…tinha engordado muito comendo o feijão do governo | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 8 de junho de 1922

Querido Reinhold!!

Bem esta noite terei que escrever alguma coisa. Mas há um problema as notícias são tantas que não sei onde começar e onde terminar. E ainda um agravante é que está muito frio e temo que a minha carta também não seja uma carta gelada.

A tua carta escrita no dia 31 de abril recebi no dia 15 de maio e por ela muito obrigado e naquele momento não respondi porquê não tinha nenhuma novidade por aqui e também não tinha tempo devido ao muito trabalho e os dias muito curtos.

A Luzija faz já 6 semanas que está morando com os Leiman ajudando no engenho fazer farinha de mandioca e também fazendo a comida para os velhos e agora muito mais, pois chegou o Karlos.[ Leiman] Ele chegou no dia 13 de maio, uma sábado a noite justamente uma ocasião que ninguém o estava esperando porquê ninguém também não sabia, quando ele viria. Coincidiu que naquele mesmo trem também chegou o Auggi Klavim [Augusto Klavin voltando do serviço militar] e ambos vieram a pé o Rio Novo acima pedindo pousadas em brasileiro [pedir pousada é pedir abrigo para passar a noite] e até que enfim chegaram até o Rodeio do Assucar e ai os velhos Leiman já estavam dormindo. Quando eles chamaram, os cachorros começaram a latir raivosamente o velho Leiman apanhou a espingarda e foi enfrentar os ladrões. Mas este ladrão não pensava em fugir e vinha se aproximando e falando.

Também os Klavim já tinham ido 3 vezes ao encontro do Augge em Orleans e ele nunca vinha e nunca chegava. Outros já falavam que devido a Revolução todas as baixas do Exército tinham sido suspensas e o Auggis não teria como vir para casa. Mesmo Willis Klavin no dia anterior tinha recebido uma carta dizendo que tão cedo não poderia voltar para casa e naquela noite a senhora Klavin ouvindo os cachorros latirem forte, ela chamou perguntando se não era o Augusto e a resposta era que sim. Daí a alegria foi imensa. Tinham esperado tanto e agora sem esperar no meio da noite, eis ele que chega.

A pequena Lida [Lídia] pela manhã não reconheceu o irmão achando que era um outro “tio” porque tinha engordado muito comendo o feijão do governo.

Karlis [Leiman] também está bem mais gordo que antes e já no outro dia que era domingo veio nos visitar. Ele acha muito difícil imaginar que do tempo que ele saiu às coisas continuam quase do mesmo jeito. E ele tinha tanto para contar. Parecia para ele que nunca mais retornaria a este lugar. Ele também disse que o mundo é redondo e algum dia teria que voltar ao mesmo lugar apesar das rodas terem girado no sentido contrário. Eu já tinha contado que a Igreja de Rio Novo tinha convidado o Deter para vir visitar a Igreja e realizar os batismos e ele o Deter não pode vir então enviando o Karlis.

Eu pensei que os antigos “inimigos” mas agora o velho [está riscado e borrado, mas deve se referir à pessoa que liderou a onda pressionando ele sair do Rio Novo] que nunca gostou do Karlis, agora com toda humildade contou que no passado tinha tido problemas e abrindo seu coração, tudo voltou ao normal considerando o Karlis um grande amigo seu. Até parece um milagre que as coisas mudaram tanto no sentido contrário. Você poderá conversar com o Karlis e ele vai contar tudo, pois ele vai ao Rio de Janeiro para a Convenção Nacional, pois ele até foi eleito como mensageiro oficial da Igreja do Rio Novo.

Você poderia separar uma noite lá, para que o Karlis possa contar os seus feitos heróicos aqui no Rio Novo. No domingo passado foi levantada uma coleta para ajudar nas despesas da viagem que rendeu 44$000 e nas oitavas da Festa de Verão [Ascensão do Senhor] houve uma sessão regular da Igreja onde foi proposta e designada a quantia de 100$000 para auxílio no custo da viagem do mensageiro oficial da Igreja para as grandes conferências. Até parece que alguns queriam mostrar a sua grandeza e desprendimento quase querendo se vangloriar de sua grande bondade.

Na semana passada chegaram as cartas suas para o Arthur e a Luzija e naquele dia também te mandei uma. O Arthur já começou escrever a resposta e esperamos que logo ele termine…

Você poderá mandar papéis azuis [deve ser papel carbono para copiar modelos na costura] no meio dos Jornais.

[Não tem o final, mas pelo contexto percebe-se que é a Olga quem escreve].
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…se tudo correr bem, depois das colheitas eles nos viriam visitar. | De Lucia Purim para Reynaldo Purim 1922

Rio Novo 7 de maio de 1922

Querido maninho! Saudações!!

Como o Arthur já escreveu as cartas e amanhã ele quer levar para a cidade então eu também quero escrever um pouquinho para que o envelope vá mais cheio e você saiba de mais novidades.

Nós graças a Deus estamos todos bem. O tempo está chuvoso e quente e tudo está mais verde que na primavera, os passarinhos estão cantando como fosse primavera, mas só os dias estão ficando mais curtos.

Você recebeu os nossos documentos que mandei no dia 24 de abril. Se recebestes, já sabes bastante sobre as novidades daqui. Na segunda feira dia 4 o Willis Slegmann chegou e logo que terminar os trabalhos aqui vai embora definitivamente. O Otto Slengmann já foi embora quando o Stroberg viajou para Kuritiba. Ele não gostou nada de Nova Odessa, ele tinha pensado que lá era mais bonito. Também a Shene Mattch [Eugenia] veio junto com o Slengmann. Aquela tinha ido embora quando o Jahnis foi para o Rio de Janeiro, pode ser que ele já tenha contado para você. Ela teria dito que nem que tivesse ir embora de joelhos ela iría e nunca mais voltaria. Que a Milda [Mattch] tratava-a muito mal e que ela tinha que ir trabalhar na roça sozinha. Tudo ela tinha que fazer e a Milda não ajudava em nada. Então seria melhor ir embora de casa. Viu com que rapidez ela esqueceu de todas suas resoluções, quando realmente ficou longe de casa. Só pensou de voltar o mais rápido possível, mesmo que sem honra. Em São Paulo tinha conseguido um bom emprego e estava ganhando 100$000 por mês, mas lá ela tinha que cuidar 3 pequenos cachorros. Que nada, a saudade foi forte demais e veio embora mesmo.

Também quem está de volta em Kuritiba é o Jekabs Schmidt. Ele foi para Varpa, mas não agüentou o regime nem o programa lá estabelecido. Também não sabia falar nada em brasileiro.

O Stroberg [Karlos Stroberg foi um pastor muito conhecido em todo Sul do Brasil batista] saiu-se melhor lá, pois ele aprendeu logo um pouco em brasileiro e a mamãezinha dele ensinou que a paciência e a persistência e também na Escola Dominical tinha aprendido que as dificuldades e sofrimentos podem com tempo serem superadas. Ele mandou uma longa carta para a Escola Dominical aqui aonde ele conta como ele abriu uma Escola Dominical para os brasileiros e como eles vivem por lá.

Bem vou terminar se não você não vai conseguir terminar de ler.

Você tem mandado os jornais? Estou esperando também o “O Crisol”, [O Crisol foi uma das primeiras publicações do Dr. Reynaldo Purim] então mande junto.

Na semana passada a Olga recebeu uma carta da Lilija [Lilija era filha de Jekabs Rose e prima do Reynaldo] e entre outras coisas ela diz que se tudo correr bem depois das colheitas se possível eles nós viriam visitar.

Muitas e amáveis lembranças de todos daqui. Luzija
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