Não posso continuar, pois a febre voltou. | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim. – 1925 –

Portão [Agora bairro de Curitiba] 27 de Outubro de 1925

Querido Reynold
Faz tempo que estou me aprontando para escrever-te. Mas sempre aparece alguma coisa mais urgente.
Hoje saí de viagem, mas tive que voltar atrás. Vou amanhã.

Escrever tudo o que aconteceu nos últimos meses será demais. Vou escrever só o que eu lembrar. Agora estamos morando quase em Curitiba – O endereço é Caixa Postal T.

Nos dias de férias trabalhei na lavoura. Plantamos 4 quartas de milho, 2 quartas de feijão, 4 de batata etc.. Passei maior tempo doente com febre; então ainda caí da carroça e quebrei um osso. Até hoje a febre me atormenta.

Numa das últimas viagens me roubaram a minha maleta com todas roupas, Bíblias novas, um Cantor Cristão com música etc.
Trabalho tenho muito, mais do que consigo fazer. O Deter e o Stroberg estão este mês no Rio Novo. Casamentos.

Mas não posso continuar, pois a febre [Maleita ou Sezões] voltou.

Amanhã estarei viajando para Iguape S.P..
Sinceras saudações.
Carlos Leimann

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DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN – 5ª PARTE

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS POR JOÃO REINALDO PURIN – 5ª PARTE
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REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin

5ª. Parte
Em Curitiba
Voltando um pouco no tempo, preciso colocar que no mês de janeiro de 1954, por ocasião de uma Assembléia da Convenção Batista Catarinense em Urubici, uma vez que há tempos, me considerava vocacionado para o Ministério da Palavra, atendi ao apelo. Depois de tornar pública a minha decisão, procurei o missionário Adriano Blanckenchip que se prontificou a conseguir bolsa de Estudos em Curitiba, na então Escola Batista de Treinamento, hoje Faculdade Teológica Batista do Paraná. Ali permaneci como aluno interno 4 anos. Pelas manhãs aulas bíblicas e trabalhava na horta, rachava lenha para a cozinha. À noite fazia o Ginásio.
Logo que cheguei escrevi carta ao Titio, comunicando que estava em Curitiba estudando para o Ministério Pastoral. Creio que no ano seguinte ele veio a Curitiba. Gostou demais da cidade. Ficou surpreso ao ver como o curitibano se trajava bem. Ficou por alguns dias na pensão da irmã Maria Túlio, na Rua Duque de Caxias onde meus irmãos, Valfredo e Viganth Arvido moravam.
Quando ele chegou, eu estava fazendo trabalho como pré-seminarista pelas Igrejas do Norte do Paraná. Quando nos encontramos, ele olhou para mim de alto a baixo e acho que ficou decepcionado com a minha altura e disse em leto: “tu ês mass noo augum” = tu és pequeno de (crescimento) altura.
Tive a oportunidade de levá-lo para visitar a Escola onde estudava e também para uma visita ao diretor, o missionário Lester Bell.
Neste ínterim, o Valfredo, falando com o irmão Mizael Cardona de Aguiar aventaram a possibilidade de se adquirir uma propriedade. O tio ficou também entusiasmado com a idéia e ao voltar para o Rio, limpou as suas reservas nos bancos e foi adquirida a propriedade da Rua Jacob Bertinato, que se tornou o centro dos Purins até agora.

Eu no Seminário
No ano de 1961 ingressei no Seminário do sul. Lá chegando, os colegas, maldosos, brincando, começaram a fazer hora comigo, pois sabiam que eu era sobrinho dele, diziam: “como é que pode…, agora aparece aqui um filho do Dr. Purim?” Tudo não passou de uma brincadeira. Ele sempre gostava de me receber em seu gabinete. Nas primeiras vezes já foi me dizendo que a Igreja de Bangu já tinha um seminarista e que não teria como ter dois. Mas por Deus, o Pr. Benilton Carlos Bezerra, da Igreja Batista em Laranjeiras já havia pedido um seminarista ao reitor, Dr. Oliver, que logo me deu carta de recomendação e para lá fui, onde passei meus quatro anos de seminário. Nos últimos meses, antes de minha formatura, o Tio me convidou para pregar em Bangu. Foi uma experiência muito boa. No final do culto alguém interpelou o pastor: “Mas, Dr. Purim, o senhor com um sobrinho no Seminário e ninguém aqui ficou sabendo?” Ele deu aquela risada característica. Ele já tinha me dito, no começo do meu curso que tinha por norma não apresentar parentes em parte alguma. Isto já era coisa antiga. Nunca procurou ajudar seus irmãos, especialmente as irmãs que tanto pediram que isto acontecesse. Mas era uma das normas dele e ninguém poderia convencê-lo de outra forma.

Uma de suas esquisitices notada pela família foi o fato de não participar de meu casamento, pois naquela mesma hora estaria acontecendo o aniversário da Sociedade Feminina de sua igreja. Horas antes do casamento, passou na casa dos meus sogros, justificou-se e preferiu a sua igreja. E lá se foi. Todos “compreenderam” e perdoaram.
Conceituadíssimo
Em que pese estas esquisitices ele era conceituadíssimo por todos que o conheciam e que ouviam falar dele.
Na igreja era muito querido. Todos o tinham na mais alta consideração, apreço e respeito. Solteirão que era, entretanto, freqüentemente casais iam tomar conselhos com ele, acatavam suas orientações e acertavam-se em seus relacionamentos.
Seus estudos bíblicos e sermões eram apreciadíssimos. Todos recebiam a palavra dele como vinda de Deus e faziam questão de não perder uma palavra ou o raciocínio dele que levava o auditório a ponto de perder o fôlego. Apenas, quando terminava, o povo se mexia, como que dizendo: que coisa maravilhosa! Sempre tinha algo novo que extraía da Bíblia que é realmente inesgotável. Ele mesmo dizia com certo orgulho que não repetia sermões. De fato, isto pode ser verificado pelos sermonários que deixou.
Para o púlpito levava a Bíblia e o seu sermonário. Era um livro grosso e pautado. Para cada mensagem usava uma página. Escrito em letras bem pequenas, porém, legíveis. Começava com o título, data, hora e local em que iria pregar: Bangu, Universidade Rural (Seropédica), Padre Miguel, 2ª de Magalhães Bastos, Vila Realengo (essas eram filhas da Igreja de Bangu), Ricardo de Albuquerque que era pastoreada pelo Pr. Arnaldo Gertner e em outros lugares, como Orleans, Rio Novo, Cajuru. Temos sermões desde os anos 1918 até 1969.
Estes sermonários estão sendo disponibilizados aos interessados, sob o título: Idéias Bíblicas para seus Sermões.
Assim era também no Seminário. Ninguém queria perder suas aulas. Lá ele era o catedrático. Ministrou as seguintes matérias: Filosofia, Filosofia da Religião Cristã, Religiões Comparadas, Apologética Cristã, Teologia Sistemática, Teologia do Novo Testamento, Teologia do Antigo Testamento, Epistemologia, Metafísica, Metodologia Teológica, Lógica, Hebraico, e anteriormente, Grego e História da Igreja.
Suas provas eram corrigidas com muito cuidado, pois qualquer palavra mal colocada prejudicava a resposta e a nota.

Sempre alguém o procurava para tirar suas dúvidas. Lembro-me de um grupo de alunos do Colégio Batista que o procurou dizendo que alguém iria fazer uma semente, um grão de feijão. Ao que ele foi logo dizendo. “Mas, fazer um feijão é uma coisa, vamos ver se este feijão vai nascer! Colocar vida em um feijão é outra coisa”.

O Conferencista
Era freqüentemente convidado para institutos nas igrejas. Nem sempre podia ir, mas temos registros e escritos de suas palestras em retiros de pastores no Estado do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e outros. Em todos esses encontros deixava sempre as melhores impressões.

O Escritor
Em que pese ter deixado poucos livros, houve um período de janeiro de 1936 a dezembro de 1942, em que foi o redator da Revista da Mocidade Batista Brasileira. Essas lições eram estudadas pelos jovens nas então Uniões de Mocidade que funcionavam aos domingos à tarde, antes dos cultos. Através destas lições procurava orientar a juventude batista brasileira em aspectos bíblicos, doutrinários, missionários, morais e culturais. Este material também estará à disposição com o título geral: “Eu vos escrevi, jovens…”.
Os livros, nos quais deixou o seu pensamento registrado, são os seguintes:
As matérias disponíveis, por enquanto são:
* APOLOGÉTICA CRISTÃ, 73p;
* CRISTIANISMO E CULTURA CONTEMPORÂNEA, 63p.
* ELEMENTOS DE METAFÍSICA COM VISTAS À TEOLOGIA CRISTÃ, 70 p.
* FILOSOFIA DA RELIGIÃO CRISTÃ, 104 p.;
* HISTÓRIA DA FILOSOFIA, 100 p.
* INTRODUÇÃO À FILOSOFIA, 42 p.
* LÓGICA, APLICADA AO PENSAMENTO TEOLÓGICO, 68 p.
* METODOLOGIA TEOLÓGICA CRISTÃ, 42 p;
* TEOLOGIA BÍBLICA DO NOVO TESTAMENTO, 100 p.
Outro material que não foi produzido para uso em aula:
* A ESSÊNCIA DA OBRA DE CRISTO – Sua Tese de Ph. D, Com o título original “Um Introdução à Morte e Ressurreição de Cristo.”
* A EXULTAÇÃO DE CRISTO NO ESPÍRITO SANTO, 8p;
* A IGREJA DE CRISTO E SUA MISSÃO EVANGELIZADORA, 24 p;
* A IGREJA DE CRISTO, 52 p;
* A PREEMINÊNCIA DO INDIVÍDUO SOBRE AS CLASSES ORGANIZADAS, 10 p.
* ALGUNS PRINCÍPIOS EXCLUSIVAMENTE BATISTAS, 16 p.;
* AUTORIDADE NA RELIGIÃO CRISTÃ, 67 p.;
* DEMOCRACIA CRISTÃ (entrevista), 8 p.;
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. II, 98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. I, 98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. III, 99 p.
* JESUS CRISTO NO PANORAMA DA HISTÓRIA, 59p.
* JESUS CRISTO, O RECONCILIADOR, 76 p;
* O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO, 8 p.;
* O ENSINO DE JESUS SOBRE O ESPÍRITO SANTO, 10p.;
* O PODER DO ALTO, 20 p;
* ORIENTAÇÃO PARA OS NOVOS CRENTES, 24 p.;
* PREDESTINAÇÃO E APOSTASIA ou A PERSEVERANÇA DOS SALVOS, 70 p.;
* PRINCÍPIOS BATISTAS (tese para os pastores do Estado do Rio), 38 p.
Como já foi colocado acima, o Dr. Reynaldo Purim tinha uma cultura e um conhecimento geral de todas ou quase todas as áreas do saber humano.
Entretanto, para não incorrer em algum erro que alguém, algum dia pudesse incriminá-lo, ele era muito cioso aos expor suas idéias e pensamento. Esta, talvez, tenha sido uma das razões de ter produzido pouco. Antes de chegar à conclusão que o texto estava bom, ele corrigia e datilografava várias vezes (naquele tempo nem se falava em computador). Também ele perguntava, quem é que vai ler? Com isso dizia que, se ele expusesse o seu pensamento em sua profundidade, poucos iriam se interessar e ler.
O material que estou expondo, é o que encontrei em seus guardados em forma de apostilas e rascunhos datilografados. Como o que importa é o conteúdo estou colocando à disposição em forma de apostilas, sem muitas alterações.
Se o leitor estiver interessado, é só fazer o pedido.
Vem aí a 6ª Parte. Seus últimos anos – Morando no Seminário. Aguarde.

Primeiramente os nossos votos de um Feliz Ano Novo …| De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1925 –

Ano de 1925

Rodeio do Assucar 3-1-25

Querido Reini! Saudações!

Primeiramente os nossos votos de um Feliz Ano Novo e também muitas felicidades pelo seu aniversário, então pensei que precisava mandar um cartão de felicitações, mas depois refleti e cheguei a conclusão que você sendo um homem tão importante, o que iria fazer com um cartão. Também nos nossos aniversários e dias dos nomes que você nem lembrar, lembra.

A tua carta escrita, melhor datilografada no dia 8 de dezembro recebi na semana anterior as Festas do Natal. Obrigada! Desta vez você foi muito caprichoso e escreveu em seguida. Aqui não dá para responder tão rápido, pois tenho que esperar acumular as notícias para então poder te escrever. Pensava que depois de ter passado todas as Festas teria muita coisa para escrever.

Mas se você se lembrar, foi igual ao Natal do ano passado. A diferença foi que no primeiro dia da Festa [O primeiro dia era sempre o dia 25 de dezembro] depois do meio dia deu um forte temporal de chuva e um pouco de granizo. Mas à tardinha passou e podemos ir para ver o pinheirinho, somente a estrada estava muito mole. [A chuva tornava o barro vermelho mole e pegajoso] Apesar disso tinha muita gente. A festa foi dirigida pelo Strobergs. As crianças [O Natal era uma Festa dirigida pelo pessoal da Escola Dominical e a própria Escola Dominical era considerada uma escola para crianças] apresentaram poesias, hinos e Representações e tudo transcorreu muito bem.

Na Noite do Ano Velho [Noite de Vigília] foi uma noite de apresentações sob responsabilidade dos Jovens e a espera pelo Novo Ano. Já na manhã do Ano Novo houve uma Festa de Missões e esta também foi muito bonita e também tinha muita gente. O tempo estava bom e seco e quente. Muitas poesias, hinos pelo coro e também muitos quartetos e a prédica do Karkle como acontece todo ano. É provável que sobre as Festas a Luzija já tenha escrito mais amiúde, para tanto não vale a pena. No Dia da Estrela [Dia dos Magos – 6 de janeiro] a Escola dominical está organizando um piquenique na casa dos Klavim.

A Selma da Kate [ Selma Klavin ] chegou de viagem[ do Rio de Janeiro ] totalmente abatida e cansada de tanto estudar, nas outras vezes era alegre e extrovertida e agora já não sabe mais ser assim. Eu pensava mesmo que ela fosse a frente em alguma ocasião e pedisse a palavra para contar algo de lá, mas até agora não aconteceu.

Por que vocês não nunca autorizam o João Klava a sair para vir para casa? Eu faz tempo que ouvia dizer que ele viria, mas até agora nada. Ele não pôde vir porquê, porquê ele é o diretor da Escola, ou substituto dele e por isso não pode viajar e ainda no começo de dezembro teve que fazer um curso especial de aperfeiçoamento e assim este ano teve que ficar.

A Sylvia Karklim e o Waldi chegaram de São Paulo de passeio aqui.

No Domingo passado recebi uma pequena carta da Lilija.[Lilija Purens]Eu tinha escrito para ela reclamando por que ela não me escreve e perguntando se eles ficaram orgulhosos morando na nova fazenda então ela respondeu que não tinha recebido as cartas minhas cartas anteriores e nada mais atrapalhou a escrita senão a preguiça e ninguém deles não escreveu para ninguém. Diz que o tempo estava muito seco, mas agora já está chovendo. Também de você eles receberam uma carta e a qual ainda não responderam.

Aqui as chuvas tem sido ainda poucas, Antes das Festas, ai sim chovia, mas desde aqueles dias tem estado muito quente e um vento seco que resseca tudo. Ontem à noite sim, roncou trovoada e formaram-se muitas nuvens, mas logo tudo se desvaneceu. Hoje amanheceu limpo e no meio dia estava marcando 40 graus C. no sol. Pela impressão que as lavouras nos dão são desanimadoras. As roças estão completamente estorricadas e não sei como vai ser com o pão de cada dia. Nós temos a nossa reserva, então com o pão realmente não nos preocupa, mas muitos não tem. Muitos colheram pouco e porquê o preço estava muito bom venderam tudo e agora a fome. Tudo está caro e às vezes nem tem para comprar. Os Letos não tem problema de passar fome, mas os Brasileiros e os Italianos não tem o que comer então andando pelas estradas e roubando. Se alguém tem feijão ou batatas em roças a beira de estradas, elas desaparecem. Trabalhar eles não querem, se não pagarem 3$ por dia e mais a comida, então eles dizem que é melhor morrer de fome, do que fazer os letos ainda mais ricos.

A Arthur diz que se você escrever então ai ele também vai escrever. Ele teria o que escrever a semana inteira. No mês passado foram tantos os acontecimentos que você não poderia imaginar.

Lembranças da Olga.

Uma viagem a Urubicy | de Otto Roberto Purim (Artur) para Reynaldo Purim – 1924 –

Rodeio do Assucar, 28 de abril

Querido irmão! Saudações!

Agora desta vez chegou à hora de eu escrever uma carta para ti. A tua faz tempo que a recebi, mas não fiquei conformado, pois ela era muito curta, eu esperava pelo menos duas páginas, mas muito obrigado por ela assim mesmo.

Tu escreves pedindo que eu escreva uma longa carta para você. Mas eu não tenho máquina de escrever, nem material nem tantos assuntos para descrever e nem tempo para tanto. Portanto não espere como pediu aquelas descrições minuciosas [Sihki un smalki] e em ordem cronológica. Vou escrever o que estou fazendo e responder o que você perguntou.

Esta semana batemos [Bater arroz – O arroz era cortado e trazido em feixes para a eira a qual era coberta com um pano grosso (10 x 10 metros). No centro deste lugar era colocada uma caixa com a parte superior gradeada com sarrafos. Apanhando pequenos feixes de hastes do arroz cortado, estes eram batidos nesta grade com a finalidade de despegá-los das hastes. Depois era peneirado para eliminar a palha e outras impurezas e assim estava pronto para ser trazido para o paiol para nos dias subseqüentes ser posto no terreiro para secar. As hastes de arroz serviam para cobrir as ramas de mandioca para proteger da geada] arroz, pois eles já estavam maduros demais. Nós esperávamos você para ajudar-nos. Ainda na semana passada choveu e é por isso que passaram do ponto. Hoje trouxemos duas carradas [Duas viagens de carro de bois] para casa [Desta vez eles bateram o seu arroz no terreiro] e batemos e rendeu 15 quartas [Cada saco de 50 quilos tem 8 quartas ou 2 alqueires] ainda não bem peneirados. O arroz este ano cresceu bem agora no final e os grãos estão muito bonitos. Pena que aquela seca que deu logo que eles foram plantados foi que prejudicou no perfilhamento. Bem devemos aceitar com gratidão, pois muitos nem isso colheram.

Hoje à tarde eu juntei uma quarta [Uma Quarta de alqueire] de pinhões e agora enquanto escrevo esta carta estou comendo pinhões quanto quiser. Lá também tem pinhões? Dizem que nas Serras este ano tem pouco pinhão porquê a geada no tarde, a geada já bem na primavera prejudicou a florada.

Você se interessou muito por tudo sobre as Serras e quer saber como que é por lá. E sobre Urubicy [S 27.59’41,5 “- W 049.38’038”] eu já contei em outra carta. Lá as terras são planas como uma mesa, mas de ambos os lados tem morros bastante altos. O lugar é bastante lindo. As várzeas dos rios estão todas derrubadas, mas por toda parte existem imensas matas fechadas de pinheiros. Campos de pastagens naturais lá não existem. Se derrubar o mato então nasce grama parecida com os dos campos. Os Campos de pastagens naturais estão a 4 horas de viagem.[A pé ou no lombo de mulas]

Dos contrafortes [“Seras kante” –A parte visível da a grande distância mesmo do Rio Novo e outros lugares] da Serras, daqueles que avistamos daqui é caminhada de um dia inteiro até chegar em Urubicy. Explicando melhor logo quando a gente chega no alto dali até o Rio Pelotas são 2 ½ horas de caminhada e lá é considerado o meio do caminho do Rio Novo até Urubicy. [O Arthurs, meu pai contava que devido a viagem ser de 2 dias, eles precisavam pernoitar nas Serras. Como na Serra na beira da trilha não havia fazendas ou qualquer abrigo, eles antes do anoitecer, paravam enquanto havia ainda luz do dia e cada um cortava uma montanha de galhos de vassoura da serra ou vassoura lageana para si e deixava uma condição que pudesse enfiar-se dentro para proteger-se do vento gelado da noite. É claro que para tanto cada um levava o seu facão na cintura. Naturalmente cada um deles levavam também o seu palo ou capa de montaria para se enrolar. O caminho mais usado naquela época era a chamada Serra do Imaruí que passava pela Brusque do Sul- Morro da Palha- Rio Minador- Vaca Moura- Três Barras- não sei se exatamente todas essas localidades e nem se nessa ordem para chegar ao sopé da Serra que para subir levava 2 horas batidas. Eles atravessavam o Rio Pelotas. A chegada em Urubicí era pelo alto rio Urubicí onde hoje o lugar é chamado de “Baiano”. Muito depois no meu tempo, só usávamos para ir Urubicí o caminho chamado Serra do Grão Pará , também com outros nomes como Serra da Forcadinha ou Serra do Morro do Engenheiro, cujo roteiro ficava oeste da atual Serra do Corvo Branco. Mas esta vamos contar em outra ocasião.]

Você quer saber o que faz o Peteris [Peteris Bruvers. Falta confirmar] e o Karlis [Karlis Karkle] e os outros. O Peteris não tem terra própria e ele trabalha em terra arrendada porquê o governo não vende terras para agricultura onde pretende fazer a cidade, mas somente arrenda. Ele está trabalhando em dois lotes, se bem que o governo só arrenda um, mas devido a curva do rio que chegava perto da rua e por isso ele conseguiu os dois. O valor que eles pagam é 2.500 por ano e por cada lote. O Karlis também morava em casa e lote arrendado, mas como ele não fez a vontade do proprietário ele vai ter que sair e ele vai para o lado do Canoas, também em terras arrendadas. Veja você como é a vida de arrendatário.

Onde o Bessa [ Manoel Bessa ] mora eu não sei se é de propriedade dele ou se é arrendada. Ele mora à distância de uma hora de viagem de Urubicy seguindo o rio abaixo. [Rio Canoas] Ele tem uma lavoura muito bonita, a casa dele é de madeira, mas é de dois andares. A esposa dele é costureira. [Schneiderene – Modista] Ele é agente do Ministério da Agricultura, com ele é possível conseguir as mais variadas sementes. Também com ele podem ser encomendadas máquinas e ferramentas e mudas de frutíferas. Ele tem uma trilhadeira muito bonita movida à força manual. O que ele ainda pensa da religião eu não sei porquê naquele tempo que nós tivemos lá ele estava em Desterro. [Ele era conhecido do pessoal da Igreja Batista leta de Rio Novo, pois tinha sido membro tanto ele como a esposa dele a Charlota. Era morador da cidade de Tubarão e muito bem relacionado com os letos. Em uma sessão regular da Igreja em Rio Novo em 24/11/1912 ele chegou a fazer uma comunicação que tinha entrado em contacto com o Seminário Batista do Sul do Brasil no Rio de Janeiro onde faria o treinamento para ser considerado pastor e a Igreja aprovou por unanimidade.] sei porquê naquele tempo que nós tivemos lá ele estava. Era esperado para chegar em casa por aqueles dias, mas não chegou. Para ele ir até Desterro, ele leva 4 dias de viagem.

[Sobre Manoel Bessa ainda persiste uma dúvida: No excelente livro “Urubici e Suas Belezas Naturais” é mencionado como nascido em 08 de janeiro de 1898 como em 1911 ele já casado com Carlota Costa Bessa (13 anos) então se percebe uma não conformidade e não só esta. Em 1912 ele pede Carta de Transferência e passa para a nova Igreja Batista de Pedras Grandes continuando morar em Tubarão. Ele era conhecido e admirado pelo meu pai e outros da Comunidade tanto é que meu pai na primeira viagem a Urubici tentou contacta-lo].

Não muito longe de Urubicy moram ainda outros compatriotas letos. Da família Kusemitsch o Martschus e o Saschu e ainda a família de um tal de Guba. Nenhum destes senhores eu não tive a chance de conhecê-los e nem sei direito para que lado eles moram. O Fritz Feldberg mora bem perto da atafona [Moinho para moer trigo e milho] do Gustis.[Gustavo Gricht] Quando o Gustis vem para o Rio Novo quem fica de moleiro e serrador, é o Fritz. O Gustis esteve na Páscoa em Rio Novo e depois voltou para cima. Na realidade ele mudou para cima já no começo do ano. Na Festa do Verão [Pentecostes] ele vai descer novamente para o Rio Novo com uma tropa de 10 mulas para trazer de lá ferragens e outras coisas. Ele vai pagar de aluguel 15$000 por mula para esta viagem. A terra dele aqui em Rio Novo ele vendeu para um italiano por 7 mil incluindo um arado e uma vaca nova. As demais ferramentas e ferragens ele vendeu em Orleans para o Hammerschmitd por 2:000$.

O Gustis elogia demais Urubicy e a região. Diz que é tão boa que melhor não se pode querer. As lavouras crescem maravilhosas e trabalhando, pode-se ganhar muito. Diz que pode ganhar até 10$ por dia com a moagem. Depois de ter tomado muito rápido a sopa quente, a solução é elogiar.
Desta vez acho que chega e não tem mais nada importante para escrever. Nenhuma outra viagem foi feita por isso não tenho mais nada para escrever. Agora aqui está chovendo bastante, mas não muito forte. Na noite do Domingo passado houve uma tempestade com uma ventania que passou derrubando o mundo inteiro. Aqui perto de nossa fábrica [Engenho de farinha de mandioca] tinha um tronco seco de uma grande canela. O vento derrubou esta árvore com raízes e tudo e caiu em cima da cerca de arame e arrebentou os 4 fios.

Para o feijão a chuva também é demais, em muitos lugares as vagens estão apodrecendo e os grãos pistolando. Na outra casa [no Rio Novo] o novo quintal já faz tempo que está pronto e está quase todo ocupado com o feijão que nos plantamos. Foi 6 ½ litros de feijão preto, 3 ½ de feijão manteiga, 1 ½ quarta de batata inglesa e ainda sobrou uma grande parte para plantar repolhos. No mês de janeiro eu encomendei sementes de repolho e outras de Minas Gerais e faz tempo que já chegaram e algumas já foram semeadas e então vamos ver o que vai dar. Os rabanetes já estão crescidos e no domingo passado nos já fizemos uma salada e estão deliciosos.

Esta carta eu comecei na semana passada e só terminei nesta. Não pode ser antes devido ao muito trabalho. Durante o dia nos cortávamos o arroz e noite nós batíamos e ainda bem que está tudo terminado. Rendeu 12 sacos. Agora nós os estamos peneirando e hoje nós ventilamos 5 ½ sacos. Agora você deve vir para casa comer arroz. Se bem que você não veio ajudar a cortar e bater pelo menos venha para comer.

Bem chega, já foi suficiente escrito. Se você escrevesse cartas longas como eu tenho pedido, então valeria a pena-me procurar e escrever mais alguma coisa. Mas você só escreve meia página e manda para cá. E ainda manuscrita.

Escreva uma carta bem longa com pelo menos 2-3 páginas. Descreva tudo minuciosamente.

Com lembranças Artur

Rodeio do Assúcar 6 de maio [Data do termino da carta]

[Escrito na lateral].
Espero que com esta carta você esteja realmente satisfeito.

…levamos 10 sacos de farinha de mandioca e toucinho de dois porcos gordos. | De Artur Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Assucar 11-1-23

Querido Irmão!

Eu depois de muito tempo quero escrever-te, pois aqui nós não sabemos como estás passando, pois faz mais de 4 meses que nenhuma notícia tua temos conseguido, porquê o Agente dos Correios aqui de Orleans não quer entregar. E pelo que a nós toca, ele está uma fera que está quase explodindo, ele mente muito. Ele diz que as nossas cartas foram levadas por outras pessoas e quando perguntamos a estas pessoas elas dizem que ele não entregou nada e para outras pessoas ele diz que entregou toda correspondência para nós mesmos e acusações de todas as partes e por causa desta encrenca nós há tanto tempo não sabemos como tu e os outros estão passando.

Nós estamos passando razoavelmente bem. Temos aqui e ali trabalhado muito e já temos duas coivaras derrubadas onde será possível plantar mais de ½ saco de semente, [Semente de milho] já aramos uma grande área onde poderemos plantar umas 15 mil mudas [Manivas] de mandioca e nesta roça tivemos que trabalhar muito, primeiro tivemos que roçar a voadeira, [Voadeira = A primeira vegetação que cresce no inverno nas roças abandonadas de outras colheitas ] queimar esta vegetação depois de seca, passar ou arrastar o tronco para alisar o terreno e tirar os tocos de árvores a picareta e então arar e ainda depois passar a grade alisadora.

Na semana passada fomos de carro de bois para Orleans, levamos 10 sacos de farinha de mandioca e toucinho de 2 porcos gordos. Pela farinha eles pagaram 10$000 o saco. E pela arroba de toucinho eles pagaram 16$000 a arroba. Neste dia os nossos negócios renderam mais de 200$000 e ainda temos muita farinha para trazer para a cidade e vender, pois nós fizemos mais de 52 sacas. O polvilho este sim, ainda não vendemos porquê não conseguimos secar. Estariam prontas a muito se não fosse a instabilidade do tempo. Agora chove todo dia que quase não permite o trabalho na roça.

Eu teria muito o que escrever, mas este ano você não pode deixar de vir para casa nas férias e quando isto acontecer você vai ter uma boa oportunidade de trabalhar bastante com a enxada capinando as ervas daninhas, porquê nestes tempos molhados o que não falta é mato para capinar, pois elas crescem mesmo não querendo ou não podendo. Roças para capinar nós temos bastante e camaradas [Diaristas – só empregamos quando estamos em grandes apuros] e o tempo está bom.
O que você tem feito neste tempo que a gente não ficou sabendo nada de ti? Como vai por lá a Escola?
O João Klava tem pago [Atpelnijis = Pago com trabalho ] o feijão e o arroz que ele come lá? E o que ele comeu nas férias passadas quando ele ficou lá vadiando? Se caso ele não tenha pago seria bom não dar mais feijão e arroz fiado para ele comer numa boa e quanto quiser, pois o feijão está muito caro valendo 20$000 a saca e o arroz também está muito caro. A alimentação que já foi comida é difícil ser paga.
Bem desta vez chega de escrever, se você quer saber mais de mim ou de nós aqui, então venha para casa. Com amáveis lembranças de todos. Artur Purim

Escrito na lateral

Amanhã eu irei para a cidade cortar o cabelo.

E como eles esperaram você lá no Rio de Janeiro, | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923 –

Rodeio do Assucar 20 de junho de 1923

 

Querido Reini: Saudações!

 

Então agora tenho que começar a responder a tua carta escrita no dia 25 de maio, qual há mais de uma semana já está comigo. Muito obrigada. A tua carta escrita no dia 30 de abril não chegou e é bem provável que tenha se perdido por ai.. O que escrever eu tenho muita coisa, o problema é com que devo começar e onde terminar.

 

Na carta passada eu te convidei para vir ajudar fazer farinha de mandioca, então a chuva foi pouca e também tu não vieste então para as tuas festas também não iremos. Entre as guloseimas que você oferece estão o feijão, arroz e a farinha, quais nós aqui temos e bastante para comer a vontade e é provável que os nossos sejam melhores e ainda com a vantagem que não é necessário pagar. Aqui a farinha e o feijão estão com os preços muito altos e estes nós temos o suficiente. A farinha vale 13$000 a 14$000, a saca e o feijão está a 16$000. Feijão nós não temos para vender, mas somente para o gasto. Esta safra nós plantamos pouco porque elas dão muito trabalho e a gente não consegue fazer tudo. Este ano foi muito ruim para o feijão, pois no dia 13 de maio começou soprar um vento muito frio e nas manhãs dos dias 14 e 15 de maio amanheceram brancos com fortes geadas e quem tivesse o feijão ainda verde ficou inteiramente destruído. Para onde se olhasse estava tudo branco. Nos outros anos nunca as geadas aconteceram tão cedo. Este ano a primeira foi no dia 9 de maio, mas esta foi pequena.

Os profetas de plantão fizeram as suas previsões que indicavam um inverno muito rigoroso neste ano, mas parece que eles andaram falhando. Pois depois deste dia não me lembro um só dia que não estivesse chovendo ou pelo menos nublado. Nenhum dia depois das geadas amanheceu com tempo bom e o que tem chovido faz muito tempo que não tinha visto tempo igual. Desde a semana passada nem por uma hora apareceu o sol. Logo depois da Festa do Verão [Pentecostes] naquela semana houve as grandes inundações. Choveu duas noites e dois dias sem parar e os rios tornaram-se assustadores. Na ponte da Estrada de Ferro em Orleans faltou ½ metro d’água para chegar no nível dos trilhos da Estrada de Ferro. Na casa do Grüntall lá perto da Estação Ferroviária [Este bairro chamava-se Campos Elíseos] a água chegou ao nível das janelas e a ponte do final do Rio Novo [Na foz do Rio Novo] a água levou embora. Não era possível chegar em Orleans. Também a viagem de trem para Laguna ficou prejudicada, pois a linha férrea ficou interrompida em dois ou três lugares. A locomotiva que estava aqui em cima levava os passageiros e as cargas até depois da Estação de Pedras Grandes e daí um trecho a pé, em seguida tomava-se outro trem, outro trecho e assim por diante e na volta vice versa. Muitos prejuízos também para os tafoneiros que tiveram os seus açudes e represas destruídos pela força das águas. Até aqui no nosso pequeno riozinho ficou tão cheio que a noite a gente escutava o urro lá de casa. Por pouco a nossa represa também não foi embora. Cercas inteiras foram arrastadas, que nem os palanques ficaram. Nós além de mantermos a eclusa totalmente aberta e ainda tendo retirado mais algumas tábuas para facilitar a fúria da correnteza parecia que ela ia embora. Na noite do dia 24 a chuva mais parecia um dilúvio  e o ronco da água no rio dava até medo. O Arthurs [Purim]  enfrentando a noite escura e tenebrosa, foi até o açude que estava transbordando com uma lâmina de mais de 1 metro d água. Ele se aproximou, o mais que pode e conseguiu despregar mais algumas tábuas aliviando assim a pressão. Mais tarde no meio da noite a chuva amainou salvando assim o nosso pequeno açude. Na outra semana  repetiram-se os mesmos temporais e senão maiores foram pelo menos iguais. Mas assim mesmo chove sem parar. Hoje amanheceu um sol forte e quente  e agora chove novamente e imagine só a tremenda lamaceira que está tudo por aqui que chega nos deixar desanimados [deprimidos] porque o feijão e o milho estão apodrecendo nas roças e este ano vai dar menos. O preço já está a 10$000 a saca e no ano passado quando nós precisávamos comprar um pouco de milho em espigas custava 4$000 e logo que os brasileiros souberam que nós estávamos comprando vieram oferecer a 3$000, mas este ano ninguém tem nada para oferecer. A farinha de mandioca no ano passado estava a 5$000 a 6$000 a saca, mas chegando para o fim do ano já passou para 10$000 e agora estão já estão pagando mais de 15$000. Para o lado de Mãe Luzia também todas colheitas foram perdidas devido a estas grandes inundações. Nós este ano já fizemos 24 sacas de farinha de mandioca e temos muitas roças de mandioca mais velhas de 3 anos para arrancar. Até semana passada estávamos com o engenho em funcionamento, mas tivemos que parar porque sem sol não conseguimos secar o polvilho e os cochos estão todos cheios de polvilho molhado aguardando o sol para secar. Estas mandiocas mais velhas dão muito polvilho. Agora estamos emprestando o Engenho para os vizinhos brasileiros. Todos que tem alguma mandioca querem é fazer farinha. Os Klavim fizeram a farinha deles na época das grandes inundações e rendeu 35 sacas. Até o Jurka veio de Nova Odessa para ajudar e foi aquela festa. Já foi embora na semana passada e com ele o Harrys do Augusto Felberg, pois o Frantzis do Limor [Lövenstein] tinha mandado dinheiro para a passagem e ele precisa gente para trabalhar para ele em S.P.

Na semana passada foi construída a nova ponte na foz do Rio Novo.[Esta ponte fica na barra do Rio Novo um pouco antes deste rio entrar no Rio Tubarão, bem próximo ao antigo “paredão” que nada tem com o Paredão onde estão as esculturas do Zéca Diabo.] Os colonos queriam que o governo pagasse, mas qual nada.  Tiveram os próprios colonos com ajuda dos donos das Vendas de Orleans entrar com a mão de obra, cimento, ferro, madeiras, pregos etc. e fazer tudo sem ajuda nenhuma do governo. Desta vez fizeram com as ferragens chumbadas tanto no concreto como nas madeiras e tem certeza que inundação nenhuma vai conseguir levar esta nova ponte.

Nós te convidamos para vir para a primeira festa das músicas, mas nada, parece que tens esquecido ou desaprendido tocar o violino. Foram apresentadas músicas de todas variedades: foram tocados instrumentos de sopro, harmoniun, violas e violinos, guitarras e até cítaras. Todos coros cantaram; primeiro foi o coro da Igreja, depois o coro dos Jovens, o coro dos Homens, e o coro das vozes Femininas. Depois o quarteto de vozes masculinas com o Osvald, [Auras] Emils, [Anderman] Aleksis, [Klavin] e o Jahnis [Seeberg]. Marcou muito, agradou mesmo foi um solo pelo Aleksis acompanhado pelo Emils no harmonium. O Emils também se sobressai no violino e toca muito diferentemente dos rapazes daqui. O tempo, aquele dia, estava maravilhoso e veio muita gente. Havia visitantes de todas partes inclusive de Mãe Luzia. Quem dirigiu foi o Emils e o estilo foi bem segundo o capricho da senhora Anderman, isto é do modo que ela aprecia. Todos gostaram tanto da festa que embora sendo a primeira, espera-se que não seja a única.

 

Pois é, já tenho escrito bastante, entretanto não seria necessário, pois seria suficiente colocar as nove páginas que chegaram do “deserto”, [Palma, Varpa, Tupã SP] do tio Jehkabs, da prima Alma e a terceira carta da prima Lilija. Demora bem um meio dia para ler e assimilar todas as informações trazidas nestas cartas. Eles tem recebido todas as nossas cartas e logo se apressaram-se em responder. A Lilija é muito corajosa, pois conta tudo como realmente é e assim mostrando toda a verdade. Gente como ela é difícil encontrar por aqui.

 E como eles esperaram você lá no Rio de Janeiro, pois sabiam que ainda estavas lá. Ficaram atentas para ver se alguma pessoa tinha vindo que estaria perguntando pelos Purens, mas ninguém. Ficaram muito decepcionados e é com os corações muito tristes e pesados, o navio saiu da barra do Rio de Janeiro em direção de São Paulo noutro dia pela manhã. Quando chegaram em São Paulo souberam que nos morávamos longe ao sul em Rio Novo. Mas onde era esse Rio Novo elas não sabiam. As meninas quando saíram da Europa tinham como único interesse era vir para junto dos parentes e do “deserto” nada queriam saber. Mas assim mesmo ficaram maravilhadas com os magníficos parques cheios de muitas palmeiras e outras coisas lindas na cidade de São Paulo. Mas depois da longa viagem a chegada em Sapezal, [Estação da Alta Sorocabana, perto de Paraguassu Paulista] a mata espessa, a abandonada estação da estrada de ferro, os sujos casebres e tão desagradáveis a vista habitados pelos brasileiros relaxados e em seguida o longo e tortuoso e péssimo caminho para a Colônia. Foi demais…  Vieram as lágrimas em profusão… Quando chegaram derrubaram a mata da área comum e três semanas puseram fogo na coivara e agora o milho já está madurando na roça.. Também plantaram repolhos, nabos, batatas, mamões e bananas. A Lilija pergunta para a Lucija para que ela escreveu se aqui no Rio Novo tem bananas e mamões. E se tem rosas e georginas [ dálias etc]. Parece que eles já tiveram a chance de provar bananas alguma vez. Agora eles estão roçando as matas e os agrimensores estão a fazer o sorteio para cada um saber qual vai ser a sua gleba definitiva.. A Alma também comenta que o ambiente é bastante opressivo em uma época que na Letônia é primavera e a natureza lá explode em flores e a Lakstigala [Lakstigala – Pequeno pássaro típico da Letônia – Espécie de rouxinol] canta aquelas melodias maravilhosos enchendo o ar de alegria, aqui ela com a foice na mão, abafada dentro da mata fica a ouvir o marulhar desafinado dos milhares de papagaios. Mesmo para o Jehkabs, a história está mudando e se pudesse cairia fora, mas ai esbarra no problema da falta de dinheiro. Ele pergunta o tamanho da nossa colônia que era dos Leimann. Porque eles ao todo são 9 pessoas. O Tio, a Tia, a Alma, a Lilija, a Melania e o Teovils. A pequena Valentine com os seus cinco anos de idade faleceu antes da Páscoa. Ainda tem o sogro dele o Peteris Sagers e [Conforme informação da D. Melania Purens Minka, as malas do Sr. Pedro Sagers e de sua filha Vilma foram roubadas durante a viagem para o Brasil. Continham muitas roupas boas, jóias e muitos itens de estimação. Nenhuma informação foi conseguida sobre o seu paradeiro] com sua irmã [A D. Melania que foi testemunha ocular, pois veio no mesmo navio, também discorda da informação de teria vindo uma irmã do Sr. Pedro Sagers. Eram 9 pessoas com a menina que veio a falecer] e com a sua filha Vilma que tem 19 anos. Agora tu sabes quantos são os nossos parentes naquele “deserto”.

 

O sogro dele o Sr. Sagers tinha casas e propriedades na Letônia e tendo vendido deve ter usado o dinheiro para as despesas da viagem da Letônia para Hamburgo onde permaneceram 5 dias e de lá para Paris e daí para Cheburgo onde tomaram o navio. A Lilija fez a viagem razoavelmente boa, mas a Alma passou os 19 dias, deitada.. Bem acho que por hoje chega. Não poderei mesmo descrever tudo. Nenhum deles tem escrito para você? Opa eu ia me esquecendo!

 

Gostaria que descobrisse quem são os letos que moram a mais tempo aqui no Brasil que tem falado com a Lilija que aqui nós somos muito ricos mesmo e todos tem feito boas escolas. Não sabia que éramos ricos e nem que tivéssemos estudado em boas escolas. Logo que eles chegaram ao Brasil e ainda não tinham recebido nenhuma carta nossa, chegaram a conclusão que nós nada queríamos  com os parentes pobres. Descubra quem soltou este boato..

 

Do Karlos [Leiman] recebi uma carta agora mesmo. Ele não vira para cá agora. Diz que lá o pessoal vive muito doente e chove muito. Ele vai viajar para Rio Branco.

 

Bem eu sei que terás dificuldade de ler esta tão longa carta, mas não fique procurando erros, pois deverá achar, pois eu não tenho muito tempo para escrever. Com saudações espero uma carta tão longa quanto esta. Olga.

Escrito na lateral

A sim! Como tudo passa tão rápido. Quando comecei a imprimir esta carta também, comecei a tecer um par de meias de lã. Lembre-se que aqui não temos aquelas imensas máquinas a vapor que são usadas nas grandes cidades. Aqui tudo tem que ser feito na mão, mas para a tua sorte, ficaram prontas junto e então que sigam a viagem juntas. Estamos com temor que você congele como um Tarkans, [?]  Bem agora lá haverá grandes festas, mas daqui a algumas semanas você terá férias, então escreva bem devagar uma longa carta que eu estou aqui aguardando.

 

…o Troykis anda pelo telhado e mia. | De Lúcia Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 5-9-1922

Querido Reini!!

Saudações. – Tua carta escrita em 3-8-22 recebi faz bastante tempo, mas porquê ninguém ia para a cidade e nenhuma coisa mais importante aconteceu, assim eu fui deixando.

Nós estamos mais ou menos bem. Hoje à noite eu estou sozinha em casa. Os demais foram para a outra fazenda para arar a terra para plantar mandioca. Agora é sempre assim, onde se faz mais necessário nós corremos para lá e para cá.

Você não quer vir para casa e ser o gerente de uma destas fazendas? Hoje à noite a casa está muito quieta se não fosse a Ledi que às vezes late e o Kramzis cochila enquanto o Troykis anda pelo telhado e mia.

O tempo hoje está bom. Hoje queimamos a palhada onde foi cortada a cana.

Semana passada terminamos a festa do açúcar, renderam 9 tachos e daí 5 formas cheias. Você ficou com preguiça de vir nos ajudar, pois faz bastante tempo que o convidamos para ajudar a cortar cana e assim poderias tomar garapa com a concha e comer açúcar a colheradas.

E se demorasse aqui mais um pouco poderias acompanhar a festa da mandioca que ainda no teu tempo você não conheceu. Poderias ajudar a raspar as raízes da mandioca e secar a farinha no tacho do forno assim poderias comer farinha com melado que é muito delicioso. Este ano não vamos fazer muita farinha, pois ela está com o preço muito baixo.

Vocês somente comem arroz. Deviam comer feijão preto com farinha e assim aumentaria o consumo e também o preço. Planeje para a próxima temporada vir ajudar arrancar a mandioca e fazer a farinha lá no engenho do Leiman que agora é nosso.

Você poderá me ensinar os grandes conhecimentos e eu te ensinarei como se arranca um pé de mandioca. Então você vai ficar com a força e eu com a inteligência.

Quando nós formos lá não queremos que você fique com outras pessoas e nos ignore e também não queremos comer arroz com feijão preto que qualquer “mujike” come e sim vamos querer assados e pratos especiais e ainda na sobremesa àquelas deliciosas frutas.

Desta vez chega terei que ir a cidade.

Como estas passando? Você vai ter que responder com uma carta igual ou mais comprida. Mui amáveis lembranças de todos. Luzija.