Agora nos estamos passando suficientemente bem. | De Lucija Purim para Reinaldo Purim – 1927 –

Rodeio do Assucar 27 de julho

(Não esta grafado o ano, mas pelo contexto infere-se ser de 1927).

Querido irmãozinho!

A tua carta escrita em 19 de maio recebi. Muito obrigado. Agora o envio e recebimento de cartas não são como antigamente como quando você morava no Rio de Janeiro, pois naquele tempo as cartas iam e voltavam rápido, mas agora demoram até 3 meses ou mais e quando elas se desencontram ai a gente cansa de esperar por elas e às vezes passa o mês sem que a gente receba carta alguma.

Nós agora estamos passando suficientemente bem. Todos mais ou menos sãos, agora eu peguei uma tosse muito forte, mas não fui para a cama. Na semana passada sim o Paps foi para a cama, mas agora já está bom. No final do mês passado o Arturs ficou doente com a febre [Deve ser malária, pois esta doença era comum ainda quando eu era pequeno e morava lá.]. Ficou de cama algumas semanas e tanto que eu tive que ir a Orleans em busca de remédios para ele, então depois ele sarou, mas a febre está atacando a muitos por ai.

Agora o tempo está bom e está frio, já faz quase um mês que o tempo se mantém bom e muito frio e toda manhã amanhecia tudo branco. Agora tudo está morto queimado pelas geadas. O gado não tem nada verde para comer. Agora na semana passada ficou um pouco mais quente e no sábado a tarde veio uma chuva, mas no outro dia que o tempo amanheceu limpo e está geando outra vez. Estou um tanto cansada de tanto frio e gostaria que fosse um pouco mais quente, mas nem tudo que uma pessoa quer nem sempre acontece. Um inverno frio como este fazia muito tempo que não acontecia como está sendo este ano. Deverá haver a partir de agora um bom verão. Não deverá haver tantas lagartas e besouros que comem as plantações e assim podem se desenvolver melhor. Aqui os italianos dizem que se não há um inverno rigoroso, então no verão nada se desenvolve bem. Agora eu não concordo inteiramente porque no ano passado não tivemos um inverno frio e as plantações para nós foram ótimas.
O milho já está todo colhido e guardado nos paióis, portanto poderemos tranquilamente comemorar a Festa da Colheita. Este ano o milho desenvolveu-se muito bem e muito melhor que no ano passado, pois colhemos 35 carradas [Em um carro de boi cabiam x jacás ou balaios de milho tanto se fosse usada a seve que era uma cobertura lateral e também frontal fixa aos fueiros feita de taquara e cipó de um metro de altura fazendo com que o aproveitamento da mesa do carro de boi fosse totalmente otimizada para o transporte do mesmo ou se fosse usada a armação gradeada de madeira que tinha a mesma finalidade, mas em vez de ser uma peça flexível era composta de duas laterais com encaixes apropriados para duas tampas uma dianteira e outra traseira, mas também fixada nos mesmos fueiros.] e em todas as roças as espigas eram grandes quase não sobrando restolhos [Restolho era uma segunda espiga do colmo ou uma não bem desenvolvida usada naquele tempo para alimentação das vacas e isso era feito enquanto eram ordenhadas. Não eram dadas espigas grandes porque elas podiam engasgar e se afogar. Naquele tempo lá não existiam os desintegradores e quando não havia espigas pequenas as normais eram cortadas com facão ou machadinha. Como o milho era armazenado do modo que chegava da roça era feita catação na hora da necessidade e muitas vezes quando a noite no escuro devido a falta de luz a avaliação era feita baseada no tato] para alimentar as vacas.

No mês passado no dia 26 morreu o velho Auras, ele ficou doente vários meses. A doença dele começou com um resfriado e apesar dos familiares acharem que ele iria sobreviver e ficar bom, pois ele não era tão velho, pois tinha somente 56 anos de idade, mas agradou ao Senhor leva-lo para a sua nova habitação e a sua glória. Resta o desconsolo dos familiares e amigos.

O pastor Stroberg na semana passada esteve em Mãe Luzia acompanhado de músicos e cantores que foram dar apoio ao seu trabalho. Depois foram também à Laguna também fazer trabalho de evangelização. Voltaram para casa muito felizes porque o trabalho foi um sucesso. Em Laguna eles foram agraciados com a cessão do Teatro inteiramente grátis então houve um grande auditório de gente atenciosa e ainda solicitando para que fossem outras vezes. Também tiveram um grande apoio de uma distinta família presbiteriana que ajudou a providenciar o auditório e divulgar as atividades. Para o pastor Stroberg as portas estão abertas em toda parte e só ir trabalhar, mas como pode uma pessoa sozinha fazer tudo e ainda mais complicado devido as grandes distâncias e assim dificulta o acesso.

Na semana que vem é esperado o Missionário Deter aqui. Vamos ver se vem mesmo, pois algumas vezes têm prometido e não tem conseguido vir.
No dia 22 de junho viajou para o Rio de Janeiro o Alexandre Klavin acompanhado o Wiktor Staviarsky. O Alexandre vai para o Colégio aprender ser Professor.
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Então depois de passado um bom tempo que eu comecei escrever esta carta, já há mais de um mês então tenho que continuar. Na semana passada recebi a tua carta escrita no dia 24 de julho e por ela muito obrigado e fiquei feliz por que você respondeu rápido. Eu nunca tinha sido tão preguiçosa como agora, mas também não vou ficar me desculpando como faz a Lilija [Lilija Purens a prima de Nova Odessa] Tenho ouvido falar ai por outras pessoas que a Lilija ficou noiva de um Fulano de tal, mas para nós ninguém escreveu nada. Vou ter que escrever e perguntar se é assim mesmo.

A festa de aniversário da Igreja [O aniversário da Igreja era dia 20 de Março]foi muito boa, o programa bastante extenso. Chovia torrencialmente, mas o templo ficou repleto e quando tem café grátis com acompanhamentos então ainda mais fácil vir muita gente. Tinha 3 visitantes de Mãe Luzia e um de Kuritiba que é o pastor de lá o Djalma Cunha, Ele trabalhou muito no Norte do Brasil e estudou no Seminário Teológico de Recife e agora está em Kuritiba. Ele é bastante jovem e ativo tem 33 anos e a cor morena queimada pelo forte sol do Nordeste. Ele veio uma semana antes da Festa, sem ninguém estar esperando e foi embora uma semana depois. As lições que o Pastor Djalma Cunha ofereceu no Instituto Bíblico foram ótimas e valeu a pena mesmo, lamentável foi que coincidiu com a época das grandes enchentes, pois chovia sem parar e assim muitas pessoas não puderam vir. Também havia planos para fazer cultos de evangelização em Orleans e pelo mesmo motivo deu em nada. O Pastor Djalma prometeu voltar no mês de outubro por ocasião da Festa de Aniversário da União da Mocidade e também quer apresentar um Curso baseado no livro “Manual da Mocidade”.

Depois do Instituto no dia 22 de março houve o Casamento do Willis Slengmann com a Elvira Salmin Stroberg que era viúva. Então você pode imaginar todo povo marchando num imenso lamaçal para a casa dos Slengmann. Agora eles não moram lá dentro onde eles moravam antes e sim desceram para lá um pouco acima do passo do Rio Novo [Neste lugar onde os animais, carros de boi, arranhas e galeotas passavam por dentro d’água. Somente os pedestres e os cachorros passavam por uma pinguela. O meu pai que trazia mercadorias da Estação da Estrada de Ferro para a venda do Tio Eduardo Karp neste lugar muitas vezes teve que passar toda mercadoria nas costas devido o rio estar cheio demais].
Já no meu tempo quem morava ali era o Eugenio Elbert casado com a Alida Slengmann e continuavam com a atafona moendo milho, sal, etc. e também tinham uma trilhadeira onde nós levávamos trigo cortado para ser debulhado. [Ao redor da casa havia muitas árvores europeias como bétulas, plátanos etc.]. Ele mora agora onde o outro Slengmann tinha uma atafona junto ao Rio Novo onde que a gente sempre tem que atravessar.

Durante a Páscoa o tempo esteve bom e muito quente como fosse pleno verão, raramente houve calor assim, mas depois começou a chover outra vez. As Festas da Páscoa transcorreram calmas por que o Pastor tinha ido a Mãe Luzia e nós aqui ficamos sem o Pastor. Ele ainda foi a Laguna. Em Laguna o trabalho vai em frente apesar de com tanta rapidez não é possível fazer obras grandiosas. Se lá tivesse um obreiro fixo então teria muito mais oportunidades de que o trabalho fosse para frente rápido e não como hoje quando as viagens são quase esporádicas. O Pastor Stroberg tem muito trabalho então ele convide e convoca outras pessoas para o auxiliarem, mas as dificuldades são que muitos lugares são distantes e de difícil acesso. Na semana que vem o Pastor planeja ir, a Urubici, no outro lado das Serras. Ele quer visitar os Grikis e os velhos Bruvers. O mano Artur está planejando ir junto e vamos ver se vai mesmo.

Não me lembro se já escrevi sobre o casamento do Werner Grikis com a Elza Sanerip no dia 30 de setembro do ano passado.

A senhora Klavin da “mata [Mejza Klavene – Distingue a Senhora Klavin que morava no Rio Novo (Katy) da outra que morava lá no interior da Invernada –nas matas. Esta senhora era da família Malvess e antes fora casada com o Simpson que depois de viúva casou com o Klavin.] está muito doente e não sei se vai sobreviver, ela sempre foi um pouco doente, mas não tão gravemente com agora, pois agora sempre está de cama.

Junto com esta estou mandando uma fotografia de um piquenique no pasto do Augusto Felberg e a outra é do coro da Igreja do Rio Novo. Agora não está mais tão grande. Você ainda pode reconhecer alguém? Quem está sentada ao lado do Osvaldo Auras é a Lídia Stoberg irmã do pastor.
A terceira fotografia a pessoa [Deve ser do Eduardo Karp, naquela época, namorado dela.] que aparece se você não a conhece não tem importância ele também quer conhecer você melhor e manda muitas lembranças e votos de bem estar.

Se na América onde você está tem pêssegos e melancias deliciosas então mande as sementes para nós plantarmos aqui. Tudo o que for bom e barato pode mandar. Também cartões e outras publicações onde aparecem os lugares onde você está também pode mandar. Quando você vem para casa? Pelo que eu deduzi das suas últimas cartas você está pensando vir para este lado.
Bem desta vez chega de “imprimir”, pois já está uma longa carta e eu também não tenho mais papel. Aquela carta escrita para o Arthur foi recebida há muito tempo. Ainda lembranças de todos aqui. Agora fico aguardando longa carta sua. Lucia.

(Escrito na lateral)
O endereço do tio André é o seguinte:
Ratujza Iela N.17 – Jaunjelgava – Latvija.
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Estou assorberbado de trabalho durante o dia e parte da noite.| De Artur Purim para Reynaldo Purim – 1927 –

Rodeio do Assucar 15-4-1927

Querido Irmão

Primeiramente envio muitas lembranças de nós todos e desejo uma Festa de Páscoa muito alegre celebrada em companhia dos crentes que se alegram por que Cristo ressuscitou.

A tua carta escrita no dia 20-2 recebi no sábado passado e pela qual muito obrigado. Já são duas as cartas que recebi sem que tenha respondido. Sobre aquela primeira pouco sei o que posso responder. Dizer que a recebi etc.. Faz bastante tempo que a recebi. Hoje como é Sexta-feira Santa [Leelaja peekdeena igual à Sexta-feira grande] e para o culto eu não fui, mas fiquei em casa para poder te escrever alguma coisa, pois em outros dias a gente não tem tempo. Estou muito assoberbado de trabalho durante o dia e parte da noite. Como você sabe este ano nós vamos fazer mudança desta casa para o Rio Novo com todos os pertences e animais, portanto já estamos levando aos poucos uma coisa e outra para que depois não sobre tanta coisa para levar e por isso estou com serviço demais para levar esta imensidão de coisas e nem sabemos onde nós vamos amontoar tudo isso e deixar nós não queremos e vender não dá, porque ninguém quer comprar. E todas estas viagens eu faço a noite por que durante o dia a temperatura está muito alta e também não teria tempo durante o dia por que o carreteiro sou eu sozinho e em alguma noite quero ir para Igreja e nos sábados à noite vou aprender violino com o Puijchel do Augge [Deve algum filho do Augusto Felberg] e ainda sou sócio da Sociedade de Música e assim você pode imaginar como se desenrola a minha vida por aqui. Assim não sobra muito tempo para escrever cartas nem coisas similares. Se houvesse alguma noite vaga iria aprender brasileiro, inglês etc. nas aulas uma vez por semana dadas pelo Stroberg. Cada Aula custa 500 réis por noite.

Agora vou escrever sobre um assunto do artigo que quero comprar isto é uma bicicleta para facilitar as locomoções. O pessoal de casa protesta dizendo que este tipo de máquina é desnecessária etc. Eu tenho avaliado bem este assunto e acho que será muito útil. Tenho pensado muito se ele tem direito de fazer esta campanha contra ou eu não tenho direto de usufruir nada. Será que eu sou diferente de qualquer outra pessoa de casa. Será que eu não tenha trabalhado diligentemente. Ou será que não vale a pena se esforçar e trabalhar dia e noite para depois não poder usufruir nenhum benefício. E se houvesse um motivo e este motivo fosse explicado. Se eles não gostam deste equipamento, mas eu gosto e assim não deveriam proibir. O Paps diz se eu tenho tanta “fome” de andar de bicicleta, será que eu vou continuar com vontade de derrubar as matas e capinar as roças? Aqui faltam mais esclarecimentos. Por que somos cristãos se nós não queremos levar esta luz para os outros ou o Evangelho é somente para nós? Como eu já escrevi sobre o trabalho missionário em Grão Pará no qual eu fui no mês passado. Os cultos são bem concorridos apesar de ser um lugar onde os católicos são os mais ferrenhos nestas redondezas. Neste dia eles os padres também tinham as suas missas, mas a humilde casa do Avelino esta totalmente tomada inclusive gente do lado de fora. Também há os que nem chegam nem perto. Na próxima vez vamos eu e o Stroberg e as reuniões serão em outro ambiente bem maior e mais no centro. É um trabalho muito interessante se bem que longe e a cavalo são 4 horas de viagem bem andadas. Por isso eu quero comprar uma bicicleta e com ela fazer o trabalho lá, pois a topografia da estrada é relativamente plana.
[Carta do Artur, da qual falta o final].

Aqueles remédios para a Olga já recebemos faz tempo…| De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rio Novo 8 de abril

Querido maninho! Saudações!!

Recebi a tua carta escrita em 15 de março no dia 1o. de Abril pela qual agradeço muito. Bem agora não quero me demorar em responder e nem me desculpar como você tem feito. Eu provavelmente tenha também tenha seguir ao seu exemplo e responder as cartas semanas depois. Você diz que não consegue tempo para escrever imaginemos nós aqui. Você não conhece ou já esqueceu de nossa vida atropelada aqui e tudo parece estranho. Também não tenho tempo de escrever, pois serviço tenho em toda parte e tanto que não consigo dar conta. Tenho ir de uma casa para outra e tão exausta que não tenho nenhuma vontade de ir para cá e para lá, tenho até tonteiras e a minha cabeça fica zonza, mas tenho que enfrentar sempre, pois não tem outra pessoa que os façam. E certo que não tenho estes trabalhos de ir fazer visitas e passeios outros.

O tempo agora está quente e chuvoso, chove todo dia, ronca trovoada e pela manhã um sol causticante. No mês passado teve uma seca tão forte que até começou secar os pastos, mas agora chove todo dia.

A festa do Aniversário da Igreja [Dia 20 de março] faz tempo que passou. O dia estava muito quente. A festa foi dirigida pelo Oskar[Oscar Karp ]. O programa foi bastante longo, foram apresentados belos hinos, poesias e mensagens. Também muitas cartas e telegramas de outras Igrejas e outros lugares. Quando terminou a Festa e o povo, ia embora caiu um grande temporal, mas no outro dia já estava tempo bom.
A Páscoa também já passou, desta vez a chuva começou já na quarta-feira e choveu durante todas as Festas. Vieram visitas de Mãe Luzia os da família Klava e a Selma Anderman. Eles saíram com uma carroça com cavalos de lá de Mãe Luzia. Vinha o Zigsmundo [Andermann] e sua esposa e também a mãe dele. Eles tiveram que voltar de Urussanga porquê a estrada estava molhada e tão lamacenta que os cavalos não agüentaram. Então estes Klavas e a Selma Anderman vieram a pé de Urussanga para cá.

A União da Mocidade vai bastante animada, o Alex [Alexandre Klavin] um dirigente muito operoso e muito bom líder. As noites organiza programas de apresentações, dividiu os membros ativos em 4 grupos e cada um deles tem na sua vez ir à frente e fazer os seus programas. Também existem os Estudos Bíblicos e quem dirige é o Alex. Agora estamos estudando a Terceira, parte do “Manual Normal”. Logo o Coro Jovem deverá começar os ensaios para as Oitavas de Pentecostes, pois este dia está reservado para os Jovens. Você também poderia vir e também trazer a sua contribuição em hinos.

Aqueles remédios para a Olga já recebemos faz bastante tempo, por eles muito obrigado. Agora não podemos pagar, mas quando vieres para, ai sim. É uma pena que não serviram. Também não fizemos nenhuma pesquisa maior se bem eu queria ir falar com o médico ou com o farmacêutico, mas a Mamma não quis e disse que era a mesma doença do velho Stroberg e ele ficou bom. Mas só agora quando fomos ao farmacêutico ele disse que não era o mesmo mal que teve o Stroberg. O dele tinha sido causado por uma mosca que têm muitas em Varpa. Ele receitou para a Olga outros remédios e compramos ali mesmo. Ela agora está morando lá em Orleans com os Grïkis e o farmacêutico fará avaliações diárias. Vamos ver se vai adiantar.

Bem agora vou terminar, seria muito bom que você escrevesse cartas tão longas. Agora vou aguardar uma longa e minuciosa carta sua. Escreva sobre sua vida, onde moras e quanto ganhas. Para nos você sabe que pode contar.

Lembranças de todos. Pode ser que a Olga ainda te escreva
Lúcia

… logo antes da Páscoa deste ano chegou do Kaukaso lá do interior da Rússia.| De Olga Purim para Reynaldo Purim -1922

Rio Novo 3 de outubro de 1922

Querido Reini. Saudações!

Recebi a tua carta há semanas atrás. Obrigada. Aqui eu estou quase como você que não consegue responder as cartas de imediato. Há uma 3 semanas atrás eu e a Lucija enviamos longas cartas para você quais esperamos que tenhas recebido. Eu não sei o que seria tão importante que tinhas para nos contar.

Pode ser alguma coisa que há muito tempo já saibamos, pois o Karlis Leiman quando esteve em Rio Branco na Convenção encontrou o Shephard [Shephard era o Diretor do Seminário Batista no Rio de Janeiro] e este disse que você é o aluno mais aplicado e inteligente dos que este ano vão terminar o Curso. Nas cartas você pergunta se nós lemos tal e tal artigo e é claro que nós lemos, mas faz tempo que não tem chegado mais.

Nós vamos suficientemente bem graças ao bom Deus. O tempo está nublado e está sempre mais chuvoso do que tempo bom.

As novidades no Rio Novo seriam estas: Na semana passada chegou de viagem de Nova Odessa o Conrado Frischembruder e sua Lídia. Também o Oskar Karp também com a sua Lídia que tinham ido a Nova Odessa em agosto vieram juntos. Estes tinham ido a São Paulo visitar os parentes e ver o mundo do lado de fora, pois nunca tinham saído e agora voltaram juntos.

No Sábado passado houve mais um casamento; foi da Emma Burmeister com o Felipe Karkles. [Felipe Karkle – Era o pai do Zefredo Karklis e outros] e foi maravilhosa a festa!

Você quer saber como está passando o novo professor. Eu não saberia dizer como realmente ele está passando, pois ele mora sozinho na Igreja, as crianças são poucas, mas como professor eu posso assegurar que melhor que o Treiman ele é.

O Alexandre Klavin que esteve em São Paulo viu e admirou os métodos usados pela União de Jovens de lá. Então ele e o Emílio [Emílio Anderman muito conhecido em Urubicí] querem implantar as novidades aqui. Houve diversas noites de apresentações variadas e culturais tais como: história do Estado de São Paulo, a imigração leta no Estado de São Paulo e como é o trabalho das Igrejas e das Uniões de Jovens; ilustrando com exemplos, contando fatos interessantes e discorrendo sobre eventos e outras atualidades. Todas reuniões foram bem concorridas e muito bem dirigidas.

Além disso, o Aléxis [Klavin] é um cantor com uma voz maravilhosa sem outra igual por aqui..

No dia 16 de outubro será a Festa de aniversário da União de Mocidade de nossa Igreja. Os preparativos estão já estão sendo feitos. Pode ser que até o Deter venha para a festa.

O Karlis [Leiman] escreveu que eles iriam sair de viagem no dia 20 de setembro, mas até agora não apareceu ninguém.

Há pouco tempo atrás recebemos cartas de nossos parentes da Letônia. Eles ainda estão em Latgale. Ambos André e Jekabs escreveram. Porquê o André logo antes da Páscoa deste ano chegou da Kaukaso lá do interior da Rússia. Eles tinham ido para lá em 1917 saindo da turbulenta São Petersburgo e ficaram morando lá até o final da guerra. Então começaram a viagem de volta para a Letônia. Levaram 6 meses de dificuldades imensas, fome, frio, doenças e ainda ele continua doente. São só os três, ele o André, a Ieva e o filho Jahnis que moram junto com o Jekabs. Estão escrevendo que quando as crianças terminarem de tecer e costurar as roupas novas eles vem embora para o Brasil.

O Jekabs virá com a família pagando as suas próprias passagens, mas o André não tem este dinheiro todo. Então o André está pedindo que enviem as passagens marítimas através do governo, então ele virá também e vai trabalhar duro para pagar tudo e não vai ficar devendo nada. Agora vou ter que escrever muita coisa para eles, pois eles querem saber muita coisa daqui.—

Domingo passado recebemos cartas do Fritz e do velho Leiman. O Fritz apressou-se em contar que no dia 4 de setembro às 6 horas da manhã a mãe foi para a morada eterna. Ela viveu com eles na Argentina somente 8 dias… Então foi para aquela casa que ainda não podemos ir…— O Fritz contou que a mãe chegou tão fraca que tinha que ser carregada do vagão para o automóvel e daí para o quarto. O médico que a estava tratando tinha assegurado que ela iria viver mais uns 5 ou 6 meses, pois ela já não teria mais preocupações… Mas viveu somente 8 dias.—

Bem hoje chega. Lembranças de todos. Olga.-

…que nossos parentes não vão gostar, |De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 30 de abril de 1922

Querido Reini: Saudações!!

A tua carta escrita na Sexta feira Santa eu recebi no dia 21 de abril. Este veio rápida, pois levou somente uma semana. Obrigada! Foi também na Sexta feira Santa que recebemos a tua carta escrita no dia 31 de março. Os demais escrevedores mandaram cartas no dia 21 de abril e eu não mandei nada porquê já tinha mandado uma no dia 12 de abril.

Na Sexta-feira Santa aqui o tempo esteve bom igual lá no Rio de Janeiro. No Domingo da Páscoa já estava nublado e choveu um pouco. O tempo aqui está este ano mais chuvoso e na semana passada estava desagradávelmente encharcado e aborrecido. Então hoje está um tempo bom e quente e pode ser que daqui em diante comece a melhorar e não chover tanto. Este ano choveu sem conta e já há muitas espigas de milho apodrecidas e se continuar vão, apodrecer muito mais.

Pelo Rio Novo não há quase nada de novo. No próximo mês estão sendo esperados o Deter e o Karlos Leimann. Pode ser que cheguem já na semana que vem, mas isso a gente não consegue saber o certo, pois o meio de transporte para as viagens não são estas coisas Quando eles chegarem vai ter festa aqui no Rio Novo para eles, pois coincide que é no mês de maio que o Deter vem para o Rio Novo, pois já vai fazer dois anos, pois no ano passado ele esteve nos na América do Norte, então não veio, mas agora ele vem.[Ele tinha estado em Rio Novo há dois anos atrás]

Na carta passada eu escrevi sobre os nossos parentes que querem vir para o Brasil. Algumas pessoas aqui recebem de lá de Riga o “Kristiga Balss” [A Voz do Cristão, jornal publicado em Riga] e lá está escrito que vem muita gente de lá isto é mais de mil pessoas.

O Matis Feldbergs de Nova Odessa tem escrito para o Frischembruder que o governo de São Paulo vai trazer estes letos com as despesas por conta do Estado. E que Inkis e o Malvess já estiveram vendo estas terras. Onde eles querem levar os letos é bem no interior de São Paulo, logo acima da divisa com o Estado do Paraná, bem dentro da floresta virgem e muito longe mesmo pois a passagem de trem de São Paulo até lá custa mas de 50$000. Então por ai você pode perceber que nossos parentes não vão gostar, pois eles tanto falam no grande encontro da família e se forem para lá não vai dar.

O próprio Inkis tem dito que os letos não vão gostar, pois é uma área completamente desabitada e como sobreviver num local tão sem qualquer ajuda do Governo Brasileiro. Se os nossos parentes pudessem vir para cá, seria muito melhor.

Desta vez chega, pois não tenho mais tempo, pois tenho que ir ao ensaio do Coro da Juventude e amanhã ir para a cidade. Com muitas lembranças de todos. Desculpe a pressa, mas ler você vai conseguir. Olga.

[Obs. O resultado deste movimento de Imigração foi A implantação em pleno sertão da Colônia Varpa e da Comunidade Evangélica Palma no Município de Tupã]

..subir em algum morro bem alto e ver se avista um navio cheio de letos..De Olga Purim para Reynaldo Purim 1922

Rio Novo 11 de abril de 1922

Querido Reynhold!

Primeiramente envio muitas lembranças. Pensando bem, eu não tinha nenhuma obrigação de escrever esta noite, pois tu estás devendo respostas de duas cartas, uma escrita no dia 13 e outra no dia 23 de março.

Aquele grande pacote com jornais e outros impressos recebi no dia 26 e muito obrigado por tudo. Agora nós temos dois prospectos do seu Colégio. Vocês deverão ser mais de mil alunos com tantos letos que foram para lá. Você conhece aquele alemãozinho de Paranaguá, o João Henke. Este é um dos que vieram para as Conferências da Convenção no Rio Novo.

Bem desta vez eu terei alguma coisa de novo: – – O tempo esta semana está mais ou menos bom, pois chovido tem pouco.

Uma coisa muito importante é que a universidade de Rio Novo depois de 8 meses de aula, já encerrou o ano escolar e os Rockfellers já estão prontos para enfrentar a vida. [Parece que naquela época a neurolingüística não era muito difundida. Alguns professores tentavam fazer com que os alunos adotassem os grandes homens como modelo e assim como que, atrelando o seu carro a uma estrela, mas não eram bem compreendidos por todos]

O próprio Treiman, como fosse acossado por fogo, foi abrir uma escola na casa do João Leepkaln lá no Rodeio das Antas para os filhos dos brasileiros. Isto faz parte da filosofia dele de não maltratar os alunos por muito tempo com tanta matéria.

O Karlos Sanerip já voltou do Quartel onde esteve servindo o Exército. O Augusto Klavin que estava em Kuritiba servindo o exército, agora está fazendo “manobras” no Rio Grande do Sul junto com a fronteira da Argentina que são muito necessárias para gastar o dinheiro do governo. Este ano foram convocados o Wilkan Karkles e o Kirz Stekert, isto é dos letos. O Wilks está muito satisfeito, pois só assim poderá conhecer o mundo ai fora e ainda sem pagar a passagem.

A Igreja convidou o Deter [Deter era um missionário batista norte americano trabalhando no campo Paraná Sta. Catarina] para visitar o Rio Novo, pois o Lupers tinha prometido vir, mas, acabou viajando para outro lugar. Quando o Deter vier, vai haver uma festa de Batismos dos 10 novos membros que foram aceitos pela Igreja. São eles o Willis Klavin, o Willis Slengmann, o Edward Karklin, o Victor Maisin, a Hulda Maisin, o Karlis Leepkaln, o Alfredo Burmeister, o Harris Feldberg e os nossos Lucija e o Arthurs.

Outra novidade é que na semana passada recebemos qual não estávamos esperando. Veio do nosso parente (tio) Jekabs Purens da Letônia. Ela conta que eles estão determinados e convictos da necessidade de vir embora para o Brasil. Eles estão todos vivos e sãos.

O irmão dele, o André é que está numa situação mais difícil, pois mora na Rússia, junto a fronteira da Letônia onde grassa muita fome e doença e nenhum socorro pode ser enviado para lá. Ele vai tentar passar para o lado de cá da fronteira e viajar junto para cá.

Pelo que ele fala ele pensa que o Brasil é do tamanho da Latvia, pois, pede que quando eles chegarem no navio cheio de letos, alguém vá ao seu encontro. Ele pensa que é como lá que o navio ou chega em Riga ou então em Leepaja, pois outros portos não existem e quando você pode pegar um trem e em poucas horas estar lá. Também não falam nada se eles estão vindo por conta própria isto é com dinheiro deles e nem quando e nem onde eles deverão chegar.

Mas aqui há outras pessoas que contam que o Inkis e o Malvess [ Malvess era do Rio Novo e agora agente de Imigração do Governo em São Paulo] conseguiram passagem livre, sem custo algum e por isso deverão vir muitos letos. O Malvess é novamente um agente de imigração do Governo e tem colocado anúncios para venda de terras no interior do estado de São Paulo em jornais alemães. Se eles realmente estão viajando livres por conta do governo é justo e certo que eles irão direto para São Paulo. Você sabe alguma coisa acerca deste assunto?

Pelo que o Jekabs escreve parece ou ele pensa que vem direto para o nosso lado. Mas diz, também que não sabe se nós estamos ainda vivos ou não e se nós estaríamos satisfeitos que eles viessem para cá. Também fala que lá as coisas não estão nada boas e sem muita esperança de alguma melhora. Diz ainda que teria muito que contar e perguntar, mas iria deixar para quando depois da chegada teria mais oportunidades para conversar. Pelo que parece ele pensa que São Paulo fica junto de Sta. Catarina, assim como a Vidzeme fica junto com a Kurzeme.

O Paps quer que eles venham para cá, pois se eles forem para São Paulo onde deverão ir muitos Letos é interior, terra totalmente desabitada, onde eles, com certeza vão sofrer penúria por não ter onde trabalhar para ganhar dinheiro, onde vender e onde comprar. Com certeza no Rio Novo será melhor. Nós ainda não respondemos, pois eles não pedem que façamos, pois é possível que eles já estejam em viagem para cá. Pois a carta tinha sido escrita em 22 de fevereiro de 1922. Então você poderia subir em algum morro bem alto e ver se não avista um navio cheio de letos e entre eles os nossos parentes, vindo para o Brasil.

Eu acho que não sabem que você ainda está estudando. Pode ser que eles não tenham a chance de conhecer o Rio de Janeiro. A não ser que ainda que levem a alguma Ilha das Flores onde dizem que as casas e alojamentos de quarentena estão sendo reformados

(Escrito na lateral)
Bem por hoje chega. Vou aguardar de você muitas novidades. O desejo de todos é que tenhas uma Feliz Páscoa. Olga.
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Estou morando na cidade com os Stekert | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 20 abril 1919

Querido Reinolds!!

Saudações! Festa da Páscoa! Cristo ressuscitou! A mensagem da Paz ressoa.

Na semana passada recebi dois pacotinhos de jornais [enviados] no dia 27-3-19, e na segunda-feira 14 de abril recebi tua carta de 27-3-19. Sinceros agradecimentos. As cartas anteriores foram todas recebidas; só não tenho resposta da que escrevi no dia 28 de março, e no mesmo envelope foram cartas da Luzija e do Arthur. Também no dia 8 de abril mandei um cartão postal. Todas foram recebidas?

Nós estamos alegres por sabermos que você está passando bem. Nós podemos dizer com alegria que estamos todos com saúde.

Antes da Páscoa tivemos duas semanas de tempo muito seco: não choveu nada e [fez] muito calor. Então, no sábado da Páscoa, começou a ficar nublado e de noite estava roncando trovoada e muita chuva, mas o Domingo da Páscoa amanheceu com uma manhã radiosa e assim permaneceu.

Pela manhã fomos ao culto na casa dos Leiman no Rodeio do Assucar. Lá no sábado haviam chegado as visitas da Argentina [NOTA: gafanhotos]. Nós todos tivemos a oportunidade de ver uma quantidade imensa desses insetos. Quando passavam provocavam um ronco surdo como uma tempestade, e chegavam a fazer sombra como fazem as nuvens: nem a luz do sol podia ser vista. Eles gostam mais de feijão, mas não deixam de limpar os milharais e a sorte é que estes já estão na fase de maturação.

Para nós no Rio Novo eles não chegaram, e é provável que nem passem por lá e sigam o seu caminho para o outro lado. Na fazenda dos Klavin também desceram, mas lá eles tanto fizeram que conseguiram espantar, batendo e tocando. e não permitiram que fossem completamente devoradas as lavouras.

O Arnolds [Klavin] veio da serra onde mora para as festas da Páscoa, e pretende voltar logo em seguida. O Roberto [Klavin] foi passar as festas lá no “Brasso do Norte” com o Onofre. O Deter ainda não veio; e não sei por que prometeu e não veio, e nem sei quando ele virá. Agora em Orleans tem um Pastor Presbiteriano e durante as festas na igreja de Rio Novo ele fez um sermão em inglês. Ele veio da serra e ficou na casa do pastor Butler.

Você escreve que lá as roupas estão caras, mas não são tão caras quanto aqui, embora aparentemente estejam ficando aos poucos mais baratas. Vamos mandar dinheiro quando precisares de calças e fraques, e você poderá mandar fazer, ou provavelmente comprar roupas prontas. Camisas e ceroulas mandaremos se estiveres precisando.

Agora aqui não estamos conseguindo um tecido bom e próprio para camisas, mas a loja do Pinho garantiu que vai chegar um grande carregamento de bons tecidos. Nós ultimamente não tínhamos comprado tecidos para roupa, pois tínhamos comprado bastante tempo da venda da coperativa, e quando começou ficar mais caro compramos bastante “americano” [NOTA: Tecido de algodão cru muito usado para roupa de cama].

Temos um par de meias de lã prontos, tricotados para mandar para você. Fio de algodão aqui é difícil de conseguir, então você terá que comprar as meias de algodão prontas nas vendas.

Querosene aqui não existe mais, e faz tempo que nos falta. Temos emprestado da Sra. Grüntall algumas garrafas e usado velas, mas estas também estão muito caras: $300 a peça e não duram nada, principalmente quando a gente tem que trabalhar à noite. Quem tinha querosene para uso pessoal vendeu até entre 1$500 a 2$000 a garrafa.

Pelo toucinho estão pagando 12$000 a arroba e é um bom preço, considerando que não estão descontando nem os ossos. Ovos já vendemos duas vezes e eles estão pagando $600 a $700 a dúzia. Estamos com mais de cem galinhas, isso sem contar os pintos.

Brevemente o Diretor Staviarski [da Companha de Colonização] pretende viajar com a filha para o Rio de Janeiro para visitar o seu Victor. Você conhece esse jovem filho do nosso Diretor? Ele deve estar estudando em outra classe. Ele sempre fala da boa ordem do Colégio e o filho está muito bem lá.

A novidade comigo é que agora estou morando na cidade com os Stekert aprendendo costura, e somente aos domingos vou para casa. Escreva bastante porque estando em Orleans posso buscar as cartas facilmente no correio. Ainda muitas sinceras lembranças de todos de casa, que ficam aguardando longa carta sua.

Olga

[Escrito nas laterais:]

Junto a esta carta segue o Aviso de 300$000 que segue através da firma do Pinho e será paga a você pelo Colégio Baptista, assim não tenho que mandar no envelope Valor Declarado, o que espero seja melhor para você.