Dados biográficos de Lisete Rose Purim, mãe de Reynaldo Purim

Dados Biográficos de Lisete Rose Purim
Por V.A.Purim

Antes de falar de Lisete Rose vamos contar o que sabemos do seu pai e de sua mãe:

Jekabs Rose o pai:

Nasceu em Wirtzawa próximo à fronteira da Lituânia, mas a data não sabemos e também não sabemos o nome de seus pais.
Casou-se em primeiras núpcias com Magriet Kleber Rose também não temos a data.
Em segundas núpcias casou-se com a cunhada Lavise Kleber Rose e também não temos a data já em Rio Novo.
Nas terceiras núpcias casou com uma viúva com muitos filhos chamada Wilhemine (Minna) Kujmanne (e era conhecida como Kujmanieta) de Rio Novo.
Os filhos foram Lizete e Ludwig (ambos da 1ª esposa)
Morreu em 03 de março de 1925 na região de Rio Branco ou Jacu Assu
A religião era Batista e depois passou a ser sabatista
A instrução a gente só sabe que era alfabetizado
A profissão definida não pode ser conferida e aqui no Brasil ele trabalhou como agricultor
Dados históricos:
• Morou em Daugava Griva (foz do Daugawa); Dünamünde em alemão, antes de emigrar para o Brasil
• Pertenceu a Igreja Batista deste bairro da cidade de Riga.
• A primeira esposa morreu ainda na Letônia
• O Sr Jekabs aqui no Brasil casou com uma cunhada (irmã da Margriet) chamada Lawise, que tinha vindo já cuidando das crianças, isto é, os sobrinhos Lizete e Ludovico (Ludvig).
• Ela parece que não era para vir junto para o Brasil, mas devido à insistência dos sobrinhos ela terminou vindo. Esta era costureira e mais tarde também veio a falecer.
• Mais tarde o Sr. Jehkabs casou pela terceira vez, e desta feita foi com uma viúva chamada Wilhemnne (Minna) Kusjmane (Kusjmamnieta) qual tinha muitos filhos. A vovó Lisete não se relacionava bem com esta madrasta por ter um gênio muito belicoso e tiveram uma desavença devido à posse de um famoso Lenço de seda.
• Uma característica do mesmo (Jehkabs) era não gostar dos netos, o Reinaldo, Artur, Lúcia e Olga não eram muito benquistas.
• O Sr. Jehkabs morava no Rio Carlota no mesmo lugar em que depois morou o Felipe Karkle
• Mas a primeira colônia (gleba) de terra dele adquirida nos primeiros tempos era no vale do Rio Laranjeiras, que ficava em direção oeste em relação ao vale do Rio Novo, numa região conhecida por nos como Bukovina. Uma vez, após passar o dia nos Purins, na caminhada pela mata o Sr. Jehkabs em direção ao seu terreno, que era muito acidentado, aproveitou para levar um rebolo de pedra [Rebolo é uma ferramenta feita de um pedaço chato de arenito deixando rendondo com um furo no centro onde era encaixado um eixo e numa das extremidades uma manivela para ser instalada em forquilhas ou cavaletes para uso] para ser usado na afiação de ferramentas. Mas começou a ficar tarde, o que levou a se perder na mata Atlântica extremamente fechada. Então ele teve a idéia de aliviar o peso deixando guardado o dito rebolo entre as lages de uma cascata de um riacho. Quando voltou para procurar, não encontrou mais. Talvez tenha sido encoberto pelo musgo ou outra vegetação. Bem mais tarde, aquele terreno onde ele tinha passado continuava mata virgem, pois pertencia ao Tio Reynaldo e nós íamos colher jabuticabas nas árvores nativas e, às vezes, passávamos perto destas cascatas em busca do rebolo desaparecido. Junto desta cascata havia muitos xaxins sem espinhos entre eles alguns imensos que devia ter mais de 1½ metro de diâmetro.

• Bem depois ele já morando em Timbó, próximo a Blumenau, voltou para junto da filha Lisete quando trouxe algumas lembranças como o famoso Lenço de Seda histórico, pois durante a guerra dos Prussianos, [Prusch karsch?] este lenço ficou enterrado para não ser levado, uma Balança em £ e as alianças dos pais dele e ainda se mostrou arrependido de ter casado com a referida senhora
• .
• O Sr. Jekabs quando chegou ao Brasil era Batista, mas depois passou para a denominação Sabatista.

Agora a Mãe
Magriet Kleber Rose

Não temos a data de nascimento nem o nome de seus pais
Casou-se com Jekabs Rose, mas não sabemos a data.
Os filhos foram Lizete e Ludwig
A irmã Lavise Kleber
Morreu ainda na Letônia antes da família emigrar para o Brasil
A religião dela era Luterana.

Dados históricos:
• Morreu quando a filha Lizete tinha 12 anos.
• Quando morreu na Letônia era hábito de fazer o funeral que durava uma semana, depois para dar tempo de todos parentes se reunirem para um encontro quase social. A Senhora Magriet era Luterana e o marido era Batista e, no dia que foi o último dela antes de morrer, ela reclamou por que todos estavam tristes e pareciam estar em um velório na presença de uma pessoa falecida. Que não era para eles estarem assim e sim que cantassem hinos e, enquanto cantavam, ela faleceu. Foi o Ludwig que foi o primeiro a perceber.

Lizete Rose Purim

. Nasceu em 16/02/1878 em Daugava Griva ou em alemão Dünnaminnde
. Pais: Jekabs Rose e Magriet Rose
. Casou-se em 10/03/1895 – Na Igreja Batista Leta de Rio Novo com Jahnis Purim
. Filhos: Reynaldo, Olga, Lúcia, Otto e Alvina.
Irmãos: Ludwig.
Morreu em 08/ 04 /1953 em Rio Novo Orleans Santa Catarina
Religião: Batista.
Instrução: Primária.
Histórico:
• Daugava Griva (foz do Rio Daugava) é Dünnamünde em alemão. Fica perto de Riga.
• Ela tinha sido Babá dos filhos do casal Freijs que foi editor e proprietário de uma gráfica onde eram produzidos muitos livros e literatura cristã.
• Lisete era alta e muito bonita. Era muito culta e atualizada porque lia muito. Falava russo, alemão, leto e português. Tinha uma memória prodigiosa, lembrando de aniversários de uma infinidade de pessoas.
• Na Letônia ela ia prá escola com o seu irmão Ludwig, mas o mesmo não era de estudar então saindo de casa iam recapitulando as matérias e antes de passar a ponte prá chegar à escola o esperto sabia tudo e tirava ótimas notas na escola.
• Ainda sobre o Ludwig aqui em São Paulo as pessoas contam que quando iam visitá-lo na redação do Jornal alemão ele estava escrevendo em alemão e continuava mesmo conversando sobre um monte de assuntos como isso fosse normal.
• O vapor em que vieram os Rose era o “ Santos” da “Hamburg-Südamerikanishe Dampfschifffahrt” e saiu de Hamburg no dia 12 de novembro de 1891.
• Ela chegou ao Brasil com 13 anos de idade.
• O navio que trouxe os Rose também trouxe até Recife locomotivas para uma estrada de ferro. Como não havia cais, estas foram descarregadas em barcaças, no largo, fazendo com que o vapor adernasse muito, quase virando e causando muito temor entre os imigrantes.

• Veio via Hamburg Alemanha e chegou em xx/11/1891 em companhia do irmão, da tia e do pai e muitos outros letos. Ficou de quarentena 2 semanas em Ilha das Flores no Rio de Janeiro. Ela viu os primeiros negros em Salvador. E também bananas. [deve haver erro no tempo da quarentena, pois no dia 25 de Dezembro eles já estavam em Rio Novo.]
• Tinha o espírito aventureiro e não reclamou de ter que entrar na bruta selva da Mata Atlântica, só nos contava que no Natal anterior 1890 na Letônia eles fizeram uma ceia onde comeram bolos, doces e tomaram café com leite e esperando no outro ano estar no Brasil fazendo o mesmo. Mas nesta data estavam morando no Rancho comunitário e comendo pirão de farinha de mandioca com carne seca cozida.
• Ela sempre mostrava onde era o Rancho Comunitário que ficava onde era a nossa horta, isto é bem perto da casa onde eu nasci.
• Os inícios não são fáceis era a teoria dela.
• Ela tratava muito bem dos netos e nunca se esquecia dos aniversários. Em cada aniversário de cada neto, ela dava uma moeda de prata de 2 mil réis que nós guardávamos numa lata. Sempre conferíamos os dizeres escrito na moeda e sempre pesava “XX Gramas”, quando era 2$000,00 e somente X Gramas quando era 1 mil réis.
• Ficava de tocaia na gente éramos pequenos quando íamos para a roça ela ia avisando que não saísse prá dentro da mata ou capoeira onde poderia ter algum bicho [kads bichs]. Quando entravamos no chuchual para colher chuchu ou colher frutas na beira da estrada da roça como amoras pretas e brancas, araçás, goiabas, laranjas, maracujás roxos, cocos de palmeira tucum, cortiças (agora chamadas de frutas de conde) nativas ela ficava monitorando o tempo todo.
• Quando saia pra Igreja ou algum lugar para algum evento social se vestia apropriadamente. Nós notávamos que não usava soutiem e sim enleava umas longas faixas nos seios para deixá-los mais firmes.
• Ela tinha uma farmácia onde tinha uma infinidade de vidrinhos de medicamentos homeopáticos e também algumas infusões como para mal estar estomacal era uma garrafa com losna e outras com um monte de plantas dentro cobertas de aguardente. Se estivesse nervosa a garrafa era de Valeriana também na cachaça.
• Ela na roca fazia o fio de lã, mas antes de torcer era necessário lavar muito bem a lã, depois desfiar deixando totalmente solta e volumosa, depois ir prá carda que são conjuntos pentes de dentes de arame móveis quando era penteada até deixar em forma de bisnagas. Para nós que éramos crianças ficava a tarefa de desfiar que era feito em horas de chuva ou de noite a luz de uma lamparina.
• Depois de feito o fio ficava pronto era hora de inverter isto é torcer dois fios em um só tendo o cuidado para que a torção dos mesmos se encontrasse e os dois fios agora num só, ficassem se apertando e não se soltando serviço este feito na própria roca com cruzamento dos fios que fazem girar a roda maior para o carretel..
• Depois era passado na doubadeira e feito conjuntos de fios que iam para a lavagem final em água quente e daí já podiam ir prô tingimento.
• Muitos destes fios eram enrolados e novelos daqueles que os gatos gostam de rolar.
• Acima já falei sobre o tear uma verdadeira obra de arte e engenhosidade que foi construído inteiramente pelo meu avô Jahnis Purim e minha avó que manobrava este aparelho.
• Mas o forte era fazer coisas de lã era o tricô como blusas, gorros, luvas e meias. As meias ela fazia até na cama de noite no escuro quando acordava e perdia o sono, Quando chegava ao momento de aumentar o diâmetro ou coisa assim ela parava e contava as casas com os dedos em plena escuridão. Quando errava desmanchava a fila e isto era feito reclamando baixinho, Às vezes ela falava sozinha, Depois decidia a modificação e continuava.
• Gostava de trabalhar na roça com todo mundo, mas a horta era o lugar que ela plantava pepinos, repolhos, couves, alface, beterrabas, cenouras, rabanetes, nabos, batata salsa, ervilhas, carás, taiovas e outras especiarias como o endro, erva doce etc.
• Na administração dela na horta a função dos netos onde eu era incluído era carregar água para regar as plantas recém transplantadas e seguir os caminhos da formigas carregadeiras que sempre atacavam a horta. Uma vez encontrado o formigueiro o mesmo era eliminado com latas e latas de água fervente.
• Também os tatus vinham de noite mexer na terra molhada para catar coisas para comer, mas para estes não tinha nada para ser feito senão xingar.
• Para nós ajudar a cuidar da horta tudo bem, o que eu não gostava mesmo era de panelas e panelas de repolho, couves, batata salsa que ela fazia e insistia que a gente comesse.
• Além da fiação de lã (desde a tosa do carneiro até a roupa pronta), costurava, bordava e fazia crochê. Fazia muitas meias de lã para vender. Sabia muitos pontos para confecção de artigos de lã e se preocupava com o fato que quando ela morresse ninguém mais no mundo saberia.
• Tinha um tear onde ela era confeccionava cobertores de lã e também tecidos rústicos para confecção de roupas para inverno.
• Lembro dos preparativos quando muitas porções de fios de lã prontas eram colocadas para tingir em vazilhas de água quente com anilinas importadas da Alemanha, pois os cobertores eram feitos com faixas coloridas. E uma cor que eu lembro bem era a cor rubi e na embalagem em caracteres góticos estava escrito “Rubin Root”.
• Eu ficava muito admirado de como ela jogava rápido as lançadeiras alternando as cores, puxando os pentes e pedalando o cruzamento do tapume com o ordume.
• Também em bordados e tricô ela tinha caixas cheias de jornais e revistas com moldes e “receitas” de trabalhos roupas e moda para todas as ocasiões.
• As comidas que mais usava eram baseadas em produtos da lavoura, frutas e hortaliças cultivadas por eles próprios. De frutas fazia o tchissel (uma espécie de gelatina de frutas onde se usava polvilho ou farinha de trigo para dar a consistência de gelatina) e o tchilltchann (massa que era jogada em colheradas dentro de uma sopa de frutas, doce quente e que tomava as mais variadas formas e depois servida fria. Também o mesmo tchiltchan feito com leite e tomado frio ou quente). Do leite, além do requeijão, nata, queijo e outros, fazia a biezzu putru que é uma sopa grossa de leite azedo com canjica de milho [quirera]. Da carne de porco era feito o salame tipo Blumenau, os salames feitos com a fressura, a morsilha, a carne cozida e guardada em latas na banha, o toucinho pendurado no fumeiro. Também era feita uma geléia de carne [galet] onde os ossos e a cartilagem eram cozidos até derreter e depois de coada numa peneira grossa ao esfriar virava uma gelatina que era por demais apreciadas pelos letos que simplesmente adicionavam pimenta. Também era feita uma super sopa com a cabeça do porco inteira que elês chamavam de “Bullion”. Dos italianos aprenderam fazer a polenta que era um prato muito apreciado. A carne de galinha depois de ficar uma noite no tempero em vinha d´alhos era cozida numa panela de ferro com um pouco de banha e quando começava estalar era adicionado um pouco de água quente e dada uma mexida com uma colher de pau [os alemães chamavam para este processo de “schmoret”] que praticamente assava a carne na panela e o molho super escuro que sobrava era uma delicia.
• A carne predominante era a de porco do qual era derretida a banha para as frituras e saladas e ainda usada para a conservação de carnes já cozidas, pois não havia outros meios para conservá-la. Também eram feitas lingüiças que também ficavam no fumeiro junto com os ossos salgados e as mantas de toucinho. Quando era feita a “schlackfest” ou o porco era carneado que era feito praticamente todos os meses a Dª Lisete junto com a Dª Verginia minha mãe comandavam o bom andamento das tarefas.
• A Dª Lisete foi premiada com uma nora brasileira e era esperado que houvesse muito conflito entre as representantes de etnias diferentes, mas que na realidade raramente ocorria. Qualquer contratempo não chegava a durar quase nada, mas isto não quer dizer que não havia nenhum ressentimento diante da superioridade e certa arrogância em relação aos brasileiros por parte dos letos.
• O pão de cada dia era feito de farinha de milho e merece uma página especial.
• Casou no dia 10 de março do ano de 1895 com Jahnis Purim
• A Dª Lisete quando era nova e recém-casada, o marido foi trabalhar na região de Lages, deixando-a sozinha com um nenê pequeno. Neste período um temporal muito violento numa noite de verão pôs a rancho deles abaixo ao lado da mata virgem que uivava com a tempestade, relâmpagos e chuva e neste completo caos ela teve que passar a noite com o nenê (Reinaldo) no galinheiro, com as galinhas.
• Ludwig Rose, seu irmão, foi importante jornalista e redator do jornal Deustch Zeitung, publicado em idioma alemão, editado na época da 1ª Guerra Mundial em São Paulo, vindo a falecer em 1925 tanto que merece um capítulo especial à parte.
• Outra grande qualidade de Dª Lisete era atender a enfermos, muitas pessoas da comunidade foram atendidas por ela.
• Em minha opinião a minha vovó Lisete foi uma lutadora com qualidades e defeitos que todas as pessoas eventualmente têm, mas sempre foi muito honesta em seus propósitos e eu senti muito não estar presente no dia que ela faleceu principalmente que dizem que ela pedia prá chamar-me, pois ela queria falar alguma coisa, mas nesta ocasião eu já estava morando e trabalhando em Urubici e nada pode ser feito.
• O tio Reynaldo Purim devia muito a ela e bem como a família toda pelos imensos esforços em sustentar este filho estudando no Colégio, no Seminário inclusive nos Estados Unidos.

Agradeço a Gramática Inglesa que você me mandou.| De Luzija Purim para Reinaldo Purim – 1925 –

(Outra carta sem indicação do ano)
Rio Novo 19 de junho

Querido irmãozinho! Saudações!

Eu recebi a tua carta escrita em 16 de maio já há bastante tempo e por ela muito obrigada. Eu já poderia ter escrito a resposta antes, mas agora não mais estamos indo toda semana para Orleans, porquê a manteiga não é bastante para vender e dai a gente também não vai ao correio toda semana, você não vai tomar por mal eu ter feito esperar então agora vem à compensação porquê terei mais notícias para relatar e provavelmente a Olga também escreva e assim você terá bastantes coisas para ler.

Agradeço pela Gramática Inglesa que você me mandou. Recebi no dia que eu mandei a carta escrita no dia 23. Você já a recebeu? Você me pergunta como eu estou indo com os estudos. Eu realmente para estas coisas não tenho tido oportunidade de chegar perto, pois durante o dia inteiro trabalho na roça e a noite ou eu fio a lã ou teço meias. Este ano as meias estão bem valorizadas, pois os negociantes em Orleans estão pagando 4$000 o par e outros lugares estão ainda mais caras.

Recebemos os medicamentos que você enviou através do Vitor [Vitor Stawiarsky] e por elas muito obrigado. Este portador não tivemos chance de encontrá-lo, pois ele foi embora muito rápido. Quando fomos procurar, ele já tinha ido embora. Estes remédios ainda não foram utilizados e por isso pedimos que por agora não mande mais porque a Olga está agora se tratando com remédios indicados pelo Stawiarsky [Etienne Stawiarsky ] e por não poder misturar tudo pedimos que não fique gastando o seu dinheiro com remédios e para as suas próprias despesas poderá ficar sem dinheiro nenhum.
O tempo agora está chuvoso e toda semana ficou nublado e esta noite está chovendo forte. Agora os atafoneiros que moem o milho para fazer fubá não podem reclamar de falta d’água para movimentar as atafonas e também a nossa calha [Uma calha escavada com enxó goiva em troncos de palmito Jussara, sustentado por forquilhas, trazia água de uma nascente para próximo da casa] começou a correr maior quantidade, pois até a pouco mal pingava. Geadas tem havido em algumas manhãs, mas aqui elas não queimaram nada.

A festa do piquenique [Não pudemos inferir a que feriado se refere este piquenique] caiu em um dia chuvoso, tinha pouca gente. A tia Maisin antes da Festa esteve em Mãe Luzia e na volta trouxe consigo o Arthur Abolin sobre o qual já escrevi algo na outra carta. Ele ainda está por aqui. Ele tem a fisionomia semelhante ao Alex Klavin, muito parecido mesmo. Agora ele está hospedado na casa do Willis Slengmamm . Ele tem dirigido diversos cultos na igreja, muitas pessoas estão muito interessadas e acham que ele não deve ir embora antes da volta do Stroberg e outras pessoas já acham que não vale a pena ficar ouvindo. As suas prédicas são longas e se o relógio não bater as 12 horas, ele não saberia a hora de terminar. Os sermões não tem um título ou texto base. Um é igual ao outro. A chamada é sempre a mesma é que nós os escolhidos temos que orar mais em busca da plenitude do Espírito Santo, nós temos que estar vigilantes etc. Somente não prega o arrependimento ou conversão dos pecadores, as mensagens são sempre as mesmas: que o tempo da misericórdia está chegando ao fim e que os escolhidos devem se aprontar para a chegada de Cristo. Você escreve que soube que os pentecostais estão fazendo propaganda, eu pelo menos sobre línguas estranhas não tenho ouvido, pois é possível que eles têm estas manifestações em suas próprias casas porquê na igreja eu nunca vi.

Na 1a. Festa do Verão [Ascensão do Senhor cai no verão no hemisfério norte] dia estava muito chuvoso, mas na 2a. da Festa [Oitavas da Ascensão do Senhor] o tempo estava esplêndido e ouve um longo programa quase toda constituída de hinos e músicas. O dirigente foi o Abolin. O programa começou às 10,30 horas e terminou às 3 horas da tarde. Gente tinha bastante e também tinha vindo bastantes brasileiros de Orleans, mas para estes não foi lido nenhum texto nem cantado nenhum hino, como eles chegaram assim eles foram, viu como é, em outros lugares aqui ninguém vai pregar, e aqui eles vieram, mas nem assim, mesmo as pessoas que poderiam fazer algo nada fizeram e ninguém quer nada com nada.

Na semana passada recebemos uma carta do Andrejs, ele escreve que mandou uns papéis e desenhos para sua construção. Você os recebeu? O Jahnites agora está em Riga trabalhando com um sapateiro e aguardando oportunidade para entrar num Seminário. Eles próprios dinheiro não tem, mas esperam alguma vaga livre ou bolsa de estudos com o Freij [Líder Batista da Letônia] ou com o Fetler [Outro líder batista da Letônia], mas como nós aqui acompanhamos tudo o que acontece lá pelo “Kristiga Draugs” [O Amigo do Cristão – Publicação religiosa da Letônia] percebemos que o Fetler não tem escola nenhuma. Ele anda viajando e coletando dinheiro e planejando abertura de um Seminário ou uma Escola Superior. Os nossos parentes sempre tiveram o Fetler em alta conta e ainda hoje acreditam piamente no que ele diz.

Os remédios para “mal da terra” [Ancilostomíase] ainda não recebemos, mas é possível que estejam no correio em Orleans.

Bem por hoje chega de escrever e é possível que você não tenha tempo de ler e se esta carta chegar enquanto você tiver ido a “Chautaqua” [Acampamento Anual Batista] então ai mesmo que você vai demorar mesmo a ler esta carta devido ao seu muito trabalho.

O genro do Farmacêutico é o Jorge Moures e ele próprio quer te escrever.

As tuas lembranças foram entregues a todos. A senhora Klavim está quase totalmente recuperada. Escreva bastante para mim dizendo como estás passando.

Muitas lembranças de todos de casa e eu disse no começo que os demais iriam escrever também, mas todos ficaram com preguiça e nenhum quer mais escrever.

Assim fico aguardando longa carta de resposta.
Luzija