…Durante o dia tenho que correr junto com os demais para as roças e….De Lucija Purim para Reynaldo Purim 1926

Rodeio do Assucar 18-11-26

Querido maninho! Saudações.

Enfim vou-te que escrever, pois o Arturs terminou de escrever a dele, se bem que eu não tenha nenhuma vontade de escrever ou mesmo pensar, pois durante o dia tenho que correr junto com os demais para as roças e na hora do almoço tenho que cozinhar a comida. Tenho que tirar o leite das vacas e ainda alimentar os porcos que estão no chiqueiro para engorda diante de toda esta luta quando chega à noite vem um sono tão forte que escrever cartas nem pensar. E ainda você foi para tão longe [Nesta época o Reinaldo já estava estudando em Louisville Estado de Kentucky nos Estados Unidos] e muito pouco interesse deve ter por nós aqui em casa e mesmo nem tempo para pensar em nós aqui não tem.

Nós aqui estamos passando suficientemente bem. A perna do Paps está ficando melhor. Durante 3 semanas ele não pode trabalhar, mas agora o furúnculo [Furúnculos ou abscessos eram bastante frequentes para as pessoas que moravam naquela região. Geralmente na maioria das vezes ocorriam nos pés, mas também podiam aparecer em qualquer parte do corpo. Por naquela época não haver nenhum tratamento específico eram tratados com emplastros mais variados. Quando terminava o ciclo rompia-se a pele saindo grande quantidade de pus amarelado culminando com a saída do “carnegão” que devia se o núcleo da infecção. Era vulgarmente chamado de “mijacão” e dizia-se que a infecção era transmitida através da urina de bovinos] rompeu-se e está ficando cada dia melhor e pelo menos agora nas noites ele consegue dormir.

A Festa do aniversário da União da Mocidade ocorreu com tempo muito bom apesar de um tanto frio [Esta Festa era no dia 16 de outubro]. Gente tinha bastante, vieram muitos visitantes de Mãe Luzia e Orleans. A direção do programa foi do Alex [Alexandre Klavin]

. Entre outros houve diversas saudações de outras Uniões e pessoalmente saudou esta o Artur [Arthur Leiman] em nome da congênere qual ele dirigia na Argentina. Ele tinha chegado na véspera em Orleans. A Festa continuou na noite de domingo, pois o programa era realmente muito extenso. Agora estão aprontando as partes para o Programa de Natal. Os pequenos estão decorando as poesias e assim que uma Festa se vai é hora de começar os preparativos para a próxima.

O Arthurs [Arthur Leiman] não vai mais voltar a morar na Argentina e sim vai continuar a morar no Brasil. Ele diz que lá ele não se saiu bem. Aqui ele não sabe onde vai estabelecer-se, mas para lá ele não vai voltar porquê a Associação de lá já autorizou ele voltar e também o salário era somente 150 pesos por mês e com isso era impossível sobreviver, se insistisse em continuar lá teria que morrer de fome. Num lugar onde tudo tem que ser comprado, pão, lenha, água em dinheiro a vista. O pão mais ordinário custa 50 centavos o kilo então eles compravam só deste e comiam e algumas vezes ficaram até deste sem comer por falta de dinheiro e por isso emagreceram tanto e também adoeceu. Agora logo que arranjar algum dinheiro vai terminar de aprender a profissão de dentista, pois ele já tinha praticado junto com o Fritz [Frederico Leiman] e agora só falta um documento emitido por um profissional atestando a capacidade técnica e os conhecimentos para exercer esta atividade.

O Arthurs quanto à oratória está muito mais fluente do que antigamente. Domingo ele falou na Igreja sobre Efésios 4 20 a 25. Deteve-se no versículo 20 e irritou algumas pessoas que já não gostavam dele. A maioria gostou bastante. Agora os Rio-novenses na maioria são como é descrito no versículo 25 que só é correto falar de uma pessoa na sua presença isso é na sua frente e não ficar malhando pelas costas com fazem alguns Slegmans e Matchs. Estes até os parentes como os Karp e os Stroberg eles conseguiram implantar inimizades porque queriam o Stroberg para a Mildinha [Amilda Karp], agora ele os causadores da polêmica também ficaram de mal com o Stroberg. Quando não foi possível, conseguir fazer o Karlites [Karlos Stroberg] namorar quem eles queriam porque manter então qualquer amizade se esta era a meta principal.

Desta vez chega, agora vou aguardar uma longa carta sua. Escreva sobre a sua escola, o que você come e quanto tempo vai ficar lá. A minha escrita está como a sua: pois nunca aprendi bem e o pouco que sabia já esqueci então nós somos iguais.

Muitas e amáveis lembranças da Lucija.
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DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN -3ª PARTE

Dr. Reynaldo Purim
Dados Biográficos
3ª Parte

REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin
3ª Parte
As minhas primeiras lembranças do Tio Reynaldo em casa são de quando ainda era muito pequeno. Talvez uns três ou quatro anos.
A biblioteca dele era bem grande e constituída das maiores e melhores obras em teologia, filosofia, comentários e dicionários bíblicos. Grande quantidade delas foi trazida dos Estados Unidos. Mesmo assim não se cansava em comprar livros e estar em dia com o mais atualizado do pensamento humano.
Gostava de freqüentar as feiras de livros na Praça Sans Peña e na Cinelândia. Sempre me convidava para irmos juntos. Orientava-me que ao comprar um livro devia olhar logo quem era o autor, o que fazia e o que faz na área.
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Era extremamente responsável em seus compromissos. Tudo era anotado em sua agenda. Não faltava às suas aulas. Podia cair a maior chuva, às 7 horas da manhã, lá vinha ele subindo a ladeira do Seminário, debaixo do seu guarda-chuva, pois não queria que alunos ficassem esperando pelo professor.
Tinha também os seus conceitos irremovíveis. Por exemplo: aposentado é só para quando ficar inválido. Assim foi muito difícil ele ser demovido do seu trabalho no Colégio Batista Brasileiro, quando já tinha tempo suficiente para se aposentar. Considerava-se em condições de trabalhar dando aulas de inglês a alunas da 1ª e 2ª séries do então ginásio, podendo estar fazendo outra coisa. – Na igreja foi também assim. Só saiu depois que as diabetes atingiram seu nervo ótico a ponto de não poder ler a Bíblia direito. Mesmo assim, já nos últimos meses de seu pastorado em Bangu pedia ao vice-presidente, que a lesse para ele. Conta esse irmão que numa tarde o encontrou de pé, à luz da janela, tentando ler sua correspondência.
Ele nunca foi de pedir ou exigir coisa alguma de ninguém e especialmente da igreja. Contou-me outro irmão que nos primeiros anos de seu pastorado, por exemplo, aos sábados, quando tinha alguma programação especial, ele não ia de volta para onde morava, bem distante, no sul da cidade. No dia seguinte, domingo pela manhã, lá estava ele já bem arrumado esperando o povo chegar. Então resolveram observar o que ele estaria fazendo. Viram, pela fresta da janela, que ele se deitava no tapete do púlpito e assim passava a noite. Foi, quando os líderes da igreja tomaram providências e colocaram um sofá-cama no escritório para o pastor.

Recordações de suas férias em nossa casa – Rio Novo
Todos os anos, especialmente no começo de janeiro, era o tempo da espera da chegada do “Unkuls” que em leto, nós crianças o chamávamos, que significa Tio. Ele não era de avisar. Assim, todos em casa ficávamos na expectativa. Geralmente achávamos que na primeira sexta-feira de janeiro, à noitinha, ele iria chegar. Naquele tempo os aviões da TABA já desciam na lagoa em frente do mercado de Laguna [eram anfíbios] ou no Aeroporto de Tubarão [sul de Sta. Catarina]. De lá viria de trem até Orleans depois a pé até nossa casa que ficava em Rio Novo, a uns 12 quilômetros de caminhada pela estrada cheia de curvas e sobe e desce. Morávamos na subida conhecida como o “morro dos Purins”, bem nas nascentes do Rio Novo. De lá, nós crianças, ficávamos com os olhos fixos na distante estrada, bem lá em baixo onde havia uma reta além da propriedade da Igreja Batista de Rio Novo, em que, no final, poderia surgir um homem alto que seria o Tio. A decepção, infelizmente, acontecia. Na semana seguinte quando meu pai ia para a cidade, no correio encontrava o telegrama comunicando que este ano não viria. Decepção geral.
Já era alta noite. Lá na roça tudo era sem chaves. As porteiras e portas, naquele tempo, só eram fechadas com tramelas que qualquer um podia abrir a qualquer hora do dia ou da noite. Assim é que lá pelas tantas, quando ninguém imaginava, eis que se ouviu a expressão em leto: “Esmu máias”, por várias vezes. Estava dizendo: “estou em casa”.Todos acordaram e foi aquele rebuliço. A vovó Lisete e o vovô Jahnis (João) também apareceram. As alegrias começaram. Lembro-me que nos dias seguintes ele me chamou de “Poadjis” cuja tradução talvez seja “Pirralho” ou coisa semelhante. Ele muito nos queria bem, tanto é que gostava de nos aconchegar, fazendo-nos “cavalinho, cavalinho” em seus joelhos.
Desta feita, o Tio Reynaldo já estava há alguns anos morando e trabalhando no Rio de Janeiro como pastor em Bangu e professor em várias instituições de ensino, inclusive no Seminário. Pelo que parece, era a primeira vez que ele estava a passar as férias em casa, depois que tinha voltado dos Estados Unidos. Lembro-me de que ele apanhou um Atlas Geográfico antigo para mostrar para a vovó Lisete onde se situava Bangu e como ele tinha que tomar o trem da Central do Brasil para lá chegar, uma vez que morava em Ipanema, zona sul daquela cidade. Eu só ficava observando tudo, sem nada entender.

Continua…</strong

Ainda verei o Brasil | Karlis Salits a Reynaldo Purim

85 Charlotte St.
12ta Junija, 18 [12-06-1918]
Rochester, M. J.

Querido Reinold,

A tua querida carta recebi. Muito obrigado. Como tu sabes as tuas cartas levo em alta conta, mas minha admiração e o meu respeito por sua pessoa se multiplicaram muitas vezes pela sua personalidade e não só por isso — e ainda mais por ter mencionado muitos e queridos nomes de pessoas amigas, aqui e ali em sua carta. As feições desses brotavam em minha mente com agradáveis recordações dos tempos passados, à medida em que eles desfilavam pela sua carta e pela minha memória.

Saúdes a todos: diga-lhes que sempre os mantenho no registro das mais gratas e queridas recordações. Ficaria muito alegre em saber mais destes nossos amigos. O que faz o teu tio Ludvig Rose? Ele ainda edita aquele jornal em língua alemã? Por favor mencione o endereço dele. Teria muito o que pedir e perguntar mas não ouso, sabendo das minhas limitações neste assunto.

Agora tenho realmente muitas atividades e trabalho. No mês passado tive de enfrentar três exames na escola noturna. Agora estou estudando a língua francesa e em compensação dou aulas de espanhol, que por aqui são muito bem pagas.

Meu irmão terminou a Universidade aqui em Rochester e está praticando na área de Química. Pode ser que depois vá para o Brasil. Quanto a minha pessoa, no que depender de mim podes afirmar a todos que ainda verei o Brasil.

Peço perdão pelo longo silêncio.

Seu

Karlis Salits