A Paz do Senhor seja convosco. | De Artur Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rodeio do Assúcar18/11/26

Querido irmão Reinaldo!

A paz do Senhor seja Convosco.

As tuas cartas escritas no dia 17 de setembro e dia 5 de outubro foram recebidas, a última recebi no domingo passado e pelas quais agradeço muito. Foram longas cartas onde você descreveu sua grande viagem. Deve ter sido muito interessante mesmo esta viagem naquele imenso navio e todas aquelas cidades que você passou inclusive a loucura de uma imensa cidade como Nova York e ainda aquelas outras cidades da América, lotadas daqueles imensos arranha-céus, fábricas enormes etc. Você também poderia escrever quanto custou à passagem até lá e se com aqueles 1.500$00 mil reis previstos deu para chegar lá.

Nós agora graças ao bom e querido Deus estamos passando suficientemente bem. O tempo esteve semana está bastante quente e seco que faz tempo que não ocorria. Durante o inverno e a primavera chovia tanto que não tinha fim e também atrasou todos os serviços da lavoura e plantações que não puderam ser feitos na época apropriada.

Agora como de costume estamos com dois domicílios, o que não é muito confortável. Isto, por que com tão, pouca gente, cuidar de duas propriedades é demais. Camaradas [Trabalhadores rurais avulsos] também são inviáveis contratar devido ao alto custo 2 a 2$500,00 por dia e mais a comida é caro demais. Só a Maria trabalha para nós por mês, mas quanto isto adianta de tanto trabalho? Comparando com aquele tempo que você ainda morava ai quando nós todos íamos para o trabalho e ainda também mais o “Pintado” •• sempre junto, ai sim, rendia bastante o serviço e ainda assim, nos achávamos que não era demais. Mas agora contratar um quando precisávamos de três e quando nós próprios não estamos acompanhando o ritmo, não digo eu, mas o Paps que esteve doente há algumas semanas quando estava roçando uma capoeira furou o pé nalgum toco da roçada e daí a infecção tomou conta do pé inteiro transformando-se num furúnculo e ainda bem que já está melhor, mas ainda não pode fazer nada, pode ser que na semana que vem ele já possa ir para a roça, mas pouco ainda poderá fazer. Assim você pode avaliar como nós estamos indo.

Agora temos um visitante aqui pelo Rio Novo. É o Arthurs Leiman. Ele chegou no dia 15 de outubro. Da Argentina ele viajou direto para São Paulo e dali veio para cá. Durante a semana ele mora com o cunhado dele em Tubarão o João Ochs e aos fins de semana ele vem aqui para o Rio Novo.

Sobre aqueles negócios vou escrever muito pouco porque nada aconteceu. Apareceu um comprador para o terreno aqui, mas não deu nada. Tem outro que virá. Também a Bukovina não foi vendida e nem apareceu nenhum comprador. Também não saímos por oferecendo por que daí qualquer comprador vai querer oferecer uma ninharia. E sobre aquele preço sugerido eu tenho sérias dúvidas se será possível conseguir tanto. Agora tudo está tão barato, se fosse como no ano passado que tudo era caro quando um saco de feijão valia 80$000 e uma arroba de toucinho 40 mil então o povo tinha dinheiro para comprar terrenos. Mas este ano não é assim. Vamos ver como vai ser para frente. Sobre venda e compra de terrenos hoje é só isso.

Há pouco tempo atrás houve um incêndio em Orleans e queimou a Venda e a casa do Cardoso. Virou um monte de cinzas. O que parece e o povo comenta é que eles mesmos são os culpados. É que toda aquela propriedade esta assegurada dizem que por 80:000$000. Agora virou moda de todo mundo fazer seguro de suas vendas e casas. Alguns por 55:000$ outros por 73:000$000 e assim por adiante. O próprio Cardoso estava em Desterro internado no Hospital e a família estava morando em Imbituba. Naquela noite em que houve este sinistro havia na cidade uma grande festa, um tempo seco e um forte vento. Diante de tudo isso o povo ainda fala que eles mesmos foram os culpados.

Bem hoje chega, já escrevi esta longa carta. Poderia escrever até mais, mas o sono está apertando. Logo depois da ceia eu comecei a escrever porque durante o dia não há tempo. Você deve se conformar com o tanto que eu escrevi. Com lembranças minhas e de todos daqui. APurim.

(Página anexa escrita depois)
Você poderia verificar o preço quanto custaria uma bicicleta lá na América. Eu tinha escolhido uma da marca alemã “Vanderer” com freio de mão e de contrapé, campainha, dínamo com iluminação e marcha com duas velocidades. Em Laguna na loja da Karl Hoepcke custa entre 450:000$ a 600:000$000. Então faça o favor de perguntar o preço lá e verificar o tamanho, pois se for da marca Vanderer precisaria ser de No. 7. Se der negócio, nós vamos precisar de 2, uma para mim e outra para o Puischel do Auggi.

Sobre mais um assunto eu gostaria de escrever. É sobre o nosso Engenho de farinha de mandioca que está no terreno dos Leiman e o terreno onde está sendo vendido. O Salits diz que o engenho pode ficar lá quanto tempo quiser. Mas de que adianta ter uma fábrica de farinha e não ter a mandioca. E comprador nenhum até agora apareceu. Nós oferecemos para o Sahlit, mas ele não deu nenhuma esperança de comprar. E se algum comprador de fora terá que desmontar e levar embora então eu acho que não vai querer pagar nada. Existem partes que quando desmontadas elas não servem mais, outras como os esteios que são imensos e pesados serão muito difíceis de serem retirados. Existe o perigo de incêndio, pois ela, a fábrica, está na beira de capoeira cheia de samambaias. Por isso antes que se determine o destino dela seria bom chamar uma empresa de seguros para proteger de qualquer eventualidade. Então em caso de que alguém deixe entrar fogo o prejuízo não seria total. O perigo é que ela está bem na beira da capoeira e se ela estivesse dentro do pasto não haveria perigo algum. No ano passado um “maneca” [Termo pejorativo dado aos brasileiros nativos pelos descendentes de outras etnias] que mora perto da rocinha, resolveu queimar uma pequena coivara num domingo com clima muito seco e muito vento. Não deu outra, poucos momentos depois o capoeirão dos Slengmann estava uma linda fogueira. A sorte era que o vento não vinha em nossa direção.

Por isso a minha preocupação, pois pode acontecer em qualquer lugar. Hoje chega. Pois escrevi quase um livro. Escreva-me uma longa carta e comente sobre todos estes assuntos. Aqui fico teu amado irmão. Arthurs. [ Artur Purim]

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…também tenho gostosas lembranças de todos e eventos agradáveis de minha juventude..De Reynaldo Purim para Fritz Leimann . – 1926 –

[Parte de uma cópia de uma carta escrita a tinta pelo Reynaldo Purim para o primo Fritz Leimann e nesta época ele o Reynaldo já estava morando nos Estados Unidos]

04 de outubro de 1926
Caro irmão F. Leimann

Saudações. Que a Paz de Deus esteja com você e sobre os seus familiares. Escrevo esta carta para você sobre um assunto específico:
Meus pais e familiares têm escrito de Rio Novo que em breve você vai viajar para lá para vender o terreno que era dos seus pais. A vontade deles é que eu venda a “colônia” que eu tenho no Rio Larangeiras e com o dinheiro compre a propriedade sua que está à venda e onde eles passariam a viver, pois eles gostam mais desta localidade do que do Rio Novo. Eu estou de acordo em fazer a vontade dos meus velhos. Da propriedade de seus pais eu também tenho gostosas lembranças de todos e tantos eventos agradáveis de minha juventude que lá partilhei com os amigos e parentes. Ficaria muito triste se este cantinho tão agradável caísse nas mãos de pessoas de outras etnias. Portanto estou me candidatando a condição de comprador. Não sei se já existe outro comprador. Se não podes saber que não haverá nenhuma dificuldade em fechar este negócio. Peço a fineza de me escrever mencionando o preço etc. Se possível escrever também para os meus pais sobre este assunto, pois eu sei que haverá pouco tempo para nós nos comunicar. Eu mandei uma “procuração” com plenos poderes para o meu pai para que ele possa efetuar os negócios com vender o meu terreno e comprar o do seu pai. Mas se houver tempo, por favor, escreva-me, pois ficarei muito satisfeito e agradecido.

Na continuação vou também escrever sobre outros assuntos.

…mas podemos afirmar que tudo que tens mandado já foi recebido…| De Arthur Purim para Reynaldo Purim 1926

Rodeio do Assucar 9-8-26

Querido irmão Reini:

Recebi a tua carta escrita no dia 19 de julho quase não esperando, pois existem outras cartas em trânsito e não daria tempo para chegar à resposta. Você agora tem se apressado em escrever quem sabe pensando que alguma carta sua tenha se extraviado, mas podemos afirmar que tudo o que tens mandado já foi recebido aqui inclusive aquele pacote de jornais que veio em meu nome recebi na semana passada.

Você mandou uma longa carta “comercial” qual recebi por ocasião do funeral da Olga. Esta carta veio registrada. Você escreve sobre a alternativa de vender o terreno da Bukuvina e comprar o terreno aqui dos Leimann. Na semana passada escrevi que nada ainda tínhamos deliberado sobre o assunto e como a sopa não deve ser tomada quente demais deixamos para depois. Mas agora já está mais claro entre nós sobre o que queremos: Se fosse vendida a Bokuvina por um bom dinheiro então poderíamos comprar o terreno dos Leimann e moraríamos aqui. Eu gosto mais daqui pelas facilidades do cultivo da terra por que aqui a topografia é muito mais plana e as raízes crescem melhores. Por exemplo, a mandioca, aipins e batatas. Também o arroz cresce melhor que no Rio Novo. Quanto aos pastos são mais planos e não existem aquelas grotas profundas. Quanto às madeiras das matas é vantagem também. São lindas árvores com cerne muito duro que nem existem na Bukuvina nem no Rio Novo.

Principalmente é muito melhor quando se refere aos animais, pois nós agora temos 20 bovinos entre bois e vacas, 8 equinos entre cavalos e éguas e 19 porcos. Todos estes ano nós temos vendido manteiga se bem que agora um pouco menos, mas durante todo verão inteiro nós entregávamos 4 kilos por semana a 4$000 o kilo. O preço continua 4$000 e assim houvesse manteiga era só entregar. Se por acaso o negócio da compra por qualquer razão não der certo então a maioria destes animais deverá ser vendido uma vez que no Rio Novo, pois lá os pastos são menores, plantas daninhas demais e as cercas sem boas condições e agora principalmente que não estamos lá os pastos lá no Rio Novo mais parecem um matagal e não vale a pena levar um bando de animais não será vantagem nenhuma e por outro lado vender; quem os comprariam. Agora para vender por preço de vintém é só dar um assobio que tudo mundo vai correr comprar.

Agora que tenho descrito as nossas dificuldades e obstáculos da nossa vida aqui, agora está em ordem o estudo das alternativas para fazer o negócio. Nós achamos que você deveria escrever para Argentina tanto para o Arthur Leiman como para o Fritz explorando todas as possibilidades e fechando o negócio como realmente é seu. Então quando eles viriam para cá os preços e as condições já estariam previamente estabelecidas. Todo aquele terreno está em nome do Arthur, mas quem tratou sobre o arrendamento das terras para nós foi o Fritz. Então dai a razão para que você escreva para os dois principalmente o preço. Ele faz bastante tempo que não tem escrito para nós. Quanto a Bukuvina nós também não temos aberto o preço e nem realmente posto a venda. Existem pessoas perguntando se nós vamos vender a Bukuvina e por quanto? Nós temos deliberado que por menos de 20$000,000 não será possível vender. Quem sabe pedir uns mil a mais para pode baixar. Você concorda com este preço? Será que é baixo o preço ou é caro demais? Escreva para ambos, pois quanto nós sabemos eles virão ambos depois para fazer os negócios.
O endereço deles é o seguinte:
Fr. Leiman, Urdinarrain Entre Rios Argentina.
A. Leimann, Rufino F. e P. Santa Fé Argentina.

Bem por hoje chega e como você vê foi escrito bastante e você terá muito que ler e avaliar. Faça o negócio e venha morar aqui na tua terra nova. Devo lembra que se possível e não for muito cara mande já esta “Procuração” e se por acaso sair o negócio ela já esteja à mão.
Com lembranças de todos. Arthur.

…pois nos estamos passando uma grande tristeza permitida por Deus…| De Arthur Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rio Novo 15 de Julho de 1926

Querido maninho.
Que a Paz de Deus esteja com você!

Recebi as tuas cartas escritas no dia 18 e 25 e também a carta escrita para a Lúcia no sábado passado acompanhado pela carrada de jornais. Por tudo muito obrigado. Tenho agora bastante coisa para ler, novas notícias dos variados acontecimentos mundiais. Mas… Mas não tenho tempo ler tudo. Também não pense que tenha abandonado o hábito da leitura e não leio mais nada. Eu leio tudo quanto posso tanto à noite e quando sobra tempo em outras oportunidades, mas tudo isso ainda é pouco.

Desta vez apresso-me em escrever esta carta, pois bem você sabe, pois nós estamos passando por grande tristeza permitida por Deus porquê na sexta-feira [ela faleceu na Sexta-feira, dia 9 de julho de 1926] passada às 7 horas da tarde a Olga separou-se deste mundo indo para uma vida melhor, onde os males e as tristezas deste mundo não são conhecidos. Ela se separou sem qualquer mal estar ou dor. Ainda no último dia ela andou, mas em seguida veio uma prostração [Nespehks = Sem forças] e a respiração se tornou muito difícil. Então ela foi deitar e a Lúcia ainda pôs panos quentes sobre o peito para aliviar a respiração, mas foi inútil. Nós outros estávamos morando na casa dos Leiman e somente a Lúcia e a Olga moravam em Rio Novo. Quando a Lúcia percebeu que a situação estava ficando muito difícil ela apanhou a égua e veio a toda nos avisar. Neste mesmo momento a Mamma montou em outro cavalo e voltaram juntas imediatamente para o Rio Novo. Então ela ainda falou alguma coisa e depois de algum tempo ela ficou inteiramente calma e imóvel e após algumas horas separou-se deste mundo. O funeral no cemitério foi no sábado às 4 horas da tarde com a presença de muitas pessoas. O serviço religioso foi dirigido pelo Pastor K. Leiman que no sábado atrasado chegou ao Rio Novo visitar a Igreja e o pessoal daqui. Em casa ele dirigiu um breve culto e depois outro no cemitério. No sábado eu fui a Orleans avisar às autoridades do governo e as demais pessoas e conhecidos e ai que eu passei o telegrama para você. Você recebeu? E quando? Este seria um resumo dos acontecimentos não incluindo a tristeza e a perturbação que você nem pode imaginar a não ser que estivesse aqui.. Você ficou muito perturbado quando recebeu a notícia? Você está muito triste e deprimido? Não precisas ficar triste porquê ela daqui porquê esta foi a vontade do Senhor. Pois Deus atendeu às minhas orações, pois em todas eu mencionava os pedidos de saúde para ela ou se não fosse assim a sua vontade que levasse para o Lar permanente, mas não deixasse nestas circunstâncias. Por tudo isso devemos e tentar entender os desígnios da mente de Deus.

A nossa vida diária vai como sempre, ainda com menos gente. Agora estamos quebrando[Colhendo ] milho, já terminamos a fabricação da farinha de mandioca que rendeu 55 sacas [sacas de 60 kilos ] e estamos avaliando que deverá ainda render uns 12 a 15 sacas de polvilho que ainda não estão seco porquê o tempo está muito chuvoso. Chove todo dia e raro o dia que brilha algum sol. O milho não cresceu tanto como no anterior e os ratos [Ratos do campo ou das roças- Tem a coloração mais avermelhada do que o rato doméstico(?) Também não se falava em hantavírus]tem estragado muito. É possível que dê para passar o ano.

Você me mandou uma longa carta comercial sobre várias alternativas de negócios. Sobre isso muito pouco vou escrever, pois não foi suficientemente discutido e ainda nada foi acordado e não se deve tomar a sopa muito quente para depois não se queixar de erros e precipitações. Também você não mandou o preço da sua terra.. Também a planta do teu terreno não vou mandar desta vez, pois o agrimensor não forneceu o mapa.
Desta vez acho que chega, na semana que vem se tiver tempo vou escrever mais sobre este assunto dos terrenos.
Com saudações. A. Purim.

[Escrito atrás a lápis] Eu gostaria de pedir para você fazer o favor de comprar uma boa navalha para fazer barba, pois aqui em Orleans a gente não consegue de boa qualidade e ainda por cima muito caras. Igual aquela que você usava deverá custar de 15 a 20 m. e tanto eu não quero pagar. O mesmo