo para estudar comigo e que o Teófilo esta roçando campo para plantar.
Neste mês, aqui na escola, iniciamos o estudo da gramática portuguesa. Faremos traduções do Letão para o português, mas os meninos ainda estão estudando a pronúncia.
A minha vida corre pacífica, mas não tenho a paz de espírito por que sou um pesquisador.

17 / IX / 1922

Hoje a Mocidade da Igreja teve uma sessão para tratar de assuntos administrativos. Os jovens trocaram ideias acerca de festejos que acontecerão no próximo mês que abrangerá também o Jubileu de Prata dos 25 anos de existência da Congregação Batista do Rio Novo. Queremos dar muito brilho a esta solenidade. A ideia de que a entrada fosse mediante convite pago, não vingou, por que Alexandre e eu protestamos.
Houve a eleição da nova diretoria e embora eu tivesse recusado por motivos fortes fui eleito o Presidente da Comissão organizadora que terá muito trabalho pela frente.
Também temos de deixar tudo anotado para preservar a história desta Colônia. Houve muita desordem por que muitos conversaram e riam entre si, mas o presidente desta sessão consultava um e outro, mas não conseguiu a sua finalidade principal, que é a de disciplinar a sessão. No próximo ano queremos mais ordem e eficiência nos trabalhos.
Finalmente J. Zanerip propôs que as uniões de jovens, homens e moças, que agora estão separados fosse reunidas em uma só, no que foi apoiado por unanimidade.
Tarde da noite, quando voltei para casa, chovia. Havia muita escuridão, o caminho esteve escorregadio e eu levei dois tombos.

25 / IX / 1922

Na minha vida acontecem muitos milagres e este acontecimento de que irei morar nas dependências do pastor da Igreja foi um deles. Na casa de Alexandre Klavim eu estava muito à vontade por que podia tocar o harmônio nas horas de folga; mas todos os dias eu tinha de gastar 40 a 45 minutos para fazer o percurso de ir e voltar à escola perto da Igreja. Sempre desejei morar naquela casa, mas lá estavam os alemães. Hoje eles se mudaram e imediatamente quero ocupar este espaço vazio. Deles eu comprei várias músicas.
Agora já me encontro morando na casa pastoral. O primo Ernesto trouxe os meus livros e hoje acabei a mudança, eu mesmo, trazendo a minha roupa.
Fui visitar a minha tia Karklis que me cedeu roupa de cama e também providenciou comida. Fui a Orleans e comprei utensílios de cozinha.
Gosto destes aposentos onde eu passei toda a minha infância quando meu pai aqui ainda era o pastor. Vejo quanto à vida muda de rumo, se agita, segue em frente de acordo com a vontade de Deus.

30 / IX / 1922
O CASAMENTO DO PRIMO FILIPE

Terminada a escola, vesti o terno apropriado e fui para a casa dos Karklis. Os convidados vieram chegando e breve, a cavalo, vieram os nubentes de Orleans, com o seu séquito nupcial. Tudo estava enfeitado de flores e mesa estava posta com fartura.
Cantamos, tocamos música e conversamos. Eu não estava alegre por que o meu coração estava lânguido.
Adoro lecionar na escola, mas é difícil ensinar as crianças a ler e quando escrevem também tudo está cheio de erros. Já estou trabalhando há 3 meses, mas os resultados estão aquém do que eu esperava. À noite estudo para me preparar para aquelas provas de suficiência que terei de prestar em Orleans.

08 / X / 1922

Todas as boas coisas surgiram em conjunto. Chegou o missionário A B. Detter que dirigiu o culto e recomendou a Congregação que apoiasse o Carlos Leiman no trabalho dele de pregar o Evangelho em Tubarão. A Igreja prometeu ajudar. Este irmão já realizara várias reuniões em Tubarão mesmo contra a vontade do padre que chegou a solicitar do Chefe de Policia para que isto fosse proibido, mas sem resultado. Tentou insuflar os paroquianos contra, mas também sem êxito. Amanhã de noite ele vai fazer novo culto de evangelização e o nosso coro vai, de trem, para cantar. Informou que houve muito interesse daquele povo.
Hoje de noite fundamos uma União de Mocidade juntando os moços e as moças num grupo único. Houve eleição para 9 membros da Diretoria e para mim coube o posto de regente substituto do coral.

16 / X / 1922
A FESTA DA MOCIDADE

Fui eleito para dirigir estes festejos. Preparei-me cuidadosamente, mas quando o programa teve início eu me senti fraco, cometi vários deslizes; mas o meu desejo foi que a mocidade se aprofundasse mais nas coisas de Deus e volvesse o seu olhar para aperfeiçoar a sua ação no futuro.
O programa foi rico de conteúdo; muitas músicas tocadas, muito canto coral, poesias, tudo entremeado de citações, de forma que o tempo se esgotou e a segunda parte teve que ficar para o próximo domingo. J. K. Frischenbruder teceu muitos comentários a respeito da nossa história.
O templo estava lotado e o público atento ao programa demonstrava de que todos estavam satisfeitos. O meu desejo é de que ele traga muitas bênçãos.

22 / X / 1922

Hoje houve a apresentação da segunda parte do programa. Pedi para que me tirassem da direção dos trabalhos por que, por causa daquela questão da entrada paga, fui mal entendido, mas não me dispensaram. A casa novamente estava lotada e todos aplaudiram e tudo isto me deixou muito contente graças a Deus.

26 / X / 1922

Acompanhado de João Salit fui a Orleans onde um professor me interrogou e disse que iria me encaminhar para Laguna a fim de realizar aquele exame. Eu escolhi o início de dezembro para fazer esta prova por que assim terei mais tempo para me preparar e me sair melhor – isto é muito importante para mim.

NOVEMBRO

Gasto muito pouco com a manutenção da minha vida. O meu salário é muito modesto, mas fazendo economia da para viver. No mês passado comi 3 broas de pão, consumi 10 dúzias de ovos e uma garrafa de leite por dia. Também recebi muita coisa de presente mandada pelos pais dos alunos. Gastei com a alimentação 14$200 (quatorze mil e duzentos reis).

DEZEMBRO

Há bastante tempo, eu, na minha escola, tenho apenas 6 alunos. Até parece que eu sou um professor de aulas particulares. Não tenho muito que fazer. Acabei dando demais liberdade para os alunos e por isso eles se tornaram desobedientes. Chego a conclusão que devo ser mais severo, mais intransigente.
Na nossa escola existe muita alegria, entrei nuns trilhos de dar aulas, como aconteceu em Nova Odessa, onde alegria se tornou em algazarra que assim é prejudicial. Alguns casos de desobediência tive que punir.
Os meus alunos se queixam que tem pouco tempo para estudar, por que tem de trabalhar na lavoura para ajudar aos pais e por isto chegam à escola sem as lições de casa cumpridas. Então se torna difícil repreender; mas às vezes reclamei e impus as tarefas por que, às vezes, não havia saída, pois relaxavam tanto que perdiam o fio da meada, perdiam a vontade de estudar, tornavam-se desobedientes e com preguiça mental.
Vamos começar a estudar o idioma inglês e por isso os alunos ficaram muito animados, mas eles não imaginam como é difícil de se aprender uma língua extra; as primeiras lições receberam com muita boa vontade, mas será que serão insistentes?
A alimentação, para mim, fica cada vez mais barata; o João Salit e outros me mandam comida já preparada e pronta feita em casa. Em outras escolas, este mês já é de férias. Também espero receber estas férias e nelas tratarei de trabalhar outro serviço manual que pretendo executar com muito prazer.
Todos os dias estudo o português por causa daqueles exames que vou prestar, mas tudo me corre bem e estou alegre.

03 / XII / 1922

Ontem recebi carta dos meus pais dizendo que me esperam ansiosamente e em todos os dias falam no meu nome, mas o tempo vai ser curto, porque terei apenas uma semana de férias; mas logo em seguida deste pensamento o Salit me disse que, a partir da próxima semana, posso me ausentar até o 1° de janeiro. Por isto espero, brevemente encontrar com a minha família. Vou ajudá-los nos trabalhos da lavoura e quando voltar vou trazer o Julinho comigo para completar a alfabetização na minha escola. Assim mudam-se os tempos e com eles o destino.
Recebemos a visita de Carlos Leiman que declarou que não vai ficar em Tubarão, mas continuará lá até o levantamento de dados estatísticos.

08 / XII / 1922

Hoje, os meus melhores alunos prestaram os exames anuais onde somei a média das notas mensais:

Gramática
Português História do Brasil Comportamento Aritmética História da Látvia Língua
Leta Ciências
Naturais Geografia
Eduardo Salit 86 74,5 80 77,2 85 78,8 80 75,2
Clara Salit 78 77 89 75,7 65,7 79,8 77 78
Cornelia Balod 80,5 79 89 74 80 74,5 77,5 82,4
Alice Slengman 68 82,6 100 68,4 85 73 75,5 81,4

09 / XII / 1922

Acabaram-se as aulas, entramos em férias; fato este que nos alegrou muito porque depois de um trabalho diligente, o descanso é merecido. Durante a metade do ano nós alcançamos resultados – prêmio pela nossa luta e agora vamos descansar e depois reiniciar a batalha contra ignorância. As crianças cansam com facilidade e este espaço de tempo livre é necessário para repor as energias. Quando eu mesmo adolescente frequentava a Escola de Nova Odessa, então muitas vezes, o estudo me parecia insuportável, monótono e demorado. Lá, todos os alunos trabalhavam na lavoura, inclusive eu; por esta razão, para assimilar as matérias, cansado, ainda assim tinha de estudar até tardes horas da noite. Cheguei a pensar: “será que eu não poderia imitar os outros que apenas trabalham. Por que devo estudar”?
Pensamentos semelhantes certamente se insinuam no pensamento de todas as crianças; então quanto é agradável o descanso.
Quero também fazer uma observação retrospectiva sobre este meu trabalho. No fim do ano apenas 6 alunos continuaram a frequentar a escola: Eduardo Slengman, Lídia Balod – na classe dos iniciantes – e os quatro já mencionados – porque os filhos de Zanerip, depois daquela festa da mocidade, deixaram de estudar. A classe mais adiantada, na aritmética, decorou a tabuada de multiplicação e no final já sabiam trabalhar com frações. Também no aprendizado das gramáticas Leta e Portuguesa, nós passamos por toda a lexicologia. Na geografia estudamos todos os continentes e como já disse, ultimamente iniciamos o estudo do Inglês. Observando os meus alunos do ponto de vista da psicologia, vejo neles algumas falhas inatas. O Eduardo Slengman é chorão; ele é capaz de verter lágrimas por qualquer bobagem e quando o deixava de castigo ele chorava de raiva e sacudia a mesa como um débil mental; mas a sua natureza era muito boa.
Eduardo Salit é um cabeçudo. Ele é muito aquinhoado e o seu poder de memorizar é impressionante. No fim do ano ele perdeu o ânimo e tornou-se desobediente. Eu dou aos meus alunos muita liberdade porque não quero limitar o seu desempenho e a tendência que devem se desenvolver espontaneamente, mas exigi exatidão nos resultados e quando isto não acontecia – muitos alunos perderam o recreio. Estou me separando deles com tristeza e não sei por que motivo espero tanto deles.

23 / XII / 1922

Outra vez estou na casa paterna. Do tio Karklis tomei emprestado o cavalo e do Frischenbruder a sela. Iniciei a jornada cedo de manhã, mas o cavalo era vagaroso e a viagem foi lenta, embora o tempo estivesse nublado e a estrada enxuta. Cumprimentei a todos, mas não me sentia feliz. Ao chegar a Mãe Luzia, junto com os meus irmãos fui tomar banho no velho rio e eles aproveitaram a oportunidade de estarem longe dos pais, então me contaram coisas terríveis que aconteceu com eles na Linha Telegráfica. Quero anotar vários acontecimentos: numa ocasião ao ser distribuída a sobremesa a profeta Ida colocou, no seu prato, uma porção maior de uma guloseima. Uma irmã participante do grupo, depois comentara este fato levando a mal este procedimento. Os espiões certamente contaram a interessada.
Na próxima reunião, por intuição do espírito, a Ida proibira, daquele dia em diante, a cozinhar aquele doce novamente. Através da profetisa Ida aquele espírito, ordenara a Teófilo, que ele devia conseguir ração para os cavalos, então ele subia pela margem do rio para cortar um capim mais viçoso, mas quando trouxe o fardo a velha Strauss mandou que aquele pasto fosse servido para os bezerros. Depois ele teria de entrar na floresta para apanhar tais e quais ervas, então ele entrou no mato onde colheu um novo feixe; mas quando entregou aquela carga, lhe disseram que não era suficiente e ele deveria conseguir mais.
A Ida tomara muita antipatia por ele a ponto de odiá-lo, e naquelas rodas de culto falava mal dele abertamente. Ela dissera de que ele era um glutão que devorava a comida e de que era mal comportado. Além disso, sempre ralhara com ele dizendo que ele era um caso perdido.
Numa outra ocasião o Teófilo estava dormindo sono solto quando acordou com a minha mãe gritando por socorro com todas as forças dizendo que o seu fluxo sanguíneo estava parando na cabeça e de que temia um colapso; mas vendo este desespero a Ida ainda mandou todos pularem em sinal de louvor.
Se alguém do grupo demonstrasse qualquer desanimo e gemesse, então todos os participantes da reunião deveriam gemer também em coro; mas ao contrário, se alguém dos presentes desse um grito desvairado de alegria – todos deveriam acompanhar como loucos. “Gritai com todas forças, por que quem não gritar, perecerá” dizia Ida. Na mesa das refeições a família dos Strauss engolia o alimento com a maior rapidez possível e quando eles terminassem a refeição, todos os outros do grupo deviam agradecer e sair da mesa.
Os membros da minha família não estavam habituados a esta maneira selvagem de se alimentar, então passavam fome. A minha mãe fora submetida a um jejum involuntário por que, período antes do ataque de febre malária estava na hora de comer e não sentia fome, mas depois de passada a crise, não dispunha de alimento fora do horário. Debilitados pela malária, depois todos sentiam muito apetite, mas não dispunham de forças para trabalhar; então eram acusados de “comilões e malandros”. Eles não levavam em consideração o fato de que minha mãe sofrera aquela terrível enfermidade precisava de tempo para convalescer, pois apenas conseguia costurar alguma coisa e isto mesmo a custa de muito esforço.
A Ida a tudo isto inspecionava de um plano superior e iniciara uma campanha de acusação pública contra a minha família naquela roda de reuniões.
Numa ocasião quando a minha irmã Mery Zelma tivera um período de dúvida sobre aquele comportamento e sofrera luta no íntimo da sua alma; então a profeta resolveu esta situação através do espírito, mandando que, dormisse três noites despida, em sua companhia. Ela mesma despira a Mely Zelma as vistas do tio Rodolfo, que foi então convidado a se retirar do aposento ao ser tirada a última peça de roupa íntima.
Passado este episódio, dia seguinte, na reunião daquela roda o espírito mandou que ela mesma, a Ida e o Rodolfo deveriam dormir juntos a partir de então. “Vocês devem lembrar-se do mandamento de Deus que diz” – “aqueles que foram unidos por Deus ninguém deve separar”. “A eles é permitido, por intermédio de Cristo, a se amarem inocentemente como se crianças fossem; aqueles casados no Registro Civil e que durante toda a vida estiveram se prostituindo aqueles não seriam capazes de entender a pureza deste gesto por que trazem aquelas regras bíblicas no coração”. “Dormindo juntos é que se aprende a vencer a maldade” doutrinavam a Ida e o Rodolfo.
Quando toda a comunidade começara a tecer comentários e surgir dúvidas sobre este comportamento, então veio ordem para que todos dormissem juntos. Então estendiam esteiras no assoalho e lençóis e a própria Ida juntava os casais para passarem a noite dormindo juntos, alternadamente; mas ela mesma e o Rodolfo formavam um par constante.
Todos aqueles que não cumprissem as ordens de Ida literalmente era odiados; mas aqueles que cumpriam tudo sem discussão eram os bons.
Uma moça que se chamava Mina, que impressionava pela sua beleza, era terrivelmente invejada, a ponto da Ida proibir os homens a falarem com ela dizendo: “quem falar com ela está na perdição eterna; o homem que falar com ela será tolhido pela ambição da carne, ela é imunda, etc”. mas a Mina não entendia o porquê deste desprezo e continuava orar e a jejuar cada vez mais, mas não conseguia misericórdia.
O Eduardo Selmanis, velho Strauss e minha mãe sofreram muitas injustiças. Numa ocasião trabalhando na lavoura as crianças comentaram entre si sobre os acontecimentos e uma menina, a Olga, dissera: “eu não acredito que este espírito seja de Deus, por causa do que acontece com o Eduardo”, quando, atrás de uma moita surgiu um vulto (talvez Matilde) e já no culto da noite, naquela roda, a Ida sentenciou: “Olga e as outras crianças estão destinadas à perdição e ficarão a mercê do anticristo que os conduzirá e entregará ao “João Louco” para serem perseguidas, mutiladas pelos demônios, transvertidos em porcos e outros animais selvagens”.
Acontece que o meu pai ainda mantém a sua convicção inalterada. Ele defende tanto os acontecimentos da Linha Telegráfica que lamenta ter tido de regressar a Mãe Luzia. Ele está irremediavelmente embutido desta doutrina. Falei muito com ele, mas não discuti nem dei respostas, porque ele é o meu pai que me gerou e eu o estimo e o respeito. Agora ele está me ensinando o Inglês e descobri que ele domina este idioma com perfeição.
O tio Rodolfo retornou para a Linha Telegráfica para apanhar a Ida com quem está casado e vai trazer os sogros e mais outros parentes. Com ele sim, eu falaria palavras ásperas e duras. Não acredito que eles possam viver juntos em paz e estão falando que o Rodolfo vai mudar para o Braço do Norte.
Estou tomando aulas com J. K. Frischenbruder e dei um bom impulso em aprender línguas. Domingo, junto com os meus irmãos, fomos a Escola Dominical Batista. Eu não estava preparado para falar, mas assim mesmo me obrigaram a dirigi-la como também o culto. À tarde vieram os velhos companheiros trazendo os seus instrumentos, então tocamos muitas músicas.
Durante o dia eu trabalho na lavoura o que me parece agradável por que me sinto bastante forte.
Todos os meus irmãos continuaram a se lamentar sobre os acontecimentos da Linha Telegráfica, que não vou anotar, porque tudo isto me magoa e revolta profundamente.
Acabaram-se as férias e ao voltar para Rio Novo levei comigo a irmãzinha Claudia, o violino, a cítara e um pequeno armário para guardar os meus escritos.

NATAL – 25 / XII / 1922

Na Igreja Batista de Rio Novo, iniciamos os festejos ainda a luz do dia para que não entrassem muito pela noite adentro. Pois o Zeeberg que dirigiu o programa e se desempenhou da incumbência com muita beleza.
Todos os meus alunos participaram da apresentação, mas poucos conseguiram o sucesso desejado, mas também não ouve as monótonas falas de esclarecimento. No fim da festa cada aluno recebeu um embrulho com presentes.
No dia seguinte fui a Orleans procurar o meu processo pedindo prova de suficiência para ser professor que foi indeferido, por que faltava anexar outros documentos. O Salit me aconselhou voltar lá outra vez para anexá-los.
Retornei no dia 28, mas apenas consegui o Certificado da Polícia, mas ainda era necessário o Atestado Médico e este somente poderia conseguir em Tubarão como também o Atestado de Vacina contra a varíola. Dormi em Orleans para no dia seguinte, às 6 horas, tomar o trem para Tubarão. Chovia e ainda estava escuro como breu a ponto de mal enxergar o caminho que estava muito escorregadio e foi por sorte que não levei tombo. Cheguei à Estação molhado. Chegando a Tubarão, lá também chovia. Procurei a casa do Dr. Otto Tearschite, mas a empregada me disse que ele já havia ido para o hospital, mas lá chegando, ele também não estava; então todos nós que estávamos esperando soubemos que ele estava em outro local e somente apareceria de tarde.
Durante o dia todo fiquei na varanda do hospital esperando, até que ele chegou de tarde. Então ele me atendeu e disse que o Atestado de Saúde ele me daria, mas a vacina eu teria de tomar em outro local.
Passei a noite no hotel; lá encontrei um suíço engenheiro de profissão, que no desempenho de sua especialidade, havia viajado pelo mundo todo. Era um homem respeitável, de coração aberto, mente científica – falamos sobre arte, política e finanças. Se em toda parte existissem pessoas assim instruídas, com quem trocar ideias eu ficaria respeitado.
De posse dos atestados, voltei para Orleans a fim de completar a documentação; mas então surgiu outra exigência – a da naturalização que também somente poderia ser conseguida em Tubarão.
Em consequência desta exigência, resolvi voltar na outra semana. Na outra investida um funcionário me mandou falar com outro e este para o terceiro, até que fui informado que teria de requerer o documento na Secretaria do Interior do Governo de Santa Catarina; mas aconselharam que eu contratasse os serviços de um advogado. Já tendo despendido 46$000, não me sobrou mais nenhum tostão e voltei sem ter conseguido qualquer êxito. Esperava ansiosamente para prestar aquela prova imediatamente, mas agora, nem sei se isto será possível; por causa disto fico angustiado.
À tarde encontro o Senhor Evaristo – ele me deu esperanças de conseguir o documento, mas com a condição de propagar a sua candidatura para eleição de Comissário.

31 / XII / 1922

Consegui ser eleito delegado da comunidade Leta. Hoje na hora de reunião na Igreja falei em favor do Sr. Evaristo como Superintendente. Defendi a sua candidatura com todo empenho, embora ele não fosse simpático aos mais velhos – mas consegui convencê e finalmente me elegeram como mensageiro desta comissão.

SALVE 1923
VIVER É LUTAR CONTRA AS FORÇAS DAS TREVAS QUE HABITAM EM
NOSSOS CORAÇÕES E NAS NOSSAS MENTES – Ibsen.

Neste ano ainda não escrevi coisa alguma porque até agora nada de especial aconteceu. Por razões desconhecidas, nós os delegados políticos não fomos mandados para Florianópolis; somente tivemos o trabalho de ir e voltar a Orleans.
Escrevi aos meus pais que me mandassem a minha Certidão de Nascimento e alguma orientação sobre a minha naturalização, se a soubessem, mas a resposta que recebi de pouco adiantou. Por causa deste destino adverso vejo que não terei a possibilidade de prestar aquele exame de suficiência.
Depois de um mês de férias reiniciamos as aulas no dia 8.
No dia 17 o Gustavo me mandou uma carta de Conrado Frischenbruder, com a proposta para que o primeiro que fosse viajar para Nova Odessa, levasse a minha irmã Mely Zelma junto. Sobre este assunto escrevi longa carta para a minha família que foi levada em mãos pelo Jacob Karklis. O Conrado resolveu retornar para Nova Odessa e para encaminhá-la junto, esperava que ela chegasse até segunda feira, dia 27, mas ela não apareceu. Claudia então supôs de que ela não viajaria; mas na minha mente estava claro de que ela viajaria.
No dia 31 não houve aula por que tive de ir a Orleans ao encontro dos homens do Governo, a fim de rogar uma licença permitindo o funcionamento da escola. Quando voltei encontrei a Mely Zelma e também o Julinho que já estavam com a Claudia o que me causou um misto de alegria e admiração.
Mely Zelma disse os pais terem-lhe permitido viajar. O tio Rodolfo como o guia espiritual daquela seita opôs forte resistência ao plano. Falou que depois de voltar de Linha Telegráfica ele se empenhou para apanhar todos os bens materiais só para ele. Que as suas pregações ainda continuavam estranhas.
Tive a impressão que estava vendo a Mely Zelma pela última vez. A despedida é sempre dolorosa, dolorosa, dolorosa. Ela cresceu está esbelta e muito linda. Agora em Mãe Luzia, além dos meus pais só resta o irmão Teófilo.
Lemos que no Rio Grande do Sul estourou uma revolução e o Município de Orleans também se rebelou; isto porque o nosso povo não suporta mais o Governo dos Nunes que cercado pelos irmãos e parentes é os líderes. O tal de Evaristo em Orleans não passa de um simples moço de recados que apenas sabe fazer promessas que acaba não cumprindo. Ultimamente eles criaram muitos impostos novos.

18 / II / 1923

Os italianos, em grande número, foram ao povoado de Orleans, armados cercaram o edifício e obrigaram-no a assinar uma carta de renúncia ao cargo. Mas sorrateiramente telegrafou para Florianópolis dizendo que o povo havia se levantado contra o Governo e no mesmo dia foi mandado um pelotão de soldados armados comandados por um tenente.
Esta renúncia tinha sido exigida pelo outro Partido Político, inimigo daquele no poder, mas que também eram pessoas respeitáveis; com a chegada dos soldados, a promessa da renúncia não foi cumprida.
Por isto a revolta continuou na segunda feira, dia 19; a partir do meio dia todos os colonos foram avisados para comparecerem e informados que a cavalo, devia dirigir-se a Orleans. Neste dia à noite, na Igreja Batista estava programada uma reunião extraordinária para a discussão dos assuntos da mocidade e devido ao levante, não pudemos acender as lâmpadas e a reunião não se realizou; mas do lado de fora do Templo, estávamos vendo que, silenciosamente, uma grande multidão se reunia.
Na minha mente surgiram vários pensamentos. Fiquei admirado pelo fato de que, assim repentinamente, sem qualquer agitação ou propaganda, um tão grande número de pessoas entusiasmado conseguiu reunir-se em torno do mesmo problema, espontaneamente.
Os principais agitadores eram os Poloneses que até prometiam vingar-se contra os omissos. Eu me aconselhei com o Salit e o Karp que era melhor que eu também aderisse à causa.
Os Letões sob o pretexto de apanhar armas e devidamente guarnecidos, cerca de 8 pessoas e às 13 horas partimos para o local da contenda, numa linda noite iluminada pelas estrelas, que brilhavam em qualquer espaço do céu que se olhasse. Nós marchamos trocando ideias tentando prever os acontecimentos.
Em frente do Moinho do Arthur Paegle, vimos postados guardas armados que nos animavam: “sempre em frente por que não vamos deixar recuar até a revolução da contenda”. Isto me soava estranho e eu já estava arrependido de ter ido tão longe. Sentamos no chão para descansar as pernas. Soubemos que no nosso grupo havia uns 250 homens que estavam dormindo no mato.
Corria o boato de que mais dois vagões da Estrada de Ferro haviam trazido soldados: “mas nós os aniquilaremos com os tamancos” diziam. Outros falavam que, no espaço entre nós e Orleans havia mais de 1500 homens em ordem de combate que eram chefiados por líderes competentes. Foi nos recomendado, que daquela hora em diante, deveríamos obedecer à voz de comando. Para onde se olhasse havia homens ostensivamente armados.
Chegaram mais outros Letões que nos cumprimentaram e mostraram satisfação pelo grande número de pessoas reunidas.
Por todo lado era comentado o motivo desta revolta que eram os impostos insuportáveis e desumanos com que o Governo havia sufocado a população. Alguns faziam caçoada; outros contavam prosa de valentia, mas eu pensei, como é ignorante este povo; se ao menos tivessem o cuidado de virem desarmados.
Eu sentenciei intimamente: “Quando o primeiro soldado der um tiro, todos eles fugirão pisoteando-se uns aos outros”. O maior parte deste povo veio obrigado ou enganado, por que piquetes armados entravam nas casas e conseguiam as adesões, sob ameaça.
O Vilis Elbert tinha a mesma opinião que eu e falou: “que a maior bobagem foi terem trazido armas – isto sim – deviam ter vindo apenas com a força moral, porque os fuzis dos soldados têm muito mais alcance e melhor pontaria do que as nossas espingardas pica-pau”.
Amanheceu. O nosso chefe Franklin comando: “avante”! Para principiar já foi difícil acordar todo o mundo. Os mais pobres, por estarem mal alimentados, sentiam-se mais fracos por que estavam mais tempo sem comer. Com uma imensa dificuldade acabamos reunindo todos e iniciamos o movimento para frente até o local determinado. Ocupamos uma quina da cidade, perto do rio, onde existiam umas casas e neste local deveríamos esperar novas ordens.
Agora a luz do dia conseguimos ver melhor os nossos companheiros. Lá estavam idosos que se moviam lentamente, mulatos desinteressados, poloneses de tez muito pálida, os italianos firmes e fortes, os letões de estatura elevada. Todos estavam abaixados porque o sol já começava a esquentar.
De surpresa chegaram a cavalo 3 homens; o primeiro montava uma mulinha muito bem tratada e encilhada, mas o cavaleiro parecia cansado. Ele impressionava pelo seu porte imponente, era robusto e de estatura elevada, uma fisionomia bonita e uma atitude determinada. Chamava-se João Gusman, era comerciante e um dos dirigentes. A sua fala era mansa e amável – era popular, logo que chegou foi cercado e cumprimentado por todos. Ele falou que nós iríamos entrar em Orleans às 10 horas e o sinal para o avanço seriam três tiros para o alto. Informou ainda que na cidade não havia mais de um Pelotão de 15 soldados comandados por um tenente e 8 policiais, que não ousariam resistir.
Então ele animou a tropa dizendo: “Nós temos de limpar Orleans destes canalhas”. Ele prometeu matar dois novilhos para dar alimento para todos. Dito isto ele foi embora, mas o seu pronunciamento nos animou e impacientemente estávamos esperando a hora marcada.
Todos os caminhos estavam guardados e não deixavam recuar. Um dos companheiros do grupo que entrou no mato para procurar um local e satisfazer as suas necessidades pessoais, quase foi morto.
Lá pelas 9 horas chegaram 8 soldados armados. Eles vinham marchando em nossa direção e isso foi suficiente para a nossa coragem desabar. A multidão não esboçou sequer um movimento. Agora os soldados vinham em marche, marche, alto e se aferravam ao chão, apontando as armas em nossa direção. A multidão começou a esconder as armas e muitos já às jogavam no mato. Franklin, o nosso líder gritou: “Eu sou o líder, sou o líder, e por isto tenho de fugir para não ser preso”.
Eu tranquilo fiquei parado próximo de uma casa; mas dos outros poucos ficaram nos locais combinados. A maioria fugia pela capoeira estalando os galhos secos que pisavam. Alguns fugiam pelas cercas que quebravam e outros – simplesmente pela estrada, a cavalo correndo e galope somente parando depois de chegar a casa.
Imediatamente os soldados cercaram os remanescentes e os desarmaram. O canivete que eu portava – joguei fora. Depois cuidadosamente os soldados juntaram as armas espalhadas pelo chão. Eu pedi ao tenente para me dispensar por que não tinha vindo voluntariamente e, além disto, era o professor da comunidade. Também foram soltos outros entre eles Auras e seu filho.
As armas foram juntadas em um monte. Ali havia pistolas Mauser revolveres, espingardas e facões. Os presos foram levados para Orleans. Na casa do Paegle encontrei outros companheiros então resolvemos subir no morro para ver o que aconteceria com os outros grupos. Estavam chegando prisioneiros uns depois dos outros. Eles andavam vagarosamente de cabeça baixa e pareciam desolados. O primeiro grupo apanhou de palmatória e todos perderam suas armas. Assim ficamos observando até às 11 horas e nada mais acontecendo fomos embora para as nossas casas.
O tempo estava muito quente. Estava cansado e faminto, mas achei graça e ri pelo fato de homens tomarem atitudes tão irrefletidas e bobas.
Mas o que aconteceu com o segundo grupo? Entre eles se encontravam alguns letões. Sobre eles os soldados marcharam às 10 horas. O tenente convidou um representante para parlamentar, não havendo resposta gritaram “mãos ao alto” no que foram atendidos e desarmados em seguida. Muitos fugiram, entre eles o dirigente principal, o Galdino. Prenderam o João Ghisoni; mas deste segundo grupo, ninguém apanhou de palmatória.

A FESTA DA IGREJA EM 20 / III / 1923

Fui encarregado de dirigir os festejos. Alguns rapazes enfeitaram a sala da Congregação com folhas de palmito. O programa curto e só constituído por cantos corais.
Ao abrir os festejos eu lembrei o mandamento de Deus: “Tu deveras alegrar-te nas festas; tu e o teu filho, a tua filha, o teu servo, a tua serva, o teu levita, o teu agregado, o órfão, a viúva e todos que estão atrás do teu portão”. Frischenbruder falou sobre a mansidão que devemos aprender de Cristo. O Slengman falou sobre o Seminário Batista de Riga no seu primeiro ano de atividade. O Auras nos mostrou os frutos da nossa Igreja que cresceram em forma de missionários que foram trabalhar no campo Batista, oriundos do Rio Novo.

MAIO DE 1923

Um bom espaço de tempo já passou como se fosse nas asas do vento; desejo anotar alguns acontecimentos.

10 / V / 1923

Hoje é um dia de festividade que passamos num piquenique junto da verde natureza. Na parte da manhã apresentamos um programa nas dependências da Igreja. Os adolescentes, com muita coragem declamaram poesias, mas os jovens da classe Bíblica nada apresentaram. O Julinho se apavorou e ficou olhando para o espaço sem encarar o público e não conseguiu declamar. Depois fizemos brincadeiras e jogos de correr, como costumavam fazer os jovens Batistas nas horas de lazer e ficarmos conversando em grupo.

21 / V / 1923

Hoje é dia de Pentecostes que nós transformamos em festa de louvor através de cânticos. Isto está acontecendo pela primeira vez no Rio Novo em virtude do estímulo de João Zeeberg. Para esta apresentação preparamo-nos durante bastante tempo ensaiando.
Chegaram visitas de Nova Odessa – São Paulo – o Alexandre Arajuns e o Teodoro Klavim, que a mim também visitaram. De Mãe Luzia vieram Osvaldo Klava e o Alberto Books e estes encontros trouxeram felicidade para todos.
Eu tive a satisfação de dirigir o programa dos festejos. O coro da mocidade cantou 13 hinos; também ouvimos solos. Acompanhados do harmônio, dois violinos tocaram dueto de uma musica de Weber e outras composições. É pena que nós não tivéssemos tido a oportunidade de ouvir um artista “virtuose” para elevar ainda mais a apresentação destes números.

11 / VI / 1923

Despedi-me de Alexandre Arajums que está voltando para Nova Odessa cuja visita foi muito agradável e deixa saudades. Pelas suas mãos mandei cartas para a Lídia e o Eduardo. Mandei para o João Karklis 20$ para pagar vários livros que encomendei.
Na escola estamos fazendo uma recapitulação de todas as matérias para os exames de fim do mês.

16 / VI / 1923

Recebi uma carta do meu tio Balkit, dos EUA com a promessa de me ajudar na minha emigração para aquele país que em mim despertou sentimentos estranhos. “Será verdade que um dia vou morar naquele país rico”? para mim seria um acontecimento oportuno. Foram também convidadas a minha tia Paulina e a minha avó Ana, mas não sei se elas vão aceitar; mas para mim não quero outra coisa.


22 / VII / 1922
O FALECIMENTO DE ALBERTO GRIKIS

Esbelto, jovem, estatura elevada, um olhar expressivo e despreocupado, foi meu vizinho e se dedicava a lavoura. Ele já estava há bastante tempo sofrendo de uma moléstia crônica que deixou o seu rosto cinzento, mas agora apanhou influenza que apagou a vida dele. Antes de fechar os olhos para sempre, despedira-se de cada um individualmente expressando a esperança de um novo encontro no céu.
Hoje acompanhamo-lo para o local do descanso final. Frischenbruder falou palavras de consolação, mas todos os presentes verteram lágrimas de saudades por aquele que partiu.

A PREOCUPAÇÃO DO MEU PAI

Ele me escreveu que falou com o Escrivão público para ver se conseguia uma Certidão da minha idade, que seria elaborada como se eu tivesse nascido no Brasil e assim garantir o meu Passaporte para minha viagem para a América. Foi feliz nesta tentativa e a Certidão da Minha Idade e a minha carta onde eu expressava a minha vontade de viajar, ele mandara para o Balkit, ficando estabelecida à data de 26 de outubro, mas não tenho certeza de que vou conseguir me preparar até lá; se não – terei de viajar em 1924, por que nesta data parte o determinado navio da Companhia em que vou viajar.
A Mely Zelma também escreveu uma carta de São Paulo dizendo que está trabalhando na casa de patrões alemães, servindo à mesa. Ela goza muita liberdade e ganha 70$000 por mês.

O PEQUENO EUGENIO SALIT

Tudo parecia correr muito bem; toda manhã o Eduardo e Clara vinham para a Escola, sempre alegres e as suas presenças me traziam algo muito querido ansiosamente esperado. Mas hoje é sexta feira. O tempo está desagradável, mas assim mesmo a aula na Escola foi iniciada. Aguardo apreensivo a chegada deles, mas eles não vinham… e nada. Hoje acordei muito cedo, de noite havia sonhado com cavaleiros e depois que acordei não consegui mais dormir. Pensei, alguma coisa aconteceu a minha mãe… a ausência deles continua. Chega a cavalo o Oscar Karp. O rosto dele está fechado e ele diz sussurrando: “na família do Salit morreu o caçula”.
Um calafrio percorreu o meu corpo todo; ainda fiz algumas perguntas, então ele contou que, na véspera, o menino tivera muita saúde. Comecei a imaginar o que teria acontecido, então o Karp acrescentou que o menino havia jantado com muito apetite, mas de noite perdera o fôlego. Tentaram salvá-lo de toda maneira a despeito disto ficou sem fala, assim o Criador havia decidido de outra maneira. Ao raiar o dia o pequeno anjo partiu e os seus pais e irmãos ficaram chorando inconsolavelmente.
O Karp tinha vindo especialmente trazer um pedido dos pais para eu presidir a despedida nos funerais; eu entendi esta dor por que sentia tanto a morte dele como se fosse a de um irmão meu.
Como é cruel o destino, ainda no dia 29 de agosto à tarde nos festejos da colheita o Salit disse: “No próximo ano nós esperamos todo o bem, mas se Deus resolver ao contrário, seja feita a sua vontade”, enquanto o pequenino estava deitado no colo de sua mãe e de fato, Deus tinha outro plano para este pequeno garotinho.
Certa ocasião, numa visita que fiz na casa do Karp, observei a Clara carregando o pequeno menino. Em outra feita o pai dele o chamou de “soldadinho” e acrescentou que ele era um filho muito corajoso.
Durma sossegado o sono eterno, oh pequeno herói.

OS FUNERAIS NO DOMINGO

Sopra um vento frio. Escuras nuvens perambulam pelo céu. Nos elevados cumes da Serra do mar certamente está nevando. Estruturei a fala da despedida cujo tema foi a “fragilidade da vida”, enquanto pensava, o meu coração estava triste e as lágrimas desciam espontaneamente.
Às 3 horas da tarde, compareci na casa do Salit onde já estavam reunidas as pessoas da comunidade. Entro na sala e encontro o Salit em pé, encostado em um umbral da porta com a cabeça pendente apoiada nas mãos. Ele está pálido e chora. A mãe do menino amparada no meio de outras mulheres chora se lamentando em voz baixa.
Um caixãozinho branco está colocado no canto da sala e no seu interior dorme o pequeno Eugenio cuja alma já partiu deste mundo. As faces gordinhas, o rostinho redondo; as mãozinhas cruzadas sobre o peitinho, fortes e bem torneadas deixaram de brincar; os lábios ainda rosados; os olhinhos semicerrados; os cabelinhos dourados ainda cobrem a testa alva e resoluta.
Entramos em outra sala a Clara faz um ramo de rosas. Quanta fragilidade cerca a vida humana. O fotógrafo ainda retrata o pequeno viajante na sua despedida. Em seguida falo uma pequena despedida, enquanto todos choram solidários com os pais e irmãos, que com muito custo consentiram o cortejo fúnebre. O Salit caminhava debilitado e tão desesperado disse: “Tudo isto para nós foi como um sonho; todos nós éramos tão saudáveis e por isto ninguém esperava esta separação tão repentina… ele era tão querido correndo no nosso meio que a sua figura havia se tornado imprescindível”.
A mãe, a cavalo, acompanha a marcha e chora em voz alta. No cemitério depois de uma pequena cerimônia com mensagem de consolação e o cântico de vários hinos que fazem parte do ritual fúnebre dos Batistas que acreditam na imortalidade da alma, mais uma vez olhamos o que sobrou deste menino e cuja alma subiu ao céu como se fosse um anjo. No ato da última separação, os pais ainda seguram as mãozinhas inertes, enquanto os irmãos acariciam a testa num gesto de despedida, porque um crente não morre; ele parte primeiro para nos esperar no Céu, embora a dor da despedida seja cruel e ao som do hino “Adeus, Adeus”, deitamos a pequena urna no seio da terra. Pouco tempo depois sobre a sepultura havia um montinho sobre o qual colocamos flores.
Escurece, a noite vem chegando, o vento sussurra e o coração está tão triste, mas permanece a fé na esperança que algum dia, todo nós, estaremos juntos lá no alto.
E você estava tão linda… Os teus cabelos castanhos escuros cobriam a nuca. Dentro da sua vestimenta preta com uma gola branca, quanto, quanto você estava bonita. Tu és um anjo que veio do além que está andando aqui entre nós… tu não és uma mocinha… para mim tu és sagrada e o teu ser indescritível me arrebata com estes olhos tristes cheios de lágrimas – tudo isto impressionou os meus sentidos que também me faziam chorar.
Chegando em casa, depois do jantar, li o poema de Sanmartins “As primeiras saudades” e nesta hora estava desejando que a minha mãe estivesse aqui, pertinho de mim, assim eu contaria para ela toda esta minha frustração, com a minha testa quente encostada no seu peito e ela, solidária, me indicaria o remédio que me curasse.

11 DE AGOSTO DE 1923

Nunca dantes havia imaginado que os Rionevenses me tinham tanta dedicação; jamais uma tal prova de simpatia. Souberam a data do meu aniversário.
À tarde intercalei o estudo da literatura dos EUA com a leitura do poema de Longfelow intitulado “Evangeline”; poesia que retrata a vida com tanta beleza e depois, a sua rápida destruição que emocionou. Fui dormir cedo me lembrando que no dia seguinte teria de acordar mais cedo para corrigir os cadernos dos meus alunos. Deitado na cama na hora de conciliar o sono, meio sonhando soltei o pensamento, quando escuto passos lá fora. Tive a impressão que os bovinos do vizinho haviam rompido a cerca e agora teria de levantar-me para enxotá-los.
Mas de improviso, tão repentino como se fosse o estouro de uma “schrapnell”, foi interrompido o silêncio da noite com um ataque de uma Banda de Música tocando uma marcha e chegou aos meus ouvidos uma melodia arrebatadora. Eu acompanhava no meu pensamento cada nota e cada harmonia, desta música e absorvida por ela, continuava deitado cismando: “Tomara que eles continuassem a tocar em frente da minha janela para toda a eternidade”. Finalmente levantei porque o dever social assim me obrigou a vestir-me para receber os companheiros músicos e aqueles outros que os acompanharam.
Acendi a lâmpada de querosene, abro a porta e vou para o pátio onde muita gente está me esperando. Os músicos terminaram a Serenata e os alunos da minha escola foram os primeiros que vieram me cumprimentar, depois recebo o abraço de todos individualmente.
Trouxeram para me alegrar bolos, flores e outros presentes. Peço a todos que entrem na minha humilde casa.
Aceso o lume do fogão da cozinha para ferver a água e fazer o café. Os músicos tocam outra vez postados em torno da mesa, depois na melhor tradição Batista Leta formamos um grupo e começamos a cantar. Coado o café foi logo despejado em xícaras para degustado, animar as conversas. Encontrei com Elvira Stroberg, que sendo parente de Karp, veio de Varpa para uma visita. Fiz-lhe muitas perguntas sobre a Rússia onde ela estivera vivendo o tempo todo antes de vir para o Brasil. É uma senhora prudente e muito instruída.
Depois da meia noite a festa terminou e os meus amigos se despediram. Eu me senti enaltecido e muito agradecido a esta gente pelo trabalho que tiveram para demonstrar esta simpatia e o Julinho e eu, durante a semana inteira, tínhamos guloseimas para degustar.

O MEU IRMÃOZINHO

Desde o primeiro encontro que eu tive com o Julinho fiquei convencido de que ele andava doente; mas pensei que poderia ser o “mal da terra”. Ele tomou os remédios e não melhorou. Comíamos bem, fazíamos ginásticas, banhávamo-nos no rio e apesar disto continuava pálido, esquecido, doente, mirrado, franco. Então comecei a imaginar que ele era “onanista”, mas esta suposição eu escondi por que pensava: “mas se ele é inocente então isto vai alterar a sua personalidade”. Comecei insistindo sobre os maus hábitos; primeiro falei sobre a embriaguez alcoólica, depois, em outra ocasião, sobre a dependência do cigarro; mais tarde adverti sobre o uso de drogas – o ópio e os seus derivados e por fim disse que os meninos ainda podiam praticar um vício ainda mais terrível que era o “onanismo”. Perguntei: “você toca nos órgãos sexuais”? e ele respondeu “sim” e caiu no pranto. Com voz enérgica perguntei: “quem te ensinou esta anormalidade”? e ele respondeu “ninguém”. “Desde quando você adquiriu este vício”? resposta: “Desde a Linha Telegráfica”. Então ele prometeu que iria se corrigir. Ainda lhe falei que para deixar este mau comportamento, de uma só vez, ele deveria ter muita determinação e força de vontade para conseguir êxito. Expliquei as consequências desta prática e como ele deveria se comportar para vencer o vício.
Depois de algumas semanas o menino outra vez acordou com os olhos empapuçados e eu ralhei com ele. Novamente ele prometeu chorando que não iria incidir no erro. Para completar o esclarecimento resolvi falar tudo sobre o ciclo de procriação embora ele somente tivesse 7 anos de idade e principalmente sobre as relações sexuais entre o homem e a mulher.
Fiz tudo que estava no meu alcance para lhe mostrar as consequências terríveis do onanismo. O Julio então melhorou sensivelmente, ficou mais alegre e bem disposto, mas não passou muito tempo que ele novamente escorregou. Outra vez com firmeza falei com ele que ficou muito triste e confessou que havia praticado esta anormalidade 3 vezes. Como é difícil lutar contra os maus costumes?
O Julinho descrito neste parágrafo sou eu, o tradutor destas linhas, agora com 72 anos de idade e sou irmão caçula do diarista. O Emílio, igual ao meu pai Carlos, eram dominados por conclusões muito radicais e se cingiam ao aspecto unilateral das coisas. A verdadeira causa da minha fragilidade na infância apareceu em 1928 em Vara. Lá os Letões tinham o hábito de comer sementes de abóbora assadas no forno que depois descascavam e consumiam gulosamente. Também eu participei desta dieta e no dia seguinte, ao satisfazer as minhas necessidades fisiológicas eu senti como se os meus intestinos estivessem saindo. Ao me virar vejo um monte de uma fita branca, picotada. Ao chegar em casa contei o acontecido ao meu tio Abolim que era o farmacêutico do local e prestava os primeiros socorros aos Colonos de Varpa e ele me disse que se tratava de uma tênia, ou solitária, que era um verme que se alojava no intestino e poderia ter até 7 metros de comprimento e indagou se eu havia visto a cabeça, a única, que ele possuía. Ao responder que eu não sabia ele me tratou desta parasita como se ele ainda estivesse no seu habitat. Depois me deu fortificantes e fiquei totalmente curado. Não acredito que eu tivesse tocado em qualquer parte do meu corpo mais do que outro menino qualquer, mas para justificar a minha lerdeza foi achar uma causa imaginária.

EU VOU PARTIR

Partirei no momento em que todos estiverem dormindo e reinará o silencio da noite, quando as estrelas estiverem brilhando nos céus… e tu sonharás com elas, mas não comigo por que não saberás que estou partindo do Rio Novo. Não saberás que no meu pensamento levarei a imagem da tua beleza e que tu serás para mim o motivo de muita ansiedade e de milhares de lembranças. Tu não saberás que vou embora por tua causa e não terás percebido que o teu espírito gentil já envolveu o meu coração; não saberás que já inundaste a minha alma com a tua mais elevada simpatia – se eu morrer – não saberás por que nada te contarei, mas levarei comigo toda esta paixão.
Imediatamente não vou conseguir emigrar para os EUA; poderia ainda continuar aqui por mais algum tempo atendendo ao desejo desta coletividade; mas vou embora por que não consigo deixar de te amar. As esperanças que tenho são impossíveis de realizar e as terei de enterrar profundamente na sepultura do esquecimento. Esta situação também está prejudicando a minha saúde, por que não sinto o paladar do alimento, o meu sono é leve e interrupto e creio que já basta deste amor impossível. Vou partir quando tudo estiver em silêncio e a escuridão da noite cobrir os montes de Rio Novo, sem ter tido a coragem de te dizer que te amo.

História de Emílio Andermann – 7ª Parte

História de Emílio Andermann – 7ª Parte

História de Emílio Andermann 7ª Parte

M E M Ó R I A S
De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

“Leiam também neste mesmo Blog o artigo escrito por Julio Andermann que está em “Crônicas Históricas com o titulo de” Meu pai Karlos Anderman”

Nesta parte o escritor resolve voltar para o sul então viaja prá São Paulo e pega um trem até Rio Negro no Paraná. Com outro trem ele desce prá Bananal de onde quer visitar os familiares que estão em Linha Telegráfica. De São Francisco pega um vapor e viaja prá Florianópolis e depois prá Laguna. Toma o trem e vai prá Orleans onde em Rio Novo tem amizades e parentes. Em seguida vai prá Mãe Luzia para acertar detalhes das propriedades da família. Aceita ser professor na Escola anexa da Igreja Batista Leta de Rio Novo.

SEGUNDO CADERNO

NOVA ODESSA – SÃO PAULO

EM 13 DE DEZEMBRO DE 1921
A MINHA DESPEDIDA DE NOVA ODESSA

Quando os irmãos da Congregação Batista daquele lugar se despediram de mim, senti o quanto Nova Odessa havia crescido no meu conceito. Senti a dor da separação deste lugar como também da minha irmã Lídia, que também muitas vezes surpreendi chorando. Ela pouco falava comigo e assim eu tive a oportunidade de sentir o seu amor não fingido.
Ela me presenteou com 2 camisas e 4 lenços. No culto de despedida; contra a minha vontade eles coletaram 51$100. O Teófilo Peterlevitz também me deu 2 camisas como recompensa pelas aulas de violino que lhe ministrava as sexta feiras.
Fiz as minhas malas e esperava trazer todos os meus livros junto comigo na bagagem; mas acontece que tive de mandar 5 pacotes de livros pelo correio. Na véspera chegou muita gente e eu estava surpreso e ao mesmo tempo muito feliz por esta demonstração de carinho.
O pastor João Inke falou sobre o Evangelho de S. Mateus cap. 6, me aconselhando para não ficar agarrado aos bens materiais. Disse que a instrução também era um tesouro que deveria ser amealhado, mas que muitos haviam exagerado. “Onde está o vosso tesouro também estará vosso coração”. Que não se podia servir a dois senhores, mas primeiro almejar as bênçãos de Deus e a sua vontade, então todas as outras coisas seriam acrescidas.

PARTIDA DE NOVA ODESSA

Cedo de manhã fui conduzido no Trole do Karklis para a estação da estrada de ferro em Nova Odessa. Lá me esperavam reunidas muitas pessoas conhecidas das quais me despedi pesaroso. Através destes irmãos, Deus havia se mostrado muito benevolente para mim. Já dentro do comboio o meu amigo Eduardo e eu ficamos calados, certamente por que estávamos tristes.
Ao chegar a São Paulo, hospedamo-nos no Hotel Alemão, então a nossa mente parece ter reanimado; lá estavam hospedados muitos alemães que falavam sobre “faterland” e assim tive a oportunidade de observar o seu patriotismo inflamado.
Passeamos pela cidade onde não encontramos nada bonito, nada legítimo, nada natural. Ouvia-se falar o italiano, o alemão e outras línguas – será que isto representava amor pelo Brasil?
Visitamos uma exposição de pinturas um artista argentino Cezareu mostrava a sua obra. Entre os bonitos o mais lindo me pareceu um quadro intitulado “Espanhola”.
A noite frequentamos o Teatro Apolo no qual se apresentavam artistas italianos, cantando as suas melodias monótonas, num tempo patriótico e as mulheres eram muito bonitas; a orquestra bem que poderia ter tocado melhor.

EXPOSIÇÃO

No jardim da Luz visitamos uma exposição de trabalhos artísticos de alunos de uma escola profissional. Vimos em exibição mobílias artisticamente acabadas; tecidas, entalhadas, algumas douradas, torneadas ou envernizadas. Vendo este conjunto de arte e beleza tomamos conhecimento da obra de que são capazes de executar simples aprendizes especializados.
Na seção de arte visual admiramos muitos trabalhos esculpidos mas os dois quadros que mais atraíram a nossa atenção e do público foram “O Descobrimento do Brasil” e a “Fundação de São Paulo” por que eram cenas retratadas da nossa história.
Fiquei muito contente por causa desta oportunidade e no meu coração nasce uma esperança tímida: “a minha irmã Lídia também será pintora”. Não tenho dúvida que ela tem um grande potencial neste ramo de arte. Desejo-lhe muita perseverança para perseguir neste ideal.

PARTIDA DE SÃO PAULO

O trem de Sorocabana parte a 14.30. Comprei um bilhete de primeira classe por 66$600. Na partida o mesmo burburinho de sempre que acontece nas estações com muita gente se despedindo na plataforma. A minha viagem está se iniciando linda; a poltrona está macia e confortável e pela janela observo a redondeza enquanto passam casas depois de casas. Passamos por uma Fábrica de Vidros e o comboio corre célere pelos trilhos. Alcançamos planícies e depois alagados; locais onde não se vê nem campos nem plantações, a não ser olarias cujas chaminés altas se destacam aqui e acolá, mostrando o progresso e a inesgotável riqueza nacional.
Embora, na beira da estrada, a natureza modifique o seu aspecto, os trabalhos ligados ao cultivo pela mão do homem, cochilam ainda no seu estado selvagem, aparecendo de vez em quando alguma choupana. Agora a terra se torna acidentada e pedregosa. Passamos pela ponte sobre o Rio Tiete que modesto atravessa São Paulo, mas agora se avoluma.
Chegamos a São Roque que é uma cidade pequena e a terra ao seu redor até parece um deserto – até onde a vista alcança não se vê arbusto crescendo. O caminho de ferro saía de uma curva e entrava em outra atravessando escavações e aterros. Parece que o comboio corre cada vez mais veloz e assim chegamos a Sorocaba que dá a impressão de ser uma cidadezinha aconchegante edificada sobre uma planície cortada por um rio.
Em seguida passamos por mais duas estações e depois tomamos resolutos o rumo diretamente para o norte. Ainda não aparecem plantações e a luz do luar vemos campos abertos e locais que parecem charcos. Ao alvorecer do dia chegamos a Itararé e assim já saímos do Estado de São Paulo; estando a 434 quilômetros da sua capital. Esta cidade está situada no meio de belos campos e aqui e acolá pastam rebanhos bovinos ou então deitados em grupos ruminam o alimento já ingerido. Nas ravinas capões de arbustos entre os quais orgulhosos já crescem os pinheiros.

Avançamos para dentro do Estado do Paraná e a natureza aqui se torna cada vez mais linda. O terreno é ondulado e planícies que às vezes despencam numa parede de rocha quase vertical. A principal ocupação desta região é a pecuária e depois vem à extração de madeira.
Admiráveis amplos e belos campos que parecem artisticamente emoldurados por pinheirais. Pelas suas ravinas e grotas correm muitos rios e o ar é muito puro. Os habitantes desta região são robustos, corados e bem desenvolvidos.
Perto de Serrinha começou cair chuva. O trem corria rente à margem de um rio, às vezes no caminho cavado em paredões de rocha. Em lá chegando fizemos baldeação para outra linha cujo trem corria muito mais lento.
Ontem de noite chegamos em Rio Negro. Dormi em um hotel e hoje vou continuar a viagem para Bananal. A cidadezinha é modesta; as ruas não estão calçadas, mas isto destaca a beleza do Rio Iguaçu que tem uma correnteza considerável e outra vez estou atravessando a fronteira para Santa Catarina.

17-XII- 1921

Depois do Rio Negro na beira da estrada apenas vejo a Mata Virgem. Próximos das serras existem alguns moradores, mas as terras parecem fracas, as lavouras pouco desenvolvidas e as plantas raquíticas.
Agora entramos em declive e diante de nós se abre uma vista maravilhosa. Ao redor os picos das montanhas se elevam cada qual mais alto que o outro. A perder de vista lá em baixo os vales e as planícies.
Esta é uma vista deslumbrante que olhamos enquanto o trem sai de uma curva e entra em outra, quase voltando ao mesmo lugar por onde já havia passado mais lá em cima, mas minuto depois de minuto estamos descendo para a planície.
Estes montes majestosos cobertos de florestas – elevam o coração – induzem a centenas de reflexões; quanto já estou chegando perto do local onde estão os meus pais e os meus irmãos e o povo letão, os quais eu amo tanto.
Às 7 horas da manhã o trem chega à estação de Bananal onde encontro um ambiente estranho por que todos falam em alemão. Parece que também me consideram patrício e é pena que não fale o idioma embora ouvindo entenda bastante. Dormi em um hotel onde me falaram que Zute havia viajado e me apanharia no dia seguinte para levar ao encontro de Kalnin. Está nublado, mas não chove; tomara que amanhã faça um dia bonito.

EM 18-XXX-1921 – EM RIO BRANCO

Fiquei preocupado por falta de condução. Encontrei um polonês, carreteiro, que estava viajando para aquele lado e assim fiquei sossegado. Como me parecia estranho este local que era uma planície cercada por montanhas arredondadas por todos os lados cobertas de florestas. Entre os montes, extensões de terra plana que são aproveitadas para a agricultura; por que são terras fáceis de irrigar, são usadas para plantar arroz.
O Rio Itapucu que tem a sua vertente no alto da serra é tão volumoso quanto é o Orleans. O ar é úmido e abafado, mas de algum lugar vem aroma de flores, em contraste com São Paulo onde o ar é seco.
Fui à igreja Batista e como era domingo, antes da Escola Dominical, havia um ensaio para as crianças recitarem poesias. Elas declamam, mas sem a acentuação certa e sem vida. Tornei-me conhecido de várias pessoas. O Rodolfo Loks, um jovem simpático, prometeu levar-me e acompanhar até a Linha Telegráfica.

Quem presidia o culto era o jovem Janauskis no idioma português. Ele falou sobre o renascimento. Encontrei os filhos do Graudin – o Valdo, forte igual a um Hércules, robusto. Junto com outros jovens combinamos escalar o monte Jaraguá, antes do Natal.

19 / XII / 1921

Hoje está caindo chuva. A neblina se levanta dos picos de montanha, sobre para os céus, condensa e cai novamente para a terra. O íntimo do meu coração também está coberto de nuvens que chovem lágrimas. O meu caminho está obscurecido pela penumbra e eu não sei para onde ele vai. De vez em quando eu paro no caminho da minha vida e pergunto: “Onde está a verdade”? “Onde está a plenitude”? depois, então, embora fatigado continue a procurar num último esforço e penso nos meus pais e irmãos – em que caminho do destino eu os encontrarei. Cansado eu choro enquanto persigo a plenitude; não sei por que o meu coração é tão mole.

O meu futuro é igual a uma noite escura; não sei onde e quando vai fulgurar para mim a primeira estrela e uma nova esperança, mas MEU CRIADOR ELE SABE.
Combinei com o Rodolfo Looks que iríamos para a Linha Telegráfica logo depois do Natal e vou aproveitar estes dias para procurar um dentista em Joinvile. Cedinho tomei o trem na estação de Bananal para Joinvile que corria veloz para o seu destino através de terrenos encharcados cobertas de uma vegetação própria.
Joinvile é uma cidade alemã, Lá se veem várias fábricas, um grande comércio e um cais fluvial na beira do Rio São Francisco aonde chegam embarcações ligando a cidade ao porto. Ela não me agradou. Encontrei um hotel de segunda classe o “Vogelzander” cuja diária custa 3$500. Hargnat o dentista me prometeu tratar os meus dentes em 3 dias pelo preço de 50$000.
Nestes dias aproveitei para ler o Novo Testamento e algumas daquelas inflamadas poesias de Rainis. O calor estava insuportável à vida parece que vai fugir pelos poros junto com o suor. Ontem de noite fui ao cinema cuja exibição foi muito fraca. O filme em si agradava, mas a música de fundo tocada por um conjunto abaritonado de instrumentos de sopro não acompanhava as intenções de alegria e tristeza do enredo.
Um conjunto musical tão fraco envergonha uma cidade como esta. Aqui não há Universidade, nem Bibliotecas muito menos Livrarias, mas o comércio é muito ativo para satisfazer os agricultores que aqui vem vender a sua produção e comprar mantimentos. As ruas são largas, compridas e cruzando-se formam quarteirões regulares. Na margem de cada rua há uma vala cheia de água preta estagnada. Não há água potável encanada.
O nível do mar aqui é muito baixo e por isto o solo é plano e a atmosfera quente e abafada. Clima não deve ser saudável.

23 / XII / 1921

Hoje terminou o meu tratamento dentário e imediatamente tratei de voltar para Rio Branco por que já havia visto tudo nesta cidade que é considerada a segunda maior depois de Florianópolis.

25 / XII / 1921

Logo de manhã na Igreja Batista Leta reuniram-se os irmãos e as crianças. Encontrei um tal Trimer, que se auto-intitulou de profeta; mas pela sua inflamada maledicência dos Batistas entendi que a sua inspiração vem do espírito das trevas. Ele não admite a leitura de nenhum outro livro que não seja a Bíblia que ele conhece quase de cor e de onde escolhe os argumentos que lhe são convenientes. O seu jovem filho também esta mergulhado neste estado de escuridão. Deste homem que se desviou da verdade eu tomei o exemplo de que não se deve procurar nas Escrituras apenas aquelas partes que possam ser aproveitadas para a finalidade do obscurantismo.
O culto matinal foi dirigido pelo Frederico Janauskis que falou sobre o grande amor de Cristo demonstrado ao se deixar humilhar, aceitando a condição humana. Depois do culto os jovens tiveram a sua hora de “música e literatura” na qual eles se mostram muito diligentes. Pelo que eu percebi todos eles estão escrevendo poesias, mas infelizmente muitas desprovidas de qualquer nexo. Para começar eles não conhecem nem a “rima” nem a métrica e não observam a pureza da linguagem. Compõe sobre qualquer assunto, como ”chuva”, “domingo de manhã“ e embora estivesse ouvindo tudo atentamente, não encontrei entre eles nenhum talento; mas vale a intenção de tentar fazer alguma coisa. Creio que está lhes faltando uma boa orientação de um mestre e uma crítica sadia. O Blumit que é o incentivador desta iniciativa, elogia qualquer mediocridade para agradar.
À noite a festa Jubilosa das crianças à luz das velinhas de uma frondosa árvore de Natal. As crianças corajosamente recitaram as poesias que haviam ensaiado de manhã.
O Líder da Escola Dominical, o velho Janauskis falou com muito entusiasmo e incitava os pais a apoiarem esta iniciativa educativa.
No dia seguinte a Mocidade apresentou a sua “Hora da Bíblia”. O tema escolhido foi sobre as mansões celestes e cada um dos jovens lia um trecho da Bíblia alusivo a este tema tão absorvente que é o céu.

Almocei na casa do Rodolfo Luka e depois fomos visitar a família Graudin que tem muitos filhos, alguns deles já crescidos. Conheci o Valdo, Mirdza, Austra, Ritu e o pequeno Ceroni. De fato, esta é uma família respeitável morando numa grande mansão. O Graudim me contou sobre os motivos da separação dos Pentecostalistas do Rio Branco e da Linha Telegráfica. Conclui que ele estava mais certo nesta divergência principalmente nesta questão de “fila” e “roda” para aquelas celebrações ritualistas e os excessos que ele não aceitava. A Ida profetizava que o tempo do arrependimento havia se esgotado neste Natal – mas para o Graudim foi revelado que o tempo continuava aberto para a salvação, embora estivesse se esgotando lentamente.

JARAGUÁ

O tempo clareou completamente. Já na semana passada nós havíamos falado sobre a escalada da montanha de Jaraguá, mas naquela ocasião haviam nuvens e chovia. Ontem de noite ao me despedir de Rodolfo Looks e o Valdo voltei a falar naquela aventura e no mesmo momento resolvemos subir aquela montanha. Iniciamos a escalada às 6 horas da manhã, subindo para o cume. A nossa vista ansiosamente procurava alguma trilha e o nosso desejo era alcançar aquela altura rapidamente. Subíamos alegres. Às 9 horas já havíamos alcançado o cume – portanto a escalada durou 3 horas. A crista estava limpa e apropriada para fazermos o nosso desjejum e neste lugar tão alto esquecemos vitoriosos a nossa fadiga. Depois perscrutamos o horizonte: – para o Oeste, o maciço da Serra do Mar que se elevava abruptamente como se fosse uma parede negra e separa a planície do planalto. Então me lembrei de Nova Odessa da minha irmã Lídia que tão pesarosa de mim se despediu e dos outros amigos que lá deixei; para o norte – Jacuassú; mais adiante – Maçaranduba e mais longe ainda as ondulações da linha Telegráfica onde mora a minha família e que espero encontrar amanhã; Bananal e Rio Branco se localizam no Leste e continuando na mesma direção – majestoso o mar. Que lindo panorama onde se localizam charcos, rios, planícies e é pena que não se possa ver as cidades mais distantes por que o ar está saturado. Ao descer Valdo rasgou a roupa e Rodolfo pisou numa cobra. Em baixo estávamos exaustos, mas realizados por que havíamos alcançado o nosso objetivo.

A LINHA TELEGRÁFICA

Aconselharam-me para eu convidar o Ricardo Looks para condutor e guia quando eu fosse para a Linha Telegráfica. Agora estou verificando que esta recomendação estava certa quando hoje, ao meio dia, ele veio para me acompanhar, no lugar combinado, ponto de partida para aquele destino.
O tempo continuava muito quente, a estrada estava cheia de buracos e de curvas fechadas,. Nós conversamos acerca de algumas situações que poderiam surgir quando nós chegarmos lá. Olho em volta e vejo que a terra aqui é plana e muito boa em todo o percurso até a Linha Telegráfica com lavouras de milho bem cuidadas. À noite chegamos à casa do velho Silmanis. Foi uma viagem que durou 6 horas e aquele homem nos recebeu com muita amabilidade. Jantamos rapidamente na intenção de ainda hoje irmos na casa do Strauss, ao encontro da minha querida família.
O Silmanis contou que o meu tio Rodolfo Andermann e a Ida Strauss, como também João Karklis e a minha tia Lídia Andermann, de carroça foram ao povoado para legalizar o seu casamento civil. Por este motivo uma mulher do grupo dos fanáticos teria caído no pranto. Terminado o jantar apanhamos uma lanterna de querosene e iniciamos a caminhada na direção da casa que abrigava àquela coletividade Pentecostalista, entre os quais se encontrava a minha família. Imaginava que este iria ser um encontro histórico.
As estrelas no céu estavam fulgurantes e davam esperança ao meu coração que aguardava pacientemente. Ao nos aproximarmos da casa vimos aceso o fogo, mas em torno tudo estava escuro e silencioso, apenas um cachorro latia de vez em quando. Ouvindo e olhando atentamente concluímos: “hoje não fizeram a reunião”. Com a lanterna na mão, combinamos fazer uma aproximação direta a casa onde certamente os meus estão dormindo. A luz tênue da lanterna passamos pelo estábulo – lá dentro várias vacas bem tratadas. Depois um monte de lenha e a seguir o portão de cerca do jardim que estava muito bem trancado, mas conseguimos pular por cima.

E agora, que felicidade: olho através da janela aberta e vejo o rosto amável da minha mãezinha que aparece na penumbra branca como o mármore. Ela pergunta: ”quem está lá fora”, eu respondo: “o seu filho Emilio; antes de voltar para a casa em Mãe Luzia, resolvi passar por aqui para falar sobre a nossa colônia abandonada”. Então ela continua a me perguntar: “Onde você está hospedado”? respondo: “ nós estamos na casa dos Silmanis, onde deixamos a carroça e os cavalos”. Então ela continua animada: “Vamos entrar, vamos entrar quero te olhar dos pés até a cabeça; quem é este teu companheiro”? Novamente respondo: “É o Rodolfo Looks que me conduziu até aqui”.
A minha tia Paulina e a minha irmã Mely Zelma observando pela janela e sorrindo. Então atiçaram o lume de lenha que havia no centro do aposento, enquanto nós íamos em direção da porta da entrada, atendendo ao convite de minha mãe. Em mim acendeu aquela alegria de filho que depois de muito tempo encontra a mãe então feliz e confiante acelero o passo; mas que desventura – tem outra vez início aquele espetáculo de doidos – todos eles começam a gritar, rosnar, urrar e a soprar através das ventas aquele zorro característico de pessoas perturbadas de faculdades mentais. Desisto em continuar em direção da porta. Olho pela janela na sala agora iluminada pela fogueira e vejo homens e mulheres pulando e rodopiando o corpo numa dança apavorante.
Nós ficamos petrificados e imóveis. “E agora”? Berrando eles deixam a roda e em fila estão avançando em direção da porta por onde minha mãe nos convidou a entrar. O meu tio Rodolfo agarrou um tição de lenha aceso e ameaçadoramente estava vindo em nossa direção e; naquele mesmo instante um outro homem saltou do sótão do celeiro do outro lado do quintal enquanto a fila dançante já ia saindo pela porta.
Tomados de pânico corremos em direção do portão trancado; por que o tio Rodolfo, possesso de raiva, investiu contra o portão fechado com o tição e tanto bateu que quebrado ele caiu no chão deixando a saída aberta para nos enxotar. Agora eles já estavam chegando de todos os lados e a fuga estava se tornando difícil. Eu estava confuso – tudo estava escuro e o local era desconhecido. A lanterna de querosene na mão do meu companheiro estava mostrando o lugar onde nos encontrávamos, então gritei: “joga esta lanterna no mato”, onde a querosene se espalhou e começou a queimar enquanto nós fugíamos agora protegidos pela escuridão. Isto freou o ímpeto deles por que tiveram que parar para apagar o fogo que se alastrava; assim nós conseguimos chegar perto de um valo. Agora invisíveis no escuro paramos para observar. A minha irmã Mely Zelma clamava aos brados: “Jesus venha logo, Jesus venha logo nos levar”. Outros nos chamavam de traidores. Depois vitoriosos eles batiam palmas e feita a roda pulavam ali mesmo no descampado.; mas algum patrulheiro nos descobriu, deu o aviso, e lá vêm eles correndo outra vez. Um homem enorme vinha se esgueirando atrás do estábulo para nos cercar; outros vinham correndo através do pasto, todos eles gritando com todas as forças. Então vimos que aquela gente estava levando a coisa a sério e tomados de pavor saímos correndo estrada fora em desabalada carreira enquanto aqueles fanáticos nos perseguiam.
Já bem distante daquele campo de batalha paramos ofegantes com o coração batendo acelerado. Desconfiados ainda olhamos naquela direção para ver se sorrateiramente alguém ainda não está nos acompanhando – ainda poderíamos ser cercados.
Certos de que a refrega tinha passado, devagar seguimos em retirada e só agora descubro que havia perdido o sapato, então solto os cordões do outro e jogo no mato e continuo descalço. O Rodolfo Looks então me contou um certo detalhe que não havia percebido; que a Mina chamara “Zelma levanta-te” e logo em seguida eles iniciaram aquela dança.
Chegamos à conclusão que ir naquele local representava perigo, mas eu não tinha outra saída e amanhã, a luz do dia, íamos tentar uma outra aproximação.
É muito difícil eu aceitar o fato de que os mais nobre sentimentos da minha mãe estão sendo cercados por aquela gente insana. “MEU DEUS, DÊ-ME A OPORTUNIDADE DE VÊ-LOS NEM QUE SEJA PELA ÚLTIMA VEZ” (às 11 horas da noite).
Quando acordei o sol estava sorrindo. Lavei-me na água tépida e fiquei reanimado e o espírito esta alerta. Na hora do café o velho Silman prometeu me acompanhar na nova visita que iríamos fazer junto com o Rodolfo Looks. A dizer a verdade eu me senti amedrontado, mas a companhia dele me animou.
Durante a caminhada o velho “tio” conta à morte do meu avô Ans e o seu sepultamento. Eles levaram o ataúde ao cemitério, largaram o morto e depois fugiram. Os poucos que ficaram não demonstraram qualquer interesse na cerimônia da despedida. Então, o velho Silmanis, levantou-se e fez uma oração a Deus, mas os fanáticos nada disseram talvez com receio de se contaminarem com a imundície do cadáver. Continuo dizendo das coisas erradas que eles fizeram seguindo a orientação daquelas línguas, profecias e visões. Eles quase mataram o João Straus de pancada por que ele queria dormir com a esposa, que então abandonou o grupo, se hospedou na casa do Silman onde dorme dia e noite como um doido sem qualquer vontade de viver.
Voltamos a casa do Strauss. A Mely Zelma está na varanda e ao ser interpelada por mim, nada responde, mas começa a se agitar. Eu solicito que me deixem, pelo menos, a falar com a minha mãe. Chegaram vários fanáticos na varanda que começaram a pular, mas por um golpe de sorte, eis que a minha mãe vem do estábulo e tremendo muito me diz: “Diga logo o que você precisa por que não posso demorar em conversa contigo”. Eu lhe revelei o problema do Burigo na troca daquelas terras e pedi uma procuração. Numa voz sobrenatural ela bradava: “Jesus breve virá, Jesus breve virá e a nossa separação será eterna”, você pode ficar com tudo. Nós não vamos precisar de mais nada. Você acerta com o Ronsano”. Depois ela se lembrou das escrituras e foi para dentro de casa. Percebo que devagar estão avançando ameaçadoramente a Matilde e a Mely Zelma. Ao me virar encontro a minha avó Ana e vejo que o seu rosto está tomado de rugas. Mirei profundamente nos seus olhos e pergunto: “Vovó, você encontrou a felicidade junto desta gente”? E, ela dá uma única resposta: “O meu coração treme”; enquanto o velho Strauss vem para cima de mim gritando: “O que você quer mais, já ;e tudo teu – vá, vá”. Eu recuei mas o velho Silmanis permaneceu firme. Então eu percebo que a minha mãe detêm o velho Straus que estava falando aquelas línguas dizendo: “Calma, calma – eu tenho de atendê-lo, eu tenho de atende-lo”; mas a profeta da um soco nas suas costas e empurra: “então vá junto com ele para longe daqui”. A minha mãe então desiste. O velho Silmanis que veio comigo está sentado e eu caio na sua frente de joelhos; ele me aconselhou a não ter medo e esperasse.
Olho de novo para o quintal, o meu irmãozinho Julinho com 5 anos de idade, vem, me olha, e foge amedrontado. O Alexandre, que apareceu de repente, vem para mim e numa voz gutural desnaturada que não era a dele me diz: “Vai embora, vai embora, o que você quer mais – o que você veio procurar aqui ontem de noite”. Fiquei firme enquanto o Silmanis, que tinha mais experiência em tratar com eles, rebateu a agressão, dizendo: “Calma, calma, ele já vai embora. Ele veio a negócios e você não pode enxotá-los”.
Então todos foram pedir conselho ao espírito. Enquanto uns louvavam, outros diziam; “serpentes, serpentes, traidores”. Brevemente a minha mãe vem trazendo as escrituras e me diz que eu posso fazer com as terras o que eu bem quiser”.
Em voz alta então eu disse; “Até outro dia”. O Silmanis ainda estendeu a mão num gesto de despedida ma não foi correspondido. Devagar estávamos nos retirando em direção a casa meditando sobre todas estas coisas, mas lá adiante, às escondidas, a Mina nos estava esperando na beirada do milharal. Ela tinha vindo para nos cumprimentar e em conversa se defendeu do seu envolvimento com argumentos fracos e às vezes até concordava comigo. Ela é uma mulher forte e saudável e o seu juízo não foi envenenado.
Entramos na casa do Eduardo Silmanis, um participante moderado do grupo que considero meu irmão na fé muito amável e para atraí-lo ao nosso lado lhe falei do João Inke e do avivamento espiritual havido na Letônia, na intenção de que ele resolvesse a procurar a verdade. Prometeu escrever para mim dando notícias dos meus. Depois contou os comentários daqueles fanáticos a nosso respeito dizendo que éramos dissidentes, traidores e perseguidores e que o diálogo somente era prometido com estranhos a negócios. Que o João Inke era considerado um pregador enganador que arrastava todos para o caminho da perdição. Vimos também o Augusto Silman que largou o grupo, viajou para Porto União e se tornara ateu.
Leio no Jornal Batista “Avots” à descrição do abandono e a saída do pastorado de meu pai da Igreja de Rio Novo. Lá servira durante 5 anos na Igreja Batista Leta. Dois anos antes de deixar o cargo começara a ler os panfletos pentecostalistas e que escrevera no jornal “Draugs” uma carta de conteúdo duvidoso. Então a Igreja de Rio Novo exigiu uma explicação melhor; ele manteve o seu ponto de vista e foi exonerado do cargo.
Consentiram que ele continuasse a morar na casa pastoral até a colheita, por que também tinha plantações; mas em fevereiro, obedecendo a uma revelação, ele tratou de mudar-se para Mãe Luzia em 1910.
Voltamos da Linha Telegráfica e eu fiquei hospedado na casa do Rodolfo Looks. De manhã fomos capinar a plantação de arroz que estava plantando em lugar baixo e úmido, em carreiras umas não muito longe umas das outras. Foi um trabalho fácil e agradável. As enxadas daqui são as mesmas. O sol quente e o ar abafado fazem as culturas crescerem viçosas. Ao voltarmos para o almoço, trocamos ideias sobre a arte. Vejo que o meu amigo está muito interessado na poesia embora eu perceba que na prática os resultados são muito modestos por causa do pouco conhecimento desta arte. Ele nunca frequentou uma escola, tudo que sabe aprendeu por si só. Que Deus abençoe este esforço. Depois do meio dia fomos para Jacuassu. Logo ao chegar na planície vimos à velha Colônia de Geni Peterlevitz e também as terras de Arajums e mais longe, a propriedade de Gerto. Esta planície do Jacu-assu é muito linda ainda mais por que é atravessada pelo rio. A terra aqui é muito fértil e eu fiquei admirado pela exuberância do milharal aqui plantado. O Barke está iniciando a sua vida aqui, mas ele é jovem e muito diligente e em breve estará bem de vida. Também falamos deste movimento de espiritualidade; ele é contra estes exageros e se mostra muito sensato. Fomos até a choupana de Carlos Janauskis, mas não encontramos o dono em casa.
Na poesia o Rodolfo Looks exprime o seu coração amargurado:
“Terei de viajar muito”?
Para chegar a Pátria?
Vagar perdido no mundo?
“Longe da felicidade”.
E ainda outro verso
“Por que estás triste,
meu coração e suspiras?
Por causa daquelas chagas
Que não te permitem sorrir”?
Esperando o novo ano a mocidade apresentou um culto com um programa artístico. Embora a assistência não estivesse muito grande, os que compareceram assistiram a um programa agradável. Por que o povo daqui a aprecia, recitaram muitas poesias. Foi pena que a leitura se processasse em voz baixa e monótona sem acentuar, dar ênfase aos versos; mas Deus há de aceitar este esforço que foi feito de todo o coração. Com orações inflamadas pedindo as bênçãos de Deus, recebemos a entrada deste novo ano. Pergunto: “O que ele trará para mim”? – como de costume não será outra coisa que a luta – mas Deus há de me dar forças para vencê-la.

SALVE 01 / I / 1922

O primeiro dia do ano caiu num domingo e será iniciado com um culto a Deus na Igreja Batista. Eu me sinto bem no meio destes irmãos, destes patrícios amáveis. Repito o pedido a Deus já feito na véspera. Peço a Deus que me dê forças e coragem para vencer neste próximo ano, estudar e meditar para alcançar a plenitude. Faço também dele forças para poder arrastar muitos outros a fim de alcançar este objetivo. Depois do culto fui à casa do Blumit e procurei aprofundar-me nos trabalhos literários desta mocidade.

02 / I / 1922

Pernoitei na casa do Blumit. Encontrei profundidade nas opiniões do meu anfitrião nas opiniões manifestadas e as suas definições são simples sobre aquilo que ele estudou no que escreveram os profetas. A sua filosofia contém muito pensamento original. Amanhã, se Deus quiser, vou viajar para São Francisco. Não quero me demorar mais aqui.
“Até a outra vista Rio Branco”!

03 / I / 1922

Cedinho de manhã o Kalnim me levou para a estação férrea. A minha despedida não foi difícil nem triste, por que a esperança me aquece o coração e me diz: “Vá em frente”!
Chegando em São Francisco, me hospedei num Hotel Alemão cuja diária era de 6$000 por dia. Recebi a noticia de que hoje zarparia um navio costeiro e esperava que nele pudesse viajar; mas não foi possível por que o seu próximo porto será o Rio Grande. Então terei de esperar o “Max” que vai chegar no dia 7 ou 8. Agora estou preocupado por que hoje gastei para pagar o hotel 32$000. Vou partir amanhã e a passagem de vapor custará 18$000 até Florianópolis; lá terei de esperar mais 2 dias e não sei o preço do bilhete para a Laguna e de lá ainda falta a passagem da estrada de ferro. Terei bastante dinheiro? Terei de vender o relógio e a canta? Esta viagem não me deu nenhum prazer; ao contrário, entrei numa situação difícil e por isto estou muito aborrecido.

11 / I / 1922

O vaporzinho “Max” somente zarpou no dia 9, nele viajaram muitos passageiros. Na terceira classe gente de todos os níveis sociais, muitos quase animalizados. Entre eles alguns soldados e policiais fardados. A linguagem deles é grosseira. É uma amostra que na nossa terra ainda não há instrução generalizada. Andando na rua todos se confundem e a gente não nota a diferença.; mas aqui eles dão expansão a sua índole e se comportam como sub-humanos. A população do Brasil ainda não encontrou a sua base intelectual na instrução. Aqui na terceira classe estamos alojados como se fossemos animais. Não existe abrigo da chuva e do vento e não há lugar para dormir. A comida é grosseira. Eu lamento ter de enfrentar uma situação precária destas por falta de dinheiro. A pobreza é a maldição do homem ela transforma homens em fera, mas há uma vantagem; esta viagem vai temperar as minhas forças e cimentará a minha natureza de “menino adolescente” em homem.
Passamos a noite em Itajaí que é uma cidade linda. Subi numa montanha onde está situado o marco da fundação da cidade em 1820. Alegrou os meus olhos a bonita vista para a cidade, o rio e o mar.
De noite os passageiros da terceira classe dormem no chão do convés, se arrastam para dentro dos barcos salva vidas ou em qualquer canto. No dia 10 outra vez viajamos no mar. O navio balançou muito e muitos passageiros “alimentaram os peixes”. O primeiro dia de viagem também houve enjoo; mas hoje não há lugar limpo no convés. Às 13 horas chegamos em Florianópolis onde seremos obrigados permanecer alguns dias.
Durante a viagem conheci um companheiro o José Antonio, que fora ao Paraná para trabalhar e gastar dinheiro e agora está voltando para Laguna. Descobri que ele era de Orleans; então lhe contei a minha história da falta de dinheiro. Ele me prometeu emprestar algum, embora tivesse apenas 50$000 e cumpriu a promessa. Considero isto um milagre igual a outros que já me tem acontecido, quando o destino me abre a porta. Mas esta graça agradeço ao Criador.
Durante a viagem o vento levou o meu chapéu, que foi presente da Geni, e jogou no mar. Fui à cidade e comprei um outro igual ao perdido por 8$000 por que estava um pouco empoeirado por ficar longo tempo na vitrine.

13 / I / 1922

Às 6 horas da manhã o vapor “Max” entrou no porto de Laguna. As 7.30 tomamos o trem para Orleans, aonde chegamos às 11 horas. Deixei as minhas malas no Grüntal, tomei emprestado do Feldman 25$000 e paguei o dinheiro que havia tomado emprestado. Cheguei animado e com saúde. Nesta viagem nada me faltou, mas também, nada me sobrou e por isto eu agradeço a Deus, meu Criador de todo o coração.
A pé fui caminhando para o Rio Novo. O ar estava fresco, em volta tudo agradável e a natureza cheia de vida parece que respira. Cheguei à casa do Paegle e depois fui à casa do Klavim, ambos me receberam com alegria. Encontrei a Zelma Klavim que tem um espírito vivo. Ela tem uma natureza alegre, é diligente e penso que isto a conduzirá ao alvo. Por fim na casa dos meus primos Karklis onde fui bem recebido e me senti como se estivesse em casa.

15 / I / 1922

A natureza do Rio Novo me agrada muito embora a sua gente não desperte tanto interesse. Hoje fomos à reunião na Igreja Batista. A estrada estava coberta de lama por causa da chuva dos últimos dias. O Culto foi dirigido por Artur Leiman falou sobre “Esta encobre tudo” demonstrando que o amor de Deus tem encoberto muita falha. A sua fala é muito simples, mas eu acredito que depois de alguns anos de prática ele falará com muito mais profundidade; terá mais experiência – por que hoje ele apenas é um estudante. De noite houve uma reunião de orações e a Zelma Klavim convidou-me para visitá-la na terça-feira.
Do Alfredo Burmeister tomei emprestado um pistão e aqui eu transcrevo a escala cromática na clave de sol, numerando as teclas que tem de ser apertadas (de cima para baixo), para que modelando o som com os lábios se consiga os tons correspondentes. Não aplaudo a música de sopro dos metais. É um timbre de carrasco porque para conseguir o som o músico tem de soprar com muita força e isto prejudica os delicados órgãos da respiração. Por que não usar outros instrumentos mais delicados. A música de cordas, para o meu gosto, é muito mais bonita.

18 / I / 1922

A minha tia Lavize Karklis, falou-me a respeito dos antepassados da minha mãe. Este assunto me interessou muito e por causa disto quero anotar tudo.
Os Kanzberg imigraram para a Letônia da Alemanha. O meu bisavô chamava-se de Frederico. Ele trabalhara na Fazenda “Vocmoaka” como feitor. Depois fora ser guardador de floresta, quando os ladrões de madeira o agrediram com tanta violência que o deixaram quase morto. Depois de muito tempo recuperou a saúde parcialmente, mas não tinha mais condições para exercer o cargo antigo. Então foi lhe atribuída à função de ”guarda das plantações” mais fácil e mais mal remunerado de forma que o que ele ganhava não era suficiente para manter uma família de 12 filhos. Para resolver o problema ele simplesmente enxotou todos para fora de casa; entre eles também estivera o meu digno avô materno. Certamente por causa da insuficiente alimentação quase todos morreram. Ficaram apenas o meu avô Ernesto, o Ans e a Maria. Depois faleceu também o Ans.
Ernesto Kanzberg, meu avô materno, nascera em 1827. Aos 7 anos de idade foi empregado como pastor de porcos. Ele passara muita fome, mas uma certa Margarida, às escondidas dos patrões, lhe dava alguma coisa para comer. Quando ele já ficará maior e com mais forças para trabalhar ele fora morar com um tio, irmão de sua mãe chamado Dobele.
Depois de crescido, ele teve de servir na Fazenda Slipa em Kurzeme onde também era serva a Maria Michelson que, mais tarde, o Ernesto escolhera para esposa. O casamento realizou-se em 1856 (ele estava com 29 anos). Quando fora extinto a servidão na Rússia em 1860, ele ganhou a liberdade e comprou uma casa em Sloaka.
Neste período o Ernesto vivera uma vida exemplar. Ainda não bebia. Aprendeu a ler sozinho e assim conheceu muita coisa dos livros. Ele frequentemente cantara os hinos do velho Stender e para suprir um imprevisto, até dirigira cultos de oração.
Os primeiros filhos faleceram, mas em 20 de abril de 1863 nascera a Lavize (agora Karkle), a narradora. Quando ela completara 5 anos a sua mãe falecera deixando o Henrique com 9 dias de vida, isto em 1868. Este infortúnio trouxe muitos sofrimentos para a família e por causa disto o Ernesto começara a beber.
Depois ele travara conhecimento com a Lavize Adelof, que fora dona de botequim e que muito se amaram a ponto de se casarem. O Ernesto sempre se embebedara, mas a sua esposa o tratara com muito amor e muita paciência, sempre suspirando e dizendo: “Senhor, perdoa-lhe este pecado”.
Sete anos depois deste casamento nascera em 10 de fevereiro de 1875, a minha querida mãe Emilia. Quando isto aconteceu houvera muita maledicência – de que ele era a filha de um tal Balod; mas a história contada por minha mãe vai narrada em outra parte.

22 / I / 1922

Junto com o Filipe Karklis fomos para a Igreja. Participamos da Escola Dominical na classe de adultos. O Culto foi dirigido pelo Butler. Sempre apreciei muitos os seus sermões; da sua fala surgem pensamentos profundos, que são acentuados, e elevados pela sua cultura. Ele falou sobre o Ev. S. João cap. 3:13-21. À tarde passei na casa de Kátia Klavim, tocamos o harmônio enquanto a Alida cantava um solo. Conversei com algumas senhoras que lá estavam e foi uma tarde agradável. Choveu até o entardecer. À noite fui escalado para dirigir um programa de apresentação artística. Houve solos de instrumentos, o coro da Mocidade cantou e recitaram algumas poesias. Amanhã de manhã o Butler vai cavalgar para Mãe Luzia e é pena que eu não possa ver o seu companheiro de viagem.

28 / I / 1922

Anda estou em Rio Novo. Choveu a semana inteira e agora é que o tempo está clareando. A questão da Escola ainda não foi resolvida. O meu primo Karlos Karklis ofereceu-me o posto de professor em Laranjeiras; eu gostei desta proposta e prometi examinar o local, onde fomos juntos. A sala de aulas é muito bonita. Seria uma Igreja, mas já foram colocadas carteiras de escola. Nos dias de aula o altar pode ser separado por uma cortina. Há esperança de se conseguir 15 alunos e assim viria uma subvenção da prefeitura. Leciono de manhã e a tarde poderei trabalhar no moinho do Carlos e ainda me sobrará muito tempo para o estudo. Se tudo correr bem espero iniciar as aulas em março, o próximo mês pretendo passar em Mãe Luzia para acertar os problemas com a colônia de meu pai e depois pretendo retornar para o Rio Novo.

29 / I / 1922

Amanhã vou arrepiar o caminho para Mãe Luzia. A Kátia Klavim vai me emprestar um cavalo. Vou deixar quase toda a minha bagagem aqui por que não pretendo demorar; quero voltar para trabalhar e estudar aqui. O meu primo Karlos vai me acompanhar para Orleans onde nós vamos falar com o governo municipal sobre aquele assunto da escola de Laranjeiras. Antes de te ver eu já te saúdo, Mãe Luzia, minha terra natal.

31 / I / 1922

Com o cavalo emprestado, hoje estou viajando para Mãe Luzia. Foi difícil atravessar o Rio Orleans. O rio Palmeiras atravessei a nado junto com o cavalo em pêlo; antes havia carregado a sela por cima de uma pinguela. Foi um belo banho. Em Urussunga peguei chuva. Observo o lugar e verifico que aqui não houve progresso e por isto me alegro, pois a natureza ainda está livre, o ar puro com matas ainda intactas.
Tarde de noite cheguei ao meu destino na casa dos meus tios. Eu gosto muito de estar aqui. Os livros que mandei de Nova Odessa, chegaram, menos o livro de estudo do latim.
05 / II / 1922

Junto com o tio Zigismundo fomos a uma reunião Batista. São poucos os irmãos, mas a animação é grande; todos eles velhos amigos meus, conhecidos, amáveis, é por isto que me sinto atraído por este lugar. O meu tio convidou-me para ficar aqui na casa dele, que isto seria melhor para mim e se eu quiser iniciar uma escola, esta também pode funcionar neste lugar.

07 / II / 1922

Não vou instalar uma escola em Laranjeiras. O primo Karlos veio insistir, mas eu recusei esta oferta de lugar de professor. Já vendi duas vaquinhas por 275$000 e devo ficar por aqui, se não mais, para tratar do rebanho.

09 / II / 1922
A CASA PATERNA

Enquanto para cá viajava, imaginei que o seu reencontro me causaria tristeza; mas depois que aqui cheguei e percorri a propriedade, então me senti mais confortado. A casa está bem conservada, o pasto está razoavelmente limpo. Temos 9 bovinos crescidos quatro bezerros desmamados e mais alguns pequenos. Entre eles 5 vacas leiteiras estão pastando.
A Catarina Ronzano não conseguiu cuidar de tudo sozinha por que o seu marido não para em casa, pois gosta de um bom trago; os filhos deles ainda estão pequenos e por causa deles ela é obrigada a trabalhar além das suas forças. Na outra Colônia mora a família Pinheiro e de tudo o que eles cultivam eu receberei um terço. Gostaria que depois da colheita, ele desocupasse aquela casa para a Catarina morar com a família por que esta aqui eu gostaria usar como escola. Também o Burigo está cultivando uma parte da terra por 1/3.
Tratei um homem para limpar o pasto todo por 40$000.

11 / II / 1922

Ontem depois do almoço atravessei o rio e fui visitar a tia Lina e o tio João. Eles receberam uma carta de Nova Odessa na qual o Augusto Peluz escreve que a minha irmã Lídia, no dia 29 de janeiro, se tornara membro da Igreja Batista de lá, e que deixou de freqüentar a escola. Isto para mim foi como se eu tivesse levado um tapa no rosto por que eu sempre esperei que ela continuasse a estudar, mas agora vejo que ela resolveu desistir. Cada qual se deita como arruma a cama.
Além disto ela ficou noiva do Gustavo Karklis em 29 de janeiro. Desejo-lhes muitas felicidades, mas fico admirado por que ela resolveu adoçar a vida deste homem doente; que ainda poderá se tornar a sua amargura – mas pensarei que tudo vai correr bem.


19 / II / 1922
PERMANECEREI EM MÃE LUZIA

Ontem de noite retornei de Rio Novo, onde eu havia ido buscar a minha bagagem. A viagem foi penosa por que o cavalo que o Alberto Books me emprestou andava devagar e acabou ficando manco, mas, finalmente, estou no meu lugar. Permanecerei aqui o resto do ano. Ainda não estou certo se vou tomar aulas com J. K. Frischenbruder, ou então iniciarei a escola para a qual aqui não vejo muito ambiente.


28 / II / 1922

Este mês passou muito depressa. Durante este tempo estou morando aqui e aproveitando bem cada minuto. O meu programa diário foi o seguinte: – logo que me levanto de manhã vou ao rio tomar banho; depois do café eu trabalho 2 horas; o tempo que sobra até o meio dia eu gasto estudando matemática e geografia; depois do meio dia vou à casa do tio João tocar harmônio; quando volto então estudo línguas incluindo o português; depois toco violino. À noite faço o que mais me agrada – agora estou escrevendo estas notas.
Depois de vários dias de chuva tivemos enchente.

12 / III / 1922

Choveu torrencialmente durante 15 dias. O vento frio do sul traz nuvens, soprando com muita força. Então o rio Mãe Luzia transbordou e quanto isto acontece cessam as comunicações até com os vizinhos e todos se aborrecem.
Hoje brilha o sol, o tempo está lindo, a atmosfera limpa e transparente como se fosse cristal. A enorme Serra do mar, à distância, parece estar sonhando depois de tantos dias de choro; agora projeta a sua parede escura que parece uma sombra misteriosa em cima da admirável riqueza verde da mata Atlântica. Como são lindas as árvores vestidas com as folhas que brilham ao sol abanadas pela brisa.
O rio que corre murmurando, pelo seu leito sombreado pelas grandes arvores que cobrem as suas margens, parece contar a história desde a sua nascente, do percurso, das grandes cachoeiras, das corredeiras e dos poços silenciosos e dos grandes montes, que ficaram para traz, e dos quais parece se despedir, pressurosa indo ao seu destino no mar.
O sol despeja o seu ouro inesgotável sobre a natureza, com tanta beleza e tudo beija, tudo afaga amoroso com os seus raios. Exulto de alegria ao assistir este espetáculo apresentado, livremente, por esta natureza exuberante.
Cada vez, mais dentro de mim, aumenta a convicção de que o destino do homem é louvar a obra da Criação; este espetáculo maravilhoso, que passaria despercebido se Deus não tivesse nos colocado como platéia para aplaudi-la e esta descoberta me deixa mais feliz, do que já estive em Mãe Luzia, por ser tão linda que parece o palco deste teatro.

19 / III / 1922

Neste período de chuva, os moradores deste lugar, sofreram muitos prejuízos. Também a represa do moinho do tio Zigismundo sofreu danos. Aconselhei que ele colocasse troncos de palmeira no local onde a água cai do açude, para amortecer a força da água na queda. Ele concorda, Carlos teve entupido o canal de acesso de terra e agora quer vendê-lo por 900$000.
No sábado tive a primeira das aulas que me custarão 1$000 cada uma. Vou estudar Francês, Letão, Álgebra e Geometria. Ficou combinado que a aula seria ministrada duas vezes na semana; as quartas-feiras depois do meio dia e nos sábados à noite. Esta é uma grande oportunidade que se abre para mim por que o professor vai lapidar os meus conhecimentos e dará uma base para assimilar estas matérias que eu conheço apenas superficialmente.
Recebi 2 cartas de Nova Odessa, uma do meu amigo Eduardo Karklis e a outra da Ester. Eles escreveram acerca de um tremor de terra que foi lá percebido. Contaram que o João Inke está trabalhando lá como pastor e insiste para que os membros da Igreja Batista acordem e recebam o Espírito Santo, mas alguns irmãos de Nova Odessa estão muito duvidosos a este respeito.

31 /III / 1922

Hoje foi o último dia deste mês. Estou aqui na casa do tio Zigismundo há quase dois meses. Estou indo bem nos estudos. Já tomei quatro aulas.
Fui à venda do Burigo onde comprei duas calças por 19$500. Lembrei-lhe o seu débito para conosco, mas ele me respondeu que pagaria quando quisesse por que as promissórias não estão em meu poder. Não tenho dinheiro para saldar a minha dívida em Nova Odessa e este fato me preocupa, haja paciência. Estou pensando muito analisando vários assuntos, mas ainda sou um ignorante – o homem é um grande pesquisador, mas pouco conhecedor. Estou me tornando um livre pensador.

13 / IV / 1922

Desde há vários dias estou trabalhando na recuperação da estrada e na cerca que dela separa o pasto. Contratei um homem para me ajudar por 2$500 por dia. A cerca estava caindo e na estrada tive de melhorar o aterro de 2 pontas enquanto a Catarina roçou as beiradas da estrada. Agora temos uma nova lei que obriga o proprietário a consertar a estrada pública que passa pela sua colônia e nós ficamos prejudicamos por que a extensão é de um quilometro.
O estudo vai fácil. O professor é talentoso – ele sabe ensinar, mas perdi uma aula por causa da chuva.


01 / V / 1922

No mês passado faltei à aula por 4 vezes por causa da chuva que inunda o rio tornando-o intransponível mesmo de canoa e o professor mora na outra margem. É o vento sul que costuma soprar no outono trazendo as nuvens e a chuva.
A Lídia mandou-me uma breve carta e parece que estava aborrecida quando disse: “A felicidade não se encontra em lugar algum”. Ela ainda não recebeu a carta que mandei. Para tia Lina ela escreve que ela não voltará para Mãe Luzia, mas pretende ficar lá mesmo em Nova Odessa. Disse que o Gustavo Karklis está reformando aquela casa onde funcionou a escola, que pretende casar no inverno. Atualmente ela esta morando na casa do Augusto Peluj. Saiu da escola o que na minha opinião é um erro, mas, assim mesmo, desejo que ela seja muito feliz.
Esta é a época melhor da minha vida que é cheia de felicidade, livre e valorosa. Vivo para alcançar um objetivo que me fascina desde a tenra idade que é a aquisição de conhecimento através do estudo. A divisão do meu horário durante o dia é ainda o mesmo que já descrevi uma vez.
Aos domingos vou para a reunião da Igreja Batista e a cada terceira semana eu sou encarregado de dirigir o culto.
Um dentista itinerante o Dr. Scaravasso instalou o seu gabinete dentário na casa do rio Zigismundo – ele é um grande amante da música.

13 / V / 1922

Hoje se comemora aquele dia famoso quando em 1888 os escravos alcançaram a liberdade no Brasil. Outra vez a tia Lina recebeu notícias de Nova Odessa – a Lídia vai casar no dia 20 deste mês. O meu amigo Rodolfo Looks de Rio Branco, também me escreveu.
Vou tentar arrendar estas terras inexploradas do meu pai por 400$000 por ano. O dentista tratou dos meus dentes por 30$000 fez uma coroa e uma obturação.
Um dia espero viajar para a Letônia a terra em que nasci, em cujo benefício desejo trabalhar – a terra onde quero viver e morrer. Quero realizar este desejo na primavera do próximo ano. O Gibeot, de nova Odessa, viajou recentemente.

20 / V / 1922

Este é um dia histórico, por que hoje casa a minha irmã Lídia e também por um outro acontecimento menor, Alberto Books festeja 24 anos. Não sinto vontade de escrever, vou ouvir a voz do meu coração. Desejo as mais doces alegrias para a minha irmã – que para mim é a única de toda esta minha família.

01 / VI / 1922

Outra vez transcorreu um mês. Esta minha luta para estudar, aprender acelera o tempo. A matéria mais difícil, para mim, é a álgebra e depois vem o francês por causa da pronúncia. De Nova Odessa recebi uma carta de Eduardo Karklis e a outra da Ester. O primeiro se mostra muito espiritual por que espiritualidade lá está tomando a força toda; agora vão ter reuniões de orações, 3 vezes por semana, das 12 as 16 lideradas por João Inke.
Convidaram-me para ser professor lá em Rio Novo e eu pedi um honorário de 60$000 por mês pago adiantado. Quem sabe se não serei chamado para lá cumprir esta nobre missão. Como estudante vou indo bem por que assimilo as matérias, mas estou me tornando um tanto sonhador.
Hoje recebi a resposta a minha proposta que fiz para ocupar o cargo de professor em Rio Novo, que é a seguinte:
1) Quero ganhar 720$000 por ano;
2) Receber mensalmente e adiantado;
3) No caso de quebra de contrato, um aviso prévio de 3 meses;
4) O horário das aulas não será maior de 4 horas diárias;
5) Feriados patrióticos e religiosos para descanso.
Eles aceitaram a minha proposta e assim, no fim do mês, vou partir para assumir uma nova vida em uma nova ocupação. Lamento ter de deixar o meu professor, as minhas aulas e os meus amigos, mas espero que tudo seja dirigido pelos desígnios do meu Criador.
Não consegui arrendar aquelas terras como falei; o Italiano quer pagar apenas 100$000 por ano. Se os meus pais me mandarem uma procuração, vou vende-la, já mandei uma carta com esta proposta para eles e a Lídia.

20 / VI / 1922

No dia 17 chegaram a cavalo, de Rio Novo, os meus companheiros Roberto Kreeplim oriundo de Nova Odessa e Alexandre Klavim. Eu havia regressado da aula tarde de noite quando eles já estavam dormindo. Havia pensado neles e eis que agora estão aqui. Isto me surpreendeu agradavelmente e me proporcionou muita alegria. No domingo, todos, fomos assistir ao Culto, na segunda feira passeamos e amanhã eles já vão embora.
A minha ida para o Rio Novo ainda não está segura; vou mandar mais uma carta e esperar a resposta na semana que vem. Através do Roberto que é de Nova Odessa desejo encomendar livros e músicas.

01 / VII / 1922

Já estou em Rio Novo na casa da Kátia Klavim. No dia 27 do mês passado cheguei a cavalo e assim ainda encontrei Roberto. Junto com o João Salit estivemos em Orleans tratando, junto aos homens do Governo, a licença para o funcionamento da Escola. O Superintendente gostou da idéia e prometeu me submeter a uma prova, um exame de capacidade profissional. Já na segunda feira vou iniciar as aulas. Pela pensão e a roupa lavada vou pagar 33$000 por mês.
Em Mãe Luzia vendi:
• O gado por 590$000
• Gastei em Mãe Luzia 70$000
• Mandei para Nova Odessa para pagar aulas 170$000
• Comprei “Obras Classificadas” 100$000
• Comprei um casaco 46$000
• Despesas da viagem 10$000
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• Sobrou 200$000

CONTINUA