…mas nós sentimos muito a sua falta e tudo parece triste e sombrio…| De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

27 de julho de 1926
Querido irmãozinho!
Saudações!

Recebemos as seguintes cartas: a minha que você escreveu em 14 de julho e a do Arthur que você escreveu no dia 23 também de julho. Estas vieram muito rápidas e é raro chegar assim imediatamente. Aquela que veio como resposta ao telegrama ficamos tristes por ter que mandar uma mensagem tão triste. A primeira idéia era de não mandar telegrama nenhum, mas depois acertamos que seria melhor informar já de uma vez, porque de qualquer modo mais cedo ou mais tarde irias receber a carta informando do triste fato, então porque adiar. O telegrama foi mandado dia 10 e demorou muito para chegar lá. Nós também ficamos muito tristes e perturbados, mas tudo aconteceu quando ninguém estava esperando, mas a Palavra de Deus que todos devemos estar preparados por que ninguém sabe o dia que a morte vem e bem aventurado aquele que está preparado.
Nós naquela manhã não imaginávamos que noite nos tínhamos que nos separar da Olga, pois ela não sentia dor nenhuma e somente tinha a respiração difícil. Ela ainda pela manhã falou: Tu ainda queres viajar para o Rio, mas eu vou é para casa… Isso por que nós alguma vez planejávamos ir visitar você isto é enquanto você ainda estivesse ai no Brasil. Isto seria se a gente pudesse e tivesse condições, mas na prática sabíamos que nós não tínhamos as condições, pois a nossa vida aqui não permitia, mas conversar e planejar isto nós podíamos. Nesta última semana ela falava muito sobre você, sobre os tempos passados o que fazíamos e como vivíamos. Dizia ela e agora ele vai para tão longe e certamente eu não vou ter oportunidade de encontrá-lo novamente apesar de eu sempre tentar reanimá-la dizendo que logo que voltares da América virás direto para casa então poderemos viver longo tempo juntos e não deixaremos ir embora tão cedo, como no tempo que você tinha que voltar para a escola. Mas Deus não quis assim e levou-a para o Lar Celestial e quando tornarmos a nós encontrar então, aí, nós não separaremos jamais. Por que aqui não é o nosso lar e somos como estranhos e peregrinos a caminho da Canaã Celestial. Ela está muito bem, mas nós sentimos muito a sua falta e tudo parece vazio, triste e sombrio. Nos últimos tempos ela nada podia fazer, mas pelo menos era uma boa companhia e agora não está mais.

O Arthur mandou a carta em 19 de abril, mas ela já estava escrita dias antes, mas naquela semana começou uma grande chuva e um vento gelado. Começou a chover na terça feira dia 14 e choveu até o sábado. O frio era tão violento que a gente parecia que não poderia agüentar. Nas Serras as montanhas ficaram brancas cobertas de neve por mais de uma semana. Os serranos falavam que a camada de neve era tão grossa que chegava até a barriga das mulas. Esperávamos grandes geadas aqui, mas não aconteceram e quando o tempo melhorou aí também esquentou. É por isso que o Arthur demorou em enviar a carta por que para Orleans ninguém podia ir. Eu também não escrevi por que eu fiquei tão perturbada que não podia escrever nem a noite pensar. Desde há duas semanas antes do falecimento da Olga eu estava tão cansada e perturbada devido à tensão e não sentia vontade de comer, a cabeça doía muito e também as costas e eu cheguei a pensar que não conseguiria superar tantas tristezas, mas o Senhor ajudou e agora estou perfeitamente saudável. Estou somente bastante nervosa e qualquer movimento mais brusco me deixa perturbada. Fora isto estamos todos bem de saúde e ninguém ficou de cama por estes dias. Serviço nós temos demais agora nós estamos colhendo o milho, este ano a colheita será menor por que não cresceram bem e também há muitos ratos. Se alguma espiga foi derrubada no chão por qualquer razão sem dúvida, ela estará roída, mas vai dar para passar o ano. Os porcos estão sendo engordados com mandioca, qual nós temos bastante. A farinha de mandioca já terminamos de fabricar. Rendeu mais de 50 sacas. Os preços da farinha é que não estão bons e às vezes os homens das vendas nem querem comprar. Polvilho também vamos ter bastante, pois os cochos e as barricas estão cheios. Não puderam ser secos por que o clima não tem ajudado. Pois o tempo continua chuvoso.
O Carlos Leiman chegou dia 3 e foi embora para Mãe Luzia no dia 12. Ficou aqui em casa e deu para conversar bastante. Prometeu escrever para você. Dirigiu vários cultos e realizou Batismos no dia 11 de manhã na fazenda dos Frischembruder, por que devido à venda da terra dos Osch onde eram normalmente realizados os batismos foi vendida para um italiano onde ninguém gostaria de ir e é provável que não autorizasse. Na noite de sábado dia 10 foi realizada uma Sessão na Igreja quando foram aceitos os seguintes novos membros: Klara Sahlit, Kornelija Balod, Harri Auras e Willis Leepkaln e os batismos foram realizados na manhã do domingo pelo Pastor Carlos. Os Sermões eu não vou transcrever desta vez, talvez em outra.

Há pouco tempo recebemos carta do Fritz e do Arthur [Frederico e Arthur Leiman da Argentina]. O Arthur escreve que virá para o Natal para vender a terra.. O Fritz diz que esqueceu o teu nome senão ele escreveria para convidando para você ir para Argentina trabalhar. Ele garante que tem muito trabalho e pão macio para comer. Diz que você pode ir sem medo, pois ele precisa muito de trabalhadores.
Quanto àquela compra do terreno dos Leiman, não chegamos a nenhuma conclusão definitiva. Se vender aqui e comprar lá ou senão só comprar lá. O que nós estamos de acordo é que você se não custar muito caro mandar a Procuração e depois a gente poderia decidir com mais vagar. Nós conversamos se pela Bukuvina a gente conseguisse o suficiente que desse para comprar a fazenda dos Leiman tudo bem. Mas completar com mais dinheiro ai não. Tem um agravante, pois não existe nenhum comprador para a Bukuvina quando a gente quer vender. O Arthur [Arthur Purim] ainda tem outras preocupações e acha que no final terá que desistir da terra dos Leiman porque não será possível morar em dois lugares no mesmo tempo e nenhuma das casas não poderão ser deixadas vazias. Aqui no Rio Novo a cozinha é nova e logo abaixo do paiol nós temos uma linda horta tudo nela cresce muito bem. Sabemos que a terra dos Leiman também é boa e bem grande. As raízes lá [Mandioca] crescem muito bem. Se não comprar lá não sabemos onde por o nosso gado, pois aqui o pasto é pouco. Vender o gado é difícil, pois quando a gente quer vender ninguém quer comprar. Por ai você pode ver que não temos nada decidido, mas que concordamos que a Procuração você deve mandar e nós não comprarmos também não venderemos e ai ela ficará sem utilização. Se mandares faça em nome do Arthur, pois ele pode falar e se comunicar melhor que o Paps. Também escrevemos para o Fritz e para o Arthur, pois este assunto tem que ser bem avaliados com muita responsabilidade. Na semana que vem vamos mandar outra carta com os novos croquis do seu terreno e esperamos que este chegue lá.

Vamos mandar também para você meias, luvas, camisa e um xale. É para você ir bonito e elegante para a América. Se você não gostar da camisa, então, você pode vendê-la. Mas eu pensei que pelo tamanho ele vai servir bem. Ela está na moda e todos senhores elegantes usam este modelo. Se as mangas forem muito compridas, você pode arregaçar. O colarinho pode ser virado para o lado de fora. Se tivesses vindo para casa terias ganho um lindo terno de tecido feito de lã [Vadmales] feito no nosso tear.

Bem por hoje chega se eu esqueci alguma coisa escrevo na outra vez.

Amáveis lembranças de todos. Nós estamos bem. E o mesmo desejo para você.
Lúcia

Os letos lá estão ficando ricos | Robert Klavin a Reynaldo Purim

19-VIII-1918

Rodeio do Assucar
Sta. Catharina

Querido amigo!

Já faz bastante tempo que não recebo notícias tuas e não sei como agora estás passando. Pensei que tivesses muito ocupado com os estudos e por isso não posso insistir para que escreva muito e ainda nestes tempos difíceis.

O Arthur [Leimann] também reclama muito que não recebe cartas, mas nós sempre escrevemos para ele. Esta sua não pude escrever antes, porque nestes últimos meses tenho trabalhado demais, semanas inteiras fora, somente chegando aos sábados à noite e saindo novamente nas segundas-feiras cedo. E aos sábados, tinha que olhar as lições, ler os jornais, etc.

Bem, agora estou em casa. E estou bem.

Terminamos a fabricação da farinha de mandioca. O tempo permanece por demais seco. No princípio do mês passado deu uma geada tão forte que antes não tinha sido vista. E um frio tão grande também não. A geada matou tudo, o que podia matar: matas, capoeiras, pastos e mudas de mandioca mesmo guardadas. Qualquer lugar que se queira olhar a paisagem é cinzenta, sem vida alguma, pois geada tão grande não tínhamos ainda visto. Também as serras também estão cor cinza e no começo do mês passado tinha neve cobrindo as montanhas, o que se repetiu no dia 13 deste mês, quando as serras voltaram ficar brilhantes de tanta brancura e até agora continua bastante frio.

A senhora Guedes já há bastante tempo está muito doente e nem sabe se um dia vai ficar boa; está tão magra que parece que está com pele e ossos, mas o rosto e a fisionomia permanece inalterada. A senhora Onofre também nestes últimos meses está gravemente enferma, tanto que há tempos não temos sido convidados para visita-la. E o médico sempre está a visita-la, assim podes imaginar a despesa com médicos, remédios, etc.

Quanto à igreja não temos nada de novo; tudo vai como sempre. Tenho ido regularmente a Rio Laranjeiras, e às vezes parece que temos que começar tudo de novo. A Margrida ajuda, pois já sabe ler livros. O Vergílio está indo na escola em Rio Palmeiras e a Margrida que se cuide, que ele vai passar na frente.

O Matiss vendeu a terra dele para o Oskar Karp por 5.000$000 (cinco mil réis) e vai mudar para Nova Odessa, onde vai plantar algodão. Os letos lá estão ficando ricos com este tipo de cultura, pois a arroba dizem valer 20$000. No mês passado esteve uma pessoa aqui, o Augusto Klava de Nova Odessa, procurando gente para trabalhar lá. Primeiro ele esteve em Mãe Luzia e depois este pouco tempo aqui procurando gente disposta para ganhar dinheiro lá. Não levou ninguém na hora, mas é possível que o Matiss e meu irmão Theodoro embarquem semana que vem para ver e ganhar todo este dinheiro. Vamos ver se isso é permanente ou se é um fogo de palha que logo acaba — como já aconteceu outras vezes, quando pessoas venderam todos seus bens e saíram correndo atrás de ilusões.

Muitas lembranças de meus irmãos Arnold e Theodors e, concluindo, também minhas. Que Deus te abençoe e acompanhe para todo bem.

Roberts [Klavin]

Qualquer brasileiro que estivesse usando calças | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto!
[nota em português no original]

Rio Novo, 11 de agosto de 1918

Querido Reini,

Primeiramente envio muitas lembranças! Na semana passada, no dia 8 de agosto recebi duas cartas suas, uma escrita no dia 17-7-18 e a outra no dia 22-7-18, ambas escritas em brasileiro. Muito obrigado. Estávamos bem desiludidos de tanto esperar cartas, pois fazia 3 meses que não recebíamos cartas suas e somente jornais.

Naquele mesmo dia em que recebi as cartas, mandei 200$000 via cartão. Cansada de esperar suas cartas, semanas atrás mandei uma, de que ainda não recebi resposta. As tuas cartas anteriores, nenhuma delas foi por nós recebida, nem aquelas que você diz ter mandado em nome do R. K. [Roberto Klavin], nem aquele rolinho.

Aquele jornal leto é maior que os nossos jornais? Se não é, pode enrolar junto com os outros jornais porque jornais ninguém abre. Você pede que eu escreva em brasileiro, mas com tantas novidades eu não conseguiria escrever e ainda tenho muita dificuldade.

Terminamos de colher o milho no dia 3 de agosto. No ano passado tínhamos terminado 19 de julho. O atraso foi devido a vários fatores, principalmente ao fato de que começamos mais tarde e que a maior parte das nossas roças estavam na Bukuvina, sendo que nos outros anos tínhamos poucas roças lá. Despejamos no paiol 195 cargas — 5 menos que no ano passado, e as espigas também foram menores este ano.

Ainda bem que deu razoavelmente, apesar da seca. E em alguns lugares os gafanhotos comeram. Também os temporais deram bastante prejuízo, derrubando muito. Alguns foram derrubados mesmo antes de pendoar, e ai que não deu nada mesmo. Havia partes onde o milho derrubado era mais do que aquele em pé.

As abóboras, estas sim cresceram bem. Pena que a geada queimou boa parte, e estas apodrecem muito rápido. Mas assim mesmo tem muita abóbora para trazer para casa.

O tempo está magnífico e fresco. Também não chove muito, e algumas semanas atrás estava tão quente que parecia verão e o tempo muito enfumaçado. Fazia três semanas que não tinha chovido e tinham começado as queimadas, e os serranos estavam queimando os campos. Se o tempo continuar seco, como tudo está seco devidos às geadas, vai queimar o mundo inteiro, pois onde queimou ano passado tinha somente samambaias e vegetação rasteira, e esta foi totalmente queimada pelas geadas.

Geadas não tivemos mais. Semana passada um dia choveu um pouco e depois limpou à custa de um vento frio. Noutro dia fui trabalhar na Bukuvina e as serras estavam cobertas de neve, nunca tinha visto as serras tão brancas e tão baixas, mas naquele dia geada não deu. Se não fosse aquelas quatro manhãs com aquelas grandes geadas não teríamos tido grandes prejuízos [NOTA: Da Bukuvina a gente tinha uma vista maravilhosa e privilegiada das serras. Quando se diz que a neve estava baixa é que a neve não estava só no alto, mas também descendo pelas encostas para o lado do chamado “serra abaixo”(leste).].

As nossas laranjeiras estão vivas e começando a florescer. Das dos outros, aí mais para baixo, a geada derrubou todas folhas e frutos. Os pessegueiros estão em flor.

Semana passada fizemos açúcar, deu duas fornadas (tachos). A cana não se desenvolveu bem devido à seca. As da soca estavam quase secas e as novas ficaram queimadas pelas geadas. Ainda bem que não foram todas e ainda sobraram para mudas; os outros nem isso tem. A nossa sorte foi aquela roça atrás do mato, ficou bem protegida do frio. O açúcar está valendo entre 12 e 15$000 a arroba, e vai subir mais. Nós não temos comprado, pois ainda temos e também temos mel, então quanto ao açúcar ter ou não, não faz diferença.

Agora estamos fazendo derrubada da mata (coivara) perto de casa naquela grota que chamamos de “pequena mata”, coisa que já tínhamos resolvido fazer há muito tempo. Por baixo está tudo roçado. Papai e o Puisse estão derrubando as grandes árvores, que caem com um grande gemido seguido de um imenso estrondo. Preste atenção com o ouvido que quem sabe você escute o barulho das árvores caindo. O Puisse está com mais de um metro e meio de altura, e fica ainda maior quando tem chance de ajudar a derrubar a mata [NOTA: Puisse é “menino” ou “rapaz” em leto, e refere-se a Otto Roberto Purim, mais conhecido como Artur].

Estamos comendo muito palmito [Euterpe edulis]. E não só nós, mas também o gado. O Puisse traz os palmitos e também folhas de palmeira para o gado; nesta época são muito úteis porque, devido às geadas e à seca, não há grama verde nenhuma [NOTA: Eram muito usadas para alimentação do gado as folhas de palmeira ou do muito conhecido coqueiro jerivá, (Arecastrum romanzoffianum)].

Também nas capoeiras não há grandiúvas [Trema micrantha], ingaseiros [NOTA: Ingá uma árvore da família das leguminosas (Inga uruguensis). As mais conhecidas em Rio Novo eram o ingá macaco, o ingá banana e o ingá feijão. Este último medrava melhor em beira de rios e riachos] nem caetés [helicônia]: tudo está queimado pelas grandes geadas.

Nas próximas férias aguardamos você aqui em casa.

Quanto à obediência aos regulamentos do alistamento para o exército, acho que não precisas se preocupar, pois quanto sei esta inscrição é voluntária e você por isso não necessariamente precisa fazê-la. Estas ameaças são engodo simplesmente para assustar. Lá, quem está insistindo para você se alistar? Ninguém pode forçar, pois você pertence ao estado de Sta. Catarina.

Certo, se você for sorteado, aí sim você deve se apresentar. Ano passado havia um papo de que quem estivesse estudando, isto é, fazendo curso superior, era automaticamente dispensado. Aqui entre os letos ninguém foi chamado. Quando do último sorteio, em fevereiro, somente quinze jovens foram chamados do município de Orleans e foram para Florianópolis — por quanto tempo não sei, mas eram italianos e brasileiros. Não sei se vão colocar o seu nome na lista daqueles a serem sorteados, pois no ano passado o seu nome não estava.

Quanto à associação “Tiro de Guerra”, as pessoas que nela se inscrevem tem que se apresentar aos exercícios com sua própria roupa e levar a sua própria comida. Para o governo é uma vantagem tremenda, pois aí aprendem a atirar e, em caso de necessidade de alguma convulsão social, serão os primeiros a serem chamados.

Ano passado o Artur Leimann estava em Orleans e uma pessoa desconhecida o abordou e logo foi tirando do bolso um papel e exigindo que o assinasse. Não falou porquê e nem o que era este papel. Depois de longa discussão e quando viu que deste modo não ia conseguir nada, só então falou que era agente do “Tiro de Guerra” alistando novos atiradores, e que quem não fosse por bem ele poderia levar a força. Mas na realidade ele não poderia forçar coisa nenhuma, pois as pessoas que se alistam tem de ter meios para sua sobrevivência. Se o governo quiser forçar, deveria ter meios para sustentar toda esta gente. Hoje o pessoal do governo ignora essa gente que se alista. Elas têm que providenciar por sua conta o seu uniforme, hospedagem e alimentação. Por isso aconselho você a não se inscrever em nada, pois podes até entrar em fria.

Aqui por enquanto está tudo calmo e em paz. Só no domingo, primeiro de agosto, dia da eleição do “intendente”, teve uma grande briga, porque este ano nem todos puderam votar, só os que tinham toda a terra (colônia) quitada e registrada na justiça. Como sabes, existem dois partidos, um o antigo e outro do Galdino. O Galdino queria esta honra por todos os meios e saiu por aí tentando conquistar votos [NOTA: Galdino Guedes era da oposição, Mais tarde, com a revolução de 1930, foi nomeado prefeito].

Este ano a burocracia era a seguinte: quem tivesse propriedade desonerada passava na justiça e lá pegava um recibo, e assim estava apto para votar. Se não tivesse este papel na mão, nada feito. Bem diferente de outros anos, em que qualquer brasileiro que estivesse usando calças tinha o direito de votar.

E outra vez elegeram o velho José da Silva. O Galdino não gostou nada, então soltou bebida por conta dele aos seus partidários. Quando a cabeça está cheia de pinga a coragem também é grande, e começou a briga: todo mundo com pistolas, e começou o maior tiroteio. Houve uma morte e diversos feridos. Também o Ricardo, filho do Germano Balod, estava no meio da multidão e levou um tiro: a bala atravessou as costelas. Não sei se ainda está vivo, só sei que estava muito mal. Diretamente ninguém atirou nele, mas como estava no meio da multidão, sobrou pra ele. Também, por que estes rapazes tem que meter o nariz, envolvendo-se em toda encrenca que aparece? Os rapazes do Rio Novo também estavam lá, mas logo que sentiram a boca quente deram no pé para as suas casas. É o que acontece quando esta gente jovem, que nada tem a fazer em eleições de intendentes, se mete em encrencas onde nem foram chamados.

Nestas férias você poderia vir para casa. Você não tem onde ir mesmo. Faz muito tempo que não nos vemos. Terás tanta coisa para contar que levará mais de um mês. Ou não?

Você poderia nos trazer uma caixa de querosene, porque aqui só vendem em garrafas. Uma caixa [com duas latas de 18 litros cada] custa 50$000. Se algum negociante tem uma lata ele não vende, porque tem que servir a uma porção de fregueses que sairiam insatisfeitos sem a mercadoria.

Outro dia li num jornal, nas notícias de mercado, que no Rio uma caixa está custando 20$000. Assim, se trouxeres uma caixa, poderemos ganhar 30$000. Ainda temos daquela caixa que compramos ano passado por 18$500, mas quando esta acabar não sei como vamos nos arranjar.

Tudo está ficando muito caro. Por exemplo, a potassa [soda cáustica] para fazer sabão nós antigamente comprávamos por $600 réis; ano passado já custava 2$000 e agora está custando entre 6 e 8$000 réis. Pergunte quanto custa lá. Sei que o transporte também custa, mas não custa perguntar — e acho que assim mesmo vai ficar muito mais barato.

Comparando o que estamos vendendo, estamos perdendo, porque o preço não sobe na mesma proporção. O feijão agora está valendo 16$000 réis o saco. Nós ainda não vendemos o nosso. Se com um saco de feijão pudéssemos comprar uma caixa de querosene, seria ótimo. O toucinho no dia 10-8 estava a 11$500 réis a arroba. O milho está a 7$000 a saca. Coitado de quem tem comprar a farinha de milho, já paga outro preço. A manteiga está valendo 2$500 réis o quilo. Ovos estávamos vendendo a $600 – $500 réis, e agora está somente $400 réis a dúzia.

***

Agora vai fazer uma semana que estou escrevendo esta carta. Hoje é 18 de agosto. Semana passada não deu para ninguém descer a Orleans para por no correio e a minha carta ficou aguardando inacabada.

Ontem recebi os jornais enviados no dia 12-7-18 e dois pacotinhos expedidos no dia 26-7-18, e também os boletins cor-de-rosa.

Semana passada começou a temporada das medições, pois os agrimensores estão por ai. Primeiro mediram as terras as terras do Burmeister, dos Karklis, do Bekeris e de outros, então daí chegou a nossa vez. No primeiro dia choveu muito o dia inteiro e eles voltaram do mato mais molhados do que ratazanas. O Karkle falou que época de medições é tempo de preocupações e sobressaltos e a gente fica parecida como os slatvengeanos e os tchanglegeanos. Sobre isso o Puisse deverá escrever com detalhes, uma vez que é ele que está acompanhando estes profissionais [NOTA: A analogia — slatvengeanos e tchanglegeanos — é com figuras de um clássico da literatura leta vivenciado no período da Reforma Agrária na Letônia, nos meados do século XVIII (Mernieku Laiki, de Kaudzites Reinis e Kaudzites Matiss). Talvez durante as medições houvesse a possibilidade de que, quando confirmado pelos agrimensores, um ou outro lado ficasse com prejuízo ou vantagem, pelo menos aparente, pois não é possível agradar os gregos e troianos ao mesmo tempo].

Hoje na igreja do Rio Novo é a grande festa de despedida do Matiss e do Pedschem(?), e quem sabe também do Jurka Klavin, que vão viajar para São Paulo. Vão procurar as maravilhas que contam de lá.

Neste momento a igreja de Rio Novo parece um botequim: uns correm, outros dão gargalhadas tão alto que se escutam aqui de casa. Porém todos desejam sucesso para o Matiss.

Mas como disse o Karkles em seu discurso na semana passada quando veio aqui em casa: “Não pode ser considerada uma pessoa séria a que fica valsando de um lado para outro lado do mundo. Só porque os negócios aqui não estão se desenvolvendo bem, vai em busca de outras paragens. Se aqui ele já tem logrado e enganado a quase todos, então que vá embora”. Isso faz lembrar aquele que foi para o Rio e quanto tempo parou lá? Voltou com o rabo entre as pernas como um cachorro que apanhou uma surra. Eu ainda vou conversar sério com ele.

Ainda bem que já sabemos o discurso do sr. Karkles, assim não precisamos ir a estas festas. Assim economizamos os 300 réis que é quanto cobram pela entrada nessa festa.

Bem, por hoje chega. Aguardo uma carta tão comprida quanto a minha. Com muitas e amáveis lembranças de nós todos,

Olga

[nas laterais:] Você pode escrever em brasileiro, mas as palavras difíceis, que você sabe que eu não sei, você tente não utilizar. Aquelas palavras mais difíceis e desconhecidas você escreva em leto. Assim também faz o Arthur Leimann: muitas palavras ele escreve em leto. Hoje voltou a dar uma grande geada. Está fazendo tempo bom, mas muito frio.