…eu sei que estou gastando querosene e este está muito caro… De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1924 –

Rio Novo 27 de agosto

Querido irmão! Saudações!!
Hoje à noite eu fui a Igreja onde recebi a tua carta escrita no dia 14 de agosto e por ela muito obrigada. Eu faz tempo que estava aguardando e agora que eu recebi tantas novas notícias, por isso também vou começar a responder e pode ser que amanhã à noite eu termine, pois estou com muita coisa na cabeça para te escrever, apesar de que agora é tarde e eu não esteja atrapalhando ninguém eu sei que estou gastando querosene e este é muito caro e por isso não posso fazer tudo o que quero.

Nós graças ao bom Deus estamos passando bem. Somente está muito frio e seco. Na semana passada estava um pouco mais quente e ficou nublado, pensei que era a chuva que estivesse chegando, mas caíram algumas gotas esparsas e agora está novamente tudo seco e todas as manhãs amanhece branco de geada, apesar de estarmos no final de agosto ainda não esquentou nada. Agora na roça já começamos a plantar milho e já plantamos mais de uma quarta [de alqueire] de semente, também já plantamos mandioca e tudo está capinado, a terra limpa pronta para se plantada só aguardando a chuva. O açúcar também já fizemos e este ano deu muito pouco porque as canas este ano não cresceram e ainda estas mesmas os bichos comeram demais. [Cachorros do mato e graxains é que comiam a cana de açúcar]

Você pergunta como as coisas vão de um modo geral. A revolução ainda não chegou ainda aqui e quem sabe nem seja necessária a revolução chegar aqui porque no dia 29 de agosto às 8 horas da noite foi morto com um tiro o homem da Justiça, [Delegado da Polícia] Jonvili Nunes, [Jovelino ou Juvenil Nunes.] O famoso delegado era irmão do Evaristo. [Intendente ou prefeito nomeado pelo Interventor ou governador do Estado] Este homem que morreu era uma pessoa terrível, quando encontrava uma pessoa que não era do seu gosto, ele colocava na cadeia e fazia com eles o que queria, Uma vez na casa dele foi colocada uma bomba, não muito tempo atrás na Brusque, lá perto da atafona do Rudolfo Maisim [Na parte mais baixa do Morro da Coxia Seca (Coxilia Seca) A atafona do Maisin era movida por uma roda d’água, aproveitando o desnível de uma queda d’água do Rio Molha. A estrada da Brusque passava por dentro d’água, na parte cima da cascata e a água corria por cima de lajes de pedra. Eu quando era pequeno tinha medo que o carro de bois, pudesse despencar abismo abaixo.] Ele foi emboscado e levou um tiro, mas daquele ele sarou. A mulher dele até na última manhã tinha dito que seria mais prudente eles irem embora daí. Ele teria respondido dizendo quem vai poder fazer alguma coisa para mim. E a noite na frente da venda do Luiz Verane Cascaes, bem na porta, no meio de muitas pessoas foi atingido por um tiro e ninguém sabe quem foi quem atirou. [Existem diversos autores da história de Orleans que mencionam as prováveis pessoas que teriam praticado o crime.]

Então agora diversas pessoas daqui do Rio Novo foram embora para São Paulo. No Domingo dia 17, foi à noite da despedida, mas na realidade eles saíram no dia 21 deixando o Rio Novo e as pessoas ainda dizem não saber se eles conseguirão chegar lá porque até agora não tem chegado notícia nenhuma de lá. Outras pessoas diziam que a revolução tinha terminado e o caminho estava livre. Outras recomendavam a eles para não saírem nestas condições. Até o Cascaes não queria liberar o Salvo Conduto. Quando eles chegaram em Laguna todo mundo ficou admirado que como esta gente vai viajar para São Paulo, num período tão convulsionado. A viagem deles está mais complicada porque eles estão levando toda a mudança junto. São mobílias, louças, roupas enfim tudo que era móvel foi levado junto. Dizem que gastaram 4 dúzias de tábuas para fazer as embalagens, isso porque segundo eles, existe a promessa do Governo de São Paulo reembolsar todas despesas das passagens e das bagagens. Vamos ver se isso realmente vai acontecer. Existem pessoas que dizem que Nova Odessa está cheia dos ex-acampados de Varpa e segundo o “Der Compass”, os revolucionários já chegaram em Campinas e daí já estão perto de lá. Não sei como está o povo de Nova Odessa porque nem os nossos parentes de lá não tem escrito.

Você quer saber como foi a nossa Festa das Crianças, o tempo aquele dia estava chuvoso e frio. Gente não tinha muito devido às condições do tempo. A Festa começou logo depois da Escola Dominical e foram apresentadas poesias, hinos e tudo transcorreram muito bem, só faltou o sermão, O Stroberg falou novamente sobre os tijolos, mas isto nada me comoveu e nem lembro direito o que ele falou.
A Festa da Colheita [Ação de Graças] o tempo estava bom, somente muito frio mesmo, pela manhã tinha dado uma grande geada. O programa estava rico e variado com hinos, poesias, o coro da Igreja cantou e houve diversos quartetos. E sermões e prédicas eu não consegui contar quantas pessoas falaram. Só sei que o grande Karkles falou duas vezes, pode ser que ele tenha falado porque ele é grande e assim é mais que os outros. Depois o café com leite e o famoso pão doce e quando terminou já eram 11 horas.

A Escola Dominical está indo, muito bem. Quem dirige é o Stroberg. A direção dele é melhor que a do Zeeberg. Eu também vou as sextas feiras na Reunião da preparação dos professores e lá tem muito que aprender. Aqueles professores que sabem melhor o brasileiro traduzem as lições das Revistas e depois estudam os melhores meios de apresentar a lição às crianças e o que deverá ser apresentado aos maiores. Finamente o Stroberg faz um resumo apresentando as suas idéias e sobre isso eu teria muito o que escrever, mas deixa isto para outra vez.

O Victor Staviarski ainda continua na Escola? Ele ainda mora lá? Na semana passada encontrei a mãe dele e ela perguntou se você não tinha escrito alguma coisa sobre ele o Victor, porquê eles nenhuma notícia tem recebido dele e não sabem se ele concluiu o curso ou não e se ele está no Rio ou já viajou.

Quando o Victor fez a festa do noivado, você foi convidado para participar desta honra? Dizem que ele está noivo com a filha mais velha do Soren [Francisco Fulgencio Sorem – Por longos anos Pastor da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro e mais – Na realidade este moço casou com uma jovem do Sudoeste do Paraná.].

A Kate que fica contando isso por aqui e se é verdade não sei e ainda nem tudo que a Kate conta tem procedência

Você nos tem mandado o “Kristiga Balss”. [“A Voz do Cristão”] Não precisa mais mandar porquê quando por ocasião quando fiz uma encomenda de livros lá de Riga, eu encomendei esta também e as revistas tem chegado regularmente.
Agradeço pelo papel azul ele vai nos servir muito. [papel carbono] Podes mandar mais algum.
A União de Mocidade resolveu em sessão que este ano também vai comemorar o seu aniversário no dia 16 de Outubro, então com bastante tempo de antecedência estou convidando para prestigiar a nossa Festa.

Bem agora chega de escrever, os demais aqui de casa não querem escrever, eles ficaram com muita preguiça, que não é possível dizer para ela escrever e a Olga ainda não respondeu a tua carta.

Se eu tiver tempo eu logo vou escrever novamente.
Bem hoje chega. Ainda muito amáveis lembranças de todos os de casa e também minhas. Lucy.
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…está bem, o que ninguém esperava que voltasse a sarar… | de Olga Purim para Reynaldo Purim – 1922

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Rio Novo 15 de março de 1922

Querido Reini – Saudações

Faz já bastante tempo que não temos recebido nenhuma carta. A última eu recebi no dia 6 de fevereiro e depois daquela nenhuma mais. Assim não tenho respostas de 2 cartas. Uma mandei no dia 10 de fevereiro e a outra foi dentro do pacote que a Selma Klavim levou no dia 19 de fevereiro.

Você conseguirá encontrá-la e receber esta encomenda. Também não sei se a Selma já chegou lá no destino.

Bem desta vez não tenho muito que escrever. O tempo continua chuvoso e agora as estradas estão tão destruídas como nunca e os rios tão cheios que como o Rio Novo lá no que a gente passa quando vai a Orleans a água cobre a barriga dos cavalos.

As ervas daninhas nas lavouras também crescem bem. Tormentas nas nossas roças não tivemos, mas tem muita gente que reclama delas. Difícil está para as pessoas que tem que secar o milho para moer e fazer a farinha para comer. O milho está demorando a madurar e sol tem brilhado muito pouco. Todos falam que estas chuvas estão em toda parte este ano.

Então este ano você vai ter muitos colegas letos no Colégio. Pois até aqui do Rio Novo vai o Schanis Sprogis tem escrito contando vantagem que já tinha chegado ao Colégio e assim pode ser que tenham vindo letos de outras partes. Assim me escreva contando como você está passando bem. Se tem muitos colegas novos. Se o João Klava e o Linkites ainda estão lá. Qual é o relacionamento entre os outros descendentes dos letos. Eles ainda sabem falar o leto?

Sobre o Rio Novo nada de novo. Os pastores todos foram embora.

O Willis [Leiman] faz tempo já foi embora e sobre isso eu já escrevi.

O Arthur [Leiman], a Lucija com os meninos e mais a Vitorija Ochs viajaram dia 21 de fevereiro. A Vitorija foi junto com a irmã Lucija. O Arthurs também foi para o Rio Grande visitar o Willis [Leiman] e daí de trem até o Fritz [Leiman] em Corrientes de daí para Buenos Airi e agora todos devem estar no seu devido lugar.

O Karlos [Leiman] e o Fritz não vieram para cá. O Fritz não vem mais e sobre o Karlos a gente não sabe, se ele vem ou não. E como à senhora Leiman está bem, o que ninguém esperava que ela viesse a sarar, mas a quem não está designado a morrer nada acontece. Podem as pessoas pensar o que quiser.

Hoje teve novamente um funeral no Rio Novo. Desta vez foi o velho Butlers. Fazia dois anos que ele tinha dificuldade em caminhar e agora o Butler fica mais sem a preocupação do pai aqui sozinho.

Na próxima segunda feira será a Festa de Aniversário da Igreja, mas o Inkis não vira. Bem por hoje chega.

O Viktors [Victor Stavirski , filho de Etienne Staviarski diretor da Empresa de Colonização Grão Pará, estudava no mesmo Colégio Batista] trouxe os Prospectos e por eles obrigado. O Victors disse que mandasse lembranças, mas arranjamos algumas coisas para mandar por ele. Ele diz que você e ele são grandes amigos.

E que você está muito bem. Aqueles colarinhos acho que deverão servir. Nós, os rematamos num Bazar da Igreja, as cinco peças.

Agora tu sabes deves escrever bastante. Daqui uns tempos teremos que pedir para você compre cordas para os violinos que estão quase no fim.

Não tenho mais tempo para escrever mais nada.

Com lembranças de todos – Olga
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