Aquele Reinis de Leningrado escreveu uma carta e também um cartão postal…De Luzija para Reynaldo Purim – 1925 –

Rio Novo 24-3 25

Querido Irmãozinho!
A tua carta escrita em 20 de fevereiro recebi já há bastante tempo, por ela muito obrigada. E eu estou fazendo do mesmo modo que você, quando não responde imediatamente depois as coisas se acumulam e se gasta muito tempo com tanta coisa para escrever. Realmente não tinha tempo de responder, pois possivelmente você saiba que agora no dia 20 foi o aniversário aqui da Igreja e por isso quase toda noite tínhamos que participar dos ensaios do Coro da Mocidade e também do Coral da Igreja e devido que este ano os ensaios começaram muito tarde foi necessário também alguns durante o dia e assim realmente não sobrou tempo para escrever nada.

Sobre a Festa de Aniversário da Igreja devo informar que naquele dia o tempo estava bom, mas, gente não tinha tanta quanto nos outros anos. Foi servidos o tradicional café com pão doce, etc.. Visitante ilustre foi o representante da Igreja de Varpa, ou melhor, o Pastor Pintcher do “Acampamento” [Início da Colônia Varpa Tupã SP] o qual chegou aqui já no dia 25 de fevereiro junto com o Pastor Stroberg de São Paulo. Sobre o Programa da festa nada excepcional não houve, tudo transcorreu igual as outras festas. O Pastor Pintcher foi o dirigente. O Pastor Stroberg já no dia 11 de março teve que embarcar para reiniciar os seus estudos. Junto com ele tinha vindo um outro moço do “Acampamento” chamado Schmit e esse também foi junto com o Stroberg para a escola em Kuritiba. Interessante quando este moço falava em público ficava com os olhos fechados. Este moço tem a mesma altura do Stroberg. Bem sobre as atividades do Pastor Pintcher e do Schimit escrevo em outra ocasião.

Recentemente recebi uma carta do Tio Ludvig e ele escreve que de boa vontade viria dar um passeio em Rio Novo, mas ele não tem ninguém para deixar em seu lugar. Ele exerce o cargo de Redator do “Deutscher Zeitung”. Ele tem dois auxiliares, mas se forem deixados sós, eles amassariam todos os livros com os pés e assim mesmo o jornal ficaria com as páginas vazias [em branco]. Ele me convida e acha que seria muito melhor eu ir passear em sua casa e que pusesse a mamãe [Lisete Rose Purim – irmã dele] num cesto (balaio) e trouxesse junto, pois de outra maneira ela nunca viria fazer uma visita para ele. Sobre você, ele não pergunta nada, somente ele menciona sobre o filho mais velho dele o Gerds [mais conhecido por Vitor] já está na escola e diz que ele e parecido com você [7 anos de idade] e o outro se chama Rolf e tem um pouco mais de três anos de idade e não tem mais nenhum filho, o endereço dele ainda é o mesmo, Rua Libero Badaró N. 99.

Aquele Reinis [Reinis – Reinolds Purens irmão de Jahnis Purim meu avô – Faltam detalhes deste parente] de Leningrado escreveu uma carta e também um cartão postal, ele conta que no mês de abril ele deverá viajar de volta para a Letônia e depois para o Brasil ou para a África. A mãe dele já faz 10 anos que faleceu e ele está sozinho e ele não mais consegue viver na Rússia. Ele possuía um terreno, mas hoje já não é mais dele. Então vai liquidar todos os bens e vir embora. Também o tio Jekabs [Jekabs Purens outro irmão de Jahnis Purim que foi morar com a família em Varpa Tupã SP.] escreveu que escreveu para o tio Andrejs [Andrejs Purens] outro irmão de Jahnis Purim que nunca veio para o Brasil.Tinha mandado cartas dizendo que tem vontade de algum dia vir para cá também. Nós escrevemos para que ele [Reinis] na medida do possível auxilie o Andrejs e venham todos para cá. Portanto não se assuste se na eventualidade eles apareçam por lá, pois nós também fornecemos o seu endereço para eles.

Nós estamos razoavelmente bem, somente à tosse comprida está nós judiando. Também o Paps [Paps – Jahnis Purins meu avô] ficou acamado com tifo, mas nós outros ainda não tivemos.

O tempo está com a temperatura mais amena e também não chove mais tanto, já parece que o outono está chegando. O milho está amadurando e este ano as espigas estão bem desenvolvidas (grandes).

O Arthurs plantou um trecho de arroz no banhado junto à divisa do terreno com a Nona e este arroz quanto ele, você poderá vir ajudar a cortar. Logo teremos que fazer a farinha de mandioca, pois as mesmas estão com as raízes realmente grandes e água para mover o engenho também há bastante. Nesta semana o Roberts está fazendo novas roscas [Deve ser para os fusos das prensas]. Este ano a farinha está cara 22 a 24 o saco, o toucinho a 40$ a arroba, a banha a 5$500 o quilo, realmente não consigo compreender como os pobres conseguem comer quando tudo está tão caro.

Você sabe se o João Klava já chegou ou chegou a tempo? Nós calculamos que a chegada dele deveria coincidir com aquela catástrofe. [??] Aqueles majestosos prédios da Escola não desmoronaram e o que você estava fazendo nesta ocasião? Aqui o povo está muito assustado com as notícias destas tragédias e os jornais estão cheios delas.

Tens encontrado o Fredi Stekert? Poderias ir procurá-lo, pois a senhora mãe dele está muito preocupada devido que há mais de um ano que não manda nenhuma carta para casa. Jornais ele manda, mas nenhuma linha sobre ele próprio e ela também não sabe onde ele vive nem o seu endereço.

Bem hoje chega, a cabeça está doendo e o sono está chegando, tenho que ir dormir.

Lembranças de todos, os outros também vão escrever. Eu antecipei, pois quero receber a sua resposta também antes sem ter que esperar demais.
Luzija
(Escrito na lateral)
Ainda muitas lembranças do pessoal do Rio Larangeiras. Eles nunca podem te esquecer, você bem que poderia escrever uma carta para eles. O Romão [Romão Fernades meu avô materno] prometeu te escrever, mas não sei se já o fez.

…e se a seca continuar assim será muito triste. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1924 –

Rodeio do Assucar 17 de setembro de 1924

Querido Reini: Saudações!

A tua carta recebi já há bastante tempo atrás. E hoje não estou com ela e eu não me lembro nem metade do que você pergunta nesta carta. Acho que não tenha nada muito importante e se tinha a Luzija já deve ter te escrito. Porquê ela diz que manda cartas quase todas as semanas e o que ela escreve ela não diz e não deixa ninguém ler as cartas que ela escreve.

Aqui nós graças a Deus estamos passando suficientemente bem e nada tem de novo tem acontecido. As chuvas sim que são muito poucas e se continuar assim será muito triste. A seca no ano passado começou em novembro e deste então não houve nenhuma chuva que fizesse o nível dos rios subirem ao normal. Aqui no Rodeio do Assucar o riozinho ainda corre, mas lá no Rio Novo faz tempo que a calha não corre nenhuma gota d’água. A água para o consumo da casa tem que ser trazida da grota funda. As atafonas passam mais tempo paradas [A grande maioria destas atafonas, engenhos e serrarias em tempo de seca, tinham represas ou açudes para acumular água, para serem usadas por um certo período] e nem grãos para serem moídos.[Está se referindo aos danos da seca na colheita anterior].O tempo sempre está bom frio e com muito vento. A semana passada foi um pouco diferente porquê esquentou um pouco, mas ficou tão enfumaçado que não dava para ver o sol. As vezes a gente podia ver o sol como um disco através da fumaça. Sábado ficou nublado e no Domingo choveu um pouquinho e na Segunda e na Terça feira amanhecer nublado e escuro então pensamos que agora iria chover bastante e então ontem a noite choveu até bastante, mas hoje está tudo limpo outra vez e não aparece nenhuma nuvem para qualquer lado do horizonte. Melhorou um pouco porquê a poeira apagou e o pasto está se mostrando um pouco mais verde. Para o gado este ano não foi fácil pois durante o verão o pasto já tinha secado e depois agora no Agosto vieram as grandes geadas. Tudo agravado, pois este ano o restolho [As espigas de milho pequenas eram destinadas para a alimentação do gado e eram chamadas de “restolho”] não temos suficiente.

Na semana passada terminamos de plantar a mandioca. Plantamos de mandioca 18.600 mudas, De aipim plantamos 2.700 mudas. As derrubadas dos capoeirões também já terminamos. [Era hábito entre os agricultores deixar as áreas de terra cultivada “descansando” por um período de até 5 anos e quando já havia crescido uma capoeira ou mais tempo um capoeirão era novamente roçado e queimado e tornado a cultivar.] Já plantamos pepinos e batata inglesa para que até as Festas do Natal quando vieres para casa passear para você se deliciar de tudo isso e mais das grandes melancias que também nós já plantamos.—-

Junto a esta carta estou enviando uma “receita” que o Diretor prescreveu e as quais aqui na farmácia tinha que esperar por um longo tempo e ainda ele cobra 15$000 por vidro e assim eles põem 5$000 de lucro por unidade. Naquela vez eu comprei um vidro e tomei e não observei nenhuma melhora significativa porquê aqueles são aqueles remédios que são necessários tomar aos baldes. Então comecei a tomar aqueles dois vidrinhos de remédios que o Wictor trouxe que agora já estão no fim, mas a perna não melhorou nada. Se você puder comprar maior quantidade, quem sabe uma meia dúzia, então poderia usar mais tempo, aqui o farmacêutico quer encomendar, mas ele quer ter um lucro exorbitante, no Rio custa 6$000 e aqui ele quer 15$000. Melhor seria se alguém que viesse de lá pudesse trazer.

Bem desta vez chega de tanto escrever, pois também eu não tenho a máquina de escrever que facilita escrever mais rápido como você ai. Sobre outras coisas eu pouco sei porquê às noites poucas vezes a Igreja eu vou. Pode ser que a Luzija que vai para todas reuniões de preparação dos professores da Escola Dominical e Estudos Bíblicos possa te contar porquê para mim ela não diz nada. Então escreva diretamente e pergunte a ela.. Vou esperar carta sua. Com lembranças. Olga.

Desta vez eu também quero escrever uma pequena carta … | De Artur (Otto) Purim para Reynaldo Purim – 1924

Rodeio do Assucar 8 de junho
Querido Irmão!
Desta vez eu também quero escrever uma pequena carta, se bem que de você eu nada de você não tenha recebido e ainda desconfio que o meu “documento” anterior tenha se extraviado. Porquê na tua carta do dia 16 de maio você escreve que não tinha recebido nenhuma carta de casa e por aquele tempo deveria já ter chegado. É uma pena, pois era uma carta grossa com muitas páginas.
Agora graças ao querido Deus estamos passando suficientemente [Diesgan =Suficiente, Bastante] bem. O tempo está bom e faz frio. As geadas houvera bastante grandes. O termômetro [Gradisfers?] muitas vezes marcou zero.
Agora nós estamos fazendo farinha de mandioca. Já temos umas 10 sacas torradas e ainda tem muita mandioca para ser feita em farinha. Portanto convido para vir ajudar e aproveitar para ver como é feita pois tu ainda não tens visto fazer farinha.
A farinha de mandioca é bastante bem valorizada. Faz pouco tempo atrás eles pagavam somente 8$000 a saca e agora estão oferecendo 16$000. Faz tempo que eu te escrevi para que você mandasse uma outra variedade de mudas de mandioca destas que aqui não tem e a possibilidade de uma nova qualidade se dar bem aqui. Se não quiseres mandar, poderás trazer. Desde que até agosto ou setembro já estejam aqui. O pessoal aqui de casa está assustado que de repente você poderá mandar uma espécie daquelas venenosas e assim matar todo o nosso gado. Eu acho se elas se desenvolverem bem se não servir para o gado, para fazer farinha, não tem nenhuma importância. O mais importante para o fabricante é ter o material.
Desta vez chega.
Com muitas lembranças do Artur.

Uma viagem a Urubicy | de Otto Roberto Purim (Artur) para Reynaldo Purim – 1924 –

Rodeio do Assucar, 28 de abril

Querido irmão! Saudações!

Agora desta vez chegou à hora de eu escrever uma carta para ti. A tua faz tempo que a recebi, mas não fiquei conformado, pois ela era muito curta, eu esperava pelo menos duas páginas, mas muito obrigado por ela assim mesmo.

Tu escreves pedindo que eu escreva uma longa carta para você. Mas eu não tenho máquina de escrever, nem material nem tantos assuntos para descrever e nem tempo para tanto. Portanto não espere como pediu aquelas descrições minuciosas [Sihki un smalki] e em ordem cronológica. Vou escrever o que estou fazendo e responder o que você perguntou.

Esta semana batemos [Bater arroz – O arroz era cortado e trazido em feixes para a eira a qual era coberta com um pano grosso (10 x 10 metros). No centro deste lugar era colocada uma caixa com a parte superior gradeada com sarrafos. Apanhando pequenos feixes de hastes do arroz cortado, estes eram batidos nesta grade com a finalidade de despegá-los das hastes. Depois era peneirado para eliminar a palha e outras impurezas e assim estava pronto para ser trazido para o paiol para nos dias subseqüentes ser posto no terreiro para secar. As hastes de arroz serviam para cobrir as ramas de mandioca para proteger da geada] arroz, pois eles já estavam maduros demais. Nós esperávamos você para ajudar-nos. Ainda na semana passada choveu e é por isso que passaram do ponto. Hoje trouxemos duas carradas [Duas viagens de carro de bois] para casa [Desta vez eles bateram o seu arroz no terreiro] e batemos e rendeu 15 quartas [Cada saco de 50 quilos tem 8 quartas ou 2 alqueires] ainda não bem peneirados. O arroz este ano cresceu bem agora no final e os grãos estão muito bonitos. Pena que aquela seca que deu logo que eles foram plantados foi que prejudicou no perfilhamento. Bem devemos aceitar com gratidão, pois muitos nem isso colheram.

Hoje à tarde eu juntei uma quarta [Uma Quarta de alqueire] de pinhões e agora enquanto escrevo esta carta estou comendo pinhões quanto quiser. Lá também tem pinhões? Dizem que nas Serras este ano tem pouco pinhão porquê a geada no tarde, a geada já bem na primavera prejudicou a florada.

Você se interessou muito por tudo sobre as Serras e quer saber como que é por lá. E sobre Urubicy [S 27.59’41,5 “- W 049.38’038”] eu já contei em outra carta. Lá as terras são planas como uma mesa, mas de ambos os lados tem morros bastante altos. O lugar é bastante lindo. As várzeas dos rios estão todas derrubadas, mas por toda parte existem imensas matas fechadas de pinheiros. Campos de pastagens naturais lá não existem. Se derrubar o mato então nasce grama parecida com os dos campos. Os Campos de pastagens naturais estão a 4 horas de viagem.[A pé ou no lombo de mulas]

Dos contrafortes [“Seras kante” –A parte visível da a grande distância mesmo do Rio Novo e outros lugares] da Serras, daqueles que avistamos daqui é caminhada de um dia inteiro até chegar em Urubicy. Explicando melhor logo quando a gente chega no alto dali até o Rio Pelotas são 2 ½ horas de caminhada e lá é considerado o meio do caminho do Rio Novo até Urubicy. [O Arthurs, meu pai contava que devido a viagem ser de 2 dias, eles precisavam pernoitar nas Serras. Como na Serra na beira da trilha não havia fazendas ou qualquer abrigo, eles antes do anoitecer, paravam enquanto havia ainda luz do dia e cada um cortava uma montanha de galhos de vassoura da serra ou vassoura lageana para si e deixava uma condição que pudesse enfiar-se dentro para proteger-se do vento gelado da noite. É claro que para tanto cada um levava o seu facão na cintura. Naturalmente cada um deles levavam também o seu palo ou capa de montaria para se enrolar. O caminho mais usado naquela época era a chamada Serra do Imaruí que passava pela Brusque do Sul- Morro da Palha- Rio Minador- Vaca Moura- Três Barras- não sei se exatamente todas essas localidades e nem se nessa ordem para chegar ao sopé da Serra que para subir levava 2 horas batidas. Eles atravessavam o Rio Pelotas. A chegada em Urubicí era pelo alto rio Urubicí onde hoje o lugar é chamado de “Baiano”. Muito depois no meu tempo, só usávamos para ir Urubicí o caminho chamado Serra do Grão Pará , também com outros nomes como Serra da Forcadinha ou Serra do Morro do Engenheiro, cujo roteiro ficava oeste da atual Serra do Corvo Branco. Mas esta vamos contar em outra ocasião.]

Você quer saber o que faz o Peteris [Peteris Bruvers. Falta confirmar] e o Karlis [Karlis Karkle] e os outros. O Peteris não tem terra própria e ele trabalha em terra arrendada porquê o governo não vende terras para agricultura onde pretende fazer a cidade, mas somente arrenda. Ele está trabalhando em dois lotes, se bem que o governo só arrenda um, mas devido a curva do rio que chegava perto da rua e por isso ele conseguiu os dois. O valor que eles pagam é 2.500 por ano e por cada lote. O Karlis também morava em casa e lote arrendado, mas como ele não fez a vontade do proprietário ele vai ter que sair e ele vai para o lado do Canoas, também em terras arrendadas. Veja você como é a vida de arrendatário.

Onde o Bessa [ Manoel Bessa ] mora eu não sei se é de propriedade dele ou se é arrendada. Ele mora à distância de uma hora de viagem de Urubicy seguindo o rio abaixo. [Rio Canoas] Ele tem uma lavoura muito bonita, a casa dele é de madeira, mas é de dois andares. A esposa dele é costureira. [Schneiderene – Modista] Ele é agente do Ministério da Agricultura, com ele é possível conseguir as mais variadas sementes. Também com ele podem ser encomendadas máquinas e ferramentas e mudas de frutíferas. Ele tem uma trilhadeira muito bonita movida à força manual. O que ele ainda pensa da religião eu não sei porquê naquele tempo que nós tivemos lá ele estava em Desterro. [Ele era conhecido do pessoal da Igreja Batista leta de Rio Novo, pois tinha sido membro tanto ele como a esposa dele a Charlota. Era morador da cidade de Tubarão e muito bem relacionado com os letos. Em uma sessão regular da Igreja em Rio Novo em 24/11/1912 ele chegou a fazer uma comunicação que tinha entrado em contacto com o Seminário Batista do Sul do Brasil no Rio de Janeiro onde faria o treinamento para ser considerado pastor e a Igreja aprovou por unanimidade.] sei porquê naquele tempo que nós tivemos lá ele estava. Era esperado para chegar em casa por aqueles dias, mas não chegou. Para ele ir até Desterro, ele leva 4 dias de viagem.

[Sobre Manoel Bessa ainda persiste uma dúvida: No excelente livro “Urubici e Suas Belezas Naturais” é mencionado como nascido em 08 de janeiro de 1898 como em 1911 ele já casado com Carlota Costa Bessa (13 anos) então se percebe uma não conformidade e não só esta. Em 1912 ele pede Carta de Transferência e passa para a nova Igreja Batista de Pedras Grandes continuando morar em Tubarão. Ele era conhecido e admirado pelo meu pai e outros da Comunidade tanto é que meu pai na primeira viagem a Urubici tentou contacta-lo].

Não muito longe de Urubicy moram ainda outros compatriotas letos. Da família Kusemitsch o Martschus e o Saschu e ainda a família de um tal de Guba. Nenhum destes senhores eu não tive a chance de conhecê-los e nem sei direito para que lado eles moram. O Fritz Feldberg mora bem perto da atafona [Moinho para moer trigo e milho] do Gustis.[Gustavo Gricht] Quando o Gustis vem para o Rio Novo quem fica de moleiro e serrador, é o Fritz. O Gustis esteve na Páscoa em Rio Novo e depois voltou para cima. Na realidade ele mudou para cima já no começo do ano. Na Festa do Verão [Pentecostes] ele vai descer novamente para o Rio Novo com uma tropa de 10 mulas para trazer de lá ferragens e outras coisas. Ele vai pagar de aluguel 15$000 por mula para esta viagem. A terra dele aqui em Rio Novo ele vendeu para um italiano por 7 mil incluindo um arado e uma vaca nova. As demais ferramentas e ferragens ele vendeu em Orleans para o Hammerschmitd por 2:000$.

O Gustis elogia demais Urubicy e a região. Diz que é tão boa que melhor não se pode querer. As lavouras crescem maravilhosas e trabalhando, pode-se ganhar muito. Diz que pode ganhar até 10$ por dia com a moagem. Depois de ter tomado muito rápido a sopa quente, a solução é elogiar.
Desta vez acho que chega e não tem mais nada importante para escrever. Nenhuma outra viagem foi feita por isso não tenho mais nada para escrever. Agora aqui está chovendo bastante, mas não muito forte. Na noite do Domingo passado houve uma tempestade com uma ventania que passou derrubando o mundo inteiro. Aqui perto de nossa fábrica [Engenho de farinha de mandioca] tinha um tronco seco de uma grande canela. O vento derrubou esta árvore com raízes e tudo e caiu em cima da cerca de arame e arrebentou os 4 fios.

Para o feijão a chuva também é demais, em muitos lugares as vagens estão apodrecendo e os grãos pistolando. Na outra casa [no Rio Novo] o novo quintal já faz tempo que está pronto e está quase todo ocupado com o feijão que nos plantamos. Foi 6 ½ litros de feijão preto, 3 ½ de feijão manteiga, 1 ½ quarta de batata inglesa e ainda sobrou uma grande parte para plantar repolhos. No mês de janeiro eu encomendei sementes de repolho e outras de Minas Gerais e faz tempo que já chegaram e algumas já foram semeadas e então vamos ver o que vai dar. Os rabanetes já estão crescidos e no domingo passado nos já fizemos uma salada e estão deliciosos.

Esta carta eu comecei na semana passada e só terminei nesta. Não pode ser antes devido ao muito trabalho. Durante o dia nos cortávamos o arroz e noite nós batíamos e ainda bem que está tudo terminado. Rendeu 12 sacos. Agora nós os estamos peneirando e hoje nós ventilamos 5 ½ sacos. Agora você deve vir para casa comer arroz. Se bem que você não veio ajudar a cortar e bater pelo menos venha para comer.

Bem chega, já foi suficiente escrito. Se você escrevesse cartas longas como eu tenho pedido, então valeria a pena-me procurar e escrever mais alguma coisa. Mas você só escreve meia página e manda para cá. E ainda manuscrita.

Escreva uma carta bem longa com pelo menos 2-3 páginas. Descreva tudo minuciosamente.

Com lembranças Artur

Rodeio do Assúcar 6 de maio [Data do termino da carta]

[Escrito na lateral].
Espero que com esta carta você esteja realmente satisfeito.

…levamos 10 sacos de farinha de mandioca e toucinho de dois porcos gordos. | De Artur Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Assucar 11-1-23

Querido Irmão!

Eu depois de muito tempo quero escrever-te, pois aqui nós não sabemos como estás passando, pois faz mais de 4 meses que nenhuma notícia tua temos conseguido, porquê o Agente dos Correios aqui de Orleans não quer entregar. E pelo que a nós toca, ele está uma fera que está quase explodindo, ele mente muito. Ele diz que as nossas cartas foram levadas por outras pessoas e quando perguntamos a estas pessoas elas dizem que ele não entregou nada e para outras pessoas ele diz que entregou toda correspondência para nós mesmos e acusações de todas as partes e por causa desta encrenca nós há tanto tempo não sabemos como tu e os outros estão passando.

Nós estamos passando razoavelmente bem. Temos aqui e ali trabalhado muito e já temos duas coivaras derrubadas onde será possível plantar mais de ½ saco de semente, [Semente de milho] já aramos uma grande área onde poderemos plantar umas 15 mil mudas [Manivas] de mandioca e nesta roça tivemos que trabalhar muito, primeiro tivemos que roçar a voadeira, [Voadeira = A primeira vegetação que cresce no inverno nas roças abandonadas de outras colheitas ] queimar esta vegetação depois de seca, passar ou arrastar o tronco para alisar o terreno e tirar os tocos de árvores a picareta e então arar e ainda depois passar a grade alisadora.

Na semana passada fomos de carro de bois para Orleans, levamos 10 sacos de farinha de mandioca e toucinho de 2 porcos gordos. Pela farinha eles pagaram 10$000 o saco. E pela arroba de toucinho eles pagaram 16$000 a arroba. Neste dia os nossos negócios renderam mais de 200$000 e ainda temos muita farinha para trazer para a cidade e vender, pois nós fizemos mais de 52 sacas. O polvilho este sim, ainda não vendemos porquê não conseguimos secar. Estariam prontas a muito se não fosse a instabilidade do tempo. Agora chove todo dia que quase não permite o trabalho na roça.

Eu teria muito o que escrever, mas este ano você não pode deixar de vir para casa nas férias e quando isto acontecer você vai ter uma boa oportunidade de trabalhar bastante com a enxada capinando as ervas daninhas, porquê nestes tempos molhados o que não falta é mato para capinar, pois elas crescem mesmo não querendo ou não podendo. Roças para capinar nós temos bastante e camaradas [Diaristas – só empregamos quando estamos em grandes apuros] e o tempo está bom.
O que você tem feito neste tempo que a gente não ficou sabendo nada de ti? Como vai por lá a Escola?
O João Klava tem pago [Atpelnijis = Pago com trabalho ] o feijão e o arroz que ele come lá? E o que ele comeu nas férias passadas quando ele ficou lá vadiando? Se caso ele não tenha pago seria bom não dar mais feijão e arroz fiado para ele comer numa boa e quanto quiser, pois o feijão está muito caro valendo 20$000 a saca e o arroz também está muito caro. A alimentação que já foi comida é difícil ser paga.
Bem desta vez chega de escrever, se você quer saber mais de mim ou de nós aqui, então venha para casa. Com amáveis lembranças de todos. Artur Purim

Escrito na lateral

Amanhã eu irei para a cidade cortar o cabelo.

E como eles esperaram você lá no Rio de Janeiro, | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923 –

Rodeio do Assucar 20 de junho de 1923

 

Querido Reini: Saudações!

 

Então agora tenho que começar a responder a tua carta escrita no dia 25 de maio, qual há mais de uma semana já está comigo. Muito obrigada. A tua carta escrita no dia 30 de abril não chegou e é bem provável que tenha se perdido por ai.. O que escrever eu tenho muita coisa, o problema é com que devo começar e onde terminar.

 

Na carta passada eu te convidei para vir ajudar fazer farinha de mandioca, então a chuva foi pouca e também tu não vieste então para as tuas festas também não iremos. Entre as guloseimas que você oferece estão o feijão, arroz e a farinha, quais nós aqui temos e bastante para comer a vontade e é provável que os nossos sejam melhores e ainda com a vantagem que não é necessário pagar. Aqui a farinha e o feijão estão com os preços muito altos e estes nós temos o suficiente. A farinha vale 13$000 a 14$000, a saca e o feijão está a 16$000. Feijão nós não temos para vender, mas somente para o gasto. Esta safra nós plantamos pouco porque elas dão muito trabalho e a gente não consegue fazer tudo. Este ano foi muito ruim para o feijão, pois no dia 13 de maio começou soprar um vento muito frio e nas manhãs dos dias 14 e 15 de maio amanheceram brancos com fortes geadas e quem tivesse o feijão ainda verde ficou inteiramente destruído. Para onde se olhasse estava tudo branco. Nos outros anos nunca as geadas aconteceram tão cedo. Este ano a primeira foi no dia 9 de maio, mas esta foi pequena.

Os profetas de plantão fizeram as suas previsões que indicavam um inverno muito rigoroso neste ano, mas parece que eles andaram falhando. Pois depois deste dia não me lembro um só dia que não estivesse chovendo ou pelo menos nublado. Nenhum dia depois das geadas amanheceu com tempo bom e o que tem chovido faz muito tempo que não tinha visto tempo igual. Desde a semana passada nem por uma hora apareceu o sol. Logo depois da Festa do Verão [Pentecostes] naquela semana houve as grandes inundações. Choveu duas noites e dois dias sem parar e os rios tornaram-se assustadores. Na ponte da Estrada de Ferro em Orleans faltou ½ metro d’água para chegar no nível dos trilhos da Estrada de Ferro. Na casa do Grüntall lá perto da Estação Ferroviária [Este bairro chamava-se Campos Elíseos] a água chegou ao nível das janelas e a ponte do final do Rio Novo [Na foz do Rio Novo] a água levou embora. Não era possível chegar em Orleans. Também a viagem de trem para Laguna ficou prejudicada, pois a linha férrea ficou interrompida em dois ou três lugares. A locomotiva que estava aqui em cima levava os passageiros e as cargas até depois da Estação de Pedras Grandes e daí um trecho a pé, em seguida tomava-se outro trem, outro trecho e assim por diante e na volta vice versa. Muitos prejuízos também para os tafoneiros que tiveram os seus açudes e represas destruídos pela força das águas. Até aqui no nosso pequeno riozinho ficou tão cheio que a noite a gente escutava o urro lá de casa. Por pouco a nossa represa também não foi embora. Cercas inteiras foram arrastadas, que nem os palanques ficaram. Nós além de mantermos a eclusa totalmente aberta e ainda tendo retirado mais algumas tábuas para facilitar a fúria da correnteza parecia que ela ia embora. Na noite do dia 24 a chuva mais parecia um dilúvio  e o ronco da água no rio dava até medo. O Arthurs [Purim]  enfrentando a noite escura e tenebrosa, foi até o açude que estava transbordando com uma lâmina de mais de 1 metro d água. Ele se aproximou, o mais que pode e conseguiu despregar mais algumas tábuas aliviando assim a pressão. Mais tarde no meio da noite a chuva amainou salvando assim o nosso pequeno açude. Na outra semana  repetiram-se os mesmos temporais e senão maiores foram pelo menos iguais. Mas assim mesmo chove sem parar. Hoje amanheceu um sol forte e quente  e agora chove novamente e imagine só a tremenda lamaceira que está tudo por aqui que chega nos deixar desanimados [deprimidos] porque o feijão e o milho estão apodrecendo nas roças e este ano vai dar menos. O preço já está a 10$000 a saca e no ano passado quando nós precisávamos comprar um pouco de milho em espigas custava 4$000 e logo que os brasileiros souberam que nós estávamos comprando vieram oferecer a 3$000, mas este ano ninguém tem nada para oferecer. A farinha de mandioca no ano passado estava a 5$000 a 6$000 a saca, mas chegando para o fim do ano já passou para 10$000 e agora estão já estão pagando mais de 15$000. Para o lado de Mãe Luzia também todas colheitas foram perdidas devido a estas grandes inundações. Nós este ano já fizemos 24 sacas de farinha de mandioca e temos muitas roças de mandioca mais velhas de 3 anos para arrancar. Até semana passada estávamos com o engenho em funcionamento, mas tivemos que parar porque sem sol não conseguimos secar o polvilho e os cochos estão todos cheios de polvilho molhado aguardando o sol para secar. Estas mandiocas mais velhas dão muito polvilho. Agora estamos emprestando o Engenho para os vizinhos brasileiros. Todos que tem alguma mandioca querem é fazer farinha. Os Klavim fizeram a farinha deles na época das grandes inundações e rendeu 35 sacas. Até o Jurka veio de Nova Odessa para ajudar e foi aquela festa. Já foi embora na semana passada e com ele o Harrys do Augusto Felberg, pois o Frantzis do Limor [Lövenstein] tinha mandado dinheiro para a passagem e ele precisa gente para trabalhar para ele em S.P.

Na semana passada foi construída a nova ponte na foz do Rio Novo.[Esta ponte fica na barra do Rio Novo um pouco antes deste rio entrar no Rio Tubarão, bem próximo ao antigo “paredão” que nada tem com o Paredão onde estão as esculturas do Zéca Diabo.] Os colonos queriam que o governo pagasse, mas qual nada.  Tiveram os próprios colonos com ajuda dos donos das Vendas de Orleans entrar com a mão de obra, cimento, ferro, madeiras, pregos etc. e fazer tudo sem ajuda nenhuma do governo. Desta vez fizeram com as ferragens chumbadas tanto no concreto como nas madeiras e tem certeza que inundação nenhuma vai conseguir levar esta nova ponte.

Nós te convidamos para vir para a primeira festa das músicas, mas nada, parece que tens esquecido ou desaprendido tocar o violino. Foram apresentadas músicas de todas variedades: foram tocados instrumentos de sopro, harmoniun, violas e violinos, guitarras e até cítaras. Todos coros cantaram; primeiro foi o coro da Igreja, depois o coro dos Jovens, o coro dos Homens, e o coro das vozes Femininas. Depois o quarteto de vozes masculinas com o Osvald, [Auras] Emils, [Anderman] Aleksis, [Klavin] e o Jahnis [Seeberg]. Marcou muito, agradou mesmo foi um solo pelo Aleksis acompanhado pelo Emils no harmonium. O Emils também se sobressai no violino e toca muito diferentemente dos rapazes daqui. O tempo, aquele dia, estava maravilhoso e veio muita gente. Havia visitantes de todas partes inclusive de Mãe Luzia. Quem dirigiu foi o Emils e o estilo foi bem segundo o capricho da senhora Anderman, isto é do modo que ela aprecia. Todos gostaram tanto da festa que embora sendo a primeira, espera-se que não seja a única.

 

Pois é, já tenho escrito bastante, entretanto não seria necessário, pois seria suficiente colocar as nove páginas que chegaram do “deserto”, [Palma, Varpa, Tupã SP] do tio Jehkabs, da prima Alma e a terceira carta da prima Lilija. Demora bem um meio dia para ler e assimilar todas as informações trazidas nestas cartas. Eles tem recebido todas as nossas cartas e logo se apressaram-se em responder. A Lilija é muito corajosa, pois conta tudo como realmente é e assim mostrando toda a verdade. Gente como ela é difícil encontrar por aqui.

 E como eles esperaram você lá no Rio de Janeiro, pois sabiam que ainda estavas lá. Ficaram atentas para ver se alguma pessoa tinha vindo que estaria perguntando pelos Purens, mas ninguém. Ficaram muito decepcionados e é com os corações muito tristes e pesados, o navio saiu da barra do Rio de Janeiro em direção de São Paulo noutro dia pela manhã. Quando chegaram em São Paulo souberam que nos morávamos longe ao sul em Rio Novo. Mas onde era esse Rio Novo elas não sabiam. As meninas quando saíram da Europa tinham como único interesse era vir para junto dos parentes e do “deserto” nada queriam saber. Mas assim mesmo ficaram maravilhadas com os magníficos parques cheios de muitas palmeiras e outras coisas lindas na cidade de São Paulo. Mas depois da longa viagem a chegada em Sapezal, [Estação da Alta Sorocabana, perto de Paraguassu Paulista] a mata espessa, a abandonada estação da estrada de ferro, os sujos casebres e tão desagradáveis a vista habitados pelos brasileiros relaxados e em seguida o longo e tortuoso e péssimo caminho para a Colônia. Foi demais…  Vieram as lágrimas em profusão… Quando chegaram derrubaram a mata da área comum e três semanas puseram fogo na coivara e agora o milho já está madurando na roça.. Também plantaram repolhos, nabos, batatas, mamões e bananas. A Lilija pergunta para a Lucija para que ela escreveu se aqui no Rio Novo tem bananas e mamões. E se tem rosas e georginas [ dálias etc]. Parece que eles já tiveram a chance de provar bananas alguma vez. Agora eles estão roçando as matas e os agrimensores estão a fazer o sorteio para cada um saber qual vai ser a sua gleba definitiva.. A Alma também comenta que o ambiente é bastante opressivo em uma época que na Letônia é primavera e a natureza lá explode em flores e a Lakstigala [Lakstigala – Pequeno pássaro típico da Letônia – Espécie de rouxinol] canta aquelas melodias maravilhosos enchendo o ar de alegria, aqui ela com a foice na mão, abafada dentro da mata fica a ouvir o marulhar desafinado dos milhares de papagaios. Mesmo para o Jehkabs, a história está mudando e se pudesse cairia fora, mas ai esbarra no problema da falta de dinheiro. Ele pergunta o tamanho da nossa colônia que era dos Leimann. Porque eles ao todo são 9 pessoas. O Tio, a Tia, a Alma, a Lilija, a Melania e o Teovils. A pequena Valentine com os seus cinco anos de idade faleceu antes da Páscoa. Ainda tem o sogro dele o Peteris Sagers e [Conforme informação da D. Melania Purens Minka, as malas do Sr. Pedro Sagers e de sua filha Vilma foram roubadas durante a viagem para o Brasil. Continham muitas roupas boas, jóias e muitos itens de estimação. Nenhuma informação foi conseguida sobre o seu paradeiro] com sua irmã [A D. Melania que foi testemunha ocular, pois veio no mesmo navio, também discorda da informação de teria vindo uma irmã do Sr. Pedro Sagers. Eram 9 pessoas com a menina que veio a falecer] e com a sua filha Vilma que tem 19 anos. Agora tu sabes quantos são os nossos parentes naquele “deserto”.

 

O sogro dele o Sr. Sagers tinha casas e propriedades na Letônia e tendo vendido deve ter usado o dinheiro para as despesas da viagem da Letônia para Hamburgo onde permaneceram 5 dias e de lá para Paris e daí para Cheburgo onde tomaram o navio. A Lilija fez a viagem razoavelmente boa, mas a Alma passou os 19 dias, deitada.. Bem acho que por hoje chega. Não poderei mesmo descrever tudo. Nenhum deles tem escrito para você? Opa eu ia me esquecendo!

 

Gostaria que descobrisse quem são os letos que moram a mais tempo aqui no Brasil que tem falado com a Lilija que aqui nós somos muito ricos mesmo e todos tem feito boas escolas. Não sabia que éramos ricos e nem que tivéssemos estudado em boas escolas. Logo que eles chegaram ao Brasil e ainda não tinham recebido nenhuma carta nossa, chegaram a conclusão que nós nada queríamos  com os parentes pobres. Descubra quem soltou este boato..

 

Do Karlos [Leiman] recebi uma carta agora mesmo. Ele não vira para cá agora. Diz que lá o pessoal vive muito doente e chove muito. Ele vai viajar para Rio Branco.

 

Bem eu sei que terás dificuldade de ler esta tão longa carta, mas não fique procurando erros, pois deverá achar, pois eu não tenho muito tempo para escrever. Com saudações espero uma carta tão longa quanto esta. Olga.

Escrito na lateral

A sim! Como tudo passa tão rápido. Quando comecei a imprimir esta carta também, comecei a tecer um par de meias de lã. Lembre-se que aqui não temos aquelas imensas máquinas a vapor que são usadas nas grandes cidades. Aqui tudo tem que ser feito na mão, mas para a tua sorte, ficaram prontas junto e então que sigam a viagem juntas. Estamos com temor que você congele como um Tarkans, [?]  Bem agora lá haverá grandes festas, mas daqui a algumas semanas você terá férias, então escreva bem devagar uma longa carta que eu estou aqui aguardando.

 

Lembra que nós escrevemos para você ir até o navio para dizer …….| De Olga Purim para Reynaldo Purim- 1923

Rio Novo 26 de abril de 1923

 

Querido Reini: Saudações!

 

A tua carta escrita no dia 2 de abril já há algumas semanas atrás e como a minha tinha ido muito depressa e a tua resposta também veio rápida, porque tu foste bem malandro e não esperaste o outro coelho para matar os dois com uma cajadada e ainda porque a Luzija logo escreveu uma carta  por isso não me apressei em responder. Outro motivo, que estava esperando cartas dos nossos outros parentes para matar os meus dois coelhos, mas não tive esta sorte e não sei se eu terei.

Nós graças ao bom Deus estamos todos bem. O tempo na maior parte está lindo e quando chove, é pouco e agora nós estamos esperando chuva para aumentar a água do rio para poder começar fazer a farinha de mandioca. Esta semana nós queríamos começar, mas como o arroz estava maduro e os passarinhos estavam atacando muito, tivemos que colher logo e outros serviços, também temos bastante.

No mês que vem são os Klavim que estarão fazendo farinha no nosso engenho. Ai você poderá apreciar toda a nossa tecnologia.  E ainda no dia 21 de maio haverá a Festa da Música que a Luzija já te convidou. Festas, farinha de mandioca recém saída do forno, laranjas começando a madurar. Poderás andar a cavalo, andar de carro de boi.

Quando os teus automóveis chegarão a esta altura?

Aqui no Rio Novo nada de novo tem acontecido. Há pouco tempo o Auras foi a Ijuy buscar a mãe da mulher dele (sogra) para trazer para cá porquê o pai (sogro) morreu e o outro filho que mora lá é um desmiolado e ela já velha, fica sem ninguém para ajudá-la.

O Alfreds Leepkaln viajou para São Paulo já há algum tempo para ver as terras como são por lá. Se achar melhor ele vai mudar para lá. Mas ainda não voltou, mas já tem gente dizendo que ele está gostando, mas também a passeio na casa de parentes, quem não vai gostar, pois ele está com os Burschis que são parentes dos Leepkaln.

Nós recentemente recebemos cartas do Karlos e do Fritz. O Karlis promete este ano visitar-nos. O Fritz escreveu que o Arthurs tinha sido ordenado pastor e que no dia 10 de abril ele está planejando casar com quem ele não disse, mas, nós há muito tempo sabíamos, pois o Karlis já tinha contado que ele o Arthurs estaria noivo da Victorija Ochs e a própria senhora Ochs contava para todos que quisessem saber, que a Victorija iria já junto com o Fritz. Ela já estava contando esta vantagem quando o Arthurs ainda estava aqui.

O velho Leiman lá na Argentina está cada vês mais gordo, só que não tem forças. Passa os dia inteiros tocando violino e cantando.

 

Após longa espera também chegou uma carta do “deserto” esta eu estou mandando anexa, pois seria muito trabalhoso transcrevê-la. Você sempre pergunta por eles e agora poderás ficar sabendo que lá não é nenhum paraíso. Na primeira carta eles quase nada escreveram, somente dizendo que está tudo bem. Mas agora que já estão instalados naquele “deserto” viram que não era bem assim. É muito triste saber que em relação ao sustento e habitação eles estão passando tão mal. E como será depois que a terra estar dividida e cada um terá que fazer o seu próprio rancho e quanto de terra que cada um vai receber? E as construções que agora eles fizeram decerto vão ficar para a Administração.

Eu e a Luzija na semana passada escrevemos longas cartas explicando porquê não mandamos nenhuma carta para a Latvia porquê achávamos que eles não estavam mais lá. Lembra que nós escrevemos para você ir até o navio para dizer que eles viessem para cá para o Rio Novo. Se você tivesse ido e não deixado recado aos dois Sprogis e o Inkis que foram ao navio e não disseram palavra alguma, para eles virem para cá.

Se eles viriam ou não é outra coisa. Se você tivesse ido pelos menos teria os visto e conversado com eles. O Paps determinou que escrevessem que quando arranjassem dinheiro suficiente viessem embora para o Rio Novo. Não tenho muitas esperanças que isso aconteça. Quando tiveres lido bem, aquela carta deles que eu te estou mandando junto então, por favor, nos devolva porque a Luzija tem uma caixinha onde ela guarda todas em ordem, qual está quase cheia.

Bem agora chega. Você quando escreve usa somente um lado do papel. Você nada escreve como vive etc. Ainda lembranças de todos Olga.