Já faz bastante tempo que não tenho recebido nenhuma carta…| De Reynaldo Purim para Lucia Purim – 1926 –

[ Trecho de um rascunho de carta datilografada do Tio Reynaldo para a tia Lúcia]

Rio de Janeiro, 16 de abril de 1926
Saudações.
Já faz bastante tempo que não tenho recebido nenhuma carta de casa. Espero todos os dias e não posso entender porque isso está acontecendo. A última carta sua foi escrita no dia 3 de fevereiro e eu recebi no dia 25 do mesmo mês e dai em diante está sendo uma espera sem fim. De boa vontade gostaria de saber o motivo desta longa interrupção. Não sei se as cartas que eu mando ou as que vocês mandam também não chegam.

Hoje está chovendo, portanto não posso sair, então por isso estou escrevendo esta mesmo sem ter recebido nada. Vocês receberam os remédios que eu enviei no dia 5 de março? Se não me escrevam para que eu possa procurar no Correio, pois, eu estou com o recibo em mãos. No dia 15 de março escrevi e mandei uma carta e no dia 25 um grande pacote de jornais. Vocês receberam? Os jornais foram registrados e se não receberam, vou perguntar o motivo no Correio.

Como estão todos em casa? Todos estão com saúde? Como vão os trabalhos na lavoura? O que este ano estão plantando? Como está o tempo por lá? Aqui tem sido quente e seco e nem parece o mês de abril. Ontem a noite começou a chover e ainda hoje está chovendo o dia inteiro. De modo geral não há nada de novo para ser escrito. A escola está novamente cheia de alunos grandes e pequenos. A grande maioria eu não os conheço. Também não tenho tempo para isso. Cada um vai para o seu lado e ninguém tem tempo para se interessar por outras pessoas.

A minha Igreja aqui vai relativamente bem. Recentemente tivemos reuniões evangelísticas, as quais foram dirigidas pelo ex padre Hyppolito de Olliveira Campos. Tinha muita gente. O Hippolito é uma pessoa de certa idade, mais de 70 anos ou talvez beirando os 80, mas ainda é um grande orador. Ele não poupa os católicos e suas atividades e para ele é muito fácil, pois durante 26 anos ele foi sacerdote católico. O povo gostou muito em ouvi-lo. Uma grande parte deste prometeu deixar o catolicismo e se converter. Agora estes são visitados e muitos assistem os trabalhos regularmente os trabalhos da Igreja. O trabalho é muito em visitar todos estes. Quase todos os dias eu tenho ido fazer estas visitas. Este é o meu trabalho e minha vida. Ainda dirigir os cultos aos domingo e as noites nos dias de semana, então o tempo passa sem a gente perceber.

Quanto a mim tudo está suficientemente bem. Estou com saúde ainda que às vezes muito cansado. Isto até é natural enfrentado tanto trabalho. Por isso eu não reclamo, pois tudo isso eu faço com alegria. Tenho oportunidade de encontrar as mais diversas pessoas, católicos, espíritas e até sabatistas. Ainda os chamados Estudantes da Bíblia ou Russelitas, cada um com os seus erros e um mais vil [No sentido de distorcer os ensinamentos da Bíblia ] que o outro, então você deve entender como é difícil, com cada qual se relacionar. [falta o final]

Primeiramente os nossos votos de um Feliz Ano Novo …| De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1925 –

Ano de 1925

Rodeio do Assucar 3-1-25

Querido Reini! Saudações!

Primeiramente os nossos votos de um Feliz Ano Novo e também muitas felicidades pelo seu aniversário, então pensei que precisava mandar um cartão de felicitações, mas depois refleti e cheguei a conclusão que você sendo um homem tão importante, o que iria fazer com um cartão. Também nos nossos aniversários e dias dos nomes que você nem lembrar, lembra.

A tua carta escrita, melhor datilografada no dia 8 de dezembro recebi na semana anterior as Festas do Natal. Obrigada! Desta vez você foi muito caprichoso e escreveu em seguida. Aqui não dá para responder tão rápido, pois tenho que esperar acumular as notícias para então poder te escrever. Pensava que depois de ter passado todas as Festas teria muita coisa para escrever.

Mas se você se lembrar, foi igual ao Natal do ano passado. A diferença foi que no primeiro dia da Festa [O primeiro dia era sempre o dia 25 de dezembro] depois do meio dia deu um forte temporal de chuva e um pouco de granizo. Mas à tardinha passou e podemos ir para ver o pinheirinho, somente a estrada estava muito mole. [A chuva tornava o barro vermelho mole e pegajoso] Apesar disso tinha muita gente. A festa foi dirigida pelo Strobergs. As crianças [O Natal era uma Festa dirigida pelo pessoal da Escola Dominical e a própria Escola Dominical era considerada uma escola para crianças] apresentaram poesias, hinos e Representações e tudo transcorreu muito bem.

Na Noite do Ano Velho [Noite de Vigília] foi uma noite de apresentações sob responsabilidade dos Jovens e a espera pelo Novo Ano. Já na manhã do Ano Novo houve uma Festa de Missões e esta também foi muito bonita e também tinha muita gente. O tempo estava bom e seco e quente. Muitas poesias, hinos pelo coro e também muitos quartetos e a prédica do Karkle como acontece todo ano. É provável que sobre as Festas a Luzija já tenha escrito mais amiúde, para tanto não vale a pena. No Dia da Estrela [Dia dos Magos – 6 de janeiro] a Escola dominical está organizando um piquenique na casa dos Klavim.

A Selma da Kate [ Selma Klavin ] chegou de viagem[ do Rio de Janeiro ] totalmente abatida e cansada de tanto estudar, nas outras vezes era alegre e extrovertida e agora já não sabe mais ser assim. Eu pensava mesmo que ela fosse a frente em alguma ocasião e pedisse a palavra para contar algo de lá, mas até agora não aconteceu.

Por que vocês não nunca autorizam o João Klava a sair para vir para casa? Eu faz tempo que ouvia dizer que ele viria, mas até agora nada. Ele não pôde vir porquê, porquê ele é o diretor da Escola, ou substituto dele e por isso não pode viajar e ainda no começo de dezembro teve que fazer um curso especial de aperfeiçoamento e assim este ano teve que ficar.

A Sylvia Karklim e o Waldi chegaram de São Paulo de passeio aqui.

No Domingo passado recebi uma pequena carta da Lilija.[Lilija Purens]Eu tinha escrito para ela reclamando por que ela não me escreve e perguntando se eles ficaram orgulhosos morando na nova fazenda então ela respondeu que não tinha recebido as cartas minhas cartas anteriores e nada mais atrapalhou a escrita senão a preguiça e ninguém deles não escreveu para ninguém. Diz que o tempo estava muito seco, mas agora já está chovendo. Também de você eles receberam uma carta e a qual ainda não responderam.

Aqui as chuvas tem sido ainda poucas, Antes das Festas, ai sim chovia, mas desde aqueles dias tem estado muito quente e um vento seco que resseca tudo. Ontem à noite sim, roncou trovoada e formaram-se muitas nuvens, mas logo tudo se desvaneceu. Hoje amanheceu limpo e no meio dia estava marcando 40 graus C. no sol. Pela impressão que as lavouras nos dão são desanimadoras. As roças estão completamente estorricadas e não sei como vai ser com o pão de cada dia. Nós temos a nossa reserva, então com o pão realmente não nos preocupa, mas muitos não tem. Muitos colheram pouco e porquê o preço estava muito bom venderam tudo e agora a fome. Tudo está caro e às vezes nem tem para comprar. Os Letos não tem problema de passar fome, mas os Brasileiros e os Italianos não tem o que comer então andando pelas estradas e roubando. Se alguém tem feijão ou batatas em roças a beira de estradas, elas desaparecem. Trabalhar eles não querem, se não pagarem 3$ por dia e mais a comida, então eles dizem que é melhor morrer de fome, do que fazer os letos ainda mais ricos.

A Arthur diz que se você escrever então ai ele também vai escrever. Ele teria o que escrever a semana inteira. No mês passado foram tantos os acontecimentos que você não poderia imaginar.

Lembranças da Olga.