Se você sabia há tanto tempo por que não escreveu primeiro para nós? |De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rio Novo 8 de abril de 1923

Querido irmãozinho… Saudações!!

Então esta noite estou escrevendo uma carta para você, porque para a Igreja não preciso ir.

Nós estamos passando bem. Todos com saúde vivendo saudáveis.

Agora nós nos encontramos somente aos domingos; eu com a Mamma moramos aqui e os demais moram lá na casa dos Leimann, pois lá tem muito mais serviço.

Agora eles estão limpando as pastagens e logo vamos ter que fazer farinha de mandioca. Agora que você já sabe podes vir nos ajudar. Não vamos dar nenhum serviço pesado, mas terás que pegar um pequeno facão e pegar as raízes já limpas que saíram do lavador e cortar as pontas duras e tirar as cascas dos buraquinhos onde a máquina não descascou. Você acha este um trabalho duro?

Obrigado pelas lembranças trazidas por aquele senhor que há tempos quando era criança tinha morado com os Andermann. O nome dele eu esqueci.[O nome dele era Celino e vai aparecer mais vezes na história dos Anderman] Ele contou que você está muito bem, que estás bastante gordo, que tens uma grande biblioteca enfim ele contou tudo o que ele sabia sobre você e ainda falando em leto tanto que sabia.

Você recebeu a fotografia do grupo da Mocidade? Nós pedimos para ele levar e entregar para você como lembrança da grande festa. Será que você vai-nos achar? Procure bem que nós estamos lá.

Nós queríamos ter mandado antes, mas estávamos aguardando o “Segundo Aviso”, mas este chegou quando a Festa já tinha passado e assim a nossa viagem não saiu e também não sabíamos que naquele dia seria também a tua ordenação. Se você sabia, há tanto tempo por que não escreveu primeiro para nós? Mas agora tudo é passado e nada mais pôde ser mudado. Desejo para você todo o sucesso no seu trabalho e que o Senhor te ajude.

Aproveito a oportunidade para convidar-te para a Festa do Coro da Mocidade que vai ser nas oitavas do dia de Pentecostes (no segundo dia de Pentecostes) que este ano vai cair no dia 21 de maio. Este Festival será o primeiro no Rio Novo. Você poderá vir, pois estou convidando com bastante antecedência. Apronte um hino ou uma música que possa ser apresentada com o seu violino. Ou então prepare um discurso para nós apresentar. O que trouxeres estará tudo bem. Outra você poderia trazer aqueles jovens de lá que dizem ser grandes cantores.

A entrada será grátis e o lanche este sim, será cobrado. “Venham todos para a Festa”. Nós aqui estamos convidando com um mês de antecedência para que você possa vir, pois não somos tão fechados [Está escrito literalmente “aishlects” quer dizer fechado à chave] como você, que manda um convite para uma festa importante, uma semana antes.
Bem desta vez chega. A tua carta escrita em 24-3-23 recebemos no dia 6 de abril Obrigado. Os outros escreventes desta vez não vão escrever para você porque estão escrevendo para os outros parentes.

Aqueles estudantes de Rio Branco estão este ano na Escola?

Este ano você mesmo lava a sua própria roupa ou não?

O R. Inkis vai voltar para o Brasil ou não? Aqui falam que ele vai ficar por lá mesmo.

Este ano não vais mandar os prospectos?

Se você consegue os acordoamentos de violino, favor, me mandar que os meus estão no fim.

Lembranças de todos de casa.

Fico aguardando longa carta de resposta. Luzija.
Escrito nas laterais:
Não fique olhando para os erros, pois se eu tivesse estudado tanto quanto você e tanto tempo na escola tenho certeza que escreveria melhor.
A lápis:
A tua carta escrita no dia 2 de abril recebemos no dia 13 de abril. Muito obrigado. Aqueles jornais enviados no dia 8 de novembro faz muito tempo que os recebemos. Mande mais outros.

…vigiar aquele boi que gosta de pular as cercas para ir comer milho nas roças. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Açúcar 21 de março de 1923

Querido Reini:

Primeiro envio votos de muito bons dias e amáveis saudações. Eu igual a você sempre querendo matar dois coelhos com uma cajadada fiquei esperando mais alguma carta para responder duas ao mesmo tempo e como não veio mais nenhuma não vale a pena esperar mais. A tua carta escrita no dia 7 de março, com aquele convite recebi ontem durante a Festa de Aniversário da nossa Igreja. Percebemos que você foi esperto mandando aquele convite para aquela sua festa lá e tão bem calculado que quando a carta chegou a festa já tinha passado longe, para a gente não poder ir.

Você está fazendo como alguns Rio Novenses que fazem festas de casamentos e endereçam e subscrevem os convites, mas não os põem no Correio já. Ai colocam o convite no correio um dia antes. As pessoas recebem o convite em cima da hora e é claro não podem comparecer. Então eles dizem: oh nós os convidamos para o casamento, mas eles são tão orgulhosos que não quiseram vir.

Você não tinha algum aeroplano que nós pudéssemos ir voando, que grande coisa seria. Poucas horas de vôo e nós já estaríamos lá. E noutro dia de manhã estaríamos de volta em casa. Não podemos deixar a casa vazia, sem ninguém durante a noite.

Durante o dia nós temos que vigiar aquele boi que gosta de pular as cercas para ir comer milho nas roças. Também temos que tirar leite das vacas etc. Se nós tivéssemos ido levaríamos uma balde cheia de leite e muitos quilos de manteiga. Assim sim, seria uma grande festa para você. Pena que tudo já passou. Como realmente foram as suas festas?
Naquele dia perto da noite estava muito nublado, brusco e chovia um pouco. Se tivesse sido aqui, aquela festa iria pegar muita lama até a altura dos joelhos.

Ontem foi aqui a Festa de Aniversário da Igreja. O tempo estava maravilhoso. Quem dirigiu foi o Emils. [Emils Anderman]
Tinha muita gente. Cantou o Coro da Igreja, o Coro da Mocidade e o Duplo Quarteto de Homens cantou 3 hinos. Os oradores foram o K.Seebergs, o Wilis Slegmann, o Juris Frischembruder e o G. Auras. Foi realmente uma festa maravilhosa e transcorreu em perfeita paz.

As grandes chuvas amainaram e o nosso riozinho [O rio do Rodeio do Assucar]
está realmente com pouca água. Nós deveríamos estar fazendo farinha de mandioca, mas a água está muito escassa para mover o engenho e tempos atrás quando não precisávamos havia água sobrando.

Dos nossos parentes de São Paulo, nada temos recebido. O Pappa faz tempo que escreveu, mas não temos certeza sem não ficou retida na censura de lá.

O Matiss Frischembruder escreveu de lá contando mil maravilhas. É claro que ele tem que dizer que está tudo muito bem organizado, pois ele está envolvido na mesma sopa.

Segundo ele, do pessoal de Nova Odessa, há muita gente que apóia o Inkis. O Malvess é um deles, que por ser genro do Inkis cuida da carteira do dinheiro comunitário, ainda que pecaminoso. O outro genro o Willis Lustinhs é o responsável pela cozinha comunitária, e assim todos pedaços de parentes tem o seu emprego garantido e eles nunca precisarão jejuar 3 vezes por semana, porque já são perfeitos.

Bem já se vão 3 semanas que eu te mandei uma carta na qual escrevo que o Andreys escreveu lá da Latvia e nós vamos ter que responder. Teremos que dizer que nada sabemos do tio Jekabs e a família que foi para o “deserto “. E se eles não escreverem para ele como estamos passando, nós também nada poderemos fazer.

Você bem que poderia escrever uma carta para o primo Joãosinho. O Andreys perdeu os demais, pois morreram lá de fome na sua fuga da guerra e só ficou o Joãosinho, que não pode continuar os estudos porque não tem dinheiro.

Agora o Joãozinho trabalha numa repartição do Governo da localidade como escrevente. Ele já deve estar bem crescido, pois é bem mais velho que o nosso Arthur.

No Domingo passado recebi uma carta dos Fritz lá da Argentina. Agora todos estão bem, é que a Christine, este doente por dois meses e ele também por um mês, mas agora estão todos bem.

O velho Leimann está cada vez mais gordo e saudável e somente o que atormenta o coitado é a sensação de inutilidade sem ter o que fazer o tempo não passa e quase não tem distração nenhuma e nem outros letos para conversar.

Bem agora chega senão você não vai ter tempo para lê-la.

Onde agora anda o Janka Klava? Ou ele saiu da escola com aquele “passe”? Alguns outros tem escrito que ele foi para a América num navio como servente.

Este ano há muitos estudantes? O Inkis e o Schanis não voltaram atrás? Aqueles letos de Rio Branco continuam lá? Chegaram outros novos de lá?

Não espere matar os dois coelhos com um tiro só. Responda carta por carta que eu estou aguardando. Lembranças dos demais. Olga.

…com as fronhas lindamente bordadas ….| De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 20 de Abril de 1922

Querido Reynold!

Então eu vou ter que escrever novamente, pois já faz bastante tempo que você não tem escrito nada. Ainda que eu esperei e achava por você estar de férias poderias bem escrever e esta era a sua obrigação.

Eu já mandei as roupas de cama com as fronhas lindamente bordadas e ainda mais tudo que foi feito à mão foi meu trabalho pessoal. É possível que estás acostumado viver com roupas mais elegantes, com mais luxo ainda e quem sabe estas que eu te mandei não sirvam ao seu alto nível…

– Só aqueles 3.50 metros de tecido custaram 5$000 então calcule quanto custou a mão de obra para costurar e bordar. Será que lá ficaria mais barato?? Aquele tecido estampado multicolorido das camisas custou 1$200 o metro e foi gasto aproximadamente 3 metros. Estas camisas lá devem custar pelo menos 8$000 e daí você teve um lucro de pelo menos 3$000…. E agora que já sabes de todas tuas dívidas espero que venhas liquidá-las plenamente.
Sabe, que não é dinheiro que nós estamos pedindo, mas no Natal você terá que vir para casa e trazer alguma coisa muito boa. Ainda não pensei o que eu vou querer, mas tão logo que eu resolver eu te escrevo, pois tempo ainda temos bastante até lá.

No primeiro domingo de abril eu fui aceita na Igreja mediante a profissão de fé, mas o batismo ainda não pôde ser efetuado e não sei quando vai ser. O pessoal do Rio Novo está esperando o Deter e ninguém sabe quando ele virá. Mas, já convidado ele já foi.

O tempo está muito instável, na semana passada foi seca a semana inteira e esta semana chove e faz sol sem qualquer ordem. Hoje estivemos cortando arroz, pois os mesmos estão maduros. Este ano o arroz nem do cedo nem do tarde não se desenvolveu bem devido que no verão houve excesso de chuvas. Também muitas espigas de milho estão podres.

Durante a Páscoa o tempo foi razoavelmente bom e durante a primeira Festa [na Sexta feira Maior] a Senhora Leimann veio nos fazer uma visita e é a primeira vez que ela sai, depois do período que esteve doente. A última vez que ela tinha saído de casa foi no enterro da senhora Bankowitz em 12 de outubro passado e agora ela está tão recuperada que já anda a cavalo.

Bem agora eu acho que chega de imprimir, pois você não tem mesmo tempo de ler.
Na semana passada a Olga mandou uma carta qual eu acho que já chegou lá. Na Sexta feira Maior ela recebeu a tua carta escrita no dia 31 de março.

Escreva bastante, pois o Wictors não conta nada.

Aqueles estudantes de Rio Branco também falam o brasileiro? Em que classe ou período eles estão? E como eles se chamam? O Looks também foi?

Este ano ainda você mesmo lava a sua roupa?

Você este ano não está aprendendo violino? No nosso conjunto de violinos daqui do Rio Novo o Rubis [Roberto Klavin] deixou de tocar porque se acha muito velho demais.

Muitas amáveis lembranças dos outros de casa e minhas também.

Lúcia
[Escrito abaixo a lápis]
Hoje recebi a tua carta escrita no dia 14 de abril. Muito obrigada. A resposta escrevo em outra ocasião.