O dia do enterro dele, lembrou o dia do casamento dele… | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 5-9-21
Querido Reynold!

Saúde! Recebi a tua carta escrita no dia 14-8-21 no 26 de agosto. Muito obrigada. Você sempre pede que eu escreva bastante e hoje até que teria, mas tem um grilo que está me atrapalhando a escrita com o seu irritante e insistente canto e se escutar melhor também as rãs estão com o coaxar prevendo chuva.

Semana passada choveu muito, quase demais e fez muito frio. Mas agora está quente outra vez.. Este ano excepcionalmente a primavera chegou bem mais cedo, pois todo mês de agosto já estava quente e mesmo abafado e a última geada foi em 20 de julho. O pessoal está capinando e queimando as roças e está tudo coberto de tanta fumaça como em outros anos acontecia bem mais tarde no mês seguinte. Aqui nas roças estamos terminando de colher o milho e já em seguida estamos a plantar novamente.

Aqui no Rio Novo no mês de agosto foi época de Festas. No dia 17 de agosto uma quarta feira, à noite, foi a Festa da Colheita [Festa de Ação de Graças pela safra colhida]. O tempo estava bom e somente nublado, mas um pouco antes deu uma forte chuva que como foi rápida não chegou a fazer lama nas estradas pois a terra absorveu. Não podia chover mesmo, pois dias antes tinham chegado as grandes e esperadas visitas da grande cidade, o Dr. Luppers e outros não menos importantes como o José Casscão [Cascão] de Paranaguá e o Antônio Ernesto da Silva de São Paulo. Estes tinham estado em Curitiba nas Conferências e o Luppers tinha conseguido que eles viessem junto. Eles fazem tempo que queriam conhecer o Rio Novo. O Onofre que sabia de tudo, também viajou e veio para acompanhar, pois ele sabia quando eles viriam, mas o Antônio Ernesto não ficou muitos dias aqui, isto é somente nas Festas e logo desceu de volta para Orleans e lá organizou diversos cultos e reuniões, todas as noites e no sábado foi embora no sábado, porque não tinha planejado ficar tanto tempo fora de casa e vir tão longe.. O Dr. Lupper e seu companheiro ficaram até o domingo pela manhã, mas a noite já estava em Orleans e ai nós também fomos. Nas noites anteriores nós não fomos, mas os músicos e o coro foram quase todas as noites. Estas reuniões foram muito concorridas tanto é que o sacerdote católico determinou missas extraordinárias e tocava o sino alertando ao povo que não fosse, mas pouco adiantou pois na última reunião tinha mais de 400 pessoas. As reuniões eram feitas no prédio onde era o antigo cinema. O prédio está vazio e parece que faz tempo que não tinha sido usado. Dentro somente as poltronas pois faz tempo que não são feitas apresentações de filmes.

Também tivemos a oportunidade de ouvir o tão afamado solista acompanhado do harmônio, mas não agradou tanto quanto era esperado e é provável que nossos ouvidos não sejam acostumados com apresentações tão artísticas. Na primeira noite o Onofre trouxe ele [o Lupers] aqui em casa e ai ele contou para o Pappa que te conhece da cabeça aos pés e que sabes falar francês, alemão, inglês tanto quanto ele e ainda outras coisas como álgebra etc.

Bem os tempos passaram e depois de uma semana ele viajou até a casa do Onofre e dai para Imbituba.[O Onofre morava na localidade de Braço do Norte também chamada de Barra do Norte, uma Estação da Estrada de Ferro que ia pra Tubarão- Não confundir com a cidade de Braço do Norte hoje que naquele tempo chamava-se Quadro do Norte]

Há pessoas que dizem que depois de muita alegria e festas também vem a tristeza e funerais e agora isso aqui no Rio Novo aconteceu. Eu não gosto nada de escrever sobre funerais, porque as minhas cartas trazendo notícias tristes podem deixar você perturbado.

Bem agora isto aconteceu depois de festas, o funeral. O Oscar Karp voltando da cidade montado em seu cavalo chamou-nos da porteira e informou que noutro dia depois do almoço seria o enterro do Willis Paegle. Que ele tinha morrido às 3 horas da tarde… Parecia incrível, pois ninguém sabia que ele estava doente ou se foi um acidente.

Somente outro dia no cemitério ficamos sabendo que dias antes que ao levantar um peso excessivo de ter havido rompimento nalgum órgão interno. Chamaram o médico, mas este disse que não havia mais esperança e ele não viveria mais. Agora os Auras e os Paegles estão numa tristeza profunda, pois o que a Erna vai fazer com um filho com 2 anos somente, já sozinha.

Nos derradeiros momentos estavam juntos todos os parentes e ele pediu que ninguém chorasse, mas sim que levassem uma vida tal, que permitisse que no céu voltassem a se encontrar.

O dia do enterro dele lembrou o dia do casamento dele que também foi numa tarde de sábado que foi um lindo dia, também após uma semana de chuva. Agora chega, pois o papel acabou. Com saudações Olga
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Os rapazes que deixam escapar alguma palavra em brasileiro | Olga a Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 8 de junho de 1919

Querido Reinold!

Saúde! Hoje é a festa de Pentecostes [NOTA: Em leto “festa do verão”, a tradição lembrando ainda o hemisfério norte]. Está bastante quente, como fosse verão mesmo. Está um pouco nublado mas não vai chover.

As estradas estão todas ainda lamacentas das chuvas da semana passada, pois não foi pouca coisa não. Geada nenhuma até agora. Em outros anos nesta época não tinha mais nada verde.

Nós graças a Deus estamos todos bem e todos com saúde.

Na semana passada, dia 3 de junho, recebi a tua carta escrita no dia 22-5-19. Por ela muito obrigado. Estou muito alegre que todas as minhas cartas você recebeu regularmente. E do mesmo modo, as tuas cartas e os jornais estamos recebendo em perfeita ordem. Na semana passada, dia 7-6-19, mandei um pacote que pesou 1 quilo, contendo meias e as cartas de Luzija e Artur. É possível que as tenhas recebido e assim sabes que o período de festas aqui terminou.

O Deter esteve em Rio Novo e já foi embora. Aquelas três semanas, duas aqui e uma em Mãe Luzia, passaram muito rapidamente. Ele agora possivelmente esteja em Blumenau. Ele não aprova o exagero dos letos de Blumenau em relação aos Espíritos, [doutrina com] que eles estão totalmente envolvidos. Semanas atrás estiveram aqui o Anderman e o Strauss. Você se lembra do Augusto Strauss. O irmão dele está totalmente envolvido com esse movimento. Pois eles estiveram aqui uns dias, mas foram embora para Mãe Luzia. Aqui a “igreja” deles não vingou, pois os únicos que davam algum apoio que eram o velho Grikis e o Limors, e eles não se dão entre si.

Sobre as Festas não tenho muito o que contar. De Pedras Grandes veio uma irmã do Onofre Regis e a filha Rosa com o marido dela, e mais uma mulher que eu não conhecia. Eles ficaram hospedadas na casa do Willis Oschs, o qual providenciou cavalos para ir buscar estes visitantes e depois levou-os novamente até Orleans.

Quando o Deter estava aqui o Onofre, José e mais um parente deles esteve nos Klavin. Você pergunta se nossa Escola Dominical vai mandar representantes para a Conferência em Paranaguá. Já escrevi na carta passada que a Escola Dominical na casa dos Leimann foi interrompida com a reunificação das igrejas. Se alguém desse o dinheiro ou se eu tivesse de sobra eu bem que gostaria de ir, pois nunca fui a um evento destes.

Eu mostrei o anúncio da Convenção no Jornal para o Roberto [Klavin]. Ele não tinha visto, parece que ele não é muito chegado a leitura de jornais. Sugeri que ele partisse antes e fosse adiante visitar você. Ele vai embarcar em julho para Paranaguá e parece que não tem vontade ou coragem de ir adiante. O Deter prometeu voltar para o Rio Novo no Natal e voltar mais vezes visitar o Estado de Santa Catharina.

E você não vai vir para casa no Natal? Esta faltando meio ano, mas este passará muito rápido, pois o começo do ano parece que foi agora e já estamos no meio do ano. Quem sabe você já não saberá falar mais em leto e só em brasileiro, que segundo o Grünfeldt é língua de negros. Ele fica patrulhando os rapazes que às vezes deixam escapar alguma palavra em brasileiro.

Eu tive a chance de escutar duas pessoas falar em inglês pela primeira vez na vida. Eram o Deter e o Butler, que quando os dois estão sós falam somente em Inglês.

Eu fiquei mais duas semanas em Orleans na casa dos Stekert, mesmo sem aulas de costura, porque eles tinham um monte de problemas, como vender as vacas e os cavalos, que ainda estão à venda. Os porcos foram levados com o milho a Orleans, onde vão ser engordados.

No Rio Novo ninguém [da família Stekert] vai ficar morando. No próximo mês a propriedade vai ser arrendada a um italiano.

Os Pintados foram embora para o meu luga [em português no original] e a história não ficou bem contada. Eles fizeram dívidas com todos e até para nós ficaram devendo 2$700 — e muito mais para os outros. Eles foram embora de noite. Outros dizem que podem ser eles que tenham matado o Stekert, pois nos últimos tempos eles tinham raiva um do outro e o Jurgim deixou escapar que o genro dele era um verdadeiro bandido (?).

O dinheiro do Stekert até agora não foi encontrado e todo mundo sabe que devia existir.

Bem, por hoje chega. Outro dia novamente.

Lembranças do Papus, da Mamma e da

Olga