Os Letos daqui estão ficando cada vez menos. | De Eduardo Karp para Reynaldo Purim – 1928 –

Rio Novo, 15 de abril de 1928

Prezado e distinto amigo Reynaldo Purim – Louisville

Muitas sinceras lembranças!

Desculpe-me por me permitir com estas poucas linhas incomodá-lo.

Tendo feito bastantes amizades com os seus aqui, espero que não leve a mal por traçar algumas palavras com você mesmo na distância em algum lugar na outra América.

Se não fosse a chance de conhecer mais intimamente a sua distinta irmã Lucia, assim nunca teria pretexto de escrever nem uma linha, pois não teria o menor motivo para tanto.

Tempos atrás viajei muito e morei em outros lugares fora de casa e agora já há vários anos moro aqui neste lugar e penso quanto for possível aqui permanecer.

Neste momento estou trabalhando com comércio. Abrimos aqui em casa uma pequena venda juntamente com o meu irmão Oscar e pela continuidade podemos vislumbrar um futuro promissor.

Eu realmente gosto de trabalhar na agricultura e cuidar das roças, pois este é o primeiro e melhor fonte para nossa sobrevivência que nos sustenta, mas neste momento esta área ficou para segundo plano e pouco aproveitada, se bem que os espaços e condições são bastante favoráveis.

Os letos daqui estão ficando cada vez menos. Muitos estão indo embora, mas os de outras nacionalidades são muitos e nós de nosso lado temos com eles bom relacionamento.

Quanto às novidades e fatos importantes acontecidos aqui não poderei compartilhar e considerando que deves ter recebido de sua irmã Lucia fartas informações de tudo que acontece por aqui. Também ela não tem falado nada e é só opinião minha.

De toda forma pretendo mantê-lo bem informado que por não curto tempo tenho aprendido a conhecê-la melhor e ela tem se tornado uma pessoa muito querida e o meu sincero desejo, se Deus permitir torná-la minha companheira para toda a vida.

Peço que me escreva algumas linhas contando de suas atividades na outra América.
Ainda não está pensando logo em velejar para o Sul?

Desta vez somente isto

Fico aqui como seu admirador
Eduardo Karp

…que aprenderam nos Seminários, pois ele aprendeu aos pés de Jesus. | De Lúcia Purim para Reynaldo Purim – 1924

Rio Novo 28-2-24
Querido irmãozinho!
Saudações! Hoje estou escrevendo uma carta para você porque estão havendo algumas coisas novas por aqui. Até agora não temos recebido nenhuma carta sua e amanhã temos que ir para a cidade para ver tem chegado alguma.
Nós estamos bastante bem.
O tempo está seco e depois de ires embora, não choveu mais. Na semana passada foi muito quente, mas esta semana sopra um forte vento e à tarde e a noite está bastante fresco. A grama nos pastos em muitos lugares está realmente seca e na calha a água corre bem pouca *. Hoje ficou nublado e chegou roncar trovoada e pode ser até que chova.
Ainda sobre os espias da terra de Canaã, eles já estão em casa [Podem ser alguém enviado pelo Purens?] No dia 23 de maio já estavam em Imbituba e na Segunda feira já estavam em casa. Você não os viu? Eles contam que encontraram um navio ainda próximo a Imbituba. Veja como foram rápido para “Varpa”, eles nem irão porque os “Odessenses” já contaram todas as “vantagens” de lá. Somente viajaram duas horas de carroça de cavalos de distância de Nova Odessa e eu ainda não sei o nome do lugar [Areias], mas lá já moram muitos letos e o Willis Osch já contratou terras para eles trabalharem. Eles dizem que lá é melhor que aqui. Podem conseguir mais e melhor terra para cultivar e assim conseguir ganhar mais dinheiro.
Também o velho Stroberg já chegou para morar em Rio Novo. Ele veio para cá junto com eles e o Karlis [Stroberg] foi até Nova Odessa para acertar os detalhes da mudança dele para cá. Ele deverá estar já dia 12 em Imbituba. Alguns comentários por aqui é que os rio-novenses tomam a sopa ainda muito quente. Vamos ver com vai ficar, pois ainda existem muitas dúvidas. Ainda o Sahlit na sessão da Igreja de Domingo falou que ele não tem nenhum curso formal em seminário teológico e sim em diversos cursos avulsos em Riga. Ele teria dito que ele não é como os outros que aprenderam nos seminários, pois ele aprendeu aos pés de Jesus.
Bem desta vez chega. Já escrevi bastante. Quando receber a tua carta ai terei bastantes assuntos para comentar sobre ela. Também terei acumulado mais novidades para escrever-te. Mas escreve bastante, como foi à viagem de volta e como estão as coisas por lá? Como o Ruhdi agüentou a viagem?
Se você escrever cartas, curta, eu também vou fazer assim também.
Muitas lembranças de todas e também da Luzija.
[Escrito a lápis no rodapé]
Hoje recebi a tua carta escrita em Imbituba. Como você sentiu o mar? Também tinha ventos fortes? Aquele documento do nosso terreno, eu já peguei com o Cascaes.

[ * Nota sobre o suprimento de água da casa dos Purim em Rio Novo:]
[Calha era por onde a água chegava por gravidade até o cocho, mais perto possível de casa. Era captada em uma fonte distante uns 100 metros, no fim do pasto, quase na divisa com o capoeirão do Augge e era encaminhada em calhas feitas do tronco do palmito Jussara, escavado com enxó goiva e colocados em estacas de madeira tipo forquilhas firmemente fincadas no chão. Como estas calhas vinham pelo pasto muitas vezes os animais ao se coçarem ou tentarem passar por baixo terminavam derrubando causando falta d’água. Com o tempo a capacidade de passagem ficava reduzida devido do acúmulo de limo verde e nestas condições tínhamos que pegar uma vassoura velha de sorgo e proceder uma limpeza completa que era facilitada pelo fluxo da própria água. Mais tarde a fim de evitar estas interrupções foi feita uma canalização com uma galeria feitas com tijolos e cobertos com terra. Daí surgiu outro problema que era o fechamento da pequena passagem pelas raízes de uma figueira chamada “Leiteiro” (Peschiera fuchsiafolia).[A solução foi à reabertura para o processamento da limpeza do duto e a derrubada destas figueiras. Era uma figueira que dá flores pequenas de cor branca de formato helicoidal e é uma praga nas pastagens e em qualquer outro lugar].

…que nossos parentes não vão gostar, |De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 30 de abril de 1922

Querido Reini: Saudações!!

A tua carta escrita na Sexta feira Santa eu recebi no dia 21 de abril. Este veio rápida, pois levou somente uma semana. Obrigada! Foi também na Sexta feira Santa que recebemos a tua carta escrita no dia 31 de março. Os demais escrevedores mandaram cartas no dia 21 de abril e eu não mandei nada porquê já tinha mandado uma no dia 12 de abril.

Na Sexta-feira Santa aqui o tempo esteve bom igual lá no Rio de Janeiro. No Domingo da Páscoa já estava nublado e choveu um pouco. O tempo aqui está este ano mais chuvoso e na semana passada estava desagradávelmente encharcado e aborrecido. Então hoje está um tempo bom e quente e pode ser que daqui em diante comece a melhorar e não chover tanto. Este ano choveu sem conta e já há muitas espigas de milho apodrecidas e se continuar vão, apodrecer muito mais.

Pelo Rio Novo não há quase nada de novo. No próximo mês estão sendo esperados o Deter e o Karlos Leimann. Pode ser que cheguem já na semana que vem, mas isso a gente não consegue saber o certo, pois o meio de transporte para as viagens não são estas coisas Quando eles chegarem vai ter festa aqui no Rio Novo para eles, pois coincide que é no mês de maio que o Deter vem para o Rio Novo, pois já vai fazer dois anos, pois no ano passado ele esteve nos na América do Norte, então não veio, mas agora ele vem.[Ele tinha estado em Rio Novo há dois anos atrás]

Na carta passada eu escrevi sobre os nossos parentes que querem vir para o Brasil. Algumas pessoas aqui recebem de lá de Riga o “Kristiga Balss” [A Voz do Cristão, jornal publicado em Riga] e lá está escrito que vem muita gente de lá isto é mais de mil pessoas.

O Matis Feldbergs de Nova Odessa tem escrito para o Frischembruder que o governo de São Paulo vai trazer estes letos com as despesas por conta do Estado. E que Inkis e o Malvess já estiveram vendo estas terras. Onde eles querem levar os letos é bem no interior de São Paulo, logo acima da divisa com o Estado do Paraná, bem dentro da floresta virgem e muito longe mesmo pois a passagem de trem de São Paulo até lá custa mas de 50$000. Então por ai você pode perceber que nossos parentes não vão gostar, pois eles tanto falam no grande encontro da família e se forem para lá não vai dar.

O próprio Inkis tem dito que os letos não vão gostar, pois é uma área completamente desabitada e como sobreviver num local tão sem qualquer ajuda do Governo Brasileiro. Se os nossos parentes pudessem vir para cá, seria muito melhor.

Desta vez chega, pois não tenho mais tempo, pois tenho que ir ao ensaio do Coro da Juventude e amanhã ir para a cidade. Com muitas lembranças de todos. Desculpe a pressa, mas ler você vai conseguir. Olga.

[Obs. O resultado deste movimento de Imigração foi A implantação em pleno sertão da Colônia Varpa e da Comunidade Evangélica Palma no Município de Tupã]