Dados biográficos de Lisete Rose Purim, mãe de Reynaldo Purim

Dados Biográficos de Lisete Rose Purim
Por V.A.Purim

Antes de falar de Lisete Rose vamos contar o que sabemos do seu pai e de sua mãe:

Jekabs Rose o pai:

Nasceu em Wirtzawa próximo à fronteira da Lituânia, mas a data não sabemos e também não sabemos o nome de seus pais.
Casou-se em primeiras núpcias com Magriet Kleber Rose também não temos a data.
Em segundas núpcias casou-se com a cunhada Lavise Kleber Rose e também não temos a data já em Rio Novo.
Nas terceiras núpcias casou com uma viúva com muitos filhos chamada Wilhemine (Minna) Kujmanne (e era conhecida como Kujmanieta) de Rio Novo.
Os filhos foram Lizete e Ludwig (ambos da 1ª esposa)
Morreu em 03 de março de 1925 na região de Rio Branco ou Jacu Assu
A religião era Batista e depois passou a ser sabatista
A instrução a gente só sabe que era alfabetizado
A profissão definida não pode ser conferida e aqui no Brasil ele trabalhou como agricultor
Dados históricos:
• Morou em Daugava Griva (foz do Daugawa); Dünamünde em alemão, antes de emigrar para o Brasil
• Pertenceu a Igreja Batista deste bairro da cidade de Riga.
• A primeira esposa morreu ainda na Letônia
• O Sr Jekabs aqui no Brasil casou com uma cunhada (irmã da Margriet) chamada Lawise, que tinha vindo já cuidando das crianças, isto é, os sobrinhos Lizete e Ludovico (Ludvig).
• Ela parece que não era para vir junto para o Brasil, mas devido à insistência dos sobrinhos ela terminou vindo. Esta era costureira e mais tarde também veio a falecer.
• Mais tarde o Sr. Jehkabs casou pela terceira vez, e desta feita foi com uma viúva chamada Wilhemnne (Minna) Kusjmane (Kusjmamnieta) qual tinha muitos filhos. A vovó Lisete não se relacionava bem com esta madrasta por ter um gênio muito belicoso e tiveram uma desavença devido à posse de um famoso Lenço de seda.
• Uma característica do mesmo (Jehkabs) era não gostar dos netos, o Reinaldo, Artur, Lúcia e Olga não eram muito benquistas.
• O Sr. Jehkabs morava no Rio Carlota no mesmo lugar em que depois morou o Felipe Karkle
• Mas a primeira colônia (gleba) de terra dele adquirida nos primeiros tempos era no vale do Rio Laranjeiras, que ficava em direção oeste em relação ao vale do Rio Novo, numa região conhecida por nos como Bukovina. Uma vez, após passar o dia nos Purins, na caminhada pela mata o Sr. Jehkabs em direção ao seu terreno, que era muito acidentado, aproveitou para levar um rebolo de pedra [Rebolo é uma ferramenta feita de um pedaço chato de arenito deixando rendondo com um furo no centro onde era encaixado um eixo e numa das extremidades uma manivela para ser instalada em forquilhas ou cavaletes para uso] para ser usado na afiação de ferramentas. Mas começou a ficar tarde, o que levou a se perder na mata Atlântica extremamente fechada. Então ele teve a idéia de aliviar o peso deixando guardado o dito rebolo entre as lages de uma cascata de um riacho. Quando voltou para procurar, não encontrou mais. Talvez tenha sido encoberto pelo musgo ou outra vegetação. Bem mais tarde, aquele terreno onde ele tinha passado continuava mata virgem, pois pertencia ao Tio Reynaldo e nós íamos colher jabuticabas nas árvores nativas e, às vezes, passávamos perto destas cascatas em busca do rebolo desaparecido. Junto desta cascata havia muitos xaxins sem espinhos entre eles alguns imensos que devia ter mais de 1½ metro de diâmetro.

• Bem depois ele já morando em Timbó, próximo a Blumenau, voltou para junto da filha Lisete quando trouxe algumas lembranças como o famoso Lenço de Seda histórico, pois durante a guerra dos Prussianos, [Prusch karsch?] este lenço ficou enterrado para não ser levado, uma Balança em £ e as alianças dos pais dele e ainda se mostrou arrependido de ter casado com a referida senhora
• .
• O Sr. Jekabs quando chegou ao Brasil era Batista, mas depois passou para a denominação Sabatista.

Agora a Mãe
Magriet Kleber Rose

Não temos a data de nascimento nem o nome de seus pais
Casou-se com Jekabs Rose, mas não sabemos a data.
Os filhos foram Lizete e Ludwig
A irmã Lavise Kleber
Morreu ainda na Letônia antes da família emigrar para o Brasil
A religião dela era Luterana.

Dados históricos:
• Morreu quando a filha Lizete tinha 12 anos.
• Quando morreu na Letônia era hábito de fazer o funeral que durava uma semana, depois para dar tempo de todos parentes se reunirem para um encontro quase social. A Senhora Magriet era Luterana e o marido era Batista e, no dia que foi o último dela antes de morrer, ela reclamou por que todos estavam tristes e pareciam estar em um velório na presença de uma pessoa falecida. Que não era para eles estarem assim e sim que cantassem hinos e, enquanto cantavam, ela faleceu. Foi o Ludwig que foi o primeiro a perceber.

Lizete Rose Purim

. Nasceu em 16/02/1878 em Daugava Griva ou em alemão Dünnaminnde
. Pais: Jekabs Rose e Magriet Rose
. Casou-se em 10/03/1895 – Na Igreja Batista Leta de Rio Novo com Jahnis Purim
. Filhos: Reynaldo, Olga, Lúcia, Otto e Alvina.
Irmãos: Ludwig.
Morreu em 08/ 04 /1953 em Rio Novo Orleans Santa Catarina
Religião: Batista.
Instrução: Primária.
Histórico:
• Daugava Griva (foz do Rio Daugava) é Dünnamünde em alemão. Fica perto de Riga.
• Ela tinha sido Babá dos filhos do casal Freijs que foi editor e proprietário de uma gráfica onde eram produzidos muitos livros e literatura cristã.
• Lisete era alta e muito bonita. Era muito culta e atualizada porque lia muito. Falava russo, alemão, leto e português. Tinha uma memória prodigiosa, lembrando de aniversários de uma infinidade de pessoas.
• Na Letônia ela ia prá escola com o seu irmão Ludwig, mas o mesmo não era de estudar então saindo de casa iam recapitulando as matérias e antes de passar a ponte prá chegar à escola o esperto sabia tudo e tirava ótimas notas na escola.
• Ainda sobre o Ludwig aqui em São Paulo as pessoas contam que quando iam visitá-lo na redação do Jornal alemão ele estava escrevendo em alemão e continuava mesmo conversando sobre um monte de assuntos como isso fosse normal.
• O vapor em que vieram os Rose era o “ Santos” da “Hamburg-Südamerikanishe Dampfschifffahrt” e saiu de Hamburg no dia 12 de novembro de 1891.
• Ela chegou ao Brasil com 13 anos de idade.
• O navio que trouxe os Rose também trouxe até Recife locomotivas para uma estrada de ferro. Como não havia cais, estas foram descarregadas em barcaças, no largo, fazendo com que o vapor adernasse muito, quase virando e causando muito temor entre os imigrantes.

• Veio via Hamburg Alemanha e chegou em xx/11/1891 em companhia do irmão, da tia e do pai e muitos outros letos. Ficou de quarentena 2 semanas em Ilha das Flores no Rio de Janeiro. Ela viu os primeiros negros em Salvador. E também bananas. [deve haver erro no tempo da quarentena, pois no dia 25 de Dezembro eles já estavam em Rio Novo.]
• Tinha o espírito aventureiro e não reclamou de ter que entrar na bruta selva da Mata Atlântica, só nos contava que no Natal anterior 1890 na Letônia eles fizeram uma ceia onde comeram bolos, doces e tomaram café com leite e esperando no outro ano estar no Brasil fazendo o mesmo. Mas nesta data estavam morando no Rancho comunitário e comendo pirão de farinha de mandioca com carne seca cozida.
• Ela sempre mostrava onde era o Rancho Comunitário que ficava onde era a nossa horta, isto é bem perto da casa onde eu nasci.
• Os inícios não são fáceis era a teoria dela.
• Ela tratava muito bem dos netos e nunca se esquecia dos aniversários. Em cada aniversário de cada neto, ela dava uma moeda de prata de 2 mil réis que nós guardávamos numa lata. Sempre conferíamos os dizeres escrito na moeda e sempre pesava “XX Gramas”, quando era 2$000,00 e somente X Gramas quando era 1 mil réis.
• Ficava de tocaia na gente éramos pequenos quando íamos para a roça ela ia avisando que não saísse prá dentro da mata ou capoeira onde poderia ter algum bicho [kads bichs]. Quando entravamos no chuchual para colher chuchu ou colher frutas na beira da estrada da roça como amoras pretas e brancas, araçás, goiabas, laranjas, maracujás roxos, cocos de palmeira tucum, cortiças (agora chamadas de frutas de conde) nativas ela ficava monitorando o tempo todo.
• Quando saia pra Igreja ou algum lugar para algum evento social se vestia apropriadamente. Nós notávamos que não usava soutiem e sim enleava umas longas faixas nos seios para deixá-los mais firmes.
• Ela tinha uma farmácia onde tinha uma infinidade de vidrinhos de medicamentos homeopáticos e também algumas infusões como para mal estar estomacal era uma garrafa com losna e outras com um monte de plantas dentro cobertas de aguardente. Se estivesse nervosa a garrafa era de Valeriana também na cachaça.
• Ela na roca fazia o fio de lã, mas antes de torcer era necessário lavar muito bem a lã, depois desfiar deixando totalmente solta e volumosa, depois ir prá carda que são conjuntos pentes de dentes de arame móveis quando era penteada até deixar em forma de bisnagas. Para nós que éramos crianças ficava a tarefa de desfiar que era feito em horas de chuva ou de noite a luz de uma lamparina.
• Depois de feito o fio ficava pronto era hora de inverter isto é torcer dois fios em um só tendo o cuidado para que a torção dos mesmos se encontrasse e os dois fios agora num só, ficassem se apertando e não se soltando serviço este feito na própria roca com cruzamento dos fios que fazem girar a roda maior para o carretel..
• Depois era passado na doubadeira e feito conjuntos de fios que iam para a lavagem final em água quente e daí já podiam ir prô tingimento.
• Muitos destes fios eram enrolados e novelos daqueles que os gatos gostam de rolar.
• Acima já falei sobre o tear uma verdadeira obra de arte e engenhosidade que foi construído inteiramente pelo meu avô Jahnis Purim e minha avó que manobrava este aparelho.
• Mas o forte era fazer coisas de lã era o tricô como blusas, gorros, luvas e meias. As meias ela fazia até na cama de noite no escuro quando acordava e perdia o sono, Quando chegava ao momento de aumentar o diâmetro ou coisa assim ela parava e contava as casas com os dedos em plena escuridão. Quando errava desmanchava a fila e isto era feito reclamando baixinho, Às vezes ela falava sozinha, Depois decidia a modificação e continuava.
• Gostava de trabalhar na roça com todo mundo, mas a horta era o lugar que ela plantava pepinos, repolhos, couves, alface, beterrabas, cenouras, rabanetes, nabos, batata salsa, ervilhas, carás, taiovas e outras especiarias como o endro, erva doce etc.
• Na administração dela na horta a função dos netos onde eu era incluído era carregar água para regar as plantas recém transplantadas e seguir os caminhos da formigas carregadeiras que sempre atacavam a horta. Uma vez encontrado o formigueiro o mesmo era eliminado com latas e latas de água fervente.
• Também os tatus vinham de noite mexer na terra molhada para catar coisas para comer, mas para estes não tinha nada para ser feito senão xingar.
• Para nós ajudar a cuidar da horta tudo bem, o que eu não gostava mesmo era de panelas e panelas de repolho, couves, batata salsa que ela fazia e insistia que a gente comesse.
• Além da fiação de lã (desde a tosa do carneiro até a roupa pronta), costurava, bordava e fazia crochê. Fazia muitas meias de lã para vender. Sabia muitos pontos para confecção de artigos de lã e se preocupava com o fato que quando ela morresse ninguém mais no mundo saberia.
• Tinha um tear onde ela era confeccionava cobertores de lã e também tecidos rústicos para confecção de roupas para inverno.
• Lembro dos preparativos quando muitas porções de fios de lã prontas eram colocadas para tingir em vazilhas de água quente com anilinas importadas da Alemanha, pois os cobertores eram feitos com faixas coloridas. E uma cor que eu lembro bem era a cor rubi e na embalagem em caracteres góticos estava escrito “Rubin Root”.
• Eu ficava muito admirado de como ela jogava rápido as lançadeiras alternando as cores, puxando os pentes e pedalando o cruzamento do tapume com o ordume.
• Também em bordados e tricô ela tinha caixas cheias de jornais e revistas com moldes e “receitas” de trabalhos roupas e moda para todas as ocasiões.
• As comidas que mais usava eram baseadas em produtos da lavoura, frutas e hortaliças cultivadas por eles próprios. De frutas fazia o tchissel (uma espécie de gelatina de frutas onde se usava polvilho ou farinha de trigo para dar a consistência de gelatina) e o tchilltchann (massa que era jogada em colheradas dentro de uma sopa de frutas, doce quente e que tomava as mais variadas formas e depois servida fria. Também o mesmo tchiltchan feito com leite e tomado frio ou quente). Do leite, além do requeijão, nata, queijo e outros, fazia a biezzu putru que é uma sopa grossa de leite azedo com canjica de milho [quirera]. Da carne de porco era feito o salame tipo Blumenau, os salames feitos com a fressura, a morsilha, a carne cozida e guardada em latas na banha, o toucinho pendurado no fumeiro. Também era feita uma geléia de carne [galet] onde os ossos e a cartilagem eram cozidos até derreter e depois de coada numa peneira grossa ao esfriar virava uma gelatina que era por demais apreciadas pelos letos que simplesmente adicionavam pimenta. Também era feita uma super sopa com a cabeça do porco inteira que elês chamavam de “Bullion”. Dos italianos aprenderam fazer a polenta que era um prato muito apreciado. A carne de galinha depois de ficar uma noite no tempero em vinha d´alhos era cozida numa panela de ferro com um pouco de banha e quando começava estalar era adicionado um pouco de água quente e dada uma mexida com uma colher de pau [os alemães chamavam para este processo de “schmoret”] que praticamente assava a carne na panela e o molho super escuro que sobrava era uma delicia.
• A carne predominante era a de porco do qual era derretida a banha para as frituras e saladas e ainda usada para a conservação de carnes já cozidas, pois não havia outros meios para conservá-la. Também eram feitas lingüiças que também ficavam no fumeiro junto com os ossos salgados e as mantas de toucinho. Quando era feita a “schlackfest” ou o porco era carneado que era feito praticamente todos os meses a Dª Lisete junto com a Dª Verginia minha mãe comandavam o bom andamento das tarefas.
• A Dª Lisete foi premiada com uma nora brasileira e era esperado que houvesse muito conflito entre as representantes de etnias diferentes, mas que na realidade raramente ocorria. Qualquer contratempo não chegava a durar quase nada, mas isto não quer dizer que não havia nenhum ressentimento diante da superioridade e certa arrogância em relação aos brasileiros por parte dos letos.
• O pão de cada dia era feito de farinha de milho e merece uma página especial.
• Casou no dia 10 de março do ano de 1895 com Jahnis Purim
• A Dª Lisete quando era nova e recém-casada, o marido foi trabalhar na região de Lages, deixando-a sozinha com um nenê pequeno. Neste período um temporal muito violento numa noite de verão pôs a rancho deles abaixo ao lado da mata virgem que uivava com a tempestade, relâmpagos e chuva e neste completo caos ela teve que passar a noite com o nenê (Reinaldo) no galinheiro, com as galinhas.
• Ludwig Rose, seu irmão, foi importante jornalista e redator do jornal Deustch Zeitung, publicado em idioma alemão, editado na época da 1ª Guerra Mundial em São Paulo, vindo a falecer em 1925 tanto que merece um capítulo especial à parte.
• Outra grande qualidade de Dª Lisete era atender a enfermos, muitas pessoas da comunidade foram atendidas por ela.
• Em minha opinião a minha vovó Lisete foi uma lutadora com qualidades e defeitos que todas as pessoas eventualmente têm, mas sempre foi muito honesta em seus propósitos e eu senti muito não estar presente no dia que ela faleceu principalmente que dizem que ela pedia prá chamar-me, pois ela queria falar alguma coisa, mas nesta ocasião eu já estava morando e trabalhando em Urubici e nada pode ser feito.
• O tio Reynaldo Purim devia muito a ela e bem como a família toda pelos imensos esforços em sustentar este filho estudando no Colégio, no Seminário inclusive nos Estados Unidos.

O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 4ª PARTE


O PASTOR KARLOS ANDERMAN
4ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
]
[Digitado por Laurisa Maria Corrêa]

A tia Salit então sugeriu que aqueles que tivessem economias guardadas em casa deviam trazê-las e juntar em um só cofre numa repetição do exemplo de Atos 3:42-47 e aos mais hesitantes citava o exemplo de Barnabé. Foram trazidas latas cheias de moedas de prata de 2 mil reis que todos guardavam pensando serem imunes à inflação devido ao valor do nobre metal. Nesta aventura então entrou um fato novo que era o interesse pecuniário.

Novamente veio uma ordem transmitida por via espiritual para que todos aqueles crentes vendessem as suas propriedades e com as suas famílias se mudassem para a Colônia Varpa em São Paulo. Mas chegando lá se verificou que as condições do clima e do solo não eram apropriadas a uma existência saudável. A terra era muito arenosa dando a impressão que lá já existira o mar. Havia muitos bichos de pé. Faltava água e os lençóis freáticos, quando encontrados, localizavam-se a mais de 20 metros de profundidade tornando a escavação do poço manualmente arriscada pela ameaça do desmoronamento de suas paredes.

Mas nós éramos considerados como peregrinos em busca da terra prometida e que desta vez ainda não a tínhamos encontrado. Novas orações, novas consultas, novas
Outra peregrinação pela Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande para aquele destino.
Em Varpa sofri a maior perda da minha vida, faleceu a minha mãe Emilia. Habituada em Mãe Luzia a uma dieta de leite, legumes e cereais, em Varpa teve de se alimentar de arroz, feijão e carne, ao que não resistiu a sua delicada constituição orgânica, mas antes de fechar os olhos, escrevera cartas para aquelas lideranças espirituais dotadas de dons e que comandavam então os nossos destinos, denunciando aqueles desvios doutrinários designando com uma única palavra “pústulas”. Em conseqüência destas cartas depois dela morta ainda tive de ouvir insinuações de que, por não ter resistido às provações e se desviado daquela doutrina, pairava duvida sobre a salvação da sua alma.

No Rio Grande o nosso destino final foi uma localidade chamada Cascata de Burica que se localizava numa mata virgem próximo do Rio Uruguai. Outra vez fazia-se à derrubada da floresta para a construção das casas e as plantações agrícolas, mas terminados os trabalhos diários, as famílias se reuniam em reuniões de oração na mesma rotina costumeira.

A líder espiritual do grupo continuava a mesma tia Salit. Mas acontece que para o nosso acampamento veio outro par recém-casado e o nome da moça era Zelma Zvagere, uma das imigrantes da Colônia Varpa que se casara com um rapaz de Rio Branco chamado Alexandre. Por ocasião de uma destas reuniões de orações vespertinas, enquanto todos estavam ajoelhados a profetiza teve uma visão e então disse a Zelma: “Eu vi uma parelha de cavalos atrelada ao balancim que o teu marido Alexandre estava segurando e sendo arrastado para longe de ti”.
Sucedia que Alexandre tinha se afastado do grupo por que, embora fosse crente, o seu juízo não aceitava estes exageros, mas ele era meu amigo, pois trocávamos idéias. Assim que terminou esta reunião por acaso encontro o Alexandre e pedindo sigilo contei a visão profética. Logo a seguir chega em casa Zelma toda chorosa e se dirige ao marido: “Então você pretende deixar-me” ao que o outro respondeu: “Quando vierem os cavalos com o balancim”.
Na próxima reunião do dia seguinte ao formarmos o circulo de orações a profetiza aparentando inspiração espiritual disse assim: “Quem foi que contou ao Alexandre aquela revelação de ontem?” “Se o culpado não se manifestar o Espírito vai denunciar”. Ora, só poderia ter sido eu que já tinha fama de tagarela; então pensei, isto já passa da conta, vou me confessar e fingir arrependimento vamos ver se o Espírito vai denunciar a minha falsidade. Confessei-me culpado e choramingando pedi perdão e qual não foi a minha surpresa – fui perdoado.
Depois da reunião falei com o meu pai e lhe contei o acontecido e afirmei que tudo aquilo era mentira e sugeri que ele se afastasse deste grupo, mas ele ficou hesitante por que era o doutrinador Teológico. Estava escrito no Novo Testamento repetidas vezes a respeito da manifestação do Espírito Santo e aquela gente, se depois desta penitencia, desta obediência cega não fosse contemplada então ele não sabia encontrar o erro.

Abandonei aquele lugar pelas picadas através da floresta caminhei 15 quilômetros até Santa Rosa onde encontrei trabalho na chácara do Dr. Frederico Krebser e estava agnóstico.
Mas o que me salvou do desvio do comportamento foram os ensinamentos e a doutrinação que a minha mãe, ela acompanhou o meu pai sem discutir toda esta confusão, mas não se descuidou da minha educação, dando uma interpretação própria de várias citações evangélicas. Uma delas foi a de que “todos pecados seriam perdoados, menos os contra o Espírito Santo”. Ela explicava que a voz do Espírito Santo se manifestava através da consciência, mas tantas vezes o homem insistia no pecado que acabava não sentindo remorso e neste grau a perdição seria irreversível. Para exemplo citava a história de um assassino nos Estados Unidos que fora condenado a execução na cadeira elétrica e quando perguntado por que havia matado um cidadão que viajava na boleia de uma carroça dirigindo uma parelha de cavalos a resposta tinha sido: “Por que eu estava curioso em ver como iria cair o cigarro que estava fumando”.
Também naquele interstício do episódio da Linha Telegráfica e o outro da tia Salit que durou vários anos, freqüentei a Escola Dominical clássica onde aprendi aqueles hinos “Vinde Meninos” e outros, decorei versículos, assimilei as lições das aulas que freqüentava. Até que eu poderia ter me segurado naquela comunidade Batista liderada por Jacob Klava, mas ele feria os meus sentimentos filiais quando na minha frente dizia que meu pai, Carlos Andermann era podre e eu não pude admitir isto por simples respeito a minha origem e por que sabia que ele era um ingênuo pesquisador de uma literal verdade evangélica sem qualquer interpretação Teológica.
Então surge a pergunta; como foi possível que um adolescente de 13 anos ficou fiel a um grupo e excêntricos como aquele? Primeiro fui obediente aos meus pais. Depois quem entra num redemoinho de águas turvas ou idéias não consegue sair sozinho por que sempre é arrastado para o centro. O empenho principal da liderança era doutrinar os fieis para mantê-los unidos como minoria escolhida de Deus e evitar qualquer contágio de idéias de fora denominado “o mundo”. Também o que facilitou este Pentecostalismo obscuro foi o fato de eu ser semi-analfabeto, mas o principal foi o sentimento de obediência aos meus pais.

Certamente todos os meus irmãos o foram até os 13 anos, mas quando caíram na realidade tiveram um choque tão grande motivado por causa do batismo pelo Espírito que levou a este descalabro, que resolveram renunciar toda a doutrina da Salvação. Esqueceram que os Batistas explicavam a trilogia – Deus Pai – Jesus Cristo – Espírito Santo – dando o mesmo peso para cada um completando o outro; Deus determinava, Jesus mediava e o Espírito estabelecia o contato entre a mente humana e a inspiração Divina. Se tivessem pesquisado melhor a Escritura teriam descoberto que os primeiros crentes falaram línguas estranhas, mas que cada um daqueles forasteiros entendiam como sendo o próprio idioma. Então havia relação de causa e efeito, pregar o Evangelho numa língua que os outros entendiam como a sua própria.
Isto já foi dito há mais de 50 anos passados pelo Pastor Inke em Nova Odessa quando ele falou que Seminaristas inspirados pelo Espírito Santo estudavam línguas estrangeiras para trabalho missionário – então foi muito criticado pelos Pentecostalistas.
Mas neste caso também a relação de causa e efeito é a mesma dos primórdios do Cristianismo – falar uma língua estrangeira na qual um povo de fora entendesse a mensagem de Deus.
Já havia participado como voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932 defendendo a legalidade, mas este é um capítulo à parte.
A minha irmã Lídia que morava em Nova Odessa pediu ao João Jankovitz que viajou para Ijuí, que me fosse apanhar em Santa Rosa onde eu então era aprendiz de oleiro, favor que ele cumpriu devotamente e por isto eu estou-lhe eternamente agradecido.
Eis-me agora na Fazenda Velha perto da Estação de Nova Odessa em São Paulo, onde estava localizada uma Colônia Leta, muito progressista material e espiritualmente.
Todas as propriedades eram produtivas e respondiam a diligencia dos Letões que eram agricultores natos e ajudavam incansavelmente a natureza que retribuía este esforço com messes generosas.
Estava com 16 anos. Combinei com o meu patrão Arajs para trabalhar a metade do dia durante período de entre safra como empregado na lavoura mediante a retribuição da pensão completa, mas no período de cultivo me comprometi a trabalhar o dia todo mediante remuneração.
No sótão da Igrejinha Batista da Fazenda Velha havia uma sala que foi adaptada para a escola. De Nova Odessa a bicicleta pedalando 8 quilômetros vinha o Prof. Carlos Liepim, que foi bacharel formado pelo Ginásio Batista do Rio de janeiro, para ministrar as aulas. Com a sua ajuda recuperei todo aquele tempo perdido na penumbra do semi-analfabetismo e ele me ensinou tudo que sei, naturalmente aprimorado depois. Não fez por menos, preparou a mim e outros alunos diretamente para o admissão.
Depois ele foi convidado para ser professor de física e química num ginásio de Campinas, indo diariamente de trem para dar aulas, mas embora estivesse com seu tempo tomado, conseguiu uma vaguinha para orientar os meus estudos na sua residência à noite duas vezes por semana, quando eu pedalava a minha bicicleta para ir e voltar, por um caminho de terra iluminado por uma lanterna de carbureto.
Minha base religiosa Evangélica estava abalada. Mantinha uma rigorosa conduta de crente por que agir de outra forma seria burrice, mas intimamente duvidando daquilo que não fosse palpável, no entanto nunca deixei de ver a presença de Deus em todas aquelas maravilhas que ia descobrindo pelo estudo nos rudimentos da ciência, por que em tudo aquilo eu via a presença de Deus e sentia que ao aprender aquelas teorias de Lavoisier, de Pasteur, aquelas definições Newton a respeito da gravidade ele estava sendo lisonjeado.
Fui aceito como membro da Mocidade Batista que era constituída de jovens sadios, decididos, estudiosos e que me tratavam como se eu fosse igual a eles – embora fossem filhos de famílias abastadas.

CONTINUA