Meu Pai Karlis Andermann | por Júlio Andermann

O MEU PAI CARLOS ANDERMANN
Por Emilio Andermann
Traduzido do leto por Júlio Andermann
Comentários e revisão por Viganth Arvido Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

A atividade missionária de Carlos Andermann no Brasil está intimamente ligada ao trabalho na Igreja Batista Leta em Rio Novo – SC – onde a sua peregrinação, neste país, teve início.
Esta Igreja foi fundada por diligentes Letões oriundos da cidade de Riga, que curtiram a falta de sorte por se estabelecerem num terreno bastante montanhoso e pedregoso. Este fato explica o motivo por que, hoje em dia, esta Colônia, está quase abandonada, embora esta região goze de um clima excelente.
Qual foi o motivo que animou os habitantes de Riga a viajarem para o Brasil? Os operários daquela cidade originários de todas as regiões da Letônia e de algumas “gubernhas” da Rússia – que conseguiram ganham algum dinheiro aproveitando os tempos floridos da industrialização moderna – foram dolorosamente atingidos pela crise mundial de 1889 – 1890.
O historiador da Comunidade Batista Leta de Rio Novo, Júris Frischenbruder, assim descreve este período:
“As fábricas pararam de funcionar, havia muito pouca produção e a maioria dos empregados estava sem trabalho. Também a construção civil diminuiu o ritmo e o povo perambulava pelas ruas procurando emprego.
P. Salit e B. Balodis, que já haviam pesquisado as possibilidades da emigração, faziam conferências elogiosas sobre o Brasil e também foi editado um livro sobre este tema. Aruns e outros patrícios, aqui já estabelecidos, escreviam cartas dando notícias animadoras sobre a nova Terra, que eram lidas com muito agrado. As dificuldades da Terra Natal nos esgotavam e as benesses os convidavam, isto posto, a caminho, embora com tristeza e lágrimas de despedida dos entes queridos.
Não se pode negar a grande significação do pioneirismo da emigração letã para a Colônia de Rio Novo. Estes homens que vieram fortes, decididos e de muita coragem; quando lentamente se dispersaram fundaram novos pontos de imigração“.

Sobre o ensino escolar, as palavras do historiador são as seguintes:
“Desde o início a Congregação Batista se preocupou com o ensino e para a construção da escola foi adquirido um terreno. O primeiro professor a estabelecer uma pequena escola – alguns dias por semana – foi Ansis Elbert, que durou algum tempo.
Mas o principal entusiasmado divulgador do ensino foi o pregador João Inke (que permaneceu um ano em Rio Novo).
Embora a primeira escola tenha sido fundada por iniciativa particular e que convidou o professor Wiliam Butler, pagando-lhe as despesas de passagem; depois de um ano de funcionamento, o empreendimento ficou sob a responsabilidade da Congregação Batista.
Este mestre iniciou a escola em junho do ano de 1900. Ele empregou todo o seu esforço para que esta iniciativa desse bons frutos, pois até fundou uma classe noturna da qual participavam até os irmãos mais idosos.
Wiliam Butler também elaborou um pequeno compêndio de ensino da língua portuguesa acompanhado de vocabulário.
Os alunos diligentes tiveram muito êxito, mas ele mesmo, sentindo a necessidade de ampliar os próprios conhecimentos, em julho de 1903, despediu-se e viajou para a América do Norte. Outra vez, durante dois anos, a escola ficou sem professor.
Mas a Congregação não desanimava e, novamente, juntou dinheiro para pagar a passagem de imigração para um novo professor, dando assim prioridade absoluta para a instrução dos filhos.
O professor Carlos Andermann chegou em 1905 e no mês de agosto teve início à atividade escolar. Naquela ocasião o número de crianças era maior e a sua esposa Emilia foi solicitada para ajudar a dar aulas. Tudo isto foi muito agradável e trouxe um bom resultado. Habitualmente ele dizia: “quando se afaga a cabeça de uma criança a língua se solta e o cérebro assimila melhor”.
Ele exerceu aquela função durante quase 5 anos, até que resolveram mudar-se para Mãe Luzia”.

“Ans Elbert deu continuidade a este trabalho de junho de 1910 até junho de 1913. Pegou os alunos já mais crescidos e por isto desobedientes, e o número deles aumentou, mas a sua atividade deu bastante resultado”.
“Carlos Leiman foi professor desta escola no ano seguinte, mas teve que deixar o cargo por que assumiu o trabalho de missionário itinerante. Ansis Albert foi o continuador desta obra, mas não conseguiu lecionar por muito tempo por causa da debilidade da sua saúde. Outra vez passou um período sem escola por falta de professor, até que os pais que tinham filhos na idade escolar, convidaram João Frischenbruder, que para reiniciar o trabalho, que recebeu uma pequena ajuda financeira da Congregação, e trabalhou no período de janeiro de 1917 até 1918, com bons resultados. Nova interrupção de meio ano até junho de 1918 quando a Congregação convidou Wiliam Butler, junto com a sua esposa Marta (nascida Anderman) para ser professor e ela sua substituta eventual. Ele também conseguiu uma verba do Governo para apoiar esta Escola. A Congregação estava satisfeita, mas esta felicidade não durou por muito tempo por que foi convidado para ocupar o cargo de professor do idioma Inglês em Curitiba para onde viajou em julho de 1920 causando grande desilusão. Emilio Anderman exerceu o cargo durante um ano com bons resultados, mas com uma despedida festiva ele viajou para estudar nos Estados Unidos. Em continuação F. Freiman trabalhou durante um ano e fez o que pode.
A Congregação continuou procurando um bom mestre, até que em junho de 1924 chegou Carlos Stroberg e durante meio ano ocupou o cargo de pastor. Depois teve licença de dois anos para completar os próprios estudos, em Curitiba, para exercer legalmente a profissão e novamente reiniciou a escola em 1927 lecionando com muito êxito. Ele trouxe a esperança de que a colônia italiana também mandaria os seus filhos para estudar; mas em vão… depois de festejar o término do ano letivo em 1928, esgotaram-se as esperanças – o mestre deixou Rio Novo”.
“A cada ano que passava a Congregação ficava menor em número de membros e possibilidades financeiras, mas não ficou totalmente sem a escola; em 1931,

através do empenho de Oscar Karp, sob a direção da professora Zichman as crianças foram bem assistidas”.
O desempenho do trabalho de Carlos Andermann em Rio Novo, o historiador Júris Frischenbruder ainda apresenta com mais detalhes e é interessante anotar as suas observações; embora o escritor, ele mesmo, na infância tenha chegado como imigrante junto com os seus pais; tenha dado mais ênfase as considerações sobre a vida da Congregação Batista, mas que também abrangem a vida da Escola. A principal preocupação de Carlos Andermann foi à vida espiritual. Frischenbruder assim descreve este período de sua existência:
“Na reunião extraordinária da Congregação no dia 24 de abril de 1904, o irmão Janson foi encarregado de escrever uma carta ao professor e pastor Carlos Andermann, para a Letônia, a fim de convidá-lo a ocupar os cargos, Na Congregação Batista e Escola Primária, em Rio Novo. Este convite ele aceitou com entusiasmo. Então foram enviados 505 mil reis para pagar as despesas de mudança, ao que ele respondeu que esta oferta foi para ele uma surpresa agradável.
A família Andermann foi recebida numa reunião cordial e festiva, em agosto de 1905. Aos domingos ele dirigia os Cultos e nas quartas-feiras à noite – reuniões de oração; que foram as suas principais preocupações e que trouxeram muitas bênçãos.
Nos dias da semana ele lecionava como professor da escola primária. Sendo um homem de uma índole mansa e introspectiva, em outros trabalhos da Igreja ele teve um desempenho modesto. A sua principal preocupação foi o trabalho missionário nos logradouros vizinhos, ação na qual foi estimulado por vários irmãos e apoiado pelo coral da Igreja, que muitas vezes se deslocava junto com o pastor para abrilhantar os cultos. Neste trabalho os principais cooperadores foram W. Lieknin, W. Leiman, G. Auras e principalmente Artur Leiman.
Eles saíram para pregar a palavra de Deus em Pedras Grandes, Brusque do Sul e nos povoados do alto da Serra. Vários brasileiros se converteram, foram batizados e se tornaram membros estáveis da Congregação.

No alto da Serra foi realizada uma festa de batismo, a qual compareceram 20 irmãos e irmãs, ocasião na qual foi batizado Emanuel Bessa e senhora. Este trabalho missionário corria pleno de bênçãos; os ouvintes se comportavam com educação e respeito. Foi pena que com a saída do Pastor este trabalho não tivesse continuidade. Na Congregação de Rio Novo também eram realizadas festas de batismo.
A irmã Emilia Andermann (nascida Kantzberg), tomava participação ativa na direção da Escola Dominical. De acordo com a opinião de W. Karklin, ela foi uma líder e sob a sua orientação a escola muito se desenvolveu. Tinha uma boa voz e gostava de cantar e com este dom servia no coro da Igreja, na parte musical da Escola Dominical e nos cultos de oração. Lentamente a Congregação foi se desenvolvendo satisfatoriamente.
Em um domingo por mês, com a participação da Junta das Missões, a Congregação realizava um culto onde se divulgavam noticias missionárias da China, Índia e outras partes do Mundo, quando no jornal doutrinário mensal “A Fonte” apareceram as primeiras notícias sobre o movimento pentecostalista de Los Angeles, dos Estados Unidos; movimento sobre o qual J. A Frey líder dos Batistas tradicionais da Letônia assinalou; “Se isto é verdade então esse movimento espiritual suplanta aquele dos Atos dos Apóstolos”. Nesta doutrina o pregador Andermann acreditou e aderiu, esperando obter estes dons espirituais de falar línguas estranhas, profetizar e curar os enfermos.
Assim pouco a pouco surgiu o desentendimento na interpretação doutrinária entre a Congregação e o Pastor. Por várias vezes os membros da direção da Igreja dialogaram com Carlos Andermann, solicitando para que ele continuasse a dirigir os trabalhos da Igreja como já vinha fazendo, mas em 29 de novembro de 1908 ele propôs a Igreja para convidar o Pastor Wiliam Butler para substituí-lo. Depois de uma despedida na qual foram apresentados cânticos e pequenas falas… nossos corações estão tristes por causa desta separação… o Pastor deixou o cargo, em boa situação econômica”.
Ainda transcrevendo as observações do historiador:

“Carlos Andermann tinha o diploma de ginásio do regime escolar do Tzar Russo. Antes de vir para o Brasil havia trabalhado na livraria de J. A Frey e também como Colportor (vendedor ambulante de livros). Enquanto viajou pela Rússia como missionário ele havia observado o extremo estado de miséria dos lavradores; mas o que mais nos impressionou como crianças era uma fotografia na qual ele aparece montando num cavalo árabe branco, vestido de “xeique”, com uma espingarda de cano longo nos ombros, que era uma lembrança da sua estadia na Palestina. A Junta Missionária Leta o havia mandado para lá, durante vários anos, a fim de converter os peregrinos russos que visitavam a Palestina por que era proibido fazê-lo na Rússia, mas ali na Terra Santa esta determinação era inútil. Lá ele adoeceu com uma febre tropical e a sua vida foi salva da morte graças aos cuidados de um centro missionário alemão. Esta enfermidade interrompeu o seu empreendimento na Palestina”.
“Emilia Andermann (nascida Kantzberg) na sua juventude trabalhou numa Fábrica de Tecidos. Uma senhora da nobreza alemã, Firsten Liven, deu-lhe a oportunidade de estudar numa escola de economia doméstica, para depois empregá-la na sua mansão da fazenda como administradora feminina. Ao mesmo tempo exercia a função de professora primária, mas sem receber salário, proibido pelas Leis do Tzar, por isto sendo recompensada em forma de presentes. Quando já no Brasil, recebeu a notícia de que um dos seus ex-alunos fora fuzilado pelos Kossakos, pelo crime de ter sido surpreendido hasteando uma bandeira vermelha na passagem do ano para 1905”.
Carlos Andermann quando emigrou para o Brasil, trouxe em sua bagagem uma vasta biblioteca sobre vários assuntos, nos idiomas letão, russo, alemão e inglês, incluindo enciclopédias, dicionários, tratados de teologia e pedagógicos.
Dominando vários idiomas foi fácil para ele assimilar a língua portuguesa que ele aprendeu através de um método de ensino moderno alemão. Então ele usou estes livros de ensino em alemão, incluindo o dicionário, para aprender o português, por que não os havia em letão.

Este sistema de ensino ele também usou na sua escola primária, ensinar primeiro o idioma alemão aos descendentes de letões e a partir daí, a língua portuguesa simultaneamente. Os alunos mais diligentes acabaram dominando os dois idiomas, mas os menos dotados e aqueles que ajudaram os pais, na parte da tarde, nos trabalhos da lavoura, ficaram no meio do caminho, também por que, naquela época, a língua alemã era mundialmente muito considerada, devido à expansão do Imperialismo germânico; mas não me consta que aqui a sua literatura tenha resolvido algum problema técnico ou estabelecido intercambio cultural com aqueles alemães que imigraram para Santa Catarina e que tinha pouca escolaridade.
Aqueles alunos que dominaram os idiomas podiam conversar com os alemães e os brasileiros e usá-las na prática como: comerciantes, construtores e artesãos de outras profissões.
A forte corrente de nacionalismo letão, no meio dos Batistas, se apresentou como um avivamento religioso. Nas aulas de Carlos Andermann também se aprendia o idioma letão, mas não com tanta insistência que conseguisse, a nacionalidade dos antepassados, imprimir no seu caráter.
A não ser a religiosa, não havia literatura accessível para praticar a leitura da linguagem escrita. O que se fazia e que na ocasião era o suficiente é que toda a mocidade conseguia se comunicar no idioma letão falado. Agora, as novas gerações evitam falar o idioma, por que não tiveram a oportunidade de aprende-la.
A influência da escola da Congregação Batista do Rio Novo deixou uma impressão forte em toda da redondeza. As famílias alemãs que habitavam o local, mandavam os seus filhos estudar naquela escola – embora por pouco tempo – por que eles não eram persistentes e muitas vezes mudavam de lugar. Entre os alunos havia um tal M. Cruz, de nacionalidade brasileira que adotou os costumes, o modo de vida dos letões e a religião Batista, aprendeu o idioma e os seus filhos, hoje encanecidos, ainda não esqueceram esta língua.
Uma menina de cor preta, oriunda de uma antiga família de escravos, por muito tempo trabalhou para uma família leta. Aprendeu a falar o idioma, adotou os

costumes. Depois casou e foi morar em outra localidade, mas apesar o isolamento ensinou aos 6 filhos a falar o letão.
Continuando a avaliação do trabalho do professor Carlos Andermann, devemos adotar como exemplo de que falou Cristo: “a árvore se avalia pelos seus frutos”. A juventude daquele tempo teve poucas oportunidades de estudar. O seu trabalho era derrubar florestas e arrancar raízes e tocos; mas apesar disto, muitos alunos do meu Pai progrediram como profissionais artesãos, comerciantes, professores, pastores entre os quais destaco o W. Leiman.
Mas o expoente máximo foi Charles Salit que exerceu o professorado em Nova York e alcançou o grau de professor de Filosofia e ficou amplamente conhecido como pensador e conferencista. Descrevendo a própria biografia, em várias páginas, ele lembra o “profundo caráter” de Carlos Andermann.
Então surge a pergunta – por que ele não se contentou em Rio Novo? A sua principal preocupação sempre foi à espiritualidade que lá não foi correspondida, mas apesar disto ele conseguiu realizar muita coisa, talvez mais do que os seus sucessores; mas certamente também lhe interessavam as várzeas marginais do Rio Mãe Luzia – aquelas planícies que prometiam poder ser cultivadas com técnica agrícola mais avançada. No entanto quando ele chegou, as melhores terras já estavam ocupadas e o que sobrou para ele, era plana, sim, mas também tinha charcos. Num país como Brasil onde a agricultura se caracteriza como seminômades (os lavradores cultivam a terra em sua superfície, mas esquecem as camadas mais profundas, por isto ela se esgota, eles se mudam e reiniciam o ciclo), o agricultor letão é uma exceção, por que se firma, constroem casas confortáveis cercadas de pomares e horta. Comentando o último período de sua vida no Estado do Rio Grande do Sul, pode-se dizer que ele alcançou o seu objetivo perseguido durante toda a sua vida – incluindo a idade bastante avançada.
Até o fim permanece o fiel cooperador dos Pentecostalistas (Assembléia de Deus), contribuindo na tradução de sua literatura dos idiomas inglês e alemão para o português.

Estes trabalhos que incluem hinos podem ser contados em milhares. Eles nunca foram colecionados e a maioria não traz o nome do tradutor.
Jaz no cemitério protestante da cidade do Rio Grande, numa sepultura perpetuada pelos filhos na intenção da colocação de uma lápide.

Traduzido do Letão em agosto de 1991 por Julio Anderman

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O PASTOR KARLOS ANDERMAN – SEGUNDA PARTE –

O PASTOR KARLOS ANDERMAN

2ª PARTE

DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS
Autor: Julio Andermann
Datilografado por Laurisa Maria Corrêa
Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
SEGUNDA PARTE

Professor? Não precisava mais ensinar as primeiras letras às crianças por que a vinda do Senhor estava próxima e instrução embotava a espiritualidade.
Ajudado por alguns membros da Igreja então adquiriu uma propriedade de uma colônia em Rio Mãe Luzia, tendo por limite numa ponta aquele rio, transparente, piscoso, que rolava num leito pedregoso entre cachoeiras e poços de águas mansas e profundas e que foi o meu amigo de brincadeiras durante a minha infância.
No mesmo local morava o meu avô Hans com a família onde restavam solteiros os filhos Rodolfo e Sigismundo e as filhas Tereza e Anna. Tereza a caçula da família nascera na mesma época que Lídia a primogênita de meus pais então a tia e a sobrinha tinham quase a mesma idade. Os dois lotes eram separados apenas por uma estrada que servia de limite.
A família do meu avô era abastada por que era dona do único moinho movida à água e também uma serraria e assim de longe vinham os colonos pra moer o milho e pilar o arroz como também cortar a madeira. Eles também possuíam uma ferraria para atender as necessidades locais de ferragens e serralheria. A mão de obra era paga ao moinho com 10% dos cereais em natura ou então mediante a conversão do valor em mil reis.
Até então eram todos membros da Igreja Batista cujo líder chamava-se Jacob Klava que era um radical seguidor da doutrina assim como ela fora transmitida há séculos.
Mas quando veio para aquele lugar o meu pai ele já decidido a insistir em fazer cultos e organizar reuniões de avivamento, onde durante muitas horas os crentes ficavam ajoelhados de quatro, com as nádegas para cima e a tônica temática, tanto da leitura do Evangelho como das fervorosas orações, era para o Senhor mandar o seu Espírito Santo conforme havia prometido e para receber esta graça buscava-se a purificação, o esvaziamento do próprio Ele, a fim de abrir o lugar para que esta força inundasse as mentes num êxtase que se manifestasse em todos aqueles dons descritos no Novo Testamento como seja: falar línguas estranhas, profetizar, ver visões, fazer milagres, mas sem a exigência de qualquer seqüência de causa e efeito; não importava que o linguajar ninguém entendesse, nem se comprovava se as nebulosas profecias se realizassem, ou se o milagre da cura realmente havia acontecido.
Da família do meu pai somente não aderiram o Emilio e a Lídia e da do meu avô, apenas o tio Sigismundo ficaram fieis a doutrina Batista, mas todos os outros se juntaram à nova seita por que o meu pai era considerado o intelectual do clã, o mais erudito, mais instruído, então a sua opinião prevalecia.
Ele então resolveu que a sabedoria mundana nada valia e lembro-me que a minha mãe queimava os livros como lenha para esquentar o forno de panificação doméstica, por que na sua opinião, seria mais interessante que esta literatura se queimasse do que as almas imbuídas das suas idéias enganosas ardessem nas labaredas do inferno.
Meu irmão Emilio que então tinha 13 ou 14 anos salvou alguns deles escondendo no mato e depois os entregou para serem guardados nas casas dos vizinhos; mas, conforme ele me contou depois, foi destruída uma vasta biblioteca constituída de livros doutrinários, enciclopédias, história, filosofia, ciência e ensino básico. O meu pai se convencera que a cultura não seria mais necessária por que, pelos sinais dos tempos, era eminente a vinda de Cristo que arrebataria apenas os crentes de corações limpos e não contaminados pelas coisas do mundo.
Como já disse: os meus irmãos Lídia e Emilio, não aderiram ao novo credo, mas depois que a coisa se aprofundou, certamente consideraram a doutrina Batista, como a base, o primeiro degrau desta escala que levou para aquela alienação mental, por que do seu meio saíram os seus primeiros seguidores, pois é próprio da natureza humana desprezar um todo por causa do suposto erro de um detalhe.
Assim a Comunidade Batista Leta de uma só vez perdeu mais de dez membros que se tornaram Pentecostais e além disto também várias famílias aderiram ao sabatismo; podendo se estimar em metade dos crentes que se afastaram. Então assim como acontece num rebanho que é invadido por um predador que agarra algumas ovelhas; o pastor somente consegue segurar algumas, as mais fieis, por que muitas outras se dispersam; assim também aconteceu lá, muitos indecisos ficaram balançando entre as crenças e acabaram perdendo a fé.
Não consta que tenham convertido algum incrédulo. Apanharam aqueles crentes que apesar de terem a certeza da salvação foram convencidos a tentarem emoções espirituais mais fortes, como se estas fossem um estagio superior, uma sobremesa do banquete espiritual e assim para satisfazer em uma emoção pessoal quase extinguiram o núcleo Batista naquele lugar.
Parece que o meu pai foi o primeiro doutrinador de Pentecostalismo no Brasil, mas devo dizer que naquele movimento ainda não entrou interesse pecuniário, a regra era dar de graça o que se recebesse de graça.
Na casa do meu avô havia uma sala destinada aos cultos Batistas, mas que depois passou a ser usada para aquelas reuniões de avivamento espiritual.
Naquela ocasião eu deveria ter a idade de 5 ou 6 anos, então me era permitido dormir o meu profundo sono de criança num quarto do lado. Quando de manhã eu acordava ia para sala ficava surpreso em vê-la cheia de detritos, latas velhas e numa ocasião até um cocho de dar comida aos porcos. Quando eu perguntei o porque? Responderam que era a perseguição do Kestrin Luris, que na minha imaginação tomei por um bicho papão, mas na realidade a curiosidade da vizinhança havia sido atraída por aquele vozerio de súplicas lancinantes: “Venha Senhor Jesus, mande o Consolador” num tom de exigência que se confundia com obrigatoriedade e eles por chacota haviam jogado todos aqueles objetos de noite pela janela para desestimular aquele escândalo e o Kestrin nisto entrava apenas como o chefe; mas os Pentecostais comparavam estes excessos com a perseguição dos crentes no inicio do cristianismo e como sinal inequívoco de que estava próximo a chegada dos dias finais.
Meus pais não se conformavam por que daqueles dons descritos no Novo Testamento nunca conseguiram uma manifestação pessoal, mas admiravam estes fenômenos nos outros. Hoje penso que foram sinceros, não sabiam fingir, esperavam uma manifestação verdadeira de transe espiritual que nunca conseguiram por inexistente naqueles termos.

Meu pai mantinha correspondência com outras comunidades Batistas Letas para divulgar o Pentecostalismo e principalmente com uma localizada no Rio Branco, nas proximidades de Jaraguá do Sul. Um dia chegou a notícia através de uma carta que havia um outro grupo procurando o avivamento espiritual através da doutrina de Pentecostes, num lugar chamado Linha Telegráfica. Lá já tinham conseguido as manifestações espirituais aguardadas e havia uma profetiza, a tia Ida [Strauss] e que ela intermediara uma mensagem marcando o dia em que Cristo desceria dos céus em toda a sua glória para arrebatar aqueles crentes reunidos e vigilantes].
Não me lembro dos detalhes, mas a nossa família na integra, meus avós e meus tios, abandonaram todas as propriedades; alguns de navio e outros mesmo em carroças puxadas por cavalos viajaram para aquele local.
Era um sítio inóspito, banhado cercado de morros e ameaçado de malária. Lá todos se reuniram numa comunidade imitando aquele ideal dos primórdios do Cristianismo descrito nos Atos dos Apóstolos. Construíram alojamentos, trabalhavam cooperativamente no cultivo de alimentos necessários a sobrevivência, vigiavam e oravam a espera do glorioso dia da vinda do Senhor.
Liam a Bíblia escolhendo aqueles versículos que davam apoio ao seu fanatismo e nas horas de lazer e durante muitas horas, de joelhos no chão e apoiados nos cotovelos, em circulo, oravam insistentemente pedindo a manifestação do Espírito. Quando um crente terminava com o amém o outro ao seu lado direito emendava, enquanto outros diziam “aleluia”.
Descobriram no Evangelho de que os Crentes deveriam confessar-se uns aos outros; então nesta mesma postura contavam as tentações a que teriam sido expostos. Na ausência de atos pecaminosos valiam aqueles praticados no pensamento. Qualquer dúvida quanto à legitimidade doutrinária desta iniciativa deveria ser declarada em público, desaprovada por todos os presentes e o culpado confesso compelido ao arrependimento.
No Apocalipse também consta que “eles cantarão um cântico novo” interpretando esta frase literalmente. Em conseqüência foram jogados ao chão todos o hinários tradicionais; balbuciando a comunidade qualquer coisa em qualquer tonalidade numa gritaria ensurdecedora.
A minha irmã Mely gritou tanto que acabou danificando as cordas vocais. Foi ela também que adolescente, com um alicate arrancou uma coroa de ouro que lhe revestia um dente e o jogou numa touceira de bananeiras, pois Deus tinha o poder de fazer nascer dentes novos.
Lembro-me de uma urna funerária pintada de branco guardada no sótão a vista de todos que se destinava a uma menina chamada Tabita, por que a profetiza havia previsto a sua morte; moça esta que anos depois encontrei em Varpa gozando perfeita saúde, mas a credulidade era tanta que na certeza do desfecho fatal, anteciparam a construção do caixão.
O fim desta história é fácil de se prever. No dia marcado Cristo não apareceu embora os fieis estivessem em vigília até o sol raiar no dia seguinte. [Estes fatos aconteceram aproximadamente na década de 1910 e também não constam nos Livros de História da Assembléia de Deus.]

CONTINUA…

O PASTOR KARLIS ANDERMANIS – IGREJA BATISTA DE RIO NOVO -1905 –

O PASTOR KARLOS ANDERMAN

1ª PARTE

DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN UM DOS SEUS FILHOS
Autor: Julio Andermann
Datilografado por Laurisa Maria Corrêa
Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman

O meu pai Carlos Andermann e minha mãe Emilia Kanzberg Andermann, junto com um casal de filhos, em 1905, emigraram da Letônia para o Brasil, com destino a uma Colônia que se estabeleceu em Rio Novo, nos arredores de Orleans e Lauro Muller em Santa Catarina. Sua missão era pastorear a Igreja Batista e de professor da escola primária.

Antes disto, o meu pai ainda solteiro, fora mandado pela Sociedade Missionária Batista Leta para Palestina a fim de cercar, naqueles lugares santos, os peregrinos russos em território neutro e pregar o Evangelho para eles que lá iam buscar graças e pagar penitencias, por que no Império Russo, ao qual pertenciam os paises Bálticos, não se permitia proselitismo religioso fora do recinto das igrejas.
Então o meu pai criou um estilo pessoal de abordar aqueles turistas individualmente ou em pequenos grupos, cativar o seu interesse e transmitir a mensagem da salvação. Esta maneira missionária de evangelizar depois ele empregou durante toda a vida.

Era um homem culto. Podia se comunicar em inglês, alemão, russo e por fim no idioma português. Sabia grego e lia fluentemente em hebraico, que havia aprendido o seminário para interpretar melhor as escrituras.
Naquele tempo os Batistas estavam começando a evangelização na Letônia, como também no Brasil, apoiados pelos recursos das Sociedades Missionárias americanas.

Letônia era eminentemente Luterana e aquela denominação tradicionalista nos seus cultos usava mais ou menos os mesmos ritos da igreja Católica. Cantavam os velhos corais de Bach; a maioria dos seus membros visitava a Igreja quando eram batizados, quando casavam, batizavam os filhos e por fim, no próprio funeral.
A preferência pela religião Luterana foi à conseqüência da colonização da Letônia pelos Junkers alemães que a ocuparam depois da Reforma e independentemente de qualquer opção pessoal do povo que passaram a dominar, mandaram batizar todos e depois os pastores doutrinavam insistindo naquelas idéias que facilitavam a servidão – a vinculação do homem a terra e obediência aos seus senhores. Não foram convertidos e por isto continuavam na vida mundana com todos aqueles excessos de vícios e maus costumes, que transmitiam as novas gerações.

Então vieram os Batistas com aquela teoria da Salvação, entoavam aqueles hinos brilhantes do Ira D. Sankey magistralmente traduzidos para o idioma Leto e aquela gente que cantando nasce, cantando cresce e cantando leva à vida – foi sensibilizada e não há outro meio mais eficaz de chegar-se à alma humana do que através dos cânticos harmoniosos, rítmicos e bem entoados.

Mas o entusiasmo dos evangelizadores Batistas tinha ainda outro motivo de insistir nesta conversão, por que a religião Ortodoxa, a oficial da Rússia naquele tempo tinha uma conotação de obscurantismo, do qual a maior expressão foi o monge Rasputin, infiltrado na família imperial. Então os crentes acompanhavam o seguinte raciocínio:
“Se nos grandes países tais como Inglaterra e América do Norte, onde”.
predominavam os Evangélicos com a sua moral havia prosperidade
e abundância, então também o mujique, através da luz do evangelho,
poderia fazer surgir na Rússia aquele progresso espiritual e “material”.

Durante a sua estadia na Palestina o meu pai tinha estudado Teologia num Seminário Teológico Luterano alemão situado numa Missão na Palestina, por que ainda não havia este curso na Letônia.

Era músico, poeta, escritor. Escreveu um livro sobre a Palestina intitulado “Terra de onde emana Leite e Mel” do qual não sobrou nenhum exemplar.

Escolhido pelas características da sua personalidade para aquele trabalho permaneceu na Palestina por 4 anos, de onde mandou também reportagens para a imprensa e teve de deixar aquele posto por que contraiu uma febre maligna, razão pela qual retornou para a terra natal.

Minha mãe Emilia Kanzberg Andermann era filha de madeireiro, homem grande, forte, querido das mulheres, dado a bebida e a dança do sabre e outras extravagâncias.
Ela possuía uma bela voz que me fez lembrar a da Janete MC Donald. Apaixonou-se por aqueles lindos cânticos, converteu-se ao evangelho, foi batizada, mas, por que contrariou a opinião doutrinária Luterana de seu pai, foi expulsa de casa e deserdada. Mudou-se para Riga, foi acolhida pela Comunidade Batista, trabalhou e fez um curso noturno de Administração do Lar – com noções de medicina, primeiros socorros e parto. Sabia identificar pelos sintomas, as doenças endêmicas tais como: crupe, sarampo, coqueluche. Gerou 6 filhos, sendo 3 homens e 3 mulheres, que todos cresceram e alcançaram a velhice, com exceção do Teófilo, que faleceu nos Estados Unidos.

Os meus pais casaram na Letônia onde tiveram dois filhos, os outros quatro nasceram no Brasil. Enquanto ainda na Letônia o meu pai cooperava com a Junta Batista como missionário itinerante a minha mãe o acompanhava implantando escolas dominicais.
Quando ele contraiu pneumonia provocada pelos rigores do clima nórdico, para facilitar a sua convalescença num clima tropical, a Junta Missionária Batista o mandou, junto com a família para o local que já foi mencionado.

Vale dizer que na mesma época, somente um pouco antes também veio para o Brasil como Missionário o Pastor Klavin designado para Ijuí no Rio Grande do Sul, o pai do eminente professor e médico Dr. Alexandre Klavin, diácono recentemente falecido, da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, que era nosso parente afastado.

Muito bem! Então a família do meu pai cruzou o Oceano numa viagem de vapor até Laguna, de lá pegou o trem da Estrada de Ferro D. Teresa Cristina até Orleans e depois num carro de bois foram levados para o novo lar em Rio Novo.
Vizinha, distando cerca de 12 horas a cavalo, havia uma outra colônia Leta de Mãe Luzia onde também havia uma dezena de famílias, que às vezes se visitavam. As terras destas colônias eram pouco férteis e ficavam longe da civilização.
A aventura desta imigração consistia em duas motivações:
1ª a espiritual: ٠formar um grupo de Batistas coeso onde uns eram vizinhos dos outros sem a interferência de doutrinas estranhas para abalar a fé;
٠evangelizar os habitantes da terra para convertê-los a doutrina Batista com mesma finalidade que tiveram na Rússia, evangelizar as mentes no intuito do progresso material.
2ª a material: ٠posse e ocupação de uma gleba de terra em seu nome que pudesse ser transmitida por herança aos filhos, aspiração impossível na Rússia.
O meu pai veio com a dupla missão: – ser o professor da escola primária para alfabetizar os filhos dos imigrantes; ser o Pastor da comunidade Batista. A minha mãe cooperaria na organização da escola dominical e ajudaria na prestação de primeiros socorros em virtude dos seus conhecimentos de medicina; fazendo partos, na ausência de uma outra alternativa melhor.
A Igreja Batista Leta do Rio Novo estava edificada na encosta de uma elevação [Ao pé da encosta e não na encosta] onde em cima havia o cemitério da comunidade.
Descendo do Templo uns 20 metros adiante para uma ravina havia uma fonte de água cristalina que jorra até hoje [Eram bem menos de 20 metros, talvez uns dez metros. Era chamado de “Avotin” isto é a pequena fonte. No meu tempo tinha sido feito um muro de pedras onde tinha sido introduzido um tubo de ferro de aproximadamente 1. ½” por onde a água escorria de uma altura de 50 centimetros. Também eram de pedras o leito e as calçadas de ambos os lados onde a água caia. A parte superior era fechada com uma grande pedra chata. Aos domingos era trazido um copo para uso comunitário e que se destinava a mitigar a sede dos seus membros] e também para lavarem os pés, calçarem as meias e os sapatos que traziam pendurados no pescoço enquanto vinham descalços pela estrada enlameada que destruía o calçado [Era sim pela economia, mas também pela dificuldade de andar no pântano, a pronúncia era sem o acento. Pois se alguém arriscasse a enfrentar lamaçais de palmo ou mais o calçado ficaria preso no fundo. Naquela época não existiam as botas “Sete Léguas”.]. Faziam isto para assistir ao culto dominical descentemente trajados e com os pés calçados. Terminado o culto e depois o ensaio do coro que duravam até as 14 horas, descalçavam os sapatos, davam nó de laçada nos seus cadarços, penduravam-nos novamente no pescoço e voltavam para as suas casas.
Era uma medida de economia que acabava saindo caro por que a anquilostomose, verme que penetrava pela planta dos pés e depois se localizava no intestino, trazia uma doença que se chamava “amarelão” deixando as vítimas exangues e até matava; isto antes do Monteiro Lobato ter escrito o “Jeca Tatu” e Rockfeller destinar uma verba para a erradicação desta moléstia no Brasil.

O meu pai como Professor deve ter sido muito eficaz. Lembro-me que um ex-aluno me contou que havia aprendido com ele a calcular na cabeça a grande tabuada que se destinava à multiplicação de fatores de dois dígitos.

Não tenho nenhuma notícia sobre o pastoreio do meu pai exercida naquela Igreja por mais de cinco anos. Creio que com o passar do tempo ele foi esmagado pela frivolidade daquela congregação e não era para menos, pois todas as horas do dia eram poucas para cultivar aquelas terras magras que se esgotaram com as primeiras colheitas. Com a chuva o solo ficava lamacento por que por baixo havia uma camada de carvão de pedra, conforme foi descoberto mais tarde e então era necessário duplicar o esforço para arrancar dela os meios de subsistência para uma existência digna, posto que aquele solo era impróprio para ser arado e assim tudo era plantando a custa de ferramentas manuseadas pelo braço humano.
Desta época na minha memória ficou guardado um sonho que o meu pai contou várias vezes. Neste sonho ele viu um homem pálido pregando no púlpito daquela Congregação Da Igreja Batista de Rio Novo, mas todos aqueles membros cujos nomes ele mencionou, mas que o tempo apagou da minha memória, estavam distraídos conversando entre si não lhe dando a mínima atenção.
Então o homem pálido que pregava naquele sonho lhe dissera: “Este mundo se acaba e a eternidade se aproxima e esta gente não quer ouvir falar de Jesus Cristo e tu Carlos, vai e diga isto para eles”.

Foi naquela época que começou a expandir-se pelo mundo a doutrina de Pentecostes, vindo até o meu pai da Alemanha e dos Estados Unidos e ele se deixou se empolgar por aquela doutrina que vinha divulgada em revistas artisticamente ilustradas em cores e impressas em papel da melhor qualidade. Em tese eles insistiam que na Trindade Divina o maior peso devia ser dado ao Batismo pelo Espírito Santo; Pentecostalismo do qual o meu pai passou a ser maior divulgador pela tradução daqueles textos.
Destacou-se principalmente a doutrinação de uma tal de Emmy Mc Pherson, uma senhora muito bonita nos retratos, que muito especialmente empolgou o meu pai. Ela era uma grande líder da seita nos Estados Unidos onde possuía um gigantesco templo. Anos depois li nos jornais a noticia de que ela havia sumido. Surgiu a hipótese de seqüestro para extorsão de um resgate por que a seita tinha muito dinheiro, mas em noticiário posterior ficou esclarecido que na realidade ela fora encontrada num Balneário em companhia de um playboy, viciada no uso da morfina.

Certamente o meu pai contou aquele sonho na Congregação e foi mal interpretado, insistiu, não foi atendido desligou-se da Congregação Batista e mudou-se com a família para a Colônia Leta do Rio Mãe Luzia, não mais como Pastor Batista e Professor, mas como inflamado divulgador do Pentecostalismo [É uma pena que os historiadores que escreveram a história da igreja Assembléia de Deus não mencionem este fato].
Continua…

Não foi sucesso por causa de um imenso temporal. | De Olga Purim para Reinaldo Purim – 1922

Rio Novo 7 de novembro de 1922

Caro Reini: Saudações!

Recebi a tua carta escrita no dia 19 de outubro no Domingo passando. Obrigado! Mas parece que ficou muito prosa com os teus trabalhos tão importantes.

Que tanto você vai a igreja todas as noites. Isto pode ser até demais. Não tem outras pessoas para ajudar fazer o trabalho. Ter que falar todas as noites e ainda se preparar para falar isto sem nenhum descanso.

Onde está o heróico Jahnis Klava? Sabe-se aqui que ele é merecedor de todas honras possíveis e já teria terminado a Escola Militar e feito ainda outras proezas.

Obrigado pelo convite para a festa, mas quando as festas são realizadas em Salões eu não acho vantagem. Outras por que, as festas, são sempre as noites? À noite nós sempre estamos com sono. Resumindo, não vai dar desta vez de ir; quem sabe na próxima.

Também você não veio na Festa da Mocidade no mês passado. Eles tinham aprontado tudo para ser uma boa festa e você nem assim não veio. Foi uma festa muito boa. O tempo estava muito bom e quem dirigiu foi o Emilio [Anderman]. Mensageiros de outras igrejas não vieram, mas muitas cartas e telegramas. Não vou escrever sobre a festa, pois os outros escrevedores vão escrever como tudo transcorreu.

Somente vou contar que a União das Jovens e dos Jovens foram reunidas em uma só, ficando como União de Mocidade da Igreja. Isto ocorreu no dia 8 de outubro. Os argumentos são que em outras localidades assim já funcionam melhor. Também estão prometendo reuniões semanais com outros temas facilitando os jovens a se desenvolverem etc. Vamos ver como vai ficar.

O Deter esteve aqui, mas somente um culto de Domingo à noite. Não foi aquele sucesso por causa de um imenso temporal. Logo em seguida ele foi a Tubarão onde foram grandes os cultos realizados. Até o Coro daqui da Igreja foi até lá para cantar.

Hoje a minha carta não está rendendo por causa do sono. Se você souber algum remédio para o sono… então, pode mandar. Ai eu escrevo mais. Este ano tudo, mundo anda bastante sonolento. Também os outros estão escrevendo então você terá bastante o que ler. –

Logo as tuas aulas vão terminar e ai você poderá viajar para casa, descansar bastante, engordar, pois na foto que você mandou ano passado estás magro demais e é possível que este ano estejas mais magro ainda.

Como é que os outros americanos tiram férias e vão para América então você muito bem pode vir passar as férias em casa. Ainda temos muitas laranjas e os pêssegos estão começando a madurar. Você vai gostar.

Para os nossos parentes na Letônia você mesmo poderá escrever. O endereço deles é: Europa Latvia Estação de Latgale Correio de Korjowka Kokorewa Mahlu kalnu majas Andrejis Purens [Mahlu kalnu mahjas traduzido é: Casas ou moradias da colina do barro]. Este endereço tão longo quanto uma légua você pode escrever em leito.[ O endereço está na ordem inversa] Como você já é professor vai ser fácil para entender.

Com saudações. Olga. –

(NT – Esta sonolência dela é sintoma de alguma moléstia)