Depoimento de J. A. Zanerip | Manas atminas no Rio Novas laiku dzivi

Terceira Parte

MEMÓRIAS DE MINHA VIDA EM RIO NOVO

Agora na nova vida em Rio Laranjeiras. Gostei muito da troca do Rio Mãe Luzia pelo Rio Laranjeiras. O rio Mãe Luzia era um rio largo e profundo. O rio Laranjeiras era raso e suas águas cristalinas e bem aquecidas, porque corria longos trechos entre pedras bem lavadas por grandes enchentes.

Agora há poucos anos viajei de Tubarão a Lauro Müller para subir aquela serra (Rio do Rastro). Ao passar por Orleans subimos até o lugar onde vivi na minha adolescência, isto é, nas margens do Rio Laranjeiras. Fiquei pasmado vendo o meu bem lembrado rio Laranjeiras, sempre cheio de muita água, agora virado num pequeno córrego! Isto talvez porque naqueles tempos chovia mais e as raízes da mata virgem retinham o escoamento rápido, conservando assim o rio sempre com bastante água.

No meu tempo esse rio era um paraíso da criançada. Era muito piscoso. Passei muitos dias pescando e me divertindo com os colegas. Será que este mundinho está secando mesmo?

A minha infância não foi nada fácil, pois já desde pequeno ia junto com a mamãe ajudar a limpar as roças; quando chegou o tempo de ir a escola as condições não permitiam ir. Minhas irmãs, sendo meninas, iam à escola, e à noite eu tinha que aprender — isto é, estudar as lições que as irmãs tinham aprendido na escola.

Mais tarde, quando fui à escola, meu primeiro professor foi o Sr. Treimanis, mas com a saída deste professor houve um longo período sem aulas.

As idas para a escola às vezes eram terríveis, principalmente no inverno. A estrada ficava branca de geada e a gente não tinha dinheiro para comprar sapatos, assim tinha que enfrentar a estrada com o pé no chão mesmo. Haviam ocasiões em que nem sapatos poderiam ser utilizados, com a grossa camada de lama que era formada pelas rodas dos carros de boi — principalmente quando chovia muito, — agravada pela passagem das tropas de burros e mulas que levavam mantimentos para os habitantes da serra. Essa conjunção de fatores tornava as precárias estradas intransitáveis.

Quem realmente poderia gostar dessa lamaceira eram os porcos que eram trazidos em manadas daquelas imensas distâncias, isto é mais de cinquenta quilômetros — de além das montanhas da serra, onde se situavam os grandes pinheirais e onde eram criados, tendo depois ainda a descida dos contrafortes da serra quase a pique. Hoje pode parecer inacreditável. Mas nós, que vimos com os próprios olhos, esperamos que aceitem essas coisas que hoje parecem totalmente improváveis ou impossíveis.

Tempos depois, agora já com uma irmã casada, um dia resolvemos fazer um mutirão para cortar cana de açúcar. Um futuro cunhado meu foi também. Voltando para casa o tempo fechou e começou a garoar, e a escuridão se tornou completa.

O Ernesto Karklis estava de namoro com a minha irmã Alvina, que tinha vindo a cavalo, mas para acompanhar o seu broto ele deu o cavalo para eu ir montado. Quando eu ia indo passando onde havia uma trilha por uma capoeira que naqueles dias tinha sido roçada e derrubada, e pela qual o cavalo estava acostumado a passar, o animal entrou derrubada adentro. Porém, como estava escuro demais e sem nenhum ponto de referência, fiquei sem saber como voltar. Resolvi esperar.

Quando ouvi vozes da turma conversando dei umas chicotadas no cavalo e voltei ao caminho. Apesar de não estar tão perto assim, a turma começou a gritar apavorada. Ao chegar a uma encruzilhada onde o Ernesto costumava se separar, fiquei esperando por eles. Quando a turma chegou, contaram que um bicho muito grande os tinha atacado, lá próximo ao toco da “maria mole” [NOTA: ombu, Phitolacca dioica, árvore chamada de “maria mole” por causa do tronco esponjoso e macio], e que tinham levado um tremendo susto. Logo imaginei quem deveria ter sido o bicho enorme: não poderia ser outro senão eu com o bandido do cavalo. Não contei nada com medo de apanhar, pois realmente não queria ter assustado ninguém.

Só bastante tempo depois, quando peguei uma vez carona no carro de boi do colega Adolfo Burmeister, e ao passar no famoso lugar dos bichos, no toco da “maria mole” com os seus lindos brotos, contei ao Adolfo que não acreditava nessa história de bichos e contei o que acontecera comigo e com aquele cavalo naquela noite.

O Adolfo começou a rir, não querendo acreditar e achando que era minha invenção, mas consegui convencê-lo de que era a pura verdade. Ai o Adolfo fez me prometer que não contaria nada a ninguém (e prometi) e contou-me outro fato sobre esse mesmo local.

Disse ele que uma vez tinha se atrasado na roça e já no crepúsculo da noite viu o Jacob Karklis vindo pelo caminho. Rapidamente ele, o Adolfo, saiu do caminho e entrou no meio da touceira de brotos do toco da “maria mole”. Quando o Jacob ia passando ele deu um ronco e saiu pulando abraçado aos brotos.

Pobre do Jacob! Jogou uma pedra que trazia na mão e correu como um doido, chegando em casa completamente exausto e contando que tinha acabado de escapar de um bicho terrível. Como conseqüência do susto adoeceu por um bom tempo.

Começou a circular o boato de que outras pessoas também tinham visto o bicho. Até um dia uma turma de italianos decidiu ajudar o pessoal na grande caçada ao lendário bicho. É claro que não acharam nada. Mas como esses caçadores podiam imaginar que esses bichos andam de carro de boi? Tudo mentira, fruto da fraqueza e do medo.

* * *

[continua…]

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Nada do que acontece no mundo | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 21 de março de 1920

Querido Reinold!

A sua primeira carta do Rio recebemos no dia 18 de março, e o Cartão Postal de Laguna recebemos duas semanas depois de sua partida. Quem sabe demorou por causa da grande distância de Laguna até aqui. O Cartão Postal de Itajay demorou só uma semana, e até agora todas as cartas e cartões foram recebidos; esperamos que continue assim e será muito bom. Eu mandei uma carta escrita no dia 7 de março e espero que já a tenha recebido e lido.

Ficamos felizes que a sua viagem foi rápida e você chegou logo lá no Rio. Nós graças a Deus estamos passando bem e todos com saúde. Aqui nada de importante aconteceu.

O tempo está relativamente bom, já não chove tanto e alguns dias está parecendo realmente que o outono chegou. Mesmo os passarinhos não estão cantando mais como nas manhãs da primavera.

Você pergunta o que os rionovenses estão fazendo e qual é o assunto predominante em suas conversas. Como podem conversar alguma coisa com alguma classe, se a grande maioria não sabe nada do que acontece no mundo?

Toda a comunidade trabalhou cinco dias para a manutenção do templo: refizeram os muros dos alicerces do templo, consertaram as cercas, caiaram a parte externa e a interna e agora está com um aspecto bem mais agradável.

No dia 20 de março houve a Festa de Aniversário da Igreja. Na semana que precedeu a festa fez tempo bom até a noite que antecedeu: aí começou a chover forte. O outro dia amanheceu encharcado e lamacento, por isso não teve tanta gente como se esperava. Se o tempo tivesse estado bom teria aparecido muito mais gente.

De Mãe Luzia vieram algumas pessoas, mas o Roberto [Klavin] não veio porque não queria atrasar o serviço — e quando é para ganhar dinheiro ele deixa as festas onde elas estão, que ele não está nem aí. Ele até agora não voltou para casa.

Sobre a festa não houve nada que realmente tenha se sobressaído, que merecesse ser escrito. O Arnolds Klavim mandou uma carta de felicitações de Nova Odessa, SP, e da Igreja de lá veio um telegrama. Até o Oscar Karp foi falar em nome da União de Mocidade para felicitar a Igreja. Parece que ele queria fazer uma alocução, mas não se saiu muito bem. Estava com um Novo Testamento na mão, o qual folheava sem parecer achar o que procurava. Depois disse que a igreja devia ter mais paciência, compreensão e espírito de amor e tudo suportar, como Jó. Isto foi tudo que conseguiu uma pessoa que passou um ano acocorado em um banco de escola superior do Rio de Janeiro! Bem, assim foi.

O pobre rapaz foi complementado pelo Butlers, que explicou detalhadamente e com toda clareza que realmente devemos ter paciência e espírito de perdão, todas as vezes que alguém eventualmente ofende a outrem e acontecem mal entendidos. Porém quando uma pessoa está em pecado e deliberadamente fala mal ou prejudica diretamente outras pessoas, nem a igreja nem qualquer de seus membros precisa ter a paciência de um Jó. Deve-se usar toda firmeza e educação para explicar que ela vai ser afastada pelo comportamento inadequado, e isso nada tem a ver com paciência ou compreensão.

O Butlers esperava tempo bom e com isso visitas importantes e autoridades de Orleans, por isso ensinou para os alunos da Escola Anexa o Hino Nacional e o Hino à Bandeira, mas como eles não vieram as crianças cantaram assim mesmo, para que os adultos saibam que eles são bons para aprender. Outros disseram que nem em sete anos teriam apreendido um hino tão complicado, e as crianças aprenderam em apenas sete semanas.

Agora nas quartas-feiras e nos domingos à noite são cantados hinos em brasileiro. Espera-se que até a Convenção que vai se realizar aqui se aprendam muitos novos hinos em brasileiro. Aqueles hinários você conseguiu comprar? O Augusto Klavin acha que a edição está esgotada. Quando você tiver oportunidade de sair gostaria que comprasse papel de desenho de cor azul [Nota: talvez refira-se a papel-carbono]. Você pode embrulhar naqueles pacotes de jornais e me mandar.

Faz pouco tempo chegou uma pequena carta do Shepard em resposta àquela que você escreveu daqui. Ele garante o trabalho para o ano inteiro. Também chegou uma carta do Artur Leiman de Argentina, e estou mandando junto também esta beleza. O moço todas as línguas que aprende ele usa na mesma carta. Quando fores responder mande a carta para o endereço do Fritz Leiman, porque a Escola em que o Artur está vai mudar o endereço para fora de Buenos Ayres.

Aquele livro ainda está conosco e faça o que achar melhor. Você poderia conseguir aqueles prospectos do Seminário, pois o Arthur Leimann quer saber do Inkis e nesse prospecto tem inclusive a fotografia dele, assim [seria o caso de] mandar para ele. Aqui falam que o Deter vai abrir uma Escola em Curitiba e aí o Emilio Andermann e o Jahnis Klawa irão para essa escola, que será totalmente de graça.

[Nota de V. A. Purim. Emilio Andermann morou sempre em Urubici. Pessoa extremamente inteligente e agradável, mas com algumas idéias polêmicas.]

Agora chega. O que agora andas fazendo? O Fritz [Janowoski] também já chegou? E onde você pôs aquela gentil dama? Ou ela logo estará logo de volta ao Rio Novo?

Então lembranças de nós todos aqui e que tudo te vá bem. Viva feliz e com saúde.

Com sincera saudação da

Olga

A série de conferências que você fez aqui | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 7 de março de 1920

Querido Reynold!

Primeiramente envio amáveis lembranças. Recebemos o teu cartão postal enviado de Itajay na sexta feira dia 5 de março e ficamos alegres que até aí fez boa viagem.

Desta vez a comilança de bananas deu certo? O cartão que você diz ter mandado de Laguna ainda não foi visto por aqui, mas pode ser que esteja em Orleans no correio. Quando o Paulinho voltou de Laguna ele disse que no domingo o navio iria partir. Você conseguiu no navio comprar uma passagem direta até o Rio? Quanto custou? E o Victor [Staviarski] viajou de primeira classe? E como foi a Selma [Klavim] , sabes se ela logo voltará para casa? Aqui certas “pessoas” dizem que você não convidou a Selma para viajar junto, mas quando chegaram no Victor terias dito com boa vontade que ela poderia viajar junto porque és um bom rapaz.

Sobre a série de conferências que você fez aqui, existe também um bando de invejosos que teriam dito que, soubessem antes [que você seria o preletor], não teriam dado um vintém sequer. E que 50$000 é um grande dinheiro. E que se macacos tivessem a mesma chance de frequentar escolas superiores e assimilar conhecimento com uma concha, teria sido o mesmo resultado. É pena que não sei quem falou isso.

Quanto tempo você viajou? Na noite de sexta feira você já estava [na sua igreja] em Pilares? Este ano vieram mais alunos [para o seminário]? Também o número de estudantes letos aumentou? E o Fritzis [Leimann ou Janauskas], também já chegou?

Você já esteve na Casa Publicadora para comprar os cantores [hinários] em português? Se você conseguir, mande bastante. O Butlers falou que todos que sabem ler devem comprar um, pois agora nos cultos das quartas-feiras à noite também serão cantados hinos em português do Cantor Christão, e a Marta [Anderman Butler, esposa do Wilis Butler] vai ensinar novos hinos, porque neste cantor existem lindos hinos que aqui ninguém conhece. Quem fornecia era o Augusto Klavim, mas ele não tem mais tempo para encomendar e revender.

Nós graças a Deus estamos bem todos com saúde. Na semana passada o tempo estava razoavelmente bom e choveu pouco, mas hoje não nem estava quente nem nuvens grandes, mas no começo da tarde começou uma chuva fina. Mais tarde começou um vento do lado do morro do Leepkaln [norte] e em seguida desandou uma chuva cada vez mais grossa, e finalmente parecia que estivessem despejando com baldes e também bem um pouco de granizo.

Na nossa nova coivara o milho foi todo derrubado e não sei como foi na coivara da mata virgem e nem o que aconteceu na Bukovina: em ambos lugares os milharais estavam pendoando.

Você pergunta se eu fui na igreja domingo passado; sim, eu fui. E depois na sessão regular, que também foi muito tranquila porque o Grünfeldt não veio. O encrenqueiro não estava e então foi decidido excluí-lo, pois o Butlers estabeleceu a condição para ficar e não ter que aguentar um fofoqueiro e intrigante.

Hoje os homens da igreja estão dando um dia de trabalho para a manutenção e limpeza do templo, da escola, do jardim e do cemitério. Ninguém quer pagar os 3$000 que é o preço da diária para pagar um substituto; na semana que vem serão mais dois dias.

Neste mês na escola são 21 alunos e a nossa Lucija também vai. O Karklin e o Seeberg fizeram uma campanha e conseguiram 1.600$000 para os refugiados de guerra dos países bálticos, principalmente os da Letônia, importância que foi mandada para o Comitê Central de Ajuda na França, o qual encaminhará para o destino final.

Desta vez chega, pois não tenho nada de novo para escrever, Quando receber alguma carta escreveremos mais. Amanhã o Suts Grikis levará esta para o Correio. Ainda lembranças do Papa, Mamma, Lucija e Arthur e também minhas.

Olga

Um mutirão de limpeza | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 11 de março de 1919

Escripto em letto!!
[Nota em português no original]

Querido Reinold!!

Recebi a tua carta escrita em 21-2-29 no dia 7 de março. Muito obrigada! As cartas têm ido e voltado bastante rápido. Das cartas deste ano no total são três as cartas recebidas: esta e as de 21 e 31 de janeiro. Como as duas chegaram juntas já mandei a resposta já faz mais de duas semanas, e pode ser que já tenhas já recebido. As tuas cartas anteriores devem estar todas perdidas, mas não posso entender que como as minhas cartas chegam todas e as suas se perdem tantas.

Bem, as tuas férias já acabaram? Com que pessoas você trabalhou? Eram brasileiros? Era longe da Escola?

As camisas ainda não posso mandar porque não tenho o tecido em casa; na próxima vez que for a Orleans irei comprar. Você tem algum modelo especial? Alguma combinação de camisas com as gravatas? Você ainda tem meias? Para aprender a passar a ferro os colarinhos, (avulsos) eu não preciso, pois aqui não temos este tipo de ferro de passar. Se for para aprender alguma outra coisa até tudo bem.

Nós graças a Deus estamos passando bem. Estamos todos com saúde e os grandes serviços já estão terminados. Ontem o Papus e o Puisse estavam roçando o pasto [NOTA: O pasto era roçado com alfanje, também chamada de gadanha; quando o a vegetação era muito grosseira tinha ser com a foice de bico]. Eu e a Luzija estávamos dobrando milho e hoje terminamos a roça lá de perto da ponte [NOTA: A prática de dobrar as hastes de milho na fase de maturação tinha diversos motivos: 1º Deixar mais luz para permitir o crescimento do feijão. 2º Proteger as espigas, evitando a entrada d’água; desse modo, mesmo em colheitas tardias as espigas permaneciam secas e saudáveis. 3º Apressar o amadurecimento em caso de necessidade de uso, quando a colheita anterior tivesse acabado.].

Começamos a trazer para os porcos espigas novas, porque o milho da safra anterior já terminou. Por aí você pode ver que ainda serviço nós temos bastante.

Hoje o Enoz esteve com o seu carro de bois trazendo as tábuas serradas lá do mato até em casa. Semana passada eles terminaram de serrar. Agora todas estão em casa; logo que estiverem secas vai ser feito o forro do paiol e construído um “werkstube” [NOTA: Weskstube. Alemão: divisão ou compartimento de uma fábrica. Área de trabalho de uma fábrica.] em que será colocada a bancada de carpintaria. Os fusos já foram comprados faz muito tempo, mas até agora não tínhamos um local apropriado para estas coisas [NOTA: Os fusos eram usados na bancada de carpintaria para prender, segurar para serrar, aplainar, furar, lixar ou colar peças ou conjuntos de madeira durante a sua fabricação.].

Hoje não tenho muita coisa para escrever. No domingo passado, dia 9 de março, saiu de Curitiba o missionário A. B. Deter, e esta semana já é esperado no Rio Novo. Os rionovenses hoje foram fazer um mutirão de limpeza no templo da igreja para bem receber o ilustre visitante. [NOTA: Neste mutirão era feita também a manutenção dos jardins, das cercas, dos gramados, etc. Nós gostávamos muito porque apesar ser um trabalho muito puxado e chefiado por líder, o mesmo era feito em grupo e saía da rotina cotidiana].

Você pede que descreva todos acontecimentos e isso eu prometo que farei, descrevendo todos resultados.

Semana retrasada houve batismos no Rio Novo. Foram batizadas quatorze pessoas: Elvira Maisin, Ludis, Alvine Sanerip [NOTA: Alvine mais tarde casou-se com Ernesto Karkle. A Marta do Gustavo Zeeberg é uma das filhas do casal], Luzija Sanerip, Emma Burmeister, Aldona Balod [Aldona Balod casou-se com Otávio Fernandes e foi mãe do Cláudio Fernandes de Orleans], Jahnis e Valdis Karklin, Rudis e Natalia Felberg, Jahnis Seeberg [João Seeberg foi pai do Gustavo, da Neli, da Frida e da Irma], Alida Klavin, Hilda Auras [esposa de João Seeberg] e Fanija Topel [A Fani casou-se com o Karlos Paegle e foi mãe do professor Vinicius, da Neli (primeira esposa do Carlos Auras), do Edgar e do Durval Paegle].

Disseram que o João [Frischembruder] de Riga também iria se batizar, mas parece que não quis desta vez, assim dizem. Agora a escola também está funcionado, mas o professor é o mesmo João de Riga, e quando ele for embora depois do “São João” [NOTA: 24 de junho, grande festa na Letônia em comemoração à passagem do solísticio de verão no hemisfério setentrional] a Marta [Marta Anderman Butler, mãe da Dra. Hellen Butler Muralha] vai começar a lecionar. Agora ela em casa está aprendendo português e inglês. O Willis Butler não quer que a esposa seja incompetente quando começar a dar aulas. O Butlers em casa faz tudo. Em casa ele faz até a comida, pois isso ela não sabe fazer: é realmente uma madame de pastor.

Bem, por hoje chega. Deixa para outra vez quando algo de novo tenha acontecido. Escreva bastante para mim. Muitas sinceras lembranças do Papa, Mama, Luzija, Arthur e

Olga

SOBRE A VIDA NO BRASIL E SEUS RESULTADOS | Parte 1/2

por Alexandre Klavin, primeiro pastor a chegar da Letônia para pastorear a Igreja Batista do Rio Novo

 

Informo apenas que estou aqui em Rio Novo [NOTA: Rio Novo, a colônia, encontra-se a 12 km da estação ferroviária de Orleans do Sul. A jusante do rio Tubarão, até o porto de Laguna, percorre uma ferrovia]. Na colônia, pela observação, vejo que aqui as coisas andam e andarão…

Minha viagem durou quase dois meses. Ao chegar [a Orleans] fui recebido por amigos, irmãos e irmãs da colônia leta de Rio Novo. Cavaleiros e carros de boi vieram me receber na colônia Rio Novo. Fomos honrados com diversos portais elaborados com palmeiras e guirlandas de flores, bem como um jantar preparado com muito amor.

Então, no primeiro domingo, assumi como pastor da igreja. Surgiram dificuldades: onde arranjarei terra? Nas proximidades não há. Soubemos que um colono próximo da igreja quer desfazer-se das suas duas propriedades e mudar-se para outro lugar. Na terceira derrubada a terra já está exaurida e nada mais se desenvolve.Então teremos que negociar, mas negociar com a seguinte condição: terei que comprar as duas casas com todos os pertences.

O assunto foi devidamente avaliado: o lugar está à mão, bonito e agradável, com pastagem formada e diversas fruteiras, reconheci que não poderia demorar e comecei a negociar. No inventário havia sete animais grandes e alguns pertences. Somando tudo, no contrato paguei 600 mil réis (mais ou menos 200 rublos, mas a terra terei que pagar em separado). pelo conjunto das duas colônias, perfazendo 150 “purvietas”.

[NOTA: Cada “purvieta” (medida de área usada na Letônia) mede 0,4 hectares. 150 purvietas, ou seja, 60 hectares, custaram 600 mil réis; então cada hectare custou 10 mil réis, e o comprador ainda continuou pagando à Empresa Colonizadora o saldo devedor.]

Assim de imediato tornei-me proprietário com sete animais grandes. Fui presenteado com mais ou menos 70 galinhas, porcos, gansos, perus, cabras e ovelhas, somando umas 100 cabeças…

Agora, com a chegada do líder espiritual dos letos, a igreja achou por bem doar 100 diárias em regime de mutirão. Imediatamente encaramos o trabalho, para que até o Natal a casa esteja pronta.

Embora estejamos vivendo na mata virgem, quando o problema é construção há grande dor de cabeça, porque madeira apropriada para construção não há muita e temos que transportá-la por duas ou três [purvietas] de distancia, e é bastante difícil.

Porém quando há boa vontade e um pouco de dinheiro é possível construir uma boa residência, e pelo visto terei a melhor e mais bonita casa em Rio Novo. Ela está sendo construída com diversas madeiras fortes e valiosas. Aqui as casas são construídas com esteios, e entre os esteios são colocados pranchões. A minha casa é construída com as seguintes madeiras: os esteios são de “louro” e “canela”, os barrotes e linhas são de “peroba” e “pinheiro”, e as paredes de “cedro” e forro de “baguaçu”. De madeiras duras e valiosas há acima de dez variedades, que devemos conhecer bem antes de construir.

[NOTA: Nos esteios era feitos sulcos onde eram encaixadas as pranchas para as paredes.]

Ao adquirir a propriedade, havia uma considerável derrubada, onde plantei mais ou menos uma “puspura” de milho [maiz (espanhol) ou grão-turco (italiano)], e pelo que vejo, creio colher em torno de 30-40 “puru” pelas contas habituais.

[NOTA: “Puspura” quer dizer “metade de um purs”. “Purs” é uma unidade antiga de capacidade usada na Letônia; equivalia a algo entre 70 a 100 litros e era usada para centeio, cevada, ervilha, etc. Por exeplo: “Neste saco cabem dois purs de batatas.” Talvez haja alguma semelhança com o nosso alqueire, mas o nosso tinha somente 36.7 litros.]

Plantei também algumas raízes para os animais e para os humanos. As raízes são mandioca, aipim, cará, batata doce, batata baroa ou salsa e batata inglesa. No período do inverno podemos plantar todas as raízes e sementes cultivadas na Europa. Parreiras são cultivadas em todas as propriedades e há boa produção.

Quero contar como aqui se cultiva a terra. O colono, ao entrar pela primeira vez na mata virgem com a serra, o machado e a foice, utiliza primeiro a foice. Ela é uma ferramenta como um machado curvo, na ponta de um longo cabo. Com esta ferramenta, ou “faca de mato”, cortam-se os cipós e a vegetação baixa antes de aproximar-se das grandes árvores.

As derrubadas de agosto podem ser queimadas em outubro e em seguida planta-se milho, arroz, feijão preto, outras culturas e raízes. A plantação é feita com auxilio da enxada. Uma bolsa com sementes é pendurada ao pescoço e a cada quatro pés cava-se o chão, colocando-se no burcao de cinco a seis sementes de milho.

Assim, com aproximadamente uma “pura” [0,4 alqueire, medida de capacidade] pode-se com uma garnicu plantar, quando se tem, quatro “purvietas” [1,6 alqueires, medidade de área] de derrubada; já é suficiente.

Uma derrubada como essa é melhor quando da primeira queimada: no primeiro ano quase não há necessidade de limpeza. Numa derrubada como esta pode-se plantar durante dois anos seguidos, depois [deve ser] deixado para recuperar. Após dois anos já cresceu um mato alto com muita folhagem.

Na outra roça — derrubada a foice a capoeira de 2-3 anos de idade e após um mês de secagem, — pode-se queimar e plantar o que desejar. Essa roça é às vezes melhor do que a primeira, porque a terra é fofa, as raízes e tocos das grandes árvores terão apodrecido em sua maioria.

Numa terra como essa todas as raízes da Europa podem ser semeadas: elas crescem aos pulos. Porém há um problema: enquanto as plantas de desenvolvem tenho que com frequência usar a enxada para eliminar as plantas invasoras, que crescem com grande velocidade.

Uma roça como essa é chamada de “roça de capoeira”, e nela podemos plantar por três anos seguidos, mas todos os anos após a colheita devem ser queimadas as ervas daninhas.

Depois de três anos de uso da terra deixamos para que cresça nova capoeira, que aniquila as plantas daninhas. Após 3-4 anos de recuperação uma “nova mata” terá crescido, e será beneficiada como da primeira vez.

Na terceira derrubada a terra já está exaurida e nada mais se desenvolve. Ainda assim, com a enxada se capina a camada superior: a vegetação rasteira é queimada e se planta mandioca ou aipim. Essas raízes se desenvolvem em terras desgastadas. Quando a cana de açúcar é cortada, aí planta-se mandioca ou aipim.

continua

 

Alexandre Klavin, 1900
Publicado no Majas Viesis (O Visitador do Lar) número 12, de 21 de março de 1901
Traduzido Por Valfredo Eduardo Purim
Notas por V.A.Purim