…mas nós sentimos muito a sua falta e tudo parece triste e sombrio…| De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

27 de julho de 1926
Querido irmãozinho!
Saudações!

Recebemos as seguintes cartas: a minha que você escreveu em 14 de julho e a do Arthur que você escreveu no dia 23 também de julho. Estas vieram muito rápidas e é raro chegar assim imediatamente. Aquela que veio como resposta ao telegrama ficamos tristes por ter que mandar uma mensagem tão triste. A primeira idéia era de não mandar telegrama nenhum, mas depois acertamos que seria melhor informar já de uma vez, porque de qualquer modo mais cedo ou mais tarde irias receber a carta informando do triste fato, então porque adiar. O telegrama foi mandado dia 10 e demorou muito para chegar lá. Nós também ficamos muito tristes e perturbados, mas tudo aconteceu quando ninguém estava esperando, mas a Palavra de Deus que todos devemos estar preparados por que ninguém sabe o dia que a morte vem e bem aventurado aquele que está preparado.
Nós naquela manhã não imaginávamos que noite nos tínhamos que nos separar da Olga, pois ela não sentia dor nenhuma e somente tinha a respiração difícil. Ela ainda pela manhã falou: Tu ainda queres viajar para o Rio, mas eu vou é para casa… Isso por que nós alguma vez planejávamos ir visitar você isto é enquanto você ainda estivesse ai no Brasil. Isto seria se a gente pudesse e tivesse condições, mas na prática sabíamos que nós não tínhamos as condições, pois a nossa vida aqui não permitia, mas conversar e planejar isto nós podíamos. Nesta última semana ela falava muito sobre você, sobre os tempos passados o que fazíamos e como vivíamos. Dizia ela e agora ele vai para tão longe e certamente eu não vou ter oportunidade de encontrá-lo novamente apesar de eu sempre tentar reanimá-la dizendo que logo que voltares da América virás direto para casa então poderemos viver longo tempo juntos e não deixaremos ir embora tão cedo, como no tempo que você tinha que voltar para a escola. Mas Deus não quis assim e levou-a para o Lar Celestial e quando tornarmos a nós encontrar então, aí, nós não separaremos jamais. Por que aqui não é o nosso lar e somos como estranhos e peregrinos a caminho da Canaã Celestial. Ela está muito bem, mas nós sentimos muito a sua falta e tudo parece vazio, triste e sombrio. Nos últimos tempos ela nada podia fazer, mas pelo menos era uma boa companhia e agora não está mais.

O Arthur mandou a carta em 19 de abril, mas ela já estava escrita dias antes, mas naquela semana começou uma grande chuva e um vento gelado. Começou a chover na terça feira dia 14 e choveu até o sábado. O frio era tão violento que a gente parecia que não poderia agüentar. Nas Serras as montanhas ficaram brancas cobertas de neve por mais de uma semana. Os serranos falavam que a camada de neve era tão grossa que chegava até a barriga das mulas. Esperávamos grandes geadas aqui, mas não aconteceram e quando o tempo melhorou aí também esquentou. É por isso que o Arthur demorou em enviar a carta por que para Orleans ninguém podia ir. Eu também não escrevi por que eu fiquei tão perturbada que não podia escrever nem a noite pensar. Desde há duas semanas antes do falecimento da Olga eu estava tão cansada e perturbada devido à tensão e não sentia vontade de comer, a cabeça doía muito e também as costas e eu cheguei a pensar que não conseguiria superar tantas tristezas, mas o Senhor ajudou e agora estou perfeitamente saudável. Estou somente bastante nervosa e qualquer movimento mais brusco me deixa perturbada. Fora isto estamos todos bem de saúde e ninguém ficou de cama por estes dias. Serviço nós temos demais agora nós estamos colhendo o milho, este ano a colheita será menor por que não cresceram bem e também há muitos ratos. Se alguma espiga foi derrubada no chão por qualquer razão sem dúvida, ela estará roída, mas vai dar para passar o ano. Os porcos estão sendo engordados com mandioca, qual nós temos bastante. A farinha de mandioca já terminamos de fabricar. Rendeu mais de 50 sacas. Os preços da farinha é que não estão bons e às vezes os homens das vendas nem querem comprar. Polvilho também vamos ter bastante, pois os cochos e as barricas estão cheios. Não puderam ser secos por que o clima não tem ajudado. Pois o tempo continua chuvoso.
O Carlos Leiman chegou dia 3 e foi embora para Mãe Luzia no dia 12. Ficou aqui em casa e deu para conversar bastante. Prometeu escrever para você. Dirigiu vários cultos e realizou Batismos no dia 11 de manhã na fazenda dos Frischembruder, por que devido à venda da terra dos Osch onde eram normalmente realizados os batismos foi vendida para um italiano onde ninguém gostaria de ir e é provável que não autorizasse. Na noite de sábado dia 10 foi realizada uma Sessão na Igreja quando foram aceitos os seguintes novos membros: Klara Sahlit, Kornelija Balod, Harri Auras e Willis Leepkaln e os batismos foram realizados na manhã do domingo pelo Pastor Carlos. Os Sermões eu não vou transcrever desta vez, talvez em outra.

Há pouco tempo recebemos carta do Fritz e do Arthur [Frederico e Arthur Leiman da Argentina]. O Arthur escreve que virá para o Natal para vender a terra.. O Fritz diz que esqueceu o teu nome senão ele escreveria para convidando para você ir para Argentina trabalhar. Ele garante que tem muito trabalho e pão macio para comer. Diz que você pode ir sem medo, pois ele precisa muito de trabalhadores.
Quanto àquela compra do terreno dos Leiman, não chegamos a nenhuma conclusão definitiva. Se vender aqui e comprar lá ou senão só comprar lá. O que nós estamos de acordo é que você se não custar muito caro mandar a Procuração e depois a gente poderia decidir com mais vagar. Nós conversamos se pela Bukuvina a gente conseguisse o suficiente que desse para comprar a fazenda dos Leiman tudo bem. Mas completar com mais dinheiro ai não. Tem um agravante, pois não existe nenhum comprador para a Bukuvina quando a gente quer vender. O Arthur [Arthur Purim] ainda tem outras preocupações e acha que no final terá que desistir da terra dos Leiman porque não será possível morar em dois lugares no mesmo tempo e nenhuma das casas não poderão ser deixadas vazias. Aqui no Rio Novo a cozinha é nova e logo abaixo do paiol nós temos uma linda horta tudo nela cresce muito bem. Sabemos que a terra dos Leiman também é boa e bem grande. As raízes lá [Mandioca] crescem muito bem. Se não comprar lá não sabemos onde por o nosso gado, pois aqui o pasto é pouco. Vender o gado é difícil, pois quando a gente quer vender ninguém quer comprar. Por ai você pode ver que não temos nada decidido, mas que concordamos que a Procuração você deve mandar e nós não comprarmos também não venderemos e ai ela ficará sem utilização. Se mandares faça em nome do Arthur, pois ele pode falar e se comunicar melhor que o Paps. Também escrevemos para o Fritz e para o Arthur, pois este assunto tem que ser bem avaliados com muita responsabilidade. Na semana que vem vamos mandar outra carta com os novos croquis do seu terreno e esperamos que este chegue lá.

Vamos mandar também para você meias, luvas, camisa e um xale. É para você ir bonito e elegante para a América. Se você não gostar da camisa, então, você pode vendê-la. Mas eu pensei que pelo tamanho ele vai servir bem. Ela está na moda e todos senhores elegantes usam este modelo. Se as mangas forem muito compridas, você pode arregaçar. O colarinho pode ser virado para o lado de fora. Se tivesses vindo para casa terias ganho um lindo terno de tecido feito de lã [Vadmales] feito no nosso tear.

Bem por hoje chega se eu esqueci alguma coisa escrevo na outra vez.

Amáveis lembranças de todos. Nós estamos bem. E o mesmo desejo para você.
Lúcia

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Não posso continuar, pois a febre voltou. | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim. – 1925 –

Portão [Agora bairro de Curitiba] 27 de Outubro de 1925

Querido Reynold
Faz tempo que estou me aprontando para escrever-te. Mas sempre aparece alguma coisa mais urgente.
Hoje saí de viagem, mas tive que voltar atrás. Vou amanhã.

Escrever tudo o que aconteceu nos últimos meses será demais. Vou escrever só o que eu lembrar. Agora estamos morando quase em Curitiba – O endereço é Caixa Postal T.

Nos dias de férias trabalhei na lavoura. Plantamos 4 quartas de milho, 2 quartas de feijão, 4 de batata etc.. Passei maior tempo doente com febre; então ainda caí da carroça e quebrei um osso. Até hoje a febre me atormenta.

Numa das últimas viagens me roubaram a minha maleta com todas roupas, Bíblias novas, um Cantor Cristão com música etc.
Trabalho tenho muito, mais do que consigo fazer. O Deter e o Stroberg estão este mês no Rio Novo. Casamentos.

Mas não posso continuar, pois a febre [Maleita ou Sezões] voltou.

Amanhã estarei viajando para Iguape S.P..
Sinceras saudações.
Carlos Leimann

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…com as fronhas lindamente bordadas ….| De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 20 de Abril de 1922

Querido Reynold!

Então eu vou ter que escrever novamente, pois já faz bastante tempo que você não tem escrito nada. Ainda que eu esperei e achava por você estar de férias poderias bem escrever e esta era a sua obrigação.

Eu já mandei as roupas de cama com as fronhas lindamente bordadas e ainda mais tudo que foi feito à mão foi meu trabalho pessoal. É possível que estás acostumado viver com roupas mais elegantes, com mais luxo ainda e quem sabe estas que eu te mandei não sirvam ao seu alto nível…

– Só aqueles 3.50 metros de tecido custaram 5$000 então calcule quanto custou a mão de obra para costurar e bordar. Será que lá ficaria mais barato?? Aquele tecido estampado multicolorido das camisas custou 1$200 o metro e foi gasto aproximadamente 3 metros. Estas camisas lá devem custar pelo menos 8$000 e daí você teve um lucro de pelo menos 3$000…. E agora que já sabes de todas tuas dívidas espero que venhas liquidá-las plenamente.
Sabe, que não é dinheiro que nós estamos pedindo, mas no Natal você terá que vir para casa e trazer alguma coisa muito boa. Ainda não pensei o que eu vou querer, mas tão logo que eu resolver eu te escrevo, pois tempo ainda temos bastante até lá.

No primeiro domingo de abril eu fui aceita na Igreja mediante a profissão de fé, mas o batismo ainda não pôde ser efetuado e não sei quando vai ser. O pessoal do Rio Novo está esperando o Deter e ninguém sabe quando ele virá. Mas, já convidado ele já foi.

O tempo está muito instável, na semana passada foi seca a semana inteira e esta semana chove e faz sol sem qualquer ordem. Hoje estivemos cortando arroz, pois os mesmos estão maduros. Este ano o arroz nem do cedo nem do tarde não se desenvolveu bem devido que no verão houve excesso de chuvas. Também muitas espigas de milho estão podres.

Durante a Páscoa o tempo foi razoavelmente bom e durante a primeira Festa [na Sexta feira Maior] a Senhora Leimann veio nos fazer uma visita e é a primeira vez que ela sai, depois do período que esteve doente. A última vez que ela tinha saído de casa foi no enterro da senhora Bankowitz em 12 de outubro passado e agora ela está tão recuperada que já anda a cavalo.

Bem agora eu acho que chega de imprimir, pois você não tem mesmo tempo de ler.
Na semana passada a Olga mandou uma carta qual eu acho que já chegou lá. Na Sexta feira Maior ela recebeu a tua carta escrita no dia 31 de março.

Escreva bastante, pois o Wictors não conta nada.

Aqueles estudantes de Rio Branco também falam o brasileiro? Em que classe ou período eles estão? E como eles se chamam? O Looks também foi?

Este ano ainda você mesmo lava a sua roupa?

Você este ano não está aprendendo violino? No nosso conjunto de violinos daqui do Rio Novo o Rubis [Roberto Klavin] deixou de tocar porque se acha muito velho demais.

Muitas amáveis lembranças dos outros de casa e minhas também.

Lúcia
[Escrito abaixo a lápis]
Hoje recebi a tua carta escrita no dia 14 de abril. Muito obrigada. A resposta escrevo em outra ocasião.

Estou morando na cidade com os Stekert | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 20 abril 1919

Querido Reinolds!!

Saudações! Festa da Páscoa! Cristo ressuscitou! A mensagem da Paz ressoa.

Na semana passada recebi dois pacotinhos de jornais [enviados] no dia 27-3-19, e na segunda-feira 14 de abril recebi tua carta de 27-3-19. Sinceros agradecimentos. As cartas anteriores foram todas recebidas; só não tenho resposta da que escrevi no dia 28 de março, e no mesmo envelope foram cartas da Luzija e do Arthur. Também no dia 8 de abril mandei um cartão postal. Todas foram recebidas?

Nós estamos alegres por sabermos que você está passando bem. Nós podemos dizer com alegria que estamos todos com saúde.

Antes da Páscoa tivemos duas semanas de tempo muito seco: não choveu nada e [fez] muito calor. Então, no sábado da Páscoa, começou a ficar nublado e de noite estava roncando trovoada e muita chuva, mas o Domingo da Páscoa amanheceu com uma manhã radiosa e assim permaneceu.

Pela manhã fomos ao culto na casa dos Leiman no Rodeio do Assucar. Lá no sábado haviam chegado as visitas da Argentina [NOTA: gafanhotos]. Nós todos tivemos a oportunidade de ver uma quantidade imensa desses insetos. Quando passavam provocavam um ronco surdo como uma tempestade, e chegavam a fazer sombra como fazem as nuvens: nem a luz do sol podia ser vista. Eles gostam mais de feijão, mas não deixam de limpar os milharais e a sorte é que estes já estão na fase de maturação.

Para nós no Rio Novo eles não chegaram, e é provável que nem passem por lá e sigam o seu caminho para o outro lado. Na fazenda dos Klavin também desceram, mas lá eles tanto fizeram que conseguiram espantar, batendo e tocando. e não permitiram que fossem completamente devoradas as lavouras.

O Arnolds [Klavin] veio da serra onde mora para as festas da Páscoa, e pretende voltar logo em seguida. O Roberto [Klavin] foi passar as festas lá no “Brasso do Norte” com o Onofre. O Deter ainda não veio; e não sei por que prometeu e não veio, e nem sei quando ele virá. Agora em Orleans tem um Pastor Presbiteriano e durante as festas na igreja de Rio Novo ele fez um sermão em inglês. Ele veio da serra e ficou na casa do pastor Butler.

Você escreve que lá as roupas estão caras, mas não são tão caras quanto aqui, embora aparentemente estejam ficando aos poucos mais baratas. Vamos mandar dinheiro quando precisares de calças e fraques, e você poderá mandar fazer, ou provavelmente comprar roupas prontas. Camisas e ceroulas mandaremos se estiveres precisando.

Agora aqui não estamos conseguindo um tecido bom e próprio para camisas, mas a loja do Pinho garantiu que vai chegar um grande carregamento de bons tecidos. Nós ultimamente não tínhamos comprado tecidos para roupa, pois tínhamos comprado bastante tempo da venda da coperativa, e quando começou ficar mais caro compramos bastante “americano” [NOTA: Tecido de algodão cru muito usado para roupa de cama].

Temos um par de meias de lã prontos, tricotados para mandar para você. Fio de algodão aqui é difícil de conseguir, então você terá que comprar as meias de algodão prontas nas vendas.

Querosene aqui não existe mais, e faz tempo que nos falta. Temos emprestado da Sra. Grüntall algumas garrafas e usado velas, mas estas também estão muito caras: $300 a peça e não duram nada, principalmente quando a gente tem que trabalhar à noite. Quem tinha querosene para uso pessoal vendeu até entre 1$500 a 2$000 a garrafa.

Pelo toucinho estão pagando 12$000 a arroba e é um bom preço, considerando que não estão descontando nem os ossos. Ovos já vendemos duas vezes e eles estão pagando $600 a $700 a dúzia. Estamos com mais de cem galinhas, isso sem contar os pintos.

Brevemente o Diretor Staviarski [da Companha de Colonização] pretende viajar com a filha para o Rio de Janeiro para visitar o seu Victor. Você conhece esse jovem filho do nosso Diretor? Ele deve estar estudando em outra classe. Ele sempre fala da boa ordem do Colégio e o filho está muito bem lá.

A novidade comigo é que agora estou morando na cidade com os Stekert aprendendo costura, e somente aos domingos vou para casa. Escreva bastante porque estando em Orleans posso buscar as cartas facilmente no correio. Ainda muitas sinceras lembranças de todos de casa, que ficam aguardando longa carta sua.

Olga

[Escrito nas laterais:]

Junto a esta carta segue o Aviso de 300$000 que segue através da firma do Pinho e será paga a você pelo Colégio Baptista, assim não tenho que mandar no envelope Valor Declarado, o que espero seja melhor para você.

Um mutirão de limpeza | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 11 de março de 1919

Escripto em letto!!
[Nota em português no original]

Querido Reinold!!

Recebi a tua carta escrita em 21-2-29 no dia 7 de março. Muito obrigada! As cartas têm ido e voltado bastante rápido. Das cartas deste ano no total são três as cartas recebidas: esta e as de 21 e 31 de janeiro. Como as duas chegaram juntas já mandei a resposta já faz mais de duas semanas, e pode ser que já tenhas já recebido. As tuas cartas anteriores devem estar todas perdidas, mas não posso entender que como as minhas cartas chegam todas e as suas se perdem tantas.

Bem, as tuas férias já acabaram? Com que pessoas você trabalhou? Eram brasileiros? Era longe da Escola?

As camisas ainda não posso mandar porque não tenho o tecido em casa; na próxima vez que for a Orleans irei comprar. Você tem algum modelo especial? Alguma combinação de camisas com as gravatas? Você ainda tem meias? Para aprender a passar a ferro os colarinhos, (avulsos) eu não preciso, pois aqui não temos este tipo de ferro de passar. Se for para aprender alguma outra coisa até tudo bem.

Nós graças a Deus estamos passando bem. Estamos todos com saúde e os grandes serviços já estão terminados. Ontem o Papus e o Puisse estavam roçando o pasto [NOTA: O pasto era roçado com alfanje, também chamada de gadanha; quando o a vegetação era muito grosseira tinha ser com a foice de bico]. Eu e a Luzija estávamos dobrando milho e hoje terminamos a roça lá de perto da ponte [NOTA: A prática de dobrar as hastes de milho na fase de maturação tinha diversos motivos: 1º Deixar mais luz para permitir o crescimento do feijão. 2º Proteger as espigas, evitando a entrada d’água; desse modo, mesmo em colheitas tardias as espigas permaneciam secas e saudáveis. 3º Apressar o amadurecimento em caso de necessidade de uso, quando a colheita anterior tivesse acabado.].

Começamos a trazer para os porcos espigas novas, porque o milho da safra anterior já terminou. Por aí você pode ver que ainda serviço nós temos bastante.

Hoje o Enoz esteve com o seu carro de bois trazendo as tábuas serradas lá do mato até em casa. Semana passada eles terminaram de serrar. Agora todas estão em casa; logo que estiverem secas vai ser feito o forro do paiol e construído um “werkstube” [NOTA: Weskstube. Alemão: divisão ou compartimento de uma fábrica. Área de trabalho de uma fábrica.] em que será colocada a bancada de carpintaria. Os fusos já foram comprados faz muito tempo, mas até agora não tínhamos um local apropriado para estas coisas [NOTA: Os fusos eram usados na bancada de carpintaria para prender, segurar para serrar, aplainar, furar, lixar ou colar peças ou conjuntos de madeira durante a sua fabricação.].

Hoje não tenho muita coisa para escrever. No domingo passado, dia 9 de março, saiu de Curitiba o missionário A. B. Deter, e esta semana já é esperado no Rio Novo. Os rionovenses hoje foram fazer um mutirão de limpeza no templo da igreja para bem receber o ilustre visitante. [NOTA: Neste mutirão era feita também a manutenção dos jardins, das cercas, dos gramados, etc. Nós gostávamos muito porque apesar ser um trabalho muito puxado e chefiado por líder, o mesmo era feito em grupo e saía da rotina cotidiana].

Você pede que descreva todos acontecimentos e isso eu prometo que farei, descrevendo todos resultados.

Semana retrasada houve batismos no Rio Novo. Foram batizadas quatorze pessoas: Elvira Maisin, Ludis, Alvine Sanerip [NOTA: Alvine mais tarde casou-se com Ernesto Karkle. A Marta do Gustavo Zeeberg é uma das filhas do casal], Luzija Sanerip, Emma Burmeister, Aldona Balod [Aldona Balod casou-se com Otávio Fernandes e foi mãe do Cláudio Fernandes de Orleans], Jahnis e Valdis Karklin, Rudis e Natalia Felberg, Jahnis Seeberg [João Seeberg foi pai do Gustavo, da Neli, da Frida e da Irma], Alida Klavin, Hilda Auras [esposa de João Seeberg] e Fanija Topel [A Fani casou-se com o Karlos Paegle e foi mãe do professor Vinicius, da Neli (primeira esposa do Carlos Auras), do Edgar e do Durval Paegle].

Disseram que o João [Frischembruder] de Riga também iria se batizar, mas parece que não quis desta vez, assim dizem. Agora a escola também está funcionado, mas o professor é o mesmo João de Riga, e quando ele for embora depois do “São João” [NOTA: 24 de junho, grande festa na Letônia em comemoração à passagem do solísticio de verão no hemisfério setentrional] a Marta [Marta Anderman Butler, mãe da Dra. Hellen Butler Muralha] vai começar a lecionar. Agora ela em casa está aprendendo português e inglês. O Willis Butler não quer que a esposa seja incompetente quando começar a dar aulas. O Butlers em casa faz tudo. Em casa ele faz até a comida, pois isso ela não sabe fazer: é realmente uma madame de pastor.

Bem, por hoje chega. Deixa para outra vez quando algo de novo tenha acontecido. Escreva bastante para mim. Muitas sinceras lembranças do Papa, Mama, Luzija, Arthur e

Olga

As galinhas do Augustin ou as vacas dos Gritch | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripa em Letto
[anotação em português no original]

Rio Novo, 12-05-1918

Querido Reynold,

Recebi a tua carta escrita em 25 de abril no dia 9 de maio. Muito obrigada. As minhas cartas foram rápido, as suas nem tanto. Na sexta feira passada fez uma semana que mandei uma carta em resposta àquela que veio junto com o Boletim. Mas a que mandaste em resposta à carta em que enviamos o dinheiro ainda não chegou, e é bem provável que não chegue mais, pois parece que os rionovenses ficam fisgando as nossas cartas. Por causa disso, mande as próximas no nome da senhora Leimann — mas por favor não cole o envelope, porque a senhora Leiman nunca leria uma carta que não fosse dela e porque os envelopes colados são uma atração para a censura: pensam logo que por aí tem segredos.

As últimas duas cartas não tinham sido abertas. Os jornais que vieram em nome do Artur também chegaram, mas aquela que você mandou em nome do Roberto ainda não chegou. Aquela carta que recebeste da Rússia, já mandastes? Se extraviou será realmente grande prejuízo.

Você quer que eu escreva boas notícias, que elas por aí não existem. Nós vamos bem. Estamos todos com saúde. Nem tempo para ficar doentes nós temos, tal a quantidade de serviço. Estaremos colhendo feijão e logo teremos que bater, mas o tempo está muito instável: um dia está bonito e seco, no outro já está chovendo e também bastante frio — se bem que geadas [como aquelas] no ano passado (11 de maio já foi a primeira) este ano não teve ainda nenhuma.

Nosso feijão está muito mais bonito que no ano passado, mas o dos outros tem madurado muito rápido e os grãos ficam muito pequenos, principalmente daqueles como os Leiman e os Klavim, que plantaram bem cedo. Nós também tivemos uma roça nesta situação, lá perto da grande Peroba: numa semana estavam verdes e noutra já estavam bem secas.

A nossa roça grande perto do mato está madurando normalmente, mas a colheita está muito mais difícil do que no ano passado, quando se podia colher uma quarta de planta por dia, pois o feijão embaraçou muito nos pés de milho e a gente demora a desenroscar. Nem todas partes estão maduras e são as verdes que estão mais enrodilhadas nos pés de milho. O feijão está com bom preço, 18$000 a saca, e aqueles que colhem já correm vender. A venda do Pinho ainda não está comprando, porque diz que tem gente colhendo feijão ainda verde.

[Leia sobre o cultivo do feijão]

Sobre os rionovenses, eles vão muito bem. No Dia de Ascensão do Senhor houve um piquenique no pasto da Igreja de Rio Novo, mas cada um teve que levar a sua rosca e as suas bolachas. A Escola Dominical entrou só com o chá. Tudo teve que ser trazido pelas pessoas, pois tudo está tão caro e a Escola Dominical não tem verba. Mas piquenique era preciso.

Agora também o Butlers determinou que uma vez por mês os dirigentes da Escola Dominical leiam a lição em português, pois assim eles aprendem o idioma. Agora as sessões regulares de negócios são aos domingos depois da Escola Dominical e do culto, por isso as vezes ficam até as 3 horas da tarde.

O Augus está sendo convidado para sair [da zeladoria], e o Peteris para ficar no lugar dele. Mas o Augustin vai continuar plantando no terreno da Igreja, uma vez que o Peteris vai plantar muito pouco. O próprio Peteris foi à casa dos Klavim contando como foi a reunião em que foi tomada a resolução da substituição do Augustin por ele, e diz -se que não foi uma reunião fácil [NOTA: Pelo contexto parece que eles eram professores primários, mas ainda não se pode comprovar].

Os outros professores também não querem cobrar tanto dinheiro das crianças, mas se faltar dinheiro para pagar o professor a igreja é que deve pagar. Agora eles tem que pagar 45$000 por mês e 3$000 por cada criança.

De que tenho informações, a escola não está lá grande coisa, Não mandam decorar nada, e para os mais novos não tem aritmética. E tem ainda por cima três recreios, que só servem para a turma ficar correndo e brincando.

Você pergunta o que o Butlers está fazendo. Nunca no Rio Novo a Igreja teve um pastor tão distinto e honrado. Ir embora, ele parece que não está pensando. Se você o visse não sei se o reconheceria, pois ele está bem mais gordo e com o cabelo bem grisalho; quem olha por traz, está todo branco. No ano passado ele arou o pasto e fez dele um quintal onde plantou toda sorte de verduras e raízes. Mas agora ele tem que ficar cuidando, senão chegam as galinhas do Augustin ou as vacas dos Gritch para fazer estragos, e já começam as reclamações, que nem sempre valeriam a pena.

Aos domingos ele teria vendido algumas vacas e sempre está na casa do Limor [Löwenstein], do qual é um grande amigo. Enquanto os outros estavam no piquenique ele estava fazendo o telhado do paiol e o barulho das marteladas só parou de ecoar ao anoitecer quando começou a chover.

Durante a sessão da igreja teriam alguns sabichões dito que não viam necessidade nem de pastor nem de professor, pois eles eram “inteligentes” o bastante.

Quanto ao Grünfeld quase não sei nada, mas sei que seu nariz afilado está mais comprido ainda. Dizem que o Butler aos domingos, à noite, também lê notícias da guerra, em velhos jornais brasileiros, que o Grünfeld empresta dos negociantes de Orleans. Quando isso acontece a assistência às reuniões é muito maior e mais pessoas vem para a igreja.

Junto com esta carta estou mandando um pacotinho. Ele contém: dois pares de meias, duas camisas, dois chapéus e uma gravata. Quando receberes não esqueças de conferir tudo. E, se procurar direito, vai encontrar as cartas da Lucija e do Arthur. Você diz que suas camisas ainda estão boas, mas acho que estão bem puídas.

Naftalina você consegue comprar? Para nós o Arnold trouxe de São Paulo. Onde você coloca a lenha que diz que corta? Você corta lenha ali mesmo ou aí algum lugar por perto? Que é que te ajuda ou você tem que fazer tudo sozinho? Quantas horas por dia você tem que trabalhar? Neste ano tem algum outro leto estudando com você? O Treimann continua na Escola?

Bem, por hoje chega. Não tenho mais nada de novo para escrever. Vou esperar longa carta sua. Muitas calorosas saudades de todos nós aqui.

Olga