Fiquei todo tempo olhando para baixo tentando ver você… | De Lilija Purens para Reynaldo Purim – 1923 –

Nova Odessa [Sem data]

Boa Noite!

Que o Bondoso Deus do Céu te abençoe!! De coração meu querido primo sinceramente eu te saúdo e com estas poucas linhas e desejo-te muitas bênçãos de Deus para todas as tuas atividades. Com esta carta quero anunciar que já estou no Brasil, não bem no lugar que eu esperava estar, mas de qualquer modo estou aqui. Ainda que fisicamente ainda não o conheça, mas pelo que o meu papai contava que eu tinha parentes no Brasil. Considerando, como primo encorajei-me e estou escrevendo.

Agora quero contar como eu me sinto na minha nova pátria. Se alguém tivesse me contado enquanto estava morando na Letônia que eu iria conhecer o Brasil eu nunca iria acreditar. Como tudo aconteceu eu não consigo compreender. Vivíamos na mais completa paz e felicidade, lá na Letônia e nunca tínhamos pensado em mudar de vida até que papai começou a falar sobre um irmão e a família dele que morava no Brasil, e tinha vontade de vê-lo e os filhos dele. Assim começamos a nós aprontarmos para viajar para cá. Nós estávamos curiosos para conhecê-los. No princípio os nossos parentes e conhecidos não nós queriam deixar partir daqui da Letônia e tinham pena de nós, mas, quando viram que nada iria adiantar, pois nós não ouvíamos conselhos de ninguém, então deixaram de falar, então deixaram-nos em paz, sem antes de exigir uma promessa que escreveríamos contando tudo daqui e desejando uma boa viagem. Se nós gostássemos da nova terra, eles viriam também. Quando vendemos tudo e tiramos os documentos para a viagem, então em outubro começou a nossa viagem que foi muito difícil. Viajando e seguindo o longo caminho tive oportunidade de conhecer o que nunca imaginara poder conhecer. Quase metade do globo terrestre.

A viagem se tornou tão longa e monótona que nós ficamos aflitos que chegasse ao destino. No dia 13 de outubro sai de minha casa, onde tinha vivido e crescido, aquele momento quando ia saindo foi tão difícil que não consigo descrever a ninguém. Deixar a casa com o seu pequeno jardim, a horta tão familiar. Aqueles caminhos tão queridos, que eu corria desde menina, aqueles animais que eu alimentava. Aquele pianinho que eu passava o dia tocando. Nuvens negras de preocupação enchiam a minha cabeça. Era para mim difícil imaginar, como entrou na nossa mente mudar para um país distante e desconhecido como o Brasil. Mas nada adiantava, tínhamos que deixar aquelas paisagens tão caras e familiares e se mandar para um mundo desconhecido.

A grande viagem começou de trem. Até chegar na beira mar [porto] para embarcar no navio. Atravessamos a Alemanha, Bélgica até chegarmos na França. Ali embarcamos no navio para o difícil caminho no mar. Ficamos 19 dias no mar, mas durante 8 dias passamos sem ver senão céu e água. Quando o nosso imenso navio parou no Rio de Janeiro. Fiquei o tempo todo olhando para baixo tentado ver você vindo encontrar-nos, pois sabia que você estava estudando aí. Mas debalde, não apareceu ninguém e com os corações realmente entristecidos tivemos que continuar até o porto de Santos.

Lá desembarcamos todos juntos e fomos levados para a Hospedaria dos Imigrantes, onde ficamos dois dias e daí tínhamos que seguir em frente para a mata virgem…. O que eu tinha no coração naquele momento eu nunca poderei descrever. Os pensamentos mais macabros perambulavam pela minha mente. Não queria falar com ninguém, apesar dos irmãos tentarem me acalmar dizendo que eu deveria ficar alegre, mas era totalmente impossível para mim. O que nós esperava na mata, mais ou menos você já sabe. No acampamento morei 7 meses e então fiquei muito doente e já estava me aprontando para ir para o lar eterno, os meus arranjaram para que ficasse com outros irmãos da Igreja que já moravam em Nova Odessa para me tratar.

Agora estou morando com a família do irmão Fritz Puke como empregada doméstica.[ Deenas meitu – Literalmente, moça para trabalho de dia, diarista] Os trabalhos são os mesmos como em qualquer família, mas eu já estava desacostumada.

Na realidade eu queria ir para o Rio Novo, para ficar com os teus familiares, mas dinheiro para a viagem, eu não tenho e ganhar tão rápido não é possível, portanto terei que viver por aqui. Se Deus determinou para que nós nos encontrássemos, então, isso vai acontecer.

Estarei esperando uma longa carta sua. De coração te amando tua desconhecida prima Lilija com 18 anos de idade __________________________________________________________

… logo antes da Páscoa deste ano chegou do Kaukaso lá do interior da Rússia.| De Olga Purim para Reynaldo Purim -1922

Rio Novo 3 de outubro de 1922

Querido Reini. Saudações!

Recebi a tua carta há semanas atrás. Obrigada. Aqui eu estou quase como você que não consegue responder as cartas de imediato. Há uma 3 semanas atrás eu e a Lucija enviamos longas cartas para você quais esperamos que tenhas recebido. Eu não sei o que seria tão importante que tinhas para nos contar.

Pode ser alguma coisa que há muito tempo já saibamos, pois o Karlis Leiman quando esteve em Rio Branco na Convenção encontrou o Shephard [Shephard era o Diretor do Seminário Batista no Rio de Janeiro] e este disse que você é o aluno mais aplicado e inteligente dos que este ano vão terminar o Curso. Nas cartas você pergunta se nós lemos tal e tal artigo e é claro que nós lemos, mas faz tempo que não tem chegado mais.

Nós vamos suficientemente bem graças ao bom Deus. O tempo está nublado e está sempre mais chuvoso do que tempo bom.

As novidades no Rio Novo seriam estas: Na semana passada chegou de viagem de Nova Odessa o Conrado Frischembruder e sua Lídia. Também o Oskar Karp também com a sua Lídia que tinham ido a Nova Odessa em agosto vieram juntos. Estes tinham ido a São Paulo visitar os parentes e ver o mundo do lado de fora, pois nunca tinham saído e agora voltaram juntos.

No Sábado passado houve mais um casamento; foi da Emma Burmeister com o Felipe Karkles. [Felipe Karkle – Era o pai do Zefredo Karklis e outros] e foi maravilhosa a festa!

Você quer saber como está passando o novo professor. Eu não saberia dizer como realmente ele está passando, pois ele mora sozinho na Igreja, as crianças são poucas, mas como professor eu posso assegurar que melhor que o Treiman ele é.

O Alexandre Klavin que esteve em São Paulo viu e admirou os métodos usados pela União de Jovens de lá. Então ele e o Emílio [Emílio Anderman muito conhecido em Urubicí] querem implantar as novidades aqui. Houve diversas noites de apresentações variadas e culturais tais como: história do Estado de São Paulo, a imigração leta no Estado de São Paulo e como é o trabalho das Igrejas e das Uniões de Jovens; ilustrando com exemplos, contando fatos interessantes e discorrendo sobre eventos e outras atualidades. Todas reuniões foram bem concorridas e muito bem dirigidas.

Além disso, o Aléxis [Klavin] é um cantor com uma voz maravilhosa sem outra igual por aqui..

No dia 16 de outubro será a Festa de aniversário da União de Mocidade de nossa Igreja. Os preparativos estão já estão sendo feitos. Pode ser que até o Deter venha para a festa.

O Karlis [Leiman] escreveu que eles iriam sair de viagem no dia 20 de setembro, mas até agora não apareceu ninguém.

Há pouco tempo atrás recebemos cartas de nossos parentes da Letônia. Eles ainda estão em Latgale. Ambos André e Jekabs escreveram. Porquê o André logo antes da Páscoa deste ano chegou da Kaukaso lá do interior da Rússia. Eles tinham ido para lá em 1917 saindo da turbulenta São Petersburgo e ficaram morando lá até o final da guerra. Então começaram a viagem de volta para a Letônia. Levaram 6 meses de dificuldades imensas, fome, frio, doenças e ainda ele continua doente. São só os três, ele o André, a Ieva e o filho Jahnis que moram junto com o Jekabs. Estão escrevendo que quando as crianças terminarem de tecer e costurar as roupas novas eles vem embora para o Brasil.

O Jekabs virá com a família pagando as suas próprias passagens, mas o André não tem este dinheiro todo. Então o André está pedindo que enviem as passagens marítimas através do governo, então ele virá também e vai trabalhar duro para pagar tudo e não vai ficar devendo nada. Agora vou ter que escrever muita coisa para eles, pois eles querem saber muita coisa daqui.—

Domingo passado recebemos cartas do Fritz e do velho Leiman. O Fritz apressou-se em contar que no dia 4 de setembro às 6 horas da manhã a mãe foi para a morada eterna. Ela viveu com eles na Argentina somente 8 dias… Então foi para aquela casa que ainda não podemos ir…— O Fritz contou que a mãe chegou tão fraca que tinha que ser carregada do vagão para o automóvel e daí para o quarto. O médico que a estava tratando tinha assegurado que ela iria viver mais uns 5 ou 6 meses, pois ela já não teria mais preocupações… Mas viveu somente 8 dias.—

Bem hoje chega. Lembranças de todos. Olga.-

…todo mundo me prometeu amavelmente me apoiar…..| De Carlos Leiman para Reynaldo Purim – 1922

Morretes Pr. 7 de março de 1922

Querido Purim

Saudações.

Chegado de uma longa viagem, recebi a tua carta. Obrigado.

Quanto ao meu trabalho tu deves estar sabendo através de outros letos que te escrevem e que viajam lá para o Rio.

Será que a S.K. [Selma Klavin, mais tarde professora superior no Rio de Janeiro] recebeu?

Para mim mesmo todo mundo me prometeu amavelmente me apoiar agora na condição de evangelista itinerante da Convenção [Paraná-Sta Catharina]. Se vai ser bom ainda não, sei. Vamos ver adiante.

Agora apesar do tempo muito chuvoso estamos na Obra
.
Escreva para Joinville.

Obrigado pelas notícias de Rio Novo. São as primeiras e únicas que eu recebi deles lá.

Saudações do

Carlos Leiman
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Ernesto Grüntal – Informações adicionais 1 | Por V.A.Purim 2003

Anexo 1
Algumas informações adicionais sobre Ernesto Grüntall
Por
V.A.Purim

Ernesto veio da Letônia junto com a mãe dele Dª Gertrude que já em 1892 consta como membro fundadora da Igreja Batista Leta de Rio Novo.

Mais tarde esta senhora passou para a religião sabatista. Era muito boa vizinha nossa, pois os terrenos eram contíguos. A minha mãe lembrava com carinho desta senhora que era muito atenciosa e ajudava a cuidar dos muitos pimpolhos principalmente orientava e tranqüilizava o ambiente. Lembra de uma famosa receita de bolinho de carne que ela ensinava a fazer.

O Ernesto era um “Maverick” [boi que não acompanha a manada] que não acompanhava a maioria. Ele e o Luwig Rose bolaram um meio de sair de uma comunidade que eles não os aceitavam porque tinham opiniões diferentes. Então resolveram fugir a pé para a cidade de Porto Alegre. Naquela época o normal seria apanhar um navio em Laguna e ir até lá. Estradas não existiam de nenhuma espécie. Eles foram caminhando pelo litoral isto é pela beira do mar. Imagine as curvas, lagos, meandros e rios que tiveram de atravessar. Temos poucas informações sobre a viagem e a chegada lá.
Foram trabalhar em um Convento de Padres alemães onde aprenderam a língua alemã e plantaram muitas roças de batata inglesa.

Tempos depois o Ernesto voltou pra Rio Carlota. Os padres mandavam cartas de cobrança do saldo que ele teria ficado devendo.

As lembranças que eu tenho era de um reacionário tranqüilo. Leto que fumava cigarros de palha, que não ia a Igreja a não ser em festas ou eventos especiais.

Ele tinha uma olaria para fabricar telhas e tijolos, mas no maior tempo ela estava parada.

Na entrada da casa dele a direita havia um bananal onde também intercalado e por baixo tinha uma imensidão de cafeeiros que se protegiam das geadas abrigados nas sombras das bananeiras.

A casa dele era de tijolos vermelhos sem pintura nenhuma.

Ele teve varíola quando criança ainda na Letônia e tinha a pele toda marcada de cicatrizes.

Ele era apaixonado pelo líder nazista Adolph Hitler. Tinha uma namorada na Alemanha chamada Tosca a qual mandava muitos Zeitung super ilustrados sobre as maravilhas de lá. Junto a estes Jornais vinha um Suplemento Infantil em alemão que se chamava” Kunter Bunt” e era muito ilustrado. Ele trazia para nos lermos e nos líamos as figuras e entendíamos tudo.

No terreno dele morava uma senhora de reputação duvidosa chamada Maria Bombazara. Não era bom falar desta mulher que era chamada de Dª Marica.

Uma vez ele apanhou uma malária que dá uma febre em períodos alternados e como a mãe dele tinha morrido e ele estava sozinho o meu pai foi buscar o Ernestinho com a cama de ferro dele em um carro de bois para ficar em nossa casa. Lembro que quando era a hora da febre ele chegava a pular na cama.

Ele gostava muito de contar as grandezas da Alemanha de Hitler. Era um vizinho tranqüilo.

Previsão do futuro: O nosso irmão Alberto lembra que quando ainda era pequeno o Ernesto pôs a mão na cabeça dele e falou: Você teve muita sorte, nasceu em uma época que terá oportunidade de ver muitas maravilhas e novidades. Eu nasci em tempo errado…

Ele era um profeta visionário. Sabia que coisas iriam acontecer…..

V.A.Purim

…nesta nossa pequena “Letônia além do Atlântico” | Fatos da América do Sul – 1898

DA AMÉRICA DO SUL
Publicado no jornal da Letônia
Majas Viesis n. 22 (O Visitador do Lar) de 22 de maio de 1898
Traduzido para o português por Valfredo Eduardo Purim
Matéria gentilmente enviada por Brigita Tamuza de Riga
Primeira Parte

“Em Orleans do Sul (encontra-se na província de Santa Catarina no sul do Brasil)”.
Da cidade portuária de Laguna (junto ao Oceano Atlântico, da foz do rio Tubarão até Orleans há uma ferrovia. A estação ferroviária de Orleans do Sul é também o principal acampamento da colônia Grã-Pará e distante de Laguna aproximadamente 75 quilômetros), no sul do Brasil e nos escreve:
Os periódicos noticiam por reuniões sociais noturnas e outros eventos agradáveis. Também nesta nossa pequena “Letônia além do Atlântico” que nós chamamos, isto é, “Rio Novo” e “Rio Carlota”, conseguem nivelar-se com qualquer pequeno agrupamento humano na terra natal. Desde aquele tempo, enquanto aqui chegou um pastor batista leto, ocorreu raro movimento de renovo. Para bem entender a diferença entre o presente e o passado, então devemos retornar no tempo uns 6 anos atrás, quando nós como novos colonos entramos em nossos barracos, trazendo em nosso peito sentimento estranho. Ao desembarcar da composição ferroviária, encontramos alguns batistas letos de levas anteriores de imigrantes, todos com um recipiente ao lado, cujo liquido nos ofereceram alegremente – dizendo: aqui irmãozinho, isto é a nossa bebida. Irmãozinho, ao tomar um gole notamos a repugnância, podendo entender que a bebida oferecida não é própria aos espirituais. Devolvendo o copo, ao receber, à pessoa que 0fertou comenta: sem isto (cachaça – bebida alcoólica feita de caldo de cana, semelhante à bebida da Letônia feita de centeio) aqui no clima quente é indispensável.
Então, como os demais depois de satisfeitas as necessidades materiais não foi de todo difícil construir um pequeno templo e fundar uma pequena Igreja, cujo objetivo dela seria uma cidade no topo de um morro, isto é, viver exemplarmente entre os brasileiros, florir como uma flor branca e com isto chamar a atenção, para quando eles vendo nossas boas obras, aprenderem a nos respeitar. Embora entre nós com dificuldades a imagem deverá ser forte e brilhante.
Nas assembléias da Igreja a questão principal era sobre as bebidas. Boa parte vigorosamente defendia que, o uso de bebidas alcoólicas em publico seriam moralmente [embriagues oculta também. ], outros manifestaram, que seria melhor usar moderadamente. Pelo menos não se apresentar como amantes do álcool (…).
Nestas assembléias restritas havia senso e dissenso. Uns queriam nadar a favor da correnteza, outros discordavam firmemente. Isto não poderia se arrastar por muito tempo. Terra livre e povo livre cada um pode como quer, certamente observando os limites legais.
Assim num belo dia, os últimos levantaram ali perto sua igrejinha, templozinho menor agremiação maior paz. Ouvia-se falar em uma terceira igreja. Porém duas foram suficientes. [ Na realidade naquela época não haviam duas Igrejas, pois a outra era em Oratório que foi outra Colônia de vida efêmera]
Verificamos, que com duas embora com menor número de irmãos, que desmoronava, observando o vasto campo missionário, onde só os pretos pagãos existem, embora eles não saibam em meio a desavenças usar sua liberdade e vivem moderadamente. Entre os católicos nós pretendemos iniciar um trabalho missionário.
Um certo irmão, ainda jovem, certamente imaginando, que com os brasileiros e negros (católicos) pouco há o que fazer e nós não dançamos conforme a sua música, tinha decidido nos deixar ao nosso destino e adentrar as matas junto aos bugres (índios brasileiros) para assim converte-los em batistas (…). Alguns aqui passaram a vida toda sem nunca terem visto bugres, que cada vez penetram mais longe na mata virgem.
Com muitos bons propósitos e maus resultados passaram estes 6 anos, sem um líder e sem unanimidade… Mas, não importando o que cada um fazia e dizia, a Missão Batista de Riga nos mandou o Sr.J. Inkis, para que ele visitasse as colônias de Grã-Pará, Mãe Luzia e Blumenau para revigorar as almas letas entre elas 17 luteranos, todos sem pastor. No ano passado, no dia de S. João o novo pastor pela primeira vez cumprimentou do púlpito os seus irmãos, não importando que recentemente tinha deixado seu bordão de viagem. Ele alegrou-se muito, encontrando seus patrícios materialmente satisfeitos. Ele havia imaginado encontra-los em condições bem precárias. Exatamente ao contrário no lado espiritual e parecia que ele percebeu em curto espaço de tempo – e como competente trabalhador tudo fará para nivelar o terreno. Ele proferiu sermões dominicais, mas não esqueceu os alemães (…). Até agora a “Sociedade das Missões” aqui trabalhava em silencio, espalhando panfletos nos caminhos, onde brasileiros e italianos (católicos) transitavam. (…) Começam os nossos a se unirem. Projetamos convidar da terra natal alguns professores. Nossa nova geração até agora está completamente sem qualquer progresso cultural (…). O Sr. Inkis conduz também as assembléias dos colonos, onde são solucionadas diversas questões sobre agricultura, administração e progresso da colônia.
Agora estamos organizando uma “Expedição” para explorar as redondezas para verificar sua fertilidade para aqueles que possuem áreas menores [isto se refere à incompetência na distribuição das áreas] para conseguirem boas áreas para que tenhamos espaço para todos os tempos, para que os letos não tenham que se dispersar por todos os cantos do Brasil, mas todos, convivendo próximos, pudessem cultivar a fé e a nacionalidade (…). Nós aqui lemos parte livros editados pelo Sr. Frey de Riga. Também não esquecemos das publicações periódicas, nós lemos Majas Viesi (O Visitador), LatvieŠu Avise (O Jornal da Letônia), Balsi (A Voz), Teviju (A Pátria). “

Ass.
Um colono da Grã-Pará

Continua

…o trovão que chorava todos os dias lágrimas geladas… | Frederico Leiman – 1906

A006-1966-

A VOLTA PARA CASA

VIAGEM MISSIONÁRIA NO SUL DO BRASIL

Material gentilmente enviado por Brigita Tamuza da Letônia
Traduzido do Leto para o Português por
V.A.Purim
Avots (A Fonte) 1906/17, pág. 202

Neste ano (de 1906) em 16 de outubro a escola de Missões de Porto Alegre terminou seu longo curso. Após o término do ano letivo, estávamos destinados a campos já pré-determinados, decidimos tirar alguns meses junto aos nossos pais para repouso e preparo para as próximas atividades.

Em 17 de outubro o irmão J. Netenberg e eu encetamos uma viagem cujo percurso por terra é de 60 milhas (132 km) a pé, com pesadas malas nas costas. Logo no primeiro dia o trovão, que chorava todos os dias lágrimas geladas, todas as estradas encontravam-se alagadas e que umedecia nossas roupas, pele e também o coração.

De vez em quando tínhamos que prosseguir com lama acima dos joelhos e até mais fundo em planícies alagadas passamos 3 noites na chuva e vento, até que enfim nos alimentamos, 2 ½ dias andamos pela beira mar sem qualquer alimentação; pés inchados e carga pesada aumentou e por duas vezes caí em condições de desmaio.

Com os últimos esforços, após 9 dias de viagem chegamos a “Araranguá”, onde ficamos por alguns dias. Dirigimos alguns cultos. Que alegria – uma alma aceitou a salvação!
No ano de 1898 o irmão Kronberg e sua família vieram morar aqui. No ano de 1901 chegaram mais algumas famílias de letos, com 7 crentes, os quais todos os domingos se reuniam para o culto.
Em 7 de maio de 1905 os crentes se reuniram para um trabalho conjunto e fundaram uma Igreja que agora se compõe de 10 membros.
No que concerne à vida material o povo daqui é bem servido, mas na vida religiosa sofrem grandes dificuldades. Faltam pastores ou dirigentes de igreja e faltam escolas para os jovens.
Irmãos e irmãs devemos interceder por esse pequeno grupo, que no seu primórdio é suscetível de perseguições, devemos lembrar as palavras de Nosso Senhor Jesus “não temais ó pequeno rebanho, porque vosso pai agradou dar-vos o reino” Lucas 12.32

Dia 31 de outubro deixamos os letos de Araranguá e a noite alcançamos Mãe Luzia. Aqui ficamos a semana inteira, cada dia celebramos 2 cultos e o Senhor no recompensou com ricas bênçãos.

A Igreja foi fortalecida, alguns caídos se levantaram e 3 almas herdaram a salvação. A pequena Igreja leta se compõe de 20 membros e com alegria podem dizer: aqui reina o amor fraternal, e um vivo e verdadeiro cristianismo.

Com quem pesar este pequeno grupo sente a falta da liderança de um pastor e professor, mas lembremos a eles “Não temais, crê somente!”

Mais 2 ½ dias de andanças estaremos em casa, mas o nosso coração ouviu algum chamado da Macedônia, e adentramos algumas milhas em um desvio de nosso caminho, a uma grande colônia composta de alemães, [deve ser Criciúma] onde o puro evangelho nunca havia sido pregado.
Conseguimos licença para utilizar um grande salão para realizar as reuniões, o povo compareceu em grande numero de perto e de longe, o espaço foi pequeno para a multidão. Quando tivemos trabalhado durante uma semana, junto a algum ouvinte começou a uma séria atividade do Espírito Santo.

Os recursos não permitiram permanecer por mais tempo: ao separarmos caíram muitas lágrimas dos ouvintes; eles imploraram para que os visitem novamente.

Agora diretamente de Mãe Luzia a Rio Novo – para casa. No último dia nos encontrou o trovão, ou por alegria ou inveja, porque estávamos próximos ao fim da viagem, chorava com suas grossas lágrimas. Os rios alagaram e ficaram intransponíveis e nos ficamos embebidos tão profundamente que só os letos sabem suportar.
Passando a cavalo pela escola do Rio Novo encontramos o irmão Anderman [pastor e professor], que havia dispensado os alunos para o recreio no jardim para exercícios físicos, com a típica ferramenta agrícola brasileira, ou seja, a “enxada.”

Quando finalmente após longa permanência distante, tantas dificuldades no caminho, cansado a morrer, sem ser notado, estava eu parado diante da casa paterna, o coração em pranto, os olhos marejados com lágrimas de alegria e gratidão ao Pai do Céu, que tão misericordiosamente nos conduziu.

No domingo teve um sincero reencontro com a nossa “mamãe” – a Igreja. O irmão Anderman em nome da Igreja discorreu sincero pronunciamento com base em II Timóteo 2.
À noite a mocidade programou um ágape, onde contamos uns aos outros nossas vivencias que o Senhor nos proporcionou de bom.

No que se refere à vida material em Rio Novo tem andado a passos gigantescos para frente, cada um possui sua propriedade, ninguém se queixa por necessidades.

Na parte religiosa com a vinda do irmão Anderman que exerce a função de professor e serve a Igreja com dedicação as responsabilidades da Igreja estão em dia; se os Rio-novenses entendessem, que quanto a sua paz e verdadeira felicidade servem e permitissem que o Espírito Santo introduza seu amor e boa convivência, então Rio Novo seria para si e a redondeza como Betania ou Tabor, onde qualquer um visitaria este lugar com satisfação.
23 de março de 1906
Frederico Leiman
Missionário